- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc.

1x2, talvez um 3x4 e talvez mais alguma coisa. -

"Dois irmãos, sentimentos confusos e crenças sendo testadas. Seria a hora de fortalecer, quebrar, ou desenvolver novos laços, novos vínculos. O quanto se pode resistir sem sucumbir ao que sua mente e o mundo diz ser proibido...".

E... Gundam Wing ainda não me pertence... Mas eu já tenho planos para isso... (sonhando)


Vínculos.

II


(#w#)

Duo POV

Toda aquela coragem que eu havia juntado durante a viagem se esvaía rapidamente, dando lugar a insegurança e ao nervosismo. No fundo eu sabia que isso aconteceria, mas não podia deixar de me sentir menos tolo. Minha decisão recém tomada titubeava e uma vontade incrível de correr para dentro do ônibus espacial crescia.

Eu deveria ter ficado lá dentro no fim das contas. Na verdade, não deveria ter saído do lado da minha mãe.

Infantil, mas eu não podia evitar, a final eu não sou tão durão assim...

Por outro lado, se eu estava aqui a culpa era dela e do meu coração mole. Que se foda os pensamentos piedosos! Eu deveria ter sido duro com ela e ficado lá onde era o meu lugar! A idéia de juntar dois gênios opostos como eu e... Yuy era idiota para dizer o mínimo. Ainda não entendia o porquê disso tudo, mas faria questão assim que voltasse.

Maldito mês de trinta e um dias!

Mas... Eu estava aqui, e não poderia fugir, poderia? Ele já tinha me visto... Melhor dizendo, queimado a minha pele com o seu olhar...

Cinco anos haviam se passado e ele - se possível - estava ainda mais lindo do que quando partiu de sua ultima visita. Os cabelos cor de chocolates estavam mais volumosos e a franja rebelde caía um pouco sobre os olhos dando um ar sexy e um pouco sombrio no belo rosto. E para completar crescera uns bons centímetros me passando em pelo menos dez.

E seu corpo... Bem... O que posso dizer... Heero sempre foi tremendamente abençoado, e até onde aquela camisa e calça social me deixavam ver... Ele continuava a mesma coisa.

"Ah Duo... No que foi que você se meteu...".

E mais uma vez balancei a minha cabeça. Eu sabia que aquele gesto maldito não surtia efeito algum, mas era automático. Talvez eu pensasse que sacudindo minha cabeça aquele pensamento fosse embora. Se esse milagre ocorresse, eu colocaria no lugar um lembrete em letra garrafal:

"Não babe Duo, ele é seu irmão!"

Levei uma das mãos ao bolso a procura dos malditos cigarros, que para o meu desespero haviam terminado, o novo maço estava dentro da mochila. Não bagunçaria tudo agora apenas por um veneno idiota!

Quando comecei a fumar aos 17 anos, não imaginei que fosse ficar tão preso a esse maldito vício. Tudo bem que eu fumava apenas quando estava nervoso, mas parecia que meu cérebro só funcionava regado à fumaça e às vezes com uma boa garrafa de bebida alcoólica. Outro maldito vício, como se eu já não tivesse minhas manias.

Sem nenhum veneno e resignado, comecei a caminhar. Apertei a alça da mochila com uma força desnecessária e não pude deixar de me sentir como um condenado pronto para se apresentar ao pelotão de fuzilamento. Essa idéia me parecia mais agradável do que ficar me torturando ao lado daquele homem.

Eu estava nervoso, um pouco desconcertado e indeciso.

Como eu deveria agir? O velho truque do ataque para a proteção? Sarcasmo?

Parei quando cheguei perto o suficiente para mergulhar naquele mar azul. Ele continuava o mesmo, só maior, mais bonito e... Um pouco mais sério eu diria. Também me parecia um pouco irritado, no mínimo com minha demora. Um sorriso divertido formou-se em meus lábios involuntariamente diante desse pensamento. Acho que ele pensou que o gesto era dirigido para ele, pois logo curvou o canto dos lábios minimamente no que eu sabia ser o verdadeiro sorriso Heero Yuy.

E Deus! Como aquilo era maravilhoso.

- Há quanto tempo Duo. – agradeci estar de casaco. Tenho certeza que todos os pelos do meu braço estavam arrepiados.

A voz dele estava ligeiramente rouca e um pouco mais grossa do que a última vez que a ouvi. E não era para menos, eu e ele não trocávamos uma ligação há muitos anos.

Isso me levou a questionar: Que espécie de irmãos nós éramos?

Eu esfregava tanto na minha própria cara que os meus sentimentos eram bizarros e doentios simplesmente porque eu e Heero fomos criados como irmãos. A verdade é que não nos comportávamos dessa forma há muito tempo.

Vi uma sobrancelha perfeita se levantar e me toquei que estava calado há muito tempo.

- Pois é Yuy... – disse sem muita emoção e a outra sobrancelha se ergueu.

Ótimo, eu o havia chamado pelo sobrenome! Um hábito que eu tinha adquirido quando conversava com a minha mãe sobre ele, uma forma de defesa eu diria.

Toda vez que ela e... Heero terminavam sua ligação mensal, ela ia até meu quarto, onde eu me enfiava para não ouvir de forma alguma a conversa deles Mas ela parecia não notar - ou apenas me ignorava - entrando no meu espaço e me contando em todos os detalhes o que eles haviam falado.

No fundo, não eram grandes coisas; apenas alguns detalhes bobos do dia a dia, a forma como ele progredia visivelmente com sua empresa... Uma vez ou outra ela dizia ter tecido alguns comentários a meu respeito. Coisas sem a menor importância. Heero sempre foi muito recluso e falar sobre seus sentimentos e coisas pessoais não era a sua cara.

Nunca foi.

Mas mesmo assim eu não queria saber de suas namoradas, de seu emprego maravilhoso e toda a sua bela vida onde eu não estava incluído de forma alguma. Com isso em mente, acabava por dispensar a conversa deixando minha mãe muito desconfiada.

- Como vai Heero? – engatei começando a andar indicando que não estava à vontade ali parado e que não haveria cumprimentos calorosos. Ele apenas me olhou por alguns segundos e começou a me acompanhar, ficando um pouco mais a frente para me indicar a direção.

Continuando o raciocínio... Eu não dava à mínima se ela estava desconfiada ou não. Eu não estava cometendo nenhum crime! Às vezes desejava com todas as minhas forças que ela descobrisse logo, assim eu não teria de me manter escondido de seus olhos. Na pior das hipóteses eu seria apenas o filho adotado, ingrato e pervertido que via com olhos luxuriosos o homem que lhe criou como um irmão...

Ok. Essa era uma péssima hipótese.

Eu não tinha medo apenas disso, temia a reação das pessoas ao descobrirem os meus sentimentos. Temia que me condenassem! Posso dizer que o número de conhecidos não eram poucos. Entre vizinhos colegas e amigos só em L2 já faria um belo estrago.

E ainda tinha mais uma coisa... A coisa realmente importante nisso tudo.

Heero.

Eu seria capaz de ignorar qualquer um e enfrentar tudo se tivesse apenas a aprovação dele, mas não conseguiria viver depois de ter visto decepção... Ou nojo naqueles olhos azuis...

Bem... Eu poderia viver sendo ignorado, mas repudiado... Isso não!

- Muito bem, obrigado. – ele respondeu um pouco seco, provavelmente ofendido por eu tê-lo chamado pelo sobrenome. Mas isso era bom. Se ele não fosse muito gentil comigo eu não me sentiria um crápula por não tratá-lo bem. – Fez boa viagem?

- Ah sim! – sorri polidamente. – Foi uma viagem encantadora...

Eu não estava mentindo! Apesar de ter ficado em um debate interno por metade da viagem, havia sido bom por ter conhecido aquela garota, Hilde. Moça bonita de boa estatura, cabelos curtos e negros, belos olhos e um copo muito do curvilíneo. Devia ser uns dois anos mais velha que eu, mas isso não me importava nem um pouco.

Primeiro porque eu não conseguiria sentir nada por ela enquanto uma certa pessoa estivesse viva. Segundo por que homens sempre me interessaram mais que mulheres, e se futuramente houvesse uma amizade entre nós a idade não seria empecilho para mim. Esperava que não fosse para ela também.

- Bom... – Ah... Eu não havia me esquecido do quão monossilábico o Yuy poderia ser, e novamente me vi agradecendo.

Meus planos consistiam em manter uma distância segura para não cometer o erro de deixar meus sentimentos serem descobertos. Para isso precisaria de muita força de vontade, já que teria de reprimir uma de minhas principais características:

A boca grande.


(#w#)

Heero POV

Yuy.

Ele me chamou de Yuy.

Isso me chocou, e muita, muita pouca coisa nesse universo é capaz de me chocar.

Nossos pais sempre me ensinaram que temos de estar preparados para tudo. Isso me fez calculista e frio demais, admito. Talvez, lá no começo, se eu não tivesse seguido tão bem aquelas ordens, hoje eu poderia ser um pouco mais comunicativo.

E isso seria uma benção porque no momento Duo estava calado e isso ao invés de me aliviar, estava me deixando extremamente inquieto.

O baka ao meu lado poderia ter deixado de ser muita coisa, mas não acredito que seu cartão de visita pudesse ter sido abandonado dessa forma.

Uma vez tagarela sempre tagarela.

Estávamos em silêncio há vários minutos enquanto cruzávamos o lugar em direção ao meu carro. O que diabos havia acontecido com aquele adolescente desbocado? O que minha mãe havia feito com ele nesses cinco anos?

Talvez, se eu tivesse acompanhado melhor sua vida nos últimos anos, pudesse ter a resposta. Pensando bem eu não deveria ter sido tão ausente. Estava ao lado do meu irmão e não fazia idéia de como agir simplesmente por não conhecê-lo.

Olhei de soslaio tentando ver algumas mudanças superficiais. Ele andava com o rosto baixo agarrado em sua mochila. Balançava a cabeça de um lado para o outro e vez ou outra apertava os olhos. No mínimo deveria estar pensando sobre tudo o que estava acontecendo, não duvido muito que ele tenha sido pego tão de surpresa quanto eu.

E nós continuávamos em silêncio quando avistei o meu carro. Olhei mais uma vez para ele. Tinha mudado é verdade. Estava um homem muito diferente da imagem que eu havia criado. Os cabelos estavam mais cumpridos - quando soltos deviam descer pela cintura... Os olhos estavam mais tristes, mas ainda eram violetas como sempre.

E... Ele tinha me chamado de Yuy.

- Está tudo bem Duo? – perguntei deixando um pouco de preocupação transparecer em minha voz. Eu havia criado o costume de mantê-la sempre fria para afastar os outros de mim, mas no momento não era isso que eu tinha em mente.

Ele levantou os olhos um pouco assustado, mas depois voltou a fitar o chão como se isso fosse bem mais interessante do que eu.

- É pode ser... – disse sem muita emoção apalpando os bolsos a procura de algo que certamente não encontrou.

- Você está muito calado... – abri as portas e entrei no banco do motorista me afundando no assento. Estava sendo mais difícil do que eu imaginei. – Logo você que costumava ter um longo repertório...

Virei meu rosto para fita-lo e vi um pequeno sorriso ameaçando dançar em seus lábios, assim que percebeu meu olhar o sorriso morreu.

- Você nunca pareceu agradado com... Como é mesmo que você dizia? – levou o indicador aos lábios e adotou uma expressão pensativa. Eu sabia que ele só estava fingindo e aquela cena toda começou a me irritar. – Ah sim, a minha conversa sem fim de americano baka... Não era assim que você falava Y... Heero...?

Yuy. Ele ia me chamar de Yuy novamente. O que aquele americano baka tinha? E por que ele estava sarcástico daquele jeito?

Novamente vi minhas boas intenções serem pisadas pela vinda daquele garoto. Primeiro cancelei meus compromissos e ele atrasa, agora que desarmo um pouco de minha máscara, ele é sarcástico. E ainda quer me chamar pelo nome de família, como se ele não fosse um Yuy também.

Quando o olhei novamente ele já estava remexendo meu porta-luvas, aparentemente reconhecendo o território. Olhou uma ou duas contas jogadas lá dentro e o fechou desinteressado.

Espaçoso demais. Como sempre foi...

Duo entrou em minha família em uma jogada que hoje, considero suja. Esse era um dos principais motivos de desentendimento entre nossa mãe e eu. Posso ser maduro o suficiente para entender seus motivos, mas não posso dizer que concordo com eles.

Nosso pai era um diplomata, um homem sério, rigoroso acima de tudo. Casou-se com minha mãe ainda muito nova e tentaram por anos ter um filho, até que ela ficou grávida de mim.

Mais dez anos se passaram sem que nenhum outro herdeiro viesse e as pressões só aumentaram. Até onde sei, o respeitável Sr. Yuy ameaçou deixá-la simplesmente por não conseguir lhe dar mais filhos. Infelizmente não posso dizer que meu pai tenha sido um homem muito generoso e compreensivo.

Lembro-me claramente de uma manhã em que ela saiu um pouco nervosa me prometendo uma surpresa quando voltasse. Fiquei irritado por não conseguir descobrir o que ela traria, eu odiava que me deixassem no escuro dos acontecimentos. Ainda odeio. Mas naquele dia eu não pude discutir, pois estava pasmo demais para formular qualquer reclame. Foi realmente surpreendente vê-la entrar em nossa casa com uma coisa pequena e cabeluda em seus braços que não tinha mais que dois anos e um grande par de olhos violetas assustados, que apesar da novidade assombrosa de uma família nova, brilhavam em curiosidade com tudo a seu redor.

Naquele momento eu tinha apenas dez anos, e apesar de um pouco mais esperto do que muitas crianças da minha idade, não pude compreender completamente seus motivos para trazê-lo para nossa casa.

Mais tarde descobri que ela esperava que aquela criança fosse capaz de amolecer o coração do meu pai. Oito anos depois o divorcio veio e ele se recusou a levar Duo conosco por ele não ser seu filho. Foi dolorido me separar, admito.

No fim das contas o coração amolecido não foi o do meu pai, e sim o meu.

- Heero? Você vai dar a partida ou prefere que eu o faça? – a voz debochada me despertou dos devaneios. – Eu estou cansado sabia?

Olhei-o com um alerta estampado na cara e pensei... Pensei em falar algumas verdades para aquele rapaz. Estávamos indo para a minha casa, onde eu fazia as regras. Se eu desse asas o suficiente para ele, esse mês seria infernal. Eu tinha um trabalho e toda uma vida, não tinha tempo para ficar bancando a babá de ninguém.

Qualquer protesto meu foi interrompido pelo barulho de algo vibrando e um ruído abafado. Apalpei meu bolso instintivamente - talvez Relena tivesse tido algum contratempo - mas vi Duo remexer a mochila preta e pegar um celular. Aproveitei a deixa para tirar o carro da vaga e fingir concentração no trabalho de sair do estacionamento, enquanto escutava a conversa dele. A final, um bom irmão deve zelar pelo outro, não deve?

- Hei loirinho! – ele atendeu animado, mas logo se recompôs provavelmente por estar ao meu lado.

Eu sabia que certas pessoas nunca mudavam e Duo era uma delas. Não me convenceu aquele ar fechado e o jeito calado, aquilo não era ele. Desde pequeno o americano distribuía sorrisos e agrados para todos os lados contrariando a todas as ordens do nosso pai, homem que colocava muitos poderosos acuados no canto da parede, mas que não conseguia exercer uma moral aceitável sobre um garotinho.

Isso me levava a pensar no porquê dele estar tão contido comigo. Não tinha o menor cabimento aquela postura quase defensiva.

Não sou nenhum ingênuo, sei que ele deve estar bem magoado com esses anos em que estive ausente. Quando mais novos éramos tão próximos, e nos últimos anos nem me dei ao trabalho de lhe fazer uma ligação.

Eu não esperava um abraço saudoso, não esperava presentes ou euforia. Mas admito que acreditei em um aperto de mão e numa conversa difícil, porém agradável sobre os velhos tempos. Pensei até em aproveitar o momento para explicar o porquê de meu sumiço.

Sim, eu havia ensaiado.

Sim, estava incrivelmente frustrado e me sentindo ridículo por ter tido esperanças de que algo de bom saísse daquele encontro.

Retiro o que disse. Talvez eu fosse um pouco ingênuo por esperar mais do que aquele olhar distante e reservado, aquilo me incomodava mais do que estava preparado para aceitar. Nunca fui desses tipos sentimentais ou com grandes laços afetivos, aquele distanciamento deveria me deixar aliviado. Não era isso o que eu queria? Não havia me queixado, dizendo que sua vinda não daria certo?

Mas aquela reserva... O medo que vi em seus olhos quando ele finalmente me notou no aeroporto... Ele parecia me analisar, me julgar!

Inferno! Eu não fui nem serei o último parente do universo que se afastou da família. Não vou ser julgado por isso.

Não... Eu não quero que Duo me julgue por isso...

- É... Eu cheguei sim... – e se eu tinha dúvidas de que aquilo estava sendo desconfortável para ele, o tom contrariado que ele adotou deixava tudo bem claro. Devo me lembrar de perguntar mais tarde as circunstâncias que levaram a Srª.Yuy a ter aquela idéia miraculosa.

A partir dali uma sucessão incrível de não e sim veio com alguns gestos largos que lhe era de costume. Duo sempre foi muito expansivo, principalmente quando falava. Suas conversas sem fim costumavam ser animadas, por mais que eu fingisse não prestar muita atenção a elas. Por muitas vezes ele ficava irritado tentando me acertas com um de seus punhos e isso me fazia rir.

Sim, eu lembrava de muitas coisas, e em certos momentos sentia saudade delas.

Aquele garoto era a única criatura no universo que conseguia fazer Heero Yuy Cubo e Gelo se divertir verdadeiramente. Talvez a constatação desse fato tenha sido um dos motivos que tenha levado a me afastar.

Nem eu mesmo sei!

A idéia de alguém exercer tal influência sobre mim chegava a... Assustar.

- Sim... - repetiu mais uma vez levando à mão a testa e afastando a franja. – Olha. Eu já te disse, o endereço é aquele mesmo, está satisfeito? – grunhiu irritado e eu o encarei abertamente.

Eu havia me mudado a cerca de um ano para um apartamento maior, buscando mais conforto e comodidade, além do condomínio ser mais perto do trabalho do que o prédio em que eu morava antes.

A questão é que nesse espaço de tempo eu não falei com ele, e muito menos dei o endereço a minha mãe...

Como ele sabia?


(#w#)

Duo POV

Amigos.

Amigos são pessoas extremamente confiáveis. Pessoas em que você poderia jogar a vida nas mãos sem pensar duas vezes.

Amigos podem - ou não - ter os mesmos gostos que você, mas existem muitas coisas em comum. São pessoas para as quais você conta de tudo, pessoas que se preocupavam com você.

Pois bem. Eu tinha um grande amigo em minhas mãos, que reunia todas essas qualidades e algumas outras, mas de uma forma quase agressiva.

No momento, Quatre Winner estava tentando arrancar palavras da minha boca. Palavras que eu não poderia proferir enquanto estivesse ao lado do Heero.

E ele sabia... Ah! Eu sei que aquele sádico sabia que eu não poderia falar no momento, eu estava fazendo questão de ser bem monossilábico e sisudo. Ele não era tão tapado assim. Mas como eu disse, Quatre reunia todas as coisas boas que eu procuro em um verdadeiro amigo, só que num nível exagerado.

E isso no momento não era bem vindo, na verdade era irritante, enervante, insuportável.

- Está satisfeito? – murmurei irritado e tive a impressão de vê-lo sorrir na minha cara.

Olhei para o lado e Heero já estava com a atenção na rua novamente. Ele certamente me ouviu comentar sobre o endereço. Eu só podia rezar para que ele não tirasse conclusões e não fizesse perguntas.

Diabos! A quem eu estava enganando? Se Heero fosse Heero as perguntas logo viriam.

Eu sabia onde ele morava.

E ele nunca havia me dito.

- Não fale assim comigo Duo... – e o safado se fez de inocente com aquela voz doce. Eu não estava em um bom dia para encarar Heero Yuy e um Quatre curioso.

- Olha loirinho... – suspirei cansado. – Nos falamos quando eu estiver melhor, ok?

- Você não vai me procurai, mas tudo bem. Quero conversar com você de qualquer forma... Para que me conte mais expressivamente sobre os acontecimentos. Até mais Duo Maxwell Yuy.

Eu não respondi.

Apenas fechei o flip e joguei o celular dentro da mochila. Nada nesse mundo me irritava mais do que ser chamado pelo último nome.

Não, Yuy não é um nome pavoroso, soa bem no fim das contas. Eu adoraria tê-lo bem ao lado de Maxwell se significasse outra coisa. No momento isso no final da minha carteira de identidade atestava para quem quisesse confirmar que legalmente eu e Heero somos irmãos.

E eu odiava esse fato. Com todas as minhas forças.

- Preciso comentar que escutei a sua conversa? – a voz grossa me tirou de alguns devaneios e eu me encolhi involuntariamente. Direto como sempre.

- Isso é falta de educa-...

- Não me importo e você sabe. – ele me olhou sério e eu senti meu coração derreter diante daquele olhar.

Para qualquer pessoa normal um olhar severo, ainda mais como os de Heero, poderia causar até choro, mas em mim... Bem, como o bom sádico que eu era, eu simplesmente me arrepiava... E me odiava por isso.

- Certo Yuy, o que você quer saber? – me olhou nervoso e eu percebi que essa não era a melhor forma de me dirigir a ele, por mais satisfação que seu olhar zangado pudesse me trazer.

Por alguns segundos ele apenas manteve o olhar sobre mim. Heero era muito calculista e eu não duvidava que naquele momento estivesse escolhendo as palavras certas, pesando cada uma delas querendo esclarecer aquela situação de forma clara e precisa. Como dizem por ai, certas coisas nunca mudam, e Heero Yuy era uma delas.

- Como? – ele disse por fim.

Bem... Pensar nas palavras não quer dizer eloqüência...

- Acrescente algumas palavras para meu melhor entendimento... – retorqui sarcástico. Sabia que o que ele queria eram respostas sobre o meu conhecimento sobre o seu endereço, mas me fazer de idiota parecia mais divertido no momento.

- Engraçadinho... – grunhiu apertando os dedos no volante. – Não seja petulante...

- O que posso fazer se os anos não aumentaram o seu vocabulário? – dei de ombros procurando mais algumas tiradas sarcásticas. Acabava de descobrir um passatempo para os dias em que ficaria ali.

- Mas o seu parece estar em dia... E muito afiado... – rebateu, e eu percebi uma pequena veia saltar em sua testa. Ele não devia estar muito acostumado a ser desafiado. Que ser humano com amor à própria vida teria tal audácia? – Agora pare de gracinhas e diga logo como descobriu o meu endereço...

- E fale mais alto Heero... – debochei deixando um sorriso sardônico se formar em meus lábios. O japonês ao meu lado costumava baixar consideravelmente o tom de voz quando estava irritado com alguém ou alguma coisa. Aquele era um sinal claro para parar e retroceder. Estava sendo divertido encarar aquele rosto carrancudo, mas eu pretendia voltar para casa inteiro. – Eu não seria idiota de vir para cá sem ter noção de onde você mora... – menti sentindo uma queimação descer pelo meu pescoço. – Pedi para um amigo averiguar e pronto!

- E como você pode ter certeza? – ele retorquiu desconfiado, mas aqueles instantes me deram tempo o suficiente para inventar mais desculpas. Eu já tinha as respostas na ponta da língua.

- Suas correspondências. – bati levemente com um dos pés no porta luva recebendo imediatamente um olhar de censura.

Por algum tempo ainda fui alvo de seu olhar enviesado, mas fingi estar mais interessado em algo dentro da minha mochila. O mesmo silêncio constrangedor de alguns instantes atrás voltou a se instalar no carro, e eu não sabia se aquilo era bom ou ruim.

A verdade é que eu queria falar, falar e falar. Perguntar também. Aquela pose de sujeito sério e centrado não era para mim, isso cabia ao resto dos Yuy e eu fazia questão de ser o completo oposto.

Quando nossa família ainda era unida, eu costumava sofrer certa pressão por parte do meu pai, um homem cego demais para enxergar os próprios filhos, e ríspido demais para ter qualquer relação mais afetiva. Ainda não entendo como minha mãe conseguiu ficar tanto tempo com ele... E ainda amá-lo. Para minha sorte ele estava morto.

Me repreendi pelo pensamento odioso, mas que não deixava de ter seu fundo de verdade. Eu realmente não gostava daquele homem que causou tanto sofrimento a minha mãe, e indiretamente a mim.

Virei meu rosto para encarar o do Heero. Tinha tanto daquele homem, mas ao mesmo tempo tão pouco... Provavelmente Yuy tenha sido o que mais sofreu com o pai genioso que tinha, tendo que estar no alto, sendo sempre o melhor, tentando corresponder às expectativas de um tirano.

Ele esperava ter o filho perfeito.

Um soldado perfeito...

Assim que eu o chamava quando era menor...

Hee-chan... My Perfect Soldier.

- O que é?

Seus olhos se encontraram com os meus e eu corei levemente diante das lembranças. Como eu podia querer aquele homem ainda tendo em minha mente tantas recordações? Que espécie de doente eu era?

- Nada... – respondi seco não suportando mais um minuto ali trancado com ele.

- Não se preocupe... Já chegamos.

Abri a porta do carro sem esperar que o mesmo parasse e desci aliviado em poder respirar algo que não fosse o maldito perfume dele.

Que era muito bom por sinal.

Observei o carro preto entrar para o que seria uma garagem subterrânea e me permiti admirar o lugar enquanto o japonês não voltava

O pátio onde eu estava era a céu aberto adornado em árvores cuidadosamente podadas. A direita um prédio em mármore negro fazia sombra com seus seis andares e o lado um pouco mais para o centro do terreno, havia um segundo prédio idêntico. Apesar de grandes, apenas duas sacadas enfeitavam a fachada dos edifícios.

Aquele lugar era podre de tão luxuoso.

Tudo ali ostentava muita riqueza e bom gosto. Isso me deixava desconfortável. Não que eu fosse um morto de fome, muito pelo contrário, apenas não gosto de ostentar o que tenho.

Heero pelo vista tinha outra opinião.

- Vamos... Não basta o chá de cadeira que você me deu? – falando no diabo...

Ele surgiu a minhas costas rodando o chaveiro em um dos dedos, e não pude deixar de babar um pouco diante daquela visão. Pensei sinceramente que assim que me acostumasse com sua presença, aquela aura fantasiosa que o rodeava diluiria notavelmente diante de meus olhos.

Mas eu estava terrivelmente enganado.

Ele parecia ainda mais bonito a cada vez que meus olhos batiam nele.


(#w#)

Heero POV

Deixei o carro em minha vaga reservada e olhei para a pequena escada que levava de volta ao pátio central do condomínio. Poderia muito bem pegar um elevador direto para meu apartamento e finalmente relaxar, mas ainda havia um baka me esperando lá fora.

Resignado, deixei a garagem rodando a chave em minhas mãos. Eu desejava uma bebida muito forte, como há muito não fazia, e se não houvesse parado de fumar juro que estaria no segundo pacote. Tudo culpa desse encontro desastroso que mexia com meus nervos a ponto de desejar algo que eu havia largado há quase um ano.

Duo estava lá, parado olhando tudo com aqueles grandes olhos curiosos. Admito que o lugar era um pouco ostensivo, mas reunia tudo o que eu precisava.

Praticidade, segurança e tranqüilidade.

Meus visinhos - se é que eu os tinha - eram pessoas silenciosas, provavelmente por não passar grande parte do dia em seus apartamentos, assim como eu. Algumas vezes na semana uma empregada fazia a limpeza do espaço, ordenada pelo próprio condomínio. Ocupado como eu era não tinha tempo para pensar nessas pequenas coisas.

Eu gostava de ordem, de chegar em casa e apenas aproveitar o meu espaço, mas simplesmente não havia lugar em minha agenda para afazeres domésticos.

- Vamos... – parei a suas costas o fitando de cima como nossas estaturas exigiam. Ele apenas rodou os olhos me encarando por alguns instantes e algo naquele olhar me incomodou, mas eu estava cansado demais para divagar o que aquele moleque pensava. – Não basta o chá de cadeira que você me deu?

- Culpe o maldito ônibus... – fez uma careta debochada e virou o rosto.

- Sempre assim, fugindo de suas responsabilidades...

- Como é? – ele franziu o cenho parecendo ofendido, mas ao mesmo tempo curioso. – Seja claro Yuy.

Estreitei meus olhos, visivelmente irritado com o insistente uso do meu sobrenome. Certo, não havia uma amizade linda entre nós, mas daí a me chamar pelo sobrenome era um pulo muito grande.

- Prefiro que me chame de Heero se não se importa... – nunca pensei que chegaria a pedir para alguém me chamar de uma forma mais intima.

Em resposta ele apenas emitiu um muxoxo e começou a andar. Nos dirigimos em silêncio até chegar aos elevadores em um dos extremos do hall do primeiro prédio. Distraído, deixei meus olhos caírem pela longa trança que serpenteava pelas costas enquanto o baka mexia a cabeça de um lado para o outro analisando todo o lugar.

As ações inconscientes dele eram tão diferentes daquela postura que ele adotava enquanto nos encarávamos diretamente. Com toda a certeza ele tinha algo contra mim.

- E como Natsumi está? – perguntei cansado daquele silêncio. Os papéis estavam mais do que invertidos ali.

- Hn... Para quê você quer saber? – perguntou sem dirigir o olhar. – Se sua intenção é puxar assunto não use o nome da minha mãe...

Se eu não fosse bom em não demonstrar emoções estaria de boca aberta.

- Olha aqui garoto. – puxei seu cotovelo com força fazendo com que ele me encarasse. Vi muita coisa passar por aquelas duas ametistas, mas novamente ignorei estando indisposto demais para dar atenção. – Não seja insolente desse jeito. Nossa mãe não te deu educação?

- Não! – ele puxou o braço se encolhendo em uma das paredes espelhadas me olhando contrariado. – Minha mãe me deu educação, cabe a mim decidir como e com quem usar!

Concentrei o resto de paciência que me sobrava naquele final de dia e suspirei. Por mais cego que eu estivesse tentando ser, havia mais coisas do que ele estava tentando aparentar.

- O que você tem? – perguntei deixando minha voz soar fria para que ele entendesse que eu não estava para brincadeiras.

- Não tenho nada, só não sei o que você pretende perguntando sobre ela...

- Não posso tentar iniciar uma conversa civilizada? Além do mais, ela é minha mãe, se você não se lembra.

- Eu não tenho o que conversar com você... – ele fechou os olhos virando a cara. – E se ela é tão sua mãe você devia ter ido visitá-la mais vezes... Ah é! Você não foi nenhuma! – terminou num tom acusatório abrindo uma das ametistas para e observar.

Eu me calei assim que as portas abriram no sexto andar, não daria nenhum escândalo para o meu vizinho. Saí esperando que ele fizesse o mesmo e depois de me olhar desconfiado e de a porta ameaçar se fechar, ele o fez em pulo parando o mais longe que podia.

Girei a chave na fechadura do seiscentos e um e entrei deixando a porta aberta para que ele passasse.

- Há algo muito errado, – comecei – mas não quero falar disso agora e pelo visto você também. – suspirei passando a mão pelos cabelos. Uma bebida realmente seria reconfortante.

- Muito inteligente... – ele retrucou fechando a porta do apartamento e parando no meio da sala com aquela mesma expressão distante, mas desafiadora.

- O corredor a esquerda leva aos quartos, o seu é o penúltimo. O da direita dá na cozinha. Sinta-se a vontade... Maxwell...

Seus olhos pareceram um pouco... Chocados? Magoados? Não me importava! Aquele garoto estava me escondendo alguma coisa grande, e mesmo cansado eu não era nenhum idiota, não era apenas o meu distanciamento que o incomodava...

Ele apanhou um cinzeiro de metal sobre a mesinha e o levou consigo, sumindo dentro do corredor.

Andei até o bar e catei a primeira garrafa que vi pela frente virando-a nos lábios sem me importar com um copo.

Eu não faria questão nenhuma de saber o que ele sentia. Era distância o que ele queria? Pois era isso o que ele iria ter.

(#w#)

Continua...


Obrigada pelos comentários! Influenciaram e muito a "rapidez" na postagem.

Eu queria demorar mais um pouquinho, mas achei justo postar logo já que estava pronto. Todos vocês que comentaram foram muito gentis, realmente espero que esse capítulo agrade a vocês.

Quanto a fic. Como deu pra perceber, o Duo e o Heero não são irmãos de sangue. Eu realmente pensei na hipótese, mas além de não serem nada parecidos, do jeito que está já atende as necessidades.

Espero que tenham gostado... Criticas e sugestões educadas são sempre bem vindas.

E se não for pedir de mais... Comentem!

É a única forma de eu saber o que vocês estão achando.

Bye