Ele desviou os olhos rapidamente, tendo sido pego de guarda baixa pelo meu olhar firme.

Continuei observando-o com cuidado, memorizando seu rosto. Os cabelos castanhos contrastavam com a pele pálida, assim como os olhos vermelhos. Os lábios perfeitos estavam comprimidos, enquanto ele observava Carlisle.

Lentamente seus olhos voltaram a me encarar curiosamente. Após alguns segundos sua expressão suavizou e ele sorriu.

-Angelina, não é?

-Sim – respondi simplesmente.

-E foi transformada há quanto tempo?

-Poucos dias.

Olhei para Edward. Por que Alec Volturi estava falando comigo?

Ele balançou a cabeça.

-E você tem algum dom? – perguntou ele.

Finalmente eu entendi que ele só estava se dando ao trabalho de falar comigo para saber se eu seria uma ameaça, utilizada contra os Volturi.

Olhei-o desafiadoramente, deixando claro que não era uma pergunta que eu estivesse disposta a responder.

Eu não sabia qual era a importância, mas fiquei decepcionada ao pensar que ele só se deu ao trabalho de olhar para mim por questões profissionais.

Notei que além dele, Edward me encarava também. Eu não tinha que dar explicações para Edward – principalmente quando nem eu mesma sabia por que estava tão decepcionada.

Continuei encarando Alec da mesma forma e sorri satisfeita ao vê-lo desviar os olhos para Carlisle, claramente surpreso com a minha reação.

-Ela tem?

Carlisle hesitou.

-Provavelmente não.

Revirei os olhos.

Eu sabia perfeitamente bem que tinha um dom. Descobri isso quando li os pensamentos de Carlisle. Eu ainda só não sabia controlar ou do que esse dom se tratava realmente.

Percebi que minha reação tinha chamado a atenção do homem grande – Felix.

Ele sorriu. Pareceu satisfeito, como se tivesse apanhado os Cullen em uma mentira.

Revirei os olhos, sem paciência para ele.

Senti Edward sinalizando para que eu não o provocasse. Suspirei e desviei os olhos.

Como a conversa sobre Renesmee atacar ou não humanos não me interessava, senti minha atenção vagando para Alec outra vez.

Dessa vez eu o examinava com mais cuidado, cada traço, cada expressão...

Senti meu corpo formigar. Minha cabeça doeu.

Era isso!

De certa forma eu havia conseguido abrir minha mente outra vez. Eu podia sentir enquanto ela absorvia cada dom presente.

Arfei e segurei o braço de Edward.

Ele olhou para mim, entendendo o que havia acontecido.

É claro que não era um segredo que pudéssemos dividir com os Volturi. Pelo menos enquanto eles achassem que os Cullen fossem uma ameaça. Era melhor que eles continuarem pensando que eu não podia fazer nada.

Estou bem. Não se preocupe.

Com alguma dificuldade seu olhar se desviou.

Eles continuaram conversando pelo que me pareceu um bom tempo. Eu queria ir embora, mas também queria poder continuar observando Alec.

-É isso – ele disse depois de mais alguns minutos de conversa – Adeus, Cullens.

Carlisle respondeu um "adeus" educado e eles se foram.

Novamente eu senti a decepção me encharcar enquanto ele ia embora.

Baixei os olhos para o chão e voltei para casa sozinha, antes que qualquer um pudesse me perguntar qualquer coisa.

-x-

Dois anos depois.

Corri pela floresta.

Eu sentia a presença dele atrás de mim.

-Você é tão lento! – gritei, rindo.

Em resposta ouvi um rosnado.

Corri ainda mais, me divertindo com a situação.

Parei de correr. O lobo cor de areia se atirou para cima de mim, derrubando-nos no chão.

Eu ri.

-Oh, Seth! Em cima de mim não!

Ele correu para às árvores e voltou na forma humana, já vestido.

Sorrindo me ofereceu a mão.

Peguei-a e levantei, também sorrindo.

Assim que fiquei em pé ele me enlaçou pela cintura e me beijou.

Eu sei. Nossa relação não era a mais comum do mundo. Ele era um lobisomem, eu uma vampira. E por mais incrível que pareça, o cheiro dele já não era ruim.

Eu realmente gostava dele. E ele de mim.

Quando nos conhecemos, ele não tentou esconder o fato de que se sentia atraído por mim. Ele sempre me convidava para sair. Eu me virava para ele com seriedade e perguntava "Tipo o quê? Um jantar? Você seria o jantar!" e me virava para sair. Ele me agarrava pela cintura e me girava até que eu parasse em seus braços. Então aproximava o rosto do meu, fazendo com que nossos lábios quase se tocassem. Então eu me zangava e gritava que ele tinha de me soltar ou eu chamaria Emmett.

Um dia eu estava no meu quarto e olhei pela janela e lá estava ele. Sentado, com as costas apoiadas na árvore. Assim que me viu ele sorriu e levantou um papel.

Diga sim!

Revirei os olhos. Ele nunca desistia!

Corri para baixo.

-Pai! – fui para o lado de Emmett. Sim. Emmett era meu pai agora. Mas como isso foi acontecer, eu explico depois. Primeiro vamos continuar com a história do Seth. – O Seth está lá fora! Outra vez! Diz que ele tem que ir embora!

Jacob passou ao meu lado, rindo.

-Ele não vai embora.

Emmett se levantou decidido.

-Eu vou falar com ele e vou acabar com essa história de uma vez por todas!

-Obrigada!

-Não me agradeça – ele sorriu de um modo que quase me fez tentar impedi-lo de falar com Seth.

Quando ele voltou, minutos depois, exibia um sorriso triunfante.

-Pronto? – sorri.

-Sim. Ele foi embora.

-Obrigada! – sorri.

-Mas volta as oito para te apanhar. Vocês vão até a praia em La Push – nessa parte da conversa, ele abriu um sorriso cruel – E isso é um encontro.

Minha boca se abriu. Eu iria matar Emmett!

-x-

-Oi – disse eu desanimada. Usava um vestido azul rodado e uma sandália bege, sem salto. O cabelo eu havia prendido em um rabo de cavalo.

-Oi – ele sorriu e me estendeu o braço. Fomos até seu carro.

Me sentei em silencio, sem nem ao menos olhar para ele.

Seth dirigia rápido e logo chegamos.

Saímos do carro e andamos até os penhascos. A vista de lá era linda, de acordo com Seth.

E eu tive que concordar, assim que chegamos lá.

Conversamos por alguns minutos.

Seth aproximou-se devagar.

-Não. – desviei o olhar, sabendo perfeitamente bem que ele tentaria me beijar.

-Por quê? – perguntou ele, pacientemente.

Suspirei.

-Você gosta de outra pessoa? – ele perguntou.

-Não... Ou eu não sei... – respondi.

-Quem?

Senti que se eu fosse humana estaria corada.

-Alec Volturi.

-Alec? – ele me observou, incrédulo – É alguma brincadeira?

-Não... É só que... – baixei os olhos – Eu não paro de pensar nele. Desde que o vi pela primeira vez...

-Ele não é a melhor opção... – disse ele, após alguns segundos – E pelo pouco que conheço dele sei que ele nunca teria nada com uma... Cullen.

Permaneci em silencio.

-Desculpe... Eu fui rude – disse ele.

-Não. Você foi sincero. É mesmo verdade.

Ele se aproximou e segurou minha cintura, olhando-me nos olhos.

-Eu gosto de você. E vou provar, se me der uma chance.

Respirei fundo e segurei o rosto dele entre as minhas mãos.

Senti a pele quente dele contra a minha gelada. Esse era um lembrete de que nossa história nunca daria certo.

Fiz a coisa mais sensata que eu podia ter feito. Ignorei o tal lembrete. Lentamente encostei meus lábios aos dele.

Eu não me sentia completa. Mas me sentia feliz. E isso já era suficiente.

Olhei bem para Seth e sorri. A nossa história que não daria certo já tinha um ano e meio.

-Satisfeita? – perguntou ele, que tinha me perturbado, até eu deixar que ele me acompanhasse na caçada.

-Depois de um urso adulto e dois filhotes, sim.

Ele sorriu.

-Ange... Jake tem algo para comunicar ao bando. Nos vemos mais tarde.

Acenei com a cabeça e beijei-o de leve.

-Até logo.

Ele se afastou.

Voltando para casa, outras lembranças tomaram minha mente.

Emmett sempre se esforçava ao máximo possível para que eu o perdoasse pela transformação. Eu sempre me mantinha impassível as suas tentativas.

Certo dia, entrei em casa silenciosamente. Eu deveria estar caçando com Edward, mas em certo momento me cansei daquilo e decidi voltar para casa. Rosalie, Esme, Carlisle e Emmett estavam lá.

Sem ninguém notar minha presença eu ouvi-os conversando.

-Eu realmente não tive intenção. Ela não parece ser capaz de entender isso e eu não a culpo. Qualquer um no lugar dela reagiria da mesma forma, ou até mesmo de um jeito pior.

-Mas ela não é qualquer uma, Emmett – disse Rosalie – Ela é nossa filha.

-Calma, Rosalie – Carlisle alertou – Ela chegou há pouco tempo e nós sabemos que ela vai ser filha de vocês, mas ela ainda não sabe. Então não a pressione.

-Eu já a amo – disse Emmett – Como se ela realmente fosse minha filha, sabe? É horrível saber que ela não gosta de mim.

Eles ficaram em silencio.

Sem respirar, me esgueirei para fora de casa novamente.

-x-

Eu tinha deixado Emmett se aproximar e fazia de tudo para que ele entendesse que eu já não o culpava.

Certo dia estava em meu quarto, quando ele entrou.

-Angelina?

-Sim?

-Quer caçar?

-Claro pai – sorri. E depois congelei.

Em minha mente eu me referia a ele como pai, desde que soube que assim seria no futuro. Eu havia me esquecido que não o chamava assim fora da minha cabeça.

Ele pareceu ter entrado em êxtase. Me puxou para si e girou comigo pelo quarto.

Ri aliviada pela reação dele.

Cheguei em casa.

-Olá – eu sorri e fui para sala de estar, onde todos estavam.

Reparei na ausência de Jacob, mas sabia que ele estava com o bando.

Todos estavam extremamente sérios.

Meu sorriso desapareceu.

-O que aconteceu? – perguntei.

Edward me estendeu um pedaço de pergaminho amassado. A letra era muito bonita, fina, inclinada, suave.

Caro Carlisle,

Tenho estado curioso desde que Alec chegou ao meu castelo dois anos atrás com a notícia de que vocês encontraram um novo vampiro para seu clã. Eu ficaria honrado se me permitissem conhecê-la. Portanto, estão todos convidados para uma visita à Volterra. Seria de grande indelicadeza recusar o meu convite.

Espero vê-lo logo juntamente com todo seu clã.

Meus cumprimentos,

Aro Volturi.

Olhei para Edward, pedindo por explicações.

-Eles saíram daqui desconfiados de que estávamos escondendo seu dom. Aro agora quer vê-la pessoalmente, pois assim pode tocar a mão de um de nós e saber o que você realmente pode fazer.

N/a: Em minha defesa, sempre amei o Seth.