Classificação: Angústia/Romance/Universo Alternativo etc. – 1x2, 3x4.

Disclaimer: GW não me pertence.

Nota:Cap. sem betagem. Logo, desculpem os errinhos pelo caminho... A intenção é que conta, ne?

N/A: Isso me parece tão surreal que nem sei que dizer! Anyway, estou feliz por escrever, apesar da ferrugem!


Vínculos

XIII


Se a vergonha tivesse um rosto acho que se pareceria um pouco com o meu
Se tivesse um lar seriam meus olhos
Você acreditaria se eu dissesse que estou cansado disso?
Bem, e agora vamos nós uma vez mais...


(#w#)

Duo POV

Observei meu reflexo no espelho dando atenção maior ao meu rosto abatido. Eu havia dormido por toda a tarde e atravessado a noite, os sinais do sono prolongado estavam nas pequenas marcas em minha pele e na bagunça do cabelo que por sinal estava completamente embaraçado. Por um segundo, cheguei a cogitar a ideia de ir até meu antigo quarto a procura de uma escova de cabelo que possa ter sido deixada para trás, mas isso chamaria atenção para o fato de eu já estar acordado, e não queria que Heero viesse me abordar ainda.

Resignado de que aquele não era o momento para vaidades, prendi o cabelo num rabo de cavalo firme e me ocupei da tarefa de lavar o rosto.

As engrenagens em minha cabeça trabalhavam ávidas em simulações do momento em que eu estaria frente a frente com Heero e quanto mais pensava a respeito mais insistente ficava a pequena voz que sussurrava que voltar era mais uma de minhas péssimas ideias. Em contra partida, havia um senso comum entre eu e meu subconsciente de que só existia uma certeza palpável em minha atual situação:

Eu precisava de ajuda.

Tal fato era tão absoluto que a ele cabiam várias interpretações. Eu poderia dizer que precisava de ajuda para me erguer do buraco onde havia me enterrado. E falando em enterros, também existia a constatação óbvia de que eu ainda não havia superado em nada a morte da minha mãe... Ou melhor, superado suas últimas palavras para mim.

O pensamento em Natsumi me causou um aperto no coração que, apesar de já conhecido, não tinha mais como fator determinante o seu falecimento. O pesar ainda existia, é claro. Nada nesse mundo poderia mudar o fato de que ela havia me criado, de que era minha mãe. Mas era impossível negar que depois daquela carta, a dor de sua perda estava se tornando um sentimento tão mesquinho que as boas memórias que me restavam dela aos poucos se esvaiam.

Mais do que órfão eu estava me sentido traído.

E esse era o motivo de eu estar ali de novo.

Era complicado por em palavras as minhas expectativas para aquela conversa que não tardaria a acontecer, muito menos os motivos que me levaram a decidir voltar para a casa do Heero. Provavelmente, eu deveria estar odiando aquele lugar; era onde meus principais infortúnios aconteceram e acredito ser exatamente isso que passava pela minha cabeça até eu ler aquela carta... Até provar aquele amargor.

Eu já havia remoído aquelas linhas várias e várias vezes, não conseguindo encontrar nenhum significado diferente de: "Sinto muito por ter cagado a sua vida". E revendo vários momentos do meu passado, fui obrigado a reconhecer que em todas as situações desconfortáveis entre eu e Heero, Natsumi estava no meio de alguma forma. Faltariam dedos nas mãos para contar às vezes em que ela e o filho brigaram por minha causa e agora eu podia imaginar o teor exato de suas discussões.

Diante desses fatos, foi impossível não questionar minha resolução de me afastar e tentar botar uma pedra em tudo que eu sentia. Não conseguia parar de pensar que talvez o japonês tenha sido compelido a se afastar de mim...

Depois daquela carta, era uma ideia plausível, afinal.

Se minhas desconfianças estivessem certas, Heero nunca foi o completo bastardo que eu tentava pintar para não me sentir rechaçado, e apesar dos estragos causados durante todos esses anos, como a própria Natsumi disse, nunca é tarde demais...

Eu estava desposto a me presentear com essa última oportunidade de bancar o tolo.

Dando uma ultima olhada no quarto, tentei captar alguma mudança no cômodo, qualquer sinal de que algo havia mudado desde que eu estivera ali. Mas além da mala de viagem que eu já conhecia nada estava fora do lugar. Sorrateira, a lembrança de meses atrás me alcançou, e me vi relembrando a noite em que Heero e eu selamos nosso curto acordo de paz... A esperança inocente de que tudo se resolveria sem grandes transtornos...

- Eu deveria é ter desconfiado que a esmola 'tava grande demais. – resmunguei, finalmente deixando o quarto.

Não foi difícil encontrar Heero. Havia um forte aroma de café que se alastrava pela sala escura se intensificando conforme me aproximava da cozinha. Internamente abençoei sua iniciativa, pois não fazia ideia de quanto tempo essa conversa nos tomaria e talvez, o reforço da cafeína fosse muito bem vindo. A cada passo, minha ansiedade crescia arrebatadora, me trazendo a compreensão de que aquele seria um momento decisivo.

Inevitavelmente me vi contemplando a memória do dia em que embarquei em L2, momento em que tive uma concepção parecida com a de hoje. Lembrei o turbilhão de lembranças afloradas por aquela oportunidade, meus sentimentos tão inconstantes... Minha preocupação em ser forte, em não quebrar minhas barreiras... Lembro de desejar com todas as forças que eu fosse capaz de mantê-las, sem sonhar com o fato de que meses depois elas seriam inexistentes graças às inúmeras rasteiras que levaria naquele percurso.

Apesar de todos os meus receios, nem de longe imaginava que as coisas tomariam aquela proporção.

Meu único consolo era que pelo menos para uma coisa toda aquela situação havia servido.

Eu já tinha certeza de que eu e Heero não servíamos mais para o papel de irmãos.

Se esse foi o desejo de Natsumi em vida, ela podia dar como concretizado.

Mas será que ela contava com a possibilidade de eu ser tão cabeça dura? Ou quem sabe de eu gostar tanto de Heero que no final, se todos os meus esforços não dessem frutos, não poderia aceitar não ter pelo menos sua amizade?

Balançando a cabeça, inspirei uma ultima vez, como se aquele ar amargo de café pudesse me encher de coragem. De fato, não cheguei a me surpreender quando entrei na cozinha e encontrei Heero sentado no balcão central, olhos atentos a minha chegada e um semblante tão cansado como o meu.

Ainda na porta, tentei vocalizar um "boa noite", mas minhas cordas vocais pareciam paralisada pelo momento. De alguma forma o japonês pareceu entender, pois se resumiu a indicar a cadeira a sua frente enquanto retirava uma caneca de seu suporte a completava com café.

Se pudesse usar uma palavra para descrever essa situação, esta seria "surreal".

Enquanto procurava o jeito certo de começar, minha cabeça maquinava pensamentos conspiratórios sobre a aparente calma de Heero e novamente, não pude deixar de remoer o possível erro que estava cometendo.

- Eu preciso de ajuda. – soltei de uma vez, soltando o ar que havia prendido em algum momento.

A minha frente, Heero deixou escapar seu próprio suspiro, de alguma forma, aliviado com minha abordagem. Dado nossos recentes encontros, acho que ele esperava algo completamente diferente.

Mas quem poderia culpá-lo?

- Certo... – pareceu testar as palavras em sua língua antes de continuar. – Eu vou poder saber o que aconteceu ou você vai mentir para mim de novo?

Desviei meus olhos dos seus, fitando a superfície do café tremular ante a minha respiração.

- Eu nunca menti, você sabe. Omitir é a palavra certa. – provei um gole da bebida, observando a frustração pontuar os olhos azuis, usando aqueles segundos como um pretexto para organizar meus pensamentos. – Sei que errei muito, mas quero tentar de novo; da melhor forma possível.

Em seu lugar, Heero pareceu relaxar um pouco.

- Acho que deveria brigar com você. – foi sua vez de beber o café, mas seus olhos nunca deixavam os meus. – Mas a verdade é que eu só gostaria de saber o que aconteceu... A verdade.

Frente a seu pedido simples, não consegui considerá-lo nada mais do que justo.

- A verdade, - comecei, partindo de sua deixa. – é que Natsumi nos deixou uma carta.

- Carta? – repetiu, suas sobrancelhas impossivelmente unidas. – Que tipo de carta?

"E foi por isso que o mandei até lá, querido, para que tivesse uma segunda chance, essa preciosa oportunidade, a chance de recomeçar do zero...".

- Uma... – pisquei algumas vezes, tentando afastar aquelas linhas para um canto da mente. – Tentativa de despedida, eu acho. E eu não li a sua, antes que você resolva perguntar. – me adiantei.

Ele ficou em silêncio por um instante parecendo refletir a respeito e terminou por encolher os ombros.

- Não sei se me importaria muito com isso...

Uma risada amarga deixou meus lábios sem que eu pudesse contê-la e todo o rancor que eu vinha tentando suprimir carregou minha voz:

- E eu não sei se quero saber... Ou melhor, que você saiba o que tem lá. – confessei, ganhando um olhar desconfiado em resposta. – Não pretendo te contar o que li, e sei que isso não vai te deixar muito feliz, mas queria que você entendesse que fiquei um pouco... Perturbado, por assim dizer.

Heero me encarou de uma forma tão incerta que era impossível decifrar o que passava por sua cabeça. Eu esperei que ele vocalizasse um pouco de sua confusão ou curiosidade, mas tudo que ganhei foi o seu silêncio. Me vi obrigado a elaborar:

- Seu relacionamento com ela não parecia um dos mais agradáveis... Se eu não gostei do que li imagine você?

Não era uma mentira.

Fechei os olhos por um momento, tentando encontrar as palavras para não dizer a Heero mais do que ele podia saber. Apesar de ter decidido voltar, não estava certo de que partes revelar, ou em que momento declarar tudo o que eu sentia...

Nem saberia dizer se tal oportunidade iria surgir...

- Você vai ficar?

A pergunta me pegou tão desprevenido que não tive tempo de disfarçar a surpresa. Minha completa falta de capacidade em absorver aquela simples pergunta também me fez inábil a respondê-la.

É claro que decidindo voltar e ter uma conversa quase franca com Heero, havia considerado o fato de que graças as suas tentativas de apaziguar as idas e vindas de nossa recente e estranha "relação", não haveria muita dificuldade em entrarmos em um consenso. Mesmo assim, aquela pergunta fora de lugar me fez vacilar.

E eu sabia que deveria responder alguma coisa, mas... O que havia para ser dito?

- Como assim?

- É simples. – ele continuou; seus olhos parecendo escuros e temerosos. – Você disse precisar de ajuda, e eu... Preciso que você fique.


(#w#)

Quatre POV

Quando meu celular tocou naquela manhã mostrando o nome de Heero no visor, assumo que temi o pior. Não uma tragédia propriamente dita, pois apesar de seus esforços, o japonês ainda não havia conseguido colocar na minha cabeça que Duo estava debilitado a ponto de sair por ai fazendo algo mais drástico...

Minha concepção de "pior" tinha mais a ver com o japonês me ligando do espaço porto, anunciando ter ido para L2 sem nos avisar para caçar o irmão sem a menor ideia de onde começar. Mas de todos os meus temores, o maior era o de ver Heero perdesse a cabeça. Estava claro para os mais próximos que as inconstâncias de sua vida não estavam lhe fazendo nada bem.

Com tudo isso em mente, me preparei para uma possível dor de cabeça matinal, mas para minha total surpresa, foi Duo quem chamou do outro lado da linha não somente dando sinais de vida como anunciando que, obviamente, estava de volta a casa do irmão.

Instintivamente, me vi encarando a porta da sala tentando imaginar meu amigo no apartamento do outro lado do corredor, falando comigo ao telefone como se nada tivesse acontecido.

Era tão a sua cara que não pude deixar de me sentir indignado.

Entre um belo sermão que lhe passei e as respostas cheias de sarcasmo que recebi nossa ligação não durou mais que alguns minutos e, a seu pedido, meia hora depois estávamos seguindo rumo a uma cafeteria próxima.

Num primeiro momento, não pude deixar de observar as pequenas mudanças no comportamento do Duo que havia visto pela ultima vez. Se não tivesse presenciado seu luto e todo o sofrimento decorrente, poderia atestar que tais acontecimentos nunca ocorreram.

Seu velho sorriso largo e sincero estava em seu rosto quando o abracei apertado, transmitindo todo meu alívio em vê-lo bem, assim como seu humor lascivo quando lhe contei sobre minha recente mudança para o apartamento de Trowa. Aqueles pequenos sinais me retomavam o velho padrão de nossa amizade, a simplicidade de nos reunirmos para conversar, desabafar.

De fato, até chegarmos ao café a única coisa que me pareceu completamente fora de lugar era o próprio comportamento, tão inadequado para a situação. Não se esperava esse tipo de normalidade de alguém que tinha deixado um bilhete duvidoso e sumido por alguns dias.

Quando finalmente nos sentamos, percebi que a aparente tranquilidade de Duo durou o tempo que levou para sermos servidos, logo sendo substituída por uma expressão confusa e exausta.

Nem precisei vocalizar as inúmeras perguntas que borbulhavam na minha cabeça, pois Duo já estava falando sem que eu precisasse coagi-lo.

- Ele parece muito confuso. – Duo comentou com a voz embargada - Queria te perguntar sobre isso... Você sabe de algo?

Demorei alguns segundos para alcançar seu raciocínio, que no final, não estava tão longe da temática do meu.

- Heero e eu não somos grandes amigos. – atestei o obvio, não vendo outra forma de começar. – Mas não é difícil perceber que o seu sofrimento causa muita dor a ele... Ele estava bem preocupado com seu sumiço.

Bem, preocupado era um eufemismo, mas não quis entrar em detalhes.

- Eu sou o... Irmão dele. Acho que sua preocupação é normal...

- E eu acho que você está querendo se enganar, Duo.

Ao invés de replicar, ele apenas me encarou, talvez medindo em meus olhos a veracidade das minhas palavras.

- Hoje mais cedo, Heero me pediu para que não fosse embora... Me pergunto se ele faz ideia de que não tenho mais para onde ir.– seus olhos passaram a focar um ponto qualquer, como se o peso daquela confissão não lhe permitisse sustentar o meu olhar.

Apenas assenti, deixando espaço para que ele continuasse seu desabafo. Durante aquele minuto de silêncio, não pude deixar de observar a mudança em seu comportamento, o ar maduro que suas feições carregavam. Seria apenas o peso das palavras de Natsumi?

- Você não desistiu dele... – as palavras saíram sem que eu pudesse controlar.

-Onde Diabos eu fui me enfiar, Quatre... – murmurou, escondendo o rosto entre as mãos.

Tentando lhe dar algum tipo de privacidade, desviei meus olhos para o croissant esquecido sobre a mesa. Minha imaginação fértil já estava em Heero antes que eu pudesse evitar, traçando as inúmeras possibilidades que o levaram a fazer aquele pedido.

Levando em consideração a história mais recente, estava inclinado a aceitar de vez a teoria de Trowa e encarar o fato de que Heero poderia estar mesmo vendo Duo com outros olhos. Ou pelo menos próximo de.

- Você quer saber a mais nova fofoca da Família Yuy?

Franzi a sobrancelha não entendendo bem a mudança de tópico, mas assenti.

- Minha mãe deixou uma carta póstuma. – anunciou, seu tom se tornando pesado, diferente de quando citou a conversa com Heero. – Uma maldita carta de desculpas, e você nem imagina pelo que.

Duo pareceu ponderar por um momento, mas não tardou a iniciar seu monólogo. A princípio não entendi bem o motivo de sua exaltação, mas conforme tomava conhecimento do conteúdo da carta foi difícil não ter uma reação semelhante. Após alguns minutos, eu tinha a certeza de que Duo continuava a falar a respeito, mas esta compreensão vinha apenas do fato de sua boca ainda estar se mexendo, pois meus ouvidos não conseguissem captar qualquer som. Meu cérebro parecia completamente travado na ideia absurda de que Natsumi Yuy havia deixado uma carta com o conteúdo esdrúxulo que Duo havia, debochadamente, tentado reproduzir.

Enquanto parte da minha mente trabalhava para digerir aquelas informações, a outra metade já tecia teorias conspiratórias envolvendo Natsumi completamente ciente da paixão de seu filho adotivo por... Seu filho biológico.

- Quatre, você ainda está ai?

Pisquei algumas vezes, encarando os olhos violetas que pareciam ligeiramente divertidos com meu estado de inércia. Se eu estava achando difícil assimilar isso... Como teria sido para o próprio Duo ler uma coisa como aquela?

- Mas... Você tem certeza que era isso que estava escrito Duo?

- Eu li aquela merda por um dia inteiro. – respondeu, sua voz calculada, como se tentasse controlar seu temperamento. – Até pensei em guardar... Mas pensei em Heero lendo aquilo. – observei seus olhos perderem o foco, parecendo mergulhado em suas memórias. – Na hora me pareceu uma boa ideia queimar.

Não sei se foi a melancolia tão crua em seu rosto ou talvez a noção do peso que aquela descoberta poderia ter, mas pela primeira vez em muito tempo senti uma pena real do meu amigo, quase tão forte como no dia em que ele me confessou seus sentimentos. Era mais do que minha empatia natural às suas desventuras. O Duo que estava a minha frente parecia atormentado... Sofrido. E não era para menos.

De repente tudo tinha mudado. A atitude de Duo ter sumido fez todo o sentido, bem como sua inesperada decisão de tentar mais uma vez ficar ao lado de Heero.

E eu que pensava que a história daqueles dois não podia ficar mais complicada.

- "Compreendido e aceitado os seus sentimentos". – ele reproduziu o que deveria ser um dos trechos da carta, seu tom de voz era carregado de deboche. – O que mais ela poderia querer dizer com isso?

- Acho que não há outras formas de interpretar... – murmurei. Apesar de estar relutante em aceitar os fatos, não conseguia atribuir outro significado aquelas palavras. – Na verdade... Se pensarmos bem, o quebra-cabeça Heero passa a fazer sentido.

- Eu sei. – suspirou. – Acho que isso explica o incentivo que ele teve para se afastar, não é?

Concordei com um aceno, a figura do japonês ganhando um papel maior em minhas teorias daquela conspiração.

- Ele já sabe da carta?

- Bem... Comentei sobre a carta, mas não relatei o conteúdo, como poderia? – seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso, o mais honesto até então. – Ele foi muito... Compreensivo. Ainda disse que não fazia questão de ler a dele, algo que me deixou extremamente aliviado.

E esse foi o momento em que meu cérebro fundiu.

- Há uma carta para ele?

Duo assentiu e o repentino traço de humor pareceu evaporar de seu rosto.

- E essa foi a questão que não me deixou dormir. Se ela pede "desculpas" por não ter me compreendido... O que não estará escrito na carta pro Heero?

- E o que você pretende fazer?

- Acho que vou seguir o meu próprio conselho e deixar que as coisas se resolvam a seu tempo. – suspirou, parecendo satisfeito com a própria conclusão.

- Você não tem... Medo de que ele resolva ler?

- Eu agi muito mal nos últimos meses e... Ele não pareceu desistir de mim. – justificou-se, voltando a me encarar. – E além do mais, depois do que li fiquei com muito medo de... Acabar como ela. A carta é um direito dele, não poderia simplesmente tacar fogo nela como fiz com a minha... E no final, pode ser que nem exista algo comprometedor já que, aparentemente, o último desejo da Natsumi era o de que eu resolvesse o meu probleminha.

- Muito maduro... – ressaltei.

- Um homem pode sonhar, não é?

Levando em conta todos aqueles problemas... Acho que era isso que lhe restava.

Um silêncio confortável se instalou entre nós e em uma mudança drástica de pensamentos, me vi tentando imaginar Heero sofrendo alguma retaliação de sua mãe, e me deparei com a possibilidade da mente do japonês ser um território ainda mais hostil do que a do Duo jamais conseguiria ser.

De repente, me vi preocupado com Heero. Preocupado com o que talvez tenha escutado durante anos... Do que estava tentando esconder.

- Você vai... Conviver debaixo do mesmo teto que Heero como se nada fosse?

- Você se espantaria se soubesse o quão fácil é me deixar levar por ele.

- Isso não te preocupa em nada? – insisti, um pouco desconfiado com a simplicidade de sua decisão.

- Não tenho outra escolha... Preciso saber o que ela fez com ele... Se é que fez. E além do mais, -franziu as sobrancelhas ganhando um ar falsamente indignado. – não foi você quem me disse uma vez que eu tinha uma "visão muito imatura das coisas"? Pois então, aqui está Duo Maxwell Yuy versão 2.0.

Não consegui evitar um sorriso ante todo aquele altruísmo.

- Está certo então... Estarei do outro lado da sua porta, assistindo de camarote.

Ele apenas riu.

Por um momento, pensei em perguntar sobre seus sentimentos, mas não sabia como aquela pergunta seria recebida. A verdade é que não falávamos nisso desde o falecimento de Natsumi e tudo o que eu tinha em mãos eram especulações, como a que fazia agora, enquanto ele desabafava ou quando concluí que havia desistido de Heero no dia em que decidiu ficar em L2.

- Quatre... Tem mais uma coisa.

O tom sério de sua voz chamou minha atenção de imediato, e se não fosse por isso, o objeto novo em cima de nossa mesa o teria feito. Era um envelope pequeno e pelo tom amarelado do papel, deveria ser muito antigo. A parte que me era exposta trazia uma bonita caligrafia e um nome que, até ali, me era completamente desconhecido.

- O que é isso? –perguntei, não encontrando sentido na situação.

- Isso é o motivo pelo qual não quis conversar em casa... – empurrou o envelope na minha direção. – Você deve ler. Eu só peço que não conte nada a ninguém... Nem mesmo ao Trowa. Eu ainda não sei o que eu fazer com isso, e preciso de sua ajuda.

Movido pela curiosidade, peguei a carta entre as mãos virando-a no lado do destinatário, reconhecendo o nome de Natsumi Yuy em seu endereço antigo no Japão. Sentindo meu coração apertar, reconheci aquela sensação como um mau pressentimento.

- Quem é Helen Corwin? – indaguei enquanto retirava duas folhas grossas de dento do envelope.

- Se isso estiver certo... Acho que é minha mãe.


Porque eu tentei seguir seus passos
Tentei ver quão baixo
Eu poderia me aproximar do chão
Tentei fazer meu caminho valer a pena
Tentei mudar essa mentalidade.
É melhor que acredite que eu estou tentando superar isso.


Continua...


N/A²: Então... Há um tempo tentei voltar a escrever algumas coisas, mas não me animava muito, nem consegui procurar outro fandom... E, há uns dias, depois de um momento "recordar é viver", cá estou!

E foi mais fácil do que eu imaginei que seria...

Bom...*coça a cabeça* reviews? #._.#