Capítulo especial Eu realmente não me esqueci de vocês!
Obrigada por não se esquecerem de mim e da fanfic, leitores! Fiquei tão animada que resolvi explorar outros pontos de vistas. Acho que as coisas na fanfic estavam levando para um lado que a Rose não seria capaz de transmitir a vocês (a não ser que ela xeretasse a vida de todo mundo). Então essa foi a solução que eu tive, e espero que curtem e achem interessante:
The Truth About Love
The truth about love it is all a lie.
- pink
Lily POV
Há dias que não tenho a vontade nenhuma de acordar. Não totalmente pela preguiça, mas porque acordar no fim de semana trazia sempre uma surpresa e, para mim, algumas delas não têm sido muito agradáveis.
– Lils – chamou uma voz que, aos poucos, foi me despertando. Eu resmunguei alguma coisa, um pouco zangada. Odiava que me acordassem e eu seria muito capaz de socar a criatura que estivesse tentando fazer isso agora. – Lils – insistiu.
Fiz uma anotação mental de que, se essa pessoa tentasse encostar o dedo em mim para me mexer, eu ia socar o nariz. Tipo, com muita força.
No mesmo minuto que o cara me tocou, ele disse também:
– Lils, eu já vou embora.
Então eu não o soquei.
Bradley Wood foi um dos namorados mais legal que eu tive. Ninguém realmente o detestava, nem mesmo Rose. Rose até disse uma vez que ela ficou orgulhosa que eu tivesse escolhido um cara inteligente, maduro e que não me levaria para o mal caminho – embora eu fosse a responsável em sempre levar alguém para o mal caminho, e não o contrário. Mas família nunca parece ver isso.
Ele estava com suas malas prontas e as roupas de viagem no corpo. Quando abri inteiramente meus olhos, percebi que ele também estava sentado ao meu lado na cama. Agradeci por ele não achar que não deveríamos nos despedir, embora eu quisesse que ele fizesse essa cagada. Seria mais fácil detestá-lo. E seu o detestasse, eu não sentiria a falta dele.
Bradley iria voltar para seu país natal naquela manhã e, mesmo que tivéssemos transado, sabe, a noite inteira, não parecia que foi a despedida. Parecia que aquela, com ele acordado e vestido e sentado na margem da cama, era a despedida.
– Você vai ficar bem?
Eu fiz que sim.
– É claro que vai – ele deu um daqueles sorrisos lindos. – Você é a Lily Potter, afinal. Durona e forte.
Idiota e fria.
– Tchau.
Eu pigarreei e quando Brad estava para abrir a porta do meu mini-apartamento que nem cabia um gato para alimentar, eu disse, levantado da cama:
– Foi legal.
– Eu gostei também. Nós ainda podemos conversar pelo face-
Eu tapei a boca dele com a mão. Eu queria ter feito como num daqueles filmes que Rose adorava, sabe, fazer o rapaz não dizer nada apenas pousando um dedo nos lábios dele, mas acho que eu estava tão com raiva de mim mesma por não saber implorar para ele ficar que acabei sendo um pouco bruta demais.
– Não, você não vai fazer isso. Não faça promessas.
– Você não vai fazer isso, Lily – ele falou um pouco ressentido. – Você sempre segue em frente, não importa o quanto gostou de mim.
Ele se aproximou e me beijou uma última vez na boca. Eu segurei o rosto dele, enquanto ele sugava meus lábios de um jeito nenhum pouco exagerado. Ele nunca era exagerado e eu gostava disso nele.
– Isso não é amor, certo? – ele indagou e, então, foi embora.
Sabe, pra sempre.
Fiquei sozinha de manhã, olhando a rua pela janela e pensando numas merdas que fiz. Só não chorei, seria ridículo. Eu não tinha nenhum direito de chorar porque eu sempre atraio isso para mim. Por que todos os caras que eu gostei de verdade tiveram que ir embora alguma vez na minha vida?
Talvez todos vão embora.
Mas não é como Rose e Scorpius. Os dois tontos se amam de um jeito tão sobrenatural que eles conseguiram namorar até mesmo quando Scorpius estava na Alemanha.
Talvez amor fosse uma questão de "querer". Se você quer que a coisa dê certo, você se esforça.
Mas para mim, pelo visto, o amor era fantasma. Se existia, eu não estava enxergando em nenhum lugar.
– Oi, Lily! Eu estou começando um projeto e eu queria saber-
– Não enche, Hugo – eu disse no Três Vassouras quando ele veio colocando sua câmera preferida bem na minha fuça. Desde criança, ele adorava me filmar. Eu não sabia o motivo. Talvez eu fosse linda e fotogênica. – Não estou com humor.
Ele afastou a câmera.
– E quando você está de humor, não é, ruiva?
Eu odiava quando ele me chamava de ruiva, porque ele fazia de um jeito que me lembrava quando nós queríamos ser namorados, tipo, há dez anos.
– Aconteceu alguma coisa?
– Só não acordei bem. Rose já chegou?
– Sei lá. Desde que ela e Scorpius ficaram namorados, eles só querem saber deles mesmo. Albus ta chateado que perdeu o filho, então ele fica tentando concertar as coisas com Katie, o que eu acho chato, já que Kate não quer mais saber dele, todo mundo sabe. Alice e James tão brigando muito ultimamente, não tem reparado? Por causa dessa coisa do James não poder ter filhos, Alice quer adotar, mas ele não. O que eu acho bem precipitado, não acha também? Eles casaram, sei lá, há um ano. Muito cedo pra pensar em ter filho.
Eu coloquei a mão na testa, mas ele não terminou de dizer e se sentou ao meu lado no balcão.
– Parece que só sobrou nós dois aqui, ruiva.
– Eu acho que vou voltar pra casa.
Hugo mordeu os lábios e puxou meu braço, impedindo que eu saísse.
– E se eu comprar uma bebida pra você? – sorriu. – Você terminou com Bradley, eu terminei com Alex, nossos amigos não são mais como antes. É um ótimo motivo para bebermos.
– Hugo, pare de fingir que não me odeia.
– Nunca consigo odiá-la. Já tentei, mas é impossível. Escute, Lily, você quem está complicando as coisas. Eu sempre apareço querendo conversar com você como antes, mas você-
– Não somos como antes, Hugo!
– Somos melhores. Eu estou melhor e você está melhor. Não há nada errado em querer passar por um período difícil ao lado de seu melhor amigo.
Por alguma razão, gostei que ele não tivesse adicionado um "ex" na sentença.
– Eu não estou melhor, Hugo – achei que eu ia chorar e fechei os olhos, virando as costas. – Você passou anos fora e longe de mim, não sabe o quanto só piorei.
Eu estava saindo do caminho dele, quando ele finalmente me parou:
– Eu posso te falar outro motivo para bebermos? Bem... olha isso.
Ele me mostrou um convite, uma carta ou algo assim, na qual estava escrito um texto formal. Em suma, pelo que entendi também, Hugo – que vem tentando ganhar troféus e prêmios em pequenos festivais amadores – ganhou o segundo lugar em um deles dessa vez.
– Hugo – eu engasguei, animada de repente. – Você sempre quis isso!
– Então, eu achei que talvez seria legal-
– Vamos contar pra todo mundo. Já parou para pensar em como o vovô vai ficar ao saber disso? Parabéns, Hugo, eu sei o quanto isso é importante pra você.
– Eu achei que seria legal você ser a primeira a saber disso – terminou de dizer. – Quero dizer, você me ajudou muito, meio que me apoiando. E não é só isso. Com a recompensa em dinheiro... vai dar pra fazer aquele canal de programa que você precisa para o trabalho de conclusão do seu curso.
Mordi meus lábios, rendida a querer chorar de vez agora. Eu estava na TPM, só podia ser essa desculpa. Mas então eu lembrei que só não menstruo há dois dias, então eu realmente andava muito sensível. O que Hugo estava querendo com isso? Ajudando-me como dinheiro que ele ganhara por um mérito seu.
– Eu não posso aceitar.
– Não seja humilde agora, Lilian Potter – ele me repreendeu, sorrindo e mostrando os dentes. Ele tinha os dentes da frente meio tortinhos, o que sempre achei uma imperfeição charmosa e bonitinha nele. – Você não vai sorrir, não? Ou vou ter que aturar você chorando? Virou minha irmã agora?
– Deve ser a convivência. Hugo, valeu mesmo. Por que está fazendo isso?
– Sabe, é coisa de família. Querer fazer alguém sorrir. Eu quero te ajudar com isso, você me ajudou muito.
– Como assim?
– Semana que vem o festival apresentará os três melhores filmes. Se quiser entender porque estou te devendo, aparece por lá.
– Sem pensar duas vezes.
Dei um passo a sua frente e o abracei. Hugo ficou meio sem reação no começo, mas me apertou logo que percebeu que eu não esbarrei nele sem querer ou coisa assim. Eu queria abraçá-lo. Eu queria abraçar alguém, eu queria ser consolada. Merda. Eu queria voltar a ser a melhor amiga de alguém.
O cheiro dele era bom. Cheiro de homem. Não o perfume caro masculino que eu sentia em Bradley, nada artificial. Era um cheiro nostálgico. E vou confessar. Hugo sabia dar o melhor abraço de todos. Quero dizer, ele envolvia mesmo os braços, sem medo, dava um conforto danado. Eu gostava de abraços assim. Há tempos que não recebia um com tanta verdade.
SCORPIUS POV
– Ei, por que está demorando tanto?
Sei, sei, você deve estar pensando que Rose estava agindo feito a típica moça por atrasar no momento que íamos jantar com meus pais, mas na verdade... não fui eu que fiz essa pergunta a ela.
Foi bem ao contrário.
Pelo espelho, vi sua expressão confusa. Ela estava usando um belo vestido e fez a maquiagem do jeito que eu gostava, nenhum pouco exagerada, mas ainda mais linda. E ela era o tipo de mulher que nunca ficou enrolando muito para se arrumar. Não que ela não se preocupasse com a aparência, ela apenas não priorizava isso. Enxuguei o rosto e tentei melhorar o meu cabelo loiro e despenteado com exasperação. Como seu eu fosse a mulher.
Patético.
– Você tá legal? Sem querer ser chata, estamos atrasados. Seu pai pode ficar irritad terceira vez que ele está ligando no seu celular. – Ela apontou para o aparelho sobre a tampa da privada. Estava vibrando enquanto eu ignorava.
– Não sei se é uma boa ideia – eu estava mudando minha opinião sobre jantar com meu pai e minha mãe. Eu estava com o pressentimento ruim de que alguma coisa ia dar errada, que talvez convidar Rose para passar por um momento tão estranho com minha família tivesse sido a coisa mais cruel que eu já pedi a ela.
Quando ela ajudava a fazer o nó da minha gravata, eu observei como seu nariz era adoravelmente fino e um pouquinho empinado. Ela tinha um perfil quase ingênuo na aparência, quase como se ela não tivesse mudado tanto desde os sete anos, tempo que nos conhecemos pela primeira vez. Ela também não mudara sua expressão concentrada quando se ocupava em ajudar alguém.
– Tem certeza que quer ir? – eu perguntei, pela última vez.
– Você não vai encarar isso sozinho.
– Eu já sou grande, sabe.
– Não quando as coisas se tratam dos seus pais, eu já notei. Você fica muito sensível.
– Eu sei – olhei para baixo. – Um garotinho que quer que os pais voltem a ser felizes. O quão idiota eu sou, não?
– O meu idiota. Você apenas se preocupa com eles. Mas se quiser fazer isso sozinho, eu realmente apoio.
– Foi uma crueldade te convidar para se meter nisso. Não por eu não achar que você não é minha família também, mas porque você não precisa ter alguma coisa a ver com o que aconteceu entre meus pais. Deixe-me não colocá-la nisso.
Ela sorriu fraquinho. Por mais que ela tentasse ser sempre prestativa, ela também se sentiu aliviada que eu não a convidasse mais para aquele jantar. Era um assunto com meus pais. Ela não precisava sofrer nenhuma tensão ou tentar me acompanhar como se eu fosse incapaz de resolver as coisas sem ela.
Na verdade, às vezes eu era bem incapaz de resolver as coisas sem ela. Olhe para mim, antes de me apaixonar, eu a fazia me dar carona quando passava a noite em um apartamento e estava com ressaca demais para voltar sozinho. Eu queria ter um jeito de não colocá-la mais nas minhas besteiras. Muito menos nas dos meus pais.
Mas saber que, independente do que acontecer no jantar, eu teria aquele apartamento para descansar e passar o tempo com Rose, o tempo que eu quisesse, era o suficiente para eu fazer o que precisava sozinho. Sabe, agir como gente grande de uma vez.
– O cabelo está bom? – perguntei preocupado. Eu não queria que minha mãe me visse desleixado. Eu queria estar com a aparência de quem levava o jantar a sério, embora eu ainda não acreditasse que, depois de tantas brigas, isso fosse acontecer.
– Está perfeito, Scorpius – Rose exclamou, rindo. – Não se preocupe, vai dar tudo certo.
– Eu sei, eu sei. Mas, sabe, por precaução... encomende umas pizzas pra gente. Sério. Sem duplos sentidos.
Ela riu ainda mais e me beijou no canto dos lábios, antes de eu sair do banheiro e pegar a chave da minha moto.
– Pode deixar – ela disse. – Mande um abraço para sua mãe. E explique porque eu não compareci, não quero que ela pense que eu estou me esquivando.
– Ela não vai pensar. Até daqui a pouco.
– Scorpius – ela chamou quando eu já estava saindo para o corredor. Quando voltei, só vi o meu celular na mão dela. – Só não esquece a cabeça porque eu sempre verifico se a cola não perdeu a validade – ela brincou quando peguei o celular de volta. Eu lhe dei um beijo na boca, rindo. – Tchau.
O transito estava insuportável. Demorei meia hora para chegar ao restaurante. É, meu pai resolveu que a Mansão não tinha uma aura muito boa para jantares de reconciliação portanto decidiu que um restaurante mega caro fosse o suficiente.
Provavelmente eles deviam ter terminado o jantar e ido embora, porque, adivinhem, tive a surpresa de entrar lá e não encontrá-los em mesa alguma. Perguntei a recepcionista se Draco e Astoria haviam comparecido. Ela verificou os nomes na lista, sorrindo.
– Eles acabaram de sair.
– Ah, merda. Desculpe – acrescentei quando vi uma mulher passar com uma criança. Eu saí para o jardim do restaurante tentar fazer uma ligação.
Meu pai não atendeu.
Minha mãe não atendeu.
Eles foram raptados, era a única explicação.
Na terceira tentativa, meu pai atendeu.
– Foi mal, pai, eu sei que atrasei. Acontece que eu não podia deixar Rose vir...
– Scorpius, tudo be-
– Olha, não tem como voltarem? Não vejo minha mãe há algum tempo, eu preciso falar com ela-
De repente a voz da minha mãe soou do celular do meu pai.
– Querido, não vou voltar para os Estados Unidos tão cedo.
– Onde vocês estão?
Eles riram.
Estavam, sabe, rindo mesmo. Como se fosse proibido dizer.
– Scorpius, podemos jantar quando quiser – disse minha mãe. – É só marcar.
– Vocês, hum, estão juntos? – minha cabeça começou a dilatar.
– É complicado. Quer saber os detalhes? Sugiro que não. Foi bom ter atrasado para esse jantar, Scorpius. Seu pai e eu tivemos um pequeno entendimento. Mas se estamos juntos? Estamos juntos, Draco?
– Agora sim.
– Filho, não nos espere.
E eles voltaram a rir de novo antes de desligarem.
Legal. Acabei de levar um bolo dos meus próprios pais, porque eles resolveram que foram idiotas metade da vida deles e estão tentando concertar as coisas.
De repente me peguei rindo sozinho, com celular na mão e em pé no jardim do restaurante onde saiam muitas pessoas elegantes para o estacionamento. Uma delas se aproximou de mim enquanto eu ainda ria do fato de que meus pais podiam estar bêbados juntos.
– Olá. Scorpius, não é mesmo?
– Oi.
Era uma mulher um pouco mais nova do que eu, alta como uma modelo, mas com curvas de Megan Fox. Eu olhei para o rosto dela, me era familiar. Morena, parecia advogada devido ao traje que usava. Os cabelos não estavam soltos, mas eu tinha certeza que ela era do tipo que apertava até enlouquecê-los quando estava cavalgando em um cara. Já conheci o tipo durante um tempo na minha vida. Aquela era antiga.
– Sou Sarah Parkinson – apertou minha mão. O sobrenome fez todo o sentido agora. Ex-colega de classe. – Eu o vi mais ou menos um mês na conferência de seu pai. Você fez um belo discurso. Este é o meu pai e chefe, Carl, acredito que já se conheceram alguma vez – eu só percebi naquele momento que ela estava acompanhada de um cara da idade do meu pai.
– Parkinson – murmurei o nome para mim mesmo quando apertei a mão de Carl. Ele tinha uma postura sofisticada demais, elegante demais. E, acredite, conseguia ser mais antipático que meu pai.
– Queremos conversar com o senhor em particular.
– Hoje? Agora? Meu pai não está-
– Em particular, Malfoy – ele foi meio ríspido. – Seu pai está em uma circunstância cheia de perigos para a empresa, não podemos nos arriscar a tratar desse assunto com o estado frágil em que se encontra. Você é o dono da empresa Malfoy agora. Não precisa consultá-lo toda hora que tiver uma reunião.
– Reuniões devem ser marcadas antecipadamente com Perséfone – eu disse, soando muito com a arrogância do meu pai. Quero dizer, quem esse cara pensa que era para me alugar assim num sábado à noite que eu preferia estar comendo pizza com minha namorada? – Não vou atendê-los sem saber quem são e de que assunto querem tratar.
Carl e Sarah se entreolharam.
– Draco Malfoy tem se esquivado de reuniões com nossa empresa. Eu espero que não queira cometer o mesmo risco.
Meu maxilar ficou rígido com o modo como ele disse "risco". Como se... "risco" quisesse dizer "bala no pulmão". Apertei meu celular no bolso. Quem eram esses Parkinson? Meu pai estivera escondendo algum segredo.
Eu não senti que deveria continuar sendo arrogante, portanto eu os segui não para dentro do restaurante, mas para o carro blindado deles.
Um motorista abriu a porta do carro e Carl meio que apertou meu ombro para eu me sentar no banco do meio. Eu estava entre ele e sua filha, o que era totalmente estranho.
– O que querem? – perguntei.
– Veja isso. – Sarah me entregou delicadamente um pedaço de papel. Um pedacinho, um recadinho. Tinha um número de telefone.
– Querem que eu faça alguma ligação?
– Não é número de telefone – Carl disse com a voz grossa.
Foi o que eu temia.
Comecei a transpirar.
– Acho que seu pai anda escondendo alguns... segredinhos sujos. E seu avô conseguiu levar para o túmulo. Eu acho que está na hora de você consertar as merdas dos seus ancestrais e eu vou te deixar uma chance.
– De onde vem essa dívida?
– Emprestamos a vocês dinheiro por vários anos. Eu dei cinco anos para Lucius pagar a dívida. Na noite em que seu pai levou uma bala no pulmão, Scorpius, os juros já estavam correndo. E a cada dia vai aumentando. Eu quero o dinheiro para o final do mês. É melhor se apressar.
– É, é impossível. Não existe tanto dinheiro-
– Faça existir então.
– Tenho certeza que podemos conversar com mais calma sobre isso.
– Estou farto de conversa com vocês, Malfoy. Já negociamos a empresa e o orgulho mesquinho de seu pai não deixou que colocássemos a mão nela. Só precisamos desse dinheiro.
– Não é tão simples. Eu teria que viajar para o mundo inteiro recuperar esse quantia e mesmo assim duraria um ano. Não é possível até o fim do mês.
– Eu sei disso, você não tem culpa. – Carl não estava com pena. – Mas ninguém escolhe a família em que nasce. Louis – chamou o motorista. – Dê marcha ré, por favor.
O barulho estrondoso me assustou e eu olhei para trás. O que eles haviam atropelado?
– Quanto custou a Harley maravilhosa que você tem? – sorriu Carl.
Eu ia mandá-lo tomar no rabo dele, quando ele interrompeu minha expressão horrorizada, rosnando baixinho:
– Eu vou destruir tudo o que você e sua família tem. O assalto que levou seu pai a ficar em coma foi só um susto. Se ele continuar ignorando-o, eu não tenho medo de piorar as coisas.
Eu estava ouvindo o ranger da moto sendo arrastada pelo asfalto do estacionamento. Eu amava aquela motocicleta. E não era por causa do quanto paguei por ela.
– Eu lhe darei o dinheiro – apertei o maxilar, tentando não fazer uma estupidez como tentar socá-lo. – Até o final do mês.
– Bom garoto. – O carro ainda arrastava a moto. O barulho era o que me dava mais raiva. Estava quebrando tudo e eu podia ouvir isso. – Viu? Você vai governar a empresa bem melhor do que seu pai. Saia do carro.
Sarah saiu do carro para que eu o fizesse. Quando estava fora do carro, ela disse:
– Meu pai é muito intenso. São apenas negócios.
Que meu pai e avô o transformaram em perigoso.
Comecei a duvidar de que meu avô havia morrido de câncer. Provavelmente teria se matado. O papel da dívida estava na minha mão. Era ainda maior do que um número de telefone. Eu não sabia por onde começar a resolver tudo isso.
Olhando para a moto caída no chão, riscada e quase estraçalhada, eu percebi que precisava começar por uma coisa.
– Rose – ela atendeu no primeiro toque. – Prepara a pizza mesmo.
E desliguei, sem dizer mais nada.
Apertando a cabeça, eu estava quase explodindo de dor ali, tentei levantar a moto com muito esforço. Ela era de qualidade imensa, mas o carro havia feito muito estrago nela. Tentei ligá-la e, por sorte, ainda funcionava, só que o motor estava falhando, com barulho esquisito. Eu não teria coragem nem de dá-la a um mendigo agora.
Prometi a mim mesmo que não ia falar nada com o que tinha acontecido com Rose. Nem mesmo liguei para o meu pai avisando que recebi ameaças por causa dele. De alguma forma, eu sabia que meus pais se reconciliaram, eu não podia estragar isso, embora fosse inevitável em algum momento depois. Tive que voltar para o apê de Rose a pé, levando a moto como se fosse bicicleta. Demorei um tempão. Quando cheguei, deixei a moto meio escondida no estacionamento assim Rose não faria perguntas.
– Foi muito ruim o jantar? – ela comentou quando entrei pela porta e a encontrei fazendo as unhas do pé.
– Foi estranhamente bom. Mas a comida de lá não era boa – eu disse.
– E seus pais?
– Voltaram juntos para a mansão. Acho que isso é um bom sinal.
– Isso é ótimo! Bem, de qualquer forma, eu pedi uma pizza.
Sorri e me sentei ao seu lado no sofá. O DVD do Muse estava tocando, Rose o ligava quando estava entediada. Ainda não parei de pensar que Carl disse que ia destruir tudo da minha família.
Rose era minha família.
Eu fiquei com medo.
Consegui não transparecer que eu estava preocupado pelo menos até quando fui dormir, mas eu acho que eu devia ter um sério problema em extravagar minhas emoções quando estou transando com Rose, porque, quando eu estou tenso de verdade, não que eu não consigo ficar duro, mas eu não consigo me concentrar e isso me irritava, então eu precisava gozar logo.
– Scorpius, calma – Rose apertou meu peito, murmurando. Eu percebi que eu estava meio violento em cima dela, respirando forte pelo nariz e com a cabeça ao lado da dela no travesseiro. Diminui a intensidade, tentei me concentrar em nós dois, beijando seu pescoço.
Eu estava tenso. Dessa vez, então, Rose ficou me olhando meio esquisita e chateada, porque ela não tinha gozado.
Droga.
Quando fui jogar a camisinha fora no banheiro, demorei demais para sair de lá porque resolvi tomar uma ducha e fiquei meditando o que estava acontecendo. Além disso, não queria ver a decepção de Rose para cima de mim. Eu me arrependi por ter sido escroto dessa vez. Eu nunca fui escroto com ela dessa forma. Bem, pelo menos na cama.
Ela estava vestida com o roupão quando encostou-se a porta do banheiro e cruzou os braços, observando minha aflição. Mas ela não disse nada.
– Desculpe – falei um tempinho depois. – Eu menti a você. Não to bem. Não estava muito no ânimo pra transar.
– A gente não precisa fazer isso toda noite, sabe.
– Não? – franzi a testa.
Para a minha surpresa, Rose soltou uma risada.
– Céus, esqueci que você é novato nisso. Não há nada de errado só deitar e conversar, não fazer sexo não o fará menos meu namorado. E às vezes isso é até melhor. Sei que tem algo te incomodando.
Desliguei o chuveiro e me enxuguei para entrar de novo no quarto. Rose se aproximou de mim e pegou minha mão para que deitássemos na cama. Quando ela descansou a cabeça no meu peito, eu disse:
– Podemos esquecer o que rolou agora?
– Tudo bem.
Acariciava o braço macio dela distraidamente, quando ela falou:
– Olha... eu não vou mais perguntar o que está acontecendo. Eu não vou. Eu quero que você sinta vontade de me contar sem que eu o pressione. Quando quiser me contar, eu vou ouvir, ta bom?
– Vem cá – eu apertei seu rosto e a beijei profundamente. Fazia tempo que eu não me concentrava só no beijo dela, calmo, suave, gostoso. Eu sorri e coloquei a mecha do cabelo atrás de suas orelhas. – Eu não te mereço, sabia?
– Sabia sim.
Eu dei uma risada e ela mexeu o dedo indicador na minha barba mal-feita.
– Só não minta para mim quando as coisas não estiverem bem com você – sussurrou.
Mas eu era assim. Se mentir para não preocupá-la era possível, então eu mentiria.
ROSE POV
– Sério? – eu perguntei incrédula no café da manhã. – Quero dizer, essa sua cara de cachorro molhado ontem a noite foi porque você derrubou a moto no estacionamento do restaurante?
– O que posso fazer? – ele fez uma expressão de pouco caso. – Você sabe o quanto eu sou apegado as minhas coisas.
– Sim, mas não sabia que você agia como criança. Quero dizer, você já quebrou a moto e não ficou assim. – Ele não falou mais nada, continuou mergulhando a bolacha no leite dele. Eu sabia que ele ainda estava mentindo, por isso eu levantei e falei bem pertinho dele. – Se eu souber que ontem você reencontrou uma transa do passado, eu tenho esse lixo reservado para quando eu arrancar as suas duas bolas com o meu cortador de cutículas.
Eu mostrei o lixo. E o cortador de cutículas.
Ele meio que me olhou divertido.
– É errado se eu fiquei excitado com essa ameaça?
– Vai se foder, Scorpius. Eu sou uma pessoa curiosa e você está brincando comigo. Mentindo. O que quer que tenha sido, besteira ou não, tudo bem, mas você está mentindo. Você treme o nariz quando está mentindo, eu conheço o jeito. Ok. – Eu respirei fundo. – Não vou ser como minha mãe, que deixa de falar com meu pai até ele dizer o que está acontecendo...
Eu parei de falar e pensei melhor.
– Não, eu vou ser igualzinha a ela. A próxima vez que quiser conversar comigo ou falar qualquer coisa pra mim... vai ter que ser a verdade.
Ele olhou para o teto, girando os olhos. Finalmente disse:
– É coisa do trabalho. Não tem nada a ver com mulheres ou comigo sendo besta e te traindo, beleza? Eu sei o quanto você adora ajudar as pessoas e se eu achasse que você pode me ajudar dessa vez, eu teria te contado.
Ele foi meio grosso ao dizer isso, mas se levantou, pegou meu rosto e me beijou na boca fortemente.
– Eu te amo, Weasley. Acredite em mim quando eu digo, porque isso eu não sinto por outra pessoa.
Dessa vez ele foi até a chave do carro, e não da moto, para sair de casa. Eu fiquei olhando para suas costas o momento todo em que ele se afastava. Parecia idiota pensar que depois de tudo o que passamos ele fosse capaz de me trair. Mas lembrei que muitas vezes as pessoas decepcionavam e fiquei com medo que Scorpius me fizesse passar por isso. Ele tinha histórico, esse era o problema. Fiquei com medo de ter a sensação que eu tivera no final do namoro com Brian. O cara não prestar atenção no sexo, o cara mentir... eu sabia que Brian provavelmente me chifrou em algum momento, eu só não estava preparada para lidar com isso então já quis terminar logo antes de ter certeza.
Mas eu não vejo uma linha avisando quando eu deveria terminar com Scorpius. Para mim, aquilo ainda ia durar muito tempo... Mas e para ele?
Confie nele, Rose, pedia minha mente. Eu confiava.
Tanto que talvez isso pudesse me deixar cega. E eu não queria ficar cega para ninguém, nem mesmo para o meu melhor amigo.
Quando fui ao banheiro para escovar os dentes, vi a carteira de Scorpius em cima da pia. E o celular estava dando ocupado, então não consegui avisá-lo disso.
Fui chamada para dar aula em outra escola naquela manhã, apenas um serviço substituto, mas senti que deveria entregar a carteira dele antes. O prédio era gigantesco e o último andar era da empresa Malfoy, o que fez com que, no elevador, eu ficasse esperando muito tempo. Logo no quinto andar, uma mulher alta e esbelta tipo Megan Fox entrou no elevador comigo. Não sorriu, só ficou ali ao meu lado com aquela beleza irritante que com certeza a denunciava no fato dela ter sido uma daquelas bitches de colegial.
Por uma razão me lembrei da Stephanie Escandalosa.
– Assunto importante ou só veio dar um presente para o namorado?
Olhei para a moça, sem acreditar que ela estava falando comigo. Até olhei ao redor para ver se não tinha outra pessoa ali no elevador.
– Assunto importante – rotulei. – Você, hum, trabalha aqui?
– Não se lembra de mim, não é, Weasley?
– Eu sou uma pessoa horrível.
– Sarah Parkinson.
E eu estava certa. Ela foi uma daquelas bitches de colegial. O elevador parou no andar que eu sairia naquele momento, meio que me salvando de uma conversa estranha com minha ex-colega de classe.
Formamos juntos no colegial. Scorpius, Albus, eu, Parkinson e mais vinte alunos que poucas vezes revi depois da faculdade.
Scorpius disse para mim que ele perdeu a virgindade com a jovem secretária do avô dele na oitava série – Scorpius descobriu, depois da morte de Lucius, que aquela jovem secretária era uma prostituta paga por ele já que, na época, Lucius tinha medo que Scorpius fosse gay. Mas eu lembro perfeitamente da época em que todas as garotas só falavam que Sarah Parkinson e Scorpius Malfoy eram o casal mais foda da escola, embora eles não rotulassem o "namoro". As duas famílias eram melhores amiguinhas. E todas apostavam que Parkinson perdera sua virgindade com Scorpius. É, assunto de colegial era muito babaca, mas, cara, saber que seu melhor amigo tinha transado com a garota que eu e Lily costumávamos gostar de odiar juntas era totalmente injusto, quase até uma traição. Eu me lembro de ter ficado muito brava com ele, mesmo ele nunca ter tido idéia disso.
Acontece que naquele momento Parkinson estava ainda mais bonita do que era na escola, e também saiu do elevador no mesmo andar que o meu. Eu me direcionei para a conhecida secretária do pai de Scorpius, Perséfone – ela era avó de um dos meus ex-alunos.
– Oi Rose – ela me cumprimentou. Estava sentada em sua mesa com um aparelho no ouvido e o telefone na outra orelha, mesmo assim me viu. – Scorpius está lá dentro em reunião. Não sei se ele vai poder sair. Quer que eu mande um recado?
– Não, eu falo com ele mais tarde – falei baixinho ao observar preocupada que Sarah Parkinson entrou na sala de reunião de Scorpius sem que ninguém a esbarrasse. Era possível ver a sala e meu namorado dentro dela, porque as paredes eram de vidro. Então eu vi Scorpius a cumprimentando e dando um espaço a ela na grande mesa redonda. Uma coisa estranha que notei foi... Draco não estava nessa reunião.
– Uma sujeitinha suja – comentou Perséfone também olhando na mesma direção. – Eu costumava ser mais gostosa que ela, obviamente. Se você visse as minhas fotos de quando eu tinha essa idade, querida... ia se perguntar como é que os garotos da minha escola se contentavam só com aperto de mão na época.
– Ela está trabalhando aqui?
– Não – sussurrou como se fosse segredo. Era o que eu mais gostava de Perséfone. Toda vez que nos encontrávamos, ela estava aí sempre fofocando para mim sobre o trabalho de Scorpius. Dessa vez parecia ter uma notícia quente. – Sarah Parkinson é advogada da empresa dos Parkinson. Ela tem em seu nome toda a fortuna, é quase muito parecida com Scorpius. Toda essa pressão de que deve herdar a empresa.
– Sim, eles têm muito em comum. Bom, é que Scorpius esqueceu a carteira dele em casa, só passei para devolver.
– Alguém avisa esse menino que a cabeça dele fica no pescoço!
Eu dei risada. No momento que eu ia deixar a carteira com ela para entregar a Scorpius na reunião – sim, Scorpius dizia que era para confiar em Perséfone que ela nunca tentaria roubar nada dali – um papelzinho caiu. Eu olhei por curiosidade.
Parecia ser um número de telefone.
Perséfone não notou e já havia guardado a carteira. Eu acabei segurando o papel.
– Não se preocupe, Scorpius me conta até a senha do computador dele.
– Te vejo em algum dia, Perséfone. Até mais.
– Tchau, querida. Venha sempre aqui alegrar essa monotonia.
– Pode deixar.
Fiquei com o número no papel na cabeça até o horário do almoço quando já havia terminado a aula para as crianças da escola. Como sempre, fui almoçar com Alice. Ela estava animada naquele dia porque James combinou com ela deles adotarem um filhotinho de cachorro. Ter criança era muito cedo para o casamento deles, então a melhor solução que tiveram foi ter um cachorro. O pior era que agora os dois estavam discutindo para saber que raça seriam. James queria um pastor alemão, mas Alice queria um cachorro menor e que daria para segurar no colo mesmo quando ficasse mais velho. Ou seja, Alice queria um poodle. E, juro, era impossível imaginar Alice ganhando essa discussão.
Eu fiquei um pouco animada de conversar com ela, sempre fico, mas ainda estava estranhando Scorpius. E falei isso com Alice.
– Um número de telefone?
– Ontem ele estava esquisito – contei. – Tipo, muito. O sexo não foi... aquele sexo que eu e ele costumamos fazer. E... hoje eu reencontrei Sarah Parkinson no elevador da empresa dele e a vi entrando na sala dele. Foi muito estranho.
– Sarah Parkinson?
– Longa história. Scorpius tirou a flor dela quando a gente tinha quinze anos. Eles costumavam ser um casal perfeito na escola.
– Rose – Alice franziu a testa. – Parkinson é uma família tão rica quanto os Malfoy. Devem ser apenas negócios.
– Eu sei, eu sei. É que eu ainda tenho...
– Insegurança. Rose, acredite, Scorpius te ama e não é da boca pra fora.
– Mas ele faz merda também, Alice. Desculpa, não consigo deixar de pensar.
Resolvi que faria o método Hermione com Scorpius. Eu não conversaria com ele em nenhum momento até que ele me dissesse a verdade. Mesmo que a gente nunca mais conversasse.
Eu estava deitada na cama, lendo alguns artigos na internet com o notebook na barriga quando ouvi barulhos de chaves e portas se abrindo. Eram oito horas da noite. Scorpius entrou, me beijou no rosto, falou alguma coisa como que ia tomar banho, mas eu não me movi.
– Vou sozinho dessa vez?
Mostrei o notebook, como dando ênfase ao fato de que eu queria fazer algo mais importante dessa vez.
Ele girou os olhos.
– Não ta falando comigo mesmo? Sabe que isso é um afronto contra pessoas mudas de verdade, não sabe?
Ele me conhecia tão malditamente bem e me sensibilizou com esse comentário.
– Eu já vou – falei. – Só preciso terminar isso daqui.
Ele abriu os botões da camisa para tirá-la do corpo e entrar no boxe depois que suas roupas estavam no chão. Acabei entrando logo depois, mais por uma curiosidade de saber se realmente estávamos bem. Ele me beijou com força, embaixo da água do chuveiro, caía sobre nossos corpos em cascatas, e então me prendeu contra a parede para empurrar o quadril entre as minhas pernas presas nele. Nada o distraía dessa vez, sua boca o tempo todo me beijando, lambendo, mordendo. Tentando recompensar a transa de ontem a noite. Foi boa, eu corri até o orgasmo e murmurei:
– Eu confio em você muito cegamente, Scorpius. É melhor não me decepcionar.
A respiração dele era acelerada. Então, de repente, ele me abraçou, muito como se ele não pudesse me dizer o que estava acontecendo. Apertei os cabelos dele, enquanto ele mantinha o rosto entre a curva do meu pescoço.
– Eu te amo tanto que eu odeio o fato de que só dizer que eu te amo não parece o suficiente – ele murmurou.
– Palavras não precisam ser suficientes.
– Eu realmente quero ser o suficiente pra você, Rose. Quero te dar uma vida boa e tranquila comigo. Eu não sei como fazer isso.
– Você me deu uma vida boa e tranquila, Scorpius – eu murmurei. – Antes sequer de admitir que me ama. Ou de descobrir isso. Eu não preciso de palavras. Eu só quero que seja sincero comigo.
Nós saímos do banho, trocamos de roupa e ele finalmente me fez sentar no sofá ao seu lado para conversarmos. A primeira coisa que disse foi:
– Isso não tem nada a ver com a gente, é por isso que não posso te contar. É para sua segurança.
– O que está havendo? – eu me aproximei dele, nervosa. – Estou passando de curiosa para assustada.
– Eu não posso te contar, Rose – ele repetiu firmemente. – Eu só preciso que confie em mim.
– Ok – eu disse, baixinho. – Só... posso perguntar uma coisa? – suspirei e finalmente perguntei o que sempre me incomodei em saber, mas nunca tive detalhes sobre isso: – Você tirou a virgindade de Sarah Parkinson no primeiro colegial?
Ele olhou para mim com a testa franzida, não nervoso ou com medo de que eu achasse que eles estavam transando por aí agora, mas preocupado.
– Você viu ela? Ela fez alguma coisa pra você?
– Eu fui entregar a carteira que você esqueceu e ela estava na empresa hoje.
– Ela fez alguma coisa pra você? – perguntou outra vez, olhando seriamente para mim.
– Não, mas senti que voltei para o colegial. Ela ficou impossivelmente mais bonita, não acha? Você tirou a virgindade dela? Tipo, você sumiu na sua própria festa de aniversário para transar com ela?
– Talvez – ele franziu a testa, tentando se lembrar. Mas eu lembrava nitidamente. Ele provavelmente deveria ter ficado muito bêbado. – A gente se provocava bastante.
– O que ela quer com você agora?
– Então, eu não posso te falar-
– Ela tem a ver com isso?
– Tem. A família dela. Vem acontecendo algumas intrigas entre meu pai e o pai dela e eu tenho que resolver isso, porque vou herdar a empresa e já tem companhia colocando algumas responsabilidades para cima de mim como se meu pai não fosse mais nada para lá. Como se já tivesse saído do mapa. – Ele olhou para mim e segurou minha perna suavemente. – Rose, eu não posso te dar detalhes. Mas quero que saiba que quando eu resolver isso, vai ficar tudo bem. Só não pense nem por um minuto que eu seria adolescente e te trairia. Especialmente com uma vadia como Sarah Parkinson. Eu sei o que ela falava de você, o quanto vocês sempre se detestaram.
– Mesmo assim você foi para cama com ela.
– Ela era fácil, Rose. Eu não me importava com ela, por isso eu a fodi. Era assim que a coisa funcionava. Faz alguma diferença agora?
– Não, não faz. É só besteira da minha cabeça, você sabe como eu sou.
Ele encostou os lábios nos meus um pouquinho e sorriu.
– Bobinha. – Apertou fraco a ponta do meu nariz com o dedo indicador. Eu devia estar fazendo uma cara muito emburrada, porque ele parecia estar achando graça do meu ciúme.
– Lembre-se do lixo – eu ameacei. Ele riu de novo. Eu gostava do modo como ele ria só das coisas que eu falava. Geralmente ninguém o fazia rir como eu fazia. – To falando sério!
– Não vou me preocupar. Não porque duvido que você arranque minhas bolas, mas porque não vou fazer nada para merecer isso.
Ele se levantou para ir para a cozinha, quando eu fiz uma última pergunta, mais séria e menos boba:
– Você sente falta?
– Do que?
– Sei lá, da sua vida antigamente. Baladas, mulheres, bebida, sexo. Sem nenhum compromisso. Festas a noite inteira. Drogas.
– Eu sentia que tinha uma vida boa. Mas não era uma vida boa, comparando agora com a que eu tenho com você. É bem melhor com você, sabe? Quando acordo ao seu lado eu não me sinto culpado de nada, e eu gosto de me lembrar das coisas que fizemos.
Foi uma boa resposta.
LILY POV
Foi um festival incrivelmente bom. Tinha comida, bebida e pessoas tão interessantes que não achei necessário encher a cara. E o fato de que meus pais, meus tios e meus avós estavam lá era outro motivo para não causar. Além disso, eu queria estar especialmente sóbria para ver o filme que resultou o segundo lugar para Hugo. Ele estava animado e, quando eu o encontrei em uma mesa, bastante inquieto.
– Agora ta nervoso? – estranhei.
– Estou raciocinando que talvez você me mate depois.
– Por que eu faria isso? – indaguei. – Estou feliz que ganhou, Hugo, de verdade.
A premiação começou logo depois que as pessoas se acomodaram. Um apresentador falou os nomes dos candidatos até finalmente anunciar os vencedores dos prêmios. Começou pelo filme do terceiro lugar. Uma história bem amadora da viagem que o artista fez para o Egito. Meio que me deixou entediada, pra falar a verdade. Rose ali ao meu lado tava achando muito interessante, porque ela estava fazendo a cara de interesse dela. O Scorpius viu que estávamos na mesma e me ofereceu uma cerveja. Eu recusei, realmente queria prestar atenção em tudo, ter certeza de que, dessa vez, eu não faria nenhuma merda contra o dia especial de Hugo.
Finalmente o filme do Egito acabou e eu pude aplaudir. Hugo sussurrou para mim:
– Eu vou ao banheiro.
Ele não queria assistir ao próprio filme, não ao meu lado.
E eu finalmente entendi por que ele me agradeceria. Ou porque eu poderia matá-lo.
O filme era sobre mim.
Foi um pouco difícil entender que ele tinha juntado todas as fitas, todas as fotos, desde quando ele ganhou a primeira câmera dele e não parou de filmar qualquer lugar onde estivesse. Eu estava em todas as suas gravações.
"Era uma vez uma garota", Hugo deu o título e sua voz soou pelo vídeo. "E ela não gostava de ninguém."
Achei isso um pouco maldoso. Mas estava passando uma gravação em que Hugo me filmava brigando com todo mundo, porque o cara que nos deu carona ao show do Aerosmith tinha ido embora sem levar a gente. Eles estavam me culpando.
Só nos primeiros cinco minutos, Hugo mostrou todos os podres meus. Garota que ficava com um cara e não se importava com o outro. Garota que preferia sexo e não amor. Garota que adorava uma balada. Garota que já teve curiosidade de saber como era beijar outra garota. Caramba, e meus avós estavam ali. Eu realmente ia matar o Hugo. Só que fiquei curiosa para ver até onde isso ia chegar.
Então uma parte do filme ficou mais suave. Na verdade, era agora uma pequena gravação onde eu estava conversando com ele. Uma conversa sem importância. Ele estava filmando o meu sorriso o tempo todo, dando um zoom bem desnecessário na minha boca.
"Era uma vez uma garota" a voz voltou a dizer. "E ela não sabe que ela tem o sorriso mais bonito de todos."
Que merda o Hugo estava fazendo? Como é que elegeram isso como o segundo melhor filme desse festival?
"O que você vai fazer agora?" eu perguntava na gravação.
"Uma entrevista, talvez. Quer falar?"
"Pode ser. Não vai mostrar a ninguém, ta legal?"
"Depende. Se você disser alguma coisa interessante."
"Sobre o quê?"
"Amor. A verdade sobre o amor."
"Não tem verdade, sabe" eu tinha falado, olhando para o mar. Estávamos na praia, agora eu via porque Hugo afastou o zoom da câmera. "Tudo depende da importância que o cara que você curte tem na sua vida. Se eu não quiser perdê-lo, eu não vou fazer merda. É bem simples, mas não existe verdade."
"Você acredita em amor, então?"
"Eu amo minha família. Meus melhores amigos. Eu só acho que o amor não é uma justificativa, mas as pessoas fazem parecer que sim."
"Você já disse que ama alguém?"
"Hugo, você ta lendo Nicholas Sparks? Olha as perguntas que você ta fazendo."
"Você já disse que ama alguém? Responda."
"Eu não digo, eu sinto. Qual a diferença?"
"Alguém já disse que te ama?"
"Não lembro."
"Se eu disser que te amo, o que você vai fazer?"
Eu empurrei a camera dele para o lado. Estávamos rindo.
"Vai se ferrar, Hugo, enche o saco pra cacete."
"Já te falaram que você fala palavrão que nem homem?"
"É? Já te falaram que você filma que nem mulherzinha?"
Inacreditavelmente, um pessoal do festival deu risada com essa minha última fala.
Sério, eu não queria mais assistir aquilo.
Eu estava indo embora, dando meia volta, quando uma parte do filme me chamou atenção.
"Era uma vez uma garota. E ela não gostava de ninguém, porque gostar nunca era o suficiente para ela. Mas, mesmo assim, ela não deixava de aproveitar, de conhecer, de se aventurar. Uma garota que nunca para. Ela parecia não amar, mas porque ela ainda não achou amor. Mas ela sempre procura."
As imagens eram, devo confessar, bonitas. Eu nem tinha idéia de que Hugo tinha tanta filmagem minha abraçando Rose, jogando cartas com Roxanne, brincando com o filho da minha prima Victoire com Teddy. Tentando aprender a tocar guitarra com James. Eu não entendi o motivo do filme, talvez o tema era "amor" e ele resolveu que eu transmitia a resposta para a verdade sobre ele.
Cara, esse filme me fez refletir sobre as coisas que andei aprontando na vida, foi ridículo, mas acho que necessário. Estava chateada e zangada que Hugo não pediu permissão, por isso não atendi ao celular quando vi que era seu número. Fiquei sozinha no mini apartamento, escutando meu álbum de Of Monsters and Men só para descontrair.
Estava na faixa "Love Love Love" quando alguém tocou o interfone. Já tinha passado da meia noite. Eu olhei para baixo pela sacado do terceiro andar e vi Hugo. Eu não fiz rabo doce, acabei abrindo a porta para ele.
– Pode me matar com o que quiser. Sei que devia ter pedido sua permissão, mas... eu precisava te mostrar isso. Parece que você perdeu quem você é, Lily.
– Eu não preciso de um filme para saber disso.
– Não foi um filme. Foi uma declaração. A gente não precisa ficar junto, nem casar, nem ter filhos, nem nunca contar pra ninguém o que a gente tem. Mas se é o que sentimos, não é certo esconder isso de nós mesmos.
Ele se aproximou de mim, devagar, hesitando.
Eu olhei para a pia de louça. Cara, tava muito bagunçada.
– Eu curto essa música. Me lembra você – ele disse.
– Porque sou uma pessoa má.
– Não. Porque eu te amo mesmo sabendo que você não pode me amar.
– Olha – eu me estressei com essa conversa, mas Hugo tapou minha boca com a dele de um jeito que me fez quase cair, mas ele imediatamente segurou minhas costas, então seus braços estavam totalmente envolvidos em mim.
O beijo dele costumava ser muito afobado, e ainda era. Eu correspondi, porque essa afobação passou para mim como corrente elétrica. De repente eu estava querendo ele logo, do mesmo modo que ele me queria desde que começamos a adquirir hormônios. Sempre tenho a sensação de que beijá-lo era muito mais errado do que transar com um homem casado, do que com um presidiário, do que ficar com dois caras na mesma época. Isso era o que me alucinava mais. E eu esquecia o motivo dessa sensação. Será que por que Hugo não era exatamente o cara mais gostoso do mundo? Ele não ia a academia, nem perdia tempo querendo ser sarado, e eu tinha essa coisa de transar com caras sarados.
Quando eu tirei a camisa dele, eu nem me importei com isso, só queria passar o calor que eu sentia e a raiva. Precisa acabar logo com essa tensão, fazê-la de algum modo acontecer. A cama não tava muito longe e eu o derrubei nela. Hugo gemeu um pouco, antes de morder meus lábios.
– Cacete – eu murmurei. – Eu senti falta disso.
Eu olhei para ele embaixo de mim e vi uma pequena cicatriz no seu peito.
– O que aconteceu aí?
– Ah – ele reparou. – Eu tava andando lá na Grécia-
Eu odiava quando ele falava da merda dos anos que ele ficou nesse lugar, então eu mandei:
– Ta, cala a boca.
Hugo riu em meio ao beijo que eu comecei a lhe dar. Quando desci os dentes para a orelha dele, eu o senti ficar duro. Depois beijei seu pescoço.
– Já?
– Culpa sua.
Eu sorri. Eu meio que gostava de ser essa culpa.
E, sabe, quando a gente começa é difícil parar. Dois minutos depois que ele arrancou nossas roupas e se confortou dentro de mim, para a minha surpresa, Hugo ainda tava aguentando. A última vez que o senti assim foi aos dezoito, mais ou menos, agora eu já tinha passado por muitos caras e fiquei curiosa com uma coisa:
– Quantas você comeu depois de mim?
Ele não queria conversar, mas franziu a testa com a minha pergunta.
– Quer que eu faça as contas agora? – ele estava, tipo assim, muito concentrado em se mover contra meu corpo. A cama rangia de um jeito muito alto. – Ok, bom... oh. Bom, teve Fernandine, uma garota da minha turma na Grecia... a gente fez mais de uma vez. Teve a Alexis, obviamente, o tempo todo.
– Eu não quero saber o nome delas. Só estou orgulhosa que você não gozou ainda.
– Eu melhorei um pouco na cama.
– Eu notei – sorri fraquinho.
– Mas ainda... preciso que me diga o que fazer. Pra conseguir... te agradar, eu não sei mesmo o que fazer. Só fala e eu faço qualquer coisa.
– Só não pare agora.
Porque tudo estava suficientemente bom desta vez.
N/A:
Grande dessa vez para recompensar todas as demoras. Esse capítulo tem dois pontos de vista da Lily para dar um closer mais ou menos nessa fase dela com o Hugo. Sei que tem alguns aqui que curtem o shipper, então arrisquei. HAHAHA E pode ser que algumas pessoas não gostem, então eu não exagerei ou escrevi uma NC hot, porque eles não são os dois principais. E agora, algumas coisas podem acontecer com os nossos principais. Palpites? Espero vocês nos comentários!
Quem será que vai ser o próximo leitor a recomendar a fanfic? Estou aguardando também! Beijos e até o próximo!
