Segredos e mentiras
Capítulo 3
Era noite, Shiryu chegava a casa, depois de um estressante dia de trabalho. Era uma pessoa equilibrada, tranqüila, mas nos últimos dias, a empresa Cignus estava empolvorosa. Difícil agradar Dimitri, difícil agradar Camus, difícil conviver com Shura. Virou a chave na fechadura, e entrou em seu apartamento, seu lar, seu lugar de paz, mas ao que parecia; não a teria naquela noite. O capricorniano chegara primeiro e o esperava, sentado no sofá, com um olhar furioso.
Shiryu resignou-se. Jogou a pasta no sofá, e se sentou de frente ao espanhol que bebericava um copo de uísque.
- Não vai me dizer nada? – Shura perguntou.
- O que devo dizer? Nada que digo parece fazer sentido pra você. – respondeu o mais jovem, calmamente.
- Não faz mesmo, não faz sentido abandonar uma carreira brilhante pra ser um mero... O que você quer fazer mesmo?
Shiryu riu.
- Está vendo? Você não me ouve, você nem se lembra do que conversamos, está mais disposto a me controlar!
- Controlar? Eu? – o espanhol se indignou – Shiryu, acho que você não entendeu, estou preocupado com o seu futuro, só isso!
- Você não é meu pai, Shura, é meu amante, esqueceu? – ironizou o rapaz – Não pense que por ser mais velho, pode me tratar como uma criança.
- Nunca o tratei assim. Só gostaria de saber o que fiz de tão errado para que fuja de mim!
- Já disse que não estou fugindo. – respondeu Shiryu se levantando e indo até o bar, onde se serviu de uma dose de licor – Você está me sufocando. Preciso de espaço.
O espanhol riu com sarcasmo.
- Espaço? Na cama, é isso? Quer colocar outro em sua cama?
Shiryu passou as mãos nos cabelos, num gesto que demonstrava cansaço.
- Shura, não vamos chegar a esse ponto. Eu gosto muito de você, respeito demais você, e gostaria de permanecer seu amigo.
O homem de cabelos curtos se ergueu e mirou o outro, surpreso.
- Você está me dando um chute, é isso?
- Zeus! Como você é difícil! – comentou Shiryu, afrouxando o nó da gravata e virando a taça de licor nos lábios – Preciso de um tempo, Shura, só isso! Tempo.
O mais velho se aproximou, o que fez Shiryu erguer o queixo para olhar dentro dos seus olhos, já que Shura era pouco mais alto que ele.
- Um tempo... – repetiu o espanhol – Ok, Shiryu, como queira, você terá todo o tempo do mundo, pra mim chega!
O moreno espanhol pegou sua pasta e caminhou, a passos rápidos, em direção a porta.
- Shura, espere... – Shiryu tentou impedi-lo, mas não conseguiu – Shura, volta aqui!
O libriano saiu também, a tempo de vê-lo entrar no elevador. Suspirou. Era melhor que ele fosse embora mesmo. Depois conversariam com mais calma.
-OOO-
Camus, como sempre, era o último a deixar a sede das indústrias Cignus; naquele dia, mais que nunca, pois se obrigava a terminar os relatórios de Dimitri. Estava cansado e já não tinha condições de analisar os números que apareciam a sua frente como formigas se movendo no papel. Ergueu-se da cadeira e foi até o frigobar de onde tirou uma garrafa de água mineral, consumindo com pressa. O prédio estava escuro e apenas a parca luz da luminária de sua sala o auxiliava.
Voltaria para a cadeira quando ouviu passos apressados pela entrada, parecia que alguém estava com muita pressa de chegar a algum lugar. Saiu, abrindo a porta e dando de cara com o homem que conhecera pela manhã.
- O que faz aqui? – indagou.
Milo não escondeu o espanto ao vê-lo.
- Puxa! Você me assustou! – exclamou, tirando uma pasta de dentro da jaqueta que vestia e colocando sobre a mesa da secretária – A Agnes pediu que trouxesse isso para ela ainda hoje, e só tive tempo de fazer isso agora... – explicou contrafeito.
- Certo. – Camus voltou-se para sua sala, mas a voz do Office-boy o deteve.
- Trabalhando até tarde? Isso não é o que se espera do filho do chefe. – provocou.
Camus voltou a encará-lo com um olhar hostil. Quem aquele garoto pensava que era para fazer tal comentário?
- Primeiro, não sou filho do chefe, segundo, isso não é da sua conta, boy, terceiro, atenha-se a sua tarefa e vá embora, antes que fique realmente aborrecido.
Milo franziu o cenho e cruzou os braços.
- Não precisa ser tão mal educado, foi só uma brincadeira.
- Pense melhor com quem você brinca. – disse Camus voltando para sua sala.
Milo ficou um tempo parado; depois sorriu, não, aquilo não ficaria assim. Adentrou a sala do executivo que o mirou atônito.
- Alguma coisa, rapaz? – Camus realmente não entendia como não conseguia provocar o temor característico naquele homem.
- Fiquei com pena de você.
- Pena de mim? – o ruivo ficava cada vez mais pasmo com a ousadia do mais jovem.
- Sim, é muito tarde, você parece exausto. Por que não aceita minha ajuda?
Camus riu com escárnio.
- E o que você entende de estatística econômica, Office-boy?
- Eu posso tentar.
- Ok. – Camus estendeu os gráficos para o loiro; sua intenção era mesmo desencorajar o rapaz, embora não pudesse negar que aquela atitude ousada e descontraída aliada a beleza estonteante do grego o inclinasse, e muito, a aceitar sua ajuda; talvez não na estatística.
Milo pegou os papéis com os gráficos e ajeitou a luminária para que pudesse examiná-los. O executivo ficou observando, divertido, a ruga que se formava na testa do mais jovem enquanto ele tentava entender aquele emaranhado de linhas.
- Há um erro aqui. – o loiro declarou colocando o dedo sobre o papel – Você utilizou uma descrição paramétrica, mas inseriu um valor errado. – disse Milo para um Camus boquiaberto – Aliás, por que você não faz isso no computador, hein? Seria tão mais fácil, o próprio programa lhe mostraria onde estava o erro e você não precisaria virar a noite!
O ruivo ainda estava meio estarrecido, mas ainda assim, tentou responder.
- Não gosto muito de máquinas. Acho que nos acostumam mal, esquecemos de pensar.
- Nem calculadora?
- Hum hum... – Camus negou – Mas obrigado por me ajudar, amanhã encaminharei para a equipe gráfica, eles fazem o restante.
- Ok, então boa noite. – Milo se ergueu.
- Espere um pouco. – Camus o deteve – Como conhece descrição perimétrica, acaso entende de estatística?
- Pouco, sou estudante de economia. – explicou o grego – Preciso ir.
O loiro saiu rápido da sala do executivo. Camus não entendeu por que, mas achou que decerto ele teria alguma coisa importante para fazer de sua noite. A um homem como aquele não deveria faltar amantes.
"Camus Verseau, o que você está pensando? Ele é um Office-boy da empresa em que você é um dos donos, Mon Dieu!"
Revoltou-se contra si mesmo. Pegou os papéis em que trabalhava e os colocou num envelope, deixando na mesa da secretaria. Desceu pelo elevador até a garagem no subsolo do luxuoso prédio, o maior, o melhor, que se erguia imponente entre os outros arranha-céus atenienses. Estava preocupado com Hyoga, o rapaz era mais para ele do que qualquer pessoa pudesse imaginar; e o primo parecia especialmente deprimido nos últimos dias.
Suspirou com amargura. Hyoga era um romântico sentimental, e, talvez, devesse a isso todos seus problemas. Enquanto o jovem russo não aprendesse que sentimentos são bons somente até certo ponto, permaneceria naquela situação. Camus tinha vontade de ajudar, de participar mais efetivamente da vida de Hyoga, mas Dimitri sempre deixou certa distância entre eles. Talvez por ciúmes, talvez para ter o total controle sobre os atos do filho. Nunca saberia ao certo, sabia, contudo, que aquilo lhe causava uma intensa dor e frustração, dor esta que, quem visse seus atos sempre frios, elegantes e comedidos, nunca poderia imaginar.
O ruivo caminhou tranquilamente até chegar ao seu carro. A noite estava fria, como ele gostava, e uma brisa suave balançava seu sobretudo enquanto, procurava a chave de sua BMW. Pensou no tal Milo, em seu sorriso, e aquilo o incomodou; o que estava acontecendo consigo? Sim, o rapaz era bonito, e inteligente, e sexy... Mas ele, Camus, não era homem de ficar impressionado com qualquer pessoa, mas... Bem, alguém que entendia de estatística econômica não era qualquer pessoa. Entrou no carro dando a partida, os pensamentos distantes. Resolveu que iria a um bar, tomar um drinque antes de seguir pra seu lar solitário. Precisava relaxar para, quem sabe assim, encontrar uma forma de ajudar o jovem amigo. Seguiu, guiando tranquilamente, pelas ruas calmas, devido o horário, da metrópole. Estacionou próximo a um bar sofisticado, acoplado a uma boate onde várias pessoas elegantes entravam. Entrou também, sentou-se num dos sofás de couro e pediu uísque ao garçom.
Foi quando estava começando a sorver a bebida que seu celular tocou, e ele verificou no visor o número de Dimitri. Bufou enfadado e atendeu.
- Oi, Dimitri, se é sobre os relatórios de... O quê? – o ruivo empalideceu – Eu... eu estou indo pra aí agora mesmo!
Camus se ergueu, jogou uma nota sobre a mesa e saiu apressado.
-OOO-
Hyoga já estava farto de ouvir as palavras falsamente compreensivas do pai. Durante toda a noite foi obrigado dar satisfações a Dimitri e a Eiri sobre o ocorrido. Estava a ponto de explodir, e por isso, se refugiou em seu quarto e pediu para que ninguém o incomodasse. Sabia que a namorada e o pai continuavam na sala, pensando em formas para "ajudá-lo"; o executivo chegou a sugerir uma internação, dizendo que ele estava com esgotamento mental.
Riu com amargura enquanto soltava à fumaça do cigarro no ar. Perdera a conta do número de cigarros que já havia fumado. Mirou o jardim logo a baixo. Estava no terceiro andar...
- Não, sei que você não quer, posso ver em seus olhos! Por favor, deixe-me ajudá-lo, Hyoga!
A voz de Shun se fez tão forte em sua mente que ele, instintivamente, se afastou da sacada, com medo de ceder à tentação de se atirar dali. Acendeu um novo cigarro e se sentou na cama; os olhos perdidos, imaginando o que faria de sua vida agora. Ninguém parecia acreditar que foi um acidente, embora tenha sido um.
Pegou uma garrafa de vodka debaixo da cama, nem se lembrava mais do tempo que aquilo estava ali. Virou-a na boca, fechando os olhos fortemente, tentando não chorar e se mostrar mais ridículo do que já se sentia.
"Pare de se comportar como um filhinho da mamãe! Ela morreu se conforme com isso!"
A voz de Dimitri sempre ecoava por sua cabeça todas as vezes que sentia falta da mãe ou que pensava em chorar. Aquilo fora o que ele dissera uma semana depois do sepultamento da esposa; dissera que não mais admitiria as lágrimas do filho e, desde então, Hyoga não mais chorou em nenhum momento de sua vida.
Virou a garrafa novamente nos lábios, sorvendo uma grande quantidade do líquido que queimava a garganta, mas não aliviava a dor. Passou as mãos nos cabelos os desalinhando; sempre fazia isso quando se sentia nervoso e perdido.
- Shun... onde você estará agora? – murmurou, e ouviu passos agitados pelo corredor, até que seu quarto foi invadido. A porta estava trancada e foi arrombada por Camus. Hyoga se ergueu da cama, chocado com a situação.
- Camus...
Caiu com a bofetada que recebeu do amigo, deixando a garrafa cair sobre o tapete.
- Não acredito que tenha feito isso! – bradou o mais velho – Desde quando você é isso, Alexei? Desde quando você é... é um fraco?
O mundo do rapaz russo caiu e um grande abismo se abriu sob seus pés. Não teve coragem de encarar a pessoa que, talvez, mais amasse na vida, as lágrimas desceram por seu rosto, e ele se sentia cada vez menor.
- Uma atitude covarde... fraca! – Camus falava transtornado – Não, Hyoga, você não é assim, não é!
Nesse momento, Eiri e Dimitri entraram no quarto. Hyoga, em fim, ergueu o rosto molhado para mirar o ruivo, percebendo, chocado, as lágrimas nos olhos de Camus.
- Camus, me perdoa...
O rosto do francês tremeu, mas ele não se mexeu, continuou encarando o rapaz de forma dura.
- Peça perdão a si mesmo, e examine sua consciência sobre o motivo de tentar fazer tal coisa! – volveu o ruivo tentando controlar-se – Eu... eu preciso ir embora...
- Não, Camus, espera... – Hyoga tentou se erguer, mas cambaleou e se apoiou na cama – Não vai, por favor...
Camus caminhou até ele e o segurou pelos ombros.
- Fraco, covarde! – falou cheio de desprezo – O que mais, Hyoga? Alcoólatra? Mon Dieu, o que... Onde que errei com você?
- Chega, Camus! – Dimitri segurou o ombro do sobrinho e lhe lançou um olhar de advertência.
O francês soltou o primo e caminhou, a passos rápidos, para a porta, deixando a mansão dos Cignus.
Guiou sua BMW de volta ao bar onde estivera antes do telefonema de Dimitri. Ainda tentava acreditar que aquilo estava acontecendo. Passou as mãos nos cabelos lisos os desalinhando num gesto que sempre fazia quando se achava perdido demais e sem saída. O que poderia fazer para ajudar Hyoga? Achava que, na verdade, só piorara tudo com seu rompante emocional. Aquele era ele? Não acreditava que perdera a cabeça àquele ponto.
Preciso me controlar; preciso pensar... fazia uma espécie de mantra, para conseguir raciocinar uma forma de sair daquela situação.
Sentou-se novamente na mesma mesa em que estivera outrora, e dessa vez, pediu uma garrafa do melhor uísque da casa.
Já tinha perdido a noção de quantos copos havia bebido quando seus olhos vislumbraram Milo na pista de dança.
Camus não acreditou na coincidência daquele encontro, já que havia se despedido de Milo Seferis há apenas algumas horas. Mirou a pista, onde os dois rapazes dançavam e faziam um grande esforço para conversar. Conhecia o homem que acompanhava o Office-boy, era seu gerente comercial, Afrodite Laursen.
O belo grego vestia uma camisa branca em contraste com sua pele bronzeada e uma calça de couro marrom que se moldava com perfeição ao corpo trabalhado. Os cabelos cacheados caiam soltos por seus ombros. Assim como os do seu companheiro. Milo despertava vários olhares gulosos dos freqüentadores de casa noturna, mesmo que não parecesse lhes dispensar atenções.
Camus compreendeu o motivo de sua pressa afinal; Afrodite Laursen era um conquistador inveterado e gay assumido, com certeza, ele não deixaria passar uma peça como Milo. Camus corou com os pensamentos. Desde quando se preocupava assim com a vida alheia? Principalmente alguém que mal conhecia e era um funcionário da Cignus?
Sorveu o restante do uísque do seu copo, antes de virar a garrafa no mesmo, novamente. Seus pensamentos se desviaram um pouco de Hyoga e se perderam na tarefa de mirar os dois loiros. Sempre percebera a beleza do gerente; Afrodite era um homem belo com feições delicadas e um olhar sempre malicioso para quem quer que fosse. Mas o homem ao seu lado, bem, Camus tinha que admitir, fazia mais o seu tipo. O rapaz exalava masculinidade, mesmo assim, era possuidor de um rosto tão belo quanto o do sueco. Não ficava devendo nada a Afrodite, embora possuíssem belezas dissonantes.
O rapaz continuava alheia a sua análise, e o executivo finalizou a garrafa de uísque e pensou que o melhor era ir embora. Sua cabeça formigava, não conseguia assimilar nada. Esperou o garçom se aproximar para retirar a garrafa e aproveitou para pedir a conta. Foi nesse momento que seus olhos e os olhos do Office-boy se encontraram. Milo ergueu uma sobrancelha e, falando algo no ouvido de Afrodite, deixou o amigo e se aproximou da mesa do executivo.
- Verseau? O que faz aqui? – perguntou intrigado – Você parecia exausto há algumas horas e... – interrompeu-se percebendo que aquilo não era da sua conta, embora achasse muito estranho.
- Assim como você, estou tentando relaxar de um dia estressante de trabalho! – a voz saiu firme, mas quando tentou se erguer, o executivo ficou tonto e teve que se segurar no rapaz. Seus olhos se encontraram uma segunda vez. Milo observou o rosto afogueado do ruivo, e riu.
- Acho que você exagerou! – disse – Imagino que aqueles relatórios fez com que pulasse o almoço, acertei?
- Como sabe?
- Meu pai sempre fazia isso! – riu descontraído – Quer que o leve pra casa?
- Não, não quero incomodar... – Camus protestou, sentia-se ridículo naquela situação. Nunca fora de descontar suas frustrações na bebida, e admitia não estava numa boa situação.
- Não é incômodo nenhum, senta aí, vou falar com meu amigo e já volto. – Camus resignou-se, voltando a se sentar no mesmo lugar.
Demorou alguns minutos e Milo voltou.
- Vamos, é só me dizer onde mora.
- Sim, isso ainda sei. – disse Camus, se erguendo, apoiado no ombro do mais jovem, e entregando-lhe a chave do carro.
O Office boy abriu a porta do carona e deixou que o executivo entrasse, antes de dar a volta e assumir o volante. Sendo guiado por Camus, chegou a um luxuoso prédio a beira mar. Milo suspirou, vendo Camus abrir a porta e sair, assim que chegaram ao estacionamento.
- Acho que já posso seguir sozinho, mas... – o ruivo parecia embaraçado – Você quer entrar?
- Te deixo na porta de casa. – disse Milo sério. Camus andou em direção ao elevador e esperou que o grego o acompanhasse. Ficaram em silêncio até que o veículo chegou à cobertura. O ruivo abriu a porta com mãos firmes para alguém que havia detonado uma garrafa de uísque.
- Entre, por favor. – pediu ao loiro – Gostaria de recompensá-lo de alguma forma por todo esse incômodo.
- Não é necessário, faria por qualquer pessoa. – retorquiu o grego entrando no luxuoso apartamento, decorado com requinte e bom gosto. Sorriu, não esperava menos de Camus Verseau; o lugar era elegante e nada ostensivo, tons claros, mesclados a móveis em negro, sofisticado e masculino.
- Sente-se. – pediu Camus, e Milo obedeceu – Eu...
O ruivo se interrompeu e se sentou também no confortável sofá, ao lado do loiro. Afundou as mãos nos cabelos lisos os desalinhando, e sufocando um soluço de amargura.
Milo sentiu-se desconfortável com aquela demonstração de fragilidade do sempre tão frio francês. Instintivamente, pousou a mão nos cabelos dele. Camus ergueu a cabeça lentamente, e seus olhos se prenderam aos esverdeados do grego.
- Quer conversar? – Milo perguntou com carinho, sentindo um calor estranho com o olhar confuso que o mais velho lhe lançava.
Camus respirou pesadamente e se empertigou no sofá, se mantendo ereto, tentando fugir da postura de fragilidade que adquiriu.
- Não, eu... eu gostaria de lhe contar uma história, uma história que ouvi há muito tempo. Gostaria de sua opinião...
- Pode falar.
- Senhor Milo, essa história se passou na Rússia há vinte anos. É a história de um nobre francês de 14 anos que se apaixonou por uma cesarina, uma princesa russa... – Camus riu com amargura, e seus olhos se perderam como se ele voltasse àquele passado – Natássia era linda, e o nobre se apaixonou perdidamente assim que a viu, ela tinha 15 anos...
- Vocês eram crianças...
Milo observou, e os olhos de Camus se voltaram para ele.
- Não é de mim que estou falando! – disse irritado, corando – É só uma história...
- Desculpe, continue a história, por favor...
- Bem... – suspirou o francês – Eles se apaixonaram, viveram uma tórrida paixão, e ela engravidou, mas nenhuma das duas famílias admitiram isso. O nobre francês e a nobre russa foram brutalmente separados. A tristeza foi tanta que a bela Natássia morreu ao dar a luz...
O ruivo se calou com lágrimas nos olhos, Milo percebeu como era doloroso para ele mergulhar naquele passado, mas estava curioso.
- O que aconteceu com a criança? – perguntou – Ela sobreviveu?
- Sim, então os pais de Natássia e meus pais entraram em acordo. A história deveria ser abafada, esquecida. A imprensa soube que a menina morreu de aneurisma cerebral, eu fui obrigado a abrir mão da paternidade da criança, dando-a para que meu tio que era estéril a adotasse...
Camus mais uma vez mergulhou os dedos nos fios vermelhos dos cabelos.
- Eu... eu não queria ter feito isso, mas, Deus, eu tinha 14 anos! – as lágrimas desceram pelo rosto claro e belo do executivo. Milo, que o conhecia pouco, mas já conhecia a fama de frio e ponderado do rapaz, se comoveu, o puxou pra si e o abraçou.
- Está tudo bem. – disse, afagando-lhe as costas – Você era uma criança, não teve culpa.
- Tive sim, eu deveria ter lutado por meu filho! E hoje... hoje ele tentou se matar... a culpa é minha...
Milo o afastou para segurar-lhe o rosto, entre as mãos, mirando fundo os olhos do executivo.
- Escute, não podemos mudar o passado, o que você fez foi o que achou melhor naquela época, como você mesmo disse, era só uma criança. Não se culpe tanto! Agora se deseja mesmo se redimir por algum mal que tenha feito ao seu filho, comece a partir de hoje e esqueça o ontem.
Camus baixou o olhar; sentia-se patético, confessando suas dores a um completo estranho. Por que sentia aquilo por aquele rapaz? Era como se o conhecesse, como se fossem amigos há muito tempo.
- Desculpe-me por fazê-lo ouvir essa história ridícula... – tentava se recompor – Devo mesmo estar muito bêbado! Essa história não é minha, minha mente está misturando fantasia e realidade... – Mirou o grego nos olhos – Deve se esquecer de tudo que ouviu aqui...
Foi interrompido por um beijo voraz, os lábios carnudos do loiro pressionando os seus, a língua forçando passagem para dentro de sua boca, começando a vasculhá-la sem pudores. Alguns segundos de hesitação e surpresa, então Camus enlaçou o pescoço do mais jovem e correspondeu, faminto, a carícia de seus lábios e língua, e que habilidade Milo tinha! Foi capaz de apagar completamente toda e qualquer comoção de sua mente...
Depois de alguns minutos, o loiro se afastou, tentando recuperar o ar e mirando o rosto desolado do ruivo que arfava enquanto o encarava com uma expressão confusa.
- Esqueça isso, Verseau... – ele disse se afastando em direção a porta. Quando a abriu, virou-se sorrindo com malícia – Se for capaz...
Milo saiu, deixando um Camus completamente confuso, perdido, e excitado. Já o jovem loiro, ponderava sobre as batidas descompassadas do seu coração e assumia intimamente que quis o ruivo assim que o viu. Porém, não esperava descobrir uma história tão bizarra e complicada em seu passado.
Continua...
N/A: Capítulo explicativo. Sorry, no próximo teremos todos os personagens. Galera, eu pretendo fazer essa história leve, eu juro (cora), com uma pitada de drama, mas romântica e doce. Ao menos é isso que quero, por isso, não vou carregar no ANGST, (tentarei, tentarei, tentarei 1000 x).
Gente, olha o Camus ficou assim, transtornado, porque acho que é como ficaria um pai (principalmente nas condições dele) nessa situação, mas juro que não farei dele uma manteiga, ele voltará a ser o bloquinho de gelo mais amado do fandom no próximo capítulo. E lembrem-se que até o gelo se derrete, mas no caso, ele estava bêbado mesmo!
Beijos a todos que estão acompanhando em especial aos que deixaram um review de incentivo, crítica ou sugestão.
kenosuke, Yuuko-chan, Izabel, Danieru, Jukie, Shunzinhaah2, SabakuNoGaara, Arcueid, Camie01, milaangelica, Meyzinha, Maya Amamiya, Keronekoi, , Amamiya f (O Ikki é indomável, amiga, não come na mão de ninguém, o loiro vai descobrir, XD! Bjus saudades), Cardosinha, Graziele Kiyamada,
Abraços afetuosos!
Sion Neblina
