- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc.
1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. -
"Dois irmãos, sentimentos confusos e crenças sendo testadas. Seria a hora de fortalecer, quebrar, ou desenvolver novos laços, novos vínculos. O quanto se pode resistir sem sucumbir ao que sua mente e o mundo diz ser proibido...".
Deixando claro que Gundam Wing não me pertence... Infelizmente... E que esse trabalho é sem fins lucrativos... Infelizmente novamente... u.u
Vínculos.
III
(#w#)
- Pois e agora heim? – o rapaz mais alto debochou segurando a trança cumprida entre os dedos grossos. – O irmãozinho não está aqui não é mesmo? – fingiu uma voz fina que soou grotesca nos lábios daquele brutamonte.
Os olhos violetas marejados de lágrimas se estreitaram permitindo algumas gotas correrem pela face. Não queria demonstrar fraqueza assim como seu irmão havia ensinado, mas era algo impossível naquele momento. Estava perdido sem Heero para ajudar. O garoto era muito maior e mais velho do que ele e nada poderia fazer para evitar a provável surra que levaria. Se... Se ele estivesse ali nada disso aconteceria... Se tivesse escutado não estaria naquela situação embaraçosa.
- Me solte! – exigiu trêmulo não tendo forças para fingir-se mais forte. – Eu não fiz nada para você seu animal! – gritou com sua voz fraca, mas logo se arrependeu. Um puxão mais forte logo veio e sentiu a raiz de seus cabelos protestarem dolorosamente.
- Um molequinho que nem você não deveria ter um cabelo tão grande! Veja só... Parece uma menina... – sorriu malicioso puxando mais a trança em suas mãos fazendo o corpo pequeno ficar na ponta dos pés. – Agora... O que eu poderia fazer com você, ahm? Talvez cortar essa linda trancinha... Assim ensinaria uma lição para o bastardo do Yuy... E quem sabe você aprenderia a ser um garotinho de verdade.
Duo arregalou seus olhos assombrado com a possibilidade de se separar dos seus preciosos fios castanhos. Não iria, não podia permitir que aquele brutamonte cortasse algo tão precioso! Era uma lembrança de alguém muito querido e não queria se desfazer de tudo assim.
Não entendia o que estava acontecendo. Sabia que a culpa era sua por ter desobedecido a uma ordem de seu irmão, mas ao mesmo tempo estava confuso. Estaria o sujeito horroroso fazendo tudo aquilo para se vingar do Heero?
Na verdade não importava. De um jeito ou de outro estaria evitando que o japonês estivesse em seu lugar e isso já valeria, mesmo com toda a dor que o processo pudesse causar.
- Agora... Antes que o Daichi aqui comece o showzinho... – sorriu debilmente enrolando a trança no punho. – Quero que se lembre de dizer aquele japonês bastardo que eu não esqueci o que ele fez com a minha irmã... – e num movimento rápido a mão que segurava a trança afrouxo o aperto acertando em cheio o estômago do americano que caiu de joelhos curvando-se involuntariamente sobre o próprio corpo.
Duo ofegou por alguns segundos tentando ao máximo não chorar. Não queria ser fraco na frente daquele covarde que tentava surrá-lo por um motivo que desconhecia totalmente. Mesmo tendo sido burro por ser deixar ser pego, faria Heero se orgulhar por ter agüentado tudo sem derramar uma lágrima. Alguns segundos se passaram e apesar da dor que quase o cegava, pode perceber que mais nenhum golpe estava vindo. Esperançoso ergueu os olhos, querendo acreditar que apenas aquele soco certeiro seria o suficiente, mas para o seu desespero uma mão forte agarrou sua nuca para depois arremessá-lo contra a grama.
- Não fique inconsciente moleque, você precisa dar um recado a seu irmão... – zombou maldosamente se preparando para chutar o corpo menor caído a seus pés.
- Então me dê o recado você mesmo...
O rapaz sentiu seu sangue gelar ao ser pego desprevenido pela voz fria. Virou o rosto bem devagar esperando sinceramente que aquela voz tenha sido apenas uma brincadeira sem graça de sua mente perturbada, mas para o seu desespero... Ele estava lá.
- Hee-chan... – a voz chorosa chamou abafada, tendo seu rosto praticamente enfiado contra a grama.
- Yuy... O que faz aqui? – perguntou incrédulo. Havia se certificado de que o garoto estaria no curso àquela hora, sendo esse o momento perfeito para colocar sua vingança em prática.
O moreno não disse uma palavra. Em um movimento rápido já se encontrava frente a frente com Daichi que era um pouco maior, mas sem se importar desferiu um soco certeiro no rosto branco fazendo-o recuar uns bons passos. Sem dar chance para que se recompusesse, Heero acertou um chute na lateral do abdômen, depois outro em um dos joelhos e finalmente um no meio do rosto quando o corpo caiu de encontro ao chão.
- Da próxima vez que quiser me passar algum recado... – murmurou com seu costumeiro tom frio, se agachando para pegar em seus braços o corpo machucado do irmão menor. – Venha até mim. – lançou um olhar desdenhoso para o rapaz que tentava se levantar e depois para o irmão, que se encolheu escondendo o rosto em seu peito.
Duo permitiu que um soluço deixasse sua garganta sentindo-se aliviado por ter sido encontrado a tempo. Aconchegou-se melhor nos braços protetores apoiando sua cabeça nos ombros fortes do irmão. Heero não havia dito nada até o momento, e não sabia dizer se ele estava zangado com sua travessura que resultara nessa confusão. Queria falar alguma coisa, expressar suas desculpas, mas sentia uma dor muito grande na boca do estômago impedindo qualquer palavra coerente de se formar em seus lábios.
- Você está bem?
O americano tremeu levemente diante da voz fria, cerrando os olhos com força para impedir que algumas lágrimas teimosas deixassem seus olhos. Abriu e fechou a boca tentando proferir alguma palavra, mas apenas um novo soluço deixou sua garganta.
- Peço que me desculpe. – a voz mais contida pegou seus ouvidos de surpresa, parecia mais amena, da forma que o japonês sempre se dirigia quando falava com ele. – Você se machucou por minha causa...
Duo escondeu o rosto na curva do pescoço do irmão, sentindo um calor reconfortante o dominar. Heero não estava zangado, muito pelo contrário, estava se desculpando.
- Hee-chan...
- Shhii... – encostou a cabeça nos fios macios da cabeça alojada em seu pescoço e suspirou aliviado. – Cuidaremos de você... Depois conversaremos...
- Uhum...
(#w#)
Duo POV
- Hee-chan... – murmurei entre aquela barreira da inconsciência e o despertar, sentindo uma sensação de paz me apossar por aqueles breves momentos. Quando abri meus olhos algumas imagens do sonho ainda me abordaram e eu apenas me permiti sorrir em apreciação. Eu sentia falta dos mimos e dos abraços do Heero, mais do que eu gostaria de admitir, demais para o meu próprio bem.
Estava amanhecendo o meu terceiro dia na casa de Heero Yuy, e aquilo tudo estava fazendo um grande mal para minha mente já perturbada. Infelizmente não posso acusar a sua presença atordoante de ser a causadora dos meus sonhos nostálgicos, simplesmente porque a visão do japonês era inexistente a meus olhos nesses dias.
A última vez que o vi de relance foi no dia em que cheguei. Sucinto, veio me lembrar de sua agenda superlotada e que eu não precisaria me preocupar com sua presença. Devo acrescentar que seu tom me soou um tanto magoado, mas como o belo bastardo que sou, ignorei esse aviso completamente e lhe ataquei com todo o sarcasmo que restava em minha bagagem.
Seria estúpido dizer que não me sentia culpado pelo sumiço do japonês. Tudo bem, eu desconhecia completamente seus hábitos, não fazia idéia se ele realmente era do tipo de negar o conforto de seu lar por noitadas de trabalho ou Deus sabe o que, mas... Ele não podia ser tão ocupado para sair junto com sol e chegar altas horas da madrugada... Poderia?
Algo que eu desconfio ser minha consciência diz que o que eu fiz tinha sim relação com o sumiço do Heero. Quando encontrei seus olhos naquele aeroporto vi tantas coisas diferentes... Havia receio, isso estava claro, mas talvez ele estivesse pronto para me aceitar novamente, e eu estava simplesmente pisando em cima dele!
Merda! Apesar dos meus atos estúpidos eu amava aquele japonês! Minha pose de durão estava me matando, e não tê-lo visto nesses dois dias só aumentou minha culpa. Eu queria os mimos de volta, os abraços carinhosos... Queria aquela atenção que era só para mim... Minha e de mais ninguém...
Rolei no colchão afundando minha cabeça em um dos muitos travesseiros espalhados pela cama. A verdade cruel era simples: eu estava com ciúmes do seja-lá-o-que que tomava tanto tempo dele o tornando indisponível para meus surtos sarcásticos e tiradas de mau gosto. Era frustrante ter passado mais tempo com a diarista dele do que com o próprio! Que tipo de executivo era esse que não tinha vida?
- Não seja baka... Ele tem uma vida... – grunhi contra a fronha preta babando o tecido no processo.
Eu não era um idiota... Na verdade eu era, mas não um tapado completo. Eu sabia que ele não ficava todo aquele tempo no trabalho, ninguém era tão dedicado assim, nem mesmo o meu soldado perfeito.
Logo no primeiro dia, mais para a noite, uma mulher simpática por demais ligou aqui para casa procurando pelo Heero... Eu o conhecia e sei que ela não o chamaria dessa forma se ele não permitisse. Havia algum tipo de intimidade entre eles e eu até podia imaginar qual seria. Ninguém chega de madrugada depois de um dia de trabalho sem um bom motivo, e nas ultimas duas noites meu relógio avançava três da madrugada quando ele entrou no apartamento.
Sim, eu ficava até tarde acordado esperando ele chegar... Sou um irmão preocupado...
- Oh merda! Eu sou um tolo, ciumento e apaixonado...
Virei meu rosto para o lado e encarei o celular em cima do criado mudo. Eu poderia ligar... Um simples telefonema. Mas o que eu diria? " - Heero onde você está? Quero devorar você com os olhos enquanto finjo te ignorar!"
É... Belo discurso.
Ainda olhando para o aparelho sentir algo em minha mente estalar e atentei para um detalhe importante que eu havia ignorado durante os últimos dois dias...
Quatre.
Se não me falha a memória o loirinho havia prometido manter contato, e curioso do jeito que aquele falso anjo era, aquele silêncio era quase bizarro. Estive tão ocupado pensando em Heero e tentando ignorar a necessidade de sua presença que atualizar o loiro com as ultimas fofocas foi esquecido. Ainda estava agradecido por ter lembrado de ligar para minha mãe. Quatre acabou ficando em terceiro plano.
E Deus me livre se um dia ele souber disso.
Um bater suave na porta fez minha linha de pensamento ser interrompida. Tentaria guardar um lembrete mental para ligar para o loiro mais tarde.
- Entra!
Alguns segundos se passaram até que a porta se abrisse completamente e nesse tempo ínfimo desejei tolamente que Heero entrasse por aquela porta, apenas para que pudesse vê-lo, me tranqüilizar e maltratá-lo logo em seguida.
- Bom dia Duo... – a voz serena invadiu o quarto e eu sorri para a moça que já adentrava indo em direção a janela bem em cima da minha cama.
Minha cama... Bem grande e confortável por sinal.
Lembro do susto que levei ao entrar no quarto indicado por Heero, logo na noite em que cheguei. Não era simplesmente um quarto de hóspedes limpo para receber uma visita, parecia que haviam tido todo um cuidado pra escolher a decoração do lugar, que não tinha nada a ver com a do outro quarto de hóspede. Meus lençóis e colchas eram pretos, e as cortinas que forravam as janelas eram de um azul bem escuro dando um toque sombrio ao quarto.
Era tão... Eu...
Cobri o rosto em antecipação desconfiando das intenções daquela mulher quando suas mãos tocaram as cortinas aveludadas. Momentos depois o quarto foi atingido por uma claridade que certamente atingiria meus olhos sonolentos. Esperei alguns segundos para revelar um de meus olhos para fora da proteção, e encarar emburrado a figura sorridente.
- Não vejo motivos para riso... – me sentei espreguiçando o corpo que estalou em pontos estratégicos. – Como ousa me chamar a essa hora da madrugada?
Ela cruzou os braços rentes ao uniforme azul marinho, me encarando de forma divertida. Era uma bela morena, diga-se de passagem... A idéia de Heero ter aproveitado a boa vontade de sua faxineira não me passou despercebida.
- São dez da manhã, se pretende tomar um café é melhor se levantar. O Sr.Yuy deixou ordens para que eu...
- Blá blá blá Sr. Yuy... – zombei sentindo o mau humor brotar só pela menção do bendito sobrenome. – Se ele tinha algo a me dizer que viesse até mim e não mandasse recados... – balancei uma das mãos dando o assunto por encerrado e andei até o banheiro batendo a porta no processo.
- Não seja ranzinza... Tudo isso porque te acordei? – ouvi a voz abafada pela madeira, mas não me importei me dedicando, a tarefa de escovar os dentes. – Só queria saber o que você faz acordado até tão tarde pra levantar a essa hora...
Engasguei com a espuma e cuspi o que não havia engolido. Que pergunta mais impertinente!
Dede quando empregados perguntam a seus patrões o que eles fazem? Tá, eu não era diretamente o chefe dela, mas era irmão do sujeito, ela me devia respeito!
E o que eu poderia dizer? Que fico esperando o Sr. Yuy chegar em casa para poder dormir sossegado?
Respirei fundo encarando meu rosto contrariado no espelho. Meus cabelos estavam um pouco desgrenhados, havia olheiras em baixo de meus olhos, mas no geral eu estava até bonitinho. E pensar que todo meu potencial seria consumido pelo dia maravilhoso trancado naquele luxuoso apartamento na companhia da faxineira boazuda do meu... Irmão.
Novamente a idéia de Heero aproveitando dos serviços da boa empregada Cathrine Alguma Coisa me veio em mente, assim como o sonho que alguns minutos atrás. Uma das primeiras coisas que aprendi quando atingi uma idade mais consciente, foi que o japonês de olhos azuis herdeiro dos Yuy era o terror dos homens compromissados e a perdição de qualquer mulher que tivesse belas pernas e seios fartos. Eu que o diga já que levei uma quase surra de um brutamonte simplesmente porque Heero havia se engraçado com a garota errada.
Lembro parcamente de ter meu pequeno ferimento tratado, enquanto Heero, como bom irmão que era, tentava me explicar em seus padrões morais o que havia acontecido entre ele e o garoto que tentou me surrar. Eu tinha oito anos e ele achou que não era idade o suficiente, e que eu acreditaria que ele e a irmã do tal Daichi apenas saiam para brincar de vez em quando.
Depois eu era o baka.
Hum... Sei muito bem do que os dois brincavam... No mínimo do mesmo que ele e a empregada...
Suspirei resignado já livre do pijama e entrando com tudo de baixo da água morna. Não gastaria muito tempo me embelezando e cuidando da aparência, ficaria o dia todo ali entregue ao marasmo.
Eu poderia muito bem sair e fingir ser um bom turista e simplesmente conhecer a cidade, mas havia dois fatores que me faziam hesitar.
Primeiro... Bem... Eu já conhecia a cidade, por mais desconhecida que essa informação fosse para o japonês.
E segundo... Eu nutria uma esperança chata de que Heero tiraria algumas horas de seu precioso dia, apenas para me levar para algum lugar interessante. Idiota, mas eu não conseguia evitar.
Como eu era contraditório.
Ao mesmo tempo em que eu rezava por distância eu o queria perto de mim. O amor realmente deixa as pessoas bobas, e eu só me dei conta disso agora tão perto dele.
(#w#)
Heero POV
Esfreguei meus olhos tentando afastar o sono atrasado, ainda havia trabalho a ser feito e eu não sentia a menor vontade de terminá-lo. Senti alguns pontos em minhas costas protestarem pelo longo período em que permanecia sentado, mas tentei ignorar focando minha concentração naquelas planilhas que não ficariam prontas se eu apenas olhasse.
A manhã e tarde haviam passado como um borrão para mim, assim como os últimos dois dias em que aquele garoto estava em minha casa. Nunca pensei que fosse tão desconfortável receber visitas.
Na verdade, não deveria ser.
Talvez eu fosse o sortudo por hospedar o dono de uma das línguas mais ferinas do universo.
Com isso em mente, resolvi não voltar para casa enquanto o Sr. Maxwell ainda estivesse consciente, evitando assim mais uma troca de farpas como aconteceu na noite em que ele chegou. Graças a isso meus dias se resumem a trabalhar até tarde e convenientemente estender algumas horas na companhia de Relena. Mas por mais divertido que fosse passar as noites com a minha sócia, sentia falta de umas horas de sono a mais em minha própria cama.
Irônico. Se alguém me dissesse tempos atrás que eu estaria negando o conforto do meu apartamento por quem quer que fosse, eu daria uma de minhas raras risadas. Nunca me imaginaria chegando tarde em casa apenas para evitar o meu irmão.
O que houve com o insensível e frio Heero Yuy que não mudava absolutamente nada em sua vida em função dos outros? O bloco de gelo acostumado a ignorar as necessidades alheia para atender as suas? E por que eu me importava tanto com aquela baka para negar o meu próprio conforto?
Eu deveria simplesmente voltar e fazê-lo engolir a minha presença, assim como eu havia aceitado digerir a dele. Além do mais, não havia motivo aparente para todo aquele sarcasmo e indiferença. É eu estive longe, mas aquilo nos olhos dele não era mágoa, disso eu tenho certeza. Mas eu estava disposto a não descobrir, a não interferir e se para isso tivesse que negar meus próprios instintos... Eu o faria.
Um toque do telefone fez meus pensamentos voltarem à realidade e fitei aborrecido a maldita planilha inacabada. Sem muita paciência tirei o aparelho do gancho pronto pára dispensar qualquer cliente em potencial.
- Hn.
- O senhor tem visita Sr. Yuy.
- Não tenho nada marcado. Dispense. – disse simplesmente pronto para encerrar aquele chamado quando ela interpelou.
- Mas senhor...
- O que é?
- O senhor Barton pediu que insistisse...
- Barton? – ergui uma sobrancelha fitando a porta ainda fechada. – Trowa Barton está ai fora?
- Sim senhor...
-...
- Sr. Yuy?
- Peça para que entre.
Coloquei o telefone no lugar sem tirar os olhos da porta que não tardaria a se abrir. A presença do meu ex-cliente e amigo no meu escritório no fim do expediente era no mínimo... Curiosa.
Trowa era o dono de uma importante empresa de eletrônica e há alguns meses atrás havia solicitado os nossos serviços para montar o sistema de segurança do prédio e dos computadores de sua sede na cidade. Com interesses e alguns aspectos em comum, acabamos por nos aproximar, nos tornando... Amigos, e algum tempo depois vizinhos. De qualquer forma, assim como eu, ele era um homem ocupado, e visita no trabalho era algo completamente atípico.
- Sr. Yuy. – a porta se abriu revelando a silhueta curvilínea da minha secretária, que dava passagem para a visita inesperada.
- Obrigado Une. E não transfira ligações Heero estará muito ocupado. – ele disse num tom casual como se dar ordens para a minha secretária fosse a coisa mais banal do mundo. Ela me olhou por cima dos ombros e eu apenas assenti.
- A que devo a visita? – vocalizei a coisa mais óbvia que me veio em mente.
- Dia de folga. Algumas pessoas fazem isso. – ele disse simplesmente se acomodando no sofá de dois lugares em um canto da sala. Estava trajando roupas casuais e me quase me estapeei por não ter pensado nisso antes. Eu realmente precisava de uma boa noite de sono.
- Estava passando aqui em frente, suponho. – relaxei na cadeira cruzando as pernas, encarando a expressão sempre calma que Trowa sustentava.
- Na verdade, foi algo planejado. – ele se calou e eu ergui uma sobrancelha esperando que continuasse. – Não tenho o tenho visto Heero, queria apenas saber como meu amigo está.
Uma pequena risada escapou de minha garganta e foi a vez dele erguer sua sobrancelha livre da franja que tampava um lado de seu rosto.
- Você quer saber sobre Duo... – murmurei ainda com o sorriso no rosto. Trowa podia ser um homem centrado e aparentar indiferença, mas no fundo era tão curioso como qualquer pessoa normal.
- Já que você falou...
- Hn. Está me saindo um belo de um fofoqueiro.
Voltei meu olhar para o monitor fingindo concentração na planilha abandonada. Por mais próximos que nós fossemos ainda não era fácil falar sobre coisas pessoais, não para mim. Trowa por outro lado, era mais aberto a comentários, sem grandes pudores ou rodeios, mas também não era de dar detalhes, muito menos de grandes falatórios.
- Vamos Yuy o que está esperando? –levantou do sofá em que estava sentando em uma das cadeiras frente a minha frente.
- Estou trabalhando não está vendo?
- Não seja infantil, você não está prestando atenção nisso. Está estampado na sua cara.
Lancei um olhar repreensivo para ele que apenas sorriu ignorando por completo minha má vontade. Suspirei, travando uma pequena batalha interna dividido entre mandá-lo para o inferno ou desabafar a respeito dos últimos acontecimentos. A verdade é que no fundo eu realmente estava precisando de alguns conselhos sobre o garoto da pá virada que eu tinha hospedado em minha casa, e talvez Trowa pudesse esclarecer a situação em que eu havia me enfiado.
- O que você quer saber? – perguntei resignado, se não fosse ali, ele daria um jeito de me procurar em casa.
- Tudo o que estiver disposto a me contar. – se ajeitou na cadeira, pronto pára começar a ouvir o meu relato.
Comecei deixando claras as minhas boas intenções para como garoto, por mais "inconveniente" que sua presença pudesse ser. Havia feito questão de preparar um quarto que eu lembrava ser de seu agrado. Estoquei em minha geladeira e armários porcarias que também eram do gosto dele e por fim contratei Cathrine, a empregada que cuidava do nosso andar, para ir todos os dias até o meu apartamento simplesmente para deixar tudo arrumado para que ele não precisasse se preocupar em fazer limpeza.
Depois de expor minha boa vontade, terminei por relatar a forma estúpida como fui tratado, a lista de tiradas sarcásticas de qual fui alvo da recepção no aeroporto até a chegada nada agradável no apartamento, onde mais uma vez fui destratado apesar da minha cordialidade. Sem deixar de ressaltar a minha volta tardia para casa, apenas para evitar mais um confronto com o garoto.
Como resposta Trowa soltou uma gargalhada bem audível me deixando mais que confuso com aquela situação. Não havia nada engraçado em ter um moleque debochado dentro da minha casa.
- Do que esta rindo? – perguntei ríspido indignado com aquela risada fora de hora.
- Da situação. – disse sem tirar o sorriso do rosto.
- Pode rir... Não é você que tem um garoto problemático em sua casa... – sussurrei reconsiderando a idéia de pedir o conselho.
- Seu primeiro problema está ai Heero. Ele já tem 19 anos e por mais que você não queira admitir, ele já é um homem. O primeiro passo é tratá-lo como tal.
- Aquele pirralho? – ergui uma sobrancelha totalmente descrente. – As atitudes dele não demonstram muita maturidade.
- Justamente. Ele só é um pouco mimado, além do mais deve ter seus motivos. – atestou o óbvio. – Se você não manter o pulso firme, vai ter que dormir na cama da Peacecraft o resto do mês...
Murmurei alguns palavrões coçando o pescoço no processo. A idéia de dormir com Relena o mês inteiro não era das mais interessantes. Não que eu não gostasse dela, ou que não fosse boa, simplesmente eu era um homem que não gostava de se apegar às pessoas, e um mês inteiro com ela significaria no mínimo alguma espécie de compromisso.
E eu estava longe de querer isso.
- O que você me aconselha? – indaguei no meio de um suspiro, fechando o programa em aberto desistindo completamente de terminar qualquer trabalho hoje.
- Vá para casa, e não importa o que aconteça, fique lá.
Ele me sorriu tentando passar um pouco de conforto e eu tentei fazer o mesmo, não tendo tanto sucesso. Estava cansado e a perspectiva de uma noite complicada não ajudava muito as coisas. Por que tudo não poderia ser simplesmente como naqueles filmes ridículos em que todos se aceitam e fazem as pazes sem fazer maiores perguntas?
Seria tão mais fácil colocar uma pedra naquilo tudo e começar como se nada fosse... Mas aqueles olhos não deixariam que as coisas seguissem esse rumo. Aquelas ametistas pediam por mais alguma coisa que eu não conseguia entender.
- Mais alguma coisa Heero?
Franzi as sobrancelhas considerando a hipótese de Trowa ser algum tipo de leitor de mentes.
- Não... – balancei a cabeça tentando afastar esses pensamentos. Havia prometido não mexer nessas coisas, e não faria enquanto aquele americano baka estivesse agindo daquela forma. – Está indo pra casa?
- Carona?
- Relena me buscou hoje cedo... – disse sem mais explicações pegando algumas coisas dentro de uma das gavetas e enfiando de qualquer jeito em minha pasta.
Ele apenas sorriu mais uma vez esperando que eu terminasse de pegar as minhas coisas, prendendo os olhos verdes em algum ponto da janela.
(#w#)
Duo POV
Desliguei o telefone com a certeza de que a Srª. Yuy agüentaria mais um dia, resistindo bem até que eu voltasse. Assim eu esperava.
Sua voz estava um pouco fraca, mas nada muito diferente de quando a deixei no hospital antes da viagem. Como nos outros dias, ela fez um esforço considerável para falar normalmente, e até conseguiu considerando que sua boca deveria estar com algumas inflamações e quem sabe algumas feridas devido a radioterapia.
Quando ouvi sua voz baixa senti ímpetos de largar o telefone e pegar o primeiro ônibus para a L2, ignorando o pedido, Heero e qualquer outra coisa que naquele momento não aprecia ter a menor importância. Aquela mulher havia me dado tanto e quando minha hora de retribuir chegava... Eu estava de mãos atadas.
Imaginar minha mãe sozinha naquela cama de hospital fez meu coração apertar um pouco. Eu sabia que Sally estava fazendo companhia para ela, mas isso não amenizava minha culpa por não estar lá quando ela realmente precisa de mim.
Sally... Quem iria imaginar que eu sentiria falta da governanta mais grudenta e super protetora do universo? E eu realmente queria que ele estivesse aqui para preparar uma daquelas comidas saldáveis dela... E quem sabe me fazer companhia...
Suspirei fitando a sala vazia. Cathrine deixou o apartamento no meio da tarde tendo realizado todas as suas tarefas, partindo para o apartamento vizinho. Pelo resto do dia me conformei em perambular pelos cantos revirando a dispensa e a geladeira devorando algumas das porcarias que Heero havia comprado, provavelmente para mim.
E mais uma vez a porcaria da culpa.
Já havia anoitecido e a esperança chata de um dia com Heero já estava adormecida, esperando a manhã chegar para me atormentar novamente. O japonês deveria estar atolado em seu trabalho, ou quem sabe indo para o apartamento da mulherzinha educada.
- Culpa e mais culpa! – esbravejei irritado chutando um tapete felpudo que rodeava o bar.
Debrucei-me sobre o encosto do sofá e mirei o fim do corredor, mais especificamente a porta do Heero.
Ainda não havia reunido coragem o suficiente para entrar lá e espiar. Parecia bobeira, mas nos outros dias um medo de ser pego em fragrante foi maior do que a minha curiosidade. Mas Heero não voltaria tão cedo... Voltaria? E se voltasse, que mal tem eu dar uma olhada em seu quarto. Ele disse que eu poderia ficar a vontade no fim das contas...
Bati levemente na calça jeans surrada, me preparando para a pequena aventura que seria me infiltrar no quarto do soldado perfeito. Provavelmente encontraria um cômodo esterilizado e desprovido de decorações muito pessoais. Provavelmente branco. Quem sabe nem tivesse cama, do jeito que chegava tarde não parecia fazer questão de dormir.
Em passos lentos entrei no corredor passando pelo primeiro quarto de hóspede e pelo banheiro social que havia logo em frente. Mais alguns passos e estava passando pelo escritório impecável e pelo meu quarto, restando apenas mais uma porta.
Hesitei por alguns instantes refletindo se seria a coisa certa a fazer. Pessoalmente, não gostaria que alguém fuxicasse as minhas coisas enquanto eu estivesse fora, mesmo que esse alguém fosse... O meu irmão.
- Merda de palavra difícil de dizer... – murmurei socando a porta fechada.
Estendi a palma sobre a madeira esperando que algum poder sensitivo se manifestasse e a minha pergunta fosse respondida:
Deveria ou não invadir a privacidade alheia?
Certo de não ter poder algum e que minha consciência comandaria meus passos, decidi ouvir a voz tentadora em minha cabeça que dizia incessantemente que eu deveria abrir a maldita porta e acabar logo com isso.
Com um sorriso maroto nos lábios toquei a maçaneta redonda e a girei com uma leve pressão para ouvir um estalo e ver uma pequena fresta mostrando o quarto banhado pelo escuro.
Respirei fundo, pronto para abrir e me surpreender com o bom gosto de Heero Yuy soldado perfeito.
- Reconhecendo o território inimigo?
Meu corpo tremeu involuntariamente ao sentir um hálito quente bem próximo da minha nuca. Larguei a maçaneta enrijecendo o corpo sem nunca virar para encontrar os olhos azuis que certamente estavam ali.
Merda de sorte que eu tinha!
- Me perguntava quanto tempo demoraria para que a curiosidade fizesse você bisbilhotar o meu quarto...
Ele estava me chamando de fofoqueiro?
Senti meu sangue se aquecer e virei prontamente ignorando completamente a proximidade entre nós. Péssima idéia. Heero estava há um pouco mais de três palmos de distância, os braços cruzados e os cabelos revoltos como sempre. Mas o que mais chamava a atenção eram os olhos cobalto que pareciam brilhar no corredor escuro como o breu.
- Como sabe que não entrei? – vocalizei a coisa mais inteligente que minha mente conseguia desenvolver, torcendo para que a minha voz não me traísse.
- Hn... Sabendo. – e curvou os lábios minimamente em um daqueles seus sorrisos únicos.
Mesmo coma vontade de desfalecer ali mesmo, tentei esboçar uma expressão insatisfeita e quando pensei que ele apenas me responderia com algo seco vi seus braços se descruzarem e uma de suas mãos partir em minha direção. Segurei a respiração e estreitei um pouco os olhos sentindo o corpo maior se curvar sobre o meu e o braço forte roçar em minha cintura empurrando a porta atrás de mim.
- Você tem um cheiro diferente... – disse, me encarando profundamente fazendo meus joelhos fraquejarem. – Eu saberia se você tivesse entrado.
- Ahm... – murmurei debilmente não tendo voz, força ou ar para vocalizar qualquer outra coisa, ainda não tinha reunido coragem o suficiente para respirar com ele ali tão perto.
Como eu era patético.
- Agora se me der licença...
Dei alguns passos para o lado me escorando na parede, não confiando em minhas próprias pernas para me manter firme sem um suporte. Ele passou por mim deixando aquele cheiro tão peculiar, que lembrava vagamente dias chuvosos.
Inclinei a cabeça para trás encostando-a na parede tentando normalizar a minha respiração. Que droga de situação havia sido aquela? O que Heero fazia em casa tão cedo?
- Não precisa ficar ai fora Duo, entre se quiser...
Abri os olhos ao ouvir meu nome e notei que o quarto já estava mais iluminado. Um pequeno debate interno ocorreu em questão de segundos, mas acabei por ceder a minha curiosidade e entrei cautelosamente.
A primeira coisa que avistei foi a enorme cama no centro do quarto, bem embaixo da janela, assim como a minha, mas essa era bem maior... E... Um pouco pecaminosa eu diria. Várias almofadas e travesseiros se espalhavam pelo colchão cobertos por fronhas num tom de verde bem escuro, assim como as colchas que escondiam um lençol irritantemente branco. Tudo estava impecavelmente arrumado como eu imaginava, mas estava longe de ser uma tela em branco.
- Belo quarto... – soltei um pequeno assobio após alguns segundos de verdadeira apreciação. Não podia ver o seu rosto, mas com certeza havia um sorrisinho naquele rosto perfeito.
- Hn.
Ignorei o grunhido e continuei olhando uma coisa ou outra, sempre de costas para ele evitando aquele olhar que havia me arrebatado há alguns instantes. Como eu pude ser tão patético daquele jeito? Onde estava o Duo sarcástico e prepotente?
Minhas barreiras cuidadosamente montadas estavam sendo demolidas com um simples olhar absolutamente normal. Bem... Normal não era a palavra certa. Eu tinha um olhar normal, Heero parecia querer derreter a minha pele quando olhava para mim.
Esse misto de sentimentos fez com que o desejo que me atormentou por toda a manhã sumisse de repente.
Eu não o queria mais por perto.
Aquele olhar, aquele cheiro, aquela voz... Tudo contribuía para tirar a minha sanidade e eu não sei se resistiria muito tempo agüentando aquela tortura. Por mais dolorido que fosse a coisa certa a se fazer era me afastar dele.
- Vou tomar banho.
Ouvi a voz atrás de mim e me virei corando ligeiramente. A blusa social outrora impecável estava ligeiramente aberta e Heero já havia se desfeito do cinto, sapatos e meias, carregando nas mãos uma peça de roupa qualquer que não me dignei a observar. Se eu continuasse olhando pra ele da forma como certamente estava, ganharia uma reprimenda, ou na melhor das hipóteses babaria pelo canto dos lábios.
- Quero conversar com você, não suma. – balancei a cabeça num gesto mudo de aceitação deixando a oportunidade de uma tiradinha de mau gosto escapulir dos meus dedos.
Não tinha voz nenhuma naquele momento.
E ele me deu as costas entrando no banheiro da suíte.
Deus era muito generoso...
Se Heero continuasse daquele jeito, mesmo que não fosse sua intenção... Eu não dava dois dias para minha para minha tentativa de ser um Yuy 2 (1) se despedaçar diante dos meus olhos destruída pelo maldito coração mole... E por uma partezinha em especial.
Eu precisava do meu maldito autocontrole de volta... E eu nem tinha cigarros!
- Vício inútil... – grunhi batendo a porta do quarto sem cerimônias, decidido a esperar pela conversa na sala.
Aquele cheiro... Ou melhor, perfume que impregnava o quarto, me passava uma calma, uma segurança... E se eu pretendia manter minha máscara intacta eu precisava bater de frente com Heero.
(#w#)
Heero POV
Terminei o meu banho o mais rápido possível, não querendo adiar por muito tempo a conversa que teria em alguns minutos. Não que eu fosse de tomar banhos demorados, mas uma certa ansiedade fora dos meus padrões normais, me consumia fazendo processo prático se tornar ainda mais rápido.
Quando deixei o banheiro, já previamente vestido, me deparei com o quarto vazio. Eu já esperava por isso. Duo podia ser uma criatura muito escorregadia quando lhe interessava. Talvez ter avisado sobre a conversa não tenha sido uma das minhas atitudes mais inteligentes, mas achei que pegá-lo desprevenido só traria mais dor de cabeça e palavras ferinas para as quais não estava com muita paciência e nem vontade de engolir.
Mas... Eu tentaria ser um pouco mais paciente do que a minha média habitual, assim como Trowa havia me instruído.
É... Eu finalmente tinha encontrado uma boa utilidade para toda essa coisa de amigos.
Sim, eu era um bastardo frio e sem coração.
Meu pai dizia que confiar demais nas pessoas era um erro, e isso fez com que eu me tornasse introspectivo demais para o meu próprio bem. Durante a infância, me mantive completamente isolado das outras crianças da minha idade, tornando-me maduro demais para acompanhá-las. Já na adolescência, estava tão concentrado em estar sempre à cima das expectativas que não tinha tempo para gastar com relações... Quer dizer, a menos que algum interesse sexual estivesse escondido no meio.
De qualquer forma, amizades nunca foi muito o meu forte, a não ser que eu tivesse algum lucro vantajoso com elas. Assim foi com Relena, que além de amiga, era sócia e uma amante em potencial. Apenas Trowa estava fugindo a essa regra, e isso não era de todo o ruim.
Esquecendo esses pensamentos, tentei me centrar no furacão que estaria me esperando lá fora. Ainda desconhecia os motivos que me moviam a tomar essa decisão, pois poderia simplesmente voltar tranquilamente para minha casa ignorando completamente a existência daquele garoto. Mas por alguma obra divina, eu não desejava que aquela situação se estendesse por muito tempo. Queria que as coisas se resolvessem de alguma forma.
Aquilo deveria ser simplesmente uma típica reação de irmão... É, era assim que eu gostava de pensar.
Com um suspiro longo e pesado deixei o meu quarto, avistando o corpo esbelto jogado preguiçosamente pelo sofá.
Desde quando eu classificava o corpo do baka?
Ele ignorou minha presença cantarolando alguma coisa qualquer enquanto brincava com a ponta da trança comprida que lhe caia pelo ombro. Me apoiei na parede esperando que ele me notasse, o que não demorou muito a acontecer.
- Se não se importa gostaria de esclarecer algumas coisas... – ele me olhou longamente, mas não manifestou qualquer imprecação contra a minha proposta. Já era um começo. – Essa situação é insustentável.
- Você acha? – perguntou deixando um pouco de ironia serpentear em sua voz. – Pois para mim está tudo muito bem. – voltou seu olhar para o teto emitindo um grunhido qualquer.
- Estou tentando conversar civilizadamente, poderia cooperar? – cruzei os braços o encarando de forma fria, tentando acabar de vez com as brincadeiras.
- Me surpreende Yuy, você nunca foi de falar, não é mesmo?- entoou debochado sustentando um pequeno risinho. Aquilo fez ruir todo e qualquer resquício de paciência que eu tinha que na verdade era muito pouca. Eu realmente precisava trabalhar mais esse meu lado.
- Escuta aqui garoto. – me aproximei em passos rápidos, ele sentou apreensivo se encolhendo em um canto distante do sofá. – Não estou pra brincadeiras então preste bem atenção. Você tem um problema que está se tornando meu também...
- Você não tem que assumir nada!
- E eu tenho escolha?
- Sinto muito ser um estorvo para você, e se não sabe, eu também não tive escolha! – ajoelhou no sofá tentando me encarar, mas eu ainda era alguns centímetros mais alto e usaria aquilo a meu favor.
- Como se eu tivesse...
- Você tinha sim senhor! Você passou malditos cinco anos negando a minha existência, dizer um simples não seria muito fácil!
E aquelas palavras me acertaram em cheio, causando mais impacto do que deveriam. Abri e fechei minha boca algumas vezes, na tentativa vã de replicar, mas estava perturbado demais para formular algo descente. Se aproveitando desse momento, ele se ergueu ainda no estofado apontado um dedo longo para a minha cara.
- O que foi Yuy? Difícil encarar a verdade? – pressionou o dedo contra o meu peito fazendo com que eu recuasse alguns passos. – Ignorou o seu irmão por cinco anos, mas não conseguiu negar um simples pedido da minha mãe, não é mesmo? E por que será? Ah sim porque ela esta morrendo!
Toda aquela ironia e presunção foram demais para os meus nervos já estremecidos. Sem pensar duas vezes segurei aquele dedo acusatório e puxei o corpo para o chão, empurrando Duo com tudo contra a parede mais próxima o prendendo entre a divisória e o meu corpo.
- Não... Fale de coisas... Que você não sabe... – murmurei friamente, procurando pelos olhos ametistas enquanto controlava minha respiração alterada pelo nervosismo.
- Hee... Heero...
Encarei o rosto apreensivo observando atentamente as mudanças que corriam pelos olhos exóticos. Havia medo, dor... Magoa. Mas... Acima de tudo estava um outro sentimento que eu não conseguia descobrir, o mesmo que eu iria ignorar e que provavelmente traria uma luz para aquela situação.
- Heero... Me solta... – pediu com a voz fraca chamando minha atenção para o meu próprio braço em sua cintura e a outra não em seu pescoço.
- Civilizado... – disse num suspiro soltando o corpo dele do meu aperto. Aquilo não parecia em nada com a conversa que eu tinha em mente minutos atrás.
- Isso não me pareceu muito educado...
- Sua língua espanta a minha boa educação.
- E você tem alguma? – replicou aparentemente recomposto.
- Você é muito petulante garoto, já te disseram ISSO? – subi o tom da minha voz tentando sobrepujar o toque da companhia, que pela insistência, deveria estar sendo apertada há um bom tempo.
- E você é um grosso! – rebateu indo em direção a porta.
- O que pensa que vai fazer?
- Atender a PORCARIA da sua porta!
- Não grite comigo MAXWELL!
Aquilo havia passado dos limites! Estava gritando a plenos pulmões por causa de um garoto idiota! Onde estava a porcaria do meu autocontrole? Olhei da porta para o bar decidindo se expulsava a visita indesejada ou aliviava o meu estresse com alguma coisa forte, mas optei pela primeira opção ao ver Duo pregado no batente da porta como se tivesse hipnotizado por alguma coisa do lado de fora.
- Duo Maxwell Yuy...
A voz calma e desconhecida chegou a meus ouvidos ao mesmo tempo em que eu percebia um ligeiro tremor no corpo de Duo ao ter seu nome completo proferido. Aquilo me causou uma ligeira curiosidade e fiz menção de me deslocar um pouco para ver o que havia atrás da madeira entre aberta. Mas antes que fizesse o primeiro movimento, a porta se abriu revelando um completo desconhecido para mim.
- Qua... Quatre? – balbuciou debilmente dando alguns passos para trás, nada parecido com o valentão que eu enfrentava há alguns segundos.
- Eu disse que conversaríamos mais tarde... – o garoto disse no mesmo tom calmo sem tirar seus olhos de Duo em nenhum momento. – Algo me dizia que as coisas estavam muito erradas e agora eu e o prédio sabemos o que é.
Com a ultima frase o tom do loiro parado em minha porta passou de sereno para reprovador. O baka apenas abaixou a cabeça fitando muito interessado no piso do apartamento. Eu não fazia idéia de quem aquele garoto era, mas passei a ficar verdadeiramente agradecido com a interrupção.
(#w#)
Continua...
(1) Tatianne, moça que deixa uns comentários fofos, e em um deles me deu essa luz! Espero que ela não se importe por ter ajudado... Qualquer coisa pode falar, viu?
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer e muito aos reviews que vocês deixaram! Respondi a maioria um por um, mas mesmo assim acho esse agradecimento válido.
Fiquei muito empolgada com a receptividade de vocês, e acabei ficando ansiosa para postar um novo capítulo. Espero que gostem! Ficou um pouquinho grande é verdade, mas se vocês preferirem algo mais curto, é só falar.
E, desculpem pelos possíveis erros...
Reviews please!
É bom saber o que vocês estão achando. Isso me dá motivação, e ainda influencia o que vocês vão ler! Além de agilizar o processo de postagem, é claro!
Bye
