Scorpius POV
Sabe aquele momento em que queremos fazer tudo certo, mas a vida gosta de jogar na sua cara que você fez merda suficientemente para as coisas ficarem complicadas? Não sou tão humilde ao ponto de admitir que eu mereço isso.
Eu não mereço.
Eu estou me esforçando muito para nunca merecer isso.
A tela do notebook estava se multiplicando na minha visão – um resultado de nove horas de trabalho só com o tempo livre de poder ir ao banheiro. Meu pai estava mais exigente do que nunca, o que era até admirável de se ver. Como eu observava tudo de uma perspectiva que ele não tinha privilégio, eu sabia que ele botava mais medo do que ódio nas pessoas. As pessoas da empresa tinham medo de ter ódio dele.
Eu me perguntava o que eles deviam pensar de mim. Provavelmente não sou merecedor do meu posto, mas ultimamente tenho provado o contrário. Trabalhando para cacete.
Tudo bem que Angry Birds estava sempre ligado numa janela escondida, mas quem nunca, certo?
– Malfoy.
Ao ouvir o meu nome, desliguei o jogo e voltei a olhar para a planilha do Excel. Eu até voltei a ficar com dor de cabeça, e isso antes de ver que a secretária do meu pai estava parada ali na porta da minha sala.
– Bom dia, Perséfone – eu sorri para ela. Era uma mulher legal, tinha dois filhos para criar e estava sempre naquele mau humor que me deixava com vontade de levá-la a um parque de diversões. Ela tinha sessenta anos e os filhos ainda moravam com ela.
– O sr. Malfoy está chamando você na sala dele.
Fechei o notebook.
– Ele está usando gravata verde ou azul?
– Verde. Isso significa...
– Que ele não vai tentar tirar meu carro esse fim de semana – falei, aliviado.
– Sabe, surpreende-me o modo como seu pai te educa – ela comentou enquanto eu passava pela porta, vestindo o paletó. Caminhei ao seu lado.
– A senhora não sabe o quanto. Uma vez ele me viu fumando um baseado e só pediu para que eu não faltasse na reunião do dia seguinte. Atencioso desde os meus dezessete anos.
Ela estava fazendo aquela expressão de "ai, como você ainda é jovem e inexperiente e não sabe um terço de como os pais sofrem por causa de seus filhos", que me fez sorrir por compaixão. Eu estava acostumado àquele olhar. Minha avó tinha o mesmo, só que mais frio e que me deixava arrependido por, muitas vezes, ter sido um neto idiota e imaturo e irresponsável.
Mas o passado a gente ignora só para seguir em frente.
– Pai, o que pode ser tão importante que precisou tirar a Perséfone do sossego dela para me chamar? – eu perguntei assim que entrei em seu escritório.
Como nossa corporação era no último andar do prédio, podíamos nos admirar pela altura que enxergávamos os carros e as movimentações da rua. Era uma área de Londres que me parecia mais Nova York. No entanto, somente no escritório de Draco – antes era de meu avô, bisavó, tataravó e futuramente poderá ser o meu (dou socos em madeiras para não ser tão cedo) – as janelas eram de vidro. E quando eu entrei, eu o vi olhando para a janela, de costas para mim, com as mãos nos bolsos. Pensativo, como sempre.
Ele ainda mancava pela cirurgia, mas já estava melhorando a cada dia.
Eu só não imaginava que ele estivesse tão cem por cento que fosse capaz de me convidar para um treino.
– Vamos conversar na quadra.
– Quadra, que quadra?
Não respondeu, apenas saiu da sala, deu ordens para todos que apareciam em nosso caminho até chegarmos ao elevador. Em um dos andares embaixo, tinha um ginásio em que os funcionários usavam para descontraírem das dificuldades do trabalho com um jogo ou treinamento de basquete ou futebol de salão.
Nós colocamos roupas de esporte no vestiário e meu pai tirou uma bola de basquete do cesto.
Ok. Ok. Quando ele vai dizer que está fazendo uma piada?
– Pai, o senhor está bem?
Ele começou a quicar a bola, fazendo com que o barulho ecoasse pelo ginásio vazio.
– Eu nunca fui assistir a um jogo de basquete na sua escola, não é?
– Eu nunca entrei no time – contei a novidade. Ele jogou a bola na minha direção e quando eu a peguei, disse: – Eu era mais para o futebol de campo.
– Você já apareceu com um troféu, não?
– De novo, nunca. Mas eu aparecia com as garotas.
Fiz a cesta, o que foi surpreendente. Meu pai viu isso como um desafio e voltou a quicar a bola pela quadra. Ele errou a cesta. Eu ri dele.
– Quero ver rir quando tiver a minha idade. Não – se corrigiu, apontando o dedo –, quero ver rir quando tiver levado um tiro.
Isso me fez rir ainda mais, e ele acompanhou, tentando me driblar. Mas eu tirei a bola dele tão fácil que foi até sem-graça. Fiz a cesta, de novo.
Meu velho já estava ofegando.
– Devia ter entrado no time de basquete, você é bom.
– Sorte – fui modesto de repente, surpreendido por receber um elogio do meu pai, que nunca elogiava nada.
Desejei muito perguntar o motivo de estarmos jogando um mano a mano, mas muitas vezes aprendi que você só curte o momento se não ficar tentando entendê-lo toda hora. Quando meu pai finalmente acertou a cesta, o que foi na décima tentativa, ele pareceu ter tido uma inspiração para me confessar:
– Estou pensando em convidar sua mãe para jantar na Mansão semana que vem.
Eu caí. Acho que ele fez de propósito. Levei um tombo porque no momento que eu ia pular para fazer a cesta, ele me falou isso.
– Astoria? – eu me levantei, querendo ter certeza.
– Você não tem outra mãe, Scorpius. O que acha?
– Acho que você foi escroto com ela a vida toda.
– Eu sei, pensa que só você quer concertar as merdas que faz? – pediu a bola e ele fez outra cesta de novo. Estava melhorando. – Sabe, filho, não acredito em epifania. Não acredito que mudamos de uma hora para outra por algum motivo. Mas é verdade o que dizem sobre pensarmos mais na vida depois de quase perdê-la. Estou me dando uma segunda chance.
– Por isso estamos bancando o pai e filho de colegial aqui? Achava que estivesse nos prevenindo de uma hemorróida, pelo tanto tempo que a gente tem que ficar sentado na frente daquela planilha do Excel. – Quando ele fez a expressão de quem não tinha paciência para minhas hostilidades sarcástica, eu acrescentei, seriamente: – Está na dúvida se minha mãe vai deixar a vida que ela construiu depois que você a expulsou de casa, só para voltar para você? Sério, pai, achei que fosse mais realista. Minha mãe não é idiota.
– Não vai ser um jantar romântico, Scorpius. Eu não pretendo mostrar a sua mãe que sou um homem melhor, porque não sou. Eu só quero que tenha um jantar com sua família.
– Vovó também vai?
– Foi ela quem me fez perceber que você precisa disso.
– Vou levar Rose – não foi um pedido de permissão. Apenas deixei claro. E expliquei ao ver a expressão do meu pai: – Ela ajuda a facilitar as coisas com meus problemas familiares.
Ele não ficou contra isso, talvez porque sabia que minha mãe sempre teve muita consideração por Rose também. Ou talvez porque ele desconfiava que Rose fosse não querer.
Nós morávamos juntos há algum tempo e eu achava que eu me acostumaria com isso, mas era bom que eu não estivesse me acostumando. Outro dia Rose ficou preocupada que ela não me surpreendesse. Ficou preocupada que ela não fosse boa o suficiente para mim na cama. Uma preocupação besta. Ela considera que eu apenas penso em nós dois quando estamos transando, acho, por eu ter dado vários motivos para ela considerar isso – confesso. Eu adorava que ela se esforçasse para me manter satisfeito por nós dois, mas não era só isso.
Eu a conheço tempo suficiente para ter certeza de que não era só sexo entre nós dois. Ela não lia meus pensamentos, por isso não tinha ideia. Eu era um completo idiota por ela. Uma vez eu perguntei como era estar apaixonado e ela fez aquela explicação de dois minutos num só fôlego, porque ela já foi apaixonada por esse Brian e sabia o que estava dizendo. Mas eu já sabia a resposta por mim mesmo. Para mim, se você acha a sua garota linda mesmo quando ela está com os cabelos despenteados, sentada no sofá enquanto assiste ao programa preferido dela, falando no telefone com a melhor amiga e lambendo uma colher de brigadeiro ao mesmo tempo em que se esforça para arrumar um emprego novo... cara, cuidado, você tá apaixonado.
– Eu não estou achando a merda da página nesse jornal, Alice! – ela exclamava, toda sutil. Eu parei na porta da sala e ela não reparou que eu cheguei, então só fiquei observando-a. – Tá, tá bom, eu vou tentar de novo. – Ela cruzou as pernas, tirando a franja dos olhos com um sopro. Eu sorri. Eu adorava aquelas pernas. Se achou que ela ia parar de conversar só porque o amor da vida dela apareceu, enganou-se.
Ela só fez um aceno tipo "e aí" e voltou a girar as páginas do jornal de um modo violento. Eu fui para a cozinha abrir a geladeira e pegar uma garrafa de suco. Voltei para a sala, sentei no pufe em frente a ela e ela continuou falando com Alice sobre alguma coisa.
– Não, sim. Ok. Entendi. É, talvez. – Eu segurei o pé dela e fiquei roçando o dedo no calcanhar, porque ela tinha cócegas. Tentou se livrar, mas eu a prendi. Ela começou a rir enquanto provavelmente Alice estava falando alguma coisa séria. – Ai, é o idiota do Scorpius enchendo o saco. – Ela sorriu para mim, tentando me chutar, mas eu segurei a perna dela e dei uma mordida na sua coxa cheia de sardinhas. – Tudo bem, eu te aviso se conseguir alguma coisa. Beijos, até amanhã. Scorpius, você é pior do que um bebê, sabia? – ela desligou o telefone e segurou meu rosto. – Não vive sem a minha atenção.
– Ou eu apenas gosto de encher o seu saco.
– Isso também.
Eu dei um demorado beijo em seus lábios.
– Tudo bem? – ela perguntou, rindo.
– Tive um dia estranho.
– Estranho como?
– Estranho do tipo que joguei basquete com meu pai hoje. Ele veio me falando da vontade de chamar minha mãe para jantar na Mansão.
– Isso é sério? O que aconteceu com ele?
– Foi essa bala que quase acertou o pulmão dele. Agora está falando sobre concertar as merdas que fez – eu disse, olhando-a sair da sala para levar o prato de brigadeiro na cozinha. Ela lavou a colher e eu tirei minha camisa.
Ela franziu a testa para isso.
– Ei, espere aí, trigre. Você sabe o que eu penso sobre rapidinhas na cozinha – exclamou.
– É para você lembrar que sou gostoso antes de negar o que vou te pedir.
Ela voltou a guardar as coisas na geladeira, dando uma risada alta.
– Ok, então. O que você quer?
– Quero que me acompanhe no jantar. – Ela quase bateu a cabeça no congelador quando foi se erguer e fechar a geladeira. – Sei que não tenho o direito de pedir mais nada a você, já que fez tanto por mim, mas... seria legal ter você por lá. E não se preocupe, se meu pai resolver humilhá-la na minha frente, eu prometo que vou-
– Scorpius, coloque a camisa – pediu, massageando a nuca. – Eu não vou negar o seu pedido. Por que acha que precisa me manipular com sua gostosura? Eu não o amor por isso.
– Ama sim.
– Isso ajuda bastante. Mas, olha... eu acho que seu pai apenas quer você e sua mãe por lá. Obviamente isso é um jantar em família. Um jantar de reconciliação. Seria uma boa ideia eu por lá?
– Eu avisei que você iria e ele não foi contra.
– Quero dizer, eu sou sua namorada.
– Ah – entendi o que ela estava tentando explicar. – Tecnicamente namoradas não sãofamília.
– Isso. Seria tecnicamente estranho.
Eu abracei a cintura dela e disse, observando aqueles olhos verdes:
– Entendo. Mas adivinhe? Não estou tecnicamente apaixonado por você. Eu estoufodidamente apaixonado.
– Scorpius.
– Não quer ouvir isso? Foda-se, eu quero falar.
– Que garota não quer ouvir? – ela sorriu, docemente. – Eu só estou feliz que dessa vez não precisamos fingir que estamos namorando.
– Não acho que um dia tivemos que fingir.
Ela me abraçou com os braços ao redor do meu pescoço e nos beijamos.
– Sabe, para alguém que nunca teve um relacionamento... você está se saindo muito bem.
– Você ajuda muito.
– Diga isso quando brigarmos – ela deu um empurrãozinho em mim, mas eu a segurei e todos os princípios sobre loucuras na cozinha caíram do sétimo andar do nosso apartamento.
NA: Olá, gente. *escuta o eco porque todo mundo provavelmente desapareceu por eu não ser mais a autora atenciosa que eu era há dois anos, desculpem*
Podem me xingar, me socar, contando que comentem e mostrem que AINDA QUEREM MAIS CAPÍTULOS! Ando a pior autora ultimamente, não é mesmo? Desculpem pelo sumiço! Mas eu recebi um tipo de ideia de uma de minhas leitoras sobre escrever um capítulo com a visão do Scorpius e isso me inspirou. Não tanto como antigamente, mas ainda melhor que nada. Não escrevi um capítulo gigante porque quero ver se vocês ainda esperam por mais, para então termos o próximo com a visão do Scorpius e da Rose também. Bem, palpitem!
