A notícia se espalhou por Londres nos próximos três dias.
"Assalto a Empresa Malfoy tira a vida de dois seguranças e Draco Malfoy se encontra em estado crítico no hospital St. Mungus" dizia a âncora do jornal do final da tarde. Enquanto eu assistia, apertava meus dedos ao redor da xícara do chá. Eu estava sozinha em meu apartamento, olhando com angústia para a televisão ligada. Desenhos e atividades dos meus alunos espalhadas pela mesa. A notícia continuou sendo direcionada para a sociedade. Eu podia sentir que muita gente não dava à mínima, mas era só em Scorpius que eu estava me preocupando. "O presidente da empresa foi submetido a uma cirurgia de cinco horas para retirar a bala que, por pouco, não o atingiu no coração. A cirurgia teve sucesso, mas algumas consequências atingem a saúde dele."
Quando eu estava no hospital, o médico disse a Scorpius que Draco não podia sair dali por algum tempo. A bala penetrara parte do pulmão e, devido aos cigarros, não havia chances de que se recuperasse normalmente. Lembrei de como Scorpius ficara com essa notícia. Seu pai não estaria em um estado crítico se não tivesse fumado a vida toda. Scorpius também fumava e eu acreditava com certo otimismo que esse susto o fizesse parar imediatamente, mas ocorreu só o contrário. Ele estava arrasado. Não parou de fumar.
Suspirei, tentando me concentrar nas lições que precisavam ser corrigidas, ali na mesa. Mas eu não conseguia desligar a televisão, ou a memória dos dias desde que Scorpius recebera a ligação da secretária de seu pai. De repente, na imagem da reportagem, estava James com seu uniforme. Um jornalista fez a pergunta que não queria calar: quem eram os assaltantes? James e sua equipe investigaram o casodia e noite. Não apenas por parte profissional, mas pessoal. James queria ajudar a descobrir quem quase matou o pai de um de seus melhores amigos.
"Ainda temos poucas pistas, mas sabemos que os assaltantes são espertos. Penetraram a segurança do prédio como se conhecessem todo o local e, também, o horário do Malfoy. Então suspeito que os homicídios contra os seguranças e a tentativa de homicídio contra ele foi planejada. E com astúcia, infelizmente. Não deixaram nenhuma outra pista."
Draco acordara um dia após a cirurgia. A primeira pessoa com quem queria conversar foi com Scorpius. Eu não sabia o que eles falaram, mas entendi uma coisa: Scorpius não ia voltar para Alemanha.
Mas, para o meu desespero, isso não alegrou Scorpius. Se fosse para ficar em Londres novamente, que tivesse outro motivo e não aquele. Scorpius havia saído do hospital e agora fez um dia que eu não conseguia entrar em contato com ele. Seu celular estava desligado. James não o viu, Alice não o viu, Lily não o viu, Albus não o viu, nem mesmo a mãe dele, Astoria, que esteve com ele durante todo o tempo da cirurgia do ex-marido.
Eu tinha o telefone ao meu lado na mesa e olhei para o objeto. Eu tentaria ligar até conseguir uma resposta. Sabia que Scorpius ainda estava em Londres, porque ele deixou sua mochila comigo. Só não sabia onde em Londres. E isso estava me preocupando muito.
Lily voltou uma hora depois. Quando me viu no mesmo lugar que eu estava desde que ela saiu para passar no supermercado, aproximou-se da mesa e sentou ao meu lado.
– Scorpius precisa de um tempo, Rose. Sozinho. O pai dele pode não sobreviver. Pode parecer que ele o odeia, mas ele se preocupa-
– Eu sei, eu o conheço melhor que você – eu disse aparentemente ríspida.
– Sim – ela me encarou. – Mas quer uma verdade? Nessas horas não adianta correr atrás para fazê-lo se sentir melhor, já que ele parece não querer esse tipo de atenção agora.
– Ele sempre faz isso – eu mordi os lábios, cutucando o telefone. – Se algo o machuca, ele se afasta. Como aconteceu quando o avô dele morreu. Vai tentar se consolar em alguma... perna aberta, em vez de vir até aqui e desabafar os problemas. Com a amiga dele. Com a melhor amiga dele.
– Ele não é mais assim, Rose – Lily disse suavemente. – Quero dizer, ele não vai transar com outra pessoa. Ele não é estúpido.
– Mas eu ainda sou insegura – falei, bebendo um pouco do meu chá. – Por ele. Pela vulnerabilidade dele. Pelo que ele pode estar fazendo agora. Eu não o vejo desde ontem. E se tiver bebido e...?
– Já passaram vinte e quatro horas? – ela franziu a testa.
Para o meu desespero, Lily acreditou que fosse aceitável manter meu tio Harry informado disso na delegacia. Ela ligou para ele naquele instante e, mesmo que tivesse ido para a cozinha, eu a ouvi dizendo para o pai:
– Pai, Scorpius não traz nenhuma notícia. Não o vemos desde ontem quando saiu do hospital. Tem como mandar alguém procurá-lo? Rose vai ter um treco se ele não ligar para ela. E isso não é coisa de namorada desesperada. A galera também está preocupada com ele. Principalmente porque, o senhor sabe... alguém tentou matar o pai dele e... – ela diminuiu o tom de voz: – talvez isso seja familiar.
Quando ela desligou, eu já estava segurando as chaves do meu carro.
– Rose, onde tá indo? – apareceu na sala.
– Eu vou procurá-lo – respondi, pegando minha bolsa. – Se ele ainda não tem ideia do quanto precisa de mim, ou de qualquer um de nós, então vou mostrar isso a ele.
– Rose, eu não quero ser a pessoa que vai te dizer isso, mas...
– O quê? – eu vociferei. – Sou uma namorada que quer que o namorado ligue de volta? Não. Ele é o maldito do meu melhor amigo. Eu não vou deixá-lo sozinho ou esperar que o encontrem na rua embriagado e perdido na merda da solidão que ele encontra pra si mesmo.
– Tem alguma ideia de onde ele poderia ter ido pelo menos?
– A mãe dele disse que ele não voltou ao hospital e Eric também não o viu pelo Três Vassouras.
– Rose, eu acho que ele pegou alguma moto e saiu por aí. Deve ter sido uma estrada longa.
– Eu sei o que está pensando. Ele não voltaria para Alemanha sem falar nada. Ele deixou a mochila!
– Só tem o notebook dele na mochila, Rose.
– Não, ele não... Lily, por quê?
– Urgência, trabalho, o pai dele com um tiro no pulmão não é um bom sinal para a estabilidade da empresa. Talvez ele só esteja fazendo o que precisa ser feito, com o pai dele fora de controle. Ele só não está enfiando o pau em uma garota de colegial para esquecer os problemas. Não sou como você, mas eu sei que Scorpius é melhor que isso.
Passei a mão no rosto, frustrada.
– Eu odeio que ele acha que não precisa de alguém! Odeio que ele acha que precisa passar por isso sozinho... Eu nunca fiquei um dia sem falar com ele, Lily. Nunca. Nem mesmo quando ele estava na Alemanha. Eu preciso encontrá-lo.
Ela não tentou me impedir, mas fazer enxergar os fatos. No fim, obviamente, não conseguiu vencer a argumentação e decidiu que também queria ir junto. Rodamos a cidade por uma hora, e até cheguei a ir a Mansão dele, mas nada de Scorpius.
Voltei para casa e tentei parar de pensar no pior. Se o pior tivesse acontecido, afinal de contas, meu tio já teria ligado. Conformei-me com a possibilidade dele estar na Alemanha e tentei manter minha cabeça afastada disso por apenas alguns minutos enquanto lia um livro na sacada de casa. Acabei pegando no sono, de um modo rápido, mas demorei a acordar porque, quando ouvi um barulho, já era meia-noite.
Olhei assustada e fui verificar se Lily estava em casa, tentando não fazer nenhum barulho. Talvez fossem as notícias que estavam ocorrendo ultimamente, sobre os assaltos e roubos, principalmente em apartamentos, então peguei o taco de baseball da Lily quando a vi no quarto dela, assistindo a um filme e mexendo no notebook, deitada na cama. Quando eu olhei alarmada e ela me viu segurando um taco de baseball, Lily quase exclamou alto, mas eu fiz "shhh". E outro barulho na porta a despertou para o problema também.
Fiz o que eu deveria fazer. Nos tranquei, juntas, no quarto dela.
– Uau, muito corajoso – ela disse ironicamente, levantando-se da cama com o seu pijama do Frajola. – Me dá isso aqui.
Lily pegou o taco de baseball e saiu do quarto. Eu observei pelo corredor enquanto ela se aproximava da porta, que alguém estava tentando abrir. Ela fez o que ela achava que devia fazer. Ficou em espreita para bater no cara que tentasse nos roubar.
Quando a porta abriu, ela gritou de susto e eu vi que era Scorpius antes dela, o que foi um erro, porque, como estava escuro, ela achou que realmente poderia ser um assaltante e o bateu com o taco. Ela tinha fechado os olhos – super corajosa – então não o acertou na cabeça para fazê-lo desmaiar, mas sim na nádega dele. O que o fez gritar de dor, de qualquer jeito.
– Porra! – Ele teve que se sentar depressa no sofá enquanto esfregava o lado da bunda. – Lily! Que merda foi essa?!
Eu acendi a luz e fui até ele, enquanto Lily pedia duzentas desculpas.
– Scorpius... o que você tentou fazer nos assustando desse jeito?! – eu exclamei, brava. – Nós pensamos que alguém estaria tentando invadir aqui!
Ele mostrou a chave da minha porta em suas mãos, respondendo a minha pergunta. Não conseguia sentar.
– Esqueceu?
Eu não tinha realmente esquecido. Acho que foram as coisas que ocorreram naqueles dias... me deixou distraída para essa possibilidade. Enquanto saíamos do motel para irmos ao hospital, há três dias, eu dei a ele uma réplica da chave do meu apartamento. Ele ainda tinha culpa por ter levado uma tacada na bunda, mesmo assim.
– Você esqueceu que precisava nos mandar alguma notícia. Ou avisar onde esteve. Dar algum sinal de vida.
Eu sei que poderia estar parecendo uma mãe desesperada, mas não. Ele não podia achar que estava sozinho!
– Eu precisava resolver algumas coisas – ele disse. – Eu explico, se me derem gelo para a minha bunda.
– Desculpe, Scorpius, só estava tentando nos proteger – Lily largou o taco de baseball no outro sofá para ir até a cozinha e atender ao pedido dele.
Eu sentei ao seu lado e olhei para ele, com a expressão vazia.
– Eu estava preocupada.
– Eu sei, mas eu estou bem, Rose – ele disse.
– E eu sei também que você gosta de ter um espaço sozinho quando coisas assim te acontecem, mas dois dias, Scorpius? Você ficou dois dias sem falar nada com ninguém. Onde esteve?
– Procurando um amigo do meu pai.
Lily chegou com o gelo. Scorpius franziu a testa:
– Quer ver minha bunda, Lils?
– Estou curiosa. Rose nunca para de falar dela.
– Sai daqui Lils – eu pedi, enquanto Scorpius achava uma maneira de rir. Lily nos deixou sozinho e voltou para o quarto, tentando não rir também.
Eu esperei ele se aliviar um pouco da dor para então continuar me contando.
– Meu pai me pediu para encontrar Zabini e atualizá-lo da situação da empresa em Frankfurt. Ele acha que não vai sobreviver, Rose, então está se certificando de trazer pessoas que ele confia para a chefia. E tem outra coisa. Não vou mais precisar ficar na Alemanha.
Algo em mim sorriu com tanta felicidade que não me pareceu justo. Em vez de sorrir aparentemente, eu o abracei e disse:
– Não queria que voltasse por essas razões.
– Quando meu avô morreu, meu pai se distanciou de todo mundo – ele cutucou meus dedos. – Da minha mãe, de mim, da minha avó. Ele machucou muitas pessoas por isso. Mas agora... eu entendo o que ele estava tentando fazer. Eu achei que ele estava tentando fugir... e o condenei por anos. Mas ele estava criando contatos quando ficou na França. A empresa não teria uma sede na Alemanha se não fosse por ele. E às vezes você precisa se distanciar das pessoas para tentar fazer um trabalho. Só pensar nisso, entende? Sem distrações ou as pessoas tentando dizer que tudo vai ficar bem. Meu pai diz que isso só enfraquece. Ele não queria se apoiar a ninguém. Ele realmente queria ficar sozinho.
– Você não quer que eu diga que tudo vai ficar bem?
– Você não precisa dizer. Eu sei que vai ficar bem. Desculpe não ter ligado. Eu queria ficar um tempo sozinho, mas isso já foi o suficiente. Não sou meu pai. Eu sabia que quando voltasse para cá... a realidade ia ficar me encarando. Eu não vou voltar para a Alemanha, porque já assinei papeis e eu vou manter o lugar do meu pai aqui em Londres.
Eu olhei para ele, surpresa.
– Ele não morreu, Scorpius.
– Ele precisa se distanciar, Rose – ele murmurou e nunca o vi tão maduro. – A companhia da minha família fez mal a pessoas e agora existem algumas que querem meu pai morto por isso. É uma coisa grave. Ele não pode voltar a trabalhar.
– Não é fácil para um viciado em trabalho, como ele, se distanciar da empresa – eu franzi a testa. – Como conseguiram convencê-lo?
– Agindo pelas costas dele. Ele acha que quando se recuperar vai ter a empresa de volta, mas uma reunião aconteceu e todos decidiram que ele realmente devia se afastar.
– E você vai tomar o lugar dele?
– Apenas realizando o que ele sempre quis para mim – respondeu baixinho, mexendo em meu cabelo. Minutos em silêncio depois, nós dormimos abraçados no sofá.
Eu acordei na manhã seguinte e Scorpius ainda estava dormindo. Delicadamente me afastei de seus braços, deixando-o a vontade no sofá. Ele se moveu um pouco de lado, o que fez sua jaqueta amassar um pouco. Caiu o celular dele em seu bolso. Quando fui colocá-lo de volta, vi na tela que ele tinha cinquenta ligações perdidas. Astoria, no entanto, vencia de mim nas tentativas de manter contato com o filho.
Desse modo, então, resolvi ligar para ela.
– Scorpius está aqui na minha casa – eu contei. – Quer que eu o mande para o hospital com a senhora?
– Não, não precisa, Rose. Ele vai ficar bem melhor com você – ela disse. – O pai dele ainda tem mais alguns exames e cirurgias. E está uma correria com os advogados e... Scorpius precisa descansar. Deixe-o aí, tudo bem?
– Por mim está ótimo. Sra. Mal- Digo... hum... sra.
– Me chame de Astoria, Rose – ela pediu com exasperação.
– Claro. Astoria. – Era estranho chamar minha sogra pelo nome. Mas era mais estranho eu chamá-la de sra. Malfoy, sendo que ela era... divorciada. – A madrasta dele está aí também?
– Ela deu no pé – contou, com uma satisfação visível no tom de voz. – Não aguenta nenhuma ameaça. Ser um Malfoy não é fácil, não é para qualquer um.
Eu podia imaginar que não era mesmo. Será que Astoria se separou dele porque achou que não ia dar conta de toda a responsabilidade que existia quando se carregava tal sobrenome? Eu não poderia saber. E acho que realmente não era por isso. Teve um filho com Draco. E viveu vinte anos com o mesmo homem. Apenas sabia que ela, mesmo separada dele, não tinha saído do hospital desde que Scorpius a chamou e contou o que aconteceu. Se estivéssemos em um daqueles filmes, eu diria que os dois ainda se amavam.
Eu preparei um café da manhã para Scorpius. Ele dizia para eu não dizer que tudo ia ficar bem, mas eu queria ter certeza de que eu poderia fazê-lo se sentir bem. Eu estava fazendo panquecas quando ele entrou na cozinha, sonolento e mancando.
– Ei, como está a bunda?
Ele me beijou levemente no pescoço.
– Doendo pra cacete.
– Eu não sabia que era tão sensível nessa região também.
– Ok – ele estranhou a conversa. – Parece que tivemos uma daquelas noites sexuais em que na manhã seguinte você está preocupada com a minha bunda.
Eu gargalhei. Gostei que, mesmo com as coisas preocupantes acontecendo, ele conseguia ter o humor dele pela manhã.
– Idiota. Mas isso foi sua culpa.
– Quer que eu devolva a chave para não assustar vocês duas?
– Não – eu disse. – Tirando o contexto de ontem, gosto que tenha minha chave.
Ele sorriu e eu me inclinei para beijar sua boca, delicadamente, duas vezes, devagar. Depois se afastou para pegar um prato e me ajudar a colocar a mesa, para então tomarmos café da manhã juntos. Assistimos ao noticiário. Não muitas notícias de Draco dessa vez. Apenas que ele estava se recuperando.
– Liguei para sua mãe, ela estava preocupada – eu disse enquanto comíamos.
– Eu vou para lá daqui a pouco, ver como ela está.
– Ela ainda se preocupa com seu pai.
– Eu sei.
– Você sabe que sua madrasta deu no pé, não sabe?
– Ela só queria dinheiro. Meu pai teve um surto de que ele não queria mais ficar sozinho, por isso arrumou ela.
– Ainda acha que eles se amam? Seus pais?
– Eu não os entendo, sinceramente. E não quero condenar ninguém agora, ou culpar alguém por isso. Eu não sou um maldito de um bebê que vai ser traumatizado a vida toda por eles terem se separado. Cansei disso.
– Sabe o que eu estava pensando? – eu disse suavemente, arrastando meus dois dedos distraidamente pelas costas da mão dele, apoiada a mesa. – Sobrevivemos juntos mais tempo do que um marido e uma mulher sobreviveriam em circunstâncias normais. Desde os meus sete anos, eu sei que você existe e que você faz parte de mim. É um tempo muito longo, Scorpius.
– Eu sei – ele disse.
– Então... se você está aqui, de volta, não vai mais morar na Alemanha...
– A viagem para Frankfurt está de pé. – Ele achou que eu ia entrar nesse assunto, mas Alemanha agora estava distante de meus ideais. Eu queria outra coisa. E eu não ia esconder isso dele.
– Eu quero morar com você aqui, em Londres, na cidade que eu o conheci e que eu o amei. E ainda o amo. Sério. Eu sei que vai soar loucura e isso só vai te deixar com dor de cabeça, assustado, querendo fugir, e sei que seu pai estando internado não vai ajudar em nada... mesmo que tudo acabou entre mim e Brian depois que passamos a morar juntos... eu sinto que com você eu preciso experimentar isso. Na verdade, eu já sei como é isso. Eu só quero oficializar.
Bem, fodeu, pensei. Eu tinha acabado de cometer um dos dez passos para terminar um namoro com um cara que nunca teve um relacionamento sério na vida. O primeiro era convidá-lo para morar com você. E eu estava ali, fazendo isso. Não que eu me arrependesse de ter tido essa decisão, mas me arrependi de ter entrado nesse assuntonaquele momento. Merda. Scorpius ficou calado e me encarou por um tempo, tentando compreender se eu estava falando sério.
Tentei me explicar da melhor forma possível, agora.
– Relacionamentos não duram se ficarem sempre na mesma fase. Eu disse a você que quando começamos a dormir juntos isso ia ser apenas sexo e uma fase... e talvez tivesse sido. Uma fase. Entendeu? Mas morarmos juntos pode ser a outra. – Quando ele ainda pareceu que não ia falar nada, eu fechei a cara e assegurei: – Você ainda vai me ver pelada, Scorpius.
Ele despertou.
– Você quer um tempo pra pensar? – eu perguntei um tanto decepcionada.
– É, acho, acho que é melhor eu ter um tempo pra pensar... antes de decidir isso.
– Tudo bem. Sem pressão. Quando as coisas se ajeitarem... você decide. Eu só dei a sugestão. – Coloquei meus cabelos atrás das orelhas.
Eu levantei da mesa, tentando esconder minha decepção. Não queria que ele hesitasse nisso... mas talvez eu realmente errei ao ser tão precipitada. Eu estava entrando no banheiro, quando Scorpius se aproximou atrás de mim e segurou meu braço para fazê-lo me encarar. Ele sorria fracamente.
– Ei, eu já pensei. Demorei dez anos pra dizer que eu te amo, sempre sentindo isso, e eu não quero demorar mais dez anos pra pensar se devemos ou não morar juntos. Sem enrolações. Vamos fazer isso logo.
Meio que suspirei aliviada e me joguei nele, beijando-o fortemente. Eu adorava como ele me surpreendia, como ele tirava todas as minhas inseguranças, ao mesmo tempo em que juntava todas elas. Por que eu ainda duvidava dele? De que ele também pudesse me amar da forma como eu o fazia? Eu não devia fazer isso, eunão ia continuar duvidando disso.
– Tem certeza de que é uma boa ideia? – hesitei, quando estávamos no hospital perto da sala que Draco estava internado. – Eu não quero causar nenhum ataque em seu pai e-
– Ele não te odeia, Rose. Mas se você não quiser, tudo bem. Eu não vou obrigá-la a ver meu velho naquela cama.
– Não, tudo bem... eu acho que vou entrar sim.
Nós entramos e fiquei esquisita ao ver o pai do meu namorado envolto por máquinas que o auxiliassem na respiração. Tive uma empatia tremenda, mas agradecendo intimamente por nunca ter chegado a esse ponto de ver o mesmo ocorrer com meu tio ou meu pai. Draco estava com os olhos abertos, e era difícil para ele falar. No entanto, quando viu Scorpius puxando a minha mão, tentou dizer. Ou protestar. Mas, por mais que isso me intimasse, eu não sei se sairia dali agora.
– Oi, sr. Malfoy. Sinto pelo que ocorreu.
Ele virou os olhos para Scorpius.
– Zabini? – foi apenas o que perguntou. Scorpius afirmou com a cabeça.
– Pegou o avião hoje.
– Ótimo – murmurou.
– O senhor está melhor?
Fez que sim uma vez.
– Astoria? – a voz tentou ficar mais forte quando perguntou dessa vez.
Scorpius soltou minha mão e passou os dedos na própria barba rala.
– Ela não consegue se livrar de você, nem se não quisesse. – Ele se aproximou mais da cama e apoiou as mãos. – A equipe de James não conseguiu outras informações dos caras. Ele espera que quando melhorar poderá dar alguma pista ou descrever quem fez isso com o senhor.
– O cofre?
– Já era. Pegaram metade da quantia que tinha por lá.
– Ótimo.
Scorpius e eu nos entreolhamos.
– Achei que essa notícia o mataria. Literalmente.
Ele negou com a cabeça.
– Tem rastreador naquelas notas.
Scorpius arregalou os olhos, como se condenasse a si mesmo por não ter pensado nisso antes. Ele se afastou e disse que já voltava, porque ia ligar para James fora da sala. Ok. Eu estava sozinha com o meu sogro, que tinha levado um tiro no peito e não conseguia falar duas ou três frases sem ofegar.
Eu não saí dali, o que isso podia estar irritando o sr. Malfoy, mas fiz o que eu estava lá para fazer. Lembrei-me das coisas que ele disse sobre mim, o modo como desprezou minha profissão em pleno jantar com sua família. Mesmo assim, eu não o desejava morto. Então, não, eu não estava lá para matá-lo.
Tirei da minha bolsa um envelope de cartas. Várias cartas. E pousei sobre a mesinha ao lado da cama. E disse:
– Eu sei que o senhor não gosta de mim ou da profissão que escolhi, acha que não é suficiente para o seu filho... mas aquelas crianças tem televisão em casa e sabem que o senhor é sogro da professora deles. E eles insistiram em fazer cartas para o senhor. Desejando melhoras e essas coisas de crianças. Não espero realmente que leia, mas eu prometi a eles que entregaria ao senhor.
Ele não disse nada, como sempre. Eu não me incomodei. Fiz o que achei que devia fazer e não me senti ruim por isso. No entanto, quando dei as costas e fui sair da sala, a voz dele foi alta o suficiente para que eu escutasse:
– Obrigado.
Agora eu estava me sentindo muito melhor.
Contei a Lily e Alice que Scorpius e eu queríamos morar juntos, enquanto aproveitávamos o tempo livre para comer no Três Vassouras. Elas ficaram eufóricas, mas a euforia de Lily se esvaziou por um tempinho.
– Eu estava gostando de morar com você. O que vou fazer? Achar outra colega de quarto?
– Foi o que Rose fez quando fui morar com James – disse Alice. – É o que as amigas fazem quando quer ver a outra brincando de casinha com o namorado.
– Eu entendo você, Lils, eu odiei Alice por dias quando ela foi embora – confessei. – Pode ainda ficar em casa, mas Scorpius já vai trazer as coisas dele para o apartamento.
– Então nós três vamos ser colegas de quarto? Tudo bem, eu vou tentar sair de lá o mais rápido possível. Scorpius é gostoso e eu adoraria ver a bunda dele uma vez, mas eu seria mais legal se deixasse vocês dois à vontade.
– Eu te amo, sabia?
– Eu te odeio. Se me dão licença, vou comprar um jornal e verificar apartamentos disponíveis. – Pegou a bolsa e foi embora.
Alice não estava preocupada.
– Ela vai superar.
– Eu superei – eu também não estava muito preocupada. Além disso, Lily era tão sociável que ela se estabeleceria em qualquer ambiente, com qualquer pessoa, em qualquer situação.
Os dias seguintes foram surpreendentemente diferentes. Scorpius visitava o pai no hospital todos os dias e voltava para minha casa todos os dias, até desfazer suas malas que vieram da Alemanha e colocar suas roupas no armário. Troquei minha televisão pela dele, o que foi uma das partes mais incríveis desse nosso relacionamento, porque a televisão combinou com a sala. Nós tínhamos uma visão incrível do jogo de rugby que Scorpius era viciado.
O dinheiro que roubaram do cofre da Empresa Malfoy foi rastreado e a gangue que conseguiu a invasão do lugar foi para o julgamento e ganharam um número suficiente de anos na penitenciária. Para um dos assaltantes que atirou nos seguranças que morreram, a lei julgou como um castigo de prisão perpétua. Nós assistimos a isso tanto fora quanto pelas notícias da televisão.
Mesmo com esses homens detidos, não parecia ser reconfortante saber que há pessoas por aí que quiseram matar seu pai. Scorpius tentou não pensar nisso durante seus primeiros dias como o presidente da Empresa. Ele dizia unicamente para mim que tentaria melhorar todos os problemas, pelo menos os que eram de seu alcance. Ele tentaria trazer alguma justiça e demitiria todos os funcionários que tivessem sido cúmplices das corrupções durante os anos. Isso parecia ser um ideal muito bom, mas às vezes até mesmo utópico.
Quando Draco saiu do hospital, ele quis voltar para a empresa, mas a votação entre os funcionários deveria ser unânime, e todos votaram para que Scorpius ocupasse o poder. Scorpius contou que ele havia gritado tanto com os outros que jurou que o pai teria de voltar para o hospital ou morreria por ter infartado de raiva.
– "Eu não sou o maldito de um velho igual a meu pai. Eu posso assumir as responsabilidades mesmo furado no peito", ele falou – contou Scorpius para nós, na mesa dos Três Vassouras. – Acho que ninguém queria ver meu pai morrendo ali na frente deles de tanto gritar, então tivemos que fazer uma outra votação.
– E o que deu dessa vez? – perguntou Albus.
– Meu pai, obviamente.
– Então você vai voltar para Alemanha? – Lily soou cruelmente esperançosa. Ela ainda estava sentida que eu tivesse trocado minha colega de quarto por um namorado. Claro que Lily não estaria fazendo esse rabo doce se não tivesse tido a surpresa que teve naquela manhã.
Conseguira encontrar um apartamento legal e com uma descrição que combinava com seu estilo. Colega de quarto com paixão pela fotografia, dois quartos, dois banheiros, não precisavam se esbarrar toda hora, e, além disso, uma bateria. Lily adorava alguém que tocava bateria, e decidiu que iria conhecer aquele apartamento.
Teve a surpresa de ver que o apartamento era do meu irmão.
Irônico, não?
– Não, não vou voltar para Alemanha – disse Scorpius tranquilamente. – Não terminei de contar. Então, meu pai ganhou a segunda votação. Mas então ele percebeu que ninguém tinha votado em mim e começou a brigar de novo com os caras, acusando-os de que eles me achavam incompetente, sendo que eu não era. Tivemos que fazer uma terceira votação.
– Você ainda é o presidente da Empresa – adivinhamos.
Ele abriu os braços e apontou para si mesmo. – Exatamente. Meu pai vai ser meu tutor. Ele não vai trabalhar diretamente, mas vai me inspecionar para que eu não faça nenhuma cagada. Eu não tenho nenhuma experiência nessa merda. Ele tem. Foi uma decisão correta, no final das contas.
– Boa sorte, cara – desejou Albus. – Deve ser um trabalho foda.
– Ei, nada supera o trabalho de ser pai – James interviu. – Como você e Kate estão, Al?
– A barriga dela crescendo a cada segundo. É meio assustador. Mas é mais assustador pensar que agora eu não consigo ver isso não acontecendo. Comecei a me acostumar com a ideia. Acho que vai ser legal.
Ninguém quis desiludi-lo.
– Lily, posso falar com você? – Hugo apareceu de repente, com os cabelos despenteados. – Ah, oi, gente. Então, Lily?
– Eu não vou, foi um engano ter encontrado o seu apartamento, Hugo – ela esclareceu. – Não estou mais interessada nele.
– Onde você está passando as noites então? – ele parecia genuinamente preocupado.
– Com meu namorado – ela disse, bebendo. E não olhou para ele.
– O Bradley Wood?
– Conhece ele?
– Quem não conhece? Mesmo se o cara não fosse o melhor jogador da nossa idade, qualquer um que tem você no Facebook saberia quem ele é. Desde quando coloca que está namorando no status?
– Desde que ele é meu namorado! E desde quando você fica colocando fotos de beijinhos entre você e Alexis? Tipo, hashtag amor, hashtag gostosa, hashtag partiuhashtagmotel.
– Ela tem razão – advertiu James. – Aquilo foi bem brega, cara.
Hugo parecia aflito, não irritado com a provocação. Não achava certo ignorar que Lily não tinha um apartamento para dividir com alguém.
– Se mudar de ideia, me liga, tá legal? Podemos dividir a grana do aluguel. E você precisa de um fotógrafo pro trabalho da faculdade? Eu posso ajudar.
– Quem te falou isso? – Lily exclamou brava, mesmo sabendo que eu era meio fofoqueira.
– Só aproximando contatos, Lils – eu disse. – Hugo é muito bom em tirar fotos. Ele tem um curso de artes completo na Grécia. Não devia ignorar a ajuda.
– Tudo bem, eu passo lá hoje à tarde para decidirmos isso.
– Tá.
Hugo saiu depois, deixando o pessoal observando o clima ali. Foi impossível ninguém ter percebido alguma coisa.
– Vocês estão bem? – perguntou Alice. – Pareciam gelados um com o outro.
– Estou nervosa. Achei que conseguiria me mudar mais facilmente. Vou pegar mais bebida.
James encarou Alice, quando Lily se levantou, percebendo uma coisa: não era só isso.
Eu decidi mudar o assunto.
– Então, meu aniversário está chegando. Acho que a gente pode fazer uma festa no, hum, agora nosso apartamento. O que acham?
– Acho que você demorou pra fazer o convite. Eu levo as bebidas – disse James.
Nós fizemos os planos e dividimos os trabalhos para cada um. Quando chegou o fim de semana, Scorpius esvaziou a última caixa e de manhã me acordou – não com um beijo ou sexo matinal – mas pregando alguma coisa na parede do outro lado do corredor.
Ok. Não tínhamos falado nada sobre um furar a parede do outro quando morarmos juntos, e eu estava pronta para discutirmos, mas acho que ter um namorado como ele era uma estratégia terrível. Especialmente porque ele não estava usando a camisa enquanto fazia esse trabalho. Eu me encostei à porta, cruzando os braços.
– Você sabe que isso vai gerar uma discussão entre a gente, não sabe?
– Por isso eu tirei a camisa – ele disse, sorrindo de lado.
Era o pôster que ele tinha dos Falcons, com os autógrafos dos jogadores do time inteiro, e estava emoldurado. Era um pôster grande e não combinava com a sala, mas quando me aproximei mais para ver como tinha ficado, não deixei de ficar impressionada. Era uma grandiosidade que chamava atenção. Pelo menos, Scorpius e eu torcíamos para o mesmo time.
– É, eu estou definitivamente morando com um cara agora.
– Ainda não é tarde pra mudar de ideia – ele desceu da escada e ficou a minha frente, segurando meu rosto com suas mãos longas. – Eu vou deixar você maluca, e vou fazer merda e vamos brigar.
– Você me deixa maluca sempre. É tarde demais para me desfazer de você, Scorpius. E esse pôster é a coisa mais concreta que vai me fazer acreditar que, toda vez que eu acordar, você vai estar aqui agora.
Ele me beijou.
– Mas você tem que me avisar quando for ficar pregando a parede – eu disse severamente, porque eu não queria que seus beijos me manipulassem.
– Tudo bem.
– Ou mudar o sofá de lugar.
– O que quiser. – Mordeu minha boca.
– Ou deixar a tampa da privada levantada. Eu odeio isso. E se colocar uma toalha molhada em cima da cama, estamos terminados.
– Vou tentar cumprir minhas obrigações, se você fizer as suas também.
– O que te irrita?
– Quando você estiver tomando banho – ele pressionou os dedos na minha cintura, depois desceu a mão direita para dentro da minha calcinha, apertando minha bunda de um jeito totalmente safado – não cante.
Eu dei risada. Ele me prendeu contra a parede e eu fiz um "aaai", ritmando com a música do Kiss.
– Rose – ele reclamou, mas eu continuei cantando e o provocando. Afastei-me da sua mão e subi no sofá, cantando. Ele ficou rindo, até me agarrar e me tirar dali. Eu enrolei minhas pernas ao redor do seu corpo, enquanto ele me carregava pela sala. Passei os braços pelo seu pescoço e paramos de rir de repente, porque estarmos excitados na sala me lembrou nossa primeira vez e eu passei um dedo pela barba rala dele.
– Apesar de todo esse tempo e de todas as coisas que eu odeio em você, eu só consigo te amar mais, sabia? – sussurrei, encostando os lábios quentes no maxilar dele.
E ele me jogou no sofá para repetirmos o que nos fez começar tudo aquilo, naquela mesma sala e naquele mesmo sofá.
NA: Mais um capítulo depois da infinita espera! Peço desculpas outra vez pela demora. Eu ficava pegando o capítulo para escrever, mas não saía nada que me agradasse. Finalmente consegui um tempo só para isso e, também, um pouco de inspiração. Sinto que perdi alguns leitores, também não culpo, porque é muito chato esperar mais de um mês para as atualizações... mesmo assim, muito obrigada a todos que estão aqui! Ah, queria só acrescentar que talvez a fanfic esteja chegando em seu caminho final. Fiquem a espreita!