- Angústia/Romance/Universo Alternativo etc. – 1x2, 3x4 e talvez mais alguma coisa. -
Disclaimer:O mesmo de sempre.
Notas: Cap. sem betagem
Agradecimentos:Obrigada Tutih (seu e-mail parece está incorreto o/) e Uki-chan (deixe seu e-mail na próxima o/) pelos reviews.
Vínculos
XII
Eu sei que não sou perfeito,
Mas eu posso sorrir.
E eu espero que veja esse meu coração
Atrás de meus olhos cansados.
-
(#w#)
Passava das três da madrugada quando seus olhos focaram o relógio no criado mudo. Olhando para baixo, contemplou o rosto de Duo por alguns instantes, procurando pelas delicadas mudanças que ocorreram naqueles meses em que não o via. Trabalho e estudos somados podia ser um veneno, principalmente quando vício por eles já corria em suas veias. Ainda assim, não conseguia acreditar que ficara quase sete meses longe do irmão; não era à toa que o trançado havia passado o dia todo o rodeando e enchendo de perguntas. Heero não conseguia lembrar de outra oca0sião recente em que tenha falado tanto quanto naquele dia.
Até ai, não acreditava que havia grandes problemas, poderia dizer-se satisfeito e como não se sentia há um bom tempo. Seu "erro" foi ter se deixado levar pela empolgação de Duo e, no final das contas, acabar aninhando o garoto em seus braços enquanto lhe contava sobre seus dias na Terra. Talvez não tivesse se importado muito se fosse há alguns anos atrás e se a voz de sua mãe não ecoasse em sua cabeça, mas hoje se sentia estranho com a situação.
Usando a mão livre, esfregou os olhos e retirou parte dos fios que caiam sobre o rosto, inclusive os de Duo que estavam parcialmente livre num enorme rabo-de-cavalo. Era impressionante como a cada vez que o via a costumeira trança estava ainda maior e - ao contrário do que poderia se esperar para um garoto, - muito bem tratada; podia sentir a maciez da mecha que tinha enrolada entre os dedos da mão presa embaixo do corpo do irmão, e ainda havia o perfume que preenchia todo o quarto.
Era indiscutivelmente como estar em casa.
A linha de pensamento o fez lembrar de sua mãe, e do quanto ouviria se ela descobrisse que terminara por cair no sono dessa forma. A idéia de deixar o quarto daquele jeito não lhe agradava; era como se estivesse fazendo algo errado, e não era isso que Heero pensava. Talvez, depois de dezenas de discursos e monólogos desprovidas de todo e qualquer sentido, sua mãe finalmente havia conseguido plantar sua semente...
Querendo evitar sermões tão prolongados como os que costumava receber, iniciou a tentativa de livrar-se do meio abraço em que o irmão o envolvia. Após alguns minutos de pequenas manobras, o japonês chegou à conclusão de que a tarefa se tornava mais difícil a cada ano; manejar um adolescente de quase treze anos era muito mais complicado que uma criança de dois. Ainda sim, conseguiu cumprir sua pequena tarefa com sucesso, deixando a cama com um Duo ainda desacordado sobre ela.
Ignorando a necessidade de deixar o quarto, Heero permaneceu ali de pé por mais alguns minutos, apenas contemplando o sono do irmão. Era como se estivesse de volta aos velhos tempos e em parte, não sabia dizer exatamente como se sentia a respeito. Havia o contentamento, isso era inegável; estar com Duo parecia trazer o melhor do japonês à tona, mas, ao mesmo tempo, também o deixava receoso... desconfortável.
Heero já não sabia o que falava mais alto em sua cabeça; os discursos de sua mãe ou sua própria vontade. Por mais que quisesse desacreditar tudo que lhe era dito, não podia negar que alguns pontos tinham lá seu fundamento, como por exemplo, o fato de não conseguir ser ele mesmo quando estava perto de Duo. Isso o assustava mais do que qualquer outra coisa e dava créditos aos sermões de Natsumi.
Sentindo a cabeça latejar, o japonês inclinou-se sobre a cama novamente, afastando a franja do irmão e deixando um beijo em sua testa no exato momento em que o ruído da porta sendo aberta ecoou pelo quarto. Acariciando a franja uma ultima vez, Heero respirou fundo, se preparando para o que viria a seguir. Murmurando uma imprecação qualquer, deixou o cômodo, fechando a porta para que uma briga eventual não acordasse seu irmão.
- O que eu havia pedido a você, Heero? – ouviu assim que deixou o corredor que dava acesso aos quartos. – Nós combinamos que você deixaria...
- Nós não combinamos nada. – o japonês grunhiu, recostando-se em uma das paredes.
- Você não quer que seu irmão cresça como os outros garotos. – começou, os dedos longos correndo impaciente pelos cabelos negros. – O está privando de ter uma adolescência normal.
- Com todo o respeito, mas a senhora está ficando louca. – murmurou, massageando as têmporas ao sentir o início de uma dor de cabeça. – E sinceramente, está me deixando louco também.
A japonesa inalou uma grande quantidade de ar, fazendo seu melhor para conter sua vontade de erguer a voz.
- Louca? Bem, se apenas eu estou vendo que Duo está crescendo agarrado na barra da calça do irmão... talvez eu seja louca. Ou for a única preocupada com o fato dele não viver nos dias em que você não estar aqui... Bem, pode ser loucura também.
- Eu também me preocupo, mas...
- Ou – ergueu a voz um tom a mais do que a do filho, o impedindo de continuar. – se sou a única que não acha normal a forma como vocês dois se comportam.
- Isso de novo não.
Heero deu as costas para a mãe, não querendo acreditar que iria ouvir aquela conversa outra vez. Voltando para o corredor, rumou para o próprio quarto, batendo a porta assim que passou por esta. Soltando um suspiro exasperado, agradeceu a escuridão e o silêncio que o recebeu, mas viu sua paz momentânea desmoronar assim que Natsumi irrompeu sem fazer cerimônias.
- Não dê as costas para a sua mãe, Heero.
- Eu não sou obrigado a ouvir esse absurdo. – sibilou, os olhos estreitos em irritação.
- É obrigado a ouvir enquanto estiver debaixo do meu teto. – elucidou, adotando um tom de voz autoritário. – Eu não vou fingir que não vejo certas coisas, Heero.
- Não a nada para se ver, Natsumi...
- Você acha normal ver dois irmãos assim? Essa dependência?
O japonês ainda tentou responder as acusações, mas as palavras não queriam deixar sua boca. Seu cérebro praticamente gritava que ela estava vendo coisas onde não existiam, que ele devia responder a altura, mas havia uma segunda voz que, apesar de infinitamente menor, murmurava que no fundo, Natsumi tinha razão; que ele sabia que havia algo estranho...
- Eu vim para ver o Duo, - disse por fim. – não para discutir com você.
- Que bom que você sabe. – uma terceira voz ecoou pelo cômodo, chamando a atenção dos dois orientais.
Heero congelou onde estava, temendo que o irmão houvesse escutado alguma parte da conversa, principalmente, a ultima coisa que sua mãe havia falado. Sentando à beira da cama, fez sinal para que ele se aproximasse, indicando o lugar vago ao seu lado.
Como se estranhando o silêncio que havia se instalado no quarto desde sua entrada, Duo alternou um olhar entre a mãe e o irmão, mas não negou o pedido mudo que lhe havia sido feito. Assim que sentou na cama, uma das mãos do japonês foi até seu rosto, levando uma mecha para a curva atrás da orelha.
- Há quanto tempo você está bisbilhotando.
- Hey, eu não estava bisbilhotando! – retrucou, empurrando o ombro do irmão. – Vocês me acordaram com a conversinha de vocês... – cruzou os braços, encarando a mãe com a expressão severa, muito semelhante a que o japonês costumava usar. – Ficou tudo silencioso de repente... Pensei que tivessem se matado.
Heero permitiu-se rir, em parte, aliviado por Duo não comentar ter escutado nada da conversa. O puxando para um abraço meio desajeitado, acariciou-lhe as costas ternamente, antes de enrolar os dedos no cumprido rabo de cavalo. Ficou assim por alguns minutos, em nenhum momento seus olhos deixavam de fitar os de sua mãe.
- Ele devia estar dormindo. – censurou.
- Ele está. – respondeu no mesmo tom desafiante. – Se você nos der licença...
- Heero, acho melhor levar ele...
- Duo fica aqui, Natsumi... não vou acordá-lo por isso.
Houve mais uma troca de olhares antes que a japonesa se resignasse e deixasse o quarto, batendo a porta com mais força que o necessário.
Heero sentiu o corpo menor remexer-se em seu colo, mas nada que indicasse o que o sono do americano havia sido completamente interrompido. A fim de manter sua palavra, manobrou Duo em seus braços e o acomodou ao seu lado na cama, cobrindo a ambos com edredom que já havia separado. Deitado de costas para o colchão, permaneceu alguns instantes fitando o teto, as palavras de sua mãe vagando por sua cabeça incessantemente.
- Desculpe por ter causado essa confusão, Hee...
Apesar da voz não passar de um sussurro, o japonês sobressaltou-se ligeiramente, pego de surpresa. Inclinando o rosto para o lado, encontrou as duas ametistas brilhando na escuridão do quarto. Por um momento ainda pensou em fingir-se de desentendido, mas logo desistiu da idéia, ciente do quão angustiado o irmão deveria estar.
- Esqueça o que Natsumi disse. – grunhiu, voltando a fitar o teto.
- Ela tem razão. – insistiu com a mesma voz pequena. – Se eu não fosse tão...
- Ai não seria o meu Duo.
Um silêncio estranho caiu entre os dois e em meio aquele longo segundo, Heero viu-se atormentado pela voz sussurrante em algum canto do seu cérebro, dizendo o quão errada era aquela situação, mas antes que pudesse fazer algo a respeito, viu-se sendo abraçado por um risonho Duo, se aconchegando da mesma forma que havia feito no outro quarto.
- Talvez mamãe tenha razão. – declarou entre um bocejo. – Mas senti sua falta, Hee...
Heero ainda demorou algum tempo para conseguir retribuir o abraço sem reservas, terminando por enrolar uma das mãos no rabo de cavalo enquanto a outra acariciava a cabeça apoiado em seu peito.
- Eu também, baka... – murmurou, mesmo incerto sobre Duo estar ou não acordado para ouvi-lo. – Eu também...
-
Heero POV
Apesar de extremamente cansado, me obriguei a abrir os olhos, tentando fazer com que aquele sentimento de angustia desaparecesse. Acho que era uma mescla do sonho que estava tendo com as emoções ainda acumuladas dessa ultima passagem que fiz por L2.
De qualquer forma, passou um bom tempo até que as imagens daquele sonho fossem desaparecendo gradualmente, restando apenas a sensação de nostalgia, algo que eu tinha certeza que me perseguiria por boa parte do dia, como em todas as outras vezes que fui abordado por sonhos como esse.
Acho que tudo teve início na primeira noite em que dormi na noite em que a morte de Natsumi foi anunciada oficialmente. Sonhos que reviviam memórias passadas, mesmo sendo raros, não costumavam me incomodar, mas desde aquele dia as lembranças sempre giram em torno do período em que Duo passou a ser parte da nossa família, momentos que eu não mais lembrava e a cada nova recordação eu tinha mais certeza do por quê.
E ao mesmo tempo em que meu cérebro resolvia fazer um momento "recordar é viver", Duo resolvia agir de maneira completamente oposta. Ao invés daquela proximidade que perturbava tanto a Natsumi, ele fazia questão de sair assim que eu colocava o primeiro pé dentro de casa, passando noites e mais noites fora, se afundando na bebida assim como fez naqueles dois dias em que esteve aqui em casa.
Por mais que eu soubesse que casos como aqueles não eram isolados, nunca passaria pela minha cabeça que Duo os tornaria um hábito.
O que eu não conseguia entender era como as coisas se intensificaram tão rápido. Quando precisei retornar para casa da primeira vez, o deixei com Quatre e nada pareceu muito diferente nos dias que se seguiram. Algumas semanas depois, foi a vez do árabe deixar a colônia e não demorou muito para que notícias nada agradáveis viessem de Sally.
A partir daí, a cada vez que eu ia tentando resolver os problemas, eles agravavam ainda mais, e é só o que vem ocorrendo desde então. Às vezes me pegava pensando se ele não teria começado com isso por se sentir só, já que essa "má fase" começou no mesmo período que Quatre se afastou, mas foi o próprio Duo que negou todos os meus convites para viver comigo, assim como os que Quatre lhe fez.
Isso me fazia ponderar a respeito do que Trowa vivia me dizendo; talvez a única solução para os meus problemas fosse trazer Duo comigo, mesmo que para mantê-lo aqui fosse preciso trancar portas e janelas. Ao mesmo tempo me perguntava se isso seria bom para ele; se não o tornaria dependente de mim novamente...
"Você acha normal ver dois irmãos assim? Essa dependência?"
Balancei a cabeça, como se isso fosse capaz de fazer aqueles pensamentos sumirem e me sentei, consultando o relógio de pulso. Ainda eram seis e meia da manhã. Sentindo meus músculos protestarem pela noite mal dormida no sofá da sala, priorizei um bom banho quente como a primeira coisa a se fazer naquela manhã para relaxar corpo e mente. Depois procuraria saber sobre Duo e então iria agradecer a ajuda de Trowa; talvez eu ainda estivesse lá fora se não fosse por ele...
"... você possa me responder o porquê de continuar indo até lá."
Ou talvez o agradecimento pudesse ficar para mais tarde...
Essa pergunta eu já havia me feito inúmeras vezes, mas nunca encontrei uma resposta satisfatória. Qualquer motivação que eu tente dar às minhas idas constantes a L2 é desacreditada ao bater de frente com o fato de que por anos eu não dei a menor importância para aquele lugar. Eu tinha certeza que debater a respeito com Trowa traria isso à tona e ele não deixaria passar.
Não, não era uma leve impressão, eu realmente estava temendo qualquer coisa que pudesse surgir daquele assunto e aqueles sonhos não me deixavam em nada aliviado.
Por mais que minha intenção fosse relaxar, entre o banho e um café da manhã rápido, gastei um pouco mais de meia hora, ansioso para ter notícias de Duo.
Toda essa necessidade era estranha, às vezes atemorizante, pois me fazia lembrar de anos atrás, quando Duo, ainda pequeno, entrou timidamente em minha vida e de como esse processo estava se repetindo...
Ou melhor, havia se repetido.
Era estranho olhar para aquela semana e descobrir que eu sentia falta, até mesmo de suas birras, mas, acima de tudo, daquela única tarde que conseguimos passar em paz.
Eu realmente sentia falta de sua companhia.
O mais atordoante não era a falta exatamente e sim as conseqüências daquela sensação. A cada vez que eu pegava no telefone na iminência de ligar, várias memórias da minha mãe vinham com tudo, fazendo uma grande bagunça na desordem crescente que eram os meus pensamentos.
A idéia de que Natsumi podia me influenciar mesmo depois de morta, não me agradava nem um pouco.
Mas, por mais que eu tentasse expurgar as dezenas de sermões e conversas que eu tinha decorado com o passar dos anos, certas coisas continuavam martelando na minha cabeça incessantemente, agravada por essa sucessão de recordações.
Era mesmo errado Duo ser tão apegado a mim? E também era errado eu retribuir?
Foi realmente o mais sábio me afastar e deixar que ele vivesse a sua vida longe da minha influência? E minha permanência teria feito dele uma pessoa pior? Destruiria a vida dele como Natsumi nunca cansou de me repetir?
Tais perguntas levaram meu pensamento de volta para dois dias atrás, quando cheguei pela manhã em L2 encontrando Duo voltando de mais uma de suas noitadas. Por mais que minha intenção ao ir lá tenha sido apenas conversar e colocar algum senso naquela cabeça aparentemente vazia, terminamos por discutir mais uma vez e, sinceramente, acho que não tinha como ser diferente.
Ver Duo naquele estado me deixava completamente sem foco e, antes que eu pudesse filtrar minhas palavras, já havia dito mais do que pretendia e consequentemente, o magoado.
O que mais me deixava sem chão era não saber o exato motivo pelo qual estávamos discutindo. Não estarmos brigando por algo semelhante às acusações que ele "gostava" de jogar na minha cara, apenas existia aquela exigente de que eu o deixasse em paz, que todos o deixassem em paz e eu simplesmente não conseguia entender o motivo daquela auto-flagelação... O porquê de ele querer se isolar daquela forma.
Eu estava me sentindo completamente impotente...
Meu único consolo era que, aparentemente, pior não poderia ficar; não antes de eu buscar alguma solução.
Entre devaneios, fui surpreendido pelo vibrar do celular onde o nome da Sally piscava e logo dominado por uma estranha sensação funesta de dejá vù, lembrança de quando descobri que Natsumi havia partido. Respirando fundo, atendi a ligação logo escutando a voz da governanta dando ordens para alguém sair com o carro.
- Sally? – chamei, percebendo que ela não havia percebido que eu já estava na linha.
- Eu gostaria de poder te dar essa notícia de uma outra forma, mas eu preciso da sua ajuda agora, Heero.
- Da minha ajuda? – repeti, logo pensando no pior. Do jeito que aquele idiota vinha se comportando, não era difícil ter se metido em uma encrenca maior. – Duo? Ele esta bem? Pra onde vocês o levaram?
- A questão é exatamente essa, Heero, Duo não está. – tentei vocalizar minha incompreensão, mas minha voz simplesmente não saía. Como sempre, Sally pareceu entender a situação e não poupou palavras. – Duo deixou um bilhete estranho, ele simplesmente... fugiu de casa.
Pior não poderia ficar?...
Parecia que alguém lá em cima queria testar minha teoria...
(#w#)
Quatre POV
Alternando um olhar entre Trowa em sua tentativa caridosa de acalmar o amigo e Heero que era um amontoado de nervos, ficava tentando imaginar se eu seria o único naquela sala que havia achado a atitude de Duo completamente incoerente.
Entre as conversas desencadeadas desde que eu e Trowa chegamos ao apartamento do japonês, ouvi várias e várias vezes Sally pelo telefone ou o próprio Heero cogitando o fator "suicídio", pra mim, teoria mais sem nexo do que o sumiço em si. Segundo a governanta, Duo havia partido levando sua roupa e pela descrição de alguns pertences faltantes reconheci vários como sendo de sua estima. Eu duvidava muito que um provável suicida levaria tanta bagagem para pular de uma ponte ou ainda cortar os pulsos num quarto de hotel.
Eu estive com Duo durante todo o primeiro mês após a morte de Natsumi e em nenhum momento observei qualquer movimento que levantasse tal hipótese, mesmo quando seu comportamento mudou da água para o vinho... Literalmente falando.
Meu amigo pode ter sido tudo, até infantil como várias vezes fui obrigado a ressaltar, mas nem nos seus piores momentos o suicídio foi considerado uma solução para os seus problemas... Fugir era mais a sua cara, afinal, foi apenas isso que fez nos últimos anos, fugir de seus sentimentos.
Pra mim, essa era a primeira vez nos últimos três meses que Duo estava mostrando um comportamento de acordo com seus períodos mais lúcidos.
- A sua calma me assombra.
Quebrei a atenção que prestava a um ponto qualquer da sala, só então me dando conta da presença de Trowa ao meu lado. Este me estendia uma caneca do que, pelo cheiro, só podia ser café, e bem forte.
- Bem... – estendi as mãos para aceitar o que me era oferecido, aspirando um pouco do ar quente antes de responder: - Pode parecer estranho, mas não vejo tanto motivo para pânico.
Trowa franziu o cenho, deixando clara sua confusão. Por mais que eu quisesse explicá-lo melhor o meu motivo para tanta calma, não havia um "por que" exato. Eu simplesmente conhecia Duo demais para achar que ele tinha resolvido deixar toda uma vida para trás.
- Ontem mesmo estávamos conversando sobre suas aflições, e hoje você está calmo? – elaborou, ante ao meu silêncio.
- Eu sei... – murmurei, fitando a caneca segura entre meus dedos. – Mas... eu conheço bem o Duo. – comentei, mesmo sabendo que esse não é o tipo de comentário que Trowa gostava de ouvir. – E por conhecê-lo acho angustiante vê-lo sofrer calado. O Duo que conheci age impulsivamente, como acabou de fazer.
Trowa me fitou em silêncio por um tempo, parecendo digerir o que eu havia acabado de dizer. Eu sabia, independente do que saísse de sua boca, que meu comentário tinha lhe deixado incomodado.
Apesar de o moreno ser o mais velho daquela relação, logo, o mais experiente, vinha dele as reações mais inesperadas, como por exemplo, um ciúme sem nenhum fundamento da minha amizade com Duo. Trowa o havia conhecido e, até onde eu sabia, simpatizado com ele, tornando aquelas pequenas birras mais do que descabidas. Mas, de certa forma, me deixava um pouco mais tranqüilo quanto à nossa paridade no relacionamento.
Ainda assim, traziam certa dificuldade...
- Acho que Heero não concorda muito com você. – balbuciou, voltando seu olhar para o japonês que continuava sua passada larga por toda a sala enquanto discutia de forma inesperadamente eloqüente, com Sally pelo telefone.
Minha vontade foi retrucar algo como "Heero não conhece nem um fio de cabelo do irmão", mas algo me dizia que tal comentário não melhoraria muito a minha situação.
Ao invés disso, apenas dei de ombros, bebendo um pouco mais do café.
Mais alguns minutos passaram e o único som no cômodo era a voz de Heero, cada vez mais alterada. Por fim, o japonês informou que estava pegando o primeiro transporte para L2 e desligou o telefone, jogando o aparelho contra a poltrona.
- Devemos interpretar isso como falta de notícias? – Trowa perguntou, passando a minha frente. Heero apenas alternou um olhar entre nós dois e afirmou com um meneio de cabeça. – Você pretende caçá-lo pessoalmente? – voltou a questionar.
- O que mais seu poderia fazer. – o japonês respondeu sob a respiração, deixando a pergunta implícita. Em seu rosto, os traços de preocupação eram nítidos, assim como os de angustia.
Eu sabia que os últimos meses vinham sendo bem difíceis para o japonês e o tempo só agravou seu desalento. Primeiro Duo caiu de pára-quedas em sua vida, saindo com a morte da mãe deles e cortando qualquer possibilidade de uma aproximação entre eles. Quando vim para Terra, assisti de perto Heero definhar, sempre do seu jeito discreto, é claro, perdido no que parecia ser o desmoronamento da suas concepções.
Agora, Duo fugia de casa e não era difícil de imaginar a infinidade de coisas que estavam passando na cabeça do japonês. Era de se esperar que ele não estivesse em seu momento mais racional...
Nem ele nem Duo estavam.
-... uma mala e ir direto pro aeroporto. – escutei, quando meus pensamentos se dispersaram o suficiente para minha atenção voltar à conversa.
- Heero. – chamei, interrompendo a pretensão que o japonês tinha de se levantar. – Eu não acho uma boa idéia você ir até lá.
Ele me olhou de uma forma muito semelhante a que Trowa me encarou quando comentei sobre achar desnecessário toda aquela movimentação.
- E o que você espera que eu faça? Cruze os braços e espere?
- Exatamente.
Heero nem se dignou a me responder, com um sorriso sardônico levantou e seguiu rumo ao quarto, provavelmente, pretendendo cumprir sua palavra.
- Eu falo sério, Heero. – me levantei, indo atrás dele. – Eu sei que sua cabeça está uma confusão, mas tenta raciocinar um pouco: pra onde mais o Duo poderia ir?
- Minha maior preocupação não é se ele vai ou não pra algum lugar. – replicou, abrindo a porta do armário e jogando uma bolsa de viagem sobre a cama. – Mas o que ele vai fazer a si mesmo.
- E você acha que ele teria coragem para tanto?
Ele interrompeu o que fazia por um momento, erguendo uma de suas sobrancelhas como sinal de incredulidade.
- Estamos falando da mesma pessoa?
Corri as mãos pelo cabelo, ansioso pela falta de um argumento que pudesse fazer Heero seguir a mesma linha de raciocínio que eu e sabendo que seria muito mais simples dizer logo toda a verdade.
Durante as muitas conversas que eu e Trowa tivemos logo depois de nos conhecermos, a possibilidade de abrir ou não o jogo para o japonês, ou pelo menos, dar alguma pista que trouxesse uma luz ao seu conflito interno, surgiu diversas vezes e ele tinha uma opinião muito semelhante a minha; o segredo que Duo guardava era o principal impedimento.
Abrir a boca significaria perder toda a confiança que Duo depositava em mim... Mas estava cada vez mais difícil manter a imparcialidade, sabendo que a verdade colocaria um ponto final em tudo.
O som do telefone voltando a tocar me alertou para a necessidade de tomar uma atitude, e o nome de Sally sendo proferido por Heero me alarmou ainda mais.
- Eu já estou saindo.
- Ele vai vir atrás de você, Heero, será que é tão difícil de entender? Duo não tem pra onde ir...
- Eu já disse que essa não é minha preocupação. – repetiu.
- Eu sei! Mas por mais que ele queira se acovardar e fugir do que quer que esteja o atormentando, só existe um lugar aonde ele vai se sentir seguro... e é ao seu lado.
Cerrei meus lábios, me esforçando para não dizer algo ainda mais comprometedor. No centro da sala, Trowa me olhava visivelmente impressionado com o meu rompante.
Eu havia passado um pouco dos meus limites.
Heero poderia estar perturbado com os acontecimentos recentes, mas ainda era inteligente o suficiente para juntar "dois mais dois". O relacionamento deles, mesmo antes da separação de seus pais, não era algo que pudesse se chamar de puramente fraternal, pelo menos, levando em conta o que Duo contava. Nunca acreditei que Heero fosse completamente ignorante... apenas cego demais.
- Ele não quer se aproximar de mim...
Encarei os olhos azuis do japonês que vasculhavam os meus em busca de algo que deduzo ser sinceridade. Nos dele, estava claro o tamanho da confusão que o atormentava, mas infelizmente, eu não poderia fazer nada para saná-la.
- Eu sei que parece loucura o que eu estou te pedindo, mas fique aqui, pelo menos por mais um ou dois dias... – me aproximei, puxando a bolsa que ele ainda segurava e a estendendo para Trowa. – Eu já disse pra você uma vez... Duo tem os seus motivos pra agir assim.
Ante meu comentário, Heero pareceu sair da leve inércia em que estava e adquiriu um semblante sério e irritado.
- E eu já disse que por culpa dessas suas omissões Duo ia se meter em uma confusão maior... e olha onde chegamos.
Retrocedi um passo, receoso com a mudança rápida de humor do japonês.
- Mas não há nada que eu possa fazer com relação a isso...
- Falar seria um bom começo. – retrucou impaciente. – Você e Barton vivem me dizendo que esse seria um ótimo começo pra tudo.
- Mas não podemos interferir assim, Heero. – Trowa interferiu, segurando meu braço e me trazendo para junto. – É um problema seu e do Duo que vai se resolver quando vocês falarem... e enxergarem também.
Heero ainda ficou nos encarando, na iminência de rebater nossos argumentos, mas acabou se rendendo, desabando como um peso morto sobre o sofá.
- E se você não estiver certo? – murmurou, erguendo as mãos e escondendo o rosto por trás delas. – Não faremos nada?
- Bem... – essa pergunta não me pegou desprevenido, pois já havia decidido fazer alguma coisa mesmo que Heero partisse pra colônia. – Eu até poderia ir até lá, mas, sinceramente, não creio que Duo ainda esteja em L2...
- Se a questão é descobrir o paradeiro, – Trowa interrompeu, tomando a palavra para si. – Podemos contratar alguém para investigar de lá.
- É uma idéia... – o japonês balbuciou. – Vou fazer algumas ligações...
- Deixe isso por minha conta. – ofereci. – Quando contar aos meus pais, tenho certeza que eles farão o possível para encontrá-lo. – toquei seu ombro, pedindo por sua atenção. – Eu tenho certeza que você vai precisar de um bom tempo com Duo quando ele aparecer... Se você tiver algo pendente, o faça, além do mais, será uma boa distração.
Heero me fitou por um momento antes de concordar silenciosamente.
- Vou ligar para Sally. – informou, procurando pelo celular.
- Nós já vamos então.
Não esperando por uma resposta, me encaminhei até a porta fazendo sinal para que Trowa me acompanhasse. Ele se inclinou na direção do japonês sussurrando algo em seu ouvido antes de apertar-lhe o ombro e finalmente se afastar.
Quando voltamos ao apartamento, Trowa não emitiu qualquer som, dando início a rotina vespertina que foi interrompida pela notícia súbita trazida por Heero, me fazendo perceber pela primeira vez naquela manhã que apesar da tormenta, aquela ainda era uma segunda-feira como outra qualquer.
Querendo dar um pouco de espaço para que Trowa digerisse o que lhe incomodava, não me aproximei de imediato, dando prioridade a ligação aos meus pais. Cerca de vinte minutos depois, eu estava encerrando o telefonema com a garantia de que eles colocariam alguns conhecidos para investigar o paradeiro do Duo.
Tendo resolvido esse pequeno obstáculo, fui atrás do meu amante, chegando a tempo de vê-lo fechar os últimos botões da camisa.
- Tem algo lhe incomodando... – comentei, não gostando daquele clima pesado.
Trowa me olhou por um instante, mas logo voltou a sua tarefa.
- Não é nada. Apenas pensando.
- Não quer dividir? – insisti, não querendo deixar a conversa morrer.
Ele pegou a gravata sob a cômoda e se prostrou frente ao espelho.
- Se você estiver certo, se Duo realmente voltar...
- E ele vai. – afirmei, ganhando um olhar de soslaio. – Por que isso te preocupa?
Trowa pareceu ponderar sobre sua resposta, finalizando o laço da gravata antes de responder:
- No estado em que está Heero vai fazer qualquer coisa para que o Duo fique. – franzi o cenho, não conseguindo enxergar uma problemática. – Qualquer coisa. – repetiu.
Vocalizei uma vogal qualquer, deixando que Trowa percebesse meu entendimento.
Com Duo apertando a tecla certa, Heero cederia às vontades dele, mas isso não era necessariamente algo bom. Se um deles não estivesse preparado para as implicações daquela nova relação, os dois fatalmente acabariam sofrendo as conseqüências.
- Bem... Você mesmo disse, não há nada que possamos fazer...
Ele assentiu, se aproximando de mim e me puxando para um abraço.
- Heero é uma boa pessoa. – murmurou num tom distante enquanto afagava meu cabelo e costas.
- E o Duo também. – acrescentei.
Ouvi uma risada curta e discreta antes de receber um beijo leve nos lábios.
- É meu anjo, e o Duo também.
E o avançar da hora não permitiu que Trowa ficasse por muito mais tempo e terminei por ficar só no apartamento, esperando a hora de sair para cuidar dos meus próprios compromissos e afazeres.
Por mais que existissem as preocupações, o mundo continuava girando... Só nos restava seguir enfrente e esperar que Duo estivesse pronto para nos acompanhar.
(#w#)
Heero POV
Eu realmente tentei de todas as formas possíveis e inimagináveis, mas aquela sensação de perda estava me sufocando, me deixando angustiado. Passar três dias esperando que Duo simplesmente caísse do céu enquanto terceiros tentavam saber do seu paradeiro, sem nenhum sucesso, era mais do que meus nervos podiam suportar.
E enquanto as horas não passavam, eu permanecia no escritório tentando supervisionar um trabalho que deveria ser meu, mas que há muito já havia delegado a outras pessoas por me sentir incapaz de manter a atenção em algo por um longo período. A verdade é que eu estava ali simplesmente por estar, certo de que em casa eu já estaria subindo pelas paredes ou no mínimo, perambulando pelos cômodos como um animal enjaulado, e tudo por causa do Duo.
O que mais me intrigava e preocupava naquela história era aquele bilhete. Ok, ele nos dizia que ia voltar, mas para onde? Voltar pra L2 quando se sentisse melhor? Voltar para o meu apartamento?
Ou será que a conotação daquela palavra era um pouco mais profunda do que um simples retorno?
Todas aquelas suposições estavam me deixando maluco de forma que nada ao meu redor parecia funcionar. Meu trabalho havia se tornado uma descida diária ao inferno, Trowa não parava de me dizer o quão introspectivo e rude eu estava ficando - algo que me surpreendia já que nunca pensei que poderia me tornar pior do que eu já era. - e Quatre que ultimamente parecia não deixar o apartamento do seu, agora, namorado, me olhava como se sentisse uma espécie de pena infinita de mim.
Eu procurava meu trabalho em busca de uma distração, mas infelizmente, por aqui as coisas estavam calmas demais. Eu quase sentia falta da presença da Relena e suas intromissões que eu costumava achar completamente irritante. E pensar que, há três meses atrás, quando Relena anunciou sua vontade de romper nossa sociedade, pensei que o estresse acarretado pela notícia acabaria por me levar a um pronto-socorro...
É claro que eu não esperava que ela simplesmente digerisse perfeitamente o fato de eu tê-la insultado da forma como fiz, mas também não contava com uma decisão como aquela. O rompimento da sociedade me trouxe sérios problemas, algo que eu já possuía em grande escala com o falecimento da minha mãe e a obstinação de Duo em continuar morando sozinho naquela maldita colônia.
No final das contas, a dor de cabeça não foi tão grande quanto eu esperava. É verdade que precisei me ocupar com a integração de um completo estranho, mas de fato foi uma boa forma de me distrair enquanto Duo causava toda aquela confusão.
Tais problemas ainda não haviam me permitido conhecer melhor o meu novo sócio, mas pelo que pude observar por alto, me parecia uma pessoa, no mínimo, confiável.
O ranger discreto ranger das dobradiças chamaram minha atenção para a porta se abrindo e, como se atraído pelos meus pensamentos, Chang Wufei surgiu entre a brecha criada, seu olhar pedindo uma permissão silenciosa que concedi também abdicando das palavras. Trocas como essas estavam se tornando corriqueiras e, no mínimo, interessantes.
Com um sorriso discreto e triunfante em seus lábios, o chinês se aproximou, puxando a poltrona a minha frente e se sentando.
- Temos um novo contrato. – informou, assim que tomou assento a minha frente. – E um dos grandes.
Apesar de satisfeito com a notícia, não pude deixar de imaginar que mais um contrato poderia significar certos impedimentos que eu não podia sofrer. Eu estava fazendo uma espécie de malabarismo para levar o meu trabalho e ainda por cima os negócios deixados pela minha mãe. Contratos grandes significavam compromisso em tempo quase integral...
- Ótimo... – murmurei vago, omitindo o que realmente passava bela minha cabeça.
Wufei me fitou por um instante, e eu quase pude imaginar suas engrenagens trabalhando. O chinês tinha uma ótima percepção do ambiente ao seu redor, escondida atrás de sua postura discreta e controlada. De alguma forma, tais características eram um atrativo sem precedentes para aqueles que procuravam nossos serviços... Fato que me deixava um pouco curioso.
Como sua postura reservada e palavras cuidadosamente calculadas atraiam o respeito e admiração dos nossos clientes enquanto a minha, deveras similar a dele, os deixava desconfortáveis e, por que não, receosos?
- Você não me parece muito satisfeito.
Afastei aquelas conjecturas tolas e tentei voltar minha atenção ao chinês, que me fitava com certa preocupação.
- São outros problemas. – me esquivei, não querendo discutir o assunto. Já estava sendo bem difícil sem precisar debatê-los, além do mais, confiar problemas a terceiros nunca foi meu forte.
- Pessoais, eu presumo.
- De fato. – confirmei, pegando o pequeno CD de dados que ele havia deixado sobre a mesa assim que entrou na sala. – Da reunião? – indaguei, acreditando que a boa percepção de Wufei o faria entender que a abordagem daquele assunto não me agradava. Mas, contrariando as minhas especulações, ele assentiu e continuou:
- Ouvi dizer que está passando por um período conturbado. – comentou, indicando que sabia o bastante para opinar. – Problemas familiares?
Suspirei diante de mais uma pergunta, não sabendo exatamente como encará-la. Seria hipocrisia negar que estava me sentindo incomodado com aquela insistência, mas ao mesmo tempo, não conseguia ver más intenções em seu gesto. Talvez ele estivesse realmente preocupado; se não comigo, com minha falta de entrosamento. Além do mais, era bem provável que uma história ou outra estivesse circulando pelos corredores...
Logo, cheguei à conclusão de que, uma hora ou outra, eu teria de abordar aquele assunto diretamente com ele, mesmo que de forma superficial. Por mais que isso não me deixasse à vontade, meus "problemas pessoais" estavam interferindo em assuntos que não eram apenas meus e, no fundo, eu devia alguma explicação ao meu sócio.
- Digamos que... – ponderei por um momento, tentando encontrar uma explicação plausível que não me obrigasse a entrar em detalhes. – Sejam algumas complicações com o falecimento da minha mãe...
Ele assentiu como se tivesse um conhecimento denso a respeito.
- Além da perda ainda é preciso lidar com a parte burocrática.
- Exatamente. – concordei, internamente satisfeito por não existirem mais margens para um aprofundamento maior do assunto.
- Eu já havia percebido sua apatia, Yuy, e gostaria de me colocar a disposição caso haja algo em que possa ajudar. – ofereceu, soando genuinamente sincero em suas palavras.
Um pouco surpreso com seu gesto, não tardei a responder:
- E eu agradeço. – me recostei sobre a poltrona, olhando para tela do computador onde os dados do CD carregavam. – Mas infelizmente, no momento, ninguém pode realmente me ajudar... – murmurei, soando distante aos meus próprios ouvidos, já divagando sobre o assunto que mais me corroia naquele momento; Duo.
Eu não podia deixar de pensar onde aquele baka poderia ter se enfiado; se estava dormindo debaixo de algum teto ou quem sabe se alimentando bem... Melhor ainda, se ainda estava vivo, de fato. Eu não fazia idéia de como ele estava conseguindo se virar sem movimentar um centavo da sua conta...
- Você tem um irmão, não é verdade? Como ele está...
- Não somos irmãos.
Aquelas palavras irromperam meus lábios de uma forma tão brusca que quase não pude acreditar que haviam sido ditas por mim. Todo aquele estresse havia me afetado ao ponto de agregar um daqueles discursos de Duo e do Quatre...
- Não é seu irmão?
Deixando de lado os "por quês" que já começavam a infestar minha cabeça, tentei desfazer aquele mal entendido, no fim das contas, dando mais informações do que eu pretendia a princípio.
- Duo foi adotado pela minha mãe ainda muito novo... Mas não convivemos muito nos últimos anos. Não somos propriamente irmãos ou... agimos como tal...
Minha própria afirmação me deixou mais pensativo do que eu gostaria, e agradeci internamente a Wufei por ter continuado a conversa, mas dando um rumo diferente a ela.
- Entendo... – afirmou, apesar de seu tom não parecer tão convincente. – Bem, não é pra menos que você esteja com um sério déficit de atenção e falta de comprometimento.
Arqueei uma sobrancelha, um pouco impressionado com sua franqueza e, apesar de me sentir insultado, admirei sua falta de frivolidades e rodeios.
- Posso garantir que não é um comportamento habitual. – repliquei.
- E eu acredito. Por isso vim aqui, na verdade... Você não esta ajudando nem a nós nem a si mesmo estando aqui. – disse, objetivo como sempre. – Não seria melhor você ir pra casa e tentar resolver esse seu problema?
- Se fosse tão simples... – grunhi, esfregando os olhos com os nós dos dedos.
- Bem, eu não sei do que se trata... mas pense dessa forma: – se levantou. – Todo problema tem solução... Porque se não tem, solucionado está. – o observei caminhar até a porta, seu jeito simplista de encarar as coisas me lembrando muito uma certa pessoa. – Vá pra casa, qualquer imprevisto eu estarei por aqui.
Talvez, Wufei não estivesse de todo errado. Eu estava esquentando minha cabeça por algo que tinha uma solução realmente muito simples: era arrumar as malas pegar um transporte espacial para L2 e fazer as coisas a minha maneira.
Era assim que deveria ter agido desde o princípio.
- Wufei. – chamei, antes que a porta se fechasse por completo. Quando ele voltou a aparecer no meu campo de visão, lhe ofereci um sorriso: – Te devo uma.
- Justo. – replicou, devolvendo o gesto e então saindo.
Buscando pelas pequenas coisas que me eram necessárias como chaves e carteira, alcei a bolsa sobre um ombro e joguei o blazer sobre o outro, deixando o andar sem olhar para trás. Se eu parasse para pensar e agir da mesma forma calculista que me era de costume, com certeza não chegaria a por os pés no espaço-porto.
Percorri todo o caminho até em casa sem realmente percebe-lo, tendo quase toda a minha atenção voltada em montar uma lista de coisas a serem levadas para a colônia, tendo em vista que meu tempo de permanência lá era indeterminado. Quando os artigos foram previamente escolhidos, comecei a imaginar possíveis lugares onde Duo teria ido, fazendo uma pequena nota mental para não esquecer de vasculhar cada canto de seu quarto, a procura de qualquer coisa que pudesse me dar uma pista. Eu sabia que Sally já havia se certificado, mas eu queria verificar tudo com os meus próprios olhos.
Logo eu já estava imaginado o que faria se conseguisse encontra-lo. Ali, com a cabeça fria, só conseguia pensar em um monte de sermões que poderiam lhe dar; coisas que provavelmente gritaria, afinal, Duo tinha esse dom, me fazer perder o controle em qualquer tipo de situação.
De certa forma, algo do gênero estava acontecendo naquele momento. Eu havia me deixado levar pela vontade dos outros, escutado tanto os conselhos de Quatre e Trowa que ocultei minha própria voz. A necessidade de encontrá-lo estava sobrepujando meu bom senso... Tirando meu controle.
Quando finalmente estacionei dentro do condomínio marchei a passos rápidos rumo ao elevador. Ao alcançar o hall do meu andar, ainda cheguei a olhar para a porta ao lado, cogitar a possibilidade de avisar a Trowa o que eu pretendia fazer; se eu viesse a precisar dele ou ele de mim, ele saberia onde começar a me procurar. Mas no instante seguinte, cheguei à conclusão de que comunicar a ele seria o mesmo que contar a Quatre...
E eu não queria que mais um daqueles discursos diabolicamente convincentes me fizesse desistir.
Agora minha meta seria entrar e sair do apartamento sem chamar atenção daqueles dois, caso estivessem por aqui.
Abri e fechei a porta silenciosamente, me escorando sobre a madeira por um minuto, querendo ter a certeza de que ninguém viria ao meu encontro. E enquanto os segundos passavam, aquele foi se tornando um pensamento secundário, pois outra coisa era alvo da minha atenção...
Não exatamente uma coisa, um cheiro... Um perfume.
Inspirei profundamente, querendo ter a certeza de que meu olfato não estava me pregando uma peça, mas não havia dúvidas... Eu já havia sentido aquele mesmo perfume centenas de vezes... Até mesmo em vários daqueles sonhos que vinha tendo nos últimos dias... O mesmo que senti falta quando Duo voltou para L2.
Apesar do nervosismo que me abateu de imediato, ainda custei um pouco a me mover e, cautelosa e silenciosamente, comecei a vasculhar os espaços mais próximos, como a cozinha e a varanda. Todos vazios.
Meus pés começaram a fazer o caminho para a área privativa e a cada passo tinha uma certeza maior de onde encontra-lo. Dispensando os cômodos por onde passava, parei frente à porta do meu quarto e o perfume estava ali, delicadamente impregnado no ar. Quando finalmente empurrei a madeira semi-cerrada, minha primeira impressão foi de ter voltado ao tempo.
Sobre a cama havia uma confusão de lençóis e edredom e no meio deles estava Duo, cercado de almofadas e travesseiros, o cabelo molhado caindo sobre suas costas e a respiração calma e ritmada numa prova irrefutável de seu sono.
Chegava a ser hilário, se não fosse frustrante. Eu havia passados três dias pensando em todo e qualquer lugar onde Duo poderia ter se enfiado e há poucos minutos estava tecendo uma teia de possibilidades pra no final das contas encontrá-lo ali, aninhado na minha cama.
E o que mais me inquietava era o fato de eu simplesmente não estar conseguindo me irritar com aquilo. Não havia raiva... Na verdade, se eu fosse realmente sincero comigo mesmo, admitiria que não havia nada além de um alívio imenso... e uma espécie de presunção.
Não importava o motivo; Duo havia voltado para mim, no final das contas.
Mas, apesar dessa completude, ainda me faltava a noção do próximo passo, do que eu deveria ou poderia fazer. Seria melhor acorda-lo e perguntar ou conversar a respeito do que o levou a voltar, ou melhor, o que gerou toda aquela crise? Havia acontecido algo?
Me aproximei um pouco querendo ter certeza de que ele estava bem, pelo menos, fisicamente e para a minha surpresa os olhos escondidos pela franja castanha estavam um pouco inchados.
No mesmo instante excluí a possibilidade de acordá-lo para perguntar qualquer coisa.
Ainda fiquei ali, observando seu sono enquanto pensava incessantemente no que fazer. Por fim, me rendi ao meu próprio cansaço, ignorando qualquer comprometimento com a razão ou lógica. Chutando os sapatos pra longe, me desfiz da gravata e abri os primeiros botões da camisa, sentando cuidadosamente no lado da cama não ocupado por Duo. Com cuidado, ajeitei o edredom, afastei os lençóis e me deitei, cobrindo a mim e a ele, sem nenhum sinal de que seu sono foi interrompido.
Duo deveria estar esgotado...
E apesar da minha própria exaustão, me vi capturado pelas feições bonitas que, apesar do sono profundo, não pareciam relaxadas. Sem pensar muito a respeito, afastei o travesseiro que ele abraçava e o puxei na minha direção, ouvindo alguns resmungos e palavras balbuciadas, mas sem mostras de um despertar concreto. Um pouco depois o próprio Duo se acomodou a mim, suspirando, aparentemente, satisfeito e finalmente relaxando.
E aquela sensação me invadiu novamente...
Era certo...
Era como estar em casa, depois de muito tempo longe.
Sem perceber, fui me deixando embalar pelo sono e a última coisa que me veio em mente foi a necessidade de nunca mais deixar aquela espécie conforto desaparecer...
- Talvez ela tivesse mesmo razão... Mas eu senti sua falta, Duo...
Você faz algo comigo que eu não posso explicar...
Eu sairia da linha se dissesse:
"Eu sinto sua falta"
Continua...
Obrigada aos reviews e o apoio daqueles que ainda continuam acompanhando a fic. o/
Espero que gostem do capítulo...
E comentem o/
Sra. Richellier.
