- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc.
1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. -
"Dois irmãos, sentimentos confusos e crenças sendo testadas. Seria a hora de fortalecer, quebrar, ou desenvolver novos laços, novos vínculos. O quanto se pode resistir sem sucumbir ao que sua mente e o mundo diz ser proibido...".
E... Gundam Wing ainda não me pertence... Mas eu já tenho planos para isso...
(#w#)
Duo POV
Deixei meu corpo cair frouxo no sofá jogando minha cabeça para trás, soltando um suspiro longo e pesado. Virando o rosto sutilmente pude ver Heero sumindo dentro do seu quarto sem deixar que eu visse a sua expressão. Mas... Pelo relance que tive segundos atrás... Não era uma das melhores. Ele apenas grunhiu coisas incompreensíveis enquanto eu fazia as formalidades e deixou a sala sem dar um pio.
Senti minha cabeça latejar terrivelmente, fruto da discussão de segundos atrás. As coisas haviam fugido do meu controle e os finalmente nada tinham a ver com a minha idéia inicial. Tudo o que eu queria era deixar claro para Heero que aquela conversa não era bem vinda e que talvez fosse melhor deixá-la para outro momento...
Mas... Voltando ao pensamento inicial... As coisas fugiram ao meu controle.
Meu sangue ferveu há níveis inesperados, e no calor da discussão me senti quase bêbado falando coisas que não queria, jogando acusações na cara dele palavras que eu realmente não queria dizer. Era o velho instinto do machuque antes de ser machucado, e foi isso o que eu fiz, sem me dar conta de que quem estava saindo machucado era eu.
- Bela recepção... Calorosa, no mínimo.
Ouvi a voz serena e mirei meus olhos sem foco na imagem do loiro sentado ao meu lado. Os fios claros estavam ligeiramente rebeldes hoje, os olhos de um azul muito claro passavam tranqüilidade... Paz. Me lembrava as águas calmas de uma de muitas praias paradisíacas que nós visitamos em férias. Muito diferente do mar revolto que transparece nos olhos azuis do Heero...
- Pois é... Se soubesse de sua chegada teria preparado um show melhor... – ironizei me empertigando no sofá. – Onde está a fina educação dos Raberba Winner?
Os lábios finos se curvaram num sorriso muito familiar para mim. Apesar de completamente surpreso, estava aliviado por ter um rosto amigo por perto... E também um pouco receoso eu diria. Os motivos que levaram Quatre a vir ainda me eram obscuros, mas devia ser realmente importante para ele.
Afinal de contas... Ninguém faz uma viagem relâmpago como àquela sem um bom motivo.
- Nem preciso dizer que precisamos conversar... – fitei seu rosto sério e senti um ligeiro arrepio. – Pelo que eu e os vizinhos escutamos as coisas não estão nada bem.
Balancei a cabeça num sinal de reprovação. Não queria acreditar, mas era óbvio que Quatre estava ali para continuar nossa pequena conversa deixada de lado antes que eu partisse para a Terra. Eu devia saber que o loiro não desistiria tão fácil...
- Sinto muito Q, mas tive um dia difícil como pôde escuta, não estou afim de mais sermões...
- Ah... Mas você vai me escutar Yuy. Quem te vê nem parece que tem um bom conselheiro como eu.
Estreitei meus olhos adotando a expressão mais séria que meu cansaço podia formular. Vindo de Quatre, o maldito Yuy era mais do que comum, mas não menos irritável. Quantas e quantas vezes eu já havia pedido para o loiro não usar o bendito sobrenome... Mas funcionava? Ele parecia ter um prazer sádico em ver meus olhos brilharem em reprovação.
- Se é tão bom conselheiro devia confiar mais em seu pupilo...
- Disse que eu era bom... Mas não posso dizer o mesmo das suas qualidades como ouvinte... – ele rebateu com seu sorriso ampliado, olhando tudo ao seu redor com grande curiosidade.
Antes que pudesse formular qualquer resposta a altura, o som de passos chamou minha atenção e me virei rapidamente encontrando outro par de olhos azuis. Os de Heero. Para minha surpresa o japonês estava devidamente vestido... Bem demais na verdade. Tentei divisar alguma coisa em seu olhar, mas ele virou o rosto encarando Quatre sentado ao meu lado, que se levantou assim que percebeu a entrada.
- Espero não estar incomodando Sr. Yuy. – ele sorriu polidamente mostrando seus dentes brilhantes e aparentando um ligeiro embaraço. Os Winner tinham um bom ator na família e nem sabiam...
- Heero. Já escuto Yuy demais para o meu gosto... – comentou lançando um olhar discreto em minha direção, prontamente entendido pelo loiro.
- Não se preocupe Heero, é costume do Sr. Maxwell usar a formalidade de forma debochada quando se sente acuado.
- É mesmo? – um sorriso legítimo se formou nos lábios perfeitos e senti minhas faces corarem. Aquele anjo do pau-oco entregando os meus podres daquela forma descarada. – Fico encantado em não ser o único alvo dessa adoração.
- Igualmente.
- Ficará conosco Quatre? – perguntou se adiantando até a porta. Ao que tudo indicava Heero estava pronto para sair... Mas para onde?
- Não, já estou devidamente instalado, mas muito obrigado. – agradeceu sustentando o mesmo sorriso branco e fazendo uma pequena reverência.
- Certo. Nos vemos.
A porta do apartamento se abriu e fechou sem que eu tivesse tido a coragem de indagar para onde Heero estava indo. E o mais importante, quando e se ele voltaria... Mas ele tinha de voltar não é? Claro que, não deveria ser muito agradável retornara para sua própria casa e ser recebido com um saco de pedras... Mas aquele japonês era tão cabeça dura quanto eu... Ele não desistiria tão fácil assim... Não é?
Mas eu não queria que ele desistisse?
Merda! Eu estava confuso demais para o meu próprio bem...
- Em fim sós.
Senti um peso se juntar ao meu no sofá e virei meu rosto incrédulo para o do meu amigo que apenas sorria como não havia parado de fazer desde que Heero entrou na sala. Segundos depois percebi que ele trazia dois copos na mão e que um deles estava estendido para mim. Ele havia sido definitivamente rápido.
- Toma isso... – algo gelado foi pressionado contra a minha pele e procurei focar minha visão. – Vai te fazer acordar... Só espero que seu irmão não se importe de eu ter mexido no bar...
Seu irmão...
Aquelas palavras me fizeram acordar e eu me sentei ereto tomando o copo que me era estendido. Um líquido cor de caramelo preenchia o recipiente dividindo o espaço com alguns cubos de gelo. Sem pensar duas vezes virei tudo de uma vez na garganta, sentindo essa queimar no processo.
Todas as imagens voltaram a minha mente em um só baque. A briga, as feridas... As palavras duras... Heero me imprensando contra a parede... Ah... Esse havia sido o ponto alto naquela discussão toda. Agüentar aquele corpo forte contra o meu sem vacilar foi a prova de que eu era um homem forte. Quantas pessoas agüentariam sem sucumbir à tentação ambulante que era Heero Yuy?
Isso me fez pensar no que eu não daria para que ele desejasse mais do que socar a minha cara ao me imprensar daquele jeito...
Doce sonho.
O contato com seu corpo havia sido quente, um choque certeiro atingiu minha espinha e meus joelhos fraquejaram completamente. Se ele não estivesse me prendendo pelo pescoço, eu possivelmente teria encontrado o chão, sem força nenhuma em minhas pernas, assim como tinha acontecido no contato breve que tivemos quando ele me pegou tentando espiar o seu quarto.
- Não sei se já percebeu, mas vim até aqui para conversar...
- É eu percebi... – respondi seco sem disposição para mais uma de nossas discussões.
- Sabe, quando conversamos em L2, pensei que as coisas estavam resolvidas... – ele começou e procurei aguçar meus sentidos que pareciam longe enquanto pensava na sensação do corpo do Heero contra o meu.
- Você pensou... – apontei-lhe um dedo de maneira acusatória e estreitei meus olhos balançando a cabeça numa negativa. – Não entendo... O que você esperava encontrar aqui? Um casal de pombinhos? – me afundei novamente no sofá descansando a mão na lateral do corpo.
- Não... Eu esperava uma decisão, mas pelo visto nada aconteceu. – virei para ele no mesmo instante, encontrando pesar em seus olhos. – Onde estão os seus cigarros? Não está fumando como uma chaminé?
Deixei um sorriso tímido brincar em meus lábios e ele fez o mesmo se ajeitando melhor querendo me encara completamente. Eu não precisava de poderes sobrenaturais para adivinhar o que estava por vir.
Quatre era um amigo de longa data, uma criatura maravilhosa que esteve presente em meus altos e baixos, sempre com uma palavra reconfortante e um pedaço de chocolate no bolso. Mas, se havia algo em que não nos entendíamos completamente era o tópico:
Heero; Verdadeiro amor, ou apaixonite adolescente.
Ah... Esse assunto rendia boas conversas, algumas um pouco acaloradas eu diria. Quatre sempre foi a favor da declaração, ou na pior das hipóteses, de uma decisão de minha parte. Para ele ficar nesse chove e não molha era imaturo demais e prejudicial tanto para mim quanto para Heero. Mas eu achava isso uma besteira.
Eu defendia a omissão e indiferença, achando que a melhor forma de lidar com o assunto era deixando os sentimentos de lado. Heero nunca descobriria os meus sentimentos se eu não os contasse e assim eu seguiria em paz... Quanto menos eu remexesse esse assunto... Mais reclusos seriam os meus sentimentos...
Bem... Era isso o que eu pensava, e hoje vejo que estava completamente errado.
Mas nunca admitiria isso para o loiro ao meu lado.
- Pois é... – disse depois de um tempo em silêncio, sentindo os olhos azuis ávidos sobre mim. – Meus brinquedinhos acabaram e não tive tempo de comprar mais... – terminei com uma risada seca diante da menção do tempo.
Aquela havia sido uma mentida deslavada. Tempo foi o que eu mais tive durante aqueles dias. Enfurnado naquele apartamento como um parasita só fiz andar, andar e pensar.
E comer também.
- Teve tempo pra pensar eu presumo.
- É tive... – respondi vago sem olhar em seus olhos.
- E não quer dividir com seu amigo? – me olhou daquele jeito que deixava claro que eu não poderia fugir. Ele sempre teve essa capacidade... Era só me olhar daquela forma e eu nunca poderia lhe esconder nada.
Depois de um tempo, Quatre acabou por assumir a figura do irmão que Heero havia deixado vaga em minha vida. Por ser muito mais maduro, o loiro ficou com a figura do irmão mais velho, mas algumas vezes parecia mais a minha mãe do que qualquer outra coisa.
- Ter pensado não significa que cheguei a um consenso... – Um pensamento anterior em que a presença de Quatre era um alívio me pareceu muito errado olhando daquele novo ângulo.
- Duo... – pegou em uma das minhas mãos fazendo com que eu o encarasse. – Está me dizendo que olhou naqueles dois olhos azuis e não encontrou suas respostas?
Franzi o cenho um pouco enciumado com o comentário. Aquelas eram minhas duas pedras azuis, mesmo que Heero não soubesse desse detalhe... Na verdade, que ninguém soubesse desse detalhes... Mas isso não importava agora.
As coisas não eram fáceis daquele jeito, eu não poderia simplesmente chegar e tomar uma atitude impensada... O que o loiro esperava? Que eu tomasse a decisão mais importante da minha vida em setenta e duas horas? Eu precisava de tempo, precisa refletir, precisava...
- Então você realmente não sabe o que sente por ele... – ouvi a sentença e parei imediatamente a minha linha de raciocínio. – Já discutimos isso milhares de vezes, sobre diferentes ângulos e em vários níveis de maturidade. Tínhamos quatorze, quinze, dezesseis anos... Agora temos dezenove... São cinco anos Duo, e infelizmente devo dizer que continua olhando o problema com os mesmos olhos imaturos.
Levantei num estalo sentindo o ar me faltar.
Uma facada doeria menos eu presumo.
Olhei para ele ainda sentado no sofá, observando minhas reações como se fosse um daqueles programas sobre a vida animal, interessantes num todo, mas muito previsíveis. Sua postura continuava a mesma, calmo e sério sem deixar de sustentar meu olhar por um segundo se quer. Senti ímpetos de socá-lo e tirar aquela expressão neutra de seu rosto, mas me contive em pegar uma garrafa sobre o bar e encher meu copo novamente.
- Isso doeu... – afirmei olhando para uma decoração qualquer.
- Talvez porque fosse verdade...
- Talvez porque fosse maldoso...
- Está sendo infantil novamente. – ele acusou e eu o fitei indignado. – É difícil aceitar que estou tentando te ajudar?
- Me esfaqueando desse jeito?
- Eu quero que seja feliz Duo... E desse jeito você não vai chegar a lugar algum! Não posso te mimar para o resto da vida!
- Se viajou meio Universo para jogar essas coisas na minha cara... A porta da rua é serventia da casa! – apontei a porta, mas ele não moveu nenhum músculo. – Olha aqui Sr. Winner... Costumo agüentar os seus bons conselhos de mamãe pato, mas quando o assunto são os meus sentimentos... Prefiro que fique fora a partir de hoje!
Ele me olhou analítico, para depois sorrir gentilmente. Certamente estava com pena de mim, a mesma pena que ele sentiu por todos esses anos desde que havia lhe contado sobre os meus sentimentos pelo Heero. Era isso o que eu deveria esperar dos outros não era?
Apenas pena...
E era dessa forma que Heero me olharia se eu lhe contasse a verdade... Eu não precisava disso! Preferia vê-lo com ódio de mim!
- Que seja. – ele deu de ombros refazendo o sorriso que agora parecia mais natural. – Quando estiver disposto a conversar... Me procure. – levantou tirando um cartão meio amassado de dentro do bolso e o jogando sobre a mesinha.
- Não quero o seu cartão...
- Pois deixe ai que ele ainda lhe será útil... Só espero que entenda que esses vinte e oito dias que você ainda tem pela frente é uma chance única de concertar as coisas como seu irmão...
- Eu não...
- Não diga que não quer nada dele. Somos amigos, seja sincero. – e com isso ele se aproximou e me abraçou, se afastando rapidamente sem me dar tempo de responder ao contato. – Infelizmente nem todos nós podemos ter tudo Duo... O que você quer? Um amigo, um irmão... Um amante... Decida e agarre essa chance, ela pode ser a última. Heero não vai esperar você para sempre...
Novamente vi a porta do apartamento se abrir e fechar, mas dessa vez estava sozinho. Abandonei o copo em algum lugar e procurei pela garrafa esquecida, virando uma quantidade desnecessária fazendo minha garganta arder com o líquido que descia queimando. Algumas lágrimas teimosas escaparam dos meus olhos, mas me convenci de que era apenas pela ardência.
Homens não choravam...
A única coisa que eu realmente tinha feito questão de guardar dentre todos aqueles ensinamentos idiotas que meu pai havia tentado me passar...
Essa era minha primeira regra, e não quebraria meu sistema perfeito por causa de um japonês idiota.
Agarrando uma outra garrafa qualquer segui em direção ao meu quarto. Nada como o álcool para fazer a cabeça funcionar e quando eu finalmente estivesse bêbado, esqueceria todos os problemas e poderia descansar em paz.
O que era uma enxaqueca em troca de um alívio momentâneo?
"O que você quer? Um amigo, um irmão... Um amante..."
Eu queria tudo... Queria tudo, e isso Heero nunca poderia me dar...
(#w#)
Heero POV
Senti a bebida descer acompanhada de uma leve ardência, mas nada que chegasse a me incomodar. Aquilo ainda estava fraco para o que eu precisava para sanar minhas dúvidas.
E elas eram muitas.
As cenas da discussão de horas atrás não paravam de ribombar na minha cabeça fazendo-a latejar, incitada pela batida frenética que tocava ao fundo abafada pelos vidros que protegiam a área da boate em que estávamos. O lugar não era o mais tranqüilo para uma conversa, mas ali eu teria privacidade o suficiente para conversar e beber sem me importar com quem estivesse ao meu redor.
- E o garoto chegou do nada? – perguntou perdendo seu olhar nos corpos que dançavam além do vidro grosso que tentava impedir a passagem do som.
Assim que deixei meu apartamento liguei para o celular de Trowa, não confiando muito na possibilidade de bater em sua porta, sendo ele uma pessoa muito ativa. Para meu contento, ele aceitou o convite prontamente concordando em ouvir mais um pouco sobre minha batalha contra o trançado de língua ferina.
Já estávamos há mais de duas horas ali e o assunto ainda era o mesmo. Eu nunca estive tão tedioso em minha vida...
- É... Mas não foi de todo o inconveniente... – balancei o copo em minhas mãos fazendo o gelo sacolejar timidamente. – Não sei o que poderia ter acontecido se continuássemos a discutir... Aquele garoto cerca a minha razão. – admiti abertamente, com certeza sobre o efeito relaxante do álcool.
- Verdade... Você chegou a imprensá-lo contra a parede, não é verdade?
O olhei atravessado entendendo muito bem o peso de suas palavras.
- Não seja ridículo, ele é meu irmão.
- Corrigindo, você o considera como irmão... – replicou abrindo um de seus sorrisos enigmáticos.
Parei por um momento analisando aquele rosto calmo tentando ver qualquer tipo de brincadeira escondido naqueles olhos verdes. Ele não estava falando sério... Estava?
- Hn. Só poderia ter saído de quem... Trowa Barton.
- E qual o problema? – perguntou sério dobrando a manga da camisa preta que usava. – Me considera algum mundano por acaso?
- E não é? – rebati com um pequeno sorriso no rosto.
- Assumo. E você Yuy?
Descansei o copo sobre a mesa olhando mais seriamente para o rosto que me encarava. Sabia que Trowa era um homem liberto dos falsos moralismos que regavam nossa sociedade, e em parte eu concordava plenamente com ele.
Com a morte do meu pai e a entrada na vida adulta, certos pensamentos "antiquados" que eu resguardava acabaram por desaparecer, assim como muitos dos meus conceitos se modificaram.
O sexual, por exemplo.
Hoje não pensaria duas vezes em afirmar que um tórax bem definido me atrai muito mais do que um par de seis fartos. Mas... Daí a acreditar que o moreno a minha frente estava insinuando algo entre Duo e eu...
Era um passo largo demais para as minhas pernas.
- Sabe... Mundano pode ser empregado de várias formas... – ouvi sua voz distante e tentei voltar a realidade, cortando minha linha de pensamentos. – Por exemplo... Se dormir com um sócio é ser mundano... – estendeu um olhar significativo para mim escondendo um sorriso nos orbes verdes. – Acho que você se enquadra no perfil.
- Concordo. – cruzei os meus braços sobre o peito encarando-o da mesma forma. – E se... Dormir com homens for considerado mundano... Você se encaixa no perfil.
- Certo. – ele relaxou na cadeira estalando o pescoço num movimento sinuoso. – Mas acredito que nesse você se encaixe novamente.
- Dois a um Barton... – sussurrei na borda do copo sorvendo uma grande quantidade da bebida logo depois.
- De qualquer forma somos mundanos, e isso nos leva ao assunto anterior... Você imprensando Duo contra a parede. – ele fez uma pequena pausa, onde pareceu refletir sobre suas palavras. Essa era uma de suas principais características, nunca falar sem confiar plenamente no que estava pra dizer. Isso me fazia crer que ele realmente estava levando a sério o seu ultimo comentário. – Me diga Heero... O que você sentiu naquela hora?
Tenho certeza que minhas sobrancelhas se uniram completamente em minha face diante da força que fiz para compreender aquela pergunta. Como o que eu senti? Eu estava possesso demais para realmente sentir alguma coisa. A única coisa que eu queria era fazê-lo calar aquela boca grande, de onde só saiam besteiras. Aquele garoto falava muito rápido sem me dar tempo para resposta, a saída que achei foi... Calar à força.
- Vontade de socar a cara dele? – arrisquei, fazendo meu amigo dar o primeiro sorriso genuíno daquela noite.
- Além disso...? – fez um gesto largo com as mãos pedindo para que eu prosseguisse com minha análise.
- Mas o que mais eu poderia dizer?
- Acho que nada... – suspirou resignado descansando as costas no encosto almofadado. – E ele como reagiu?
- Hn... – deixei um pequeno sorriso se formar em meus lábios lembrando da cara de tacho que aquele baka fez quando o surpreendi. – Ele fechou a boca... Por segundos, mas fechou.
- Não era para menos... – comentou olhando para algum ponto atrás de mim. – Qualquer hora dessas farei uma visitinha para ele.
- Fique longe do meu irmão Barton... – murmurei num tom de alerta, mas ele apenas riu.
- Qual o problema Heero? Talvez Duo saiba o que é bom... – apanhou o copo que tinha abandonado, ainda com os olhos presos em algum lugar.
- Acho melhor você dar o fora, já ajudou o suficiente... – sei que soei ríspido, mas ele não ligaria. Depois de algum tempo meus melhores olhares frios e meu tom agressivo deixaram de fazer efeito.
- Certo... E se me der licença... – levantou retirando uma nota do bolso e jogando sobre a mesa.
Respondi com um meneio de cabeça rápido e ele deixou minha companhia, provavelmente para encontrar outra definitivamente mais interessante... Ou não. Trowa era do tipo que não perdia tempo. Quando o chamei para aquele lugar já imaginava que não voltaria para casa com ele, não que me importasse. Nós já havíamos conversado o suficiente para toda uma vida apenas naquele dia.
Provavelmente o moreno de descendência latina que eu tinha como amigo voltaria para casa com um belo espécime. Enquanto eu voltaria mais uma vez para o inferno que havia se transformado o meu apartamento, sem o direito de levar algo que me distraísse, mesmo que só por algumas horas. Esse era um dos principais motivos que me impeliam a recusar todo e qualquer tipo de visita em minha casa. A sensação de perder a liberdade por estar dividindo o lugar com outra pessoa era insuportável.
A porta da sala se abriu num rompante enchendo o lugar do barulho que agitava a pista de dança lá fora. Me virei irritado para fuzilar com os olhos a criatura inconveniente, e não fiquei surpreso a dar de cara com um casal, ocupado demais para tentar ser mais discreto em suas ações. Com um suspiro cansado, deixei a mesa juntando uma de minhas notas a que Trowa havia deixado e abandonei a sala passando pelo casal afoito.
Com certa dificuldade fui passando em meio aos corpos dançantes, levando vez ou outra uma passada de mão mais ousada. Tentei olhar frio para os inconvenientes, mas em lugares como aqueles as pessoas não pareciam ter muito senso do perigo. De qualquer forma eu já estava acostumado. Lugares como esse não eram um de meus favoritos, mas caiam muito bem quando o objetivo era aliviar as tensões do dia a dia.
Inevitavelmente liguei o assunto em questão ao americano baka, que desde novo era muito ligado a musica, sendo boates o seu habitat natural. Lembro que em uma de minhas ultimas visitas, encontrei uma identidade falsa escondida no meio de suas coisas, mas não consegui repreendê-lo. Aquele sorriso maroto que ele me dava sempre que aprontava algo me impedia de tomar uma atitude mais séria.
Não conseguia entender o que havia acontecido com o garoto alegre e descontraído que eu conheci um dia. O Duo que estava em minha casa parecia em uma constante reflexão e seu olhar se perdia em vários momentos, perdendo todo aquele brilho que lhe era tão comum. E o mais intrigante era que aquilo parecia ser dirigido só para mim.
Isso me lembrou as palavras do tal de Quatre:
"Não se preocupe Heero, é costume do Sr. Maxwell usar a formalidade de forma debochada quando se sente acuado."
Por que ele se sentiria acuado ao meu lado? Minha presença lhe fazia tanto mal assim?
Talvez fosse mais sensato reconsiderar a minha idéia inicial e ficar o mais longe o possível daquele garoto.
O fato de ter me afastado por anos não significa que deseje o seu mal, muito pelo contrário. Quando o visitei pela ultima vez e olhei em seus olhos... Tive a certeza de que o melhor que eu podia fazer era me afastar. Algo me perturbava quando a íris violeta me encarava... A mesma coisa que...
- Sr. Yuy? – Balancei a cabeça olhando ao meu redor. Estava tão distraído que nem ao menos percebi a presença do homem que segurava a chave do meu carro em suas mãos. Ele me olhou com certa estranheza, mas deu de ombros me entregando o chaveiro. – Uma boa noite para senhor.
- Igualmente... – respondi seco entrando no carro.
Dei a partida e rumei para meu apartamento esperando que Duo já estivesse dormindo quando eu chegasse, ou pelo menos enfiado em seu quarto como em todas as outras noites. Eu não queria pensar no porquê de suas palavras duras e de seu distanciamento, muito menos no que seus olhos me diziam quando me encaravam daquela forma. Pela manhã, mais descasado e com a cabeça no lugar, eu decidiria o que fazer a respeito.
Mas... As coisas nunca pareciam seguir o rumo que a gente esperava.
Quando cheguei fui recebido pelas luzes acessas da sala e um cheiro de bebida que estava impregnado por todo o cômodo. Tentei ignorar o estado de alerta em que aqueles pequenos sinais me deixaram, mas foi impossível não me irritar ao dar falta de duas garras que deveriam estar exposta no bar. Era a única coisa que me faltava, um baka bêbado andando pela casa.
Sem pensar duas vezes entrei com tudo em seu quarto disposto a falar algumas verdades para ele, mesmo que tivesse que amordaçá-lo dessa vez. Mas para o meu espanto Duo parecia longe de estar consciente para discutir.
Deixando a irritação de lado, me aproximei do corpo adormecido no chão que abraçava possessivamente a minha garrafa de vodca. As maças de seu rosto estavam avermelhadas assim como seus olhos que apresentavam um leve inchaço, como se ele tivesse chorado por horas. Não pude deixar de imaginar mil coisas que poderiam ter acontecido entre ele e aquele amigo para que as coisas chegassem a esse ponto.
- Duo? – chamei sacudindo-o levemente para ter certeza de que não estava desmaiado. – Duo! – chamei mais uma vez não obtendo resposta.
Passei um braço por trás de seus joelhos e apoiei seus ombros em meu peito, o levantando junto comigo. Senti o corpo em meus barcos tremer ligeiramente e logo um par de olhos ametistas se abriram me encarando de um jeito estranho, meio delirante.
- Heero? – a voz pastosa chamou e me permiti sorrir aliviado.
- O que foi baka? – o coloquei sobre a cama sentando ao seu lado.
Ele me olhou longamente e eu apenas sustentei seu olhar. Era muito provável que não conseguisse falar muita coisa depois de ter virado duas garrafas de bebida, mas eu ainda tinha esperanças de que ele me esclarecesse aquela situação.
- Ah Heero as coisas estão dando muito errado... – seus olhos se encheram de água e ele se encolheu buscando o calor do colchão. Me lembrava muito o menino de anos atrás que ajudei a criar.
- O que aconteceu entre você e seu amigo? – perguntei deixando minha voz sair suave.
- Nada aconteceu Heero...
- Nada? – insisti gostando de toda aquela amabilidade. Talvez embebedá-lo diariamente não fosse uma má idéia.
- Nada... – repetiu puxando de maneira desastrada o edredom para junto do corpo. – Quatre é uma boa pessoa... – acrescentou. – Só fala verdades demais...
Uma lágrima solitária percorreu seu rosto e eu me adiantei para secá-la. Ele parecia muito triste com alguma coisa e isso me incomodava. Eu preferia ver aquela bola de energia gritando comigo pela casa do que chorando daquele jeito.
- Verdades? – indaguei tentando desviá-lo novamente para as conversas sem sentido.
- É Hee-chan... Verdades...
Senti meu coração se aquecer com a forma pela qual fui chamado. Não ouvia aquele apelido há anos e não esperava ser chamado assim depois de tanto tempo.
Logo que fomos apresentados, Duo mostrou uma dificuldade interessante de pronunciar "Heero" de forma aceitável e acabou por encurtar até onde sua língua permitia sem enrolar. Com o tempo, o sufixo foi colocado no final e a criança tagarela chamava "Hee-chan" para todos os lados. A principio a idéia não me pareceu uma das mais geniais, mas acabei aceitando... E até gostando eu diria.
- Heero?
- Hn? – olhei para o seu rosto e ele segurou uma de minhas mãos.
- Eu estou meio bêbado...
- Deu pra perceber... É melhor você dormir.
- Você não gosta mesmo de conversar comigo, não é?
Aquela pergunta me pegou de surpresa. Não apenas a pergunta, mas o frio que senti quando suas mãos abandonaram as minhas. Ele baixou os olhos fitando o tecido negro do edredom brincando com um fio solto da costura. Ele definitivamente estava adorável daquela forma e a idéia de estocar garrafas de bebida na casa voltou com tudo em minha mente. O único problema seria fazer com que ele se embebedasse novamente, mas nada que eu não pudesse resolver.
- Não é isso... Apenas quero privá-lo de uma situação... Interessante, quando você acordar. – seus grandes olhos me fitaram novamente e suas sobrancelhas se juntaram no centro da testa. – Se você disser algo de que vá se arrepender e se lembrar amanhã... Provavelmente tentará me matar.
Uma risada melodiosa e um pouco alterada pela bebida preencheu o quarto e eu me lembrei do quanto gostava daquilo.
- Você tem razão... Uma pena que as coisas tenham que ser assim... – disse triste deixando a voz ainda mais pastosa. – Quatre disse umas coisas e... Eu sei que ele está certo Hee-chan, mas... É tão difícil... – coçou os olhos sonolentos e voltou a encarar o edredom.
- O que ele disse? – perguntei confuso com suas palavras soltas.
- Não podemos ter tudo o que queremos...
- Isso não é verdade. – ajeitei a coberta em torno de seu pescoço e ele sorriu satisfeito. – Me diga o que você quer, e eu trago pra você...
No mesmo instante me arrependi daquelas palavras. O sorriso repentino sumiu e foi substituído pelo mesmo olhar melancólico de segundos atrás. Nunca conheci alguém com um temperamento tão inconstante quanto o dele.
- Isso não é justo Heero... Eu bebi pra esquecer e não pra relembrar... – se empertigou todo revirando no lugar até deitar de costas para mim. – Me deixa em paz.
- Certo... – levantei convencido que o efeito da bebida já deveria estar passando.
Dei uma ultima olhada no quarto catando as duas garrafas do chão e deixando a luz do banheiro acesa com a porta entreaberta. Se o baka passasse mal não ganharia alguns hematomas na corrida e meu carpete continuaria limpo no dia seguinte.
- Boa noite Heero... – a voz sonolenta me alcançou enquanto eu deixava o quarto.
- Boa noite Duo...
Fechei a porta e ganhei a escuridão do corredor sentindo meu corpo mais leve e a mente mais confusa. Talvez ele não me odiasse tanto quanto eu imaginava. Como dizem, muitas vezes o álcool mostra nossa verdadeira personalidade, e a daquele baka estava longe de ser a pura arrogância que eu conheci aqueles dias.
Ele realmente parecia triste... Acuado como seu amigo havia dito, mas eu não consegui enxergar um bom motivo para isso.
Poderia ser nossa mãe, mas não era isso que seus olhos me diziam, não era preocupação que via em seus momentos de fúria...
Definitivamente precisava ter uma conversa com ele... Mas sem o aditivo de arremessá-lo contra a parede.
Andei até a sala tentando colocar um pouco de ordem na bagunça feita pelo baka. Enquanto catava alguns copos vislumbrei sobre a mesa uma espécie de cartão que eu sabia não estar lá quando saí para a boate. Peguei o papel amarrotado e passei os olhos pelas letras douradas com o logotipo de um hotel de classe que ficava a algumas quadras na avenida principal.
Virei o cartão munido de uma curiosidade nada costumeira, e numa letra bem desenhada estava o nome do rapaz que me foi apresentado mais cedo como amigo do Duo.
Se é que poderia considerar o garoto como amigo, dado o estado em que o baka estava depois daquele encontro. Alguma coisa muito séria havia acontecido entre os dois... Eu devia ter imaginado.
A forma como Duo se comportou quando o viu... A determinação nos olhos azuis do tal... Quatre.
Algo me dizia que o loiro tinha as respostas que eu precisava para entender o que estava acontecendo com aquele americano baka. Na primeira hora do dia eu estaria na porta do Sr. Quatre Winner e colocaria em pratos limpos toda essa situação.
Se Duo não queria me contar da própria boca... Eu teria de descobrir pela do seu melhor amigo...
(#w#)
Continua...
Mais um capítulo...
Perdoem os erros... Não tenho muita paciência para corrigir... .
Mas espero que vocês gostem...
Mandem seus comentários, é bom saber o que você estão achando o/
Bye
