SCORPIUS POV

– E é isso o que vamos fazer.

Minha voz estava um pouco baixa, mas os homens e mulheres da reunião me olhavam com tanta intensidade que eu tinha certeza que dava para escutar.

– Zabini, entre em contato com os Goyle imediatamente. Eles estão devendo o rabo deles para essa empresa também e vamos esclarecer esse negócio rápido.

Zabini afirmou com a cabeça, anotando algo em seu bloco de notas.

– Lembrem-se – eu continuei, olhando para os rostos dos funcionários da empresa Malfoy –, eu quero ter certeza sobre qualquer desvio de dinheiro para a conta bancária da empresa. Já despedimos mais de cinco funcionários em menos de uma semana. Se vocês querem continuar aqui, é melhor fazer o trabalho direito porque lá fora tem uma fila de mais desesperados, mais inteligentes, mais eficientes do que vocês. Pensem bem nisso. Podem ir.

Estava muito silencioso durante a reunião inteira, exceto pela minha voz, mas logo o silencio foi quebrado pelas cadeiras se afastando, pastas sendo guardadas e as pessoas saindo. Eu não quis encarar nenhum deles enquanto tirava papeladas da mesa. Guardei a caneta no bolso do terno da empresa quando Blaze Zabini se aproximou de mim, antes de sair.

– Você soa como Draco às vezes.

– É um elogio?

– Não é uma coisa ruim, pelo menos. Seu pai já administrava os negócios da empresa muito antes de Lucius morrer. Ele tomou conta de tudo, tirou Lucius de muitas dívidas, como você está fazendo agora. Lucius morreu porque ele achava que podia tudo sozinho... e Dracoquase morreu pelo mesmo motivo. É um peso gigantesco nas costas de um rapaz de vinte e sete anos como você... teve muita coragem ao contar para todos aqui a situação.

– Tive outras boas influências – murmurei, pensando em meus amigos que não me deixavam sozinho por nada. – que não da minha família para entender que eu não vou conseguir nada sozinho. – Peguei a maleta e a fechei com um clique. Olhei para Zabini. – Não desligue o telefone até ouvir a resposta que precisamos dos Goyle.

– Scorpius – ele me chamou quando eu estava saindo. Suspirei e me virei para ele. – Eu tenho uma consideração tremenda por você, por isso eu não o interrompi na reunião. Mas não acho que devemos nos depender das dívidas que os Goyle precisam pagar.

– Essa é a única opção que eu tenho.

– Não é. Os Parkinson nos ajudaram antigamente com outras dívidas que devíamos e agora eles querem o dinheiro de volta. É um círculo vicioso. Você entra em dívida, pede dinheiro emprestado de outra empresa. Paga a dívida que você precisava, mas vai sempre entrar em novas dívidas por isso.

– Está dizendo que eu preciso pedir esmola para outras empresas? Sabe, eu estava tentando evitar isso.

– E não se podem evitar viagens, Scorpius.

– Eu estava tentando evitar deixar mais dívida para o filho que eu tiver quando ele herdar essa empresa, como fez Abraxas, como fez Lucius e como fez Draco. Eu queria acabar com esse círculo vicioso. Eu queria pagar todo mundo, dar a essas empresas um belo presente. Eu até me vestiria de Papai Noel para isso.

– É impossível. De qualquer forma, você está comandando a reunião como um verdadeiro Malfoy, exceto... melhor. Você escuta, você considera e você mostra soluções. Ligue se precisar de alguma coisa, estarei na reunião do andar cento e dois.

– Tudo bem.

Eu o vi fechar a porta atrás de si. Sentei na cadeira giratória na ponta da mesa e apertei minha cabeça como se eu não aguentasse mais ficar sem dormir. Meu celular tocou e a voz de Rose era animada.

– Ei, loiro, adivinha o que estou fazendo agora?

– Rose, não é uma boa hora para começarmos um telesex aqui. Perséfone está olhando do outro lado do escritório.

– Não, idiota, estou no shopping com Alice. Vamos comprar árvores de Natal.

– Uau, que excitante – falei, sem deixar de sorrir. – Eu achei que vocês já tivessem comprado uma.

– Os enfeites de Natal mudam a cada ano, sabia? Alice e James compraram a deles porque vão comemorar o primeiro Natal como casados. Pensei em comprar outra para nós dois, o que acha?

– Eu acho que... – encostei meus cotovelos na mesa, observando a movimentação da empresa naquela manhã uma semana antes do Natal – isso é muito romântico.

– Não é para ser romântico! Bem, simboliza alguma coisa. Que horas você vai voltar para casa hoje à noite? – a voz dela estava ansiosa. – Seria divertido montarmos ela juntos. Acho que fica melhor na sala de estar, não fica? Pensando bem, nem tem muito espaço. Podemos colocar na sacada. Mas quem coloca árvores de Natal na sacada do próprio apartamento?

Eu não deixei de soltar uma risada, aliviado que Rose não tivesse nenhuma preocupação na cabeça exceto a de comprar uma árvore de Natal. Eu, por outro lado... parei de sorrir no instante em que vi os saltos de Sarah Parkinson se aproximando da minha porta.

– ... eu acho que se ficar na cozinha pode ser ainda mais estranho. Tudo bem, vai ser na sala. Mas você também pode escolher o lugar se quiser.

– Qualquer lugar que decidir vai ficar perfeito, Rosie – eu disse suavemente. – Mas... eu preciso desligar agora. Te ligo mais tarde, prometo.

Sarah bateu os nós dos dedos na porta.

– Tudo bem – continuou a voz de Rose. – Vou esperar você em casa, tenta voltar mais cedo hoje? Não sei se vou conseguir esperar muito para montar.

– Eu vou tentar. Te amo.

Sarah abriu a porta quando olhei para ela. Desliguei o celular quando Rose respondeu um "eu sei" e demorei um pouquinho para tirar o aparelho perto da orelha. Sarah se aproximou do outro lado da mesa, desfilando, andando, não sei.

– Dor de cabeça... sr. Malfoy?

– O que você quer?

– Sabe, por andar na corda banda nesses últimos tempos eu não acho que você tem posição de perder os modos comigo.

– Eu não tive um dia muito bom, obrigado a você, ao seu pai, ao zelador que está limpando o banheiro e eu fiquei a reunião inteira com vontade de abrir o zíper da minha calça para mijar em todas as papeladas dessa mesa.

Levantei-me e fiquei de costas para ela, olhando a vista da cidade pelo último andar. Sarah estava escondendo um sorriso.

– Você não mudou muito, pelo visto. Ousado, usando o sarcasmo só para evitar suas emoções. E ainda é amigo dela. É, eu ouvi o "Rosie". Você sempre a chamou assim, não foi? Era fofo. O cara que fodia todas as garotas do colégio chamava a única virgem pelo apelido.

Meu sangue borbulhou.

– O que você quer, Parkinson? – tentei controlar minha voz.

– Encontre-me no restaurante Veela. Oito e meia. Em ponto. Hoje.

– Por que diabo eu vou encontrar você...?

– Jantar entre duas antigas famílias – ela disse calmamente, sem se abalar. – Eu não escolhi isso, Scorpius, nem você. Mas, aparentemente, eu conheço melhor, eu me envolvo melhor. Eu não vi de você nenhum comprometimento em pagar a sua dívida o mais rápido possível e o tempo está correndo. Você só está fazendo reuniões, reuniões e reuniões. Quando vai começar a agir? Acredito que o jantar que meu pai organizou para nossas famílias vai esclarecer e ajudar muitas coisas.

– Para o benefício de que lado?

– Os dois. Até mais.


JAMES POV

– Sabe o que amo em você? – eu disse, beijando cada pedaço daquele pescoço cheiroso. Alice movia os dedos pelo zíper da minha calça, abrindo-o. Estávamos deitados no sofá de casa no final de tarde, um filme qualquer passando na televisão. Ela colocou a mão dentro da minha calça.

– Sei. Ontem foi meu cabelo, meus lábios, meus olhos – ela sorriu. – O que ama em mim hoje?

– Eu amo que a gente ainda transa a noite inteira e que não somos aqueles casais que fingem que fazem sexo. Eu amo que você me deixa duro como da primeira vez em que acidentalmente vi você trocando de roupa quando passou uns dias na casa da minha avó antes de namorarmos.

Alcancei os lábios finos dela. Alice me mordeu.

– Eu amo como você nunca me deixou entediado. E eu amo que vamos passar o Natal casados dessa vez.

Levantei a blusa dela e beijei sua barriga pouco acima do umbigo. Era lisa, era gostosa, era macia. Fui subindo até alcançar seus seios.

– Sua vez – eu disse para ela.

Alice tirou a blusa e a jogou num canto da casa. Enquanto se livrava da minha calça, ela sorriu:

– Eu amo que você é gostoso.

– Que bom, porque eu só deixo minha barriga assim para você.

– Na verdade, eu estou vendo um pouco de pança aqui. Devem ser as cervejas – ela subiu a mão direita para apertar um pedaço do meu abdômen.

– Vai se foder, Alice.

Ela gargalhou.

– E tirar o seu trabalho de fazer isso como meu marido? Nenhum pouco.

– Então se prepare... porque eu estou – tirei minha camisa com um só movimento – para ser promovido. Sabe, porque vou fazer você ter muitos orgasmos, vou fazer um ótimo trabalho.

– Oh céus isso foi brega ao extremo – mesmo assim ela me deixou beijá-la como sempre gostava de ser beijada. – E desde quando você explica suas piadas?

No entanto não pudemos continuar nos beijando, nos tocando, nos provocando e conversando, porque a campainha tocou bem nesse instante.

– Merda – murmurei entre os lábios dela, que foram tentando parar a urgência.

– Rose ligou dizendo que ia passar aqui – Alice disse, sentando no sofá. – Deve ser ela.

– O que vou fazer em relação a isso? – apontei para minha cueca.

– Oh, pense, não sei, no fato de que vamos comprar um poodle e não um pastor alemão.

– Tem razão, vou broxar facilmente.

– A gente termina isso depois – prometeu, dando-me um rápido beijo. Colocou a blusa, fechou o botão da calça e ajeitou os cabelos antes de sair da sala para abrir a porta.

Eu estava preparado para ralhar com Rose sobre o timing perfeito dela, mas quando vi o embrulho em sua mão, esqueci de odiá-la.

– Torta de limão – exclamei pegando a bandeja da mão dela. – Não precisava, prima.

– Oi pra você também, James. Desculpem se estou atrapalhando alguma coisa.

– Não tem problema, estávamos apenas dizendo o quanto amamos uns aos outros, a conversa estava bem chata – falei, colocando um pedaço inteiro da minha torta preferida na boca. Alice estava observando Rose, ocupada com isso para não me dar um tapa no braço e dizer que eu estava sendo sem educação. Eu estava tão entretido no sabor da torta que não reparei no que Alice reparou.

– Não me entenda mal, eu adoro que passa em casa, mas por que não está com Scorpius?

– Eu vou bater nele – falei imediatamente quando Rose suspirou. – Cadê minha arma?

– Não, não brigamos – ela apressou-se a dizer, rindo um pouco. Colocou os cabelos para trás das orelhas como faz desde criança. – Scorpius disse que tem esse jantar importante para ir e eu quero montar a árvore de Natal com ele, então se eu ficar muito tempo olhando para ela vou acabar fazendo isso sozinho. Posso ficar aqui um pouco, até ele voltar? Ou vocês estavam transando e eu fui a pior empata-foda do mundo?

– Foi – eu disse. Alice me deu um tapa.

– Não, Rose, claro que pode ficar aqui. Na verdade, James e eu estávamos pensando em montar nossa árvore amanhã, mas podemos fazer isso agora que você chegou para ajudar.

Ela abriu um sorriso brilhante. Todo mundo sabia que montar árvores de Natal era a coisa mais divertida que Rose gostava de fazer. Eu lembrava quando passávamos o tempo n'A Toca, ela tentava reunir a maior quantidade de porcarias pela casa para arrumar a árvore. Eu tinha a impressão que Rose gostava mais de montar árvore de Natal do que de fato receber presentes.

Pensei nos problemas que Scorpius estava passando na empresa dele e que Rose estava passando mais tempo sem ele do que quando ele estava na Alemanha ultimamente, e fiquei zangado por ver Rose com essa expressão de "vou esconder de meus amigos que me sinto solitária essa noite", mas ela estava óbvia.

Tanto que eu engoli o último pedaço da torta e limpei as mãos, para sugerir:

– Ei, vou ligar para o pessoal. A árvore é gigante. Podemos ainda beber algumas coisas, dançar, cantar karaokê.

– É uma ótima idéia – sorriu Alice, que adorava ser anfitriã. – Mas não tem nada para beber.

– A gente pode pegar o pessoal na casa deles – sugeriu Rose – e aproveitar para ir ao supermercado. Ainda está aberto.

Nós nos preparamos para dar um role pela rua naquela noite, como sempre fizemos antes até de nos acertarmos na vida. Eu dirigia, Alice ao meu lado e Rose atrás cantando com Alice a música das Spice Girls enquanto seguíamos o caminho para a casa de Albus. Dois minutos depois, Albus entrou no dueto. Quando alcançamos perto da rua de Lily, quis logo dar meia-volta porque ela estava na porta do prédio dela beijando um cara e eu não estava nenhum pouco afim de pagar de irmão ciumento naquele dia.

Até que ouvi Albus exclamar:

– Que merda é essa?

– Al, calma – pediu a voz de Rose. – Não é o que você está pensando.

– Jay, estaciona o carro. Rose, como é que você pode pedir pra ter calma?

– Porque eu sei disso há muito tempo, então-

– Você sabe e não contou? James, estaciona o carro!

– Que está acontecendo? – eu perguntei sem entender nada.

Quando estacionei o carro e espreitei na direção de Lily e o cara com ela, eu entrei com o carro na calçada, por causa do susto de ver quem era o rapaz que ela estava aos beijos.

– Ei! – eu gritei.

– James, querido – Alice estava tentando puxar meu braço quando abri a porta e saí pela rua.

– Ei, vocês dois – gritei de novo me aproximando perigosamente.

Lily empurrou Hugo tão depressa que ele caiu perto da lata de lixo. Eu olhei furioso para Lily, que ofegava e eu não tinha tanta certeza se era por causa do beijo que ela estava trocando com o próprio primo dela. Depois simplesmente peguei Hugo pelo colarinho e eu juro que poderia dar um soco nele, se Rose não tivesse gritado:

– James, por favor, não!

– Você ta ok com isso? – eu perguntei, soltando Hugo de volta para a caixa de lixo e me virando severamente para Rose. – Ok que nossos irmãos estão se agarrando? Eles são primos, Rose!

Ela soltou os braços, como se estivesse se rendendo de alguma coisa.

– Não adianta nada brigarmos com ele. Isso já acontece há muito tempo.

– É como se você e eu transássemos – Albus disse a Rose. – É nojento. Quero dizer, não que você seja feia, Rose, você é linda e tudo o mais, mas... você entendeu o meu ponto! Não dá certo.

– Vocês dois – eu apontei o dedo para Lily especialmente – não vão mais continuar com isso.

– Conta outra piada, James – disse Lily. – Nós já ganhamos o sermão dos nossos pais... o vídeo que Hugo fez sobre mim foi óbvio. Eles já gritaram, eles já disseram que isso seria errado, mas adivinha? Eu estou pouco me fodendo para isso, para o que você diz, para o que Albus diz, para o que o mundo diz!

– E você, Hugo? – perguntei. – Todo esse tempo você sendo meu primo preferido... estava fodendo minha irmã nas minhas costas. Essa é a pior traição. A traição de sangue.

Hugo não desviou os olhos de mim e isso não me fez gritar com ele ou querer bater nele de novo.

– É apenas errado se você se arrepende – a voz dele saiu baixa quando citou essa conhecida frase. – Lembra o que você dizia para mim, James? Quando nos levava para um monte de encrencas na escola? Bem, eu não me arrependo. Eu não traí você ou Rose ou ninguém. Eu me traí, por nunca me deixar gostar da Lily do jeito que eu quero gostar dela.

– Ótimo – eu suspirei. – Ótimo. Vocês podem continuar o encontro, os beijos. Mas não se atrevam a aparecer na minha frente de novo.

– James – Lily exclamou com uma voz diferente quando eu dei as costas para ela. Como se ela quisesse me convencer de alguma coisa, me fazer acreditar. – James, não vai ser assim que-

– Vamos – pedi para Rose, que tinha saído do carro. – Não estou mais no humor para montar árvores de Natal.

Ela entrou no carro, seguida por Albus. Deixamos Hugo e Lily para trás e eu não queria mais falar sobre esse assunto no caminho de volta para minha casa.

– James – a voz de Rose chamou pelo silêncio.

– Eu já disse que não quero falar nesse assunto!

– Eu ia dizer para você virar a esquina. Vou voltar pra casa.

Eu e Alice nos entreolhamos.

– Rose, eu não quis... olha, é confuso para mim.

– Eu sei que é, por isso vou voltar para casa. Você tem que pensar no que viu e, acredite, eu fiquei transtornada também, mas se você soubesse o quanto Lily tentou evitar isso...

Eu fiz o que ela pediu, voltando para a casa dela. Quando estacionei na entrada, Rose saiu do carro e em vez de entrar direto, ela deu a volta e apareceu do outro lado da janela no meu lado para dizer baixinho:

– Eu nunca disse isso a Lily porque estar apaixonada por Hugo é a única coisa que a coloca no chão... mas eu também acho que isso não vai dar certo. Hugo é aventureiro, Lily gosta dos homens. Eles não vão terminar juntos. Mas eles não precisam ser lembrados disso, eles também sabem. – Ela se aproximou e me deu um beijo na testa. – Eu te amo e Lily também. Não seja duro com ela. Lily é a pessoa mais sensível que eu conheço. Ela só está protegida por uma casca e eu acho que essa casca sempre foi você. Solte ela um pouco, James.

– Ela já é bem solta, Rose, muito solta.

– Eu quero dizer os sentimentos dela.

De repente a voz de Alice soou do outro lado do carro:

– Vocês dois – e olhou para Albus atrás – preferem que a irmã de vocês passe o rodo em todos os garotos da balada ou que passe a noite assistindo a um filme com um garoto como o Hugo, porque, querendo ou não, ele vem de uma ótima família.

Eu não sabia mais o que pensar.

– Vejo vocês amanhã – disse Rose.

– Rose, escute, a gente ainda pode montar a árvore – falei.

– Eu vou esperar Scorpius, talvez ele consiga escapar mais cedo do jantar. Tchau, Alice.

– Apareça sempre em casa, ok?

– Sempre – sorriu. – E pense no que te falei, James.


SCORPIUS POV

Eu não sei o que eu estava fazendo em um dos mais caros restaurantes franceses da cidade, mas também não estava nem um pouco ansioso para descobrir. No caminho até entrar no local luxuoso e lotado de pessoas importantes, guardei a chave do carro no bolso e, ajeitando a gravata azul da empresa, espiei as mesas e quem as habitava naquela noite.

Uma jovem mulher se aproximou de mim, muito educada e com um sorriso.

– Boa noite, o senhor fez uma reserva?

Nós fizemos – a voz de Sarah soou atrás de mim. Eu e a mulher do restaurante nos viramos para ver Sarah acompanhada pelo seu pai e pela sua mãe, uma mulher alta, de cabelos curtos e olhar hostil. Sarah passou por mim, movendo o pescoço para ainda poder olhar bem em meus olhos e dizer: – Sempre pontual. – E piscou um olho.

– Mais do que o próprio Draco – disse o sr. Parkinson, largando a mão da esposa para apertar a minha. Nesse mesmo momento, meu pai também estava se aproximando. – Draco, é sempre engraçado como toda vez que alguém cita o seu nome, você aparece.

– Sim, muito engraçado. – Eles apertaram a mão, fingindo risos.

– Oi, Draco – disse a sra. Parkinson, que se sentou a mesa quando o marido empurrou sua cadeira de forma muito cavalheira como se estivéssemos no século dezesseis.

– Pansy – meu pai continuou em pé ao lado da mesa oval que fora reservada para aquele jantar familiar e muito amigável entre nós.

– Cadê Astoria? – mas Pansy não esperou resposta, porque aceitou o vinho que o garçom imediatamente trouxe para a mesa. – Oh, eu me esqueci. Ela não foi... convidada. Não é mais uma Malfoy, eu ouvi.

– Então eu acho que será apenas os homens da família – falou Carl Parkinson, sentando-se. Meu pai também sentou. Eu ia me sentar, mas Sarah pigarreou, ainda em pé como se estivesse esperando alguma coisa.

Lembrando que ela dissera "oh, eu vou chupar seu pau, parece tão grande e gostoso" quando tínhamos quinze anos, eu fui até a cadeira vazia ao lado da mãe dela, puxei e a esperei sentar. Fiz uma mesura exagerada. Meu pai agarrou meu pulso, num modo de pedir silenciosamente "não seja imprudente". Eu sorri, ajeitando a gravada, para garantir que eu nunca ousaria.

– Na verdade, não serão apenas os homens da família – disse meu pai quando todos estavam sentados. Sarah e eu um de frente para o outro. E eu ainda lembrando, com certo gosto, que ela ajoelhou aos meus pés naquela época. – Sabe, desde a morte do meu pai, as pessoas têm se esquecido da única pessoa que o ajudou a subir o poder da nossa empresa.

Carl o encarou com interesse.

– Teremos a companhia exuberante de Narcisa essa noite? Que grande surpresa.

– Ela está a caminho – disse meu pai.

– Vamos ordenar o jantar por enquanto, sim? – sugeriu Pansy, que não parecia mais tão satisfeita. Talvez ela não gostasse da minha avó, afinal de contas.

Narcisa Malfoy não andava mais com nenhuma outra cor de vestido exceto o preto desde a morte de meu avô. Ela não confia, ela não sorri, ela não se interessa por ninguém exceto a mim e ao meu pai. Não trabalhou na empresa Malfoy, mas dirigiu meu avô para os caminhos que precisavam ser seguidos. Ela foi a mão direita e esquerda dele e também sempre seria de meu pai. Eu sabia que quando eu via a avó Narcisa em assuntos que não fossem feriados ou viagens em família, mas sim trabalho, negócios, isso significava uma coisa:

A porra era séria.

Dez minutos depois lá estava ela, elegante e esbelta, mesmo com as rugas da idade não se deixava enganar pela bela aparência. Ela estava na faixa dos setenta, mas era impossível decidir sem perguntar. Ela estava, para virar, usando um vestido e um cachecol preto. A mulher do restaurante a acompanhou e mostrou o lugar onde estávamos.

Eu me levantei primeiro que meu pai para puxar uma cadeira a ela, como se eu estivesse me divertindo sendo cavalheiro por uma noite.

Minha avó olhou para mim. E, sem dizer olá para os outros ou qualquer outra coisa, beijou-me no rosto.

Carl abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ela o cortou quando guardou o cachecol na bolsa e se sentou.

– Apenas diga logo onde meu neto precisa assinar, sr. Parkinson.

Eu olhei para eles, sem entender.

– A dívida com a qual Carl ameaçou você pode ser esquecida com apenas a sua assinatura em um papel – conversou meu pai, a voz neutra, como se estivesse me dizendo o que é certo e o que é errado.

– Sim, em um cheque de vinte bilhões de libras.

– E a assinatura da Srta. Parkinson também.

– Como assim? – eu olhei para Sarah. Pela primeira vez naquela noite ela não estava mais olhando para mim. Suas unhas perfeitas pareciam muito interessantes em cima da mesa, onde os dedos estavam entrelaçados.

– Seu pai nunca contou a você, evidentemente – disse Pansy Parkinson –, porque ele casou com sua mãe.

– Ele a ama – eu disse pateticamente.

Minha avó pousou a mão sobre meu pulso.

– Não existem fotos do casamento entre Astoria e Draco porque tudo o que eles tiveram foram papeis, os mesmos tipos de papeis que você precisa assinar agora, querido.

Era a minha vez de não parar de olhar para Sarah.

– Ainda não estou entendendo.

– É bem simples – disse Carl Parkinson. – Conciliar duas grandes empresas é o ato mais poderoso que existe. Nós conciliamos duas empresas casando os herdeiros delas.

– Veja, isso não vai ser necessário – eu não sabia como mantive minha voz calma depois de ouvir aquilo, mas mesmo assim lá estava eu, teimando. – Mandei o meu melhor colega conseguir o pagamento dos Goyle-

– Goyle! – exclamou Carl, gargalhando. – É, assim que eles escutarem a sua mensagem de voz, eles vão parar com o rabo deles na China. E eu quero dizer China mesmo. Não conte com isso, garoto. Nós queremos uma parte da empresa Malfoy para nós, porque nós fomos muito generosos, assim como os Malfoy foram generosos com os Greengrass e, como dívida, sua mãe casou com seu pai. Acontece que há seis anos as coisas começaram a piorar um pouquinho para vocês, já que sua mãe exigiu o divórcio e acabou com qualquer elo existente entre os Malfoy e as empresas Greengrass. Lucius adoeceu com o peso da responsabilidade quando Draco aceitou se divorciar de Astoria, porque as dívidas pioraram. Veja, os Greengrass são bastante influenciáveis e seu avô perdeu, com isso, muita influência, muito dinheiro. Foi nessa época que ajudamos sua empresa, Scorpius. É hora de você concertar o erro da sua mãe, nos agradecendo e assinando esses papeis. Não precisa ser agora, mas em breve.

Eu estava ofegando, quando reparei. Tentei me controlar, porque não queria soar um garoto. Ele estava culpando minha mãe por tudo o que estava acontecendo naquele momento?Eu precisava agir como um homem. Por sorte o garçom trouxe mais vinho. Eu bebi a taça inteira. Sarah apenas deu uma bebericada.

– É a única forma de acabar com a dívida? – perguntei. – Por que não me disseram isso antes? Não sei, talvez enquanto você estraçalhava a minha moto e ameaçava minha família?

– Meu marido tem essa tendência de ser muito... intenso – disse a sra. Parkinson num tom de desculpas.

– Pedi para que Sarah me contasse tudo sobre você. O estilo de vida, os gostos, a quantidade de garotas. Um verdadeiro womanizer. Eu acho que eu apenas não estava preparado naquele momento para assumir o fato de que você vai ter um compromisso com minha doce filha. Eu tinha que te assustar.

– Sim, porque sua filha é muito inocente.

Sarah finalmente me encarou. Sempre foi sua melhor habilidade mandar alguém se foder com o olhar.

– Eu tenho certeza que podemos fazer esse acordo dar certo – disse Carl animado. – Esqueceremos as ameaças, esqueceremos as dívidas e nos tornaremos sócios.

– Como vocês sempre desejaram – disse Narcisa amargurada encarando, de alguma forma, Pansy Parkinson.

– Ainda tem um problema, pai – disse Sarah pela primeira vez.

– Que problema é esse? Podemos nos livrar dele.

– Eu temo que não seja um "pequeno" problema – disse ela baixinho. – É maior do que vocês pensam. Acompanha Scorpius desde a infância dele.

Eu me levantei.

Mas não foi daquele jeito exaltado como se eu fosse quebrar a mesa, mandar aquele Carl para a puta que pariu ou qualquer coisa digna de novela. Eu tirei a mão da minha avó de meu pulso calmamente, afastei a cadeira, levantei-me devagar e disse:

– Com licença.

E saí para o estacionamento.

Fiquei aliviado que meu pai não tentou me impedir, nem mesmo a minha avó. Talvez eles tivessem esperando uma reação pior, por isso fiquei satisfeito por não dar essa satisfação de fazê-los ganhar o que estavam esperando.

Fui para o Três Vassouras. Eu reconheci Eric atrás do balcão e me sentei ao lado de um senhor de idade. Observei as pessoas e meus olhos parar na mesa onde Rose, James, Alice e Lily costumavam se sentar sempre. Comigo, o único que não era da família deles.

– Scorpius – a voz de Eric era surpresa. Eu me virei para ele. – E aí, cara?

– Whisky.

– Não está com a Rose hoje?

– Whisky.

– Claro, claro.

Ele me trouxe a primeira garrafa. No terceiro gole, eu deixei escapar essa informação:

– Ela gostava de você, sabia? Ela me disse. Você a fez ter o orgasmo que ela não conseguia ter mais com o namorado dela, o Brian.

– Bem, mas com ela era só sexo.

– Nunca é – eu disse com a voz vazia, mas enchendo o copo. – Nunca é só sexo com Rose Weasley. – A cada golada, mais vontade de desabafar eu tinha. Eu não fiquei só na vontade. – A primeira vez que eu percebi que eu curtia ela... sabe, mais como amiga... foi em um acampamento. Porra, foi o dia mais quente do ano. As meninas foram trocar de roupa no vestiário delas para nadarem no lago, sabe? A gente tinha uns dezesseis, não lembro... As meninas saíram todas de biquíni para nadar, mas a Rose não... ela tinha colocado uma camiseta grande e laranja dos Chuddley Cannons para tampar...

– Péssima temporada para eles no futebol – lamentou Eric, mas continuou escutando.

– O time preferido dela – acrescentei. – Enfim, quando eu vi ela só com aquela camiseta... eu fiquei duro.

– Ooh, isso é bem romântico – riu Eric, servindo-me mais da bebida.

– Você não entende. Eu podia ter ficado duro olhando para qualquer outra garota de biquíni, mas eu fiquei duro olhando para a garota que tampava a visão do biquíni dela. Eu queria ver o que tinha , entende? E eu ficava olhando e esperando quando ela ia tirar a porra daquela camiseta e vir nadar. E então eu disse: "Ei, Rose, vai ficar aí parada até quando?" e ela olhou para mim. Deu um sorrisinho e tirou a camiseta e pulou rápido na água. E eu então eu pensei: "Porra, por que ela ainda é virgem?" E hoje eu sei a resposta da minha própria pergunta... Porque nunca é só sexo com Rose Weasley.

Eu sorria com a lembrança daquele dia calorento e também com algumas horas que perdi no banho me aliviando com aquela imagem maravilhosa, porque na época ela era a única garota que eu não conseguia ter.

– E se eu me transformar no meu pai? Sabe, amargurado, com raiva de tudo? Eu não quero isso. A única coisa que me separa de ser um filho da puta completo é porque eu tenho Rose. Mas eu não tenho escolhas, agora, tenho? Todas aquelas reuniões, aqueles planos para conseguir pagar a dívida. A quem eu quero enganar? Não ia dar certo. E se eu abrir mão de tudo para só ficar com a Rosie... Eu estaria jogando fora todo o suor dos meus ancestrais... meu avô terá morrido por nada. Mas eu não quero que um papel defina a minha vida. E os anéis, as festa, discursos dos padrinhos? Eu não sou James. Enquanto eu sou um Malfoy, eu nunca vou ter isso.

Dizendo isso, peguei a carteira do bolso e tirei meu cartão para pagar o que consumi e fui embora, a caminho do loft. O lugar que eu e Rose conseguimos compartilhar juntos. Antes de saber que eu teria que usar todo meu dinheiro para tirar minha família e a empresa de uma crise, eu estava pensando em comprar uma casa para mim e ela. Isso parecia ter acontecido há anos.

Subi as escadas, tirando o terno e a gravata. Quando cheguei no andar do apartamento, peguei minhas chaves e abri a porta. Estava tudo escuro, exceto por uma área da sala iluminada como se fosse uma discoteca. A árvore de Natal estava montada, piscas-piscas em volta e um monte de parafernália – Rose tinha até pendurado um cadarço ao redor da árvore. Estava fantástica e combinava com aquela parte da sala, ao lado da televisão. Eu sorri fraquinho.

Talvez ela estivesse tomando banho, mas eu logo olhei para o sofá – o sofá onde a gente transou pela primeira vez. Rose estava deitada nele, dormindo tranquilamente. Tentando não me sentir culpado por ter esquecido que ela estava me esperando para arrumar os enfeites com ela, eu fui até nosso quarto e peguei um cobertor. Aproximei-me dela e quando fui cobri-la, eu vi pela iluminação do pisca-pisca que ela abriu os olhos um tanto assustado. Depois se recompôs.

– Ei, baby – eu disse baixinho, agachando à altura de seu rosto deitado.

– Gostou da árvore?

– Ficou ótima. Você não está brava comigo?

– Por quê?

– Eu não a montei com você.

– Eu sei que tem ficado ocupado ultimamente. Além do mais, vamos ter um monte de Natais juntos. Nós sempre tivemos.

– Sim – eu observei seus lábios. – Sempre.

– Vem cá – ela sorriu e abriu o braço embaixo do edredom como um morcego me convidando para deitar ao lado dela. – Você está com frio.

– Como é que sabe, hein? – falei, enfiando-me ali embaixo ao seu lado.

– Porque você não está comigo – ela disse simplesmente. – E deve estar menos dois graus lá fora – acrescentou.

Deitou sobre mim e me abraçou apertado, dando beijos fracos no meu pescoço, nos cobrindo no cobertor para nos esquentar. Eu acariciei seu cabelo quando ela se confortou com a cabeça no meu peito. Ela voltou rapidamente a dormir assim, mas não pisquei, para variar. Meu celular estava vibrando em meu bolso. Meu pai tentaria me ligar a noite inteira, mas eu não sairia dos braços da minha namorada naquela noite nem que nos despejassem daquele apartamento, por isso desliguei o celular. Eu estava zangado com meus pais, com o fato de ter sido idiota por acreditar que meus realmente poderiam ter se amado, de que eu era fruto de uma união completamente assinada em pedaços de papeis. Fiquei olhando para a árvore de Natal, para o pisca-pisca, sem realmente olhar, sentindo a respiração de Rose contra meu peito, pensando em como eu iria explicar tudo o que estava acontecendo para ela depois que essa noite passasse.

E dessa vez não adiantava mentir para evitar preocupá-la. O resultado no final seria o mesmo, e ia machucá-la.


n/a: Se eu não postar até o Natal, desejo Feliz Natal e Ano Novo a todos!

Se minha vontade de continuar escrevendo dependesse de mais do que cinco leitores que continuam aqui comentando, vocês não veriam atualizações. Elas não são frequentes, mas sempre quando posso eu volto a escrever, não apenas por mim, mas pelos cinco leitores que comentam. São poucos, mas pelo menos ainda são! Então comentem e comentem, e se você está lendo e nunca comentou, não machuca - ao contrário, ilumina meu dia! Pense bem nisso... se gosta, comente =)

Beijos e até o próximo!