Disclaimer: Como todos sabem, Harry Potter não me pertence.

Aviso: Isso não foi betado. Possíveis erros de digitação/português.

Boa leitura!


Os olhares de James, lançados com singular regularidade, já estavam me causando gastura por três motivos que resultavam mais óbvios com o tic tac quase ensurdecedor de meu relógio da cozinha:

O primeiro deles sendo a minha incontestável mentira, posto que os minutos se arrastavam para uma preguiçosa meia hora e Hugh claramente não estava nem perto de aparecer para consertar o meu fogão. Eu evitava encarar o chão, em uma fútil esperança de que ele simplesmente brotasse das brechas de rejunte entre os mármores, já que seria meio patético. Não que eu estivesse fazendo um bom trabalho em refrear meus impulsos.

O segundo motivo era minha clara falta de autocontrole quando o assunto é James Potter. Minha pele estava tão sensível ao seu olhar quente que, mesmo protegida por uma camada de tecido, ardia impaciente por seu toque experiente já conhecido.

Digo, dê-me um desconto, eu permanecia nua por debaixo daquela blusa e James - mais impudico impossível - continuava a sorrir como se tivesse descoberto todo meu plano infantil para causar-lhe ciúmes. E estava se divertido com deleite invejável.

Ciúmes, eram inclusive o terceiro motivo pelo qual eu apresentava dificuldade em controlar minha inquietação. Veja bem, era de excessiva complexidade entender exatamente qual teria sido o meu propósito em ter inventado essa história boba apenas para causar ciúmes em James.

Em James. Frise isso.

Claro, eu já tinha paz mental a respeito de minha absurda atração por ele; o cara é espetacular afinal de contas, com aquele corpo feito para glorificar - e tocar - o sorriso sacana, um jeito de olhar que parece te despir e não menos importante - quiçá o mais importante de tudo - um beijo capaz de te deixar com um tesão inexplicável e simplesmente imorredouro pelo resto do dia.

Não que isso justifique o comportamento mais imaturo em anos.

Tamborilei os dedos no granito da bancada da cozinha e ponderei. Corine era obviamente responsável por minha falta de raciocínio equilibrado, por Deus eu nem conhecia a pobre menina, mas apenas o fato de ter aquelas pernas bronzeadas e sorriso fácil apontados para James era suficiente para causar-me irritação das maiores.

Então, como acontecia toda mísera vez que eu lembrava da existência de Corine, as palavras de Marlene voltavam a ecoar em minha cabeça: Oh, ele está tirando a roupa.

O que, diabos, James Potter estaria fazendo no apartamento do prédio ao lado, tirando as roupas em companhia de Corine? Bem, não é necessário ser Sherlock Holmes para descobrir.

- É isso. - Eu disse levantando a cabeça e olhando em direção a James.

Ele visivelmente curioso e entretido com toda a situação apenas corrigiu sua postura e arqueou uma sobrancelha questionador.

- Eu vou precisar mais do que isso, Lily.

- Eu acho que temos que deixar certas coisas claras, considerando que estaremos atuando em alguns dias na casa de campo do Sr. Domville, tendo algumas partidas amigáveis de golfe. - Falei na maior naturalidade possível, afinal admitir para mim mesma que eu tinha algum tipo de ciúmes inexplicável de James era uma coisa, deixá-lo saber descaradamente desse fato era outra completamente diferente.

James apenas cruzou os braços, o sorriso ainda lá.

- Diga.

- Não vejo como possa ser adequado você receber Corine em sua casa. Quando eu não estiver lá, digo. Não seria normalmente um problema, mas ela tem intenções bem claras à seu respeito e considerando o que aconteceu anteriorm-

- Espere, espere. - Ele levantou as mãos desencostando da bancada. - O que aconteceu anteriormente? Estou claramente perdido aqui.

Revirei os olhos.

- No dia do jantar, Marlene disse ter visto você tirando suas roupas na casa da Sra. Mason. Com Corine.

Ele me encarou por alguns segundos, os lábios tremeram um tanto e ele os pressionou juntos para evitar rir na minha cara.

Rir na minha cara.

- O que? - Eu perguntei ríspida sem conseguir me conter.

James gargalhou, curvando-se ligeiramente para frente. Eu estava furiosa com ele, juro, mas ainda com o sangue fervendo meu cérebro conseguia registrar o quão lindo ele ficava quando ria.

É isso, pals. Eu estou louca.

Recuperando um pouco do ar e retirando rapidamente os óculos para secar seus olhos, James corrigiu a postura e passou a mão pelo cabelo indomável.

- Você acha que eu dormi com Corine? Isso certamente explica todo seu ódio injustificável por ela.

- Antes de tudo, eu quero deixar claro que não me importa no mínimo com quem você dorme em situações comuns. Porém estamos namorando - Eu fiz aspas no ar para maior ênfase - Então, enquanto isso durar você vai ter que controlar seus impulsos.

- Eu estava lá para ajudar Sra. Mason a instalar o chuveiro do quarto de hóspedes dela. - James disse basicamente me ignorando.

- Você não precisa me explicar. Só estou dizendo qu-

Ele cruzou a cozinha - que não é lá muito grande - com passos largos e tomou meu rosto com uma das mãos, pressionando minhas bochechas e juntando meus lábios em um biquinho ridículo.

Eu era praticamente um baiacu.

- Lily, eu tirei a blusa porque estava molhada. Quando Corine religou a água, eu não havia verificado se o registro estava fechado. Sra. Mason me emprestou uma camisa de seu marido e eu voltei para casa. - James sorriu divertido. - Era por isso que você estava tão chateada comigo naquela noite em seu quarto?

- Eu não estava chateada - Falei da melhor forma viável considerando que a mão de James permanecia em meu rosto com leve pressão, e eu continuava a fazer biquinho.

Nesse momento ouvimos batidas tímidas em minha porta.

Eu pensei ter imaginado coisas, mas o olhar descrente de James à minha frente significava que ele tinha ouvido também. Eu procurei não parecer tão surpresa quanto ele, afinal só porque estávamos - teoricamente - esperando Hugh não quer dizer que era de fato ele à porta.

- Bem - Ele disse jocoso enquanto soltava meu rosto - Vamos dar Hugh as boas-vindas.

James fez seu caminho com lentidão deliberada à entrada e eu o segui de perto.

- Não ouse ser descortês com ele. - Murmurei alertando-o mesmo inteiramente ignorante quanto à pessoa que batia a minha porta. No fim das contas eu havia dito à ele Hugh viria então eu planejava continuar com minha pequena farsa.

- Eu? Descortês? - James se fez de ferido - Com Hugh? Jamais.

Dividido com James, meu pequeno Hall de entrada parecia menor ainda. Eu me esforcei para andar encostada na parede e evitar tocá-lo ao máximo possível.

- Estou falando sério, James.

Ele parou de repente, o olhar baixando para encontrar o meu.

- Hugh não tem sido nada senão cordial quando fala comigo.

- Você sabe - Ele murmurou baixo, a voz um pouco mais grave, mais rouca - Eu adoro quando você diz meu nome.

Eu ruborizei. James tinha acabado de me ignorar - de novo - e a primeira reação de meu corpo era ruborizar. Estou perdida.

Lhe soquei o peitoral, completamente embaraçada.

- Preste atenção no que estou falando.

- Ok. Ok. Eu ouvi. - Ele revirou os olhos - Não ser grosso. Não partir para métodos físicos mesmo que ele continue a te olhar embasbacado. Eu vou me comportar.

Não pude evitar um pequeno sorriso.

- Muito be-

As batidas soaram novamente seguidas da voz de Hugh abafada pela porta:

- Lily? Está em casa?

Fechei a distância entre a porta e eu com rapidez e a abri, plenamente incrédula. Hugh, do outro lado, sorriu para mim e levantou o celular partindo os lábios para falar qualquer coisa, mas seu olhar logo encontrou James e o sorriso morreu.

- Uh, eu estou atrapalhando?

James, que não poderia perder uma chance, postou-se ao meu lado e agarrou minha cintura com uma das mãos, colando nossos quadris e sorrindo - em sua melhor atuação vista até o momento - exclamou:

- Ladett! Eu disse a Lily que ela não precisava incomodá-lo com o fogão, mas ela acha que seria mais seguro ter uma segunda opinião enquanto eu o conserto.

Hugh abaixou o celular um tanto embaraçado, mas sorriu submisso:

- Imagina, eu tenho o maior prazer em ajudar a Lily.

- Ótimo! - Eu falei antes que James pudesse responder qualquer coisa e abri passagem para que Hugh pudesse entrar e lhe sorri: - Fique a vontade, Hugh.

James, surpreendentemente, comportou-se como o cavalheiro inglês que sua mãe criou enquanto eu os deixei por alguns momentos para vestir uma roupa adequada para receber Hugh. Ou pelo menos Hugh não pareceu enrubescido por nenhum comentário desnecessário e bruto que James possa ter feito.

Após uns primeiros testes para verificar o funcionamento do eletrodoméstico, Hugh virou-se para me pedir o manual de instruções para que ele pudesse ter uma ideia da configuração interna do forno.

- Eu já pedir isso. - James falou enquanto eu pegava o manual em uma das gavetas da cozinha que eu separara apenas para isso.

Sorri zombeteira estiquei o braço para dar a Hugh os papeis, virando para James em seguida:

- Claro que ia. - Falei ironica.

Ele me lançou um olhar indignado.

- Está dizendo que não acredita que eu poderia consertar seu forno?

- Francamente, James. - Eu ainda sorria de leve - Você acha mesmo que saberia lidar com algo assim?

- Qualquer pessoa pode consertar um forno. - Ele disse ofendido.

- Uh-Huh. - Respondi não convencida.

- Não é ciência de foguete.

Dei de ombros.

- É para quem nunca consertou nada.

James revirou os olhos. Hugh continuava folheando o manual, abaixado em frente ao forno, educadamente tentando não prestar atenção em nossa conversa.

- Ah, e você já consertou algo por acaso?

- Minha família não tinha toda a renda que tem hoje, meu pai consertou sim vários eletrodomésticos em casa e Petúnia e eu revezávamos turnos ajudando. - Falei com obviedade.

- Sinto muito se nasci em um hospital particular dentro de casa. - Ele abriu os braços em sinal de rendimento.

- Ei, não estou dizendo que é reprovável, só que é diferente.

- Explique-me a diferença entre fazer ou pagar uma pesso-

James foi interrompido com batidas firmes na porta.

- Quantas pessoas você chamou para consertar o seu forno? - Ele perguntou.

- Só Hugh.

Mentirosa.

Na verdade eu não chamara sequer alguém.

Saí da cozinha confusa, alcançando a porta em passos rápidos enquanto James se dirigia a Hugh para pedir o manual.

A cabeleira de Marlene e seu sorriso característico estavam me esperando no corredor.

- Lene? - Eu franzi o cenho confusa.

Seus olhos percorreram o meu visual e logo eu soube o que ela estava fazendo: inspeção de sexo. Todas nós fazemos quando chegamos sem avisar uma na casa da outra. Cabelo, roupas, respiração, vermelhidão, chupões e batons borrados.

E eu havia recebido um grande X de "não esteve transando nos últimos minutos".

- Oh, não se preocupe. - Seus olhos finalmente focaram nos meus e ela continuou - Eu ia bater uma vez, você sabe, para não atrapalhar no caso de vocês estarem transando loucamente.

O que?

- O que claramente vocês não estão. - Ela continuou um pouco desapontada e passou por mim, entrando em casa.

- De que você está falando, McKinnon? - Juntei-me a ela no corredor da entrada após fechar a porta, ainda tentando fazer meu cérebro funcionar de forma própria para assimilar porque, diabos, eu estava sendo inspecionada para sexo.

Ela olhou ao redor e se aproximou para sussurrar:

- Quando liguei para você, você estava na casa de Potter e estava rolando todo aquele lance de "quero, mas não quero admitir que quero, transar com você".

Assenti acompanhando o raciocino até esse ponto, ainda que achasse um exagero sua definição da situação.

- E você é incrível por ter pedido a Hugh para vir até aqui. - Eu sussurrei para não correr o risco de James nos ouvir e a abracei para depois segurá-la pelos ombros - Foi você não foi?

Lene revirou os olhos.

- É claro que fui eu. Depois daquela ligação eu percebi que você estava claramente encrencada. Você sabe como eu tenho um faro para problemas. - Ela pôs as mãos na cintura e olhou ao redor mais uma vez. - Então… Você não está sozinha, está?

- Não - Apoiei-me na parede - Os dois estão na cozinha tentando decifrar o manual do forno. Lene, o que você veio fazer aqui de qualquer forma?

- Bom, eu estava sem fazer nada, como você pôde perceber pela ligação que eu te fiz. Então pensei que seria divertido vir assistir James e Hugh interagirem.

Eu não consegui evitar um riso.

- E se James e eu estivéssemos transando?

- Vamos encarar, Lily - Marlene apoiou uma das mãos em meu ombro esquerdo - Essa possibilidade era bem pequena.

- Ei. - Minha boca se abriu em falsa revolta, mas complementei com alguma sinceridade: - Eu poderia estar transando.

- Não - Ela olhou para mim jocosa - Você é muito orgulhosa pra admitir que quer o cara.

- Eu já admiti.

Pra mim mesma. Isso deve contar.

- Você admitiu que ele é maravilhosamente tentador.

- Correto.

- Um pedaço de mal caminho. - Ela continuou.

- Você está esperando um poema ou algo assim? Está subentendido.

Batidas soaram a porta cuidadosamente ritmadas, com delicadeza.

Mas que porra?

Deixei uma excitada Marlene fazendo seu caminho para a cozinha enquanto eu ia em direção a porta pela terceira vez.

E pela segunda vez um par de olhos curiosos percorreram minha figura com atenção. Eles não estavam sozinhos. Remus Lupin estava ao lado de Dorcas, parecendo no mínimo confuso com a situação toda.

Entre na fila, parceiro.

- Doe?

- Uh, hey. - Ela falou após terminar sua inspeção, obviamente desapontada e, pondo-se na ponta dos pés, esticou o pescoço para espiar por detrás de mim.

Revirei os olhos e lhe dei logo passagem que ela aceitou de pronto.

- Lily. - Remus me cumprimentou com um sorriso e um beijo na bochecha.

- Remus. - Sorri de volta e lhe indiquei que entrasse.

Na sala Marlene e Dorcas logo iniciaram uma conversa cheia de sussurros que cessou assim que Remus e eu nos juntamos a elas.

- Remus! - Lene exclamou sorridente - Como você vai?

- Marlene - Ele se inclinou sorrindo em uma pequena reverência. - Estou muito bem.

- Eu posso ver. - Ela murmurou maliciosa para mim.

- Então… - Falei depressa para evitar que o comentário de Marlene fosse computado - Vocês - Indiquei Dorcas e Remus com as mãos - vieram juntos ou…?

Remus foi o primeiro a se manifestar:

- Ah, não. Nós… Não estamos juntos. - Ele gesticulou.

- Nós nos encontramos nas escadas. - Dorcas sorriu complementando.

Marlene olhou para mim e mimicou para que Remus não ouvisse:

Eles estão transando.

Dorcas que tinha se virado para olhar para Marlene, leu seus lábios e abriu a boca indignada.

- Não estamos.

- Perdão? - O ar de confusão de Remus voltou a surgir.

- Nada. - Nós três respondemos com um sorriso.

Ele dividiu os olhares entre nós, provavelmente se perguntando o que ele estaria perdendo.

- Remus! - Eu lhe chamei com uma exclamação pegando-o pelo braço - Por que você não vai ajudar James e Hugh que estão tentando, e falhando miseravelmente, fazer meu forno funcionar?

- Oh, certo… - Ele respondeu sem muita opção.

- Fique à vontade - Eu gesticulei para a cozinha com um enorme sorriso no rosto.

Eu estou definitivamente assustando o cara.

Assim que Remus deixou a sala eu virei para minhas duas queridas amigas.

- Ok, o que está acontecendo aqui?

- Eu já disse a que vim. - Marlene falou.

- Eu só vim por que Marlene não tem a mínima consideração de fazer descrições pormenorizadas. - Dorcas deu de ombros.

- Doe! Não acredito que você tenha vindo só por isso. - Reclamei.

- Oh, por favor, não é como se eu tivesse atrapalhado alguma coisa. - Ela rebateu.

Marlene soltou um risinho ao nosso lado.

- Ei - Eu lancei um rápido olhar para a cozinha, certificando-me que todos os homens ainda se encontravam lá, e sussurrei - Para a informação de vocês eu poderia sim estar transando.

- Claro. - As duas disseram em uníssono.

Então Dorcas lembrou do comentário de Marlene mais cedo:

- De onde você tirou essa ideia absurda de que estou transando com Remus?

- Primeiro, não é absurda. Quero dizer, olhe pra ele. - Ela falou levando seu olhar em direção a cozinha, Dorcas e eu imitando-a em seguida.

Hugh continuava abaixado em frente ao forno, James, em pé, mostrava algo no manual que ainda tinha em mãos a Remus que repousava o corpo esguio e definido em uma de minhas bancadas. Os jeans escuros acompanhavam de forma suave o comprimento de suas pernas e o suéter fino servia em seu peito como uma luva. De repente seus olhos muito azuis levantaram em nossa direção e, em pânico, Dorcas desviou o olhar para cima e eu para Marlene.

Lene, que não estava no mínimo embaraçada, sorriu travessa e lhe piscou um olho.

- Marlene. - Eu lhe chamei.

- Segundo - Com o sorriso ainda no rosto ela continuou - Ele sempre demonstrou algum interesse por você. E eu não preciso dizer o mesmo de você já que é bem óbvio.

Dorcas revirou os olhos.

- Ter encontrado com ele nas escadas não significa nada, não é porque você não tem autocontrole com Sirius que eu não tenha com Remus.

- Então você está interessada no Remus…? - Eu perguntei.

- Não! - Doe corou com leveza - Eu ainda estou dando um tempo com Marcus.

- Só estou dizendo que estar em um lugar apertado desses com um cara sensacional assim tem suas consequências. - Marlene argumentou.

- Estávamos em uma escada. - Dorcas enfatizou - Você queria o que? Que começássemos a transar ali mesmo?

- Não. - Lene respondeu - …Mais ou menos.

- Oh meu Deus, você transou com Sirius nas escadas? - Doe arregalou os olhos.

Virei para Marlene chocada.

- Lene! Velhinhos sobem por essas escadas!

Marlene abriu os braços dizendo:

- Ok, vamos nos acalmar vocês duas. Nós não transamos, apenas rolou uns amassos… Que incluíam as mãos dele por debaixo de minhas roupas, eu admito, mas já estávamos aqui em cima.

- Isso não é desculpa! - Dorcas falou - Sra. Silverfox vem colocar flores naquele vaso horroroso que Lily tem perto da porta.

- Ei. - Olhei para ela ofendida - Minha tia-avó me comprou aquele vaso. Foi uma pequena fortuna.

- Minha querida - Ela disse em tom diplomático colocando uma das mãos em meu braço - Nada disso muda o fato de que ele é horroroso.

- Lily?

Todas nós nos viramos em direção a cozinha. Remus estava a porta, um pouco corado e pude perceber uma fina camada de suor em seu pescoço.

- Sim? - Eu respondi para então franzir o cenho e olhá-lo preocupada - Sente-se bem, Remus? Você parece um pouco… Suado.

- Eu acho que sua calefação está ligada, está muito quente aqui dentro.

- O que? - Eu o olhei confusa por completo.

Durante as primaveras minha calefação passa o dia desligada, eu só a ligo durante as noites e ainda assim apenas para dar uma leve aquecida no piso e apenas em ambiente específicos.

- Eu vou olhar o controle. - Marlene se ofereceu retirando-se rapidamente para o corredor dos quartos.

Dorcas e eu fomos até a porta da cozinha para olhar os rapazes. O calor dentro do cômodo era evidente, bastava chegar perto da porta para senti-lo. As janelas já estavam abertas, mas o fim de tarde sem vento não estava ajudando a temperatura a descer. James estava com uma blusa de algodão e apesar de não mostrar muito sinal de calor, já tinha a base do cabelo um tanto úmida.

Hugh havia tirado a blusa de cima que estava usando, ele estava com maior parte do tronco dentro do forno, olhando alguma coisa. Remus, que tinha a blusa mais quente, estava tendo dificuldades para não suar.

- Posso oferecer algo para vocês beberem? - Eu perguntei esperando que Lene corrigisse logo a temperatura.

Hugh tirou a cabeça de dentro do forno e os três olharam para mim.

- Algo bem gelado seria bem-vindo - Remus se manifestou primeiro.

- Eu aceitaria - Hugh concordou.

- Eu vou beber o que você for beber, Lily - James me lançou uma piscada sacana.

Revirei os olhos.

- Então se prepare para-

Passar sede, Potter.

Era o que eu ia lhe responder, mas a sobrancelha levemente arqueada de Hugh fizeram-me lembrar que James era, teoricamente, meu namorado.

- ...Para… Beber uma cerveja bem gelada. - Eu engasguei improvisando rapidamente.

A risada surda que James deu foi o suficiente para saber que ele percebera o comentário bruto que eu faria, assim como minha preocupação em logo substituí-lo por algo agradável.

Fui até a geladeira pegando três cervejas e as colocando no freezer ajustando a função turbo para que elas gelasse mais rápido. Dorcas ainda estava encostada a porta da cozinha quando Marlene voltou.

- Então... Vocês vão ter que aguentar mais um pouco. O sistema deu algum tipo de pane e o controle está religando para que eu possa ajustar a temperatura. - Ela explicou, uma das mãos coçando o pescoço.

Oh. Meu. Deus. Marlene estava mentindo.

Virei rapidamente em direção as duas e olhei para minha amiga morena, chocada. Lene leu meu olhar, mas apenas deu de ombros com um sorriso inocente.

Marlene McKinnon, eu vou matar você.

Alcançando-as em passos rápidos, eu as empurrei para fora da cozinha até a sala.

- O que você fez? - Eu perguntei.

- Nada demais. - Ela levantou as mãos em defesa - Só aumentei bastante a temperatura da cozinha.

Sacudi a cabeça sem entender.

- Ok e por quê?

- Bem, inicialmente eu queria comparar o físico de James com o de Hugh, mesmo supondo que James ganharia porque afinal ele tem essas costas maravilhosas e francamente qualquer coisa veste muito bem nele. Remus é um bônus. - Ela disse com seu sorriso traquina - Eu não esperava que fosse vê-lo sem camisa.

- Lene! - Eu lhe chamei atenção.

- Oh, pare com isso. Sua vida seria tão sem graça sem mim. - Ela riu e pôs um dos braços ao redor de meus ombros.

- O que eu faço com você? - Gemi levando as mãos ao rosto.

- É… O que fazer? - Dorcas disse aérea inclinando o tronco para lançar um olhar a cozinha.

- Doe, ajude-me aqui. - Eu apontei para Marlene.

Minha pequena amiga focou novamente suas atenções em nós para então dar de ombros.

- Não há muito o que fazer, realmente. Agora vamos dar um tempinho para fingir que o controle está reiniciando e vamos corrigir a temperatura assim que parecer possível.

Esfreguei as têmporas.

E pensar que tudo isso está acontecendo por causa de meus ciúmes loucos de Corine. Bem, pelo menos não tem exatamente como piorar.

- Lily? - Remus chamou.

- Sim, Remus?

- Você se incomoda se eu tirar minha camisa? Estou suando demais.

Uma das mãos de Dorcas estava em meu braço que, inclusive, foi discretamente perfurado por suas unhas.

- Sinto muito por isso - Foi tudo o que pude lhe dizer - Faça o que achar melhor para ficar confortável.

Ele deu um aceno com as mãos dispensando minhas desculpas.

- Você não tem culpa. - Ele sorriu e virou-se para voltar a cozinha.

Assistimos hipnotizadas a barra de seu suéter subir com ligeira dificuldade por causa do tronco úmido, para desnudar as costas irretocáveis de Remus. O movimento feito para passar a roupa por sua cabeça, causou os músculos a se tensionarem sob a pele.

E nós continuávamos paradas lá. Completamente embasbacadas.

James chega a ter um corpo que beira a impecabilidade - para não dizer que é perfeito - e, claro, eu havia visto nas últimas semanas mais partes do seu corpo do que nuvens no céu porque o cara ultimamente orbitava ao meu redor. Nada que Remus estivesse mostrando era alguma novidade perto do que James, de forma tão descarada insistia em esfregar em minha cara. Ainda assim, era uma visão de dar água na boca.

Seu corpo sumiu de nossa linha de visão. Eu tinha quase perdido um braço por causa do aperto de ferro que Doe tinha me dado, mas havia valido a pena. Permanecemos caladas por alguns instantes, ainda sorvendo o resto da imagem que nos fora presenteada quando Doe falou:

- Bem, vou pegar as cervejas para os meninos. - E apressadamente se dirigiu à cozinha.

- Eu ajudo. - Lene saiu atrás dela.

Não consegui evitar um riso.

A cozinha de meu apartamento não chegava a ser pequena mas com seis pessoas nela, o ambiente ficava um pouco mais apertado e, pior, mais quente. Hugh e Remus estavam tirando o fogão do lugar para verificar qualquer coisa na parte de trás dele. O que diminuía o espaço ainda mais.

Hugh também já estava sem camisa, sendo James o único a permanecer com sua camisa de algodão. Dorcas distribuiu cervejas para os meninos, pegando também uma para ela e oferencendo uma à Marlene.

- Lily - James se aproximou me entregando a cerveja ainda cheia que tinha em mãos.

- Não é do gosto do famoso James Potter? - Eu provoquei.

Ele riu.

- Eu só estou sendo atencioso e oferecendo a minha namorada um pouco. - James sorriu e levou as mãos a barra da camisa - E preciso das mãos livres para tirar minha camisa.

Eu levava a garrafa à boca para tomar um gole, mas minha mão congelou no caminho quando reparei nas intenções de James e suas palavras foram devidamente processadas.

O corpo de James não tocava o meu por alguns centímetros. O cara nunca soube mesmo o que é espaço pessoal. Como uma estatua humana, o único movimento que consegui fazer foi baixar meus olhos para seu abdômen - que eu já conhecia a tanto - na expectativa de vê-lo novamente. Em deliberada tortura, ele subiu a peça com lentidão. A pele, brilhando levemente com uma fina camada de suor, deliciosamente exposta.

No movimento feito para passar a roupa pela cabeça, seu braço bateu o meu, que continuava de forma patética parado a caminho de minha boca com a garrafa de cerveja. O impacto fez com que um pouco do líquido, ainda intocado, balançasse dentro da garganta da garrafa e caísse em mim.

Com algumas gotas no colo de meu vestido e outras em meu pescoço eu exclamei baixo, pronta para lançar algum comentário imaturo à James. Entretanto não fui rápida o suficiente, uma das mãos de James subiu com sensualidade e certo afã por detrás de meu pescoço, agarrando meu cabelo que estava colocado atrás de minha orelha. Inicialmente achei que fosse para se assegurar que meu cabelo não encostasse na cerveja, mas assim que James deu mais um passo e abaixou o rosto para mim, eu soube melhor.

Era para ter certeza de que meu pescoço estaria desnudado para ele.

A língua de James achou com facilidade o rastro deixado pelo líquido espirrado e subiu em um movimento lento e sensual em direção a base de minha orelha.

Eu tive que fazer o meu melhor para não gemer. Eu tive que pensar em gatinhos mortos.

Em Petúnia.

Embora todo meu esforço tenha sido direcionado para evitar chamar mais atenção do que já estávamos chamando na cozinha, eu não pude conter o ofego que surgiu.

- Hum - Ele grunhiu se afastando, a mão ainda em meus cabelos - Agora está limpa.

Minha visão periférica avisava que todos estavam olhando para nós e, com o rosto queimando, puxei James pelo cós de sua calça para fora da cozinha e sorri para eles:

- Com licença.

- Toda. - Doe disse rapidamente.

- Tome seu tempo - Remus levantou uma das mãos.

- Não se apresse. - Marlene completou.

Levei James para o corredor dos quartos, para evitar que Hugh pudesse nos ouvir. Eu o encostei na parede, a garrafa ainda em minha mão.

- Ok. Você tem que parar de fazer essas coisas. - Comecei.

Ele fingiu coçar o ombro nu, desinteressado.

- Por que?

- Vamos começar com: não é adequado.

- E por que não? Achei que fossemos namorados.

- Nós estamos fingindo ser namorados. Só até a viagem a Queenwood.

Com habilidade, James me encostou na parede oposta.

- Eu só estava tentando ajudar. - Ele murmurou inocente com um de seus característicos sorrisos que indicavam o contrário.

- Poderia ter simplesmente me estendido um papel, ou uma toalha. - Respondi procurando manter a calma e minha respiração em um nível considerado normal. - Aliás você tem que ser mais cuidadoso, eu estava molhada por culpa sua.

Meu braço imóvel após a mínima visão de sua pele não teve nada a ver com isso. Claro que não.

James sorriu satisfeito consigo mesmo, rindo em seguida seu riso mais perigoso: baixo, rouco, sensual.

Apertei minhas pernas como se isso pudesse evitar o calor que começava a subir por meu corpo. Eu estou tão perdida.

- Que tipo de homem eu seria se não deixasse minha namorada molhada?

A voz marota soou especialmente tentadora.

- Ok, pare. - Eu pus a mão em seu peitoral.

- Parar o que?

- Suas provocações. Está bem claro que você adora me ver em uma saia justa. Além do mais você só quer incomodar Hugh.

Ele arqueou uma sobrancelha sedutor.

- Eu adoro ver você em qualquer coisa. - Ele se afastou um pouco, dando-me mais espaço - Sobre Hugh, você esta certa. Eu quero mesmo incomodá-lo. Não seria assim se você não ficasse piscando os olhos para ele.

Minha boca se abriu em choque.

- Francamente, eu já disse que não tenho e nunca terei nada com ele. - Eu disse irritada - E Corine? Ela está praticamente se auto-convidando para conhecer sua cama.

- Eu não sabia que você tinha ciúmes de minha cama, Evans. - James sorriu provocador.

- Não tenho. - Respondi ainda irritada desviando o olhar.

É serio. Não tenho.

- Certo. - Ele disse claramente não convencido. - Eu já disse a você o que aconteceu no dia do jantar.

- James - Eu levantei novamente o olhar para ele - Se vamos fazer isso vamos fazer direito: sem Corine, sem Hugh.

- Sem brigas? - James perguntou.

Mordi os lábios e respirei fundo.

- Sem brigas. - Eu finalmente concordei. - Na medida do possível.

- Ok. - Ele sorriu.

- Ah, sem provocações exageradas na frente de todos, incluindo Hugh.

- E Caiden?

Eu ponderei.

- Tudo bem, você pode ser uma pouco mais… Assertivo em relação a ele.

Sua mão fechou sobre a minha que segurava a garrafa.

- Temos uma trégua, Lily. - Ele murmurou provocativo e levou a garrafa, com minha mão ainda presa sob a dele à boca e tomou um gole.

Meu coração se acelerou com a visão de seu pescoço, agora - devido a temperatura do corredor - menos suado, exposto para mim.

- Temos uma trégua. - Eu disse e tomei um gole também.

No final, após quase uma hora de avaliações, os rapazes descobriram o problema em uma peça e Hugh se ofereceu para consegui-la com um amigo em alguns dias e voltar para fazer a troca.

Não demorou muito - dois dias depois - para que eu recebesse uma mensagem sua perguntando se eu estaria em casa para fazer a nova instalação. Assim que consenti, mandei uma mensagem para James, cumprindo a promessa de deixá-lo estar por perto quando Hugh também estivesse. Ele também estava cumprindo a dele, nunca recebendo Corine enquanto estava só, e Deus sabe que ela tentou quatro vezes nesse últimos dois dias.

Já com os dois em minha cozinha novamente, eu estava em minha clínica caseira improvisada verificando os prontuários e pastas dos animaizinhos que eu tinha em minha clínica profissional. Eu havia passado a manhã lá e antes de sair dei instruções à minhas duas enfermeiras veterinárias: Eirika e Anna. Edgar, meu cirurgião que também era especialista em animais de pequeno porte, já sabia como proceder em praticamente todas as situações. Ele ficava como responsável toda vez que eu me ausentava e orientava Jordan, que revezava entre o serviço de secretaria e a assistência de tratamentos.

Eu ia para a quinta pasta quando James bateu levemente na guarnição da porta que eu havia deixado entreaberta, virei totalmente para ele, com a pasta ainda na mão.

- Seu celular estava tocando - Ele disse em tom suave e, ainda sem entrar, estendeu o braço com o aparelho na mão.

Mordi os lábios para evitar rir de sua atitude, depositando a pasta na mesa e indo em sua direção.

- Posso saber por que toda essa hesitação? O James Potter que eu conheço teria entrado ou mesmo gritado da cozinha. - Eu arqueei uma sobrancelha pegando o celular de sua mão.

Ele revirou os olhos.

- Primeiro porque você está trabalhando, eu não quis incomodá-la. - Então, ainda da porta ele circundou meu corpo com o braço agora livre e aproximando-nos disse baixo: - Depois porque somos namorados em trégua. Ademais posso pensar em um punhado de coisas deveras prazerosas que podemos fazer para substituir todos os nossos debates.

Colei um pouco mais em seu corpo e provoquei:

- Oh, mas eu tinha para mim que você adorava cismar comigo.

James riu e agora com as duas mãos em minha cintura

- Adoro. - Então ele baixou o rosto para meu ouvido - Mas gosto infinitamente mais quando estamos nos ocupando de outra maneira.

Mordi os lábios novamente para segurar o sorriso que ameaçava aparecer. Trégua com James era refrescante e estranhamento confortável, ele ajudava-me com pequenas complicações diárias mesmo sem que houvesse alguém por perto servindo de expectador. As discussões que tínhamos diminuíram consideravelmente, mas nossas provocações continuavam. Sem nada muito físico, no entanto.

O que estava me matando.

Quero dizer eu sempre entro no jogo para ganhar, mas apesar de ser - o que considero - boa no jogo de provocações, James praticamente nasceu para isso. Eu estava subindo pelas paredes. Claro, no geral eu tomaria medidas mais drásticas, mas o cara havia me rejeitado não tinha nem uma semana. Digo, quem deixa uma mulher de lingerie que, obviamente, está bem disposta e vai embora?

Tudo bem, eu estava meio alta, mas mesmo assim.

- Potter? Eu preciso que você me ajude aqui. - Hugh gritou.

Olhei por cima do ombro de James em direção a cozinha.

- Seu parceiro o espera. Seja educado. - Apontei um dedo em seu peitoral avisando-o.

Não precisa se preocupar com seu príncipe encantado - James me soltou para voltar a cozinha e piscou malandro - Eu tomei a liberdade de dizer a ele que estamos juntos, para evitar possíveis futuras complicações. Não que ele não desconfiasse, ficou bem óbvio depois da minha língua em seu pescoço.

Revirei os olhos ainda descrente de que Hugh de fato, nutra algo que não seja pura atração civilizada por mim e que ele jamais daria o primeiro passo. Arqueei uma sobrancelha e perguntei sarcástica:

- Futuras complicações?

Ele apenas assentiu já quase dobrando o corredor.

- Do tipo? - Eu falei um pouco mais alto para que ele me ouvisse.

- Do tipo meu punho na cara dele.

Balancei a cabeça pelo exagero de James e voltei a mesa, abrindo a pasta que eu tinha na mão anteriormente e checando a ligação perdida em meu celular. Assim que vi o número da clínica e em seguida o número de Eirika, meu coração pulou uma batida.

Disquei de volta com pressa, enquanto corria ate o quarto para pegar uma jaqueta e sapatos.

- Dra. Evans? - Eirika perguntou quase aliviada do outro lado da linha.

- O que aconteceu? Eu estou a caminho. - Falei já com a jaqueta vestida em um dos braços e escolhendo sandálias que fossem fáceis de calçar.

- Sênior Edgar passou mal e teve que ir para casa, mas uma cliente acabou de ligar dizendo que seu cachorro foi atropelado, ela está o trazendo para cá.

- Prepare a sala de cirurgia, peça a Anna para esterilizar tudo e diga à Jordan para dispensar todo caso que não seja emergencial enquanto estivermos em cirurgia. Estou chegando em dez minutos no máximo.

- Sim, senhora.

Eu passei correndo pela sala, os sapatos estalando no piso.

- Ei, Lily! - James colocou o corpo para fora da cozinha estranhando meu agitamento mas logo me seguiu quando passei por ele para abrir a porta. - O que aconteceu?

- Tenho uma emergência na clínica. Preciso ir, assim que terminar com o fogão pode trancar tudo e deixar a chave embaixo do tapete.

James segurou meu braço.

- Eu levo você. Estou de carro, é mais rápido.

Coloquei minha mão sobre a sua.

Não posso correr o risco de ficar presa no trânsito, vou de bicicleta. É mais rápido. Obrigada, mesmo assim. - Eu lhe disse com sinceridade e desci as escadas correndo.


Entrei pela porta dos fundos que fica bem ao lado do pequeno estacionamento para bicicletas que mandei construir. Assim que Anna me viu, caminhou comigo detalhando todas as lesões e fraturas que havia percebido em um exame rápido no cão. Não tínhamos muito tempo para fazer exames mais complexos até estabilizá-lo.

- E hemorragia interna? - Perguntei.

- Também está prevista. Eu já separei sangue para uma possível transfusão.

- Onde está Eirika? Ela também irá participar hoje.

- Ela está terminando de se esterilizar.

Assenti e comecei o procedimento de esterilização antes de entrar na sala de cirurgia.

Ao final, quando terminarmos a cirurgia, eu retirei as luvas e saí para a área intermediária que tínhamos entre as diversas salas da clínica. Respirei fundo e tirei a touca de cirurgia indo em direção a sala de espera. A dona, uma mulher em seus 30 anos, chorava silenciosamente enquanto um homem lhe oferecia o ombro.

- Sra. Field? - Eu chamei.

Ela levantou os olhos para mim e logo se pôs de pé, o homem ao seu lado acompanhando o movimento.

- A cirurgia foi um sucesso. - Ela arfou aliviada e agarrou as vestes de seu acompanhante se pondo a chorar mais um pouco - Tivemos algumas complicações por causa da idade de Duke, mas ele é durão. As meninas já estão terminando os últimos detalhes e vão esperá-lo acordar para se certificar de que tudo está bem.

- Obrigada, Doutora. - Ela apertou minha mão ainda emocionada - Obrigada, eu pensei que o Duke... Pensei que... Bem, pensei o pior.

- É o meu trabalho, Sra. Field. - Eu sorri com sinceridade - Estou feliz que tenha ocorrido tudo bem. Vamos até minha sala, preciso prescrever alguns medicamentos para a dor e lhe passar algumas instruções sobre a recuperação do Duke.

- Sim, claro. Vamos.

Seu acompanhante sentou-se de volta no banco como se um peso lhe saísse das costas, mas Sra. Field me permitiu guiá-la para minha sala.

- Sente-se, por favor.

Eu aguardei até que ela estivesse confortável, aproveitando para pegar uma folha de receita.

- Ele deverá tomar o remédio durante 10 dias e, no retorno, dependendo de como estiver sua recuperação nós veremos se haverá necessidade de estender mais um pouco o período. Eu aconselho a senhora a comprar um colar elisabetano para ele, evitar coçar ou mordiscar a perna machucada e os ferimentos menores. Caso a senhora tenha receio de trocar os curativos sozinha, pode trazê-lo aqui diariamente para essa troca no horário comercial que o faremos sem custo adicional. O mais importante, entretanto, é lembrar que ele não pode fazer qualquer esforço físico pelos próximos dias, deve descansar bastante, de preferencia em uma caminha bem macia que se molde ao corpo para maior conforto.

- Ele costuma dormir em minha cama. - Ela disse.

- Eu não aconselho que ele continue a dormir em sua cama por enquanto, qualquer esforço de subir ou descer, pode prejudicar sua recuperação, é mais adequado evitar essa possibilidade. Eu quero que a senhora também verifique de três a quatro vezes se os dedos dele não estão inchando, se a senhora perceber mudança ligue imediatamente. O meu número está na receita e posso ser alcançada a qualquer hora. Como Duke já tem certa idade pode levar até umas 12 semanas para cicatrizar totalmente, a duração das caminhadas dele vão ser aumentadas gradualmente, mas por hora eu quero que ele permaneça o mais quieto possível...

Mais tarde, após todas as instruções que pude passar a Sra. Field, fui elogiar Eirika pela anestesia que ela havia aplicado mais cedo. Ela tinha acabado de receber sua medalha RCVS, completado seu treinamento com louvor, mas ainda precisava de um empurrãozinho para ter mais confiança em suas habilidades.

Ela estava do lado de fora, na saída dos fundos. Um cigarro nas mãos.

- Ei, como estamos aí? - Eu perguntei, a mão dentro dos bolsos do jaleco.

Eirika ia dar uma tragada, mas parou e mexeu as mãos nervosamente.

- Desculpe pelo nervosismo, Lily. - Ela pediu já deixando de lado a formalidade que ela, Anna e Jordan tinham comigo durante o expediente - Eu treinei isso tudo, mas tenho muito medo de errar. Meu padrasto bem disse que eu não serviria pra essas coisas. Sou muito mole.

- Eirika. - Eu pus uma das mãos em seu ombro e ela me olhou - Só pelo fato de você amar o que faz, já demonstra que você "serve para isso". É normal estar insegura, você acabou de receber sua medalha. Respire fundo e lembre-se de tudo o que você aprendeu. Você se saiu espetacular hoje. Eu não poderia estar mais orgulhosa e mais feliz por ter contratado você.

Ela desviou o olhar, já cheio de lágrimas e encostou a cabeça no muro da clínica.

- Obrigada, Lily. Significa muito para mim.

Sorri. Eirika é do tipo pedra preciosa que precisa apenas ser polida, ela não tinha medo de trabalho, estava disponível para as emergências da clínica sempre que eu chamava e era muito dedicada, estava sempre lendo e estudando. Com o incentivo certo, ela e Anna poderiam tomar a frente com toda autonomia em mais de 70% dos casos que recebíamos que incluíam pequenas cirurgias e exames. O que faria da vida de Edgar e eu muito mais fácil com divisão mais uniforme de trabalho.

- Jordan disse que vai fechar a clinica hoje, vá pra casa e descanse a cirurgia que fizemos foi complicada. - Eu lhe apertei o braço com carinho antes de entrar, mas então voltei - Ah, e pare de fumar. Faz mal a sua saúde.

Ela sorriu assentindo.

- É o plano.

Caminhei preguiçosamente até minha sala para guardar o jaleco e pegar a jaqueta e a chave do cadeado da bicicleta.

Meu Deus.

Pensei comigo enquanto rodava meu pescoço tentando liberar a tensão.

Tudo o que quero agora é uma taça de vinho argentino e uma massa picante. Talvez um banho rápido, antes da comida. E uma massagem nos pés. Oh, sim. Uma massagem seria sensacional. Me peguei perguntando se James e Hugh teriam resolvido o problema com meu fogão, eu ainda tinha pasta em casa e poderia fazer um molho rápido para jogar em cima.

Entrando em minha sala tomei um susto ao encontrar James. Ele estava de costas para a entrada, os jeans servindo suas pernas com perfeição e as costas largas em uma jaqueta.

- James? - Eu chamei.

- Eu nunca tinha entrado na sua clínica antes. - Ele disse analisando minha sala -Quero dizer, é óbvio, eu não tinha motivos para isso.

- O que está fazendo aqui? - Eu perguntei curiosa enquanto tirava o jaleco - Ele virou para mim por total e pude ver em sua jaqueta parcialmente fechada a carinha de Coffee que parecia sonolento. - Oh, meu Deus! Você trouxe, Coffee. É perigoso andar por ai com ele assim James.

- Por que?

- Bem, ele pode pular, o que não é uma distância apropriada para um gato tão novo como ele, e correr para a rua por exemplo. Sofrer algum acidente.

E não estou nem mencionando o fato de que você corre sério risco de ser atacado por pessoas. Andando por aí com essa aparência de tirar o fôlego e ainda por cima amante de animais.

Claro que eu mantive esse argumento apenas para mim.

Ele sorriu.

Ah, qual é? Ele lê pensamentos agora?

- Vou lembrar disso. Você já terminou?

- Já sim, como ficou o fogão? - Perguntei pegando minha jaqueta e a chave.

- Está funcionando. - Então ele piscou - Claro, eu fiz a maior parte do trabalho.

- Se bem me recordo, Hugh e Remus fizeram a maior parte do trabalho.

- Ei, alguém tinha que ler o manual e dar as instruções. - Ele disse fazendo-me rir.

Sua mão alcançou a minha, que segurava a chave.

- Vamos, eu vou mostrar pra você como sou incrível até mesmo pedalando uma bicicleta.

Revirei os olhos com um sorriso enquanto andávamos para a porta dos fundos.

- Você não precisa fazer isso, ó ser perfeito - Eu debochei fingindo uma reverência.

- Não, não. - Ele alterou a voz, deixando-a mais pomposa e gesticulou exageradamente com uma das mãos - Eu quero. Vou lhe dar a honra de pegar carona comigo.

Já do lado de fora, onde ficava minha bicicleta, coloquei uma das mãos no peito fingindo emoção.

- Quanta honra.

Ele me deu Coffee, que logo procurou o espaço vazio entre minha jaqueta e meu tronco e se abaixou para destrancar a trava.

- Com licença, Sr. Perfeito, mas você por acaso já pedalou levando uma pessoa de carona?

Ele riu abaixando a cabeça, fazendo com que seus óculos escorregassem um pouco para frente. Colocando-os no lugar após ter liberado a bicicleta ele levantou e arqueou uma sobrancelha para mim.

- Eu perdi a conta de quantas vezes Sirius e eu voltamos para casa assim quando éramos mais jovens. Acredite, levar uma pessoa sóbria e um gato não é nada comparado a levar Sirius completamente desacordado.

A imagem atingiu minha mente com tamanha perfeição que eu poderia jurar ter presenciado um dessas momentos.

- Então é por isso que sua mãe disse ter dormido tão pouco nessa época. - Eu ri.

- Mamãe lhe falou sobre isso? - James me lançou um olhar misto de surpresa e curiosidade enquanto montava na bicicleta e me esperava fazer o mesmo.

- Bem, eu não passei a noite inteira bêbada, você sabe. - Eu lhe disse jocosa enquanto subia no espaço livre entre a sela e o guidom.

- Você estava bem fora de si eu diria. - O sorriso de canto que ele era especialista em dar apareceu.

- James Potter - Eu disse e ele deu um impulso começando a pedalar - Você ainda não me viu bêbada.

- Uh, eu tenho cerca de absoluta certeza que você estava bêbada no dia da despedida de Alice.

Mordi os lábios.

Não existia bem uma maneira de negar essa.

- James Potter - Falei novamente - Você só me viu bêbada uma vez.

Sua risada soou em meu ouvido, o vento ainda levemente gelado jogava meus cabelos contra o peito dele.

- Não pode perder uma não é, Evans? - Ele murmurou divertido e baixou a cabeça encostando o nariz agora gelado em minha testa.

- Preste atenção na rua, Potter. - Eu lhe cutuquei de leve com o cotovelo - Você pode ser multado por isso.

James afastou o rosto de minha testa e levantei o olhar para ele que tinha uma expressão cética no rosto.

- Está falando sério?

- Sinceramente, não sei. - Eu ri.

Não me surpreendeu quando James enfrentou o caminho para casa sem maiores problemas, o cara era mesmo bom em diversas coisas, eu tinha que reconhecer.

- A propósito - Ele falou de repente parando em um sinal - Sirius está chateado com você.

- O que? Por que?

- Ele disse que foi excluído da reunião que você fez na sua casa.

- Bem, você disse a ele que três das pessoas que estavam, lá não foram exatamente convidadas?

- Ei, só estou passando o recado.

- E por que ele não está com raiva de você? - Eu reclamei - Afinal você poderia ter ligado para ele.

- Ninguém jamais fica com raiva de mim por muito tempo, Evans. - Ele se vangloriou - Eu sou irresistível.

Revirei os olhos.

- Bom, isso explica a falta de resposta dele quando mandei um texto perguntando se você estava em casa.

James riu.

- Ele é bem temperamental.

Já havia escurecido quando James entrou no pequenino estacionamento para bicicletas do prédio, ele parou esperando que eu descesse, para poder trancar a bicicleta no local próprio.

Eu lhe entreguei Coffee, que agora já estava muito acordado e miava provavelmente por comida.

- Obrigada - Eu disse a ele quando começamos a subir as escadas.

- Pela carona?

Assenti.

- Não é como se estivéssemos de fato juntos, você não precisava ter feito isso por mim. - Eu disse chegando a conclusão de que a rigor, pouquíssimos homens teriam se disposto a ir até meu trabalho e levar-me de volta para casa.

Puxei o celular do bolso da jaqueta.

"Pare de ser um babaca"

Mandei para Sirius.

"Eu não estou falando com você"

Ele respondeu, como uma criança, não muito depois.

"Você acabou de falar, Sirius"

Ele começou a digitar para me responder, mas então parou. Começou outra vez. E parou.

Eu quis rir.

"That's not talking, it's texting"

Ele finalmente respondeu.

"Tanto faz" "Por que você não está com raiva de James também?"

"Eu estou." "Eu acabei de desorganizar as notas em ordem alfabética que ele tem no escritório"

Não consegui segurar um riso baixo. James olhou para mim desconfiado.

"Cruel"

Respondi irônica.

"Pra você, musa dos sonhos dele, é fácil falar." "Ele já me deixou trancado pro lado de fora do apartamento por dois dias por causa disso" "Se você tivesse feito ele provavelmente ainda transaria com você por cima dos papeis"

Corei.

De forma furtiva lancei um olhar de canto à James.

Lógico que ele transaria, estamos falando de James Potter, não é mesmo?

"Você está falando de sexo, isso quer dizer que já passou sua raiva de mim?"

"Estou pensando"

Com um sorriso pensei a que ponto cheguei. Estou preocupada se Sirius Black está com raiva de mim.

Eu não tenho salvação.

Ao alcançar minha porta, James tirou a chave de meu apartamento do bolso e o abriu gesticulando para que eu entrasse primeiro. Eu pus os pés para dentro do apartamento tirando a jaqueta e virando-me para agradecer mais uma vez quando eu o vi fechando a porta atrás de si.

Pisquei duas vezes.

- O que você está fazendo? - Perguntei enquanto ele liberava Coffee para explorar minha casa e tirava os sapatos perto do porta guarda-chuvas clássico que eu tinha ganhado de minha mãe.

- Tirando os sapatos - Ele disse com obviedade.

- Isso eu posso ver. - Rebati com um revirar de olhos - Quero saber o que está fazendo aqui. Você errou de apartamento se não percebeu.

- Oh, eu percebi. - James sorriu divertido e fez seu caminho para a cozinha.

- Ok, foi proposital, entendi. Agora explique por quê.

Eu o segui parando no batente da cozinha, James, já sem a jaqueta, lavava as mãos na pia.

- Eu acho que depois daquela cirurgia você merece um pouco de vinho, uma massa e... - Ele me olhou maroto - ... Se você for boazinha, uma massagem nos pés.

- Como você...? - Eu balbuciei acompanhando-o com os olhos enquanto James explorava meus armários a procura de panelas e minha geladeira por ingredientes.

- Você não é a única que estava prestando atenção naquela noite. - E me piscou ao mesmo tempo em que enchia a panela escolhida de água.

Mordi os lábios pela milésima vez no dia para evitar o gritante sorriso que ameaçava aparecer.

- Quais são exatamente os requisitos para que eu qualifique para uma massagem nos pés? - Perguntei.

- Banho tomado, estômago vazio e seu delicioso traseiro sentado confortavelmente no seu sofá. - Ele respondeu, o sorriso de lado conquistador surgindo ao abrir a caixa de pasta que eu tinha para por na água.

Bem, ele não poderia deixar de mencionar meu traseiro. Afinal ele é James Potter.

- Parece plausível. - Eu disse dando-lhe as costas para cumprir a primeira condição, mas então dei um pequeno passo de volta para olhar por cima do ombro e lhe dizer: - Esteja avisado que se eu pegar você entrando no meu banheiro por qualquer motivo diverso de: prestação de socorro, calamidade ou desastre natural, o seu delicioso traseiro vai parar lá embaixo, Potter.

- Eu sempre soube que você gostava do meu traseiro, Evans.

Eu ri não me incomodando em negar já que seria uma mentira absurda.

Mais tarde eu estava tomada banho, em um conjunto de pijama de short e blusa e enrolada em meu cobertor favorito no sofá da sala em frente a TV. Havia esfriado como de costume nas noites de primavera e mesmo com as janelas fechadas em sua maioria - a janela da cozinha estava parcialmente aberta enquanto James cozinhava - a temperatura ainda era agradável o suficiente para um cobertor e por vezes até meias.

- Então - James disse aparecendo da cozinha e entregando-me uma taça de vinho - Pronta para a melhor massa de sua vida?

- Só me dê logo, estou faminta. - Eu reclamei com um gemido e minha barriga reclamou com seu próprio barulho especifico.

James trouxe, na única bandeja que eu tinha, dois pratos bem servidos e uma segunda taça de vinho, depositando-a na mesa disposta em frente ao sofá. Antes de depositar minha taça na mesa para tomar o prato em minhas mãos, eu tomei um gole do vinho, adorando a forma como ele queimava de forma suave em minha garganta, esquentando meu corpo.

- Está gostoso, Evans. - Ele avisou sério mas depois deu um sorriso sacana - Como o cozinheiro.

Eu, que levava um punhado enrolado em meu garfo à boca, não pude evitar o riso que surgiu.

- Você é tão prepotente. - Falei com um sorriso antes de comer.

- Eu não poderia ser perfeito - James desculpou-se irônico - Você sabe, senão eu seria algum tipo de celebridade ou algo assim.

Oh, meu Deus.

Minha cabeça caiu para trás, no encosto do sofá, e soltei um gemido involuntário.

- Isso está divino. - Eu disse assim que terminei de engolir levando prontamente outra garfada à boca.

Eu pude sentir o sorriso de James se formando sem nem mesmo distingui-lo com minha visão periférica. Meu cérebro estava todo concentrado no prato de comida que eu tinha em minhas mãos.

- A propósito - Eu disse pausando para limpar a boca e tomar mais um gole de vinho. - Você já é "algum tipo de celebridade ou algo assim". As pessoas fazem fila para ter o seu livro autografado.

- Nah, eu sou eu escritor que deu sorte, Lily. - Ele respondeu conformado entre garfadas.

- James, seus livros são muito bons.

James parou de comer e virou-se inteiramente para mim.

- Você lê meus livros? - O tom descrente era genuíno.

- Muita gente lê - Falei defensivamente e logo procurei focar o assunto em outro lugar. - O que estou dizendo é que a sorte conta muito, mas se você não fosse bom não lhe adiantaria de nada.

- Você lê meus livros. - Ele afirmou dessa vez.

Eu enchi a boca de mais massa para não ter que comentar.

- O que você está achando deles? - James perguntou curioso voltando a comer.

Essa era sem dúvidas a última pergunta que ele poderia me fazer. Eu simplesmente não tinha autocontrole suficiente para oferecer-lhe uma resposta que qualquer pessoa normal daria. Desde a leitura do primeiro livro eu tinha mergulhado tão fundo no universo que ele havia criado que Lene e eu facilmente discutíamos os possíveis desdobramentos da sequência que James ainda estava escrevendo de forma aleatória.

E aleatória é a exata palavra para isso.

Marlene chegou a me mandar um áudio certa madrugada - que só fui ouvir pela manhã - com sua teoria sobre o assassino que Morgan estava perseguindo. No áudio era possível ouvir o barulho de água enquanto ela falava, curiosa, perguntei o que ela estava fazendo as três horas da manhã pensando no livro de James. Lene respondeu que havia levantado da cama para fazer xixi e no caminho para o banheiro - que fica bem ao lado da cama dela - a teoria surgiu de forma inesperada em sua mente.

Virei totalmente para ele no sofá, as pernas cruzadas para descansar meu prato nelas.

- Ok, já que estamos tocando no assunto você pode me dizer se o assassino é Krauser ou Warwick? Eu estou inclinada a pensar que seja Warwick por causa daquele comentário que ele faz no final do capitulo onze. Oh, e pelo amor de Deus, quando Sebastian vai descobrir a droga da nota que Nicole deixou para ele na droga do livro que ele vivia folheando e de repente não toca mais?

A boca de James se torceu em um sorriso.

- Você vai ter que esperar como todo mundo para descobrir.

Revirei os olhos em agonia.

- Vamos lá, sou sua vizinha favorita.

- Você, minha cara, é minha única vizinha. - Ele riu e levou mais uma garfada a boca.

- Isso não é verdade. Sra. Silverfox é sua vizinha. Hugh é seu vizinho.

- Eu quis dizer do andar. - Ele depositou o prato já vazio na mesa e tomou a taça de vinho para mais um gole.

- Você não vai mesmo me contar? - Eu levantei o garfo com mais um punhado de pasta enrolada nele.

- Não.

- Nem se eu disser que você está sendo um escroto egoísta? - Eu disse com a boca meio cheia, cobrindo-a com a mão para falar.

Ele riu.

- Tentador, mas não.

- Droga.

Marlene atiraria coisas e socaria o travesseiro/almofada/superfície fofa com menor potencial lesivo que estivesse mais perto em revolta quando eu dissesse isso a ela.

Permanecemos calados por um momento enquanto eu terminava de comer, o silêncio era, por mais inacreditável que me fosse, confortável.

- Eu jamais adivinharia que você sabe cozinhar - Falei de repente.

James, que não parecia ter planos para voltar a sentar de frente para a TV e bebericava devagar seu vinho, deu de ombros:

- Sou bom em seguir instruções.

- Oh não, você está brincando comigo. - Eu apontei com a mesma mão que segurava minha taça para o prato agora vazio na bandeja - Vai me dizer que é a primeira vez que você cozinha isso?

- Eu já havia preparado massa antes, esse molho foi a primeira vez.

- Cala a boca. Não acredito. - Olhei completamente desacreditada para ele.

- Como eu disse: - James abriu os braços em conformidade: - Sou quase perfeito, se você excluir a prepotência eu sou praticamente uma divindade.

- Está certo, sua divindade - Afastei os cobertores e peguei a bandeja para levá-la de volta a cozinha - Você fica ai fazendo esse "negócio de perfeição que você faz" e eu vou buscar meu sorvete favorito.

Na cozinha depositei os pratos na pia, jogando um pouco de água antes de tomar a decisão de lavá-los pela manhã. Abri o congelador para pegar meu último pote de sorvete Rocky Road, parando na gaveta de talheres para pegar duas colheres enquanto trocava o pote de mão por causa da temperatura, fechei a gaveta com um empurrãozinho do quadril e voltei para a sala com o pote de sorvete enrolado em um pano de prato pra não congelar minhas mãos. James já havia ligado a TV e trocava de canais demorando-se um pouco mais em alguns. Retomei meu lugar na outra ponta do sofá abrindo o pote de sorvete e foi ai que atingiu-me toda a absurdez da situação:

Caralhos. James Potter havia cozinhado para mim, jantado comigo e agora - sentado confortavelmente em meu sofá - trocava canais a procura de algo interessante para assistir. E eu estava prestes a dividir meu sorvete favorito com ele.

Eu comecei a rir descrente.

- Oh, este está começando. - James disse ainda olhando para a TV.

Lancei um olhar para a tela levando ao mesmo tempo a colher ao pote, então fiz uma careta:

- Nada que seja muito gráfico por favor.

- Está falando sério? - Ele riu e olhou para mim - Não é nada que você não tenha visto, quero dizer você abre animais diariamente.

- Primeiro - Eu disse lhe oferecendo uma colher - Não é diariamente. E depois eu estou vendo entranhas por necessidade não porque um psicopata resolveu cortar alguém ao meio.

- Rocky Road? - Ele perguntou depois de levar uma colherada de sorvete a boca.

- Considere-se sortudo por estar dividindo esse pote comigo, é o último que tenho. - Falei em tom de seriedade.

- Não é que você tem bom gosto, Evans? - Ele arqueou uma sobrancelha para mim.

- Como assim? É claro que eu tenho bom gosto! - Rebati em revolta sentando-me por cima das pernas e virando para ele. - Diga uma vez em que eu não soube escolher alguma coisa.

- Então... - James mudou de assunto divertido - ... Esse filme é um não. Você é do tipo comédia romântica?

- Não pense que vai escapar daquele comentário - Estreitei os olhos para ele - Sou 10% do tempo, outros 50% sou do tipo suspense. O resto é dividido em ação e fantasia.

- Sorte a sua, eu acabei de achar um de suspense ótimo. - Ele disse largando o controle na mesa após a escolha do filme e pegou mais um pouco de sorvete do pote antes de levantar para apagar a luz da sala - Com sinceridade, você escolheu suspense para ter um motivo para dormir agarrada em mim?

Gargalhei acomodando confortavelmente minhas costas no braço do sofá, ainda de frente para ele enquanto James tomava seu lugar de volta no sofá.

- Não precisa disfarçar se você estiver com medo, Potter.

- Se eu estiver, você vai me deixar dormir agarrado com você? - James acertou-me com um de seus deliciosos sorrisos de canto ao acomodar-se no braço oposto do sofá.

- Em seus sonh-

Fui interrompida quando James agarrou um de meus pés por baixo do cobertor.

- Vamos ver... - Ele murmurou com as mãos pressionando os pontos corretos na sola de meu pé - É, parece que você anda bem tensa, Evans.

- Potter, se você não estivesse com meu pé em suas mãos fazendo um trabalho tão sensacional, eu me daria ao esforço de dar-lhe uma resposta.

- Oh, acho que você tem que adicionar mais uma qualidade em minha longa lista.

Odeio você.

Pensei revoltada enquanto ele massageava com habilidade.

Como uma pessoa poder ser tão capaz em tantas áreas?

Resignada, apenas levei outra colherada de sorvete a boca e acomodei-me melhor entre o cobertor e o sofá.

Durante a madrugada meu celular começou a tocar, depressa estendi a mão para tatear meu criado-mudo e achar o aparelho. Estranhamente, ele veio parar em minha mão com facilidade curiosa.

- Dra. Lily Evans, plantão animal. Em que posso ajudar? - Eu murmurei de forma automática tentando segurar um bocejo.

Era Sra. Fields do outro lado.

- Dra. Evans, há algo de errado com Duke. - Ela disse nervosa.

- Acalme-se e diga-me exatamente quais são as condições dele. - A voz agora mais firme, mais alerta.

- Ele sempre levanta a cabeça para me ver quando eu passo para beber água, sempre. Acabei de levantar e ele nem se moveu.

- Sra. Fields, com tranquilidade coloque dois dedos em frente ao focinho dele para verificar se ele está respirando.

Esperei alguns segundos.

- Sim. Está.

- Certo, agora eu quero qu-

- Oh. Ele se mexeu. Está abrindo os olhos. E… bocejando. Talvez... - Ela começou um tanto embaraçada - Talvez ele só estivesse dormindo.

Sorri.

- Desculpe-me - Sra. Fields pediu mas eu logo a interrompi.

- Não se desculpe, sua preocupação é natural. - Eu a tranquilizei - Sinta-se a vontade para ligar sempre que necessário.

- Obrigada, Dra. Evans. Boa noite.

- Boa noite. - Respondi para então bocejar com vontade.

- Já acabou? - Uma voz sonolenta e arrastada soou no meu ouvido.

- Uh-huh. - Eu lhe respondi e o celular magicamente sumiu de minha mão da mesma forma que apareceu.

Troquei de posição, voltando para o lado direito - meu preferido - quando me toquei.

- Mas que porra...? - Eu exclamei e me afastei assustada para o outro lado da cama.

Só que eu não estava em minha cama, eu ainda estava no sofá da sala. O braço esquerdo de James voou para alcançar a base de minhas costas e impedir-me de cair no tapete.

- Shiu. - Ele pediu puxando-me de volta para perto de seu corpo e ajeitando as cobertas.

Meu coração batia tão rápido que eu tive medo de ter uma síncope. Ou de que James pudesse ouvi-lo.

- Por que você está no meu sofá? - Eu sussurrei por algum motivo que não consegui compreender.

- Você não pareceu se importar depois que usou meu peito de escoro e lhe fiz uma massagem no pescoço - Ele murmurou ainda sonolento. - Podemos brigar amanhã? Eu quero muito voltar a dormir.

Eu fiquei calada por alguns momentos tentando absorver a situação. De fato, eu estava lembrando da massagem fantástica que ele havia feito em meus ombros e pescoço.

- Vou tomar isso como sim. - James disse e gemeu baixo ao se acomodar melhor.

Passei mais alguns minutos tentando relaxar o corpo, quando o cutuquei no peito que estava virado para mim:

- James? - Sussurrei.

Sem resposta.

- James? - Tentei de novo.

- O que foi? Você quer que eu vá?

- Não. - Eu respondi sincera - Só mova um pouco o seu braço mais para cima.

Ele o fez e eu me ajeitei melhor, lentamente relaxando.


Minhas queridas, desculpem mesmo todo o atraso em Naturalmente, Vício e Odeio.

Os últimos anos foram loucos e bem intensos com o TCC e a OAB. (Yay, sou advogada)

Vou procurar organizar meu tempo melhor esse ano, essa é uma de minhas metas de ano-novo.

De qualquer forma peço que tenham paciência comigo, estou no momento com 2 pós (tributário e responsabilidade civil), uma inscrição para mestrado, e 5 cursos paralelos de filosofia, lógica, direito internacional, direito americano e sobre a história da common law. Eu sou louca, eu sei.

Obrigada pelo apoio e pelas reviews maravilhosas, li todinhas. Mais de 3x inclusive. LOL Vocês são minha inspiração!

Beijos no coração.