O primeiro dia do resto de nossas vidas

Capítulo 2

Amanheceu, pela ampla janela de madeira, a brisa marinha soprava mansamente e esvoaçava as cortinas brancas. Da entrada do quarto, Ikki observava o espetáculo do nascer do sol naquele lugar abençoado pela paisagem azul do mar egeu que entrava pela imensa janela, alinhada ao cômodo impecável em branco, e o marrom lustroso da madeira e, mais ainda, pela imagem plácida do loiro nu estendido sobre a cama, os cabelos dourados espalhados por suas costas de um marfim impecável. O corpo desenhado, esculpido, delgado, mas másculo, longe de ser algo delicado, mesmo assim, atraente, viril, delirante...

O moreno ficou um tempo perdido no que via; o vento que fazia os tecidos brancos voarem e agitavam os bambus chineses nos vasos vermelhos próximos a janela, fazendo-os se curvarem e tocarem a sacada; os cabelos loiros que eram erguidos e flutuavam como algo sobrenatural, embora seu dono continuasse imóvel. Não soube por que seu coração se emocionou, talvez fosse pela combinação de beleza daquele inusitado quadro, talvez pela pureza que aquele ambiente demonstrava.

Na noite anterior, literalmente, o colocara na cama; o artista parecia meio acanhado em se ver tão dependente, Ikki achou isso, embora ele nada dissesse. Shaka parecia mesmo não ser acostumado a beber, mesmo assim, insistiu em tomar banho sozinho. O moreno permitiu, afinal, eram completos estranhos, mesmo que uma estranha atração tenha brotado imediatamente ao conhecê-lo. Depois de alguns minutos, ele voltou ao quarto envolto num roupão, parecia melhor, indicou a ele o quarto de hóspedes e pediu para que se retirasse, pois necessitava de sono. Ikki fez o que ele mandou, deixou-o sozinho e foi dormir, também estava cansado. Agora, chegara o momento de ir embora; mas precisava esperar o loiro acordar. Sua vontade era partir antes que aquele arrogante acordasse e estragasse pelo menos aquela única boa recordação que teria do encontro dos dois, sim, porque seu rosto ainda ardia ao se lembrar de cada palavra desdenhosa lhe dirigida por aquele que dormia.

Bufou com os próprios pensamentos e deixaria a soleira do quarto, não deveria ficar ali o espionando, o que estava fazendo?

- Não precisa fugir, garoto...

A voz indiferente e irritante falou no momento em que Ikki deixava a soleira da porta. O moreno parou e voltou-se; o homem loiro sentou-se na cama, ajeitando as longas madeixas de forma sensual e pedante; não parecia nem um pouco embaraçado em ver-se nu na frente de um desconhecido.

- Não estava fugindo... – justificou-se Ikki – Já é dia, preciso ir embora.

- Tome um café e um banho; não precisa escapar como um ladrão... – ergueu-se da cama, caminhando elegantemente para o imenso banheiro atrás do closet – Tomarei um banho, enquanto isso, você pode, se quiser, preparar um café pra nós dois, o que acha?

O moreno hesitou, depois deu de ombros.

- Certo, por mais vinte euros, faço até panquecas se quiser...

- Então eu quero, senhor faz tudo! – o loiro gritou de dentro do banheiro, e o moreno sorriu, bem, talvez perdesse algumas aulas, mas com certeza aquela manhã poderia ser muito lucrativa.

-OOO-

Camus, como de costume, chegou as nove à empresa, delegando algumas ordens antes de seguir para sua sala. Passou pela repartição e observou as secretárias que conversavam e riam ao lado de um homem estranho.

O executivo se aproximou, observando o rapaz, ele aparentava ter entre vinte a vinte e sete anos, era alto, cabelos loiros longos e cacheados, pele bronzeada e um sorriso... Um sorriso que parecia fascinar todas as moças que o cercavam.

O ruivo pigarreou e isso fez que a reuniãozinha se dissipasse, as moças voltaram para suas mesas, e sua secretária se aproximou muito embaraçada.

- Bom dia, senhor Verseau...

- Bom dia, senhorita Nikos, posso saber o que está acontecendo aqui?

- Ah, perdão, senhor Verseau, é que... bem, esse é o Milo, nosso novo office-boy, estava apresentando-o as outras secretárias...

Os olhos frios de Camus examinaram o outro homem que ergueu seu olhar para ele. O ruivo sentiu-se embaraçado e preso aquelas maliciosas orbes azuis esverdeadas. O loiro, que trajava uma calça jeans e uma camisa pólo azul, fardamento dos funcionários do baixo escalão das indústrias Cignus, sorriu para ele e estendeu-lhe a mão.

- Muito prazer, senhor Verseau, sou Milo Seferis, ao seu dispor...

Camus segurou a mão do rapaz num aperto de mão firme e logo a deixou.

- Se já foi apresentados a todos, espero que a partir de agora, exerça suas funções ao invés de ficar conversando com as secretárias. Senhorita Nikos, não quero que se repita uma cena como a que vi agora, fosse Dimitri ao invés de mim que chegasse, estariam em uma grande encrenca.

- Sim senhor... – respondeu a mulher embaraçada, e o rapaz loiro continuava sorrindo, não parecendo nem um pouco intimidado pelo homem de terno escuro e cabelos vermelhos.

Quando Camus deu as costas, entrando em sua sala, a secretária se virou para Milo.

- Isso não é um homem, é um demônio! Nós o chamamos do "demônio de cabelos de fogo" – resmungou.

- Sim, mas um demônio interessante... – riu o jovem grego – Muito interessante mesmo...

A mulher o mirou, decepcionada.

- Você... eh, você é gay? – ousou perguntar desapontada.

- Não, meu amor, claro que não! – piscou o loiro – Nossa noite está garantida, pode deixar comigo...

Ele sorriu e saiu andando pegando o capacete que estava sobre uma mesa. A senhorita Nikos corou, mas sorriu também, feliz por aquele monumento tê-la convidado para sair. As outras secretárias, enciumadas, observavam enquanto o lindo loiro se afastava, o comiam com os olhos.

- Agnes, você é a mulher mais sortuda dessa repartição. – disse uma – Ele é simplesmente lindo!

- É mesmo, por que vocês acham que o contratei? – a moça de cabelos castanhos riu e convidou as outras a voltarem a seus afazeres.

-OOO-

Shiryu cruzou com Shura quando passou por sua repartição das indústrias Cignus e rumou até a sala que dividia com Hyoga. Porém, o filho do chefe só estaria na empresa à tarde, pois pela manhã estava preso a faculdade.

O capricorniano logo foi encontrá-lo jogando uma grossa papelada em sua mesa e o encarando. Os olhos verdes do chinês examinaram a expressão aborrecida do executivo espanhol; suspirou resignado. Sabia que teria, em algum momento, que esclarecer alguns pontos com Shura, mas estava sem nenhuma paciência para aquilo, naquele momento. Primeiro por estar com uma parcial ressaca da festa da noite anterior, segundo porque conversar com Shura implicava em falar de problemas pessoais, e estavam dentro do escritório naquele momento, local mais que inadequado.

- Shura...

- À noite, em minha casa, Shiryu... – o espanhol cortou, e o rapaz chinês sorriu, balançando a cabeça. O temperamento do espanhol sempre era capaz de desarmá-lo. Possuía muito respeito pelo executivo, aprendera muito com ele e desenvolveram uma relação tão próxima que acabou na cama, desde que chegara a Grécia há um ano. Entretanto, Shiryu não o amava, assim como acreditava que também não era amor o que o espanhol sentia por ele; e por isso, estava decidido a terminar a relação.

O executivo chinês sabia, a contra gosto, que não seria fácil dizer não ao amante. Shura Aguille era um homem acostumado a dar a última palavra em tudo, a dominar os adversários e mesmo os aliados com seus penetrantes olhos negros e subjugar quem quer que fosse, não seria diferente com ele; mesmo porque, para o capricorniano, Shiryu Suiyama era mais que seu amante, mais que seu amigo, era sua propriedade, seu bem, - brinquedo? Talvez - mais precioso.

- Shura, não irei hoje à noite a sua casa. – Shiryu declarou, sabia se fosse à casa do moreno, acabariam na cama, e já estava na hora de terminar com aquilo de uma vez.

- Não? – o espanhol riu – Então irei a sua, o que acha...

- Shura, sejamos sensatos, com o humor que está, ficará impossível qualquer conversa entre nós, e...

- E? vamos, Shiryu, diz alguma coisa que me convença de que não está fugindo de mim?

O chinês suspirou com enfado.

- Tenho um seminário importante amanhã na faculdade, Shura, preciso estudar...

O outro executivo riu, passando as mãos nos cabelos curtos e repicados.

- Você acha que me convencerá com essa desculpa esfarrapada, Shiryu?

- Não é esfarrapada, simplesmente não quero encontrá-lo hoje à noite. Preciso muito estudar, e sendo ainda mais sincero, sinto muito ter que lhe dizer isso, mas você tem me sufocado.

- Sufocado?

- Shura, por mais que goste de você, não é meu dono, e tenho o direito de fazer o que quiser de minha vida sem que tome participação.

- Está falando daquela idéia...

- Sim, estou falando daquela idéia da qual ainda não desistir e, por favor, compreenda...

Shura bufou;

- Vamos fazer o seguinte, Shiryu, vamos trabalhar, no final do expediente conversamos.

O espanhol proferiu as palavras e saiu, sem chance do rapaz chinês retorquir. Shura era daquele jeito, não gostava de ser questionado, seus pensamentos e ações eram verdades absolutas e não gostava de rebeldia.

Shiryu respirou fundo; terminar aquela relação não seria fácil, mas precisava ter coragem, estar com Shura não o fazia feliz, sua vida estava fútil e vazia e não gostava disso, precisava algo para preencher aquele vazio de sua alma, e era isso que estava em busca, uma razão para viver.

-OOO-

Shaka saiu do banheiro minutos depois, aspirando o delicioso cheiro de café que dominava a casa.

- O meu é com creme e sem açúcar. – declarou, e Ikki se virou.

O vento novamente esvoaçaram os cabelos do loiro, e o moreno sempre se via perdido, encantado com aquela imagem. Porém, mantinha o olhar firme e sério, não queria de forma alguma ficar vulnerável na presença daquele homem arrogante. Virou-se e colocou o café na caneca, colocando o creme abundantemente e depois a entregando ao loiro que já estava bem próximo a ele; percebeu que de sua pele saía um cheiro verde fresco, como se fosse o cheiro de um bosque molhado de orvalho ao alvorecer, algo encantador, contagiante e másculo...

Shaka pegou a caneca e experimentou o café, sorrindo em seguida.

- Hum... nem todos acertam de primeira...

- Os vinte euros... – Ikki ignorou o comentário e estendeu a mão – Não achou que seria de graça, não é?

- Nada nessa vida é, meu rapaz. – afastou-se ainda sorvendo o café e retirou um talão de cheques de uma cômoda de bambu.

- Qual o seu nome, garoto?

- Ikki Amamiya, e preferia que me pagasse em dinheiro.

- Estou fazendo um cheque de duzentos euros...

Ikki arregalou os olhos, e coçou a cabeça numa atitude característica de nervosismo. O que aquele homem queria afinal?

- Por que duzentos euros? Não acha que é muito por um café?

Shaka se levantou e , mais uma vez, repetiu o gesto de realinhar os fios loiros, jogando a cabeça pra trás.

- Duzentos euros pela semana...

- Pela semana? Mas o que...

- Para vir fazer meu café por uma semana, o que acha?

- Eu... eu não posso, estudo pela manhã...

- Pena... – Shaka sorriu e lançou um olhar malicioso ao moreno oriental – Adorei seu café.

Ikki titubeou, perdido ainda nas ações daquele homem, o que deveria fazer? O que deveria dizer?

- Posso perder algumas aulas, estar aqui logo cedo e depois... – ouviu-se, mas não acreditou.

- Não se sinta obrigado a fazer o que não quer. – retorquiu o loiro – Posso conseguir outro serviçal para fazer meu café...

O moreno o mirou, irritado.

- Então comece a procurar... – disse e começou a andar em direção a porta.

- Mas adoraria se fosse você...

Ikki parou e se voltou; a expressão do loiro era séria, sem nenhum deboche.

- Preciso organizar minha vida...

O indiano voltou a se aproximar dele; um sorriso sensual bailou em seus lábios, mas o olhar indiferente permanecia. Ikki teve vontade de beijá-lo, subjugar aquele riquinho arrogante, embora seu desejo fosse maior que simples vontade de subjugar alguém. Ele de fato queria Shaka, seu corpo pulsava de vontade dele; seu cheiro másculo, seu corpo definido e perfeito como o de uma estátua grega, seus cabelos longos e brilhantes que eram o toque de androginia aquele corpo tão masculino, o rosto de anjo indiferente, a pele de alabastro... Essa combinação perfeita e irritante, como qualquer perfeição, o fazia pulsar de vontade de ter o loiro, de fudê-lo tão forte que ele sangrasse; de desfazer aquele sorriso sarcástico e aniquilar o ar de superioridade blasé que tantas vezes vira em seu rosto, embora se conhecessem há apenas algumas horas. Como aquilo era possível? Sentimentos tão avassaladores em tão pouco tempo?

- Infelizmente, não tenho tempo para que um subalterno organize suas idéias... – disse indiferente – Se quiser vir, é simples, caso não queira arrumo outro cafeteiro ...

Ikki teve realmente vontade de recusar o convite; não era homem de aceitar aquele tipo de ofensa, tratado como um mero serviçal. Mas na verdade, precisava, e muito, de dinheiro; e o artista indiano era por demais generoso.

- Aceito.

- Ótimo, agora vá, volte amanhã, acordo as oito, então preciso que meu café com creme e sem açúcar esteja pronto. Entendeu?

- Sim, entendi. – disse resignado – Posso fazer uma pergunta?

- Claro que sim, assim como é uma escolha minha respondê-la ou não. – sorriu o loiro.

- Por que não contrata uma empregada? Assim seu café com creme e sem açúcar estaria sempre pronto. – a pergunta não deixou de ter um tom irônico, e Shaka sorriu com certo incômodo.

- Já contratei várias, e nenhuma acertou. – o loiro disse se afastando – Bem, você acertou de primeira, meus parabéns, não é fácil me agradar.

As palavras foram ditas de forma casual, depois o dono da casa parou e cruzou os braços como se esperasse que Ikki dissesse algo ou saísse. O moreno optou pela segunda hipótese.

- Então estarei aqui amanhã.

- Certo, senhor...

- Amamiya, Ikki Amamiya...

- Certo, senhor Amamiya, até amanhã, agora preciso trabalhar.

O rapaz mais jovem acenou com a cabeça e saiu sem olhá-lo novamente. Shaka observou enquanto ele saía rápido pela porta, depois, resolveu realmente cuidar de sua vida, e sua primeira resolução era curar-se daquela ressaca.

-OOO-

Era final de tarde, daquele dia em que Hyoga resolveu não trabalhar. Não, estava cheio do estágio na empresa da família e não queria realmente encarar Camus ou seu pai. Aquele dia seria o dia de sua despedida. Passou a tarde passeando pela capital ateniense e escrevendo a sua carta de despedida, na verdade, a última página do seu diário, o diário que possuía as lembranças de sua curta vida.

Sorriu com os pensamentos, pensou que, talvez, quem sabe, alguém um dia não se interessasse pelo pouco que viveu e até publicasse suas memórias. Depois achou que estava sendo vaidoso demais, que memórias poderia ter alguém de vinte anos?

Um janotinha sem história. Repetiu pra si com um sorriso amargo enquanto tomava um café e fumava um cigarro num bistrô em frente à praça Omonia, onde alguns artistas executavam um número de dança e música.

Bem não estava muito interessado. Consultou o rollex que levava no pulso, mais algumas horas até a hora marcada. Sim, tudo para Hyoga havia hora, aprendera aquilo com Camus, era um hábito, um hábito horrível do qual não conseguia se livrar. Bem, ainda tinha tempo, embora isso lhe parecesse uma terrível ironia.

-OOO-

— Ikki, está atrasado! — Seiya reclamou enquanto empurrava o carrinho com as pastas para o arquivo.

- Eu sei! – exclamou o leonino tirando rapidamente a camisa e vestindo a pólo azul das indústrias Cignus.

- Onde você se enfiou depois da festa? A Saori queria fazer seu pagamento e não te achou! – disse o mais jovem, intrigado, ainda parado na entrada do vestiário.

- Minha fuga rendeu setenta euros, tá bom pra você?

- Quem você comeu? – perguntou Seiya curioso.

- Ninguém, Seiya, depois conversamos, vai levar essas pastas para o arquivo antes que alguém nos veja aqui de papo.

- Tem razão. O Afrodite já chegou, e ele está uma arara, parece que foi chamado no céu por causa de algum problema.

Ikki suspirou.

- Então ele está no céu? – riu – Isso é um problema!

- Sim, mas logo descerá para o inferno como nós! – riu Seiya saindo com o carrinho.

Céu, purgatório e inferno, assim era como os funcionários dividiam os setores das indústrias Cignus. O céu, obviamente, era a cobertura onde ficavam os executivos e proprietários; a elite da empresa. Os elevadores eram separados, então, era muito raro o céu ter contato com o inferno, o que criava intensa curiosidade entre os moradores do submundo. O purgatório era o local onde ficavam os que Ikki e Seiya costumavam chamar de "intermediários ou pontes", era onde ficavam os supervisores e gerentes setoriais, responsáveis por dar ordens ao baixo escalão da imensa empresa. Somente um grupo de funcionários tinha acesso a todos os setores das indústrias Cignus, os office-boys.

Seiya e Ikki eram estagiários de administração e trabalhavam no purgatório, tendo como chefe direto Afrodite, que era gerente de operações. A empresa deveria contar com mais de duzentos estagiários naquele ano, mas os dois se orgulhavam de serem dos poucos que conseguiam se destacar no purgatório e que, com certeza, seriam contratado ao final do estágio.

O trânsito entre inferno e purgatório era constante. No inferno ficavam a recepção, a sala de arquivo e os vestiários. No purgatório, os setores operacionais, estoque e salas da gerência. Tudo muito bem separado, muito bem demarcado, um apartheid mudo, discreto que era mais visível quando a questão eram os elevadores. O pessoal que vestia a camisa azul não poderia utilizar os elevadores do pessoal de terno e gravata; de forma alguma! Isso renderia no mínimo uma advertência formal. E assim, o mundo das indústrias Cignus girava a parte do mundo globalizado, onde a cada dia as fronteiras eram diminuídas ou derrubadas. As fronteiras internas do gigante da indústria continuavam firme, forte, um muro de Berlin pós-moderno e intransitável.

Ikki terminou de se arrumar e pegou o elevador para a sua repartição no purgatório, tinha alguns relatórios para entregar a Afrodite, e se o humor do pisciano estivesse realmente ruim, era melhor que não se atrasasse.

Seus pensamentos se perderam um pouco no artista indiano enquanto ele esperava a porta do veículo se abrir. Sorriu numa mistura de irritação e excitação. Não podia negar a atração imediata que sentira por ele, mas, que isso realmente não passasse de uma atração. Não estava disposto a sofrer de um amor platônico por alguém que nunca lhe daria uma chance. Não mesmo.

-OOO-

- Camus, onde está o Hyoga?

O ruivo ergueu os olhos e tirou os óculos que até então examinavam algumas estatísticas numa longa folha.

- Algum problema, Dimitri? – perguntou, não perdendo tempo em responder a pergunta absurda.

- Ele não veio trabalhar, e o celular está desligado, estou preocupado. – respondeu o loiro visivelmente nervoso – Você não sabe onde ele está?

- Não, você mais que ninguém sabe a rotina do seu filho, aliás, a controla muito bem. – Camus voltou a examinar o papel, rabiscando algo com a caneta.

- Adoro essas suas alfinetadas sutis, sobrinho! – ironizou Dimitri – Talvez, você devesse me dizer como agir com meu filho, já que você parece ter muito mais experiência que eu nesse sentido!

Camus balançou a cabeça somente, ainda com a atenção voltada para o papel. O ruivo sabia o quanto o tio ficava irritado por não ser o centro das atenções, principalmente por não ser o centro de sua atenção.

- Não foi uma alfinetada. – respondeu – Sabe o quanto gosto, e o quanto me preocupo com o Hyoga, só que acho também que o garoto precisa respirar. Talvez, tenha saído com a namorada, espairecer depois do que aconteceu no final de semana...

- Já liguei para a Eiri e eles não estão juntos! – respondeu Dimitri, e Camus riu.

- É disso que estou falando, você simplesmente não deixa o Hyoga respirar. Acalme-se, Dimitri, dê um tempo a ele, à noite, com certeza, ele estará em casa.

O loiro suspirou.

- Talvez você esteja certo. – concordou – E os relatórios estão prontos?

- Estou tentando terminá-los. – disse Camus ainda examinando os números.

- Quero isso pra hoje! – declarou Dimitri antes de sair. Camus sorriu, contrafeito. Aquele era o jeito do tio. Dimitri não se conformaria em perder nos argumentos para ele, sem o punir por isso. Agora era pensar numa forma de conseguir terminar aqueles relatórios no prazo que o chefe queria, ao contrário, receberia uma grande bronca, que ele faria questão de fazer pública, no dia seguinte.

-OOO-

Cinco e meia, o sol está se pondo. Está a minha frente o mediterrâneo, minha última vista dessa terra que nada me deu. Ou seria eu a não ter dado nada a essa terra? Acho que sim. Tive tudo, todas as formas de diversão, poder e alegrias que o dinheiro pode comprar. Freqüentei as melhores festas. Conversei com as pessoas mais inteligentes do planeta. Mas nada foi capaz de preencher o meu vazio. Tenho certeza que o problema sou eu. Por favor, não desejo que ninguém se culpe, ninguém. Sou vítima da minha própria insatisfação.

Uma última mensagem: Camus, meu mestre e melhor amigo, desculpe por esse último ato que sei que você achará covardia. Não o cometo por medo, mas sim...

Hyoga parou o que escrevia. A verdade era que não sabia por que fazia aquilo, por que sua vida perdera totalmente o sentido nos últimos tempos? Sim, sabia que a morte da mãe piorara e muito o seu estado de espírito, mas não era só isso, havia um buraco em sua alma que nada era capaz de preencher. Já procurara desde drogas a religião, e nada foi capaz de apagar aquele vazio. Por quê?

Voltou a escrever:

"Camus, quero que saiba que sentirei saudades, e só... Adeus..."

Finalizou a carta, ao passo que dava uma última tragada no cigarro e o jogava ao mar.

Subiu no parapeito e mirou a paisagem do pôr-do-sol grego e depois o mediterrâneo abaixo de si e fechou os olhos.

- Você acha que tem motivos pra morrer? – a voz doce, juvenil, mas com certa melancolia e irritação, fez com que abrisse os olhos, novamente, sobressaltado.

Será que ele estava ali há muito tempo?

- Não vai responder? O que você acha que tem de tão ruim em sua vida pra fazê-lo se jogar daí? – continuou o garoto.

- Minha vida não faz nenhum sentido... – respondeu enquanto ainda se equilibrava sobre a sacada de metal.

- Então é porque você não quer dar nenhum sentido a ela... – o rapaz de cabelos castanhos respondeu tranquilamente, e o estudante

Forçou-se a encará-lo. - Pula logo, então, se não há sentindo em sua vida, pula.

O rapaz saiu da posição em que estava, sentado entre as ferragens do mirante, e se colocou ao lado de Hyoga.

- Acreditaria se eu dissesse que tenho uma fortuna, moro numa mansão e possuo uma linda namorada? – deixou escapar um suspiro melancólico.

- Sim, acreditaria. – respondeu Shun.

- Não te espanta que uma pessoa que parece ter tudo, queira acabar com a própria vida?

- Não. – o mais jovem sorriu – Não posso imaginar como é ter tudo, porque nunca tive nada...

Os olhos azuis do loiro examinaram o garoto ao seu lado. O jovem de cabelos castanhos era pouco mais baixo que ele, e também mais magro, embora possuísse ombros largos e certa definição muscular. Seu rosto parecia de uma criança, muito delicado e belo; pele pálida, a aparência era até um pouco doentia, mas seus olhos; ah, que olhos! Nunca vira tão brilhantes e... quase inocentes.

- Qual o seu nome? – Hyoga perguntou. Nunca foi de se interessar por pessoas como aquele garoto, mas havia algo nele, algo que o tornava incrivelmente fascinante.

- Por que alguém que vai se matar quer saber o nome de um desconhecido? – Shun perguntou com ironia, deixando escapar um riso nervoso. Na verdade, aquela situação era muito estranha e incomum para ele. Além do mais, nunca imaginou que o conheceria daquela forma; o que deveria fazer? Deixá-lo morrer?

- Quem sabe para levá-lo pela eternidade, como a última lembrança de minha vida? – Hyoga riu e depois suspirou com desgosto – Vida? Será que posso chamar isso que tenho de vida?

- Nenhum ser vivo deveria estar cônscio da própria morte. – Shun balançou a cabeça com certo pesar – Deveríamos ser como os animais, eles são felizes porque não sabem que vão morrer. Os animais não cometem suicídio...

- Sim, eles também não pensam! – tornou Hyoga com amargura – Daria tudo para não pensar também...

- Então não pense. Pensar nem sempre é o melhor a fazer, e acho que nesse momento específico não é mesmo.

O loiro baixou o olhar para o mar de um azul tão profundo quanto seus olhos.

- Não consigo mais suportar minha existência... – o estudante não sabia por que sentia aquela necessidade de conversar e contar todas as suas mazelas para aquele menino estranho. Mas eram suas últimas palavras, e queria falar. Além disso, aqueles olhos e aquele sorriso eram tão cativantes, compreensivos e doces... Sentia-se tão em paz ao olhar aquele garoto de boina xadrez... Por quê?

- Por que simplesmente não fecha os olhos e sonha? – sugeriu o desconhecido, alheio aos seus pensamentos – É isso que faço quando a dor se torna insuportável...

- Quando fecho os olhos, só tenho pesadelos… - a confissão foi um sussurro.

- Então, abra-os e veja o sol...

O estudante mirou profundamente os olhos verdes a sua frente, eles pareciam tão fortes, pareciam ser os olhos que lhe dariam força para continuar, para achar os sonhos que foram perdidos, esquecidos, arrancados dele há muito tempo. Sentiu um calor tão profundo na alma que isso quase lhe arrancou lágrimas. Mas aquele não era o momento para chorar. O fim chegou. Não era mais capaz de continuar...

- Não há sol para mim... – respondeu – Não há como não pensar o quanto minha vida é vazia e sem sentido! – gritou angustiado – Você não sabe! Não me conhece, quem pensa que é pra me dar conselhos?

- Não sou ninguém. – o jovem de cabelos castanhos respondeu com um sorriso triste – Mas aprendi ao longo de minha curta vida que para o suicida há apenas um problema.

- E qual seria?

- A falta da esperança; a certeza que nada mais vale à pena...

O loiro sentiu seu coração apertar e lágrimas marejaram seus olhos enquanto algumas imagens passavam por sua mente; esperança, palavra bonita, mas não entendia muito bem seu significado e nem o que aquele menino queria dizer; esperança...

- Nada mais vale a pena pra você? – Shun insistiu, e o estudante piscou confuso. Estava decidido até então, decidido a por fim a tudo, todas as cobranças, todas as pressões, e sua própria auto-cobrança. Não mais suportava tudo aquilo, não suportava mais a vida enlouquecida; tinha que ser o estudante perfeito, o namorado perfeito, o filho perfeito, o profissional perfeito... Chega!

Mirou mais uma vez o mar.

- Não, não vale! – respondeu – Foi um prazer conhecê-lo...

- Shun...

O loiro sorriu, e do seu rosto escapou uma lágrima...

- Gostaria de tê-lo conhecido antes... – murmurou Hyoga.

- Eu também... – os olhos verdes do garoto também marejaram, e ele deixou escapar uma lágrima que escorregou por sua pele clara.

O estudante abriu a mão num aceno.

- Adeus, Shun... – disse se voltando definitivamente para o mar.

- Adeus, Hyoga...

O russo parou, voltou-se rápido, mirando o rapaz com olhos arregalados.

- Espere, como você sabe...?

Não completou a frase, o espanto foi seu algoz, acabou escorregando e antes que tivesse qualquer reação despencou do parapeito de ferro do mirante. Não soube precisar a velocidade com que aconteceu, mas em segundos estava sendo seguro pela mão do rapaz de boina xadrez, que se esforçava e muito para que ele não caísse.

- Não me solte! – pediu Shun – Por favor, não solte minha mão, Hyoga!

O loiro ainda estava meio aturdido, perplexo pela situação. Era evidente que o rapaz não suportaria segurá-lo por muito tempo.

- Shun, me solte! – pediu – Ou você vai...

- Não soltarei! – gritou o rapaz contra o vento que rasgava tudo ao redor deles – Não acredito que queira morrer de verdade!

- Acredite, eu quero! – Hyoga tentava argumentar, mas nem ele mais sabia se aquilo era verdade.

- Não, sei que você não quer, posso ver em seus olhos! – disse Shun – Por favor, deixe-me ajudá-lo, Hyoga!

Seus olhos se encontraram. Hyoga viu tanta força e determinação nas duas esmeraldas de Shun, que decidiu viver, pelo menos naquele momento. Segurou a mão dele com mais força. Shun sorriu e tentou puxá-lo de volta, mas via que aquilo era impossível para ele, o russo era mais pesado, e ele... Bem, ele não estava em sua melhor condição física. Gritou por ajuda vária vezes, até alguns dos guardas que guardavam aquele mirante aparecerem. Logo uma confusão se estabeleceu ao redor deles, curiosos, imprensa, a tentativa frustrada de suicídio do jovem estudante transformou-se num espetáculo.

Os dois foram puxados de volta ao mirante, no meio de aplausos e flashes. Hyoga protegeu o rosto, não queria ser notícia de jornal, mas via que seria impossível. Uma equipe de resgate fora chamada e, mesmo sem precisar, ele e Shun foram levados para ambulância. O jovem de cabelo castanho estava apenas com o braço machucado, e ele, Hyoga, não sofrera nada. Foram tratados e medicados e logo depois dispensados.

Os dois ficaram sentados dentro da ambulância, enquanto a polícia tentava conter curiosos e imprensa.

- Como você sabe meu nome? – Hyoga perguntou virando o rosto para fugir de um flash.

- Não se preocupe, eu direi que você escorregou. – Shun disse sem se importar em responder a pergunta, mas o loiro percebeu que ele ruborizou.

- De uma forma ou outra é verdade... – tornou Hyoga com amargura – Como está o braço?

- Só uma luxação, ficarei bem. – o jovem de cabelos castanhos baixou a cabeça, o que fez a franja cobrir-lhe os olhos.

- Shun, não é? – insistiu o loiro, percebendo que o rapaz se mostrava um pouco incomodado.

- Sim...

- Obrigado por salvar minha vida, Shun, mesmo que ache que ela não valha nada...

O jovem de boina xadrez não respondeu. Acenou com a cabeça e mirou o horizonte que escurecia.

- Preciso ir agora, Hyoga, vá pra casa, descanse, e pense melhor em sua vida. – disse se levantando do banco em que estavam sentados.

- Espere... – o russo segurou-lhe o braço, e o mais jovem se voltou, seus olhos se encontraram mais uma vez – Deixe que, ao menos, o leve pra casa...

- Não precisa, de verdade... – Shun sorriu – Estou bem.

- Mas...

Nesse momento, o loiro ouviu buzinas e faróis de carro se aproximando e furando o bloqueio que os policiais fizeram próximo a ambulância. O carro preto parou e dele desceram Dimitri e Eiri que procuravam-no com os olhos.

- Hyoga! – gritou a moça correndo em sua direção e o abraçando. Logo o pai também estava perto dele, assim como alguns fotógrafos; Shun aproveitou a confusão e fugiu; ainda olhando para trás e mirando o rosto do loiro, aquele rosto que há muito tempo o perseguia.

Continua...

Notas finais: Obrigada a todos que estão acompanhando, em especial aos que deixaram algum comentário.

Patrícia Rodrigues, Amamiya fã (Obrigada pelo apoio de sempre, amiga!), Julyana Apony, Virgo Nyah, Shunzinhaah2, Pandora Hiei, Jukie, Danieru, Meyzinha, Maya Amamiya, saorikido, kenosuke, Camie01, milaangelica, Shun, Arcueid, Keronekoi...

Vocês são a raiz da minha persistência!

Abraços afetuosos!

Sion Neblina