POV Rose
Estive tentando evitar a expressão da Alice. Ela não só me conhecia como também conhecia o pensamento humano e isso era a parte mais irritante da minha melhor amiga.
– Não diga nada – eu falei depressa. Ela estava com os braços cruzados, a expressão impassível como de alguém que queria esconder muitas verdades. Depois da tarde que Scorpius me pediu em casamento, eu corri até o consultório da Alice e não me importei que eu estivesse atrapalhando o horário dos seus pacientes. – Sei o que vai dizer.
– O que vou dizer exatamente?
– Que agora Scorpius e eu vamos entrar nesse clima pós-pedido de casamento recusado. Um clima tenso e pesado e não vamos aguentar por mais tempo.
– Na verdade-
– Porque as coisas não estão estranhas entre nós dois, ta bom? Se eu fico pensando no anel e no discurso dele? Sim, eu fico. E se ele fica pensando no modo patético como eu não disse nada... Sim, ele fica. Mas...
– Rose-
– Não, deixe-me dizer uma coisa. Eu não recusei o pedido, ok? Eu só falei para ele que eu não quero que isso vire um tipo de tentativa, como... como aqueles casais que pensam. "Ah, se não der certo é só a gente divorciar." Eu não acredito nisso. É um passo gigante, Alice, como é que você espera que eu aceite rapidamente um pedido desses? Um pedido de casamento? Sendo que Scorpius nunca sequer comentou... que tinha essa intenção de se casar comigo...
– É, parece difícil – a paciente da Alice, garota de treze anos com piercings nas orelhas e na sobrancelha, falou para mim. Estava no divã esperando ser consultada, então foi naquele momento que eu percebi o que diabos eu estava fazendo ali. Atrapalhando Alice em seu trabalho só para desabafar. A garota acrescentou: – Se você ama ele, o casamento vai dar certo. Até o momento em que ele começar a ter necessidade de mandar em você e te bater até você parar no hospital.
– Rose, vamos ali por um segundo. E, Rebeca, deixe os conselhos para mim.
– Só dizendo – ela disse erguendo os braços.
Olhei Rebeca por cima dos ombros até Alice me tirar da sala do consultório e me levar até o corredor.
– Isso foi assustador. Desculpe entrar assim desse jeito, eu estou...
– Você fez a coisa certa – finalmente ela disse.
– Fiz?
– Fez – ela disse sorrindo. – Scorpius sempre seguiu com os instintos dele e você sempre foi o lado racional do nosso grupo inteiro. E uma coisa eu te digo, precisa ser muito racional para recusar o pedido do casamento de um cara que você ama tanto.
– Ou muito idiota.
– Não. Você não foi idiota, você apenas aprendeu a lição.
– Eu fico pensando... eu odeio pensar, mas é assim que eu sou.
– Veja pelo lado bom, Rose, agora você sabe que Scorpius tem a intenção de levar o relacionamento de vocês para esse nível. E isso é importante. Isso mostra que não é só um rolo para ele. Quando o pedido de verdade aparecer, você não vai pensar. Vai dizer sim de primeira.
– Eu só não quero me machucar.
– Eu entendo. Mas agora eu preciso atender os meus pacientes e ganhar dinheiro, ok? Lembre-se que eu faço isso de graça para você.
Sorri um pouco, porque era verdade. Por ser madrinha de seu casamento e sua melhor amiga, nada mais justo do que ganhar umas sessões de conselhos todas as noites no Três Vassouras, sem precisar pagar nada.
Voltei para o meu velho apartamento e subi as escadas, ajeitando a bolsa no ombro enquanto pegava as chaves para abrir a porta. Coincidentemente, Scorpius pegara o elevador e nós dois trombamos um no outro.
– Olha por onde anda, Weasley.
– Olha você – eu o empurrei.
Depois nós sorrimos um para o outro.
– Onde você estava? – perguntei ao reparar que ele estava suado e sujo.
– Jogando uma partida com Al e James. Perdemos feio. Cinco a três.
– Fez algum gol?
– Sim. Dois. Para o time adversário.
– Você é um desastre.
– Eu estava distraído. Não é todo dia que eu peço uma namorada em casamento e ela recusa.
– Ah que legal, vai jogar isso na minha cara agora – girei olhos. Entramos juntos em casa e ele se jogou no sofá, espreguiçando-se.
– Scorpius, você sabe o que eu penso sobre coisas sujas no sofá!
Ao invés de ser teimoso e me ignorar, como ele adorava fazer, na verdade acabou se levantando como se eu tivesse avisado que um vírus mortal estava espalhado pelo tecido das almofadas. Foi tão cômico o modo como tentou reverter a situação que eu ergui as sobrancelhas.
– Foi mal. Eu esqueci. Não vou mais fazer isso. Pronto – ele passou a palma da mão pelo sofá ajeitando as almofadas –, está limpo de novo. De fato, eu vou tomar banho agora para não sujar o chão também.
– Seria ótimo – brinquei.
Ela zarpou para o banheiro tirando a camisa.
Não estamos estranhos, pensei com convicção. Não estamos estranhos.
Mas foi bem estranho quando tentei abrir a porta do banheiro para tomar banho com ele – porque era a parte que eu mais gostava depois que voltávamos para casa juntos – e fui surpreendida pelo fato dela estar trancada.
Scorpius trancou a maldita da porta.
– Scorpius! – bati na porta cinco vezes, estupefata. – Por que você trancou a porta?
Ele destrancou e abriu a porta apenas para que seu rosto molhado aparecesse em minha visão.
– Desculpe, amor, mas fui ensinado que sexo... só depois do casamento.
E fechou a porta na minha cara.
– Muito engraçado! – eu exclamei, rindo com todas as sílabas.
Mas não insisti em discutir com ele, porque algo me veio a cabeça, e foi o fato de que eu com certeza havia magoado ele. Querendo ou não, eu o magoei. Era inevitável, ele havia comprado um anel e ficado de joelho para me pedir em casamento. Minha reação foi "O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?" Como ficar impassível diante disso? Ele nunca de fato conseguiu agir de um modo escroto comigo, então eu precisava ler as entrelinhas. E suas gracinhas eram o modo de demonstrar que ele estava... é, ele estava mesmo magoado e não queria ver a minha cara por um bom tempo.
– Scorpius – murmurei atrás da porta. Juntei minha mão perto da maçaneta e disse com a voz abafada: – Eu te amo.
Esperei resposta. Demorou um pouquinho.
– Eu sou patético.
– Amo mesmo assim – sorri. – E sei que está bravo comigo. De fato, eu não espero que você não fique...
– Não estou bravo. Não é sua culpa.
– Mas quer um tempo sozinho, certo?
– É sério o que eu falei – a voz dele do outro lado me fez encostar a testa na madeira. – Não é todo dia que peço alguém em casamento. Eu preciso entender o que eu tentei fazer.
– Você pode ser franco comigo, sabia? É porque eu te conheço bem demais, mas se fosse outra mulher, ela não entenderia que você está magoado.
– Nunca vai ser outra mulher.
Fiquei calada.
– Bom – pigarreei. – Sem beijos até o casamento também?
Ele abriu a porta e eu nem vi direito a cabeça dele se aproximar para me dar um beijo. Só senti os lábios dele. Foi uma bitoquinha. Ele fechou a porta de novo.
Porra, eu fiz Scorpius precisar de espaço.
Quando saiu do banho, ele era um novo homem. Porque ele apareceu na sala e não estava com a toalha na cintura para me provocar com um striptease. Ele estava descalço, uma calça jeans preta e a camisa branca que ficava perfeita em seu abdômen. Eu estava lendo e ergui os olhos do livro quando ele anunciou:
– Vou fazer o jantar.
– Desde quando você faz o jantar?
– Sempre fiz jantar, Rose – ele disse despreocupado. – Como acha que sobrevivi todos os anos antes de morar com você?
– Pizza. Comida chinesa. Japonesa. E lasanha congelada. Sem contar que você já conseguiu queimar a lasanha que só precisava colocar no microondas. A única coisa que você sabe fazer é pipoca porque eu te ensinei.
– O que acha que eu estava preparando para essa noite? Comida de hotel? É claro que eu vou fazer pipoca.
Uma felicidade bateu em mim como se ela estivesse ali para me aliviar de muitas coisas – como o fato de que Scorpius podia estar ressentido comigo, mas que ele estava se esforçando para não deixar isso abalá-lo completamente. E saber que Scorpius ia fazer pipoca só significava uma coisa...
– Vou aprontar os DVDs enquanto isso! – eu disse animada. – Qual temporada você parou?
– Terceira – respondeu lá da cozinha.
– Espera. Você conseguiu assistir três temporadas sem que eu soubesse? E se você estivesse me traindo, como é que eu saberia?
– Eu estava te traindo. Tenho sonhos com Addison. Aquela ruiva é uma delícia.
– E eu que achei que eu era a única ruiva da sua vida – lamentei.
– Eu tenho várias ruivas na minha vida – ele disse. – Você acontece de ser a melhor delas.
– Porque eu sou real.
Sorriu, enquanto aprontava a pipoca.
– Exatamente por isso.
Passamos o final da noite assistindo ao seriado. Era realmente inacreditável que Scorpius estivesse tão compenetrado na história. Estava com o corpo atrás de mim, deitado, enquanto beliscava o balde de pipoca perto da minha barriga. Sua respiração no meu ouvido, e ele sempre murmurava quando a Addison aparecia:
– Muito gostosa.
O que o fez ficar muito chateado com o final daquela temporada. Quando começamos a próxima temporada, ele me encarou seriamente.
– Não acredito.
– O quê?
– Não acredito. Cadê ela?
– Não se preocupe, amor, vão ter outras mais gostosas para você aproveitar. Enquanto isso... eu posso sonhar com o meu Dr. McDreamy até o final.
– Eu pensei que eu fosse o seu único McDreamy.
– Tenho vários, mas acontece que você é o melhor.
– Porque sou real.
– Não, é porque você é mais gostoso mesmo.
Nós sorrimos. Eram nesses momentos que eu pensava como era muito bom, muito confortável, muito certo, como sempre foi desde que adquirimos costumes de assistir a filmes juntos.
– Escute – ele murmurou. – Vou fazer isso certo, ok? Vamos esperar o resultado da sua última entrevista. Se você tiver que sair de Londres, vou sair com você. Se por um acaso os caras forem idiotas e não te chamarem, vamos continuar aqui... mas quero viver em um lugar novo com você. Então, só então, eu te mostro o apartamento.
– Ok – eu disse baixinho. – Parece uma ótima ideia.
Beijou meu pescoço e subiu os lábios até os meus. Sua mão direita acariciava minha barriga até que os dedos tirassem a minha camiseta. Eu apertei levemente sua calça, sempre deliciada com a reação dele a isso. Sorrimos, e então ele disse:
– Você me faz bem, Weasley. Não vou desistir da gente.
Beijei sua boca profundamente.
Eu sabia que era só uma questão de tempo.
Porque vontade, sim, eu tinha muita.
De viver a vida inteira com ele.
Aliás, eu já estava vivendo.
Lembro da primeira noite que o Três Vassouras foi inaugurado. James havia ganhado seu último jogo da faculdade, por isso chamou metade do seu prédio para uma festa que durou a noite inteira. Ele e Alice ainda nem se conheciam direito, mas James com certeza estava disposto a vê-la não somente na arquibancada comigo, torcendo por ele, mas também nas comemorações do time. Depois daquela noite, foram meses até que eles finalmente dessem o primeiro beijo. De repente, quando você menos espera, seu primo e sua melhor amiga estão fazendo planos para o casamento. Depois, para comprar um cachorro e agora...
– Vocês querem adotar? – minha voz saiu meio estrangulada de excitação quando eles confessaram aquilo para nós.
– Por favor, digam que estão se referindo a mais um cão.
– Não, Lily – Alice estava sorrindo, abraçada a James. – James e eu conversamos bastante e decidimos que merecemos isso.
– Você quer dizer... o tamanho de um saco de batatas que chora e é dependente de você até depois dos vinte e um?
– Lily não quer ter filhos, obviamente – eu comentei, girando os olhos.
– Sou contra isso. No mundo que estamos? Ninguém merece. Nem mesmo a criança.
– Nem uma criança que a mãe não pode cuidar e deixa em um orfanato? Eu não posso ter filhos – relembrou James. – Mas acho que posso tomar conta de um.
– E queremos ter uma família.
– Vocês têm uma família. Eu! – Lily apontou para si mesma. Ela sempre foi a mais difícil do grupo em aceitar mudanças. – E mais setenta primos!
– Eu acho que vocês vão se dar bem com um filho – disse baixinho o Albus. Nós ficamos um tempinho em silêncio, meio que relembrando a época que Albus estava se preparando para ser pai, mas sua ex-namorada acabou perdendo o filho e, então, ele teve que conviver com esse peso por um bom tempo. Kate nunca mais procurou Albus, e ele não conseguia mais sair com qualquer garota agora. A vida deles mudaram completamente. Um filho faz isso com você, mesmo sem nunca ter nascido.
Scorpius esbarrou o pé na cadeira e xingou em voz alta, pela dor. Lily sorriu para ele quando sentou ao meu lado.
– Quando casar sara, Scorpius.
Todos riram de nós. Acreditem, o fato de eu ter recusado o pedido de casamento virou uma piada entre eles. Scorpius somente ajeitou a gravata e jogou um braço ao meu redor.
– Quando casarmos, nunca mais veremos a Lily de novo – ele disse e eu afirmei.
– Nunca mais.
– Sobrevivo – ela cruzou as pernas. – Com o seu irmão.
– Oooh não comecem! – exclamou James, enquanto ríamos e debochávamos. – Por favor.
– É melhor não tirar a Rose do sério, Lils – comentou Alice. – Ela está entre a melhor da turma nas aulas de segurança pessoal. Pode te nocautear.
Fingi um golpe com as mãos. Enquanto isso, James pediu mais uma rodada para o Eric no balcão. Quando ele se aproximou com as bebidas para nós, sua expressão era estranha. Ele geralmente deixava a bebida para nós e voltava para o balcão, mas dessa vez ficou ali parado olhando para nós.
– Preciso falar com vocês.
– Manda, Eric.
– Finalmente vamos ganhar desconto, não é? – eu disse esperançosa.
– Do que está reclamando? – riu Lily. – Você teve descontos. É só voltar a dormir com ele.
Eric apenas sorriu, enquanto eu ficava vermelha. Tentei evitar não olhar para o Scorpius nesse momento, que estava fuzilando Lily com o olhar.
– Escutem... eu vendi o Três Vassouras.
Nossas risadas pararam imediatamente ao ouvirmos aquele anúncio.
– Oi? – Alice não entendeu.
– Vendi o bar. Eu preciso ajudar Camille com o Johnny. Eu precisei vender. O bar já não estava rendendo muito e tinha contas imensas para pagar. – Ele tentou ser fofo para não sofrer as consequências com as nossas expressões. – Hoje a bebida é por minha conta. E semana que vem precisarei trancar o Três Vassouras, então...
Ele fez um gesto e se afastou para o balcão. Por isso andava tão distraído. E talvez... ele não conseguia ficar muito tempo sem lembrar que havia levado um tiro nesse mesmo lugar. De alguma forma, querendo ou não, o Três Vassouras mudou desde aquela noite.
Não conseguimos aproveitar como precisávamos nossa última noite nele. James teve uma chamada de emergência na delegacia, por isso precisou sair rápido, e estávamos abalados com a notícia de que nosso lugar preferido iria fechar.
– Não é o fim do mundo, é? – preocupou-se Hugo ao observar nossas expressões.
– Você não entende, Hugo – eu disse, apenas triste. – Você esteve fora por mais de três anos e não sabe o mínimo do que o lugar representou para nós.
– O Três Vassouras foi como o refúgio de um dia estressante na faculdade e no trabalho – Alice o lembrou.
– Se o Scorpius usar o dinheiro dele para o bem, poderia ajudar Eric a pagar as contas.
– Lily!
– Só estou dando a dica.
– Eric não aceita caridade – disse Scorpius. – Caso contrário, eu o ajudaria.
– Ah, cara, não quero me despedir do lugar – disse Albus. – O que vamos fazer?
– Achar outro lugar. Não é sempre assim? – respondeu Lily.
Mas não parecia ser algo fácil. Antes de ir embora, olhei para Eric no balcão e ele ergueu a mão para dar um tchau. Sorri e fiz o mesmo, lembrando-me do breve tempo que ficamos juntos. Será que ainda nos veríamos ou aquela também era uma despedida? Isso era um sinal de que, realmente, as coisas deveriam mudar? Quero dizer, a própria Lily condenava mudanças, mas ela mesma estava mais responsável com os trabalhos finais da faculdade e com a ideia de conseguir um emprego digno assim que se formasse. Ela não era assim há dois anos. Querendo ou não, todos nós tínhamos que concordar que Hugo fazia ela tomar jeito. Não estava se entupindo com as bebidas e nem mesmo dando em cima de qualquer cara bonito por aí – embora para alguém como ela fosse difícil controlar os olhares para uns gatos que apareciam na rua.
– Scorpius te entende – eu falei enquanto caminhávamos juntas pela rua, já que Lily precisava comprar um belo vestido para sua festa de formatura até o fim daquele mês. Lily tinha sorrido para um rapaz conhecido que passou por nós e ela o observou até o final da rua. Tentou disfarçar, mas ela não me enganava. – Ele tenta não secar as mulheres quando estou por perto. Coitadinho, deve ser tão difícil para ele.
– Olhar não é trair – era esse o lema dela. – Eu só ia dizer que ele combina com você, estava checando.
Olhei para ela inconformada.
– Você não desiste de arrumar algum cara para mim, não é? Eu estou feliz com Scorpius, sabia?
– Então por que recusou o pedido de casamento dele? Falando sério agora, Rose, por que você fez isso?
Achei que, de todas as pessoas, Lily seria a que mais entenderia. Mas ela estava inconformada.
– Não foi porque eu não o amo.
– Por que então? Ele ficou chateado, eu consigo notar. Nunca vi Scorpius do jeito que ele está.
– Você não entende, Lily. Eu não estou preparada. Ele também não está! Alice disse que fiz a coisa certa.
– Claro que fez a coisa certa. Mas estamos falando de casamento. Desde quando isso vai ser a coisa certa? Você quer casar com ele? Sim ou não, rápido.
– Sim!
Ela sorriu.
– Não é novidade – eu acrescentei. – Não sei nem porque ele achou necessidade de perguntar. Ou de ficar de joelhos. Eu o amo suficientemente para querer isso.
– Por que diabos não falou isso para ele?
– Eu entrei em pânico! – confessei. Ergui um pouco a voz, então um pessoal que estava passando ficou olhando, mas depois pigarreei e abaixei o tom de voz. – Quantas vezes um cara ficou de joelhos para me perguntar aquilo? Poxa, eu entrei em pânico. Comecei a ter essas imagens, mas também lembranças do quanto ele já me magoou também.
– Ele já te magoou?
– Não intencionalmente – respondi baixinho. – Como acha que eu ficava quando ele passava a festa inteira comigo e saía para pegar alguma garota? O jeito que ele falava das garotas como se não me ofendesse também? Eu consegui aguentar tudo isso, mas agora? E se ele pisar na bola?
– Claro que ele vai pisar na bola. Até parece que você não sabe disso.
– Não posso suportar perder o que tenho com ele – eu murmurei. – Não posso suportar se virarmos estranhos como eu agora sou para o Brian.
Ela fez uma careta.
– Você acabou de mencionar aquele pé rapado na conversa? Ele realmente foi um trauma na sua vida, hein, Rose? E ele não tem nada a ver com Scorpius. Começando pelo Scorpius ser um cara bem mais legal do que aquele escroto foi.
Eu nunca compreendi como Lily podia detestar tanto o meu ex-namorado daquela forma. Durante o final daquela tarde, não parou de apontar as diferenças gritantes entre Scorpius e ele, garantindo que a maior delas era o fato de Scorpius nunca, jamais, ter me deixado entediada na cama. Como sempre, isso era muito importante para Lily.
Por algum motivo, Scorpius estava interessado em culinária. Cheguei em casa naquela noite e o flagrei tentando limpar fogão queimado. Quando me viu parada na cozinha, com a expressão surpresa e estupefata, ele se virou depressa.
– Eu posso explicar. Eu estava tentando... você sabe... aumentar meu repertório de comida. Eu já tenho vinte e sete anos e só sei fazer pipoca. Que vergonha, não é?
Ele tinha uma sujeirinha no queixo.
– Eu vou limpar, juro.
– Você está estranho – comentei. – A culpa é minha, não é?
– Na verdade, a culpa é do James.
– Por quê?
– Porque ele sabe cozinhar.
– Ah, sim, ele é ótimo – falei. – Melhor do que a Alice.
– Então – ele passou a mão no rosto, cansado. – Eu queria ser bom nisso também.
– Quer aprender a cozinhar que nem o James?
– Sim.
– Então vai precisar se matricular em um curso de culinária. Por que acha que James é tão bom? Por que ele tem um dom? Não, quando ela tinha treze anos, Lily quis fazer um curso de culinária e os pais dela obrigaram James a acompanhá-la todo sábado. Ele acabou gostando mais do curso do que a própria Lily e fez o curso no lugar dela, escondido, enquanto meus tios achavam que Lily estava fazendo.
A expressão de Scorpius não tinha preço.
– Como é que eu nunca soube disso?
– Porque ele ameaçou Lily a nunca contar a ninguém. Acontece que Lily contou a mim porque ela estava com raiva do James quando ele descobriu que ela e o Hugo estavam juntos e brigou com eles.
Precisou de alguns minutos para Scorpius se recompor das gargalhadas. Eu também estava rindo, só imaginando o James de treze anos querendo ser o melhor de uma classe com crianças de nove.
– Acho que devíamos encomendar uma pizza – ele disse quando as risadas cessaram. – Sou um desastre na cozinha.
– Não é não – eu disse, tirando a sujeira do seu queixo. – Só é falta de prática.
– Eu estava esperando te surpreender com um jantar quando voltasse para casa. Acho que vou precisar de alguns anos até isso acontecer.
– Ou você pode pedir para James ensiná-lo a cozinhar.
Gargalhamos mais um pouco.
– Sabe que essa é uma ótima ideia.
– Eu vou tomar banho – avisei, dando-lhe um beijo. – Quando eu terminar-
– Sua cozinha estará novinha em folha – prometeu, devolvendo o beijo mais algumas vezes.
– Que bom.
– Amor – ele chamou quando eu estava cruzando o corredor. – Amanhã... convidei meus pais para jantarem com a gente.
– Quê? – eu soltei involuntariamente.
– Meus pais. Eles voltaram da viagem, e eu chamei eles para jantarem com a gente.
– Scorpius... você sabe que nesse sábado meus pais aparecem para jantar também, não sabe? Eu combinei com eles e não posso desmarcar e...
– Não é para desmarcar.
Olhei seriamente para o meu namorado.
– Você fez isso de propósito?
– É pedir para uma bomba explodir, não é?
– É – admiti. – Por que vai querer correr o risco?
– Porque você vale à pena – respondeu displicentemente, como se ele não soubesse o quanto suas palavras me afetavam desde sempre. E de um jeito bom.
Não sabia se eu entrava em pânico ou se eu o beijava ali mesmo. Mas percebi que eu precisava parar de ficar entrando em pânico. Scorpius tinha acabado de dizer que correria o risco de fazermos nossos pais sentarem em nossa mesa para uma conversa pacífica. Sobre o quê, eu não fazia absoluta ideia. Mas, de algum modo, notei que tínhamos enrolado demais para fazer isso acontecer.
Mostrar aos nossos pais que, desde os sete anos, nosso relacionamento nunca foi só uma brincadeira. E estava ainda mais sério agora.
– Meu cabelo está bom?
– Sim, sim, incrível – eu disse, no final da tarde seguinte, enquanto nos preparávamos para o jantar com nossos pais. Estávamos agitados. Scorpius abotoava a camisa social preta, penteando o cabelo loiro para trás com os dedos ao mesmo tempo, e eu acabara de limpar a cozinha para ajeitar a sala de visitas para nossos pais. – Meu decote está muito a mostra?
– Você está uma delícia – ele fez uma careta, porque não é para ser assim.
– Merda – eu disse, tirando a blusa por cima da cabeça com um rápido movimento. Andei de sutiã pelo corredor até nosso quarto. – Vou ter que trocar por uma blusa mais discreta.
– Acha que eu deveria colocar alguma gravata?
– Não, está ótimo assim. Meu pai vai achar que você quer impressioná-lo e puxar o saco dele. Melhor não.
Eu estava com o colarinho da blusa na altura do queixo quando ouvimos a campainha.
Tentamos manter a calma.
Eu tropecei no vaso de flor quando meio que corri para atender a porta.
– Merda, merda, merda.
– Calma, Rosie – disse Scorpius agachando-se a minha altura para me ajudar a pegar os pedaços da porcelana que caíram no chão. Ele tirou um pedaço da minha franja caída no rosto quando observou minha expressão.
Naquele momento, o mundo parou. O sorriso de Scorpius era a única coisa que importava.
Dei um enorme suspiro, para manter a calma. Os olhos de Scorpius eram capazes disso. Sempre foram. Quantas vezes ele já me tranquilizou de tantas coisas? Quero dizer, quando tivemos nossas avaliações finais no colegial, ou em uma apresentação do meu clube de teatro em que eu definitivamente saberia que ia gaguejar nas falas. Ele sempre esteve lá para sorrir para mim e dizer:
– Não fica nervosa.
Mesmo ele sabendo que essa frase nunca mudou nada em meu estado de espírito.
– Só quero que dê tudo certo.
– Vai sim. E mesmo se não der... mesmo se nossos pais saírem tacando nosso jantar um no outro... ainda temos pizzas para encomendar.
Eu abri um sorriso para retribuir o dele. Lembrei-me da nossa primeira vez, e foi em uma noite parecida como essa. Joguei os cacos de porcelana no lixo para pegar sua mão.
Antes de abrir a porta, nos entreolhamos:
– Eu te amo.
– Eu também.
Eu o empurrei quando ele colocou a língua na minha boca.
– Língua? Sério? Agora?
– Foi mal. Também estou nervoso.
Ajeitou a gola da camisa, pigarreou e abriu a porta.
– Boa noite, sr. Weas-
Meu pai e minha mãe estavam encharcados dos pés a cabeça. Aparentemente eles não tiveram uma viagem tranquila, porque meu pai ignorou Scorpius para se aproximar de mim e me agarrar em um abraço e beijo no rosto.
– O carro quebrou na esquina – contou minha mãe em um tom de desculpas, quando apertou a mão de Scorpius. – Pegamos a maior chuva.
– Por que não ligaram para mim? Nós buscaríamos vocês – eu disse depressa quando meu pai me soltou.
– Já estávamos perto mesmo – ele respondeu. Finalmente olhou para Scorpius. – Boa noite, Malfoy. Como vai?
– Bem, e o senhor? – Scorpius observou a expressão dele. – Tirando a parte da chuva, é claro. Deixe-me colocar seus casacos no cabide.
Embora meu pai tivesse entregado o casaco para Scorpius, acusou:
– Ele está puxando meu saco, Rose, você disse que ele não faria isso.
Minha mãe sorriu graciosamente para a educação de Scorpius.
– Não ligue para Ronald, Scorpius. Não existe remédio para ciúmes de pai.
– Então Alice e James também vem?
– Não – eu respondi. – Por quê?
– Ora, por que tem mais dois pratos na mesa se estamos em quatro?
Scorpius e eu nos entreolhamos.
– Você não contou a eles? – ele perguntou baixinho a mim.
– Contei a minha mãe – eu retruquei.
Nós, incluindo meu pai, encaramos Hermione – meu pai um pouco mais surpreso.
E nervoso.
– Mione?
Ela tentou se desculpar ou se explicar, mas depois fez um som impaciente com a boca.
– Ora, todo mundo sabe que Ron não aceitaria jantar aqui se eu tivesse contado!
Isso era verdade.
– Contado o que exatamente, querida?
A campainha respondeu a pergunta.
Muito diferente de meus pais, os pais de Scorpius chegaram com suas vestes da elite intactas. Não haviam sido devorados pela chuva. Astoria, inclusive, afastou o guarda-chuva que segurava em mãos para abraçar fortemente Scorpius quando entraram na sala. Ela me abraçou logo em seguida, enquanto Scorpius apertava a mão de Draco e fechava a porta atrás de si.
– Como foram de viagem? – eu perguntei.
– Excelente – respondeu Astoria com um sorriso no rosto. – Seu pai até pegou uma cor, Scorpius.
Isso era uma mentira, claro, pois Draco estava com a mesma cor pálida que Scorpius herdou.
– Uma cor vermelha – acrescentou Draco. – Nunca mais vou à praia.
Eu não via aquele sorriso em Scorpius desde a época que seu avô tinha morrido. Scorpius nunca se deu como um romântico que acreditava nas belezas do amor, mas era louco o modo como seu humor e suas atitudes eram tão relacionadas aos pais. Ainda divorciados, estavam tentando voltar a se conhecerem. Scorpius sabia que era ridículo achar que os pais poderiam se casar outra vez, mas eu mesma reparei como ambos estavam mais... relaxados.
Talvez tudo o que Draco precisava era se distanciar do trabalho. A empresa sendo processada teve uma ajuda nisso.
– Pai, mãe... esses são os pais da Rose. Ronald e Hermione...
– Weasley, claro – disse Astoria e foi mais rápido do que Draco na reação ao cumprimentá-los.
– Comporte-se – ouvi minha mãe dizer com o canto da boca para o meu pai.
Ele olhou para mim, depois para Scorpius e depois para Draco.
– Quanto tempo, Malfoy – apenas disse.
Apertaram as mãos.
Nada explodiu, o que era um bom começo.
– A última vez foi quando? – quis relembrar Astoria.
– Provavelmente na reunião de pais – respondeu minha mãe. – Quando eles ainda estavam na escola.
– Draco certamente não vai se lembrar, ele nunca aparecia nas reuniões de Scorpius.
– Astoria.
– E não é verdade? Em parte porque o Scorpius aqui... nunca nos avisava sobre reunião alguma. Eu recebia tanto telefonema da diretora.
– Um garoto problema – comentou minha mãe em resposta, mas ela sorria. – Definitivamente me lembro desse Scorpius.
– Rose me manteve sempre na linha – ele garantiu, puxando-me pela cintura lentamente, suavemente, gentilmente. – E ainda mantém, não é, amor?
– Foi ficando mais fácil com os anos – admiti. Pigarreei e, sem medir minhas palavras, eu as dirigi a mãe dele. – Ele é a pessoa mais incrível que eu conheço, você o criou perfeitamente, Astoria. Sempre quis dizer isso a senhora.
– Não é novidade – falou, sorrindo. – Mas preciso dizer... – dirigiu-se aos meus pais –, meu filho não seria o mesmo sem a sua.
Meus pais ficaram bem sem-graças. E agradecidos. Houve um momento silencioso e constrangedor em que nossas famílias não sabiam mais o que dizer uma para a outra. Conversar sobre a chuva? Não, pelo amor de Deus. Mas mamãe era sempre boa em situações como essa:
– Rose, vocês pretendem continuar no apartamento?
– Não – eu respondi primeiro que Scorpius. – Na verdade, foi por isso que nós chamamos vocês para o jantar, então eu tenho uma novidade para contar.
– Nós temos – corrigiu Scorpius.
– Contaremos nos jantar.
Nossos pais se entreolharam preocupados, mas finalmente se dirigiram a mesa da sala. Nossas mães faziam a tentativa das conversas e elas eram realmente naturais, algo como "Rose me disse que gerencia grandes hoteis pelos países" – e Astoria contava sobre seu novo hotel.
Por outro lado, nossos pais estavam bem calados, não se olhavam muito, evitando desastres, evitando grosseria, evitando estragar aquela noite. Tive que reconhecer o esforço do meu pai, e o de Draco também.
Não tiveram insultos.
– Então, vocês têm uma novidade para nos contar – relembrou minha mãe. – Está me deixando curiosa, Rosie.
– Fui chamada para uma das maiores escolas de Liverpool, e vou me mudar para lá no começo do ano que vem.
– Nós vamos – corrigiu Scorpius de novo.
– Por que você também vai, Scorpius? Achei que gostasse de Londres – disse o pai de Scorpius pela primeira vez desde que sentamos na mesa.
Fiquei um tanto tensa com o que Scorpius responderia. Mas ele foi tranquilo.
– Bem, eu gosto da Rose mais.
Draco ia retrucar alguma coisa, mas Astoria segurou seu pulso e os dois não fizeram mais nenhum comentário.
– Meus parabéns, filha! – exclamou minha mãe se levantando para me abraçar. – Eu sabia que seu talento de ensinar finalmente seria reconhecido!
Sempre fui paparicada pela minha mãe em assuntos do meu futuro.
– Rose, isso é ótimo – disse papai e eu sorri para o brilhante sorriso dele.
– Então vocês... pensam em casamento? – perguntou Draco.
– Eu penso – admitiu Scorpius. – Rose ainda não. Recusou meu pedido semana passada. Está tudo bem, superei.
– Quê? – exclamou meu pai, baixinho, sem acreditar.
Draco também parecia surpreso quando me encarou.
– Então você tem o bom senso da relação, srta. Weasley. Impressionante.
– Draco – advertiu Astoria, porque era possível que o pai de Scorpius não notasse que as coisas que diziam podiam afetar seriamente.
– Vamos, Astoria, até você concorda que ele é imaturo demais para isso. Os dois são.
– Eu discordo, na verdade – ela retrucou. – Acho que Scorpius já tem idade o suficiente para decidir o futuro dele por si mesmo, sem a sua ajuda ou o seu palpite.
– Bem, ele claramente não entende o que isso significa. Não faz a menor ideia.
A voz de Astoria saiu baixinha como se não quisesse que escutássemos.
– Não comece a jogar o fato de que o nosso casamento foi um desastre para influenciar as decisões do nosso filho, Draco. Como se o verdadeiro problema tivesse sido o casamento.
– O que quer dizer com isso?
– Quero dizer que Scorpius não é você, Draco. A vida dele não é a sua.
Silêncio.
Foi tão verdadeira essas palavras, tão bem ditas, que tive vontade de abraçar Astoria. Abraçar a mãe de Scorpius por ter falado o que eu sempre pensei. Eu não tinha moral alguma para chegar ao pai de Scorpius e dizer: "PARE DE CONTROLAR A VIDA DELE, ELE NÃO É VOCÊ".
Mas Astoria tinha. E agradeci imensamente por ela ter feito isso.
O pai de Scorpius mereceu aquela verdade.
Draco ficou calado como se a frase tivesse arrancado todos os seus argumentos. Olhou para o prato da mesa, e não disse mais nada.
Astoria continuou, mas dessa vez para Scorpius:
– Quero dizer que você pode decidir o que quiser, querido. Eu apoiarei.
– Obrigado, mãe – disse Scorpius.
Um pouco tímida, olhei para o meu pai. Ele estava analisando o que tinha acabado de acontecer ali, pois a testa estava franzida.
– Pai – eu disse, pigarreando. – Sei que o senhor sempre ficou um pé atrás com Scorpius...
– Não – ele me cortou. – Querida, você já é dona de si mesma. E eu não sou tapado. Acho que fui o primeiro a perceber que tinha alguma coisa entre vocês dois. Eu só estou aliviado que isso se concretizou quando vocês se tornaram adultos. Pude, hum, conhecer um pouco mais sobre você, Scorpius. E se minha Rosinha não se livrou de você durante todos esses anos, não vai ser a opinião do pai dela que vai mudar alguma coisa.
– Eu gostaria de ter a sua aceitação, sr. Weasley, quando Rose aceitar. É importante para ela.
– Quando Rose aceitar – ele frisou. – Pode acontecer daqui trinta anos, não vou me preocupar. Ela nunca me decepciona.
Meu pai estava sendo descontraído com Scorpius.
Descontraído!
– Ou pode ser essa noite.
A voz foi minha.
Scorpius estava bebericando o uísque da taça quando me ouviu dizer baixinho. Nós trocamos um olhar. Ele ficou seriamente intenso.
Mordi os lábios, lembrando do que Lily havia falado para mim.
"Claro que ele vai pisar na bola. Até parece que você não sabe disso."
Se o fato de eu ter recusado seu pedido de casamento foi para tentar me livrar disso... com certeza era uma desculpa esfarrapada para ocultar o meu medo. Sim, casamento era algo assustador, mesmo com alguém que você conhece há anos.
Scorpius vai pisar na bola, porque ele era cheio de defeitos. Mas eu o amava mesmo assim e já aguentamos todas as dificuldades juntos. Quando terminei um namoro que achei que acabaria em casamento, Scorpius esteve lá para me ajudar a melhorar. Sim, eu tinha chorado horrores quando me desiludi com o amor e esqueci meu guarda-chuva na casa do Brian, há mais ou menos três anos atrás... E ele quis me oferecer cinco minutos de amassos no banheiro! No entanto, éramos incrivelmente amigos e ele apenas me ensinou a andar com sua moto. Sem contar as inúmeras vezes que Scorpius foi sincero comigo. Na escola, ele fazia questão de me contar os podres de todos os garotos que eu pretendia beijar nas festas.
Se naquela época eu fosse só um pouco mais esperta e notasse que ele fazia isso porque morria de ciúmes!
Se naquela época tivéssemos namorado...
Provavelmente seríamos estranhos agora. Porque teríamos brigado, nossa amizade não se fortaleceria e teríamos tido a vontade de experimentar as pessoas. Ter mais relacionamentos e, como Lily sempre dizia, diferentes caras na cama.
Mas eu nunca precisei disso. De caras na minha cama. Nunca foi como Lily, uma aventureira. Se eu amava, eu amava pra valer.
Era o que Scorpius e eu tínhamos em comum.
O jantar com nossos pais foi esclarecedor. Não foi desastroso e, mesmo não esperando que nossos pais saíssem de lá pedindo solicitação de amizade no facebook deles, eles não agiram como se Scorpius e eu fossemos um casal ordinário. Agiram como se merecêssemos a maturidade de cada um deles, por isso, ao se despedirem depois da sobremesa – Scorpius me ajudou na cozinha – eles foram educados.
Meu pai pediu o de sempre:
– Cuida dela.
– Com certeza, senhor – Scorpius respondeu após apertarem a mão.
Astoria me pediu a mesma coisa.
– Não o deixe folgar muito. Ele precisa de um novo emprego.
Minha mãe, por outro lado, quase ficou com lágrimas nos olhos quando me abraçou bem forte.
– Não quero que suma, hein? – apontou o dedo zangada.
– Mãe, sempre estou ligando pra senhora.
– Sim, mas apareça de vez em quando em casa. E, Scorpius, você sempre estará convidado. Para A Toca também.
– Obrigado, sra. Weasley.
Draco apertou minha mão.
– Nos vemos em breve, pelo visto.
– Até logo, sr. Malfoy.
Os pais de Scorpius foram embora primeiro. Alguns minutos depois, meus pais se levantaram do sofá.
– Posso dar uma carona. A chuva não vai parar tão cedo, sr. Weasley.
– Não, realmente, rapaz...
Meu pai não gostava da ajuda das pessoas, ele era bem orgulhoso, mas claramente não tinha jeito. Scorpius precisava ajudá-los com o carro quebrado e ele parecia bem disposto para isso. Minha mãe agradeceu infinitamente.
Ou talvez ele apenas quisesse se livrar da tarefa de lavar toda aquela louça.
De qualquer forma, meu apartamento ficou por uma hora silencioso. Eu costumava limpar a mesa de um jantar com a televisão ligada para escutar minhas músicas preferidas. Eu estava cantando baixinho, distraída, com a louça, quando senti seus braços me segurarem, indicando que ele estava de volta.
Ao invés de discutirmos sobre o jantar, Scorpius sussurrou no meu ouvido:
– Lembra dessa música?
– O recheio do bolo para uma noite de luxuria – citei suas palavras daquela noite em que dançamos juntos no sótão do seu antigo apartamento, no Natal. Sorri para mim mesma, com a lembrança. Ele virou meu rosto com os dedos.
– Quer terminar aquela dança? Tínhamos sido interrompidos bem na hora que eu ia te beijar.
– Então você realmente ia me beijar – sorri, sendo levada e guiada por suas mãos e seu ritmo constante, com a música. Estávamos em uma cozinha desarrumada, mas o cenário era o que menos importava. Ele dançava bem do mesmo jeito e seus braços eram bons do mesmo jeito.
– Você estava irresistível. Seu cabelo estava curto, e o vestido também. Eu queria mesmo te beijar naquela noite.
– Você disse que seria um erro se isso tivesse acontecido – lembrei.
– Ah, sim... e eu disse que foi um erro quando transamos também.
– Erramos muito – tirei a conclusão.
Ele me girou lentamente. Quando voltei para perto do seu corpo, beijei seus lábios por alguns segundos.
– Você se arrepende? – perguntou baixinho, os lábios encostados no meu ouvido.
– A única coisa que me arrependo é de ter enrolado demais para sair da zona da amizade com você – eu disse. – E de ter deixado você comer a Stephanie Escandalosa nesse apartamento.
Senti sua risada.
– Você quem me apresentou a ela.
– Mais um erro que eu cometi.
– Percebeu que todos esses erros nos levaram até onde estamos agora?
– Sim – sussurrei. – Dançando Michael Bublé na cozinha depois de jantar com nossas famílias. E depois de eu recusar o seu pedido de casamento, que a propósito, eu não recusei, eu só-
Ele me interrompeu com um beijo forte na boca, que me fez bambear. E eu não sentia um beijo fazer meus joelhos fracos há muito tempo. Aquele beijo me deixou assim.
– Relaxa, Rose, você só estava sendo... Rose. Nunca deixando as coisas fáceis para mim. E quer saber? Eu prefiro desse jeito. Por que acha que te amo, hein?
– Boa parte porque eu sou gostosa na sua percepção masculina.
– Também – admitiu, fazendo-me rir.
Dançamos mais um pouco quando eu finalmente disse no silêncio entre nós:
– Você sabe que não precisa me perguntar isso, não sabe?
– Isso o quê? – ele me encarou confuso.
– Se eu quero viver todos os dias da minha vida com você. Você sabe que eu quero. E vou. Como sempre fizemos.
Ele abriu um sorriso maravilhoso. Já disse sobre o sorriso de Scorpius, e por ele ser naturalmente um cara sério, vê-lo sorrindo era ter certeza de que ele me amava.
Seu abraço me confortou.
– Eu te amo mesmo, Rose.
Acho que desde o dia em que tivemos aquele probleminha com Sarah Parkinson, Scorpius me lembrava desse fato pelo menos uma vez ao dia.
Beijei seu rosto e desviei para os lábios, que se entreabriram para receber minha língua. Notei sua apreciada ousadia de segurar minhas nádegas e fazer minhas pernas se enrolarem ao redor de seu quadril. Deixamos as louças de lado. Levou-me até o quarto para termos aquele tipo de noite que me enlouquecia sempre. É, Scorpius nunca me deixaria entediada, não com aquela habilidade em suas mãos, em seu corpo e seus movimentos sobre os meus.
Caiu ao meu lado, suado, quando terminamos.
– Você não reparou, não é? – eu perguntei.
– O quê? Você mudou o cabelo?
– Não. Isso aqui.
Era realmente imperceptível, mas, pelo menos, era uma tatuagem. Uma pequena rosa perto do ossinho do meu quadril. Quando desviei o lençol e mostrei para ele, Scorpius roçou o dedo na região.
– Você finalmente teve coragem de fazer uma. – Scorpius estava orgulhoso. – Quando fez? Com certeza eu teria reparado nela antes. Já tirei sua roupa milhares de vezes.
– Com Lily, ontem. Gostou?
– Você fez isso para que eu gostasse? Eu amei, Rose. Só não amei o fato de que um cara tatuou você bem aqui.
– Ele era profissional – garanti, observando sua expressão. A expressão de ciúmes. – E um pouco gay.
– Ah – ele soltou um suspiro aliviado, beijando minha perna. – Isso me deixa mais tranquilo. – Observou a tatuagem por mais alguns segundos. – Ficou sexy. Amei. Só faltou um escorpião.
– Eu pensei nisso – admiti. – Mas seria tipo tatuar o seu nome e, olha, não importa o quanto a gente se ama...
– Tatuar nomes é brega. Ainda bem que você nunca reparou no "minha Rose" que eu tenho no dedão do pé.
Só pelo bem da brincadeira, apressei-me a procurar a tatuagem no pé dele, mas graças a Deus ele estava sendo o Scorpius irônico de sempre. Gargalhei e ele acompanhou, voltando a ficar em cima de mim com sua pele suada e os cabelos despenteados. Ficamos aos beijos, mas não era para a próxima rodada, e sim dar o embalo no sono, sentir o corpo de Scorpius atrás de mim e ficarmos abraçados. Tipo conchinha. Antigamente Scorpius tinha a visão de que isso era ridículo, mas ele parecia curtir dormir assim mais do que eu.
Quero dizer, sim, estou com o corpo do meu namorado me abraçando, o que é sempre uma delícia, mas eu gostava de espaço para dormir no meio da noite. Eu ficava me movendo muito, mas o braço dele me atrapalhava e, ah, eram essas as nossas diferenças. Brigávamos pelo lençol, até que tivemos o acordo de encontrar uma posição confortável. No fim, eu acordava sentindo o batimento cardíaco dele com o rosto apoiado no seu peito, e essa era a melhor maneira de acordar para mais um dia em nossas vidas.
Eu tinha demorado tanto a voltar com a fic que praticamente foi o suficiente para a gente esquecer de uns detalhes que aconteceram nos primeiros capítulos. Achei que seria legal "voltar ao tempo", fazendo o Scorpius e a Rose terminarem a dança que tiveram em Kissing a Fool mas foram interrompidos no terceiro capítulo. Ah, e a Rose fez uma tatuagem com a Lily! Acreditem, desde o começo da fic eu esperava o momento certo para a Rose fazer uma tatuagem. hehehe Sim, clichê, uma rosa, mas não pensei em outra tatuagem que alguém como ela gostaria de impregnar na pele!
Uma vez perguntei a minha mãe como o meu pai a pediu em casamento e ela disse: "Ele não pediu, foi acontecendo." Na época eu tinha uns 14 anos então fiquei super decepcionada que não tiveram fogos de artifícios ou que meu pai não ficou de joelhos AHUEHAUH Mas hoje já tenho uma percepção diferente. Então no caso desse Rose e Scorpius, pedidos para serem respondidos como "sim" talvez sejam desnecessários, principalmente porque eles sempre estiveram juntos e sabem que querem isso. Em algum momento.
O Eric vendeu o Três Vassouras, e esse foi um dos fatos que me deram inspiração para voltar a escrever em NYBNK. Eu precisava de um embalo para dar um fechamento também naquela fase da vida deles. E pode ser que, sim, uma força entrou em mim para voltar a escrever porque eu precisava finalizá-la de algum jeito - mesmo eu tendo falado que a história da vida deles não teria um fim. Mas as fases da vida tem. Então, pela 198197198712812 vez eu vou dizer que NYBNK está chegando ao seu fim. Além disso, eu preciso fazer isso. Preciso porque não quero mais enrolar 3 meses para postar nela. No You Boys Never Know precisa de um desfecho e espero que vocês continuem comigo até lá!
Muito obrigada e até o próximo!
FELIZ ANO NOVO :)
