- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc. – 1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. -
Disclaimer: GW não me pertence.
Agradecimentos: A Larcan pelas idéias e palpites sem noção XD e a Blanxe pelo apoio e incentivo o/
Notas: Me desculpem por eventuais erros no texto, minha beta está impossibilitada de me ajudar, depois de me deixar mal acostumada... u.u Volte Lika!! XD
Vínculos
XI
Você continua construindo a mentira
Que você inventa para tudo que lhe falta...
Não faz nenhuma diferença escapar uma última vez...
É mais fácil acreditar nesta doce loucura,
(#w#)
Duo POV
Observei o arranjo de copos de leite uma ultima vez, gravando o contraste entre o branco puro da for e o negro do mármore da lápide. Diferente das outras vezes em que visitei seu túmulo, não havia lágrimas, fato que não me surpreendia muito. Depois de tantos dias lamentando, acho que finalmente tinha conseguido uma certa estabilidade, mesmo que um tanto mórbida.
Hoje faz exatamente um mês que minha mãe faleceu e, por mais que eu tenha tentado, ainda era difícil aceitar ou me conformar com o que havia acontecido. A pior parte daquele processo, era tocar a vida para frente, tentar voltar a uma rotina que, pelo menos no meu caso, nunca mais seria a mesma principalmente vivendo naquela casa...
Faltava um pedaço vital que não retornaria mais.
É claro que, eu poderia muito bem pegar as minhas coisas e escolher um outro lugar para viver, mas da mesma forma que aquela casa me enchia de melancolia também me lembrava dos bons tempos que eu passei ali; era uma sensação agridoce, um sentimento de nostalgia do qual eu não queria abrir mão.
Podia parecer um pouco confuso, mas era o que eu sentia de verdade.
E enquanto não me recuperava do baque que eu havia sofrido, ia vivendo, ou melhor, sobrevivendo sem muito gosto pelas coisas e pessoas que estavam ao meu redor. Eu tinha plena noção de que com meus atos, silêncio e isolamento eu estava magoando aqueles que gostavam de mim. Um bom exemplo disso era Quatre que apesar de ter me dado uma explicação muito plausível para ter deixado a colônia rumo a Terra, também o fazia por não suportar mais aquele meu constante abatimento.
Infelizmente, isso estava muito além do meu controle, pelos menos, por enquanto.
Cruzando os grandes portões que cercavam o terreno, entrei no táxi que havia deixado a minha espera e segui para casa, não me sentindo cômodo em fazer algo na rua. Essa era uma das coisas pelas quais eu mais perdi o gosto; simplesmente não conseguia ver graça alguma em sair, dançar ou qualquer outra atividade que fazia antes. Eu sabia que deveria estar me tornando uma dessas pessoas insuportáveis, mas quem poderia me culpar? Há menos de um mês havia decidido desligar os aparelhos que mantinham a minha mãe viva, como deveria estar me sentindo?
O caminho não era longo e, enquanto observava o movimento das pessoas o tempo passou sem que eu percebesse e de certa forma me surpreendi quando o carro parou frente aos portões da propriedade. Como de costume, Sally estava ao meu lado assim que adentrei o hall, solícita e preocupada como sempre.
- Está tudo bem Duo? – indagou, seguindo meus passos em direção as escadas. Ao receber meu aceno positivo, ela continuou: – Gostaria de ter ido com você, mas havia tanto o que fazer pela manhã.
Ela me sorriu triste e lhe devolvi o gesto mais por educação do que vontade. Sally estava sendo paciente e compreensiva, mesmo que não estivesse afim de muito contato, fazia questão de me lembrar o quão grato a ela eu precisava ser.
- Vai subir para seu quarto? Não quer comer algo?
Neguei com um movimento de cabeça, não estando com muita vontade de usar minhas habilidades vocais. Em momentos como esse eu sempre lembrava de Heero, de como sempre me intriguei com sua capacidade de ficar calado por horas...
- Você realmente não se chateou por eu não ter ido, certo?
Continuei subindo as escadas e, antes de adentrar o corredor, respondi:
- Você tem ido lá toda semana Sally, é o suficiente para mim.
E eu não estava mentindo, afinal, ela estava fazendo muito mais que o seu trabalho.
Quando dei por mim, meus pés tinham me levado direto para o quarto da minha mãe, lugar aonde vinha ficando a maior parte do meu tempo. Várias caixas estavam espalhadas pelo chão, em sua maioria, ainda vazias. Eu havia feito questão de ver coisa por coisa, separando algo que eu gostaria de guardar e outras que seriam doadas, mas tinha tanta coisa ali, algumas que eu sequer havia posto meus olhos um dia. Dar um fim aos pertences dela se tornou um processo bem mais demorado do que eu poderia ter imaginado.
Olhando ao meu redor, busquei por algo que pudesse distrair minha cabeça por um bom tempo e acabei optando por uma pilha de caixas de vários tamanhos diferentes, um pouco escondidas em um vão do armário atrás dos casacos. Me sentando ao pé da cama, comecei abrindo as caixas menores, encontrando várias e várias fotos reveladas , além de alguns CD's que, pela etiqueta, eram álbuns digitais.
A primeira caixinha estava cheia de fotos nas quais apenas Natsumi aparecia ao lado do seu, até então, esposo. O homem de boa estatura e postura imponente que ajudou a destruir boa parte da vida da minha mãe.
Nem preciso dizer que a imagem daquele homem não fazia muito bem ao meu humor, sendo assim, passei para a caixa seguinte, onde vislumbrei várias e várias fotografias onde um Heero ainda muito novo era o alvo dos flashs. Pensando bem, lembro te ter visto aquelas fotos há muitos anos atrás, enquanto minha mãe contava algumas curiosidades sobre elas.
Numa outra caixa as fotos já mostravam uma larga linha do tempo onde não só eu aparecia, como Sally também. Aquelas já eram do período após a separação... Não era à toa que eu não estava muito sorridente na maioria delas... Eu não fazia idéia de que minha mãe guardava tantas fotografias.
E em meio aquele momento nostálgico fui surpreendido pelo toque do celular que dispensei assim que dei uma olhada no visor... Era incrível como às vezes parecia que Heero sabia que eu estava pensando nele... Não que o estivesse evitando por algum motivo em particular... ou melhor, pelo meu motivo em particular, mas eu estava completamente sem cabeça para discutir qualquer coisa com ele.
Eu tinha certeza que deveria ser algo sobre o inventário... Que outros motivos ele teria para ligar afinal?
Um minuto depois que o celular parou de vibrar, o sinal de mensagem de voz ecoou pelo quarto e, por mais que eu tenha tentado voltar minha atenção para as fotos, minha eterna curiosidade não me deixou sossegar até que eu avancei na direção da cama, pegando aparelho. Segundos depois a voz de Heero chegou aos meus ouvidos, parecendo desnecessariamente severa.
"- Sally disse que você não quer atender ao telefone, Duo. O que está acontecendo?" – a linha ficou em silêncio por um segundo até que ele suspirou e prosseguiu. – "Eu não acho que você deva se isolar em um momento como esse... Amanhã vou dar entrada em alguns papéis e pegarei o primeiro ônibus para L2 e você vai me dizer o que está acontecendo..." – houve uma pequena pousa novamente. – "Nos vemos, baka."
- Merda... – murmurei, afundando o rosto contra a lateral do colchão.
Heero vindo atrás de mim era a última coisa que eu precisava... Esses últimos 15 dias foram muito mais suportáveis do que os primeiros em que ele esteve aqui. Será que qualquer entidade lá em cima - ou embaixo - não estava vendo que eu já tinha problemas o suficiente?
Nervoso com a possibilidade de ter Heero de volta para atormentar a minha cabeça já não muito sadia, me levantei em busca de algo que não fazia uso a muito tempo: meus cigarros. Mas, antes que pudesse sequer deixar o quarto, me vi tropeçando em uma das caixas que havia separado, me surpreendendo com a quantidade de cartas que deslizou pelo chão.
- Mas que diabos é isso? – me agachei, pegando um bolo delas e checando os remetentes. No instante seguinte a porta do quarto abriu revelando Sally, trazendo uma bandeja com o que parecia ser um lanche qualquer. – Você sabe do que se trata? – indaguei, sem lhe dar tempo de falar qualquer coisa.
Ela olhou para as cartas a minha frente e depositou a bandeja em uma das estantes.
- Na verdade não... – se aproximou, sentando ao meu lado. – Não me lembro de sua mãe ter recebido muitas cartas desde que comecei a trabalhar para vocês.
- Elas são antigas. – comentei, olhando as datas de postagem.
- É tão incomum trocar de cartas hoje em dia, não acha? – pegou um dos inúmeros envelopes, franzindo o cenho um segundo depois. – Helen...
- O que tem nesse nome? – olhei um dos envelopes onde o remetente vinha assinado por Helen Corwin.
Ela me olhou meio incerta, parecendo ponderar sobre revelar ou não o que a incomodava.
- Bem... Pode ser coincidência, mas uma mulher com esse mesmo nome esteve no hospital na noite em que sua mãe entrou em coma...
Voltei a encarar o envelope, pensando se em alguma daquelas cartas teria algo que revelasse que tipo de ligação ela e minha mãe tinham... Eu não estaria invadindo a privacidade de ninguém, afinal, minha mãe não estava mais viva, estava? Busquei entre o bolo que estava em minhas mãos a que possuía a data de postagem mais antiga, mas antes que pudesse abri-la fui surpreendido por uma pergunta:
- Já que o assunto esta girando em torno de cartas, por acaso você leu a que sua mãe deixou?
Meus dedos pararam seu trabalho e meu corpo retesou assim que Sally terminou sua sentença.
- Carta? – indaguei, sentindo meu estômago afundar.
- Eu a entreguei na noite em que você e Heero chegaram... não se lembra? Estava para te perguntar isso há um tempo, mas não via uma abertura...
A noite em questão me veio em mente num único baque, e me senti gelar ao relembrar as diversas sensações que experimentei naquele único dia. Estava exausto, pois não havia dormido na noite antes da viagem nem durante ela. Quando cheguei ao hospital fui bombardeado com a notícia de que as chances de minha mãe acordar eram nulas, e que eu precisava decidir entre desligar os aparelhos ou continuar mantendo-a naquela sobrevida.
Ao chegar em casa estava tão cansado que mal registrei o que Sally havia me oferecido e simplesmente andei até aquele mesmo quarto e me deitei na cama, chorando até adormecer.
- Eu não... – me levantei num único movimento, olhando para todo o espaço ao meu redor tentando me lembrar onde havia largado o envelope que Sally havia me dado, em questão de segundos, edredons, lençóis e travesseiros estavam voando pelo chão.
- Duo, fique calmo, se quiser eu posso te ajudar a...
- Não. – - alertei bruscamente, voltando a me agachar, procurando qualquer sinal do envelope debaixo da cama. – É melhor você me deixar só...
- Mas eu só queria...
- Sally. – a interrompi. – Eu quero ficar sozinho. – pedi, tentando ao máximo manter meu tom de voz neutro.
Ela ainda me observou por um momento, mas logo acatou ao meu pedido, sem dizer mais nada.
Quando o som da porta se fechando chegou aos meus ouvidos, voltei a me sentar, suspirando exasperado. Eu não conseguia acreditar que havia me esquecido de uma coisa como essa. Não importava o quão acabado eu estava, era algo que a minha mãe havia deixado para mim, uma coisa assim não tinha desculpa.
Cego pela irritação, agarrei o primeiro objeto que vi pela frente e taquei contra a parede ouvindo o barulho do vidro caindo pelo chão.
- Onde você está... onde você está... – murmurei, batendo minha cabeça contra o criado mudo. Durante o processo, visualizei algo que parecia ser a ponta de um papel pardo escondido entre o encosto e o colchão da cama. Afastando o criado mudo, puxei dentre a fresta o que revelou ser um envelope.
Acho que tremi quando desdobrei o pacote e espiei seu conteúdo, ansioso como que poderia estar ali dentro. Sentando na cama, puxei dois envelopes de cartas, cada um com a caligrafia que logo reconheci como da minha mãe. Um com o meu nome escrito e o outro para o Heero.
Num primeiro momento, senti vontade de abrir a carta do japonês; ele nunca precisaria saber que recebeu algo, no final das contas, o japonês nunca se importou conosco. Depois de pensar bem, decidi que mesmo não merecendo, era um direito dele ler as ultimas palavras que lhe eram dedicadas; quem sabe minha mãe tenha descrito sua indignação com aquele abandono quando nós mais precisamos.
Jogando a carta do Heero para um lado, abri a minha própria, observando o papel tremer sob meus dedos. Pela caligrafia firme que regia a carta cheguei à conclusão de que esta havia sido escrita antes que o estado da minha mãe se agravasse durante a internação. Sem perder mais tempo, meus olhos recaíram sobre as linhas e comecei a absorver cada palavra e o que antes era pura ansiedade começou a se transformar em um sentimento muito semelhante ao terror.
A princípio, nada fez muito sentido, mas a cada novo parágrafo o nervosismo que eu sentia simplesmente evaporou virando uma grande e inexplicável inércia.
Eu não podia acreditar no que estava escrito...
Quando a assinatura indicou o final da carta, meus olhos voltaram a percorrer todo papel, lendo e relendo até que cada trecho estivesse gravado na minha mente... dolorosamente gravado.
Por mais que eu quisesse encontrar outro sentido, não havia como; era claro como o dia.
Ela havia feito de propósito... só eu poderia entender o que tinha ali...
Não faço idéia de quanto tempo fiquei parado, apenas vivendo a dormência da revelação contida naquelas ultimas palavras... Quando o torpor havia passado o suficiente para que eu conseguisse ao menos me mover, o quarto parecia mais frio e as luzes da colônia estavam diminutas, numa imitação das noites da Terra.
Deixei o quarto sem me importar com a bagunça que havia ficado para trás, na verdade, não estava ligado para muita coisa. Cruzando os corredores já escuros, desci a escadaria principal e me refugiei na sala, sendo recebido pelo calor da lareira. Mas ainda não era o suficiente... eu ainda me sentia tão frio por dentro...
Busquei uma garrafa qualquer no pequeno bar que havia nos fundos da sala e me sentei frente ao fogo, só então percebendo que a carta ainda estava segura em uma de minhas mãos, apertada como se pudesse pulverizar o papel.
Doía tanto... era surreal demais...
- Isso não pode estar acontecendo... – murmurei para o nada, estranhando a gravidade da minha própria voz.
O crepitar do fogo foi a única coisa que ouvi por um bom tempo, nem meus pensamentos pareciam estar presentes. Fiquei assim pelo que pareceu horas até que Sally adentrou o cômodo, lançando suas perguntas num tom ameno.
Dessa vez, não importava o quanto eu estivesse devendo, não estava com vontade de falar com ninguém ou fazer qualquer outra coisa.
Bebendo um o que ainda havia sobrado na garrafa, li um pela ultima vez o conteúdo da carta, querendo ter a certeza de que havia memorizado. Olhando para a assinatura uma ultima vez a lancei contra o fogo, vendo-a desaparecer entre as chamas.
- Duo o que aconteceu?
- Nunca é tarde demais...
Senti um par de braços me envolverem por trás, mas não reagi ou movi um músculo para afastar ou retribuir o gesto. Apenas continuei ali, as linhas sedo repetidas e repetidas... e repetidas...
Ainda há muitas coisas que eu gostaria de dizer para você, querido e essa carta não daria para um terço delas. Entretanto, há ainda mais pelas quais eu gostaria de me desculpar, mas devido às circunstancias, tentarei e serei breve.
Antes de mais nada, queria que você soubesse que nunca, absolutamente nunca me arrependi de tê-lo trazido comigo aquela tarde; creio que essa tenha sido uma das poucas coisas certas que fiz em vida. Não importa o que venha a saber e independente de qualquer coisa: não houve um dia em que não tive orgulho de você.
E é justamente por isso que devo pedir, ou melhor, implorar que me perdoe por tudo que fiz a você, mesmo que indiretamente, durante os últimos anos. Tudo que eu quis foi ser uma boa mãe, protege-lo, mas no fim só lhe causei dor e sofrimento.
Hoje eu sei que deveria ter compreendido e aceitado seus sentimentos, ter te dado a oportunidade de ser feliz como as outras pessoas... ter enxergado a grandiosidade do que você sentia e apoiado, não importando qual fosse sua decisão.
Eu falhei como mãe, como amiga, e lhe peço minhas sinceras desculpas.
Sei que você deve estar pensando que é um pouco tarde, mas, sinceramente, não acho que seja. Talvez tenha algo a ver com meu estado e a descoberta na carne de como a vida pode ser curta. Meu maior desejo agora, é que você e Heero possam um dia olhar para trás orgulhosos do que fizeram, que possam dar adeus a vida sem arrependimentos algo que, infelizmente, não estou podendo fazer.
E foi por isso que o mandei até lá, querido, para que tivesse uma segunda chance, essa preciosa oportunidade, a chance de recomeçar do zero... algo que jamais poderei ter.
Recupere o tempo que o fiz perder, vença as barreiras que fiz com que você criasse...
Cuide dele, querido. Depois de tudo que eu fiz, Heero merece...
E, acima de tudo, seja feliz...
Acredite; nunca é tarde demais.
Com amor,
(#w#)
Trowa POV
Era tarde da noite quando uma movimentação no hall chamou minha atenção. Levando em consideração que eu tinha apenas um vizinho naquele andar e este era tão ou mais discreto do que eu, todo aquele barulho e o insistente ruído metálico eram um tanto quanto anormais. Apurei meus ouvidos e fiquei em silêncio, tentando desvendar o que seria aquele som ao mesmo tempo em que cogitava a idéia de levantar ou não do abrigo confortável em que estava, mas depois de um tempo, a curiosidade levou a melhor.
Levantei do sofá com cuidado, tentando não despertar o corpo ao meu lado, mas os resmungos que vieram assim que me pus de pé era um sinal de que não havia sido bem sucedido. Com um pequeno sorriso, apontei para a entrada enquanto vestia uma regata descartada horas atrás e abri a porta da sala com cuidado, tentando não emitir qualquer ruído.
De fato, consegui meu intento, mas me surpreendeu assistir Heero levar quase um minuto até perceber que eu estava o observando, algo que teria me deixado chocado se eu já não estivesse tentando absorver o fato de que o ruído metálico que eu estava escutando era o japonês que não conseguia abrir a porta do próprio apartamento.
Enquanto imaginava o quão cansado Heero deveria estar para realizar tal proeza, retirei as chaves de suas mãos, percebendo que ele estava realmente surpreso com a minha aparição. Recolhendo a pequena bagagem, o empurrei para dentro do apartamento, acendendo as luzes ao perceber que o japonês não se deu ao trabalho de fazê-lo.
O observei andar a passos mecânicos até o sofá, onde praticamente desabou, emitindo um suspiro longo e cansado.
- Obrigado. – ouvi, apesar de sua voz soar um pouco mais alto que um murmúrio. E ele pareceu perceber, pois pigarreou na tentativa de limpar a garganta e esfregou o rosto com ambas as mãos antes de acrescentar: – Acho que minha cabeça ainda esta em L2.
- Percebe-se. – sentei na poltrona a sua frente, pensando se deveria ou não tentar extrair alguma informação sobre aquela ida relâmpago até a colônia.
Nos últimos três meses tais viagens vinham sendo muito comuns, segundo Heero, em sua maioria eram tentativas vãs de convencer Duo a participar dos assuntos referentes a divisão dos bens deixados pela mãe deles.
Infelizmente, Duo não parecia pronto para assumir qualquer responsabilidade. Pelo que Quatre e o próprio Heero contavam, sua debilidade emocional o fazia se isolar e encontrar meios nada construtivos para sanar a dor.
- Ele está melhor?
O japonês emitiu um ruído muito semelhante a um rosnado, enquanto corria as mãos pelo cabelo.
- Heero?
- Duo está completamente perdido... louco. – grunhiu. – E se eu não fizer alguma coisa ele vai deixar a mim e a Sally também.
Fiquei sem reação por alguns instantes, divagando sobre o quão perdido Duo estaria, e se era possível que ele estivesse tão diferente da pessoa que eu conheci há alguns meses atrás.
- Ele continua bebendo muito?
Heero me olhou por um tempo, parecendo procurar pelas palavras certas para responder àquela pergunta, no final, tudo que fez foi suspirar e acenar positivamente, deixando o corpo recostar contra o encosto do sofá.
Aquele ponto da conversa era um pouco mais familiar; creio ter falado a respeito disso todas as vezes em que o japonês foi até a colônia e minha opinião continuava a mesma:
- Insisto que você deveria trazê-lo, Heero... e a Sally se for preciso.
Ele fechou os olhos, massageando as têmporas e retirando os sapatos.
- Duo ainda tem pleno controle de suas faculdades mentais... – ergui uma sobrancelha e, de alguma forma, Heero parecia ciente disso, pois acrescentou: - Mesmo que não pareça... – voltou a abrir os olhos, fitando o teto como se pudesse enxergar além. – Por mais que fosse a minha vontade, não posso simplesmente enfia-lo dentro do ônibus espacial e trancafia-lo aqui.
O observei em silêncio por um tempo, lhe dando a escolha de continuar ou não com seu desabafo. Enquanto isso, não pude deixar de comparar o Heero que via em minha frente com o que conheci, tão seguro de si mesmo e com o controle de tudo e todos. Duo havia, sem duvidas, agido como um vendaval na vida do japonês.
- Eu não sei mais o que fazer...
- Conversar seria um bom começo. – palpitei, ciente de que uma conversa franca era tudo que aqueles dois precisavam. Eu tinha uma larga idéia do que movia Duo e não conseguia entender como Heero ainda não havia percebido.
O japonês riu secamente, deitando no sofá e protegendo o rosto com um dos braços.
- Se fosse simples assim...
Percebendo que ele pretendia dormir por ali mesmo, fui até o quarto de hospedes, trazendo a manta que forrava a cama e o cobrindo com ela.
- Ainda acordado? – não obtendo qualquer resposta, andei até a porta, deixando a sala à meia luz antes de lançar-lhe um ultimo olhar. – Talvez amanhã você possa me responder o porquê de continuar indo até lá.
Fechei a porta do apartamento, não antes de assistir Heero tencionar ante as minhas palavras. Não fazia idéia se o próprio já havia parado para se fazer aquela pergunta, mas não me custava nada semeá-la caso nunca tenha sido cogitada.
Ao adentrar meu próprio apartamento, estranhei encontrar a sala vazia, não somente da pessoa que me fazia companhia, mas das roupas que até eu sair, estavam espalhadas pelo chão. Segui na direção do quarto, sem deixar de espiar pelos cômodos pelos quais passava, findando por encontrá-lo deitado entre as cobertas, sorrindo ao notar minha presença.
- Era o Heero? – indagou, abrindo o edredom para que eu me juntasse a ele.
- Ele mesmo, exausto demais para abrir a própria porta. – comentei, não escondendo meu incômodo com aquela situação.
Ele suspirou, me abraçando assim que me deitei a seu lado.
- Pela sua cara, Duo andou aprontando novamente... – murmurou, escondendo o rosto na curva do meu pescoço. – Eu queria poder ajudá-lo..
Beijei os fios dourados, afagando seu rosto.
- Eu também, meu anjo, mas nesse caso, apenas Heero pode ajudar o Duo.. e o Duo ao Heero.
- Eu sei... tentei confortar e amparar o Duo da forma que pude... – confessou, deixando uma ponta de tristeza transparecer em sua voz. – Mas chegou uma hora em que o melhor que pude fazer foi deixá-lo se consumir... não era a mim que ele queria, de qualquer forma.
- Melhor pra mim. – brinquei, tentando quebrar o clima pesado que se instalou tão rapidamente.
Quatre ergueu o rosto deixando que eu visse seu cenho franzido.
- Eu estava falando sério, Trowa.
- E quem disse que eu estou brincando. – retruquei.
Ele me fitou com profundidade, como se tentasse medir a veracidade das minhas palavras e apenas fiquei ali sustentando seu olhar, satisfeito em apenas observar os dois orbes azuis. Conhecer Quatre foi a coisa mais surpreendentemente maravilhosa que me aconteceu, mas confesso que ainda é estranho me ver numa situação como aquela, tão enlevado apenas por estar na companhia de uma pessoa. Ainda assim era um sentimento do qual não abriria mão por nada.
- Anjo? – chamei, não gostando daquele silêncio que havia se instalado entre nós. A quietude que o dominou era um sinal claro de que aquele assunto ainda estava martelado em sua cabeça e, mesmo que eu soubesse do que se tratava, não podia deixar de me sentir um pouco enciumado. Em meio a toda aquela novidade era estranho ter que observar a preocupação e cuidado que Quatre tinha em reação a Duo, mesmo sabendo que a relação entre eles era de pura amizade.
- Apenas pensando. – me respondeu instantes depois, parecendo meio distante.
- Em que exatamente. – forcei, não querendo deixar que emudecesse novamente.
- Em como tudo esta acontecendo tão rápido, em como ele só esta piorando...
- Você quer ir falar com Heero? – indaguei. Apesar de não ser minha vontade deixa-lo levantar daquela cama, queria dar algum tipo de conforto para ele. – Ou quer ver o Duo? Já tem um mês que você não vai até lá.
- Aparecer em L2 não ia fazer bem nem a mim, nem ao Duo, não sei como ele iria reagir...
Me abstive de responder aquele comentário, não vendo mais onde argumentar. Para mim aquele problema poderia estar resolvido há muito tempo, se Heero não fosse tão cego e Duo menos temeroso. Eu reconhecia que o fato dos dois terem sido criados como irmãos tornava tudo muito mais complicado, mas expor o assunto terminaria com aquela agonia.
- Não vamos fazer nada?
Foi a minha vez de franzir o cenho, o encarando como uma evidente interrogação enquanto o abraça por completo, usando pernas e braços.
- Eu estava falando do Duo e do Heero. – esclareceu, deixando um beijo em meus lábios entre uma risada.
- Bem, quanto a isso não a nada que possamos fazer, o jeito é esperar.
- Esperar? – mordeu o canto dos lábios, voltando a apoiar seu rosto contra o meu pescoço. – Alá sabe que um é mais cego do que o outro.
- Então será uma longa espera... – ressaltei.
Sem lhe dar tempo para contestar, o virei contra o colchão, satisfeito ao escutar sua risada preencher o quarto.
- Enquanto isso, o que você acha de nos distrairmos um pouco?
A única resposta que obtive foi o par de mãos segurando minha nuca e me puxando para um beijo profundo ao qual correspondi de imediato.
Seria uma distração e tanto.
Sally POV
Fazia mais de um dia que Duo não voltava para casa e o que mais me afetava era estar ali, de mãos atadas vendo uma pessoa pela qual eu tinha um carinho enorme se destruir, sem que eu pudesse fazer nada. Vontade de ajudá-lo não me faltava, mas era simplesmente impossível fazer algo sem saber os motivos que estavam levando Duo a agir daquela forma.
No começo, imaginei que as atitudes dele tinham algo a ver com sua perda, talvez ele culpasse a si mesmo por tudo que aconteceu, mas com o passar dos dias, percebi que a coisa não era bem assim. Minha segunda teoria girava em torno daqueles atos serem dirigidos exclusivamente para Heero, uma forma de chamar atenção ou até castigar o irmão, mas tal teoria também foi por água abaixo assim que vi os dois brigarem pela primeira vez.
Poderia parecer estranho, afinal, Duo havia acabado de sofrer uma perda importante, mas eu não achava que suas crises recentes tivessem a ver com a more de Natsumi. O Duo que eu vi sofrer pela mãe andava calado pelos cantos, do tipo que guardava a dor em silêncio, talvez, como uma punição. Todos sabiam que, a princípio, ele se culpou muito por não estar aqui para lhe dar um último adeus. Mas, semanas depois, as coisas começaram a tomar um rumo muito diferente.
Quando não fumava descontroladamente, estava segurando um copo de qualquer coisa que contivesse álcool, sempre andando de um lado para o outro, parecendo um animal enjaulado. Quando qualquer um tentava se aproximar sua única reação era gritar e nos mandar embora e, quando este era Heero, ele simplesmente saia, voltando horas depois e às vezes ficando até um dia inteiro fora e chegando num estado deplorável...
Era dessa forma que, provavelmente, ele chegaria hoje, afinal, foi por causa do irmão que ele saiu de casa... Minha maior preocupação era o quão chateado Duo poderia estar, afinal, os dois haviam brigado como nunca. Heero havia explodido, tentando colocar algum senso na cabeça do irmão, mas infelizmente, Duo não aceitou muito bem ter algumas coisas esfregadas na sua cara.
Por mais que minha tendência fosse proteger o mais novo, dessa vez não podia tirar a razão do Heero, pois esse vinha suportando muitas coisas para estar ali.
Talvez ele estivesse pagando agora por aqueles anos em que se fez ausente...
- Sally?
Tive meus pensamentos interrompidos por uma das empregadas da casa entrando na sala, trazendo nas mãos uma pilha impecavelmente dobrada de lençóis limpos.
- Precisa de alguma ajuda?
Ela me olhou meio incerta, alisando o tecido distraidamente.
- Bem, eu pensei em arrumar o quarto da senhora Yuy... ela sempre foi tão cuidadosa com as próprias coisas...
Ofereci um sorriso, compartilhando daquela lembrança. Realmente a casa sempre foi impecável enquanto Natsumi estava viva, nada escapava de seu olhar exigente. Mas hoje...
- Eu agradeço a sua boa intenção Alba, mas Duo deixou bem claro que não quer ninguém naquele quarto.
- O jovem Maxwell anda tão diferente, não é mesmo? – comentou, se aproximando um pouco mais. – Sei que não deveria dizer isso, mas dou graças pela senhora Yuy não estar mais entre nós, ela morreria se visse o filho desse jeito.
Tive de concordar com ela;realmente seria muito doloroso para Natsumi ver o filho naquele estado.
- Eu vou pedir ao Duo que nos deixe cuidar do quarto por algumas horas, ok?
- Obrigada e com licença.
Assim que me vi sozinha novamente voltei a divagar sobre o que poderia estar acontecendo. Sentada frente a lareira apagada, me lembrei da primeira vez que o vi naquele estado. Já havia pensando naquela noite várias vezes, reforçando a minha idéia de que sua transformação não tinha nada a ver com o falecimento de Natsumi e sim com a carta que ele leu naquele dia...
Infelizmente ela já havia virado pó e somente Duo sabia seu conteúdo.
Enquanto isso, só me restava ficar de braços cruzados, afinal, cedo ou tarde ele voltaria. Ele sempre voltava.
Sentindo o cansaço me abater, apaguei as luzes da sala e deixei o cômodo com a pretensão de dormir, mas antes que eu alcançasse meu quarto fui surpreendida pelo barulho de chaves e para o meu alívio, a entrada do Duo.
- Graças a Deus... – murmurei.
Ele me olhou por um estante e para o meu espanto me sorriu.
Eu não tinha qualquer lembrança da ultima vez que Duo havia me mostrado seu sorriso... Sem dizer qualquer outra palavra, ele seguiu seu caminho pelas escadas e, pelo som dos passos, se refugiou dentro de seu próprio quarto.
Eu sei que aquele gesto deveria ter me tranqüilizado de alguma forma, mas tudo que me proporcionou foi uma angustia ainda maior. Quando finalmente me deitei para descansar, adormeci tentando encontrar um significado para aquele sorriso...
-
Não sei se deveria culpar a consciência pesada, mas naquela manhã acordei angustiada como não me sentia há muito tempo. Meu primeiro pensamento não fui muito diferente do de todos os dias; sempre girando em torno de Duo e de como ele acordaria ou se já havia voltado ou saído.
Normalmente, eu tentava dar início a rotina da casa antes de tomar qualquer atitude em relação a ele, mas algo me dizia que eu precisava vê-lo. A imagem daquele sorriso ainda perpassava pela minha mente e eu não conseguia me sentir bem ao relembrá-lo.
Me cobrindo com um roupão, deixei o quarto rumo ao andar de cima, tentando bolar uma desculpa qualquer para caso ele estivesse acordado. Quando finalmente alcancei a porta, bati de forma firme, querendo ter a certeza de que ele me ouviria.
Não houve resposta.
Compelida pela ansiedade, virei a maçaneta e para a minha surpresa a porta não só estava aberta como o quarto encontrava-se vazio. Tentei dizer a mim mesma que Duo tinha saído como em várias ocasiões, mas havia algo muito errado ali. Estava a meio caminho de abrir os armários quando um pequeno papel negro sobre a escrivaninha chamou minha atenção. Não havia nada ao seu redor, era apenas ele e um celular.
Desdobrei a folha um pouco receosa e foi como se toda a minha aflição tivesse ganho um significado:
"Ela disse que nunca é tarde demais... Quando eu voltar tudo vai ser como antes...
Duo"
Continua...
Primeiro, gostaria de agradecer tardiamente, há algumas pessoas que deixaram review mas não pude responder por não ter e-mail pra contato. São elas: Ruth, Uki-chan, Yuukii e Ayame.E se por acaso tiver alguém por ai que não teve seu review respondido, minhas sinceras desculpas, e pode reclamar a vontade XD
Bem, depois de séculos, aqui está o cap. Um pouco curtinho, é verdade, mas tive que repassar um trecho daqui para o próximo cap, que já está sendo escrito.
Espero que vocês gostem... e se tudo der certo, até breve.
Sra. Richellier
