- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc.

1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. –

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Disclaimer: Lembrando sempre que infelizmente Gundam Wing não me pertence... Nada, nadinha de nada... . E que esse trabalho não possui fins lucrativos... .

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Vínculos.

VII

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Heero POV

Afinal, quanto mais um cara de vinte e seis anos pode amadurecer?

Até alguns dias atrás eu diria que "não muito" ou um definitivo "nada"; mas hoje eu havia provado novamente do poder que o destino poderia ter, principalmente quando agia de forma a dar uma reviravolta em nossa vida com um golpe único e certeiro.

Mas não sou um estreante quando o assunto é "guinadas". Há alguns anos, mudei para me adaptar a nova vida sem as pressões e influências do meu pai e outra, para me adaptar melhor ao novo mundo que se abria para mim, onde as pessoas não olhavam para além do seu umbigo, onde competição era a palavra chave e o único meio de sobreviver era estar sempre no topo.

Certa vez, li uma citação em um livro qualquer que viria muito a calhar no momento: "É impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é".

Nos últimos anos, o que seria apenas "fama" transformou-se em fato, e eu havia me tornado uma das pessoas mais sem tato que já caminharam pela Terra. Eu queria estar no topo, conquistar meu próprio espaço e precisei passar por cima de muita gente para transformar meus objetivos em projetos concretizados. Aos poucos, abandonei minha família e deixei que as coisas rumassem para um caminho sem volta.

Apesar de ter engordado minha conta corrente, não posso dizer que o fruto dos meus esforços tenha trago mais do que realização profissional. Se eu fosse realmente honesto comigo mesmo, admitiria que andar de cama em cama não é lá uma base muito sólida para construir os alicerces de uma vida plena e... Feliz.

Dei uma olhada nas sombras do apartamento escuro, nada parecido com o que eu costumava chamar de lar até alguns dias atrás. Na verdade, não sei mais dizer se o que tinha anteriormente poderia ser classificado dessa forma.

Talvez a descrição mais sábia seja "lugar para onde eu voltava depois do trabalho, ou de uma foda".

A gente se acostuma com o que tem... Com o pouco que tem; acha mais prático, mais confortável. Depois de um tempo nem notamos as pessoas se afastarem, assim como não percebemos que a ausência delas não nos faz a menor diferença. No final, quando não reparamos mais no que há ao nosso redor, morar sozinho em um lugar três vezes maior do que a real necessidade também deixa de fazer diferença.

Deixa de ser solitário para se tornar irrelevante.

Desliguei a Tv deixando um suspiro resignado e aborrecido sair de meus lábios. Estava sentado ali há um bom tempo, e nenhum programa havia me entretido o suficiente para afastar aquelas conjecturas filosóficas, que resumidas, giravam em torno de Duo; nossa mãe e, por conseqüência, nosso futuro sem ela.

A tarde nostálgica e o fax no fim do dia, trouxeram uma perspectiva completamente diferente a meus olhos; e no momento, me via estranhamente amadurecido, por mais estranha que uma afirmação como essa possa parecer.

Agora, minha meta não era evitar Duo ou se quer me preocupar com o que ele estivesse sentindo a longo prazo, muito menos o motivo de suas ações tão estranhas. O que me atormentava era a certeza de que mais cedo ou mais tarde, más notícias não tardariam a chegar servindo como o divisor de águas na vida de Duo e indubitavelmente na minha.

A pergunta que não queria calar era: O que seria dele quando nossa mãe partisse?

Pode parecer estúpido, mas eu ainda não havia parado para pensar a respeito. Pelo menos não até Trowa ressaltar em suas frases cheias de significados.

É claro que a idéia de deixar Duo à deriva nem me passou pela cabeça. O fato de nunca ter atentando para esse detalhe, não significa que eu pretenda ignorá-lo novamente.

Eu não era homem de cometer muitos erros, que dirá repetir uma fatalidade.

A chance de concertar algumas falhas me era entregue em bandeja de prata com direito a sinalizadores fluorescentes; que tipo de idiota eu seria se recusasse?

Duo estava em de volta a minha vida, mesmo que superficialmente. O difícil seria convencê-lo disso, e pior ainda, fazer com que ficasse depois que o pior acontecesse...

Eu no seu lugar não ficaria.

Estávamos tendo um começo mais do que conturbado; ele não tinha nenhuma lembrança boa aqui que o fizesse pensar mais do que dois segundos na hora de me dar uma resposta. Sinceramente, não via nenhum futuro nessa minha mais nova idéia brilhante; mas não me parecia correto deixá-lo depois do choque que será perder a mulher que foi a figura materna e sua família nos últimos dois anos...

Até aquele momento, minha mente já havia me presenteado com várias prévias da reação que Duo teria quando a notícia finalmente chegasse e até a mais leve delas fazia meu coração contrair-se em seu lugar. Era aquele sentimento de "apreensão" que não me deixava desde que li o conteúdo do fax...

Talvez, esse sentimento estivesse ali, escondido, mostrando apenas um pouco de sua face a cada vez que eu cogitava qualquer coisa relacionada a Duo. Talvez eu pudesse finalmente nomear a sensação estranha que me acometia a cada vez que eu fitava seu rosto...

Seria isso apenas apreensão?

- Heero? – a voz suave ecoou pela sala, e me vi erguendo o rosto para fitar um Duo inquieto em seu posto a uns dois metros de mim. – Heero? Você está bem?

Ele hesitou diante do meu silêncio, mas avançou alguns passos, sempre mantendo uma distância "segura" entre nós. Lancei-lhe um olhar contido observando suas roupas; não eram as mesmas de mais cedo, mas eram tão negras quanto.

- Vai sair de novo? – vocalizei um pensamento, soando mais autoritário do que devia. Aquele tom causou uma reação quase imediata no garoto.

Observei com certo fascínio um conjunto de emoções diferentes brotarem em sua face e uma sobrancelha delineada ser erguida. Por fim, o som de sua voz chegou aos meus ouvidos, acrescida de sua costumeira ironia.

- Te aborrece eu sair para respirar? – replicou com a língua afiada. – Ou prefere que eu crie bolor aqui? – cruzou os braços me encarando duramente.

Respirei o mais profundo que podia, convicto de que aquele ciclo de brigas que nós havíamos iniciados deveria acabar de uma vez por todas; e se ele não daria o primeiro passo...

Bem, que eu o desse então.

- Estava apenas curioso, sinto muito. – praticamente forcei as palavras a deixarem seu refugio, mas poderia dizer que havia soado o mais próximo do audível e convincente.

Duo abriu e fechou a boca sem emitir nenhum som, me olhando como se uma cabeça a mais estivesse pregada em meu pescoço. Algum lugar em minha mente estalou no momento em que o vi morder os lábios, provavelmente desconfiado com a minha súbita mudança de comportamento.

Estava ali, claro como o dia, gritante como letreiro de néon.

Eu e Quatre não poderíamos ter nos equivocado mais.

Ele estava certo em um ponto: provavelmente, Duo não me via mais como irmão que esteve ao seu lado durante toda a infância.

E por que?

Bem, faltava uma coisa essencial para qualquer relação:

Confiança.

Eu havia quebrado promessas, me deixado afastar; é claro que ele teve sua nota de participação, afinal de contas, não fui procurado durante todos esses anos. Mas isso não retirava a minha carga de culpa... Eu havia lhe faltado, perdido sua confiança...

E certamente eu não a conquistaria de volta ignorando-o da forma como estava fazendo.

- Será que um dia poderemos conversar normalmente? – perguntei entre um suspiro tentando assimilar aquela nova informação.

- Com você é meio difícil... – respondeu ainda desconfiado, mas numa posição menos defensiva. Seus olhos me analisaram por alguns momentos, e vi um quase fraquejar do que quer que ele estivesse pretendendo fazer. – Mas... Eu vim aqui em missão de paz... Hoje.

Franzi as sobrancelhas até o centro da testa, surpreso com aquela declaração de paz.

- Veio... Conversar? - indaguei, tentando não soar pretensioso.

Seus olhos exóticos voltaram a me analisar, uma aura calma formando-se ao seu redor. Agora eu tinha certeza de que ele estava decidindo o que fazer, usando aqueles instantes para analisar suas opções. E é claro que eu não deixaria a oportunidade escapar.

- Acho que está mais do que na hora de nós... Colocarmos algumas coisas em discussão. – a lembrança da nossa conversa acalorada me veio em mente, me alertando para a péssima escolha de palavras. A minha frente, Duo torceu o nariz, provavelmente lembrando do mesmo episódio. – Sem gritos. – acrescentei.

- E sem paredes... – replicou distante, como se recuperasse a memória daquele dia.

- Você...

- Sally me contou... Me contou o que você fez hoje, Heero... – começou num tom calmo, novidade para meus ouvidos.

- Ah... Isso... – murmurei, repousando as costas no encosto do sofá. – Não foi nada...

Duo se mexeu desconfortavelmente em sua posição de sentido para segundos depois marchar em minha direção e sentar-se ereto ao meu lado, sempre com uma distância entre seu lugar e o meu.

Ele baixou o rosto para fitar o carpete, fazendo sua trança correr pelo tecido negro e descansar em seu peito. Observei o pedaço de cabelo tentando recordar a ultima vez que havia tocado as madeixas castanhas. Pelo que me lembrava, eram um pouco menores e menos volumosas.

- Sei que não é seu desejo se envolver nisso...

- Não é bem assim Duo... Posso não ter estado lá, mas sempre me mantive informado sobre...

- Isso não é o suficiente, Heero... – ele me cortou, erguendo o rosto para me encarar. Havia tanta decisão e aquela mágoa. – Simplesmente ligar para o hospital e "manter-se informado", não é o suficiente...

Me calei, sem qualquer argumento. Como eu o contestaria depois de uma afirmação daquelas? Ele parecia tão cheio de razão... Nada que eu dissesse naquele momento acabaria com o brilho ressentido em seus olhos.

- Sinto por... Por ter deixado as coisas correrem dessa forma... – disse diante do seu silêncio. As palavras brilhando como neon em algum lugar do meu cérebro, mas se perdendo no caminho para a boca. – Eu... Não fui o melhor irmão de todos... – assumi, não encontrando outras palavras para me expressar.

Os olhos ametistas arregalaram-se ligeiramente, e o rosto redondo se contorceu.

- Você está...

- Eu nunca fui bom o bastante... Eu... – senti um nó atravessar minha garganta, tentando impedir a saída das minhas palavras recém encontradas.

- Acho que você não é muito bom nisso... – interrompeu-me com um sorriso triste brincando em seus lábios. Pela primeira vez, eu podia ler claramente o que sua expressão me passava; havia confusão; surpresa acima de tudo, mas também uma quantidade considerável de tristeza.

- Concordo. – lhe retribuí o mesmo sorriso melancólico, incapaz de me expressar de outra forma. Pela primeira vez em dias, sentia que as coisas se ajeitariam e quando o pior acontecesse, eu poderia protegê-lo, poderia... – Mas eu preciso me desculpar...

- Não. – cortou, me olhando com uma seriedade quase bizarra.. – Não preciso e nem quero suas desculpas Heero... Muito pelo contrário. Só vim aqui para agradecê-lo...

Congelei em meu lugar, sentindo meu pequeno sorriso esmorecer. Ele estava dizendo que minhas desculpas não lhe importavam?

Que não precisava delas...?

Teria Duo me anulado de sua vida de tal forma a ponto do meu afastamento não ter significado nada?

Não... Isso ia contra a todos os seus atos nos últimos dias, ia contra tudo que Quatre havia me contado...

E o pior é que ele estava ali, me agradecendo por uma coisa tão... Tão pequena; nada mais que minha obrigação, e eu estava com dificuldades para pedir perdão pelos meus erros...

- Não era sua obrigação assinar o documento. – sua voz cortou meus pensamentos, e eu me virei para encará-lo. – Gostaria de agradecê-lo por isso...

- Não diga besteiras. – grunhi tocando seu braço. Ele levantou a cabeça surpreso, e me dei conta de que estávamos mais próximos do que no início da conversa. Parte de mim temeu que isso o fizesse se afastar, mais o outro lado imaginava estar fazendo a coisa certa. – Precisamos colocar isso em pratos limpos, de uma vez por todas!

- Não! – protestou puxando o braço que eu segurava, como se de alguma forma, minha mão pudesse queimá-lo, mas eu ainda era mais forte. – Acho que nossa conversa acaba por aqui...

Suas palavras passaram bem longe de meus ouvidos, e tudo o que eu consegui fazer foi ficar preso àqueles olhos azuis arroxeados, tentando achar as palavras que me faltava e rezando para encontrá-la antes que aquele momento se perdesse.

"Você passou malditos cinco anos negando a minha existência, dizer um simples não seria muito fácil!"

- Custa tanto assim me desculpar?

- Já disse que não quero conversar sobre nada, não com você!

"Faz parte da mágica do tempo, Heero... Fazer com que esqueçamos de algumas promessas que fazemos...".

- Me solta Heero!

"Você promete que vai voltar sempre Hee-chan?... Hee... Você promete?"

- Eu não... – libertei o braço do meu aperto e fitei as duas ametistas que me encaravam temerosas. – Não fui capaz de cumprir as minhas promessas... Eu não voltei... Sinto muito...

A minha frente, Duo retrocedeu dois passos; o temor em seus olhos expandiu-se por todo seu rosto, contorcendo sua expressão em um misto de dor e incredulidade. Era a primeira vez que eu conseguia lê-lo completamente e me entristecia ver o tamanho da dor que estava causando a ele...

Ainda ficamos ali, nos encarando sem dizer nada por um longo minuto, e eu compreendi nas entrelinhas que aquela era a única resposta que eu teria: o seu silêncio.

E o que mais eu poderia esperar?

Lancei-lhe um ultimo olhar e entrei no corredor buscando o abrigo do meu quarto. Acionei o ar condicionado enquanto encostava a porta, e me enfiei de baixo das cobertas, fazendo dos edredons e travesseiros o meu casulo. Num ultimo gesto, puxei desajeitadamente a foto que ainda estava em meu bolso sem enxergar muito, mas já tendo decorado a imagem ali registrada.

"Você promete...?"

É... O que eu poderia esperar além do seu silêncio?

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(#w#)

Duo POV

Olhei para o cigarro entre os meus dedos tentando imaginar como eu havia conseguido ficar tanto tempo sem provar um pouquinho daquele veneno apesar da quantidade de problemas que caia na minha cabeça. Pode não parecer, mas uma semana sem fumar para quem era quase um viciado é muita, muita coisa. Ainda mais quando se está em uma situação classificada como estressante.

Talvez deva creditar essa graça ao meu porre no meio da semana, que por mais dolorida que tenha sido a ressaca, levou consigo um pouco da minha inquietação.

Mas lá estava eu, quase meia noite, sentado no meio-fio de uma das ruas que circundava o prédio onde eu "morava", fumando como uma chaminé na esperança de ter a confusão que me consumia sanada pelo excesso de nicotina.

Eu não sou idiota, eu sabia que isso jamais iria acontecer, mas o cilindro sumindo pouco a pouco nos meus lábios soava como uma contagem regressiva, como o caminho da pólvora que antecede a grande explosão. E quando isso acontecesse, eu teria de levantar a minha bunda daquela calçada com uma decisão tomada; para pior ou para melhor; mas que colocasse um fim naquele joguinho que eu havia criado, e por conseqüência, Heero acabou se jogando de cabeça.

Mas eu estava farto! Farto de ficar confuso; farto de me sentir um idiota, de agir como um idiota!

Quatre tinha toda a razão... Eu estava agindo com o um imaturo, e mesmo que eu ainda não conseguisse ver um futuro ao lado do Heero, nada aconteceria se eu não desse continuidade àquele primeiro passo, independente do amor que eu esteja nutrindo esse tempo todo.

E porque tudo isso agora?

Simplesmente porque me doía lembrar do rosto do Heero ao me pedir desculpas... Não só o seu rosto, mas as palavras que ele usou... Aquilo... Foi como se ele buscasse no fundo por alguma lembrança que me era completamente desconhecida, mas que para o japonês tinha todo um sentido...

E pelo peso, pela angustia que eu senti em seus olhos, ele realmente estava arrependido de não ter cumprido...

Como eu poderia não perdoá-lo?

Bem... Minha mente estava tentando arranjar várias formas de responder essa questão.

Eu deslizava entre o flash do pedido de desculpas de momentos atrás e as recordações de vários e vários momentos em que senti o meu coração se quebrar um pouquinho a cada rejeição que eu sofria dele. Pelo menos, era assim que eu encarava as ligações que ele fazia lá pra casa e nunca pedia pra falar comigo. Todas as vezes que minha mãe se aproximava para contar o que havia descoberto sobre o filho, sempre ficava no ar a certeza de que ele nem se dignara a perguntar por mim, e quando eu vocalizava a minha duvida, ela me trazia para um abraço e dizia: "ele estava um pouco ocupado, pequeno...".

Apesar de me conformar, e de internamente agradecer, não posso dizer que nunca tenha ficado magoado com aquilo. E era esse ponto que uma parte de mim usava para promover uma revolta contra Heero.

Mas eu sabia que não ia durar... Não depois daquele pedido de desculpas...

No momento eu não tive a menor idéia do que fazer. Fiquei apenas ali, pregado no chão olhando para o nada, tentando fazer meu cérebro funcionar depois do blackoutcausado pelo choque daquelas palavras inesperadas. Sinceramente, quando fui agradecer por sua ajuda, não esperava ouvir aquilo; de forma alguma.

Tecnicamente, meu pretexto para rejeitar Heero havia acabado de fragmentar-se diante dos meus olhos. Afinal, era pelas desculpas que eu estava supostamente esperando durante aqueles dias, não era?

Agora estava tudo acabado.

Se a minha intenção era vencer aquele jogo do silêncio que havíamos criado... Bem, isso eu já havia conseguido. Ele deu o primeiro passo. Restava apenas colher os louros da vitória e decidir entre ficar ali ou arrumaria as minhas malas de volta para casa.

Não. As desculpas de Heero não haviam fundido meu cérebro a ponto de me fazer esquecer que eu tinha uma mãe hospitalizada; muito pelo contrario. Ali, sentado no meio-fio, acabei por me dar conta de que Heero seria em breve a minha única família, assim como eu o seria para ele. É claro que deveriam existir alguns parentes espalhados por ai, mas nenhum próximo o suficiente.

Hum... Se ele não se incomodou comigo e com a minha mãe... Que dirá com pessoas que ele mal tem contato?

Deixei uma risadinha escapar, realizando aquele gesto clichê que envolve finalizar o cigarro e pisar com a sola do sapato. Levantei da pedra e bati um pouco na calça, para tirar um pouco da poeira contrastante com o tecido negro. Eu ainda não tinha nada em mente, quer dizer, além da grande bagunça de recordações boas e amargas que montava a balança dos prós e contras; mas já estava mais do que na hora de voltar para casa e dar uma resposta para o nosso problema.

E assim que esse estivesse resolvido, outra já estava na fila de espera:

Me redimir com Hilde.

Eu havia convidado a aeromoça para sair, precisando urgentemente de uma distração. Mas depois do ocorrido, minha cabeça estava muito longe das luzes coloridas da pista de dança, ou de uma possível "social". É claro que me senti um bastardo completo por dispensá-la, principalmente por saber que ela havia se interessado por mim durante aquela viagem, e provavelmente estivesse encarando aquela saída como um possível encontro. Sei que nunca seria capaz de retribuir qualquer expectativa que ela esteja nutrindo e esperava ter a oportunidade de dizer isso a ela e ainda conquistar sua amizade...

Não é do meu feitio magoar uma pessoa...

Não sem um bom motivo.

E ela havia sido tão gentil comigo... Eu definitivamente precisava dar um jeito de recompensar o meu deslize.

Meus pés me levaram até o prédio sem que eu percebesse; enquanto cruzava os portões, fui atingido pela mesma sensação que tive ao ir de encontro a Heero naquele espaço-porto... Como se um pelotão de fuzilamento estivesse a minha espera. Puxei mais um cigarro... Aquela seria a ultima contagem regressiva.

- Duo? – me virei a tempo de pegar a ultima corrida do "meu" vizinho de porta. Ele vestia uma regata branca, calça de moletom e tênis, e pelo seu estado, já estava correndo há um bom tempo.

Segurei o portão para que ele também passasse e fui recompensado com um pequeno sorriso, que julguei ser de agradecimento.

- Corridas noturnas? – perguntei, acendendo um cigarro.

- Não gosto de movimento... – respondeu, deixando o corpo cair em um dos bancos de jardim. Num movimento preguiçoso, puxou a camisa de algodão pelos braços, usando a parte eca para enxugar o suor do rosto.

Bem... Eu não sou bobo... Nem cego. Então digamos que o cigarro em meus lábios diminuiu consideravelmente.

- Ar fresco. – respondi, tentando estampar um dos meus sorrisos mais brilhantes. – Nada melhor do que o ar puro pra arejar a cabeça...

- Ou seria o cigarro?

Ergui uma sobrancelha cultuando sua perspicácia e me aproximei, parando a uma distância em que a fumaça não fosse um incômodo.

- É... Pode se dizer que sim... – murmurei, dando de ombros e usando cada fibra do meu ser para não deixar meu olhar fugir para onde não devia.

Convenhamos... O cara conseguia ficar "apresentável" numa manhã de sábado, usava uma franja exótica, ficava impecável num terno e, melhor ainda, eu acabava de comprovar que o recheio do terno também não era de se jogar fora.

Alguém deveria me dar os parabéns por não secá-lo por inteiro.

- Você é algum tipo de anti-tabagista? – perguntei, tentando encontrar algum "defeito" no cara, aproveitando para findar o silêncio.

- Muito pelo contrário, – ele respondeu, desistindo de secar o rosto – posso? – e estendeu uma mão na direção do meu cigarro.

Deixei que retirasse o cilindro dentre os meus dedos, e levasse aos lábios. Ele deu uma tragada profunda e demorou alguns segundos até liberar a fumaça por completo. Era um verdadeiro fumante, sem sombra de dúvidas.

Vamos repassar... Terno impecável, um bom recheio e... Acho que "charmoso" é a palavra certa. Se eu fosse um pouquinho mais cara de pau perguntaria se ele estava solteiro... Não que eu estivesse com segundas intenções... Quer dizer, não ainda; mas seria realmente surpreendente descobrir que um cara como aquele estava livre!

- Mas isso fica entre nós... Determinados vícios costumam passar uma imagem negativa para as pessoas... – e com mais uma tragada ele elaborou. – Por exemplo, um jantar de negócios com um vegetariano e um fumante.

- Faz sentido... – respondi, depois de terminar com o cigarro. – Porém, devo dizer que não confio em pessoas que não comam carne.

Trowa deu uma risada breve, parecendo realmente divertido com a minha declaração. Olhei para o filtro que eu havia jogado no chão, sinalizando que meu tempo havia acabado. Não tinha como correr; era subir, colocar tudo em pratos limpos e resolver logo as coisas antes que se transformassem em algo ainda maior...

- Interessante... Mas e agora? – levantou, passando a camisa branca pelo pescoço. – Está pronto para encarar o Heero, ou ainda precisa de um pouco mais de tempo?

Ergui meus olhos para encará-lo, surpreso por ele saber exatamente o que passava pela minha cabeça. Seus lábios estavam curvados naquele pequeno sorriso que eu o havia visto dar no dia em que nos conhecemos, quando adivinhou só pela minha cara que eu estava de ressaca.

Pelo visto, Trowa se divertia com seu dom para adivinhações.

- Você é bom nisso, hm? – murmurei, dando voz aos meus pensamentos. – Mas não creio que adiar vá fazer alguma diferença... – dei de ombros, iniciando as passadas na direção da portaria.

- Eu e Heero tomamos uma cerveja mais cedo... Ele estava incomodado com alguma coisa... – seu semblante tornou-se pensativo por um instante, onde ele parecia selecionar as palavras. – Algo sobre promessas não cumpridas, não sei se isso faz algum sentido para você.

Olhei para ele realmente interessado, diminuindo a constante dos passos quando percebi que já nos aproximávamos do elevador. Trowa estava falando da mesma coisa que Heero havia me dito em seu pedido de desculpas sem sentido.

Nesse momento, me dei conta do tamanho do laço que unia aqueles dois. O japonês nunca fora muito de falar da sua intimidade, em nenhum aspecto. O fato de Trowa saber algo tão pessoal mostrava quanto Heero o considerava, e de certa forma aquilo me machucava...

Não como a inveja das toalhas; era mais o sentimento de algo perdido...

- É... Tenho uma ligeira idéia do que você está se referindo... – declarei desgostoso, quase afundando o botão de número seis.

O momento rápido que permanecemos ali foi coberto pelo silêncio; eu com minhas divagações sobre toalhas e melhores amigos, e Trowa provavelmente com seus próprios pensamentos. Quando chegamos ao andar me despedi com um aceno de cabeça, e tentei me concentrar no que estaria me esperando quando eu passasse pela porta. Mas antes que eu pudesse entrar, ouvi meu nome ser chamado num murmúrio. Trowa ainda estava parado no mesmo lugar olhando para os lados como se esperasse que algo pudesse saltar de uma das portas ou quem sabe, do elevador.

- Eu espero que vocês possam se entender... Pense que, talvez, ele esteja tão confuso quanto você... Mas se precisar de alguma coisa... – apontou a porta do próprio apartamento com um aceno de cabeça.

- Obrigada, eu...

E com essas palavras ele me deixou ali, com as engrenagens trabalhando a mil tentando compreender a profundidade daquelas palavras.

- Você está perdido Duo Maxwell.. Yuy... – murmurei para o vazio.

Abri a porta tentando ser o mais silencioso o possível, o que pensando bem, era um intento idiota. Se Heero estivesse dormindo eu teria que acordá-lo de qualquer forma. Barulhos só iriam facilitar o meu trabalho... Se bem que... O japonês não costumava ser muito receptivo ao ter seu sono interrompido... Eu sei que seria muito mais sensato esperar até uma hora mais plausível, mas quanto mais eu prolongasse "a coisa", mais difícil seria.

Era aproveitar a nicotina no sangue, o leve torpor depois de ver o "bom" vizinho e a minha coragem recém adquirida.

Cruzei a sala em dois passos, mergulhando no corredor escuro. Fiz minha primeira parada no escritório, afinal, viciado em trabalho do jeito que Heero era, a possibilidade dele estar lá não era nula. Mas para variar o lugar estava tão vazio quanto o resto do apartamento. Mais alguns passos e estava olhando para a porta entreaberta do quarto. Respirei fundo e empurrei a madeira, indicando claramente que eu pretendia entrar. Caso Heero fizesse objeção, haveria tempo o suficiente para alguma coisa voar em minha direção.

Interpretei a falta de objetos voadores como uma permissão, e entrei por completo no cômodo.

A primeira coisa que observei foi um Heero enrolado nos edredons que eu havia visto forrar sua cama da ultima vez que entrei no quarto. O ar-condicionado estava ligado sem a menor necessidade, tornando o lugar muito mais gelado do que do lado de fora. Tateei a parede ao lado da porta a procura do controle de temperatura e baixei um pouco, me recusando a permanecer naquele iglu. Problema resolvido, me aproximei da cama pelo lado desocupado e me sentei com cuidado, tentando não acordá-lo com a movimentação no colchão. Liguei o abajur no criado mudo e fui presenteado com as feições relaxadas do japonês viradas para mim.

Eu já havia me esquecido como o rosto dele ficava ainda mais bonito enquanto ele dormia... Na verdade, duvido que Heero consiga fazer alguma coisa que prejudique a beleza dos seus traços...

É... Eu era um idiota apaixonado...

Retirei uma madeixa cor de chocolate que cobria um de seus olhos e ele torceu o nariz suspirando e encontrando uma nova posição, dessa vez, deitando de costas para o colchão. Ainda esperei um minuto na esperança de que ele acordasse sozinho, mas seu sono parecia pesado demais para deixá-lo notar minha presença.

Sem outra opção, ergui minha mão para tocar seu rosto novamente, mas a meio caminho me deparei com um pedaço de papel dobrado saindo debaixo de um dos travesseiros.

"Pegue Duo! Pegue!" – o pequeno diabinho da curiosidade gritou do seu canto, e como não havia mais nenhuma voz para contrapor...

Comecei a abrir o papel com cuidado, segurando minha respiração por temer acordar o japonês com um suspiro. Acho que ele não gostaria muito de me ver ali, que dirá mexendo nos seus pertences. Inclinei o corpo para trás buscando a luz do abajur, e se a situação me permitisse, teria exclamado em surpresa.

Não era um pedaço de papel qualquer; era uma foto impressa... E não uma simples fotografia...

Era uma foto minha...

Uma foto de mim.

Meu coração falhou uma batida e um calorzinho reconfortante me preencheu, sobrepondo o frio do quarto. Eu estava surpreso, para não dizer admirado, e até mesmo encantado em ver aquela foto em sua posse.

Quando eu poderia imaginar que ele tinha alguma coisa minha, ainda mais, tão antiga?

Talvez... Talvez isso tivesse a ver com aquele pedido de desculpa repentino... E se ela estivesse ligada àquela fotografia, explicaria eu não ver nenhum sentido em suas palavras. Eu era jovem de mais para lembrar daquele momento capturado.

- Droga Heero... – murmurei na escuridão, dobrando a foto e a colocando onde havia encontrado.

Eu estava completamente derretido, e se ele não acordasse me dando coices, seria capaz de colocar uma pedra em nossos desentendimentos sem grandes dificuldades.

Aquela foto foi um golpe muito maior do que o meu sentimentalismo barato poderia agüentar...

Era uma grande merda ter um coração mole...

Suspirei, decidido a acabar com aquilo antes que Heero me surpreendesse com outra coisa. Aproximei-me um pouco mais e segurei a manga da sua camisa, puxando ligeiramente.

- Heero... – chamei, sem obter resposta alguma. Desde quando o sono dele era tão pesado? – Hei, Heero... – puxei mais forte, dessa vez, conseguindo um movimento maior.

- Vai dormir na sua cama...

Que história era essa de "vai dormir na sua cama"? Com quem aquele... Aquele baka estava sonhando.. E confundindo comigo?

- Eu não quero dormir com você, seu idiota! – bem... Isso não era inteiramente verdade... Mas eu estava furioso, e por Deus! Eu não poderia dizer que queria deitar ali, não? – Heero!

O corpo do japonês se retesou ao meu lado e os olhos azuis se abriram num rompante. Sua expressão antes tranqüila tornou-se séria e levemente surpresa, e ele passou a me encarar abertamente.

- Duo?

- É... O Duo. Que tipo de sonhos você estava tendo Heero? – perguntei, não contendo minha curiosidade.

- Ora, não é da sua conta... – ele grunhiu em todo o seu mau humor. – O que você esta fazendo aqui... – fitou o relógio no criado mudo ao seu lado. – Há essa hora?

- Como o que eu estou fazendo aqui? – repeti, fingindo um tom indignado. – Pensei que ainda nos restasse alguns assuntos pendentes...

Ele sentou em um pulo, levando a mão à cabeça segundos depois, talvez atingido por um mal-estar.

- Pensei que seu silêncio já fosse uma resposta... – disse baixo, mas não o suficiente para que eu não notasse a leve nota de mágoa em seu tom de voz.

Lembrei das palavras de Trowa; estaria Heero realmente tão perdido quanto eu? E se o deixasse entrar em minha vida novamente... Isso melhoraria as coisas? Ele havia passado tanto tempo sem mim e nunca me pareceu infeliz, de forma alguma.

Quer dizer... Não pelo que minha mãe contava.

Que garantinhas eu tinha de que tudo seria melhor com aquela aproximação?

Balancei a cabeça tentando afastar o pensamento dúbio que tentava minar a minha decisão de colocar um ponto final naquilo.

- Olha Heero, nós vamos conversar apenas uma única vez; essa única vez. – ele virou-se para me encarar, parecendo surpreso com o tom sério que eu empregava a cada palavra.

- Estava na hora de...

- Eu não quero as suas desculpas, não por não aceitar de você, e sim por achar que você não me deve nada...

- Mas eu...

- Eu ainda não acabei... – interrompi, e ele grunhiu contrariado. – Mas se isso é tão importante pra você... – suspirei, olhando rapidamente para o lugar onde eu havia colocado a foto, e voltando a encará-lo. – Suas desculpas estão aceitas, mas entenda que as coisas são diferentes agora. As pessoas mudam Heero, eu mudei... Você ficou fora da minha vida por muito tempo, assim como eu da sua. Não tenho mais oito anos, você não é o meu super irmão e sinto lhe dizer que pouco restou do que havia entre nós, pelo menos da minha parte. Mesmo assim... Se você quiser, nós podemos... Começar de novo... E... É isso.

Quando terminei o meu longo discurso, Heero estava olhando para mim com o cenho franzido em uma expressão séria, e ao mesmo tempo... Triste. Por um longo momento me vi perdido na melancolia daqueles orbes azuis, e de certa forma, até me agradava ver aquele sentimento oscilando em seus olhos.

Não que eu fosse sádico ao ponto de gostar de vê-lo sofrer; mas aquela era só mais uma prova do quanto ele se importava.

- Eu entendo o seu ponto de vista mais ainda acho que temos muito que...

- Tudo tem seu tempo Heero. As explicações irão surgir quando for à hora...

A verdade é que eu não estava afim... Não estava preparado para levar a conversa adiante; não naquele momento. Acho que já foi um grande passo ter me acertado com ele, explicações só tornariam as coisas mais difíceis. Minha intenção era colocar uma pedra em cima de tudo, não ficar cutucando a ferida... E sendo um pouco mais sincero, eu também tinha medo de escutar o que ele tinha a dizer e não gostar nem um pouquinho.

- Começar de novo? – ele disse depois de um tempo em seu torpor, me assustando.

- É Heero, começar de novo. – lhe sorri o melhor que pude. Estava cansado demais para enfiar a máscara do menino bobo. Talvez amanhã. – E prometo que se você for bonzinho, eu tento tornar a minha estadia aqui o mais suportável o possível.

- Hum... – ele fechou a cara, mas eu podia perceber que era só uma fachada. Sua postura estava muito mais relaxada do que quando começamos a conversar. – E você sugere que nós comecemos como?

Pisquei algumas vezes, me ajeitando no colchão de forma a ficar ajoelhado e alcançar sua estatura.

- Que tal... – pigarreei. – Duo Maxwell... – lhe estendi a mão. – Posso fugir e me esconder mais eu nunca minto... Bem, quase sempre.

Heero ergueu uma sobrancelha e me presenteou com um pequeno sorriso estendendo a mão para me cumprimentar. O calor daquele pequeno contato foi o suficiente para em provocar arrepios, e dei graças a Deus pelo ar-condicionado estar ligado; se ele percebesse, pelo menos teria uma desculpa.

- Heero Yuy. – anunciou em seu tom pomposo, e sem que eu esperasse, puxou meu corpo de encontro ao seu, me envolvendo em um abraço. – Obrigado por essa chance Duo... E dessa vez, vou fazer por merecer a sua confiança...

Eu sei que não devia, eu sei! Heero estava me abraçando com intenções completamente diferentes das minhas, mas eu não conseguia evitar... Meu corpo estava me traindo...

Maldito!

A única coisa que eu pude fazer foi passar um braço ao redor de sua cintura e apoiar minha cabeça em seu peito, ficando ali imóvel, aproveitando aquela pequena demonstração de afeto.

"Me diga o que você quer, e eu trago pra você..."

Será que se ele imaginasse o que eu realmente queria dele... Ainda seria capaz de me dar tudo?

Ou aquele abraço seria "o tudo" que eu poderia esperar?

- Eu é que agradeço Heero... Eu é que agradeço...

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(#w#)

Heero POV.

Escorei-me no batente levando a xícara de café aos lábios, sorvendo um pouco do líquido negro e ainda muito quente. Estava um pouco mais forte e amargo do que eu gostava, mas a noite havia sido longa e um pouco tensa, e nada melhor que uma xícara de café para dar um jeito na sonolência.

Mas não posso dizer que tenha sido um desperdício de sono, muito pelo contrário. Surpreendente era a palavra chave para descrever o que havia me acontecido nas horas consumidas entre uma conversa difícil e depois às voltas com a minha consciência.

Surpreendente porque havia me deparado com um Duo Maxwell que eu nem imaginei poder existir. Tinha tanta decisão, tanta... Maturidade em seu olhar, que durante a nossa conversa foi impossível esboçar uma única reação que não fosse um arregalar de olhos.

E acredite, nunca foi do tipo que escuta calado ou ao menos replicar, ainda mais quando o assunto me diz respeito.

Mas que outra reação eu poderia ter quando Duo me mostrava uma faceta inimaginável? Tão longe daquela que ele vinha me oferecendo naquela semana nebulosa pela qual passamos, e agora, posso dizer que sobrevivemos. Vendo seus pequenos ataques histéricos e birras, nunca poderia imaginar que por dentro também lhe cabia uma parte tão séria e amadurecida como muitos nunca chegariam a alcançar e me atrevo a dizer que eu fatalmente estaria incluído nesse grupo de desditosos.

E durante a madrugada, depois que ele me deixou só com esses mesmos pensamentos, cheguei à humilhante conclusão de que meu julgamento havia sido vergonhosamente precipitado, e que no fim das contas o infantil havia sido eu, e não Duo. Certo que a decisão de dar o primeiro passo havia sido minha, mas suas palavras apesar de curtas e diretas, mostravam a sensatez de alguém muito vivido; e pela pouca idade que ele tinha, me restava imaginar pelo quê ele havia passado para conseguir amadurecer daquela forma.

Mas a minha menor preocupação era essa; afinal, ele mesmo havia me garantido que teríamos tempo de colocar as coisas em seus devidos lugares, e depois daquela noite não seria capaz de duvidar de suas palavras.

Como os papéis estavam invertidos, não?

O que me incomodava, e, me levava a estar ali na porta do seu quarto observando o seu sono, era a incerteza sobre nossa nova posição no tabuleiro.

Como as coisas ficariam quando ele despertasse? Como eu deveria tratá-lo?

Duo havia sugestionado que começássemos do zero, e não questionaria seus motivos de forma alguma. Mas depois daquele abraço, suas únicas palavras foram "boa noite", e para mim ficava a dúvida do que exatamente mudaria entre nós.

De qualquer forma, eu já havia pensado mil e uma formas diferentes de tentar me aproximar dele novamente, de conquistar a sua confiança. E dessa vez, sem a ajuda nem interferência de ninguém.

Quatre que me desculpe, afinal não era a sua culpa minha fraqueza; mas se eu não o tivesse procurado, se tivesse aceitado logo a minha condição e simplesmente me desculpado, as coisas teriam se resolvido muito mais rápido; quem sabe, até mesmo no primeiro dia.

É... Essa deveria ter sido a minha primeira atitude.

Ainda no loiro, me surgia uma questão: deveria eu ligar e deixá-lo a par dos novos acontecimentos... Ou Duo gostaria de fazer isso por si próprio?

Por mais que a ajuda de Quatre tenha sido infrutífera, não poderia deixar de creditar sua boa vontade em nos ajudar. Não apenas ele, mas Trowa também tinha lá o seu crédito. Não desconsidero a hipótese de algo na cerveja que ele ofereceu tenha me causado um efeito anestésico e assim, permitido que eu desse aquele passo importante.

Afastei minhas conjecturas para um lado já abarrotado da minha cabeça, observando um pequeno movimento na cama ocupada por Duo. O lençol fino que ele usava escorregou por suas costas revelando a blusa fina e a calça de moletom que ele adotara como pijamas, assim como a longa trança quase desfeita. Alguns segundos se passaram sem outras mostras de que ele acordaria, e pensei que eu mesmo teria de fazer o trabalho; mas seu corpo voltou a remexer-se no colchão e ele terminou por sentar-se ainda de olhos fechados, parecendo incomodado com alguma coisa.

As grades ametistas abriram sonolentas, para tornarem-se surpresas e por fim, uma nota de esclarecimento brilhou em seu rosto.

- Eu sabia que era cheiro de café... – ele fechou os olhos respirando profundamente, aspirando o cheiro que só agora eu me dava conta de que havia se espalhado por todo o quarto. Os olhos abriram-se novamente, mais despertos e com um leve brilho de divertimento. – E café descente...

Ergui uma sobrancelha para ele e fitei minha xícara quase intocada. Me veio à mente o dia em que o vi preparar um café horroroso para ele, e tomar tudo com um certo ar desgostoso. Ficava claro que Duo não era do tipo com grandes habilidades na cozinha, não apenas pelo café, mas também pelo seu consumo excessivo dos congelados que eu trazia. Agora que estávamos começando a nos acertar, talvez fosse uma boa idéia começar a cozinhar algo descente para ele.

- Achei que isso te acordaria. – menti, mas achei uma desculpa plausível para estar parado ali na porta do seu quarto.

- Está muito cedo Heero... – lançou um olhar desolado para o relógio e torceu o nariz para mim, estendendo a mão em minha direção. – Ficaria feliz se você me desse uma boa explicação para me acordar às oito horas da manhã...

Andei até a beirada da cama lhe entregando a xícara, e retrocedi alguns passos encostando o corpo na escrivaninha. Ele envolveu a porcelana com ambas as mãos, e sorveu o cheiro do café, como havia feito em seu despertar. Satisfeito, deu uma grande golada, e depois de piscar algumas vezes sorriu na minha direção.

- É.. Até que seu café não é tão ruim assim... – aprovou, num tom provocador.

Duo voltou a beber o café eu fiquei apenas ali, observando-o em sua tarefa gostando do silêncio agradável que caíra entre nós. Era algo completamente diferente da tensão que nos rondava durante todos aqueles dias. Naqueles minutos comprovei a veracidade de suas palavras que me prometiam uma "estadia suportável", e tive minha primeira prévia de que a tranqüilidade do meu "lar" estava inteiramente ligada ao estado de espírito daquele garoto.

- O que foi Heero? – ergui meus olhos para ele, sem recordar o momento em que os desviei. Duo me olhava com curiosidade e um ligeiro divertimento. – Algo te incomoda?

- Não, eu só... – sim! Eu estava me corroendo por dentro, tentando imaginar como as coisas ficariam a partir dali. Mas ele parecia tão seguro, tão... Mudado. Eu queria ser tão ou mais forte do que ele, mesmo que fosse apenas exterior. – Estarei voltando para a empresa hoje. – anunciei, notando a fagulha de surpresa em seu olhar. – Agora que nós já... Bem, que nós nos acertamos, não vejo mais motivos para levar a diante a idéia de negligenciar meus compromissos trabalhando em casa.

- Oh... – ele sorriu com o canto dos lábios; a decepção estampada claramente em seu rosto. Aquilo me trouxe um contentamento, doentio, eu sabia; mas não pude deixar de imaginar que aquele desapontamento poderia significar um desejo seu de permanecer ao meu lado, mesmo que esse fosse ínfimo. Mas de qualquer forma, eu não pretendia deixa-lo ali, não mais. – Eu entendo... Foi para isso que você me acordou? Avisar que estava saindo?

- Não.. – peguei a xícara vazia que descansava em seu colo e o fitei seriamente, querendo estar atento a sua reação. – Vim avisar que você só tem vinte minutos para se arrumar... – olhei no relógio. – Agora quinze, para se arrumar e me encontrar na sala.

- Me arrumar? – seus olhos piscaram em aparente confusão e eu sorri, satisfeito.

- Eu tenho uma reunião as nove, e depois levarei você para conhecer a empresa, e quem sabe, dar uma volta pela cidade.

- Mas...

- Catorze minutos...

Deixei o quarto ouvindo apenas uma imprecação qualquer e o barulho da porta do banheiro sendo fechada. Sorri mais uma vez, não me atendo ao fato desse ato ter se repetido tantas vezes naquele curto espaço de tempo. Estava mais interessado na sensação distinta que me invadida, indiferente a mim faz muito tempo. Era um misto de ansiedade, expectativa, e porque não, o alento de passar uma tarde corriqueira ao lado de Duo.

A idéia inicial de que talvez, aquele mês fosse uma completa perda de tempo voltava com tudo e eu poderia me dizer quase grato ao destino, por suas guinadas surpreendentes, que, pela primeira vez, me agraciava não com mudanças drásticas, e sim como uma nova perspectiva.

Continua...

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(#w#)

Desculpem-me pelos erros...E eu sei que a correção do texto é importante... Mas eu ainda não sou boa nisso nem tenho paciência... Sorry... -.-''''

Primeiramente, gostaria de me desculpar pela looonga demora. Mas eu tive uns problemas com o computador, e quando foi resolvido, não conseguia escrever de jeito nenhum. O capítulo já estava "pronto" há uma semana, só "esperando" as correções...

Não posso dizer que tenha ficado satisfeita... Mas espero ter conseguido passar a minha idéia...

Nem preciso dizer que as coisas começam a tomar um novo rumo a partir daqui, né?

Agora sim, aos agradecimentos: MaiMai, Yuukii, L'Arcan, Litha-chan, Ju, SAiyo, Lila-chan (muito obrigada pelo e-mail, espero que você goste desse capítulo aqui), e em especial a Dark Vampira e Blanxe, que me aturam via msn, sempre contribuindo um montão! Valeu mesmo meninas!

E se alguém ai ainda estiver interessado em ler... Comentários!

Queria saber o que vocês estão achando!

Bye o/