Sexta-feira, Dorcas se encontrava jogada em meu sofá com um pequenino pote de Kasëkuchen com framboesas, enquanto assistia um programa que envolvia seis indivíduos em uma sala escura com insetos nojentos. Algo aparentemente deveras divertido, já que era possível ouvir as risadas de Dorcas - e os gritos dos participantes - de meu quarto.
Eu havia dito para Doe que deveríamos começar a arrumar as coisas antes que Lene chegasse, assim não ficaríamos sufocadas caso ela se atrasasse - o que é bem comum - e Emmeline chegasse logo em seguida. Dorcas apenas gemera preguiçosa e dissera que "tinha fé" de que Lene certamente não demoraria para vir. A tarde ia embora, ainda que a temperatura não mudasse de forma dramática resolvi fechar as janelas. O dia tinha sido nublado, mas não fazia muito frio e havia previsão para que chovesse durante a noite.
Semana passada, Dorcas e eu estávamos fazendo compras quando Emmeline nos ligou chorosa anunciando que Benjamin finalmente a pedira em casamento. Dorcas não me surpreendeu ao surtar completamente e exigir de Emmeline uma comemoração. Emme apenas pedira desculpas educadamente e dissera que Benjy havia comprado passagens para Bath, onde os dois anunciariam juntos aos pais dela o noivado. No entanto, ela voltaria para o final de semana, quando então, poderíamos comemorar juntas.
Pobre Emmeline nem pode por propriamente os pés para fora do avião, Dorcas já ligava para ela antes mesmo do avião pousar e fê-la prometer que estaria aqui hoje para detalhes. "Detalhes" é uma palavra de extrema importância se seu nome é Dorcas Meadowes. Lene é precisamente seu oposto, ela só quer receber a informação – não lhe importa que seja em duas palavras – e muitos rodeios para chegar ao ponto principal é apenas uma longa e chata tortura. Já minha pequenina amiga gosta de deliciar o momento, e cada minúscula ação tem uma importância grandiosa.
O epítome do pormenor: Dorcas.
- Você já tomou seu remédio, senhorita Meadowes? – Perguntei.
Ela fez uma careta.
- Eu preciso mesmo? – Doe choramingou.
- Sim. Precisa. – Falei ajeitando o pequeno arranjo de flores em minha mesa do corredor.
Doe levantou-se em seu pequenino baby-doll cor de rosa e seguiu para a cozinha em irritação. Um minuto depois eu ouvia o grunhido:
- Que coisa mais nojenta!
Eu sentei no sofá e ela apareceu com uma careta.
- Eu queria saber onde está o sabor uva! – Ela disse olhando a caixa – Toda vez que eu tomo sinto gosto de vomito.
Eu ri.
A campainha tocou e corri para a porta. Ao abri-la a primeira coisa que vi foi Marlene encostada à parede do corredor recuperando o fôlego. Ela estava uma bagunça: tinha duas sacolas em uma das mãos, a bolsa aberta, o celular na outra mão, o cadarço das ankle boots que ela usava estava desamarrado em um dos lados e ela tentava – sem sucesso – abaixar o vestido curto que insistia em subir com sua cabeleira negra cobrindo maior parte do rosto.
Eu a encarei chocada.
- Lene? O que aconteceu?
Ela suspirou irritada.
- Black. Black aconteceu! Aquele estúpido arrogante.
- Não... Não compreendo. – Eu balbuciei confusa.
- Tínhamos que nos encontrar no caminho para seu prédio. – Ela reclamou e eu não sabia como ela tinha fôlego para tal.
- O que ele fez? – Eu a ajudei a entrar e Dorcas veio curiosa – não que isso seja surpresa alguma – ver o que estava acontecendo.
Foi quando ela ficou mais vermelha do que já estava, e tirou os cabelos do rosto com a mão, levando-os para trás.
- Marlene McKinnon.
Ela sentou-se no banquinho Louis XVI de seda do hall de entrada para tirar os sapatos e os jogou longe, irritada.
- Certo, talvez eu tenha um pouco de culpa, mas não se desafia uma mulher que está em plena crise menstrual, okay?
- O que você fez? – Eu perguntei louca para entender Lene.
- Eu estava saindo da loja de bolos, você sabe, para pegar o que encomendamos para Emme hoje e estava aquele trânsito infernal. Eu normalmente nem prestaria atenção se não fosse Black me chamar daquele carro malditamente brilhante que ele tem. Quero dizer, até o carro dele é sexy!
Pude sentir as orelhinhas de Dorcas ligarem-se com o máximo de atenção ao ouvir o nome "Black". Também, quem pode culpá-la? Todas sabemos que Lene é perdidamente caída por ele, infernos, Lene sabe que é perdidamente caída por ele. O que não muda o fato de ser um estúpido arrogante.
- Eu lhe mostrei o dedo como faço quando o vejo e continuei andando para vir até aqui. Em seguida ele buzinou ainda preso no congestionamento e ofereceu-me uma carona até sua casa. Já que estávamos indo "para o mesmo lugar". Aliás, não entendi até agora como ele soube que eu estava vindo. Digo, eu poderia estar indo ver Hesty, a casa dela é por aqui afinal.
Eu pigarreei e disse:
- Ele chutou, Lene. É óbvio que ele não tinha certeza.
A verdade é que ontem à tarde durante mais uma de minhas discussões como James nas escadas, eu o ameacei de morte caso ele fizesse muito barulho hoje – suas festas são ensurdecedoras – já que comemoraremos o noivado de Emmeline. Então é natural que Black saiba, embora tenha dito que não têm conversas melosas, os dois fofocam mais que duas velhinhas.
- Okay, isso não é importante. O fato é que eu o mandei morrer e ele simplesmente fingiu que não havia ouvido e me chamou novamente. E eu tenho plena certeza de que ele ouviu, eu gritei à plenos pulmões. De qualquer forma eu ri e disse que provavelmente chegaria primeiro à sua casa do jeito que o trânsito estava. O maldito estacionou o carro, respondeu que eu tinha razão e iria à pé comigo. Eu entrei em pânico! Você sabe o que aconteceria se eu me visse em suas escadas com Black? Sozinha? Eu não sei se teria autocontrole suficiente! O que eu deveria fazer?
Para uma pessoa que odeia enrolações, Lene sabe ser minuciosa quando quer, em geral quando o assunto é Black. Eu olhei para Dorcas sem saber o que dizer.
- E então? – Doe perguntou.
- Falei que por nada no mundo seria vista com ele, ainda mais em público. E se ele se aproximasse eu correria.
Minha boca se abriu em assombro.
- Está brincando.
- Tenho cara de quem está brincando, Lily? – Ela perguntou massageando os pés.
- E depois? – Dorcas quis saber impaciente.
- Black disse que eu não conseguiria correr um minuto com o meu par de sapatos. Obviamente ele não sabe do poder de um Nicholas Kirkwood. – Ela sacudiu as mãos em ênfase.
- E também não sabe nada sobre mulheres com hormônios em fúria. – Dorcas riu.
- Foi então que corri.
Eu e Dorcas a encaramos chocadas. Lene deu de ombros.
- E ele não a alcançou? – Perguntei incrédula.
- Bem... Ele teria me alcançado. Aquele maldito corpo bem-esculpido não é só para enfeite.
- Ou diversão – Dorcas murmurou maliciosa.
Lene levantou revirando os olhos e seguindo para minha cozinha.
- Ou diversão. Tanto faz. – Ela disse após beber um copo cheio d'água e servindo-se novamente – Daniel mora aqui perto e quando lembrei liguei para ele e o mandei parar Black.
- Você mandou seu assistente o parar? – Eu a encarei chocada.
- E porque não? – Ela disse agora mais feliz e puxando os cabelos em um rabo-de-cavalo.
- Ele é seu assistente.
Lene apontou para mim.
- Ei – Ela estalou a língua com um sorriso – Para isso que ele serve certo?
Argumentar com Lene - ou James - é totalmente inútil então só fiz dar de ombros.
- E onde está o bolo de Emme?
Marlene, que seguia para meu quarto – provavelmente para tomar um banho – congelou na porta.
Péssimo sinal.
- Lene? Você pegou o bolo, não pegou?
Ela se virou lentamente para nós.
- Oh meu Deus, eu não acredito Marlene! – Dorcas exclamou.
- Eu peguei! – Ela justificou como se fosse impensável ter esquecido – Acontece que após correr como uma louca mental ele não está tão bonito como era.
Dorcas correu até o hall de entrada onde Lene havia deixado as sacolas perto do banquinho.
- Marlene! – Eu exclamei chateada.
- Desculpe, Lily! – Ela pediu – Você sabe que eu não queria estragar o bolo.
Doe gritou do corredor:
- "Não está tão bonito?" Você está sendo gentil, certo? Ele virou uma pasta.
Eu olhei o relógio.
- Certo, ainda temos tempo antes de Emme chegar.
- Tempo? Onde vamos encontrar um bolo inteiro a essa hora? A maioria das lojas já fechou por causa do feriado! – Doe disse.
Respirei fundo.
- Tudo bem, eu faço um. – A ideia me veio de repente.
- Você faz? Eu ajudo. – Lene disse.
- Não Lene, fique tranquila. – Eu lhe sorri – Tome um banho que eu não demoro muito para fazer.
- Você não pode fazer na sua cozinha. – Doe falou.
- Porque não?
- E se Emmeline chegar? Acabou a surpresa.
Eu esfreguei as têmporas tentando pensar em algo. Por mais que eu me esforçasse a única palavra que vinha em minha mente era: Potter.
- Eu vou fazer na cozinha do Potter.
Lene que tirava o vestido suado e Doe me olharam pasmas.
- Perdão? – Lene disse.
- É a melhor coisa que posso fazer! Afinal a culpa é do amigo dele mesmo.
- Você é quem sabe, só não venha me culpar após o sexo selvagem na bancada da cozinha dele. – Marlene deu de ombros.
Porque as pessoas continuam a relacionar James e sexo selvagem?
- Pelos céus, porque eu faria isso?
- Isso o que? – Lene perguntou.
- Sexo na bancada ou culpar Lene? – Doe sorriu.
Senti meu rosto corar como uma adolescente inocente.
- Os dois!
Dorcas olhou para Lene e disse:
- Achei que o motivo de sexo selvagem fosse um tanto óbvio. – Então ela se virou para mim – Quero dizer, ele é um bastardo gostoso.
- E você tem toda essa tensão sexual quando está perto dele. – Lene completou.
- Não que eu possa culpá-la, lógico. – Dorcas pôs uma das mãos no peito – Se tem uma coisa que James Potter definitivamente é, é tentador como o pecado.
Lene concordou, agora apenas nas pequenas peças de lingerie azul-claros.
- Não vou perder tempo discutindo algo de tamanha asneira! – Eu corri para a cozinha agarrando os ingredientes necessários e colocando-os em uma sacola – Doe, vá arrumando as coisas enquanto Lene toma banho.
- E se Emmeline chegar? O que diremos? – Lene perguntou.
- Não sei... – Eu disse já na porta – Diga que uma de minhas clientes ligou dizendo que a cadela entrou em trabalho de parto. Sei lá!
- Oh, que genial. – Foi a vez de Dorcas massagear as têmporas. – Certo, penso em algo. Vá logo.
Fechei a porta atrás de mim para agredir a porta de James com socos.
- Ei, ei, ei. – Eu o ouvi dizer enquanto corria para então abrir a porta – Qual é Evans? Quer pôr a porta a baixo?
Ele estava seminu como sempre. Com uma calça de dormir que arrastava as barras no chão. James tem essa mania, ele simplesmente não anda inteiramente vestido quando está em casa. Ou em nosso corredor. Eu preciso dar ênfase de que o corredor é nosso? Perdi a conta de quantas vezes eu havia pedido ao James para colocar uma maldita blusa. Não que minhas amigas reclamem, oh não. Elas em geral até desejam que ele esqueça de por a peça de baixo também. Eu entrei em seu apartamento e segui para a cozinha.
- Eu não tenho tempo, muito menos paciência para falar com você, Potter.
Ele me seguiu de perto.
- Surpresa para você, essa é a minha casa, Evans. – Ele cruzou os braços.
- Surpresa para você, Potter, eu não dou a mínima. – Respondi checando os armários pelos ingredientes corretos.
- Teve outro dia de cão? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Oh, foi o sexo frustrado com Ladett.
- Infernos. – Eu reclamei pegando uma vasilha, e começando a pôr os ingredientes – Ele e eu não temos absolutamente nada, James!
Foi quando eu congelei e James também.
A verdade é que desde o dia em que usamos os nossos primeiros nomes um com o outro, eu comecei a querer chamá-lo assim. Digo, não querer, é mais automático do que qualquer outra coisa. Perceba, o negócio é que eu tenho tentado me policiar, mas as vezes o nome dele vem na ponta da língua.
Eu liguei a batedeira para fugir do silêncio constrangedor. James, digo Potter, reclamou dizendo algo. Eu dei de ombros, pois não o ouvia mesmo e ele saiu da cozinha com um revirar de olhos de irritação.
Minutos mais tarde eu misturava o leite com a massa, mas em minha pressa, tentava também limpar a farinha de trigo que havia derrubado no chão. Eu invadi a casa dele, mas também não iria deixar a cozinha do cara suja, não é?
James, entrou na cozinha, cruzou os braços e se encostou no balcão claro. Ele olhou curioso para mim e disse alguma coisa que não captei por estar lembrando do que Lene disse.
Sexo selvagem na bancada da cozinha.
Quero dizer, ele tem os ombros tão largos. E fortes. E parece ser do tipo que beija de uma maneira enlouquecedora enquanto-
Oh meu Deus.
- Evans! – Ele chamou.
- O que é? – Falei grossa.
- Você quer ajuda?
Parei por um instante antes de responder:
- Está de brincadeira, não está?
- Está louca? Faço o que for preciso para fazer você voltar logo para sua casa. – Ele disse se aproximando do balcão para espiar o conteúdo na vasilha.
- Certo, vou ali na lavanderia pegar um pano para limpar isso. Acrescente o leite que separei e misture a massa. – Falei com um suspiro entregando-lhe a colher de pau.
Ele assentiu e eu fui para os fundos da cozinha. É estranho que apesar de não sermos amigos de forma alguma, conheço a casa de James como conheço a minha. Certo, não só porque elas tem uma planta parecida, mas porque, por mais curioso que pareça, já estive aqui mais vezes do que posso lembrar. E não é como se Potter me convidasse para entrar, só que de uma forma meio bizarra eu sempre acabo aqui dentro. Ou James dentro de minha casa.
Eu parei um momento para pensar sobre isso. Interagir diariamente com Potter era praticamente certo. Sempre nos encontrávamos em algum momento do dia. E apesar desses momentos serem cheios de sarcasmo e respostas mal-educadas… era estranhamente confortável.
Não demorei mais que alguns segundos para achar o pano e quando virei de volta para a cozinha vi James largando a colher de pau no balcão e pegando a batedeira.
- James! – Eu corri – Não faç-
Ele ligou, e o leite que não havia sido misturado ainda, praticamente voou pela cozinha molhando boa parte do chão e bem... Molhando James.
Potter tratou de desligar rapidamente o aparelho.
Eu o olhei pasma ainda com a mão esticada, não que isso fosse impedi-lo de qualquer forma. Irritada, eu corri até ele.
- O que deu em vo-
Minha reclamação foi interrompida quando gritei ao escorregar no piso molhado caindo para trás.
- Lily! – James se lançou para mim tentando agarrar minha mão.
O que não resultou em nada produtivo, ele apenas escorregou também.
- Ouch! – Eu gemi segurando o meu cotovelo que havia batido com força no chão.
- Ei, você está bem? – Potter perguntou começando a se levantar.
- Pareço bem? Tenho leite nas roupas e no cabelo! Que ideia de gênio usar a batedeira, James! – Eu reclamei começando a me sentar.
James, irritado, impediu-me inclinando-se contra mim no chão.
- Você invade minha casa e ainda vem reclamar? Sinto muito Evans não sou cozinheiro profissional.
Eu abri a boca para responder quando a porta da cozinha se abriu e Sirius Black nos encarou curioso. Minha boca permaneceu aberta em choque.
- Oh, foi mal aí, Prongs. – Ele sorriu – Eu vou para o meu quarto tomar um banho. Aliás, o balcão é mais confortável que o chão, você sabe.
Saindo de meu estado de estupor, eu rosnei:
- Deus, saia de cima de mim, Potter! Veja só o que seu amigo acéfalo está pensando! Tal coisa seria a última que eu faria com você.
James deu um sorriso e começou a se levantar.
- Bem, ainda está na lista.
Corei e bati-lhe com o pano que eu havia pego, como uma criança sem resposta. A verdade é que pela primeira vez na vida, eu não tinha uma resposta. Digo, uma que não fosse completa mentira.
Dez minutos depois, eu tinha conseguido salvar a massa e limpar parte da cozinha. O balcão ainda estava uma confusão, mas pelo menos James e eu andávamos sem pisar em leite. Eu tinha acabado de colocar o bolo no forno, quando James agarrou minha mão.
- Venha comigo, ruiva.
Como uma tonta – e paralisada com a mão de James em meu pulso, quero dizer, não é como se tivéssemos muito contato físico entende? – eu o segui pela sala quando dei por mim e perguntei:
- Ei, o que pensa que está fazendo?
- Levando você para meu quarto, o que mais, Evans? – Ele respondeu grosso.
- Q-quarto? – Eu balbuciei parando firme.
Sendo sincera, não é muito fácil raciocinar quando Potter me toca. Por isso eu dificilmente o deixo fazê-lo.
- Esse cheiro de leite em sua roupa está me deixando enjoado. – Ele tentou me puxar.
Eu não entendi.
- Perdão?
Em um movimento brusco, Potter me colocou nos ombros.
- Você ficou louco? - Recuperei a capacidade de falar e esperneei - Ponha-me no chão!
- Não, até eu colocar você para tomar banho, Evans. Acha mesmo que vai voltar para o seu apartamento assim? Emmeline entenderia logo.
- E por acaso que roupa vou usar, Sherlock?
- É só mandar uma mensagem para a sua amiga baixinha, aquela que parece uma fada e ela lhe separa roupas limpas. Eu vou buscá-las enquanto Marlene distrai Emmeline na sala ou algo assim. Francamente, achei que fosse mais inteligente, Evans.
- Por favor, Potter, se formos falar de inteligência eu ganharei de você sem precisar suar.
- Claro, claro. Fala que é inteligente, mas voltaria para sua casa cheirando a leite. – Ele disse abrindo a porta de seu quarto comigo ainda nos ombros.
- Ei, espere um momento. Como você sabe que Lene e Doe estão em minha casa?
- Acredite, não é preciso ter super audição para ouvi-las no corredor.
Potter colocou-me em pé próximo a porta de seu banheiro e eu o olhei desafiadora.
- Eu me recuso a tomar banho na sua casa, Potter!
- E de quê valeria a inconveniência de usar minha cozinha se você não vai surpreender Emmeline? Eu não tinha ideia que gostava tanto de mim assim, ruiva.
- Deixe-me lembrá-lo de que eu estaria limpíssima se você não tivesse feito o favor de cometer a estupidez do ano.
James assustou-me pondo as duas mãos nas bordas da porta de seu banheiro forçando-me a me pressionar contra ela.
- O fato, Evans, é que você já veio e já me incomodou. Ou seja, faça isso direito. Tome seu banho aqui e eu vou buscar uma muda de roupas para você. A não ser que prefira usar as minhas, claro.
- Nem em seus sonhos.
- Oh, acho engraçado que mesmo quando acuada, você continua atacando. - Ele falou divertido.
- Posso parecer inofensiva à seus olhos, Potter, mas acredite eu sou bem perigosa. Afinal, preciso apenas de uma joelhada bem dada para deixá-lo de joelhos.
Ele riu.
- Seja uma boa menina e vá tomar banho.
- E se eu me recusar? - Cruzei os braços.
James se inclinou e eu tentei me fundir com a porta para evitar qualquer tipo de contato físico.
- Só posso dizer que será um prazer ajudá-la a tirar as roupas. - Ele murmurou com um sorriso sacana.
- Você não se atreveria. - Eu disse sem ar.
- Teste-me se quiser. Mas, oh, eu sou tão perigoso quanto pareço, Evans.
Eu o encarei em choque e ele abriu a porta atrás de mim fazendo com que eu me desequilibrasse um pouco. Já dentro de seu banheiro, ele fechou a porta atrás de si e cruzou os braços. Arfei incrédula.
- Eu não vou tirar a roupa com você aqui, Potter.
- Parte meu coração, Evans. - Ele zombou.
- Olhe para minha cara de quem liga. - Eu zombei de volta.
James revirou os olhos e apontou para o box fosco.
- Tire as roupas lá dentro, do contrário, eu não me importarei de todo em me juntar a você no banho.
- Tenho pena de suas fantasias impossíveis.
James riu e inclinou-se provocando-me.
- Ora, eu adoraria esfregar suas costas ruiva.
Sorri marota decidida a provocá-lo também.
- Acredite, Potter, se eu entrasse debaixo do chuveiro com algum homem, a última coisa que eu o deixaria fazer seria esfregar minhas costas.
Não é só você que tem tal dom, Potter.
Ele pareceu surpreso com minha resposta por alguns segundos e eu aproveitei para entrar no box.
Já dentro, procurei algo que pudesse servir de trava para a porta. Não que eu acreditasse que Jam- POTTER, entraria no box comigo ou invadiria minha privacidade, mas o medo irracional do que eu poderia ser capaz de fazer com ele aqui dentro realmente estava tomando conta de mim.
O que está acontecendo comigo?
Claro que não havia nada que pudesse travar a porta do box. Respirei fundo e tirei a camiseta e o short o mas rápido que pude para depois jogá-los por cima do vidro para James.
- Satisfeito? - Perguntei.
- Desapontado, na verdade. Estou esperando sua lingerie. - Ele disse.
- Você é um asno, Potter.
James riu e saiu do banheiro trancando a porta. Não vi outra alternativa senão tomar banho.
Dez minutos depois, eu encarava meu reflexo enrolado em uma toalha branca felpuda, com os cabelos molhados. Após usar os produtos de James eu sentia o cheiro dele o tempo todo. Penteei com raiva os cabelos amaldiçoando o momento em que eu dera à James a massa para misturar.
Logo, bati na porta esperando que Potter a abrisse logo. Quando não houve resposta, eu tentei a maçaneta e para minha surpresa, a porta estava destrancada. O quarto de James não havia mudado muito, a diferença era que em vez de duas ou três peças de roupas espalhadas no chão, elas estavam agora juntas em um canto. Sua cama continuava desarrumada e tinha vários livros espalhados pelo cômodo.
Rudyard saiu de seu esconderijo entre os lençóis e miou para mim. Ele já não estava mais tão magro e parecia muito mais saudável. O pelo estava meio falho, mas eu o mediquei novamente ontem então era normal. Sorri e me aproximei para acariciá-lo.
- Você me parece bem feliz agora, huh?
O gato ronronou.
- Talvez fosse mais feliz ainda com um nome decente. - Eu ri - Quem nomeia um animal de Rudyard?
- Qual é o problema com o nome dele?
Dei um pulo ao ouvir a voz de James atrás de mim. Meu coração quase saltou para fora e pus uma das mãos no peito.
- Meu Deus, não faça isso, Potter.
- É um ótimo nome. Eu leio Kipling para ele todas as noites. Além do mais posso chamá-lo de Rudy.
A imagem de James debaixo das cobertas, os cabelos perpetuamente bagunçados, os óculos no rosto, lendo Kipling para um filhote de gato, me veio a mente, e consegui imaginar as respostas que Doe e Lene dariam quando eu lhes contasse isso:
Doe: espere, deixe eu baixar a calcinha.
Lene: meus ovários explodiram.
Ele se aproximou - agora cheiroso, imagino que deva ter tomado banho no banheiro de hóspedes - ainda apenas em uma outra calça de pijama e coçou a cabeça do gato. Eu tive que me estapear mentalmente para deixar a imagem de lado.
- Aqui. Use isso. - Ele me estendeu algumas roupas.
Apertei o nó da toalha com uma das mãos e apontei para as roupas em suas mãos.
- Isso não é meu.
Ele revirou os olhos.
- Sua amiga baixinha não pode vir, ela esqueceu o presente de Emmeline em casa e foi buscá-lo. Marlene foi até a casa de Emmeline com o objetivo de segurá-la por mais um tempo.
- Perdão? - Eu o encarei incrédula. - E como você sabe disso?
Ele entregou-me uma nota com a escrita linda de Dorcas.
- Estava na sua porta.
Agarrei o papel sem acreditar.
- Você pode vestir isso - Ele estendeu-me mais uma vez as roupas - Ou andar nua. Deixo você escolher.
- Tenho sempre a opção de ficar com a toalha.
- Essa não é uma opção.
- Quem disse? - Arqueei uma sobrancelha.
- O dono da casa.
- Bom, "dono da casa" eu penso que prefiro esperar assim. - Cruzei os braços.
- E eu penso que não preciso de mais que um puxão para arrancar sua toalha.
- Oh não, se acredita que vou ceder às suas ameaças todas às vezes está enganado!
Ele riu.
- Estou sendo cavalheiro, Evans. Minhas roupas, ou você pode andar nua por aí e fazer da vida de Sirius um paraíso na terra.
- Black ainda está aqui?
- Novidade para você, ele mora aqui. No quarto ao lado para ser mais exato.
É claro que eu sabia que Sirius morava aqui. Digo, mais ou menos. Ele tem alternado bastante no ultimo ano enquanto reforma a casa em Grimmauld.
Eu olhei nervosa para a porta que jazia encostada apenas.
- Você pode impedi-lo de entrar!
- Porque eu faria isso? - James disse preguiçoso coçando o queixo sabendo que estava vencendo a batalha, e oh-meu-Deus, eu odeio perder.
- Não pode estar falando sério. Tenho mesmo que usar suas roupas?
- Ei, estou lhe dando a chance de realizar sua maior fantasia, Evans. Seja grata. - Ele riu.
Meu rosto corou.
- Francamente - Eu arranquei as roupas de sua mão - Está mais para pesadelo.
- Meu pesadelo você diz. - James disse percorrendo meu corpo com um olhar.
- Você já pode ir. - Frisei segurando a toalha com mais força.
- Está com vergonha? - Ele sorriu maroto - Eu não me preocuparia, afinal eu já a vi de toalha.
- Ohm Potter, pelo amor de Deus. - Revirei os olhos - Nem me lembre.
- Devo ajudá-la com as roupas? - Ele arqueou uma das sobrancelhas.
- Nem se eu tivesse que usar os dentes para abrir os botões.
- Eu usaria os meus com o maior prazer, Evans.
- Se você não sair agora não sobrará dente algum para usar, Potter. Fora. - Eu rosnei.
- Ok, ok. Eu aconselho que se vista rápido, seu bolo ainda está no forno. - James disse com um sorriso de vitória fechando a porta atrás de si.
Oh, merda.
Eu larguei a toalha - que caiu no chão - e coloquei depressa a cueca box de algodão de James. Ela ficava baixa demais, entretanto a camisa de botões que ele havia me dado cobria o que a cueca deixava aparecer. A cueca não era dessas que são apertadinhas, e sim um modelo frouxo que mais parecia um tipo de short - bem, em mim parecia um tipo de short em definitivo. Irritei-me com os botões da camisa, e pensei que James escolhera essa só para causar-me mais raiva. A tarefa de abotoá-la tornou-se mais difícil quando lembrei de James e sua oferta de usar os dentes para abrir os botões. Ei, eu sou de carne e osso, é impossível não se sentir afetada depois de um comentário desses.
Com a camisa fechada, abri a porta correndo até a cozinha. Preciso comentar que tive que segurar a parte de baixo de minha roupa para não cair. Dei uma olhada no bolo, e suspirei em agradecimento por ainda estar à tempo de diminuir a temperatura. Eu fechava o forno quando James entrou na cozinha.
Ele olhou para as roupas que eu vestia com curiosidade e pude sentir algum tipo de satisfação em sua análise.
- Ops - Ele murmurou maroto tocando minha/sua camisa com o indicador - Parece que alguém precisa de ajuda com os botões.
É de conhecimento universal que minha primeira reação, em geral, seria afastar sua mão com um tapa. Não sei, entretanto, o que tem causando certa disfunção em meu cérebro de uns dias para cá, mas meu primeiro movimento foi descer o olhar para onde James tocava - um dos botões da camisa - e encarar confusa.
Notei então que, em minha pressa para checar o bolo, eu abotoara os três últimos botões na ordem errada. Deixando sobrar um, e causando uma certa confusão com o outro.
Só então que afastei a mão de James.
Estou ficando perigosamente lenta.
- Não precisa ser grossa Evans - Ele disse dando de ombros - Eu só estava tentando ajudar.
- Eu sei que tipo de ajuda você gostaria de dar. - Falei sem encará-lo concentrando-me ao máximo para acertar os botões dessa vez.
James deixou a cozinha e eu me encostei no balcão sem saber o que fazer. Não é exatamente interessante ficar aqui encarando o forno enquanto espero o bolo assar. Automaticamente minha mão deslizou para o costumeiro local do meu celular no bolso de trás de meu short. Alas, eu não estava usando meu short.
Lembrei que o pequeno aparelho ainda devia estar dentro do short jeans e depressa, corri até James - que encontrei na sala - agarrando seu braço para perguntar-lhe:
- James, você tirou o meu celular de meu bolso antes de por na máquina de lavar?
Nesse momento, vi o maldito Potter com meu celular na mão esquerda. E ele lia minhas mensagens que chegavam na tela travada do celular.
- Potter, seu parvo! Devolva meu celular! - Eu estiquei a mão para tomar dele o aparelho.
Por natureza, James desviou a mão impedindo-me de alcançá-lo. Ele é James Potter afinal, é quase sua obrigação ser um incômodo.
- Ei. - Eu o olhei revoltada
Ele riu.
- Uma mensagem de Ladett acabou de chegar.
- Potter, isso não interessa a você. Devolva!
- Oh, mas isso é definitivamente de meu interesse. - James riu novamente.
Fiquei nas pontas dos pés inclinando-me ao máximo para pegar o celular, mas James com seu braço direito conseguia sempre deixá-lo fora de alcance.
- Potter!
Era claro que ele estava se divertindo muito com a situação toda. Eu aproveitei quando ele se virou de costas para mim curvando-se para rir, e pulei em suas costas circundando sua cintura com minhas pernas e esticando o braço para o celular. James apenas riu mais, e deixou o aparelho fora de alcance novamente. Ele apertou uns botões e a mensagem de Hugh se abriu na tela.
Tapei seus olhos com a mão direita para impedi-lo de ler, e ele, que mesmo comigo em suas costas, ainda estava em pé - aparentemente ele é mais forte do que eu imaginava, não é como seu eu fosse leve ou algo assim - deu dois passos para a frente às cegas e bateu com a perna na mesinha da sala.
James soltou um pequeno e curto gemido de dor abaixando-se parcialmente para esfregar a parte machucada e eu ri alto ainda com a mão tapando sua visão. Ele logo riu também e quando eu estiquei novamente o braço para pegar o celular, a porta da frente se abriu e uma mulher entrou.
Ela nos encarou chocada, sem nem mesmo fechar a porta atrás de si. Devo admitir que ela era muito bonita, tinha cabelos tão negros quanto os de Marlene que caiam em seus ombros perfeitamente arrumados, e olhos tão azuis que doíam.
Em meu espanto, James aproveitou-se da situação - não que eu ache que ele tenha notado a intrusa que tem sua chave, já que minha mão estava sobre seus olhos - e virou-me deitando-me no tapete da sala e ficando por cima. Reagindo depressa, espalmei uma das mãos em seu peito para impedi-lo de se aproximar demais, ele sorria divertido como uma criança.
A maldita sombra da covinha aparecendo. Enfeitiçando.
Sua pele estava quente e macia debaixo de meus dedos. Logo, eu havia esquecido da mulher e deslizava devagar minha mão para seu ombro junto à curva do pescoço. James olhou para meus lábios e eu perdi o ar.
Oh meu Deus. Eu queria beijar James Potter.
Eu nunca havia ouvido meu coração batendo tão alto. James entreabriu os lábios e meu olhar desceu para sua boca. Seu rosto aproximou-se mais um pouco quando ouvimos um pigarro.
James levantou o olhar para a tal mulher, como se houvesse percebido neste exato instante que ela estava ali. Ele se inclinou de volta para sentar no tapete onde estávamos trazendo-me - um dos braços circundando minha cintura - com ele e pressionou-me levemente contra seu peito. Eu - estranhamente - não me incomodei, minha mão continuava em sua curva do pescoço e apenas virei a cabeça para encarar a mulher.
Ela arqueou uma sobrancelha e falou:
- Eu vim para parabenizá-lo pelo sucesso do segundo livro da série e entregar-lhe as informações sobre o prazo para o novo e alguns detalhes. Não sabia que estaria ocupado. Atrapalho?
Sinceramente, eu acreditei que James daria uma de suas respostas cretinas como: "De certo que não, pode se juntar à nós se quiser" ou "Eu já terminei aqui, sou todo seu". Por fim, qualquer coisa que indicasse o quão escroto ele é.
Por isso minha surpresa foi tremenda quando ele apenas disse:
- De todo. Por favor, ligue da próxima vez que vier. Eu quero lembrá-la que Sirius mora comigo e, entrando sem ser anunciada pode causar desconforto nele. O combinado era que a chave seja usada apenas para emergências.
Ela teve a decência de corar.
- Nadine, você pode esperar no escritório. - James falou.
Nadine - ou seja lá quem ela for - assentiu e seguiu apartamento a dentro.
Eu tenho pleno conhecimento que James traz mulheres para cá - não tantas como eu imaginei de início, admito, mas penso que a razão é que talvez seja mais fácil se livrar de uma quando ela não dorme na sua casa - mas não achei que ver uma fazendo seu caminho sem problema algum em seu apartamento fosse me incomodar algum dia.
Certo, é um incomodo insignificante. Quase inexistente.
Bem, aí é que está. Quase.
De forma surpreendente tal incomodo existe em mim.
Gemi confusa.
James levantou-se e ajudou-me a fazer o mesmo. Ele entregou-me o celular com um sorriso.
- Você é durona, Evans.
Eu ri lembrando do momento que ele bateu contra a pequena mesa.
- Você é fraco demais, Potter.
- Eu não sei se você notou, mas eu estava ganhando.
Caminhamos em direção ao escritório.
- Só porque sua amiga chegou. Senão eu teria pego o celular com toda certeza. - Cobri a boca com uma as mãos enquanto bocejava.
- Vá tirar um cochilo no meu quarto. - Ele esfregou rapidamente o topo de minha cabeça como se eu fosse um cachorro - Do jeito que o transito está, sua amiga vai demorar um pouco para chegar.
- Não sou um cachorro, Potter. - Reclamei.
Ele se afastou seguindo para o escritório.
- Tem razão, parecia mais um macaquinho quando me atacou. - James riu.
Corei até as pontas dos dedos.
- E você um potro desengonçado!
- Vá dormir, Evans.
- Faço o que quiser, Potter. - Cruzei os braços.
Pouco antes de ele tocar na maçaneta me ouvi perguntar:
- Não vai por uma camisa?
James abriu um largo sorriso.
Com um revirar de olhos e passos largos, entrei em seu quarto fechando a porta rapidamente atrás de mim.
Oh, eu não ia ouvir um: "isso são ciúmes, Evans?" de novo.
Joguei-me na cama de James com um suspiro. O ar-condicionado havia ligado automaticamente, James deve tê-lo programado para fazê-lo de tempo em tempo. Ele é super calorento e mesmo agora no início da primavera, ele usava o Arcondicionado para deixar o quarto mais gelado.
Eu puxei a coberta dele e me ajeitei entre os travesseiros macios. Quando percebi minha situação, soltei um riso baixo. Verdade seja dita, se alguém hoje pela manhã dissesse que ao final do dia eu estaria vestindo uma camisa de James e deitada em sua cama, eu teria perguntado o que essa pessoa fumou.
Entretanto, aqui estou.
A vida pode ser engraçada. E sacana com certeza.
Eu olhei a mensagens do celular: algumas do grupo do trabalho, mas apenas alguns memes e um artigo sobre fisioterapia para cães, uma de Dorcas explicando o que ela deixara escrito no bilhete. Uma de mamãe me lembrando que a data do jantar havia mudado para acomodar melhor a agenda dos Potter.
Deixei o celular de lado e decidi que depois de tudo o que havia acontecido, não custaria nada fechar os olhos por um momento e aproveitar a cama aconchegante de James.
Eu não havia fechado os olhos por meio minuto quando ouvi James chamar:
- Evans.
Levantei depressa sentando-me na cama. A camisa de James havia deslizado um pouco para baixo expondo mais do meu colo e eu me apressei em ajeitá-la. Olhei para James que me encarava de pé próximo a cama.
- O que foi?
- Dorcas chegou, ela disse que Emmeline e Marlene estarão logo aqui.
Eu pisquei confusa.
- Quanto tempo eu dormi? - Perguntei inquieta.
- Cerca de meia hora, não sei ao certo.
Afastei a coberta pronta para me lançar à cozinha, agora completamente preocupada com o bolo. James, lendo meus pensamentos disse:
- Eu já tirei seu bolo do forno.
- O que?
Ele deu de ombros.
- Não achei necessário acordá-la por conta de algo tão pequeno.
- Oh meu Deus, se meu bolo estiver cru, considere-se um homem morto.
- Eu não sou trouxa, Evans.
- Jura? - Fingi espanto.
James revirou os olhos.
- Sei qual é a diferença entre um bolo cru e um assado. Sou tão eficiente que o entreguei à sua amiga pequenina. Eu correria se fosse você, ou vai receber Emmeline vestida em minhas roupas? - Ele sorriu maroto
Levantei da cama, pegando o celular e, ignorando-o saí do quarto. É de tremenda obviedade que ele veio atrás de mim.
Abri a porta e antes de cruzar o mínimo corredor, o ouvi dizer:
- Não vai agradecer?
Virei a tempo de vê-lo estender a mão com minhas chaves - que eu havia deixado no balcão da cozinha - com um sorriso divertido.
- Por ter feito minha vida mais difícil? - Eu aceitei as chaves - Como sempre?
James riu.
- Foi divertido.
Calei por um momento.
Encaremos os fatos: não foi tão ruim. Mas, sinceramente, nunca era. Talvez no fundo eu gostasse de implicar com James. Não que ele precise saber disso.
Abri a porta de meu apartamento, que encontrava-se encostada e movi levemente a cabeça em direção à James para falar:
- Não foi tão ruim. - E fechei a porta atrás de mim.
Na semana seguinte eu me encontrava em um debate mental:
Estúpido.
Completamente estúpido.
Na verdade não sei como essa coisa vende. Um livro barato desse cheio de clichês. Okay, okay, eu não sei se realmente é cheio de clichês, eu nunca o li, mas pelo amor de Deus, Potter escreveu isso. Romance policial, infernos, quem ainda lê essas coisas? Isso é tão ultrapassado.
Olhei mais uma vez para o livro preto de capa dura na prateleira. A faca ensanguentada na frente.
Revirei os olhos.
Aposto que não há sequer uma única linha de valor nesse livro. Aliás, aposto que seu resumo é completamente chamativo, isso é o que faz com que as pessoas o comprem. Ele deveria ser processado por isso. É quase como propagada enganosa.
Duas garotas com cerca de dezessete ou dezoito anos se aproximaram da prateleira eufóricas, e eu virei e fingi analisar um dos livros de Stephen King. Uma delas tinha cabeleira castanha cobrindo o rosto enquanto procurava algo na bolsa.
- Laury, vem! - A mais alta reclamou apertando o braço da amiga.
Ela usava um maxi sweater como a amiga, mas era possível ver algumas tatuagens pelos braços. Um dos lados do tenis de cano médio estava desamarrado mas ela não prestava atenção.
- Pela última vez Gio, amarra a droga do seu cadarço! - A mais baixa falou - Não queremos um acidente como o da última vez. Aliás, não queremos acidente algum!
- O que você tanto procura nessa bolsa? - Gio reclamou - E eu já pedi desculpas! Não podia prever que ia tropeçar e derramar o chocolate com caramelo em você.
- É pra isso que amarramos os cadarços. Para evitar chocolate com caramelos nas amigas. - Laury disse antes de desistir de procurar seja o que for na bolsa e olhar para a amiga - Não acho meu protetor labial. Você tem um?
Gio revirou os olhos, mas abriu a bolsa amarela e entregou um pequeno tubinho para Laury.
- Estamos aqui para comprar livros sabia?
- Ei, é crime gostar de estar bonita? - Laury perguntou passando o protetor - Ainda por cima o vendedor gato, com aqueles bíceps perfeitos está aqui hoje.
Gio arregalou os olhos.
- O que? E como eu não vi? - Ela olhou por cima da amiga procurando o vendedor.
- Porque ele está sendo monopolizado pela Marie-Claire. E sim, ela está aqui. - Laury disse devolvendo o gloss. - Com um vestido totalmente inapropriado para uma livraria. Mas, concordemos, maravilhoso para uma boate.
- Dando em cima do meu vendedor gato? - Gio reclamou. - O vestido inapropriado não é novidade.
- Ei, meu vendedor gato.
- Você quem está dizendo. - A amiga riu. - Ele é apaixonado por mim, só não sabe ainda.
Por um momento lembrei de Dorcas, Lene e eu quando tínhamos essa idade, e ri sozinha.
As duas olharam para a seção de filosofia, onde uma outra garota com um vestido cinza curto - que, eu preciso comentar, tinha todos os botões do decote abertos - sorria inocente para o vendedor - que realmente é gato - e ao falar tocava os bíceps dele.
Nada óbvio.
Sério, o que essas garotas tem hoje em dia?
- Filosofia? Sério? Ela não podia ir para uma seção que tenha livros que ela possa ler? - Laury arqueou uma sobrancelha.
- Tipo a infantil? - Gio pôs as mãos nos quadris.
Laury riu.
- Tipo a infantil. - Ela concordou.
- Afinal, nós vamos comprar o livro ou não?
- Lógico que vamos! - Laury disse desviando o olhar do vendedor que parecia um tanto incomodado com os toques excessivos da garota.
- Ótimo, estou sentindo falta de Morgan. Nem acredito que finalmente vou saber o que ele resolveu sobre o novo ajudante dele. Ainda acho que ele está espionando para o Hyde.
- Eu também, ainda não superei a cena na casa de máquinas. Lembra, com Nicole?
Gio deu outro gritinho empolgado e agarrou o ombro da amiga sacudindo-a.
- Sim!
- Gio, vou precisar do meu braço. - Laury falou.
- Foi mal! - Ela se forçou a largar a amiga.
As duas pegaram cópias do segundo livro da série de James - ele o lançara há apenas algumas semanas - e se puseram a ler a introdução. Repentinamente, Gio agarrou novamente o braço de Laury, e enterrou as unhas bem manicuradas na amiga soltando um gritinho estridente.
- Oh meu Deus! Sebastian está de volta!
- Braço! - Laury gemeu.
Gio apertou o livro contra o peito, mas não soltou Laury.
- Gio!
- Desculpa! – Ela gritou tirando a mão da amiga como se pegasse fogo.
- Você precisa parar com isso! – Laury disse esfregando o braço – Enfim, o que você acha sobre Lady Colette?
- Ah! – Gio aumentou o sorriso e Laury usou a bolsa de camurça para se proteger – Eu acho que definitivamente existe algo entre ela e Morgan!
- Eu também, mas ele ainda não tiveram nenhum tipo de linha romântica. – Ela olhou para a amiga. – Digo, eles mal se tocam.
- Eu sei, mas acho bem óbvia toda a tensão sexual entre os dois. – Gio suspirou – Ei, o que você vai fazer agora?
Laury deu uma olhada em direção ao vendedor que – infernos – ainda tinha a garota pendurada em seu braço, ele olhou em direção as meninas e Laury acenou com a mão chamando-o.
Gio arregalou os olhos e bateu na amiga com o livro usando uma força quase sobrenatural, desequilibrando-a.
- O que. Está. Fazendo?
- Chamando o cara ora. – Laury disse recompondo-se – É perceptível que ele não está nada feliz.
- Marie-Claire está agarrada ao seu braço como um bicho preguiça, você jura que ele está incomodado? – Gio falou sarcástica – Eu quis dizer o que quer chamando-o aqui?
- Ué, vou perguntar se é verdade que ao lançar o próximo livro da série, James Potter virá até aqui para assinar os livros. – Laury disse – E por favor, estou fazendo um favor a ele.
Gio revirou os olhos.
- Você ainda não me respondeu. O que vai fazer agora?
- Eu não tenho ideia. Ler o livro provavelmente. Você?
- Ler o livro, com certeza. Você quer ir para minha casa? Finalmente acabaram de pintar meu quarto e mamãe me comprou uma cama linda e enorme. Podemos deitar lá e ler a tarde toda.
- Você me teve no "deitar lá e ler a tarde toda" – Laury sorriu.
- Foi literalmente a última coisa que falei. Você notou isso, não? – Gio disse puxando a amiga em direção ao caixa.
O vendedor que andava em direção à elas havia parado brevemente para falar com um dos outros vendedores, mas sempre olhava em direção as duas.
- Vamos até ele perguntar sobre o evento e depois, a caminho de casa, podemos passar e comprar chocolate quente com caramelo. – Gio sorriu.
Imediatamente Laury olhou para os pés da amiga.
- Pelo amor de Deus, amarre o seu cadarço! Eu acabei de ganhar essa bolsa.
Quando elas já estavam um pouco mais longe, virei novamente para as prateleiras cheias com os livros de James. Eu ainda as ouvi rir ao longe de algo e agindo como uma foragida, peguei um dos livros escondendo-me entre as prateleiras. Seria um escândalo ser pega com esse livro nas mãos, mas admito que tenho certa curiosidade. Digo, como ele consegue fazer isso vender?
As meninas pareciam tão excitadas.
Virei para ler o pequeno texto exposto na parte de trás do livro, e após alguns segundos, soltei uma risada debochada. Morgan Cadmar Garrick? Fala sério, que tipo de nome é esse?
Por favor.
No dia seguinte eu saia da livraria apressada quando encontrei Lene com cerca de dez sacolas nas mãos. O que não é novidade, claro. Ela sorriu e se aproximou semi-acenando com uma mão cheia de sacolas:
- Lily! Que bom que a encontrei! Estava indo para sua casa.
Senti faltar o chão sobre meus pés e meu rosto corou em velocidade recorde.
- Oh. Olá, Lene!
- Certo, o que você está escondendo? - Ela estreitou os olhos.
Minha boca abriu-se em espanto.
- Como... Eu não estou escondendo nada.
- Por favor Evans, eu te conheço desde a sexta série. Você não sabe mentir para mim. Aliás, você mente muito mal em geral. E o seu tom de "olá, Lene" sempre quer dizer que você fez alguma coisa que não quer que eu saiba.
Revirei os olhos.
- Lene, não estou mentindo.
- Mas está pensando em mentir.
- Não seja dramática.
- Eu nasci dramática, meu bem. - Ela riu - Que livro comprou?
- Porque acha que comprei algum?
Foi a vez de Marlene revirar os olhos.
- Você? Lily Evans, saindo de uma livraria sem livro algum? Pouco provável.
Eu apertei a bolsa contra mim.
- Está com medo, Evans? - Ela riu - Não me diga que comprou um daqueles romances cheios de sexo quente. Eu sabia que ter James Potter como vizinho viria a lhe afetar de algum modo.
- Não tem sexo algum!
Não no primeiro volume pelo menos.
- Qual é, não sou puritana, Evans. Mostre sua mais nova aquisição. E se quer um conselho sobre Potter, apenas vá para a cama com ele. Você não precisa se envolver, você sabe.
- O problema não é me envolver - Revirei os olhos - Eu simplesmente não o suporto.
- Uhum, e Sirius Black não é sexy. Não se preocupe em tentar mentir para mim, odeio Black mas admito que o cara é o maior e mais tentador pedaço de mau caminho no qual eu já pus os olhos. E querida, eu já pus os olhos em muita coisa. Seja mulher e admita que Potter também o é.
- Okay! - Eu sacudi uma das mãos - Ele é. Satisfeita?
- Quase. O que comprou?
Fiz uma careta.
- Apenas um livro insignificante.
- Oh, sorte a sua - Ela pôs uma das mãos no peito - Então não há razão para escondê-lo de mim.
Sabendo que Lene pode ser terrivelmente persistente, entreguei-lhe o livro de uma vez.
Marlene encarou o livro calada por alguns instantes. Devagar, levantou o olhar para mim, como se tivesse que ter certeza de que eu, bem, era eu.
- Potter escreveu isso.
Balancei a cabeça.
- Eu sei.
Ela sacudiu a sua.
- Você não entendeu. James Potter escreveu isso.
Abri a boca pensando rápido em uma resposta, mas Marlene me interrompeu cruzando os braços.
- Muito bem, o que aconteceu entre vocês naquela sexta-feira? Pode ir falando Evans.
Eu fechei os olhos com um gemido.
