Forever Snow White

Quando saiu da gruta, Zangado não tinha ideia em que hora do dia estava. O que podia ter certeza era de que o mundo possuía três cores: o cinza-escuro do céu, o verde-escuro dos pinheiros e o branco da neve recente. Adormecera outra vez em trabalho, e sua espinha parecia cheia de vidro moído. Estava velho, muito velho. Era o que sobrou de todos eles. O último a se ir fora Dunga, babando e sem controle sobre a bexiga, enquanto o Alzheimer destruía o pouco processo de racionalização que Deus lhe dera.

Chegou em casa (eu vou, eu vou - para casa agora eu vou), na velha choupana que gemia como uma senhora que sentia dor. Tudo estava intocado pelo o que quer que fosse exceto poeira. Voltara a ser o que sempre fora antes da princesa ter se refugiado nela e mudado a vida - se não pelo menos a higiene - dos sete anões, agora reduzidos apenas a um único. O que menos merecia viver.

Entrou, arrastando os mocassins gastos e furados, as costas urrando dentro de si, o estômago implorando comida. Foi com uma velha faca serrilhada e sem corte que cortou um salame seco e pustulento de gordura e comeu-o devagar, não se incomodando com o sabor, ou com o cheiro. Mas lembrava-se da época em que ela estivera ali, a cantar um sol-e-dó enquanto os servia, na mesa limpa de cerejeira, um ovo cozido para cada um, sardinhas fritas, torradas com manteiga, torradas com mel em seguida, e depois uma torta de maçã e passas, toda coberta de açúcar.

Olhou para o forno holandês, em desuso há mais de dez anos, e não era o som de trovões distantes que chegava aos seus ouvidos, mas sim Branca de Neve cantando. Ele não conseguia cantar afinado nem para salvar a vida - o que era bom, visto que chegava o dia em que todos os sonhos cessam -, e ficara impressionado (a contragosto, como sempre) com a voz doce e clara de Alva Neve – o nome com que fora batizada.

Ergueu-se, as costas reclamando, e dirigiu-se a um outro aposento. Nele, a luz mortiça de uma lamparina a óleo iluminava morbidamente o caixão de vidro que abrigava Alva Neve. Ao seu redor, buquês austeros se zínias estavam depositados aos montes, colhidos em momentos diferentes. Zangado aproximou-se, a touca na mão, a careca com manchas de fígado e os olhos remelentos rasos d'água. O cabelo da moça havia crescido e se esparramado para fora do colchonete, mas ela não havia envelhecido um dia sequer. Uma maçã rija e sumarenta a prendeu para sempre no verdor dos vinte anos, Zangado o sabia, pois o príncipe, que um dia cantara seu amor para ela, unira-se a sua irmã, Rosa Rubra. Quando soubera do noivado dos dois anos atrás, o infeliz camponês que lhe deixara a par dos acontecimentos reais jamais vira uma expressão tão intensa de ódio num rosto humano. Fugiu apressado, sem ouvir as palavras do anão.

- Seu desgraçado – dissera, impotente. Sentia-se à beira das lágrimas. – Seu desgraçado miserável.

Ali estava. A última fincada no caixão dela.

E agora, a contemplar a beleza perene de Alva Neve, pensou em como seus cabelos, de um negrume veludoso, chocava-se violentamente com sua tez mortalmente pálida. Pensou em como os olhos castanhos, quando abertos, refletiam o dourado do sol poente. Pensou no coração dela, que um dia a rainha achara ter comido, estava agora tão frio quanto gelo numa cisterna. E lágrimas rolaram por seu rosto, entrando em sua barba, que batia em seus joelhos. Sentia vontade de gritar uma litania esganiçada e enlouquecida, mas estava cansado e velho demais para tal, como seus ombros horrivelmente caídos faziam questão de lhe lembrar.

Pousou os dedos gordurosos no tampo de vidro, acariciando-o, acalentando-o. Não havia droga mais perniciosa que o amor, concluiu ele. Limpou o rosto com a manga do camisão de veludo cotelê. Desejou fumar seu cachimbo de barro, mas não saiu do lugar. Parecia que a qualquer momento Alva Neve poderia começar a arfar suavemente, mostrando que estava apenas dormindo a sono solto durante aqueles dez anos, mas ela continuava inerte como sempre esteve, desde que ele ajudara seus irmãos a trancafiá-la em seu caixão. Mais do que fumar, o que desejou foi um bom vinho de flor de sabugueiro; contudo, todo o vinho que tinha era aquele que virara vinagre em seus tonéis de carvalho.

Fechou a porta com cuidado, como se qualquer rangido pudesse acordar a moça enfeitiçada. Puxou um banquinho para perto dela e tirou do bolso o laçarote de fita vermelha que ela costumava usar no cabelo. Era a lembrança mais viva que tinha dos dias dourados em que pousara naquela choupana - mais viva que a própria Alva Neve deitada ao lado dele. Sem tomar consciência disso, começou a assoviar.

Eu vou, eu vou - para casa agora eu vou. Parará-timbum, parará-timbum - eu vou! Eu vou, eu vou, eu vou...

E ficou a esperar por qualquer coisa, enquanto os primeiros pingos de chuva batiam sobre o telhado.

Próximo capítulo: A Bela e a Fera.