- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc.

1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. –

-

Gundam Wing... bem, não me pertence... E esse trabalho aqui? Totalmente sem fins lucrativos... -.-

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Agradecimentos: A Litha-chan pelos pitacos, e principalmente, por ter topado betar a fic pra mim! E a Blanxe pelos puxões de orelha, e por me ajudar a desempacar o capítulo! Valeu meninas!


Vínculos.

VIII


But if you could read my mind

You´d see... I fight myself all the time...


(#w#)

Sally POV

- Sabe o que eu acho? – me inclinei sobre o colchão ajeitando os travesseiros. – Acho que está mais do que na hora de nós irmos para casa.

- Talvez... Fosse melhor mesmo... – concordou triste, sem tirar seus olhos da vista.

Respirei fundo tentando achar uma forma de ajudá-la, mas simplesmente não vinha nada em mente para fazê-la sentir-se melhor. Na verdade, não acreditava que fosse conseguir qualquer coisa com meus esforços; a única pessoa capaz de colocar um sorriso naquele rosto estava muito longe.

Por mais que ela houvesse tentado me explicar seus motivos, ainda me parecia completamente irracional a decisão de mandar Duo para ficar com o irmão alguns dias, quando quem estava precisando desesperadamente de companhia era ela. Uma atitude totalmente inesperada eu diria, se bem que, quando o assunto é a família Yuy, melhor se preparar para tudo.

Quando comecei a trabalhar para Natsumi, ela havia acabado de se divorciar de seu esposo que deixava para trás uma boa situação financeira, mas um filho de dez anos para cuidar. Não faço idéia dos motivos reais daquela separação, mas Duo sempre fez questão de deixar claro que sua vida não poderia ter ficado melhor depois que o "carrasco" os deixara em paz.

Hoje, entendo os motivos de tanta mágoa que o garoto guarda, mas creio que não seja nem metade do que reprime quando o assunto é o irmão mais velho.

Se eu pudesse apontar um fator realmente intrigante naquela família, esse sem dúvida seria Heero Yuy. Minha convivência com o japonês não passou das breves visitas que esse fez a família durante alguns anos após a separação dos pais, e não creio ser capaz de fazer uma análise muito profunda sobre o rapaz. Apesar de não concordar com o afastamento ocorrido nos últimos dois anos, não posso dizer que tenha alguma coisa contra ele, não me vendo em posição para julgá-lo. Infelizmente, existem pessoas que não vêem necessidade de manter proximidade com seus parentes e entes queridos; e eu desconfiava que Heero fosse uma delas.

Mas ainda assim, eu não conseguia encontrar um motivo plausível para observar as pequenas ligações que esse fazia para a mãe sem nenhum momento perguntar pelo irmão.

No começo, ainda podia ver Duo perguntando pelo japonês, mesmo notando que esse não estava muito interessado em procurar por ele. Mas com as efusivas negativas de sua mãe, seu entusiasmo foi sendo consumido pela indiferença até o dia em que percebi não existir mais indagações da parte do menino. A partir desse momento, começou a vir de Natsumi a iniciativa de dar satisfações de Heero, e sinceramente, me partia o coração ver o esforço do Duo em ouvir tudo sabendo que no fundo era ignorando pelo irmão mais velho...

- Nós vamos mesmo para casa? – a voz suave afastou um pouco meus pensamentos, o bastante para focar minha atenção nela. – Sally?

- Saberemos hoje à noite, quando seus exames ficarem prontos. – puxei uma cadeira para perto, sentando de forma que ela pudesse me ver sem fazer esforços. – Ainda bem que conseguimos falar com o Heero não é mesmo? Tornou as coisas bem mais fáceis...

- Heero é um bom menino... – ela sussurrou em sua nostalgia, sempre com o olhar fixo no horizonte.

Partia meu coração vê-la daquela forma, pálida, magra... Pensava no quão doloroso seria agüentar toda a dor da doença mais os efeitos colaterais dos tratamentos. Eu sabia que isso se estendia não apenas ao corpo, mas sua alma machucada perecia submetida ao martírio do dia a dia. Os estágios da doença foram tão rápidos e severos, que transformaram a mulher vivaz que eu conheci em um fantasma de seus dias de glória. Isso me entristecia profundamente, mas ao mesmo tempo, me fazia admirá-la ainda mais, me surpreendendo com um despertar quando os médicos diziam que ela não tinha mais que uma noite.

- Se eu não tivesse... Estragado tudo, estragado tanto...

Fitei seu rosto contorcido beirando a tristeza, mas ao mesmo tempo conformado, como se seu pequeno suplício estivesse determinado há muito tempo.

- Estragado quem? – perguntei, tentando roubar sua atenção; não fazia nada bem ficar presa em devaneios que só lhe consumiam.

- Há uma carta para cada um deles... – segui seu indicador que apontava para uma das gavetas do armário do lado oposto do quarto, imaginando em que momento aquelas cartas haviam sido escritas. – Dentro daquela cômoda. – Pela distância do móvel o mais provável é que tenha aproveitado seus melhores dias, onde ainda era possível fazer movimentos simples como andar. Fiz menção de me erguer para procurar pelas cartas, mas sua voz fraca me abateu. – Quando... Quando o pior me acontecer... Entregue-as, sim?

Meu coração comprimiu em seu lugar diante do pensamento repentino de que, talvez, fosse aquela a última conversa que eu teria com ela. É verdade que seus dias já não eram tantos, mas ainda nutria a esperança que fossem o suficiente para ver o filho voltar...

Era uma expectativa tola, eu sabia; às vezes, entrava no quarto e via seus olhos vazios, quase perecendo, mas se abrindo novamente por pura força de vontade. Nesses momentos, me pegava imaginando se não seria melhor acabar de vez com seu sofrimento, ao invés de submetê-la mais uma vez a seções exigentes e dolorosas, para prolongar sua sobrevida em mais alguns dias.

Para mim, ter um lado do corpo enrijecido, as pálpebras paralisadas e a fala dificultada, era mais do que ela podia agüentar... Por que prolongar tanto o inevitável?

- Pensei que fosse esperar pelo Duo... – lhe sorri tentando animá-la. – Não foi isso que você prometeu?

Lembrei-me rapidamente do dia em que Duo partiu com os olhos vermelhos e o semblante contrariado. Evidente que para ele, significava muito mais do que rever um irmão, ou deixar a mãe no hospital. Era como se atendendo àquele pedido insistente, pudesse agradecer por tudo que ela havia feito por ele.

Natsumi movimentou-se lentamente, dando seu melhor para forçar seu corpo a obedecer. Pela primeira vez naquele dia, seus olhos estavam completamente voltados para mim.

- Ele está bem...?

- Duo? – perguntei, e ela afirmou com um aceno de cabeça. – Falei com o seu pequeno ontem, ele pediu desculpas por não ligar, e exigiu que eu o avisasse assim que você acordasse.

Ela sorriu doce, parecendo recordar alguma coisa distante. Tornou a virar o rosto para a janela, perdendo-se nas luzes da colônia. Seus olhos piscaram sonolentos, indicando claramente que voltaria a dormir.

- Quando eu acordar... Quando eu acordar eu falo com ele novamente...

Fiquei tentada a mantê-la acordada, cansada de ver seu oscilar entre o sono e a dor do despertar, mas refreei o impulso, me atendo a cobri seu corpo por completo e colocar tampões novos sobre seus olhos.

Apaguei o abajur no criado mudo e levantei ao mesmo tempo em que uma batida fraca soava na porta. Abri passagem o suficiente para colocar parte do corpo para fora, e me deparei como uma pessoa completamente desconhecida a meus olhos. De estatura alta e um ar quase nobre, a mulher me olhava com grandes olhos azuis e um pequeno sorriso cordial estampado em seu rosto. Mesmo forçando minha memória a recordar suas feições, não conseguia lembrar de ter visto cachos tão cumpridos.

- Pois não? – perguntei, querendo me certificar de que ela estava no lugar certo.

- Perdoe-me por estar aqui tão cedo, mas o vôo atrasou um pouco... – ela se inclinou ligeiramente num cumprimento ao estilo oriental, completamente contrastante com sua aparência. – Era para eu estar aqui ontem à noite, e como vim apenas para isso, achei melhor passar direto no hospital... E... – olhou para um pequeno papel que trazia em mãos. – Esse é o quarto da Yuy Natsumi, certo?

- Certo, mas... Ela acaba de dormir.

- Eu... – uma decepção clara passou pelos olhos azuis enquanto ela repetia a pequena reverência. – Eu entendo... Ainda ficarei na cidade por alguns dias; poderia dizer que Helen...

- Sally?

Olhei para o interior do quarto encontrando Natsumi parcialmente sentada, com a ajuda da inclinação da cama. Sua mão boa já estava a meio caminho dos olhos e seu rosto virado em nossa direção. Voltei a encarar a mulher a minha frente, que agora exibia um pequeno sorriso, aparentemente, contente pela reação da japonesa.

- Você não deveria estar se esforçando. – adverti, me aproximando. – Tenho certeza que a Srª. Helen poderá voltar...

- Peça para ela entrar e nos deixe a sós, sim?

- Mas Natsumi... – encarei os olhos negros recém desprotegidos dos tampões, vendo neles uma determinação que não existia há poucos instantes. – Certo... – murmurei, ciente da necessidade que brilhava nas duas pedras negras. – Mas se alguma coisa acontecer, qualquer coisa...

Observei-a sorrir enquanto me respondia com um curto aceno de cabeça. Meu coração amornou com aquele pequeno gesto, e por algum motivo, senti que estava fazendo a coisa certa. Abri a porta o suficiente para que a visitante entrasse e ela me sorriu, entrando no quarto para se acomodar na cadeira antes ocupada por mim.

- Estava apenas esperando por você... – ouvi, enquanto fechava aporta.

- Eu estou aqui Umi-chan...


(#w#)

Duo POV

Era estranho pensar que a menos de vinte e quatro horas atrás, estávamos travando uma batalha de silêncio e indiferença...

Nunca iria imaginar que o japonês se dedicaria tanto a colocar uma pedra em cima dos nossos assuntos, e posso dizer que estava imensamente grato pela ausência de perguntas.

Sinceramente, esperava que aquilo durasse por muito tempo, mas conhecendo Heero... Pelo menos o pouco que conheço, é obvio que a falta de uma resolução definitiva o deixaria extremamente incomodado.

O japonês sempre foi do tipo que gosta de tudo em pratos limpos, sem margens para dúvidas ou ressalvas. Estar ali sentado comigo, apenas algumas horas depois da madruga em que finalmente resolvemos abaixar as armas, sem exigir maiores explicações era uma prova irrefutável da sua boa vontade, e a cima de tudo, do seu respeito ao meu pedido.

É... Não havia como negar... Ele estava realmente se esforçando...

E isso só o tornava ainda mais adorável aos meus olhos.

Não posso descrever o quão confuso e impressionado fiquei quando acordei com um cheiro incomum de café e o encontrei ali, parado no batente da porta do meu quarto como se há muito estivesse observando meu sono. Foi preciso um grande esforço por parte do meu cérebro sonolento para colocar uma máscara em meu rosto rápido o suficiente para que Heero não percebesse nada. Eu ainda estava muito sentido com o que havia nos acontecido e realmente esperava que ele passasse o dia todo ocupado com alguma coisa, e me desse um pouco de tempo para colocar as coisas de volta ao seu devido lugar. Nunca passaria pela minha cabeça que ele me acordaria àquela hora me chamando para acompanhá-lo em seu trabalho.

Estava acontecendo exatamente como eu havia imaginado em meu primeiro dia aqui... E não seria exagero acrescentar que era ainda melhor do que minha imaginação poderia ter alcançado.

Começamos o dia na empresa como Heero havia me prometido, que por sinal, era a cara dele em todos os sentidos.

Ali eram gerados softwares e vários tipos de equipamentos que estivessem ligados com a palavra "segurança", inclusive, um setor com treinamento de pessoal qualificado. Havia computadores para todos os lados; pessoas atoladas em meio à teste de equipamentos e programas sendo desenvolvidos até onde meus olhos podiam alcançar. Todas as salas tinham aquele cheiro inconfundível de material eletrônico, e se possível, nem mesmo a cozinha estava livre desse fato, mesmo lotada de café e outras bebidas com cheiro estimulante, e parecia que todo o lugar trabalhava à base de cafeína...

Como eu disse, tudo muito a cara do Heero.

Pela manhã ele realmente se ocupou de uma reunião; e até onde fiquei sabendo, discutindo o projeto para uma grande empresa que estava prestes a se instalar na cidade, necessitando de consultoria em várias áreas que o japonês pretendia ocupar. Eu não entendia, nem queria entender nada sobre aquilo, mas segundo sua secretária, só significava uma coisa:

Trabalho.

Devo dizer que essa notícia não me deixou nada contente, mas serviu como uma prévia do tamanho do incomodo que ela me causaria. No momento, estava fitando o relógio que marcava o final da segunda hora do meu chá-de-cadeira, esperando apenas pelo fim de uma reunião...

pela reunião.

Eles não estavam começando a planejar um novo software, recrutando profissionais ou fazendo algum tipo de plano para a paz mundial; estavam apenas discutindo se participariam ou não daquele negócio.

Há duas horas!

Eu não queria sair andando pela empresa antes de falar um pouquinho com Heero. Sim, sim, era uma besteira; mas eu estava ali para ficar com ele, e não com uma pessoa escolhida em cima da hora pra me apontar meia dúzia de saletas. Sendo assim, me ocupei do que fazia de melhor nos últimos dias:

Pensei, pensei, e repensei.

Tive tempo mais que o suficiente para ver e rever muitas coisas, inclusive nossa conversinha, ou devo dizer, meu discurso? Afinal, a palavra foi minha em quase cem por cento do tempo...

Mas de forma alguma estava arrependido. Cheguei à conclusão que dar espaço para Heero falar poderia ter me quebrado de uma forma irreparável. É claro que trabalhar com hipóteses de "e" e "se" não é nenhuma garantia; então eu me dava por satisfeito com os resultados conquistados.

No final, tudo havia dado certo não? Eu estava ali afinal de contas...

- Sr. Maxwell?

Ergui os olhos para encontrar os castanhos de Une, me fitando por trás dos óculos de aro fino. Ela estava bem próxima e parecia um tanto preocupada, me fazendo supor que já estava chamando há algum tempo. Apesar do rompante, não deixei de perceber que ela usara o Maxwell para se dirigir a mim e não o "Yuy". A explicação mais óbvia é que o Sr. Yuy ali era Heero, e eu me sentia extremamente grato por isso.

- Senhor era o meu pai... Eu sou Duo. – pisquei para ela.

- Não creio que o Sr. Yuy fosse gostar de me ver chamando dessa forma tão íntima. – replicou, olhando um pouco severa.

- Certo... Então vamos deixar essas formalidades para quando o Heero estiver perto, ok? – ela pareceu ponderar por alguns instantes, mas cedeu, mostrando um pequeno sorriso para mim. – Mas... Por que estava me chamando?

- O Sr. Yuy está aguardando na sala de reuniões, queira me acompanhar.

Senti ímpetos de exclamar um "Até que enfim!", ou similares, mas minha parte racional, apesar de pequena, foi rápida o suficiente para colocar um pouco de bom senso, e me alertar que aquilo não soaria muito bem. Heero era o dono do lugar, como seu... Irmão, eu deveria ser no mínimo educado.

Esperei que ela trocasse umas poucas palavras com o japonês, meus ouvidos captando algo parecido com "trazer almoço", e quando ela finalmente me deu passagem, entrei sem olhar na direção do japonês, me ocupando em fechar a porta. Esperava que ele dissesse logo alguma coisa envolvendo as palavras "trabalho", "adiar" e "desculpa", mas para a minha surpresa, o que ouvi foi algo bem diferente.

- Nem acredito que isso acabou.

Larguei a porta e me virei surpreso, sendo agraciado com a visão do belo pedaço de carne que Heero era relaxado em sua cadeira de chefe. As mangas da camisa dobravam-se até os cotovelos, gravata frouxa no colarinho e as mãos trabalhando para abrir os primeiros botões da camisa.

- Eu também... – balbuciei, meio hipnotizado pelos movimentos dos dedos hábeis que já trabalhavam no terceiro botão.

Algum lugar na minha mente gritou que eu estava agindo como um idiota, e que tinha sorte do olhar do japonês estar pregado em um papel qualquer. Em outro extremo, uma segunda voz rezava para que a mão prosseguisse para um quarto botão, mas infelizmente, não tive tal sorte.

- Fiz você esperar muito? – fui pego pela segunda vez em poucos minutos por um sobressalto, e divisei o olhar dos botões para o rosto concentrado em examinar um documento. – Relena chegará apenas para o fim do expediente, e me deixou com essas papeladas para examinar.

Acho que resmunguei uma vogal qualquer em reconhecimento ao nome odioso e uma nota de contentamento me preencheu ao saber como não precisaria me deparar com aquela mulher. Era completamente infantil, afinal, a única coisa que eu sabia saíra da boca de Trowa.

Mas quem gostaria de dividir o homem pelo qual estava apaixonado com uma mulher cujas qualidades atribuídas giram em torno dos adjetivos: bonita. Simpática, e atraente?

Dentre todas as minhas infantilidades, creio que essa seja perfeitamente justificável...

- Eu não vou te morder Duo, pode se sentar...

Observei o japonês indicar uma cadeira ao seu lado, enquanto minha mente me dava ótimas prévias de lugares em que com certeza eu deixaria Heero me morder sem fazer objeções. Depois de alguns segundos, resolvi me aproximar, temendo que ele encarasse minha relutância como uma recusa.

- Por que ela vai chegar ao fim do dia? – perguntei enquanto me acomodava. – Não é uma perda de tempo?

O japonês parou de remexer em seus papéis ainda sem me olhar, e por um momento, cogitei ter falado um pouco mais do que devia. Foi com alívio que vi seu rosto virar em minha direção esboçando um sorriso oblíquo.

- Muito observador... – murmurou, cruzando as mãos e apoiando o queixo sobre elas. – Relena gosta das coisas muito certas; mesmo tendo seus compromissos pessoais, ela costuma passar na empresa para checar possíveis assuntos pendentes. Mas creio que ela tenha outros motivos...

Eu tinha a ligeira impressão de que minhas sobrancelhas estavam absurdamente juntas no centro da testa enquanto fazia o meu melhor para capturar aquela rápida informação que correu pelos olhos azuis. Parte do meu cérebro computou aquele brilho como malícia, mas descartei a hipótese quando o peguei torcendo o nariz ligeiramente incomodado.

- É... Uma boa profissional, exatamente como Trowa disse... – comentei casualmente, mirando meus olhos na vista proporcionada pela grande janela.

- Parece que você e Trowa conversaram bastante, não é mesmo?

Olhei para ele incomodado com o leve tom de ironia que percebi em sua voz. Não havia me esquecido da troca de olhares que peguei entre eles no sábado em que Heero chegou e nos encontrou na porta do apartamento.

- Trowa me pareceu ser uma boa pessoa. – vocalizei minha opinião, me atendo às reações no rosto quase tenso.

- E ele é uma ótima pessoa... – disse depois de um tempo, alternando as folhas em suas mãos. – Eu nunca disse o contrário.

- Eu o encontrei ontem à noite, ele até dividiu um cigarro comigo...

Os olhos azuis estavam em mim antes que eu terminasse a minha frase, e quase ri diante da severidade com a qual me encaravam. Não demorou muito para eu perceber que aquela seria a primeira vez que estaríamos falando sobre o assunto, já que naqueles dias, não lhe dei muita oportunidade para questionar meus novos hábitos. Apoiei o cotovelo sobre a superfície negra e meu queixo em minha mão, encarando-o de forma divertida.

- É, nós dividimos um cigarro. – afirmei.

- Com essa idade já se perdendo nesses vícios... – repreendeu, sustentando o meu olhar. – Não pense que me esqueci o que você fez com a minha vodca...

- Hum, então quer dizer que você só se importa com a garrafa? – indaguei, fingindo inconformismo.

- E com o que mais seria?

- Heero!

Soquei seu ombro e ele me sorriu... Não meio sorrisos irônicos, ou um leve erguer do canto dos lábios. Percebi então, que estávamos num momento... Inusitado.

Heero e eu estávamos nos divertindo.

- Isso é bom... – murmurei, antes que pudesse controlar minha boca.

- Também acho...

Deus... Acho que eu estava ficando vermelho, e Heero concordando não ajudava muito.

- Vamos ficar aqui o dia inteiro? – perguntei, me afundando na cadeira de forma a ficar um pouco mais distante. O calor que emanava do seu corpo sendo outro atenuante para o meu rubor.

- Meu plano era passar à tarde na cidade com você, mas agora... – ele olhou para a pilha de documentos depois para a porta à esquerda, que dava acesso direto ao seu escritório. – Sem Relena aqui terei o dobro do trabalho; mas de qualquer forma não quero prendê-lo...

Eu sabia que Heero estava falando simplesmente por ainda estar ciente do movimento de seus lábios. A partir do momento em que a frase "Meu plano era passar à tarde na cidade com você" foi completamente absorvida e compreendida pelo meu cérebro, o resto tornou-se puro 'bla bla bla'.

Acho que não seria capaz de descrever o quanto me agradava ver Heero me tratando daquela forma... Por Deus! Ele estava falando, e muito por sinal. Estava se preocupando comigo, contando seus planos, que apesar de eu não estar ouvindo quase nada, parecia ser muito bom...

Se bem que eu toparia até uma fila de banco ao lado do Heero se fosse a sua vontade...

O que era uma tarde preso em um escritório?

- O que exatamente você tem que fazer? – perguntei, aparentemente, o interrompendo no meio de suas palavras. Ele ficou um pouco surpreso com a pergunta, mas não se recusou a respondê-la.

- Preciso ler, analisar e assinar esses documentos...

Torci o nariz para a pilha reconhecendo minhas limitações. Tinha certeza de que não entenderia metade das coisas que ali deveriam estar escritas, o máximo que eu poderia fazer era me oferecer para ir assinando por ele. Não era algo de que me orgulhar, mas eu posso dizer que sou muito bom para falsificar assinaturas; ou como eu prefiro: fazer uma réplica da rubrica alheia.

-... e também algumas planilhas...

- Planilhas?

- Sim, uma planilha que não consegui finalizar esse final de semana e...

- Hum, aposto que está naquele negócio odioso...

Me levantei, indo até a porta que ligava ao escritório, voltando com o precioso laptop do japonês em minhas mãos. Ele pareceu um pouco ansioso, e por um momento, pensei que ele fosse voar em minha direção. Acho que ele ainda se lembrava do meu apreço por computadores.

- O que você...

- Sabe? – interrompi, enquanto sentava na cadeira ao seu lado. – Durante a adolescência, eu fiz um pouco mais do que entrar furtivamente em boates e fumar cigarros... – ele me encarou sério, parecendo ponderar sobre aquela informação. – Digita a senha...

Quase caí na gargalhada quando vi seus dedos hesitarem sobre o teclado. Ele estava realmente com medo de que eu fizesse alguma coisa? Certo que eu nunca fui grande simpatizante dos computadores; até hoje, se pudesse evitar o uso direto o faria com muito gosto. Mas o fato é que eu já estava crescidinho e ciente da importância que a informática tinha em nosso mundo.

- Duo, você não acha melhor...

- Não... – balancei a cabeça numa negativa, esticando os braços para estalar as juntas. – Eu te ajudo com esse troço ai, e você me paga um belo pedaço de torta, certo?

Ele não chegou a me responder, mas não impediu que eu desse continuidade a seu trabalho. No fundo, creio que ele me deixou quieto apenas por confiar em um possível backup do arquivo em questão. Demorou um pouco até que ele desistisse de espiar a tela de minuto em minuto para conferir se eu estava realmente levando a sério. Sinceramente, até pensei em fazer uma ou outra alteração que fosse lhe dar algum trabalho depois; mas além de desejar um pouco de tempo com o japonês fora das paredes de apartamentos ou escritórios, queria provar que era capaz de fazer algo sério, provar que tinha minhas qualidades.

E se tudo desse certo, no final, algo me dizia que eu seria recompensado com aquele belo sorriso...


(#w#)

Heero POV

Bati com a base das folhas sobre a superfície da mesa, criando uma pequena pilha com os últimos documentos assinados. Há tanto que não lido com as pequenas burocracias, que a lembrança de ser tão trabalhoso não me ocorreu quando entrei no escritório pela manhã. Nunca imaginaria que uma simples reunião se tornaria um debate sobre um novo cliente, e consequentemente, no começo de um trabalhoso processo que envolveria toda a empresa por um longo período.

O interessante é que em outra época, não me incomodaria estar preso no escritório durante todo o dia, e possivelmente, me veria fazendo hora extra para que todo o necessário fosse despachado. Mas no momento eu me via inquieto e um pouco apreensivo, enquanto observava a figura compenetrada de Duo digitando freneticamente no teclado de um laptop que não faço idéia de onde tenha saído, e segundo ele, e meus próprios olhos, tentando "hackear" um dos programas que estão sendo desenvolvidos pelo setor de projetos.

Foi um espanto notar que o americano desenvolveu com perfeição as planilhas que lhe direcionei, que dirá vê-lo burlar com certa habilidade a proteção de um sistema?

É claro que não me contive em perguntar onde havia adquirido o laptop e os conhecimentos tão abrangentes em informática; como resposta, obtive apenas "um amigo", e para a segunda pergunta, um sorriso presunçoso.

Duo não parava de me surpreender.

Observei os dois ponteiros do relógio cravar sobre o seis e suspire em desalento, inconformado com nossa permanência ali até tão tarde. Meus planos consistiam em sair na hora do almoço e não voltar mais para a empresa, querendo aproveitar meu primeiro dia de trégua, mas infelizmente, tudo parecia conspirar contra nós.

Primeiro, o recebimento do projeto. Depois a notícia de que Relena faltaria o dia de trabalho, e consequentemente, deixaria toda a burocracia para mim...

Minha memória não consegue alcançar a última vez que vi tantos papéis lotar a mesa, e para minha total surpresa e contentamento, Duo pareceu entender sem criar caso e até se prontificou a me ajudar.

Por mais improdutiva que tenha sido, à tarde me serviu para começar a colocar em dia tudo o que havia perdido naqueles anos de ausência, e de certa forma, mudar todo o conceito que eu tinha formado sobre o americano.

Para começar, sua postura sempre despreocupada e preguiçosa escondia um Duo determinado e exigente consigo mesmo; pude comprovar enquanto o observava trabalhar em minhas planilhas, recusando-se a fazer uma pausa descente para o almoço. O baka parecia determinado a terminar aquilo e acabamos comendo na sala de reuniões; eu em meio aos meus papéis, e Duo em frente ao laptop, digitando entre uma garfada e outra.

Também comprovei que todo aquele mal-humor era único e exclusivamente dirigido para mim. Duo era exatamente como eu me lembrava, e o total oposto do que mostrara nos últimos dias. Mesmo preso dentro de uma sala, mostrava-se uma bola de energia e amabilidade; todos que entravam na sala eram fisgados por sua presença e nos momentos em que me deixava para andar pelos corredores, Une me passava o quão rápido ele conquistava as pessoas ao seu redor, já tendo feito amizade com metade dos departamentos. Havia um sorriso até mesmo para mim, embora algumas vezes eu tenha pego seus olhos expressando uma tristeza... Uma melancolia profunda. Mas ainda me fugia o significado daqueles olhares, não tendo tido oportunidade para analisá-lo por muito tempo.

E para completar, não restavam dúvidas de que Duo tornara-se um rapaz atraente... Como Trowa havia feito questão de ressaltar.

Tal admissão soava estranha aos meus próprios ouvidos, afinal eu havia visto aquele garoto crescer e parte de mim ainda achava inadmissível tal conjectura.

Mas era inegável que o americano havia crescido tornando-se um homem muito bonito, e tenho certeza, muito desejável aos olhos alheios. Até mesmo Trowa, que costumava ter um padrão bem alto para suas conquistas, estava visivelmente jogando suas iscas para o baka, e isso não me agradava nem um pouquinho.

Controlar minha raiva... Ou deveria dizer ciúmes? Não... Acho que raiva é a palavra correta. O fato é que senti ímpetos de matar aquele latino quando Duo falou que havia "dividido um cigarro" com ele ontem à noite...

Trowa Barton não jogava para perder, e se ele estivesse com segundas intenções, investiria com tudo para cima do americano, creio eu, sem se importar com o fato de sermos amigos e o baka meu irmão.

É claro que eu já havia levado em consideração um quesito muito importante:

A sexualidade de Duo.

Pensando a respeito, descobri que não fazia a mais remota idéia da preferência sexual do americano, e acabei chegando à conclusão de que descobrir que Duo poderia vir a ser gay, seria tão chocante, ou mais, que a descoberta do seu talento para "hackear" programas.

- Heero...

Bem... Havia aquela trança longa, que convenhamos, não era a coisa mais masculina do mundo. Eu sabia que sua vontade era ter certeza de que havia alguma semelhança entre ele e sua mãe, e como única coisa que sabia dela era o pouco que minha mãe lhe contava, restava apenas deixar os cabelos cumpridos. Mas a questão, é que as outras pessoas desconheciam esse pequeno detalhe...

Pelo pouco que havia visto do seu corpo, não era nada muito musculoso, porém definido, eu diria. Não tive muita oportunidade de...

- Hey... Heero... – senti um par de mãos em meus ombros e levantei o rosto para encontrar Duo a minhas costas. Seus grandes olhos ametistas piscaram ao fitar os meus, parecendo genuinamente preocupados. – Você está muito tenso, vai acabar tendo um "treco".

Sorri minimamente para ele, baixando o rosto assim que senti suas mãos fazerem uma ligeira pressão na curva entre o pescoço e o ombro. Em questão de segundos, me vi soltando um pequeno gemido, constatando que um dos nós de tensão havia sumido.

O baka era bom nisso.

- E você se importa se eu tiver um "treco"? – perguntei, alternando uma janela na tela do laptop para checar o e-mail.

- Mas é claro! Você ainda não comprou aquela fatia de torta alemã que me prometeu... – respondeu num tom divertido.

- Ah... Então quer dizer que depois da torta... – murmurei, entrando em seu jogo. Ele aumentou a pressão na base do ombro e me vi gemendo novamente, dessa vez, sentindo um pouco de dor. Busquei por seus olhos e ele me deu uma piscadela, respondendo a pergunta não feita.

- Você pode ter um enfarto ai mesmo.

- Pois bem, acho melhor irmos antes que você me agoure mais...

Ouvi sua risada harmoniosa bem próxima ao meu ouvido, sentindo-me quase planar. Eu estava satisfeito, pleno; e pensar que tudo isso apenas por estar a seu lado. Não pude deixar de me considerar um tolo por ter perdido tanto tempo dessa sensação maravilhosa, ao mesmo passo que me condenava por estar cedendo tanto. Estava ficando a mercê daqueles olhos ametistas de novo...

- Hacker e massagista...? – perguntei sem tirar os olhos da tela, me inclinando um pouco para frente dando-lhe acesso ao centro da minha coluna, caminho pelo qual senti que ele prosseguiria.

- Eu te disse... Fiz muito mais durante a adolescência que dançar, fumar e encher a cara... – suas mãos acharam mais um, dois, três nós; quando dei por mim, o e-mail havia sido completamente abandonado.

Ele era muito, muito bom nisso.

- Hum, qual é a próxima coisa que eu devo esperar de você?

Suas mãos pararam repentinamente seu trabalho se afastando de mim em um rompante. Girei a cadeira para encará-lo de frente, mas ele havia me dado as costas para encarar a janela. Tão subitamente quanto sua reação, veio o esclarecimento dos significados que minha frase poderia ter. Nosso combinado era não fazer perguntas, pelo menos enquanto estivéssemos dando os primeiros passos para um entendimento.

- Não foi minha intenção lhe inquirir nada... – disse num tom ameno, encarando seu reflexo no vidro.

Ele me sorriu tristemente e meu coração comprimiu em seu lugar. Não havia dúvidas de que eu o havia atingido de alguma forma. Sem pensar duas vezes, ou melhor, sem pensar vez alguma, me levantei e o abracei por trás, sentindo seu corpo tencionar no mesmo instante. Não queria encará-lo naquele momento e ver qualquer tipo de recusa em seu olhar, então deixei que meus olhos pairassem na avenida em baixo de nossos pés, observando o fluxo intenso de pessoas e carros. Estávamos no vigésimo andar, o que nos dava uma boa viste de grande parte da cidade.

- Está vendo aquela ruela, a quarta à esquerda? – perguntei, apontando na direção das coordenadas. Duo apenas assentiu com um movimento curto com a cabeça, e se me perguntassem, diria que não o sentia respirar. – Pois ali, tem uma pequena loja, quase espremida entre dois prédios. Eles servem as melhores tortas da cidade. Admito que sou freguês assíduo de lá.

Uma risada curta lhe escapou enquanto seu corpo relaxava em meu abraço. Estava tão aliviado em não ter estragado as coisas, que se houvesse a possibilidade, teria derretido ali mesmo tamanha minha satisfação. Me sentia de volta aos velhos tempos, me alegrando ver aquele pequeno sorriso em seus lábios, tendo a plena consciência de que seria capaz de tudo para mantê-lo...

É... Como as coisas mudavam rápido.

- Heero Yuy freguês assíduo de uma confeitaria? – perguntou, encarando meu reflexo.

- Você vai entender quando comer a sua torta alemã. – ele franziu o cenho, ainda descrente de minhas palavras. – E ali, – apontei para a direita. – no térreo do Barge, o edifício de vidros negros, há outra confeitaria muito boa, mas ouvi dizer que o forte são os sorvetes.

- Sorvetes! – repetiu com uma nota de empolgação na voz, apoiando as duas mãos contra o vidro para encarara o prédio. – Agora eu estou na vontade Heero... – por um momento pensei que ele fosse se virara para me encarar diretamente, mas de certo percebeu a situação estranha que nos colocaria. Em um segundo movimento, suas mãos pegaram a ponta da minha gravata, puxando o tecido com um pouco de força. – Acabe logo esses "trecos" ai, estou com fome...

Desenlacei sua cintura me inclinando sobre a cadeira e fechando rapidamente os aplicativos em funcionamento. Tudo que era realmente necessário ou urgente já havia sido concluído, e parte graças a Duo. Guardei o laptop e me sentei a fim de fazer duas últimas ligações, afinal, Relena havia prometido dar as caras na empresa e até agora, nada.

- Heero eu preciso devolver isso...

Ergui o rosto para encontrar os olhos ametistas bem próximos aos meus. Não havia percebido sua movimentação, e agora, ele estava inclinando sobre a minha mesa, indicando o computador em que vinha trabalhando a tarde toda.

- Você ainda não me disse de quem é esse laptop. – vocalizei um pensamento, genuinamente curioso.

- Hn... É do Stephen...

- E quem é Stephen?

- É um cara legal que eu encontrei no andar de baixo, enquanto procurava algo para fazer... – ele apontou para a máquina sobre a mesa. Enquanto observava seus movimentos preguiçosos, resumidos em erguer o braço a cima da cabeça para alongar os músculos, meus pensamentos sobre Trowa, Duo e sua sexualidade, me atingiram com tudo. – Eu fiquei de entregar antes do fim do expediente, então...

Sua frase foi interrompida por um leve bater na porta, atraindo nossos olhares para o recém chegado. A elucidação de quem seria Stephen veio assim que o homem alto, vestindo o que no começo da manha seria um terno impecável, abriu uma fresta na porta, deixando que víssemos parte de seu corpo.

Stephen era Harrison; Harrison era chefe do setor de desenvolvimento de softwares, uma explicativa mais que plausível para o computador e o programa.

Os comentários de Une sobre o "dom" que Duo tinha em se comunicar com as pessoas, sussurrou em meus ouvidos, e me vi completamente vidrado no desenrolar da cena a minha frente.

- Perdoe-me a intromissão Sr. Yuy, mas Duo está...

- Hey! Eu estava indo atrás de você cara! – o americano adiantou-se até a porta, voltando num pulo para pegar o laptop esquecido. – Acabei me distraindo com o brinquedinho que você me emprestou...

Duo... Ele teve a audácia de chamá-lo de Duo. Não saberia que era meu irmão?

Mas é claro que sim!

Fiz Une levar essa pequena informação ao conhecimento de cada chefe de setor para que fosse passado ao resto dos funcionários.

O rumo de meus pensamentos mudaram enquanto assistia Duo puxar Harrison pelo braço, me deixando em dúvida se sua intenção era buscar privacidade ou não me incomodar, já que ainda segurava o telefone contra o ouvido como se fosse realmente realizar alguma ligação.

Me inclinei ligeiramente para direita, querendo ter uma visão melhor da interação dos dois, alimentando meus parcos dados sobre um assunto que agora passava a me preocupar.

Se Duo fosse hetero, as chances de Trowa conseguir alguma coisa eram mínimas, para não dizer nulas; mas caso o contrário, eu teria de ser cuidadoso... Zelar para que o baka não caísse nas mãos do latino.

Sim, Trowa era meu amigo. E por conhecê-lo penso em não deixar que brinque com meu... Com Duo.

E é claro que eu havia considerado por alguns instantes o papel ridículo que estava fazendo tentando descobrir por meio de palpites se o americano era ou não gay. Claro que eu podia ser simplesmente direto, mas não acreditava que tínhamos intimidade o suficiente para isso. Se sua resposta fosse uma negativa, ele poderia sentir-se ofendido de alguma forma.

Voltei minha atenção para os dois, e no momento, Duo fazia largos gestos com a mão, tocando vez ou outra o braço de Harrison. Este, não parecia nem um pouco incomodado, muito pelo contrário, respondia a tudo com pequenos sorrisos e ria vez ou outra das piadas que o baka provavelmente estava fazendo...

Eu estaria louco... Ou eles estavam flertando...?

Não... Duo só estava sendo educado...

É, apenas educado...

Inferno! Como eu queria poder escutar o que eles estavam...

Ouvi o som familiar do vibrador do celular, ao mesmo tempo em que sentia um leve tremor no braço apoiado sobre a mesa. Busquei pelo aparelho ao mesmo tempo em que colocava o telefone de volta no gancho, mirei o visor a tempo de ver o nome de Relena piscando em letras azuis, e atendi.

- Pensei que viesse trabalhar...

- Eu disse que passaria até o fim do expediente... – respondeu, parecendo divertir-se.

- O horário comercial vai até às cinco... – rebati, segurando uma imprecação, quando percebi que no momento, Duo parecia estar anotando o número do sujeito no próprio celular.

- Para as pessoas normais. Geralmente vamos até as sete... oito horas, não? – contrapôs, e por mais que não quisesse dar o braço a torcer, ela estava certa. Mas de qualquer forma, o que me importava, eram os dois do lado de fora. – Adivinha onde eu estou?

- Comprando um conversivel rosa?

- Heero!

Afastei o aparelho do ouvido a tempo de salvar meus tímpanos de uma possível ruptura. Quando ergui meus olhos, encontrei a expressão surpresa de Duo, aparentemente, ciente do chamado de Relena... Porém, ela não havia falado tão alto assim...

Ou teria?

- Onde você está, Relena? – perguntei, me levantando.

Minha resposta foi o barulho da linha sendo desligada e Duo alterar sua expressão de puro desentendimento para a crua indisposição. Não tive muito tempo para ponderar a respeito, assim que Relena entrou no meu campo de visão, um sorriso educado perambulava os lábios do americano, enquanto minha sócia se aproximava visivelmente empolgada.

- Oh meu Deus! Você deve ser o Duo, certo? Heero não fez jus a sua beleza, querido... Você não se parece em nada com um pirralho...

- Ah... Então Heero disse que eu era um pirralho, ahm? – observei um pouco surpreso Duo buscar pela mão de Relena, levando-a aos lábios num cumprimento tradicional. – É um prazer conhecê-la, senhorita... Peacecraft, certo?

- E ainda é um cavalheiro... – ressaltou, sorrindo para ele. – E você, como vai Stephen? Está fazendo hora extra?

Peguei o olhar enviesado que Harrison lançou para a loira, mas não me dei ao trabalho de repreendê-lo. Relena havia soado um tanto irônica, só não sabia dizer se havia ou não sido sua intenção.

- Não senhora, já estou de saída, uma boa noite para todos.

Minha resposta foi um ligeiro menear de cabeça e Relena lançou-lhe um sorriso afetado. Estava claro que os dois não se davam bem, apenas me escapava o motivo para a pequena desavença. Afastei o pensamento para um canto assim que Duo voltou ao escritório, parando perto da porta, provavelmente, esperando por uma atitude minha.

- Então, Heero resolveu tirar você da toca? – perguntou, puxando uma das cadeiras para se sentar, cruzando suas longas pernas torneadas.

- Pois é... Se até prisioneiros tem direito a banho de sol, os pirralhos também, não é mesmo?

- Bem Relena, acho que chegou um pouco tarde, Duo e eu estamos de saída... – anunciei, sentindo o ar ficar um pouco pesado na sala. Duo me encarava com certa ironia brilhando em suas ametistas, enquanto Relena olhava dele para mim, sustentando seu sorriso inteligível.

- Que interessante! Acho que vocês não se importariam se eu os acompanhasse, certo?

Duo teve um pequeno acesso de tosse, exibindo um sorriso que rivalizava o de Relena. Minha mente trabalhou a procura de qualquer referência a uma expressão como a que ele exibia, mas a meus olhos era completamente singular. Mas de qualquer forma, era óbvio que eu não pretendia leva-la conosco. Já me bastava ter desperdiçado um dia atolado em papéis, as poucas horas que passaríamos a seguir seriam apenas nossas.

Se conseguir arrancar alguma coisa do baka seria complicado, imagina com Relena a tira colo?

- Sinto muito, mas Duo e eu havíamos feito planos apenas para dois... – esclareci, enquanto buscava pelas chaves do carro.

- Mas sempre cabe mais um, não é mesmo? – interrompi minha busca erguendo o rosto para fitar-la.

- Por que te interessa tanto ir conosco?

- Como por que? Somos amigos, não? – respondeu num tom defensivo. – E ainda seria uma oportunidade de conhecer o belo irmão que você tem...

Suspirei dirigindo um olhar para Duo encostado no batente da porta, sustentando um o mesmo pequeno sorriso indecifrável nos lábios. Ao mesmo tempo, ele parecia divertido e satisfeito, o que me levou a crer que recusar o pedido de Relena estaria sendo a coisa certa a fazer. Sendo assim, não pensei duas vezes antes de negar-lhe novamente.

- Sinto muito, mas a resposta continua sendo não. – lhe disse, puxando o blazer e indo em direção à porta. – Já que está aqui, por que não confere a documentação?

- Você não está falando sério... está?

- Olha Heero se sua amiga faz tanta questão...

- Calado baka. – interrompi, o empurrando para fora do escritório. – Nos vemos amanhã, Relena.

Ouvi uma pequena risada a minha frente e adiantei um passo, encarando o rosto risonho agora ao meu lado. Duo parecia estar realmente se divertindo, e apesar de não saber o motivo, o seu contentamento me era o suficiente. Paramos ao alcançar a entrada do elevador e avançamos juntos em direção ao botão.

- Que tanto ri? – perguntei, pressionando a seta que direcionada para baixo.

Ele apenas deu de ombros sem desviar os olhos da porta metálica.

- É interessante ver como você trata seus amigos.

Mirei-o de soslaio não sabendo como responder aquela afirmação. Eu poderia dizer que Relena não era bem uma amiga, mas não estaria sendo totalmente verdadeiro, afinal, éramos sócios há um bom tempo, sendo quase inevitável o estreitamento de nossa relação.

Claro que não era o suficiente para convidar-lhe a minha casa ou usar seus ouvidos para descarregar minhas frustrações; esse papel eu atribuía a Trowa.

Seria certo dizer a ele que tipo de consolo que eu buscava na amizade de Relena?

Não... Acho que sua idéia sobre a minha pessoa já estava deturpada o suficiente. Não creio ser necessário adicionar mais um item a sua longa lista das coisas para sentir mágoa de mim.

- Minha amizade com Relena possui pequenas restrições. – disse, considerando uma boa saída, não tendo dito nada que pudesse me comprometer.

- E que restrições seriam essas? – perguntou, entrando no elevador assim que as portas se abriram. – Ela pareceu bem íntima sua quando ligou lá para ca... Para a sua casa um dia desses.

Novamente me vi desconsiderando a hipótese de esclarecer-lhe o quão íntimos Relena e eu poderíamos ter sido, preferindo dar atenção a uma pequena falha em seu discurso. Ele havia dito "para casa", como se por algum momento houvesse considerado a possibilidade de reconhecer meu apartamento como seu lar. Isso seria um indicativo de que talvez, não me seria negado quando lhe sugerisse que viesse morar comigo depois que nossa mãe viesse a falecer.

- Não creio que o que eu tenha com Relena tenha algo a ver com afeto... – disse sem olhá-lo nos olhos, tomando a dianteira quando as portas voltaram a abrir dando passagem para a garagem. – E só para constar, aquela casa, também é sua.

Tive a impressão de ouvir um pequeno ofego, mas dada à distância, não poderia dizer ao certo. Ainda demorou alguns segundos para que ouvisse seus passos me seguindo e ele logo estava ao meu lado, me fitando com um pequeno sorriso, mas ainda carregando uma nota de interrogação no rosto.

- O que você quis dizer com não ter "algo a ver com afeto"?

- Você é muito intrometido... – murmurei, colocando as mãos no bolso em busca do controle para abrir o carro, mas encontrando apenas as chaves de casa. – Kuso...

- Não é pra tanto seu grosso...

- Não é você, baka... Esqueci as chaves do carro. – murmurei, puxando tudo que tinha dentro dos bolsos, mas só achando o celular e as chaves do apartamento.

- Sua porta não abre com senha? – perguntou, olhando para o carro preto estacionado não muito longe de nós.

- Abre, mas as chaves não estão comigo. – respondi, empurrando o laptop e o celular em suas mãos. – Me espere aqui, volto em dois segundos.

- Mas Heero...

Andei a passos largos na direção do elevador, apertando o botão com irritação. Ainda custava acreditar que havia esquecido as malditas chaves dentro da gaveta durante a insistente tentativa de Relena em sair conosco.

Eu estava perdendo mais tempo que deveria passar com Duo e corria o risco de ficar preso com a loira e suas conversas, que às vezes, poderiam se tornar infindáveis; ainda mais quando nervosa com alguma coisa, como certamente estaria nesse exato momento.

Era rezar para que ela tenha deixado a minha sala...

- Kuso...


(#w#)

Duo POV

Observei as tralhas em minhas mãos, alternando um olhar com a porta do elevador e suspirando resignado. Ainda não conseguia acreditar que Heero havia me largado ali sozinho para buscar as chaves do carro... Custava ter me levado junto?

Não, acho que não.

E digo que é óbvio que meu problema não era ter sido deixado plantado no estacionamento, tinha algo a ver com a loira que deveria estar em sua sala, ainda inconformada em ter sido deixada para trás.

Não podia deixar de imaginar se ela tentaria convencer o Heero a trazê-la conosco... Sinceramente, não me agradaria em nada ter aquela mulher nos seguindo para tudo que é lado. O japonês havia deixado bem claro que aquela noite, pelo menos, seria nossa; não queria loira gostosa nenhuma se intrometendo onde não era... Da sua conta...

Eu estava parecendo algum tipo de namoradinha enciumada, não?

E a culpa de tudo era do Heero e suas inesperadas demonstrações de afeto!

Um sorriso bobo escapou dos meus lábios ao lembrar de seu abraço enquanto pensava ter dito algo indevido. Se eu fechasse bem os olhos e me apegasse àquela lembrança, ainda poderia sentir o aperto dos seus braços em minha cintura, o calor do seu corpo junto ao meu... Mas devo admitir que o melhor foi a pequena massagem que fiz em suas costas...

Ah... Valeu cada centavo que paguei naquele bendito curso.

Fazer o curso de massagem havia sido uma iniciativa minha, alguns meses antes de realizarmos exames mais completos. Como no inicio não fazíamos idéia de que poderia ser algo tão grave, e me preocupavam as tensões e dormências que ela vinha sentido, decidi por fazer um curso, pelo menos o básico para ajudá-la com os incômodos.

Nunca pensei que um dia viria usar meus conhecimentos nessa área para aplicar uma massagem de relaxamento nos ombros largos e fores do japonês. E pelos pequenos sons que ele emitia, eu estava indo muito bem, tanto que por um momento, quase sucumbi à tentação de mudar um pouco a aplicação, quem sabe para algo mais sensual... Mas felizmente o pouco de bom senso que me restava entrou em cena e me impediu de fazer uma grande burrada.

Como deveria ser massagear aqueles músculos definidos...

- Duo? – abri meus olhos alarmado, encontrado Stephen parado a minha frente. Seu cenho estava ligeiramente franzido lhe dando um ar preocupado. Eu precisava aprender a parar de viajar desse jeito, pelo menos em público. – Está tudo bem?

- Ahm... Tudo bem, por acaso lhe pareço mal?

- Está meio corado e... Tinha os olhos fechados, não sei, me parecia...

- Não, não! – interrompi, me poupado de ouvir sua descrição do quão ridículo eu deveria estar parado ali enquanto lembrava do japonês. – Está tudo bem, não se preocupe. – suspirei, soprando uma mexa que atrapalhava minha visão. – Você não tinha ido embora?

- Ainda demorei despachando algumas coisas... – respondeu, um pequeno sorriso cruzando seus lábios. – Por acaso vai sem seu irmão? Se quiser posso te dar uma carona, estou de carro.

Stephen era um homem bonito; muito bonito na verdade. Devia ser pouca coisa mais velho do que eu, e já assumia um cargo importante na empresa. No pouco que conversamos me pareceu ser tão inteligente quanto seu cargo deveria impor, mas de longe fazia o tipo arrogante. Era mais uma pessoa que certamente eu correria atrás se não houvesse o empecilho chamado Heero Yuy.

- Não, o baka já deve estar voltando, foi atrás das chaves... De qualquer forma, muito obrigado. – procurei uma mão para estender-lhe, mas as duas encontravam-se ocupadas: uma pelo celular e chaves do apartamento e outra pela pasta do laptop. – Acho que estou meio enrolado...

O loiro me sorriu pegando a maleta que eu trazia em meus braços e mostrando a alça presa em um pequeno compartimento. Sorri encabulado enquanto Stephen desdobrava a tira e passava por meu ombro.

- Agora está melhor?

- É... Acho que sim... – um minuto desconfortável passou, onde ficamos apenas em silêncio. Eu fitava com muito interesse as faixas guia pintadas no chão, enquanto sentia o peso dos olhos de Stephen sobre mim. – Bem Heero está demorando um pouco, acho que vou ver como ele está...

- Duo. – senti um aperto em meu braço me fazendo procurar os olhos verdes involuntariamente. Eu provavelmente estava corando devido a intensidade e o carisma que ele emanava, me fazendo sentir como aquelas garotinhas dos tempos de colegial. – Sei que é um pouco precipitado, mas... Você tem algum tipo de compromisso ou algo assim?

Antes que pudesse pensar a respeito minha cabeça já estava se mexendo em uma negativa. Segundos depois eu estava me recriminando silenciosamente, afinal, havia perdido a oportunidade perfeita de evitar maiores avanços do rapaz. Stephen era um homem inegavelmente bonito, assim como Trowa o era, e Hilde certamente daria uma companhia esteticamente invejável, mas nem um deles era Heero...

Eu não sabia se me parabenizava pelo empenho em levar aquela idéia de amor pelo japonês a diante, ou se me mordia, infligindo algum tipo de dor como castigo por insistir naquela idiotice. Será que eu não parava um momento para pensar nas oportunidades que eu estava perdendo enquanto esperava que Heero olhasse para mim?

Não... Nem por um segundo.

- Olha eu...

- Apenas prometa me levar em consideração, caso exista uma possibilidade. – sorriu, se inclinando em minha direção. Meus instintos, se é que eu tinha isso, gritaram para que eu me afastasse, mas só consegui ficar ali, imóvel enquanto seus lábios tocavam minha bochecha e sussurram bem próximo ao meu ouvido. – Tenho certeza que você não vai se arrepender...

Stephen se afastou sustentando em seus olhos algo que subentendi como uma promessa, não podendo evitar um ligeiro arrepio diante da segurança que ele transmitia em suas palavras. Observei-o se afastar em seu carro prata com apenas um pensamento ecoando em minha cabeça:

Estaria na hora de começar a pensar um pouco mais nas oportunidades que eu estava perdendo?

Balancei a cabeça negativamente fitando o celular e as chaves em minhas mãos. Eu ainda não havia me decidido completamente sobre o que sentia... Claro, eu amava aquele homem, essa era uma das grandes certezas da minha vida, mas não sabia se tinha forças o suficiente para lutar por esse amor... Ou ao menos, se não estava confundindo os meus sentimentos. Tenho certeza que esse seria o primeiro argumento do Heero, caso um dia eu viesse a contar para ele o que eu sinto.

- Aquele bastardo irresistível está demorando muito... – murmurei para o nada, rumando para o elevador.

Tentando matar o tempo, novamente me vi contemplando as lembranças da pequena massagem em seus ombros. Será que eu seria abençoado como uma nova oportunidade? Acho que me contentaria apenas com mais um daqueles abraços, como o que ele havia me dado de madrugada... Esse sim foi como voltar aos velhos tempos, sentindo a proteção que eu sabia que só encontraria em seus braços fortes.

Suspirei enquanto passava pelas portas de metal, observando o andar quase vazio, nada comparado a movimentação constante que vi pela manhã. À minha direita, duas das cinco salas que antecedia a do Heero ainda mantinham suas luzes acesas, mas não havia uma alma se quer perambulando pelo lugar.

Apressei o passo em direção à sala do japonês, ofegando sem surpresa quando senti o aparelho em minhas mãos vibrar, acompanhado de uma melodia baixa. Olhei para o telefone indeciso entre atender ou não, mas quando o nome em letras azul começou a piscar no visor do flip, me vi atendendo automaticamente.

- Heero?

- Não... Alguém mais bonito. – brinquei, sendo recompensado, segundos depois com uma risada completamente estranha aos meus ouvidos, mas não menos harmoniosa.

- Duo...

- Em carne, osso, e voz de veludo! – novamente fui agraciado com a bela risada de Trowa, sem perceber estava rindo com ele.

- Estamos de bom humor hoje... Devo presumir que você e Heero estão se acertando?

- Digamos que sim... – me escorei em uma parede próxima, fitando a porta do escritório não muito distante. A madeira estava entreaberta e um fio de luz amarelada passava pela fresta, mas nem sinal do japonês. – Heero realmente pode ser legal quando quer...

- Experimente dar uns goles de cerveja para ele... – disse em um tom que eu jurava beirar o conspiratório, me levando a dar mais algumas risadas. – Heero está por perto? Ele não costuma se separar desse telefone.

- O baka deixou as chaves no escritório, e acabou me deixando na garagem segurando suas coisas... – expliquei a meio passo do escritório. – Relena deve estar com ele, vou chamá-lo.

- Relena... No escritório com ele?

- É... – afirmei, estranhando seu tom incerto.

- Duo, acho melhor você esperar por...

- Heero, baka! – empurrei a porta do escritório, sorrindo em antecipação. – Telefone pra...

Senti minha voz sufocar na garganta, como se um nó vultoso me impedisse de falar ou até mesmo respirar. Algum lugar em minhas entranhas se contraiu violentamente, enquanto meus olhos abriam de maneira considerável, espantados e incrédulos diante da cena que eu contemplava.

Durante aquele longo segundo, dentre a gama de sentimentos que me desorientava, veio à luz a constatação de que mesmo que não estivéssemos ligados por aquele vínculo fraterno, nada me garantia que Heero me aceitaria, pura e simplesmente por eu ser... Um homem.

Ele me beijaria... Tocaria o meu corpo como estava fazendo com ela...?

O corpo de Relena estava por cima, sentado sobre as pernas do japonês, na confortável cadeira de couro. As mãos fortes seguravam a cintura fina enquanto Relena deslizava seus dedos pelo tórax defino, e tenho certeza, aproveitando aquele momento... Como eu desejei por anos poder fazer...

- Duo?

Creio que meu corpo estava se movimentando sozinho, retirando a alça dos meus ombros e largando a pasta perto da porta, enquanto assistia a tentativa dos dois de se recompor. Acho que eu estava sorrindo, não sei... Essa é a minha máscara mais natural, sem assim, automática.

- Duo!

Não... Eu não queria ouvir, eu não queria saber!

- Trowa quer falar com você. – estapeei e a mão que veio em minha direção, empurrando o celular contra o seu peito. – Eu tenho um compromisso agora, Heero... Aproveite a sua noite!

Deixei a sala em passos rápidos, ouvindo Heero falar alguma coisa, não sei se com Relena ou com Trowa no telefone. A tormenta de sentimentos parecia finalmente estar apaziguando, agora, oscilando entre a dor e um desejo quase... Vingativo...

Eu queria dar o troco, expurgar aquele sentimento... Eu queria...

- Espera!

Senti meu braço ser puxado, me fazendo recuar alguns passos. Heero me encarava com um misto de confusão e... Medo?

Não... Não podia ser...

Eu não queria que fosse...

A sua camisa ainda estava aberta mostrando parte do abdômen liso que aquela... Que Relena estava acariciando quando entrei na sala.

- Eu sinto muito, você não devia ter...

- Você tem razão, eu não deveria ter visto! – me vi dizendo, arrancando meu braço do seu aperto com um puxão.

Seu rosto se contraiu como seu eu o houvesse machucado, mas eu não deixaria que ele se tornasse a vítima ali, não hoje.

- Porque você está reagindo desse jeito? Não é pra tanto, Duo!

- Você não sabe absolutamente nada!

Dei as costas indo em direção ao elevador ainda aberto, não querendo confrontar aqueles olhos e dizer algo de que me arrependeria pelo resto dos meus dias.

Não era assim que eu tinha imaginado...

Não com gritos ou remorso...

Não por raiva!

E além do mais, depois daquela cena, do que me adiantaria dizer que o amava?

- Me deixe ser livre essa noite Heero... Apenas essa noite...

Apertei o botão na lateral do elevador, ao mesmo tempo em que puxava o celular do bolso procurando pelo último número adicionado. Eu não queria pensar no que havia visto, nem nas conseqüências do que eu iria fazer... Estava tudo irremediavelmente estagnado. Uma coisa era imaginar, subentender, ouvir boatos... Outra era ver com meus próprios olhos que enquanto eu sonhava, me debatia e repudiava, ele estava vivendo a sua vida, aproveitando como tinha de ser...

- Seu convite ainda está de pé? – perguntei assim que o som se fez presente do outro lado da linha. Não havia motivos para rodeios, não hoje.

- Duo? Mais é claro...

- Quando?

- Quando você quiser, estou a sua disposição.

- Agora? – perguntei, tendo a certeza de ter soado mais como uma afirmação.

A linha ficou em silêncio por alguns segundos, até que uma risada baixa e a confirmação chegar a meus ouvidos.

- Estou na entrada do prédio em dois minutos.

Eu queria aquela liberdade que Heero tinha... E eu a teria...

Pelo menos, por essa noite...

(#w#)


Continua...

-

Oh! Esse capítulo está um pouco grande, não? o.o

Beeeem... Primeiramente, gostaria de agradecer aos reviews que recebi no capítulo anterior, foi bom saber que, embora eu esteja demorando um pouquinho, ainda tem gente acompanhando! Creio ter respondido a todos...

Quanto a fic, os acontecimentos continuam traçando o caminho para o próximo ponto da história...

Espero que estejam gostando e continuem acompanhando...

Bye o/