2 meses depois...

SCORPIUS POV

James afastou o casaco ao colocar as mãos na cintura. Olhou ao redor do apartamento, para as duas grandes janelas de vidro e a visão perfeita de Londres, depois para o vazio da sala. Um balcão separava a cozinha da sala e um pilar separava a sala de estar para o corredor do quarto e do banheiro.

De todos os comentários que eu estava esperando de James, ele só franziu a testa e deu um suspiro, escondendo talvez um sorriso, para dizer:

– É, é um passo gigante.

– Eu sei – falei.

– Não, quero dizer... agora você está querendo comprar esse apartamento para vocês – avisou. – Depois, quando menos esperar, vai me pedir opinião do anel também.

Olhei para James, piscando.

– Quê? Ainda não estamos – apressei-me a dizer, coçando a nuca.

Você pode não estar... Não são as primeiras prioridades de Rose, mas já pensou no que comprar esse apartamento para vocês representaria para ela?

– Só o que quero é mudar. Ela tem morado naquele apartamento por muito tempo, e já tivemos cinco problemas com o chuveiro.

– Tudo isso porque o chuveiro está com problema? – James riu. – Cara, só compra um chuveiro então. Sério. Se não estiver preparado para assumir outro nível na relação de vocês, só compre um chuveiro novo.

Parecia um ótimo conselho, mas comprar um chuveiro não ia me deixar menos aflito. Eu estava aflito, doido para dar a Rose uma chave para um novo apartamento. Doido para ver a expressão dela se soubesse que eu compraria para nós dois. Uma nova casa, uma nova vida.

Eu não trabalhava mais para a empresa do meu pai há dois meses. Quero dizer, ninguém mais trabalharia para ela durante muito tempo. Meu pai resolveu passar o ano fora de Londres depois que minha mãe o ajudou a pagar a fiança para sair da cadeia. Ele podia não admitir – porque o orgulho do sangue não permitiria –, mas eu tinha certeza que ele estava se sentindo mais livre do que eu mesmo. Além disso, ele parecia apto a mudar a rotina dele e eu tive a breve impressão de que meu pai não estava esperando viajar sozinho por muito tempo. Ele provavelmente estava nos Estados Unidos tentando voltar a conseguir confiança dos Greengrass, da minha mãe.

Sem preocupações com dívidas, mandatos de prisão, dinheiro, processos, reuniões, viagens. Sem preocupações com ameaças. Pela primeira em muito tempo, eu só podia me concentrar nos meus amigos, na minha namorada e no que eu faria para os próximos anos da minha vida.

Mas não tinha raciocinado o grande passo que eu estava dando. Eu só sabia que queria fazer algo para ela, algo grande e significativo. Não porque ela faria vinte e sete anos ou porque nós comemoraríamos mais um ano de namoro.

E também não era porque andávamos tendo alguns problemas no apartamento velho, com vizinhos chatos, chuveiro quebrando toda hora, o síndico do prédio tentando descaradamente dar em cima de Rose toda vez que eles se encontravam.

Era porque... bem, se eu fosse recomeçar a minha vida, que eu recomeçasse com Rose em um lugar novo.

– Como é que você sabe se está preparado? – perguntei a James. – Para o próximo passo.

– Você nunca sabe – respondeu, andando até o balcão da cozinha. – Quando decidi que eu deveria me casar com Alice... ela estava lá, na nossa cozinha, só com a calcinha e... – ele parou de falar e me olhou indiscretamente irritado. – Não a imagine de calcinha!

– Tarde demais – cruzei os braços.

– De qualquer forma – ele me ignorou então –, foi em uma daquelas manhãs de terça-feira, ordinária e que parecia prometer muito tédio. Mas o sol que vinha da janela batia no cabelo de Alice enquanto ela preparava um café da manhã pra gente. O cabelo dela é maravilhoso no sol. E eu pensei naquele momento: "cara, eu quero ter essa visão o tempo todo, todas as manhãs, até eu morrer." E então fui comprar o anel para pedi-la em casamento naquela tarde.

– Foi do nada?

– Não do nada, só... bem, eu sabia que estava fazendo a coisa certa. E se você acha que está fazendo a coisa certa para Rose, vai em frente e compre o apartamento. Ela vai amar.

Pensei no que ele estava me dizendo. E falei, dando uma risada incrédula.

– Você não sente falta da gente falando de peitos e sexo? Olhe só pra gente, agora. Falando de sol no cabelo e manhãs bonitas.

– Podemos falar de peitos e sexo – disse James despreocupado.

– Você odeia quando eu falo da Rose desse jeito. E provavelmente vai atirar em mim se eu falar dos peitos de outra mulher.

– É, a gente nunca mais vai voltar a falar de peitos e sexo – deu um tapinha nas minhas costas antes de dizer que precisava voltar para casa.

James me deixou sozinho ali com algumas coisas na cabeça.

Sorri tentando me imaginar transando com Rose em todos os cantos do apartamento que eu queria comprar. Se eu conseguia imaginar aquilo tão facilmente, era provável que aquele era o lugar certo para nós dois.

A mulher responsável por me vender o apartamento perguntou se eu estava interessado.

– Só me dê alguns dias, preciso falar com minha namorada primeiro.

Ela sorriu.

– Se quer minha opinião, vocês serão muito felizes aqui.

– Sei que está dizendo isso para conseguir me convencer, mas eu também acho.


Naquela noite, o Três Vassouras estava infestada de bexigas por todo o canto. O bar não era chegado a fazer festas de crianças, especialmente porque era um bar e tinha sempre algum casal se agarrando por lá, mas dessa vez foi impossível deixar de fazer. Era aniversário do ex-aluno de Rose, o filho de Eric, um garotinho chamado Johnny. Ele contava para todo mundo que seu pai tinha levado um tiro e sobreviveu. As pessoas se admiravam: "Como ele conseguiu?"

– Meu pai é um super herói! – ele respondia, orgulhosamente, ao lado de sua mãe, a ex-mulher de Eric.

Camille uma vez me desprezara em frente a um cinema inteiro e eu realmente não estava esperando que ela viesse me cumprimentar na festa de seu filho. No entanto, ela se aproximou quando fui pegar as bebidas para o pessoal da mesa.

– Eu li sobre o que aconteceu com a empresa da sua família.

– Olha – eu me apressei a dizer, tentando ser educado. – É aniversário de Johnny e Eric voltou do hospital... não faça Rose vir aqui começar um barraco ou-

Camille sorriu.

– Eu só queria me desculpar. Eu fui precipitada por achar que você se igualaria ao seu pai. Não deveria ter descontado em você os problemas que enfrentamos. E... eu queria muito agradecer pelo que fez pela vida de Eric.

– Eu não acho-

– Eu não sei como Johnny ficaria se...

– Ele merecia o melhor tratamento – falei rapidamente antes que Camille começasse a chorar na minha frente. Eu tinha problemas com mulheres chorando na minha frente. – Não custou nada para mim.

– Não, estou dizendo... eu sei que você doou sangue para ele também. Foi muita sorte vocês serem compatíveis, mas... obrigada.

Antes que ela realmente se debruçasse em lágrimas, Eric se aproximou segurando a cintura de Camille.

– Chorando de novo? – adivinhou, suavemente. – Até parece que essa foi a primeira vez que eu parei no hospital por causa de um tiro. Ela sempre chora quando isso passa. Estou começando a achar que é porque no final das contas eu sempre sobrevivo. Não fique assim, Camille.

– Eu estou bem, eu estou bem – ela fungou. Depois olhou em direção ao pula-pula das crianças. – JOHNNY, SAIA DE CIMA DA GRADE!

E saiu correndo, voltando a ficar brava.

Eric e eu nos encaramos.

– É bom te ver de novo, cara – falei, apertando sua mão.

– Eu só queria dizer que eu faria isso por qualquer uma. Eu tentaria salvar qualquer pessoa, não tem nada a ver por Rose e eu termos dormido juntos por um tempo ou algo assim. Não foi por isso que eu quase me suicidei tentando bater no assaltante.

– Não tinha pensado nisso – franzi a testa e brinquei: – Mas agora estou.

– Não se preocupe – ele disse enquanto ríamos. – Eu acho que isso só me fez pensar que eu tenho que me esforçar mais para conseguir a mãe do meu filho de volta. Eu não vou mais trabalhar aqui. Não pretendo fazer bebidas a vida inteira.

– Sério? Lily vai ficar arrasada, ela só gosta das suas caipirinhas – comentei.

– Não acho que ela vai ligar muito, não – Eric observou Lily brincando com os copos atrás do balcão. Desde que ele esteve internado no hospital, Lily tentou ser sua substituta. E ela fazia um trabalho excelente, misturando as bebidas (só estava sendo distribuído refrigerante, por causa da festa infantil). Só tinha derrubado três copos até aquele momento quando tentou fazer gracinha. Quando derrubou outro, Eric fez uma careta. – Vou ensinar para ela como faz.

Quando ele se aproximou do balcão com Lily, eu voltei para a mesa que James, Alice, Rose e Albus costumávamos sentar. Peguei a cadeira ao lado de Rose e joguei um braço ao redor dela. Aparentemente Rose e Alice estavam contando as novidades.

Presenciar um assalto fez as duas decidirem começar aulas de defesa pessoal em um curso no centro de Londres, então elas estavam sempre comentando alguma coisa nova que aprenderam. Só que naquele momento, a novidade era outra.

– Rose conseguiu até uma paquera – comentou Alice, rindo.

– Isso não é verdade – Rose falou rapidamente sob meu olhar. – É só o jeito dela.

Eu, Albus e James engasgamos.

ELA?

– A instrutora fez Rose de modelo em todas as aulas. Cada movimento que ela ensina pra gente, Rose sempre é o exemplo – contou Alice achando isso divertido. – Eu acho que alguém está caidinha por ela. Lyra é uma fofa. Se eu não fosse casada, poderia dar uma chance.

– Desculpe, se você não fosse casada? – James se debruçou sobre a mesa. – Então o único fato que impede de você pegar uma mulher é porque estamos casados? Querida, eu quero que você faça isso!

– Estão na fase de sexo a três? – indaguei.

– Não – disse Alice lentamente. – Eu só estava brincando. Mas foi bom saber que tem ideias de ter outras mulheres na nossa cama, querido – virou-se para James. – Isso é tão o nosso amor.

– Não julgue, Alice – falou Albus. – As vezes garotas acabam curtindo mais do que a gente.

Você faria sexo à três, Rose? – perguntou Alice.

– Não. Eu acho que é inapropriado. Eu não curto garotas. Quero dizer, pra que fazer isso, certo?

– Pra se divertir – respondi displicentemente.

– Oh, então está tudo bem pra você se eu começar a me agarrar com garotas só porque é divertido?

– Contanto que eu esteja junto, oi. Isso é um sonho – eu falei.

Albus e James concordaram sob olhar incrédulo das duas.

– Mas tudo bem – acrescentei. – Rose nunca conseguiria ficar com uma garota mesmo.

– Ei! – agora ela se ofendeu. – Eu posso perfeitamente pegar uma garota se eu quisesse. Isso soa completamente estranho, mas... Eu só não quero. E eu provavelmente chutaria ela da cama, porque eu sou ciumenta.

Todo mundo riu. Não tínhamos conversa assim há um tempo e foi bom voltarmos a essas discussões idiotas que levavam Rose a ficar vermelha e ao mesmo tempo tentando mostrar que ela podia ser e fazer o que bem entendesse, porque ela não era careta, de jeito nenhum.

Antes de tudo aquilo começar entre mim e Rose, eu me lembrava de sair para uma festa qualquer depois do Três Vassouras e voltar na madrugada com a sensação extasiada, mas vazia, de ter transado com alguma nova pessoa. Eu ainda queria curtir as festas, mas Rose era a única pessoa que eu tinha no final da noite, e isso era... suficiente. Agora.

Ela estava reclamando de alguma coisa enquanto subíamos as escadas para o andar do apartamento. O elevador estava em manutenção durante aquela semana, o que me dava mais um ponto para conversarmos sobre algumas mudanças. No entanto Rose estava se queixando de corrupção, de problemas que enfrentava na nova escola, dos alunos que ela tentava fortemente mudar a atitude mas as vezes era impossível.

Ela estava achando a chave na bolsa, enquanto continuava:

– Afinal, por que alguém faria algo que-

E foi quando eu a interrompi, pela primeira vez naquela noite, para beijar a boca dela com força, encostando-a contra a porta fechada. Seus lábios não estavam realmente preparados para aquele beijo – eu a peguei totalmente de surpresa. Mas não aguentei. Eu precisei fazer isso, eu não sabia explicar.

Quando a soltei, Rose estava com um sorriso confuso enquanto mordia os lábios.

– O que foi isso?

– Não posso beijar minha namorada agora?

– Nem esperou abrir a porta dessa vez. Ah, já sei. Eu estava falando demais, não estava? – preocupou-se.

– É – concordei e fiz careta, mas ela me beijou com o sorriso ainda nos lábios.

– Você pode me calar assim quando quiser – sussurrou de um jeito provocador no segundo que sua boca se desviou para o meu queixo e depois ao pescoço. – Mas eu ainda continuo falando.

Rimos, entrando em casa aos beijos. Botões se abriam, outros arrebentavam. Era louco que um dia nós transávamos por hábito, em outros parecia que não conseguiríamos ficar por mais tempo sem isso. O mais estranho de tudo – um estranho bom – era que não havia motivo nenhum para estarmos tão famintos um pelo outro. Sim, eu a amava, mas isso não significa que toda hora quiséssemos demonstrar isso só com as coisas que estávamos fazendo agora. Mesmo assim, eu não questionava. Apenas o fato de que eu podia voltar a fazer isso com Rose pelo tempo que eu quisesse, me deixava excitado o bastante para não deixar a cama monótona.

Rose abriu minha calça, beliscando meu lábio inferior com os dentes, e me puxou para ela. Tropecei em algum lugar enquanto andávamos até o nosso quarto.

– Eu fui fazer compras na Victoria's Secrets semana passada – ela contou com uma voz sensualmente baixa, provocativa. Eu sorri, enquanto eu tirava minhas meias.

– Tira essa saia logo então – sussurrei desesperado.

Ela me empurrou na cama, de modo que me sentei, sabendo que estava só com a calça e sem camisa. Olhei para seu corpo a minha frente e a puxei lentamente para mais perto de mim, enquanto ela afastava a saia do corpo. Mordi meus lábios, observando a lingerie vermelha. Uau, vermelha, do mesmo tom de seus cabelos, ondulados, que caíam em cascatas por cima dos ombros. Estavam maravilhosos.

– Então os caras ficam mais excitados com uma calcinha mais cara? – ela notou girando os olhos.

– Porra, você fica simplesmente sexy nisso. A cor. Eu adorei.

Mesmo assim, eu queria tirar aquilo logo de uma vez. Era uma contradição inevitável. Era uma tentação maravilhosa.

– Você vai usar isso todo dia aqui dentro de casa. Eu só quero ver isso em você agora – avisei, beijando levemente sua barriga, acariciando suas nádegas ao enfiar a mão embaixo do tecido voluptuoso. – Eu quero ver você preparando aquele café delicioso... só usando isso – abaixei suavemente aquele tecido até seus joelhos. Rose deitou na cama para tirar completamente a roupa, mas ela continuou com a peça de cima. – Eu quero ver você... – deitei sobre ela, beijando seus ombros – todo dia... me enlouquecendo, me provocando, desse jeito sem intenção.

– Você tem – ela concordou, segurando meu rosto e me encarando. Sorriu de forma doce. – Todos os dias. Sempre teve.

Beijei ela com força enquanto tirava minha ereção da cueca e acariciava até eu perder o controle. Entrei dentro dela sem nenhum aviso prévio, mas desejado. Nós gememos a noite inteira, meu quadril impulsionando-se contra o seu, criando o barulho do sexo misturado ao rock 'n' roll agitado da televisão e os sons que saíam da garganta dela.

– Oh sim – ela gemia. Eu acompanhava, apertando o cabelo dela. – Hum! Isso!

Joguei sua cabeça para trás para morder o pescoço. Ela se movia mais inquieta em cima de mim, quando ela ficou no comando. Foram várias inversões de posições naquela noite, o tempo todo, a cama rangendo, tremendo, vibrando, demonstrando falta de espaço para nossos corpos suados, inquietos, loucos. Quando eu estava penetrando-a por trás, Rose apertava a cabeceira com força, para se segurar apoiando os joelhos no colchão. Eu estava extasiado com meu pênis deslizando rápido pela entrada quente dela, que eu tinha a cabeça inclinada para trás, os olhos fechados, então foi quase difícil escutar o som da madeira rachando.

– Você me fez quebrar a cama! – ela exclamou.

Eu estava excitado demais para ter alguma vontade de parar o que eu estava fazendo. Quando diminui a intensidade, Rose disse:

– Tudo bem, tudo bem, era velha mesmo. Continua, não para.

Nós basicamente fizemos um tour pelo apartamento inteiro, como fazíamos quando estávamos com fôlego. No momento que eu estava estocando nela em cima da mesinha de centro da sala, Rose deixou escapar um ofego lamentoso:

– A gente precisa de mais espaço – e riu, jogando os cabelos molhados para trás. Eu beijei sua boca, abafando os gemidos e abrindo mais suas pernas. Estava ficando deliciosamente perto de gozar, quando algum vizinho gritou:

"DÁ PARA VOCÊS FICAREM QUIETOS? TEM GENTE QUE PRECISA TRABALHAR AMANHÃ!"

– Quer parar agora, Rose? – perguntei, provocando. Ela estava naquele estágio de não conseguir formular palavras. Se tentava, o gemido saía estrangulado e delicioso. Sem dar muita atenção para a vizinhança, nós continuamos transando até que ela chegasse no momento de revirar os olhos, enrolar as pernas ao redor da minha cintura e estremecer das pontas dos dedos até os lábios. Eu gozei dois segundos depois. Ao urrar de alívio, a perna da mesinha bambeou e nós dois caímos junto com a madeira. Provavelmente o andar de baixo ouviu bastante.

Rose e eu começamos a gargalhar ofegantes e doloridos. Em todos os lugares.

– Quando é que a gente ficou selvagem? – ela perguntou.

– Acho que a pergunta certa seria há quanto tempo você não troca seus móveis?

– Bem, hoje foi brutal. – Ela fez uma careta exasperada. – Você tomou Viagra de novo?

– Rose, é puro talento natural. Nada de Viagra, nunca. A única vez foi porque o idiota do James me pregou uma peça.

– Nós quebramos a mola do sofá. A minha cama. E agora a mesinha da sala. – Nós estávamos deitados no tapete, perto dos destroços da mesinha, e Rose segurou a madeira como que se lamentando. Ela costumava gostar tanto daquele móvel.

– Hum, o abajur também se foi – apontei. – E uns quadros da sua família.

– Ah cara! Por que não conseguimos só ficar na cama como pessoas normais?

– Porque eu não sou sexualmente entediante – sorri. Ela até sorriu também, puxando meu rosto para o seu e me beijando de leve nos lábios.

– Eu amo que não somos entediantes. Mas se eu soubesse que íamos quebrar tudo ao nosso redor, não teria gastado mais de cem libras nessa calcinha.

– Não vai ter problema – eu acariciei sua perna molhada. – Eu quero levar você a um lugar amanhã de manhã... prometo resolver tudo isso.

Eu a deixei curiosa. Na manhã seguinte Rose não parecia disposta a se levantar, especialmente porque tínhamos passado metade da noite ocupados, arrumando o apartamento de nossa bagunça. Pela primeira vez desde quando nós começamos a morar juntos eu fui o primeiro a acordar. Fiquei deitado na cama, achando graça ao vê-la dormindo tão tranquila, os cabelos despenteados jogados em todas as direções do travesseiro e somente metade da coberta cobrindo suas costas nuas.

Eu estava preparando um café-da-manhã para nós dois quando o telefone tocou. Estranhei que o número vinha de outra cidade, mas lembrei que poderia ser alguém da família dela.

Não era. Era a voz de um homem, perguntando se Rose estava.

– Eu posso deixar o recado – falei.

– Ela foi aceita em nossa instituição e estamos chamando-a para uma entrevista. Ela precisaria retornar a ligação para confirmar a data e o horário.

Fiquei surpreso quando desliguei o telefone. Deixei a torrada queimar. Eu estava dando um jeito naquela bagunça quando Rose apareceu na cozinha atrás de mim. Ela enrolou seus braços ao redor da minha barriga e beijou minhas costas.

– Você nunca fez um café-da-manhã sozinho, não é?

– Por que não me contou que estava procurando emprego em outra cidade? – perguntei diretamente.

– Porque não faz mal tentar – falou sem preocupações. – Mas duvido que me chamem, eu ainda tenho pouca experiência e-

– Bem, adivinhe, você foi chamada – contei, sorrindo. – Para uma entrevista.

– Você ta falando sério? – ela se afastou de mim e colocou a mão na boca.

– É, um cara acabou de ligar aqui, o que me assustou um pouco, mas acho que se você tivesse tendo um caso com ele, não teria dado o número da nossa casa.

– Oh meu Deus. Eu mandei meu currículo para uma escola de Oxford, que minha amiga antiga da faculdade me indicou...

– Oxford? – parecia que a história ia se repetir de novo.

– E eu acho que talvez minhas experiências na revista tenham ajudado um pouco. Ele falou mais alguma coisa?

– Que você deveria retornar a ligação para marcar horário e data.

– Não acredito! Scorpius, você tem noção que quando eu comecei a fazer estágio, uma das escolas que eu mais queria trabalhar era nessa escola de Oxford.

– São crianças, certo? Nada de adolescente tarado?

– Sim, crianças. Não sei se lembra, mas ajudei a arrecadar um pouco de dinheiro para a instituição. As crianças de lá são de dar dó, os pais praticamente as esquecem e...

– Rose Weasley, você vai começar a educar trombadinhas? – zombei.

Ela estava numa mistura de animação e ansiedade, porque riu e abanou a cabeça.

– Não, mas dar aula por lá seria estrondoso no meu currículo. Dizem que qualquer escola contrataria alguém que já teve experiência com aquelas crianças.

Eu a abracei.

– Fico feliz que eles pensaram em você. E, sem dramas, Oxford é bem mais perto do que Alemanha.

– Duas horas de carro – ela falou prontamente, ao se afastar para pegar um suco na geladeira. Rose tinha experiência pelo tempo que passou estudando por lá e voltando nos fins de semanas para Londres. – Mas ainda é cedo pra criar expectativas, certo? – falou insegura. – Ainda preciso responder algumas perguntas.

– Qual a dificuldade? Você vai se sair bem.

– Não acredito que querem me entrevistar. Acho que vou ligar e agendar um horário. – Ela saiu basicamente saltitando da cozinha para fazer a ligação.

Meu sorriso desapareceu facilmente. Não que eu não estivesse feliz por Rose, mas confessei para Albus naquela tarde no clube, enquanto nos arrumávamos para um jogo de futebol despretensioso no campo.

– Eu não sei o que fazer se ela decidir voltar para Oxford. Consegui ficar de boa com isso quando ela estava fazendo faculdade, mas só porque naquela época eu não sabia como era o sexo com ela.

– Sério? – ele ergueu a sobrancelha. – Sério que você está preocupado com isso? Cara, se ela quiser se mudar para Oxford... vai com ela!

– Nós não estamos nos casando – eu falei. Já bastou James me deixar confuso com isso. – O máximo que eu pretendia fazer era comprar um apartamento novo para nós dois. Eu não quero sair de Londres.

– Opa, você vai comprar um apartamento novo pra vocês? Rose sabe disso?

– Eu ia levá-la para conhecer hoje, sabe? Tipo surpresa. Mas Rose ficou distraída com a possibilidade de conseguir o emprego do sonho dela. Eu nem sabia desse emprego do sonho.

– Como não? Rose vivia dizendo na faculdade que queria dar aula naquela escola. Bem – ele riu um pouco, fechando o armário do vestiário. – Você nunca foi muito de prestar atenção quando ela contava. Você dizia que era entediante.

– Bem, e é. Mas... eu achava que como ela tinha voltado para Londres, não teria mais intenção nenhuma de tentar outra coisa em Oxford.

– As coisas mudam, as coisas voltam... Meu conselho? Fique feliz por ela.

– Eu estou – disse com convicção. – E eu sei que ela vai conseguir a vaga. Só não sei o que vou fazer se ela decidir sair de Londres.

Passei uma boa parte daqueles dias na decisão de comprar ou não o apartamento, ou de mostrar a Rose minha intenção. Somente James e Albus sabiam disso e agradeci por eles manterem o segredo. Talvez minha conclusão chegasse a uma em que eu acabaria comprando somente uma nova mesa de centro e um novo chuveiro.

A sacada do apartamento de Rose era recheada de nossas histórias. Estávamos deitados na cadeira de piscina, conversando as novidades e nos beijando. Eu lembrei que eu não queria perder aquela sensação, aquele símbolo entre a gente, e se mudássemos dali seria realmente recomeçar novas histórias.

Eu estava enrolando uma mecha do cabelo dela quando eu disse:

– Você vai sair de Londres?

– Quê?

– Se você começar a trabalhar em Oxford – lembrei.

Ela ficou um tempinho em silêncio.

– Eu não sei... pensar em sair de Londres é...

– Necessário?

– Eu posso voltar todos os dias – sugeriu.

– Você vai ficar muito cansada.

– Bem, a vida nunca é fácil – ela sorriu. – E vai ser pior se nos separássemos. Sei que você nunca sairia de Londres.

– Eu aturei Frankfurt.

– Eu não quero sair de Londres também. Aqui tem Alice e James, Albus... Lily. Oh céus, eu não me imagino longe da Lily. Ela não sobreviveria sem mim por perto. Sabe, estou tendo segundos pensamentos.

– Ei, não desista do que você quer – falei baixinho. – Você sempre me apoiou, eu preciso te apoiar nisso também. E você não quer ficar dando aula como cargo de substituta por muito tempo, certo? É uma grande oportunidade e você trabalhou bastante por isso. Não tenha segundos pensamentos só por causa de um namorado idiota que quer te prender aqui pra sempre – falei, apertando-a em um abraço de urso, deitados. Ela riu, abaixando a cabeça na curva entre o ombro e pescoço. – E muito menos pela Lily. Seu irmão está comendo ela.

– Obrigada por me lembrar – falou, sofrida.

– Falando sério... a gente vai passar por isso numa boa.

– Sei que vamos – beijou fraquinho meus lábios. – Mas é estranho, não? A sensação de que as coisas estão mudando. É inevitável.

Inevitável. Olhei para o céu de Londres, abraçando minha namorada. Era realmente inevitável. Como se apaixonar pela garota que esteve comigo o tempo todo. Como observar que Rose não era mais uma garota, e sim uma mulher. Era inevitável ver as pessoas mudarem diante de si... mas não menos do que você mesmo.

– Eu não acho que é estranho – eu disse. – Eu acho que é bem normal.