Prelúdio

Capítulo 4

Era bem cedo quando Ikki estacionou sua moto em frente à bela residência do artista indiano.

Caminhou até o rol de entrada e pegou a chave que estava, como na noite anterior, próximo a uma palmeira. Perguntou-se porque aquela chave ficava ali, e deu de ombros para os próprios pensamentos. Entrou, tirando os sapatos, e mirando pela porta de vidro que levava ao imenso atelier do artista. Ele já estava acordado e parecia pintar algo no chão. Ikki se aproximou, mas não abriu a porta, ficou admirando a imensa tela que ele pintava com um rodo de pintar paredes, e algumas vezes, com o pé.

- Vai ficar aí parado? – ouviu a voz blasé e, resignado, abriu a porta.

- Bom dia. – disse.

- Bom dia. Meu café, por favor. – respondeu o loiro sem olhá-lo. Ele vestia apenas um macacão jeans surrado, sendo que o mesmo estava preso só por uma das alças, a outra caía livre por suas costas. Os cabelos claros estavam presos numa desalinhada trança. Ikki perdeu ainda alguns minutos o olhando, mas depois se virou e foi para a cozinha. Shaka tirou os olhos da tela para mirar o passeio do moreno, prestando atenção detalhada em seu corpo forte e atraente. Balançou a cabeça, e voltou a prestar atenção a tela. Ikki voltou minutos depois com a caneca de café e depositou sobre uma mesa.

Shaka interrompeu o quadro para pegar o café.

- Venha... – chamou o rapaz para sala, sentando no sofá e esticando as pernas, antes de provar o conteúdo da caneca.

Ikki ficou parado sem saber que reação tomar diante daquele homem excêntrico.

- Sente-se, rapaz. – tornou Shaka com um sorriso divertido – Eu não mordo... muito forte... – completou mirando o moreno, de maneira sensual.

- Bem, já fiz o que queria e o que foi acordado, agora tenho que ir pra aula. – respondeu o mais jovem.

- Ok, então até amanhã. – tornou o artista.

Ikki o examinou mais uma vez, seus olhos estavam marcados por olheiras, demonstrando que ele não tivera uma boa noite de sono. Percebeu também que havia um hematoma na curva entre o braço e o antebraço esquerdo. Shaka, ao perceber para onde se dirigia o olhar do mais jovem, ergueu-se incomodado.

- Tenho coisas a fazer, boa aula. – disse caminhando de volta ao atelier.

- Não precisa de mais nada? – Ikki perguntou, mas logo depois se arrependeu ao receber o olhar curioso do indiano. Ele e seu instinto protetor! Agora seria, no mínimo, vítima de algum comentário ácido do artista.

- Não, mas obrigado. – disse Shaka, para sua surpresa – Não quero que perca sua aula. A educação é muito importante, sobretudo, para pessoas como você.

Ikki sentiu o rosto corar, mas por mágoa que por irritação. Aquele loiro arrogante sempre deixava claro à distância entre eles. Shaka demarcava muito bem qual seria seu território; o território de um mero serviçal.

- Você tem razão. – disse Ikki secamente – Até amanhã.

- Pode me dar seu telefone, caso precise encontrá-lo? - o indiano perguntou demonstrando certo incomodo com isso.

- Sim, eu anoto pra você. – Ikki caminhou até a mesa onde havia uma agenda e anotou seu número.

- Obrigado, é muita gentileza sua. – disse o loiro embaraçado. O estudante não entendeu aquela mudança de atitude. Poderia até jurar que havia certa melancolia no olhar do irônico artista.

- Então, até amanhã... – continuou Ikki, meio confuso.

- Ikki, eu... eu poderia chamá-lo em outro horário caso precise? Eu pagarei extra, não se preocupe...

- Eu não me neguei. – falou o moreno, percebendo que havia alguma coisa muito estranha com aquele homem – Pode me ligar, podendo eu virei.

- Obrigado. – Shaka sorriu com o canto dos lábios, e o moreno deixou sua casa.

-OOO-

Quando acordou, Hyoga mirou as paredes de seu quarto impecável, sentindo um imenso vazio ao se lembrar da noite anterior, dos interrogatórios da namorada e do pai, mas, sobretudo, em pensar na reação de Camus. Por que o primo ficara tão indignado? Ele nem mesmo lhe dera a chance de falar o que aconteceu. Aquele não era o Camus que conhecia, o senhor frieza que nunca perdia a calma ou alterava a voz. A cabeça do loiro doía com o excesso de vodka da noite anterior, mas ele se forçou a se erguer. A vida continuava, e depois da noite que tivera, resolveu não mais fugir e enfrentar a vida com toda sua força, se é que ainda possuía alguma.

O loiro russo não faria questão de convencer mais ninguém de que a dita tentativa de suicídio foi um acidente. Não queria mais dar explicações e nem se lembrar do assunto. Apenas uma coisa permanecia em sua cabeça; precisava encontrar Shun, encontrar aquele rapaz que lhe salvara a vida em seu momento de maior desesperança. Mas por onde procurar? Não sabia seu sobrenome, não sabia nada a seu respeito, embora ele parecesse saber algo de si. Sua única chance era voltar aquele mirante, e esperar, esperançoso, que o jovem aparecesse.

Ergue-se e correu para tomar um banho demorado, mais uma vez, não iria para faculdade, não tinha vontade nenhuma de ir, e faria sua própria vontade daquela vez. Quando desceu as escadas e passou pela imensa sala de estar, Dimitri, que estava na sala de jantar, à mesa do café, ergueu-se e o seguiu.

- Para onde pensa que vai, Hyoga? – perguntou marchando atrás do rapaz que continuava andando em direção ao seu conversível prata, sem dar atenção ao pai.

- Vou dar um passeio. – disse o loiro colocando os óculos de sol. O empresário percebeu que ele estava vestido descontraidamente, com uma camisa pólo justa e calça jeans; isso denunciava que o filho não tinha intenção de trabalhar naquele dia.

- Passeio? Hyoga, a faculdade...

- Me deixa em paz, pai! – disse o mais jovem dando partida no carro. Dimitri bufou enquanto o filho saía velozmente em seu conversível pela estrada serpenteada em direção ao imenso portão. Voltou para a sala e pegou o telefone discando o número do apartamento de Camus. O telefone tocou diversas vezes até que o francês atendeu.

- Camus, onde você estava? Ligue várias vezes ontem depois que você saiu, sabe que me preocupo com você! – o empresário russo falava descontroladamente.

Em seu apartamento, Camus, que acordara com o barulho do telefone, inspirou pausadamente antes de responder:

- Bom dia para você também, Dimitri, o que aconteceu?

- Você sabe o que aconteceu! Não entendi suas atitudes ontem, onde você queria chegar com aquelas palavras? Lembre-se do nosso acordo!

O ruivo, que estava com uma baita ressaca, sentiu o sangue gelar nas veias e ferver instantaneamente como em processo de pasteurização. Sentiu-se um total incapaz, um total derrotado ao ouvir aquilo. Seu coração falhou e sentiu ganas de desligar o telefone.

- Dimitri...

- Não ouse pensar que pode me desafiar agora, Camus! Não ouse dizer nada ao Hyoga, você prometeu! – o russo não o deixou terminar.

- Sim, eu prometi... – suspirou Camus, tentando manter a frieza – E sou um homem de palavra, tenha certeza.

- Ótimo! Se tem algum carinho pelo Hyoga, e sei que tem, o aconselhe, seja seu amigo como sempre foi. Você tem que fazer algo por esse garoto, eu já estou perdendo a paciência com ele!

- Calma, Dimitri...

- Camus, eu... ele é meu filho e não quero que nada de mal aconteça a ele... Você é um bom amigo, mas lembre-se de que eu sou o pai do Hyoga!

- Sim. Pode deixar, Dimitri, eu... eu vou ligar pra ele agora...

Camus desligou o telefone e passou as mãos nos cabelos, nervoso. Sua frustração era imensa. Precisava fazer alguma coisa, precisava salvar Hyoga, inclusive de Dimitri. Mas, sua cabeça pesava, o exagero da noite anterior vinha cobrar seu preço. Ainda tentava se lembrar dos acontecimentos, mas desabava numa insuportável escuridão que só aumentava seu mal estar.

Ergueu-se da cama e rumou para o banheiro. Tomou um banho demorado, vestindo-se em seguida com um terno escuro, prendendo os cabelos num rabo de cavalo baixo, rumou para sala, parando ao enxergar a chave do BMW sobre a mesa de centro; de imediato todas as lembranças da noite anterior voltaram a sua mente. Suspirou. Pegou a chave do carro e o celular, saindo em seguida.

Chegou ao escritório com uma cara ainda pior do que o de costume. Cumprimentou todos com um frio bom dia e rumou para sua sala, pedindo para não ser incomodado.

Aos poucos, as lembranças da vergonhosa noite se tornando claras em sua mente. Como foi capaz de atos tão absurdos? Não acreditava que havia contado todo o seu vergonhoso passado ao jovem grego. Não conhecia Milo Seferis, e se... Não! Não poderia ficar assim nas mãos de outra pessoa, e se ele quisesse usar aquelas informações contra ele?

Camus tentou se acalmar. Bebeu um copo d'água e engoliu duas aspirinas. Precisava se concentrar em Hyoga, o jovem precisava muito dele naquele momento. Tentou mais uma vez o número do rapaz, mas permanecia desligado. Apertou o número da secretária.

- Srta. Nicklos, chame o Milo, o Office boy, preciso falar com ele. – pediu. Teria que cedo ou tarde enfrentar a realidade daquela noite.

Passou instintivamente as mãos nos lábios, se recordando do beijo ardente que o rapaz lhe dera. O que estava fazendo? Sua vida tão controlada estava fora de controle. Uma noite de loucura e fuga da realidade transformara sua realidade num pesadelo!

Não demorou muito, o loiro adentrava sua sala com um olhar sério. O rosto jovial estava estranhamente fechado.

- Sente-se, por favor. – pediu o ruivo embaraçado.

- Prefiro ouvir de pé. – disse o loiro – Olha, se quer me demitir para que ninguém saiba daquela história...

- Não é nada disso, rapaz! – Camus interrompeu, aborrecido – Queria apenas me desculpar por todas as bobagens que disse e fiz na noite passada, espero que não tenha levado nada daquilo a sério.

Milo o mirou surpreso, sem entender. Corou e baixou a cabeça.

- Sem problema, eu... eu já nem me lembro do que você falou. – mentiu. Sabia que para o frio e estrategista executivo francês não era nada fácil se ver tão vulnerável, principalmente quando isso envolvia um fato do seu passado que ninguém conhecia.

- Foram informações de um bêbado, por favor, as esqueça. – Camus pediu sem jeito, se sentindo cada vez menor e desolado.

- Como disse, sei que posso esquecer, mas será que você pode? – o olhar esverdeado do loiro examinou o de Camus que estremeceu, mas isso não foi percebido por Milo; a expressão do francês não se alterou.

- O que quer dizer? – perguntou o ruivo da maneira mais gelada que pode.

- Vejo que você está gritando por dentro, Camus Verseau, você não suporta mais sufocar essa história, e... – Milo se interrompeu, passou as mãos nos cabelos sem jeito – Desculpe-me, sei que não sou ninguém para ficar me envolvendo em sua vida, mas tenho que dizer que vinte anos é tempo demais para se viver com uma dor tão profunda. Um dia você vai explodir.

Camus calou-se, aturdido em reconhecer a verdade nas palavras do mais jovem.

- Desculpe-me, mais uma vez, eu não tenho nada a ver com isso... – continuou Milo, embaraçado com o silêncio do executivo – Pode ficar tranqüilo que por mim, ninguém nunca saberá dessa história...

O loiro se virou para deixar a sala de Camus, mas o executivo o deteve.

- Espere, por favor... – o ruivo se ergueu.

Milo voltou-se com um olhar confuso e intrigado. Camus corou, sem jeito, nem mesmo sabia o que diria ao rapaz, mas não queria que ele fosse daquela forma.

- Eu...como poderia recompensá-lo por tudo que fez por mim? – perguntou sem pensar em algo melhor a dizer.

Milo sorriu divertido, e lançou um olhar sensual ao francês que corou mais e baixou os olhos. Nunca em toda sua vida, Camus fugiu de um olhar, mesmo quando tinha quatorze anos e seu mundo ruiu, ainda assim, fora capaz de encarar todos nos olhos.

- Eu pediria um convite pra sair, mas, como acredito que esteja falando em dinheiro... Não preciso de nenhuma recompensa, obrigado...

Camus não teve mais o que argumentar, pois o rapaz deixou sua sala, rapidamente. O executivo voltou a se sentar; tentando organizar os pensamentos cada vez mais febris. Precisava pensar.

Milo entrou no elevador e desceu até sua área de trabalho, encontrando Seiya atrás de uma mesa, carimbando alguns papéis.

- Seiya, você viu o Afrodite por aí? – perguntou nervoso.

- Ele está numa reunião lá no céu com o diretor financeiro.

- Droga!

- O que foi, Milo? Parece que viu fantasma, você está branco! – caçoou o mais jovem.

- Muito engraçado, mas juro que não vi fantasma, só tem um demônio de cabelos vermelhos querendo me deixar confuso. – disse pensativo sem se dar conta das palavras.

Seiya, curioso e fofoqueiro por natureza, logo prestou especial atenção ao amigo.

- Está falando do deus da estatística, Camus Verseau?

O loiro empalideceu mais ainda, percebendo que se traíra.

- Como você sabe?

- Você às vezes é tão burro, escorpião, todos o chama de demônio de cabelos vermelhos! – riu Seiya – Mas, fala aí, qual o problema entre vocês?

- Seiya, vai à merda! Não ficarei aqui falando dessas coisas com um pirralho que mal deixou as fraldas! – irritou-se o grego.

- Que maldade, eu já fiz dezoito, sabia? – reclamou o japonês ofendido. Mas Milo não deu atenção, desapareceu porta a fora.

-OOO-

- Alô! – Hyoga atendeu ao telefone, enquanto guiava o carro pelo centro de Atenas.

- Hyoga, onde você está?

- Bom dia, Camus, estou, nesse momento, chegando à praça Omini.

- Hyoga, eu... eu sinto muito pelas coisas que falei ontem... eu não queria...

O mais jovem percebeu que o primo estava muito embaraçado. Inspirou e expirou antes de responder:

- Está tudo bem, Camus, à noite, irei a sua casa e conversamos pessoalmente, ok?

- Você está bem? Você não fará nenhuma bobagem não é? – insistiu o mais velho, angustiado.

- Estou bem, tenha certeza que não tentarei me matar.

- Ok, Hyoga, eu... – silêncio. O russo ergueu uma sobrancelha, estranhando a hesitação do sempre tão seguro amigo.

- Camus?

- Cuide-se, Hyoga. – Ele desligou.

O loiro ficou um tempo mirando o aparelho celular, o guardando depois, muito intrigado com as atitudes do ruivo; mas não querendo perder tempo pensando em mais ninguém além de si mesmo, naquele dia. Estacionou nos arredores da praça. Estivera antes no mirante e nem sinal de Shun, mas não desistiria da busca. Tinha esperança de revê-lo, não sabia muito bem porque, mas precisava voltar a falar com ele.

Deixou o carro e procurou com os olhos. Como era de costume, alguns artistas se apresentavam e uma música de violino tocava. Vagou pela praça, acedendo um cigarro e olhando ao redor com melancolia e certa apreensão.

Caminhou pelo centro da praça fazendo um bando de pombos revoar com suas passadas. Os pássaros cobriram sua visão e quando ele voltou a enxergar o caminho a sua frente, ele estava lá, sorrindo. Hyoga parou o passo, seu coração falhou, um sorriso se apossou de seus lábios e antes de pensar em qualquer coisa, caminhou até o rapaz mais jovem e o abraçou com força, esquecendo-se de qualquer receio que tivesse naquele momento, qualquer angústia. O calor do sorriso, do corpo, do olhar de Shun preenchia sua alma como nunca imaginara no vazio absoluto que vivera até aquele encontro.

- Hyoga, que bom revê-lo! – falou o rapaz mais jovem – E bem!

- Vim procurá-lo, estive no mirante, rodei toda a cidade te procurando.

- Me achou! – sorriu Shun, mas o loiro percebeu que ele estava um pouco embaraçado.

Olhou nos olhos do rapaz que corou instantaneamente. Hyoga então viu um homem alto de meia idade que parecia impaciente enquanto esperava o rapaz. Fitou Shun novamente sem entender.

- Hyoga, você poderia me esperar aqui por alguns minutos? Eu juro que volto. Por favor, me espere exatamente naquele banco ali. – Shun apontou para um banco de madeira escondido entre duas imensas árvores.

- Certo. – devolveu o loiro frustrado, mas não faria interrogatórios, estava ali para revê-lo, porque precisava esclarecer algumas questões para si mesmo, e não para se envolver tanto na vida do rapaz.

Shun se afastou em direção ao homem que era bem mais alto que ele e o envolveu possessivamente pelos ombros. Hyoga percebeu que o rapaz sorriu, e o homem afagou-lhe os cabelos. Seguiram em frente desaparecendo numa rua.

Hyoga, a contra gosto, obedeceu. Sentou-se no banco de madeira e mirou o céu claro da tarde grega, acendeu outro cigarro, enquanto uma angústia estranha percorria seu corpo. Temia que o rapaz não voltasse; mas, sem que tivesse explicação, acreditava que cedo ou tarde ele apareceria. E assim o jovem rico viu a tarde cair alaranjada sob a cidade de Atenas. Perdera as contas de quantos cigarros fumou, mas não arredou pé. Acreditava, pela primeira vez, acreditava em alguém, embora, sua coerência não entendesse o motivo de toda aquela confiança.

A noite caiu, as luzes foram acessas, e Hyoga continuava na praça. Havia levantado, comprado pipoca, refrigerante, cigarros, voltara a fumar, caminhou para esticar as pernas e quando estava quase desistindo da espera. Shun reapareceu com seu mais belo sorriso. O loiro sentiu um quê de contentamento estranho brotando dentro de si; um contentamento inesperado e um disparar de coração com a visão daquele sorriso. Só naquele momento ele percebeu a música de violino que ecoava na praça, tocada por algum boêmio vagabundo; só naquele momento ele percebeu a lua que ofuscava as estrelas e que não brilhava mais que os olhos verdes de Shun.

O rapaz mais jovem estava vestido em outra roupa, uma camiseta branca e uma calça jeans, e seus cabelos estavam molhados o que demonstrava que ele se banhara; de seu corpo escapava o cheiro frutado da colônia pós-banho, e Hyoga o aspirou extasiado.

- Pensei que não viria mais. – disse esperando que Shun se aproximasse e tentando disfarçar a miscelânea de sentimentos que o assolava.

- Desculpe, eu tive que ir a minha casa, precisava de um banho. – respondeu corando – Venha, sente-se aqui comigo.

Hyoga obedeceu, e eles se sentaram no banco de madeira.

- Por que veio atrás de mim, Hyoga? – perguntou Shun – Já disse que não me deve nada, é sério.

- Não vim por causa disso. – disse o mais velho – Vim porque queria vê-lo, não apenas para agradecer, mas porque senti uma necessidade estranha de vê-lo mais uma vez. Quem sabe não possamos ser amigos.

- Amigos? – Shun sorriu com melancolia – Seria bom ter um amigo, eu não tenho amigos nessa cidade.

- Está há pouco tempo aqui?

- Sim, três meses apenas. – respondeu meio incomodado – Mas, me diga, o que você gosta de fazer?

Hyoga sorriu, percebendo que o rapaz queria mudar de assunto.

- Muitas coisas, mas gostaria que me falasse de você agora.

- Não há muito para falar. – respondeu Shun corando fortíssimo – Eu... bem...

- Quantos anos você tem? – interrogou o loiro, resolvendo o impasse. O garoto não gostava de falar de si, mas não poderia evitar responder perguntas diretas.

- Dezessete, faço dezoito em setembro... – respondeu – Você tem vinte, não é mesmo?

Hyoga mirou o rapaz seriamente, Shun empalideceu percebendo que havia se traído de novo.

- Eh... sabe, é que já vi fotos suas nos jornais... – disse sem jeito e se ergueu do banco – Olha, juro que o que fiz não foi por isso, eu... eu nunca tentarei tirar dinheiro de você, e não...

- Shun, se acalme. – Hyoga ergue-se também, segurando o braço do rapaz que parecia que sairia correndo a qualquer momento – Não precisa se explicar, quase todos conhecem meu rosto nessa cidade, não pensei em nada disso.

O jovem de cabelos castanhos assentiu com a cabeça.

- Desculpe, é que as pessoas hoje em dia fazem tudo por dinheiro, mas quero que saiba...

- Eu não sou assim. – interrompeu o loiro - Sendo franco, dinheiro nunca me importou.

- Porque sempre o teve. – respondeu Shun com franqueza – Se não tivesse saberia o quanto dinheiro faz falta de vez em quando – sorriu para descontrair.

Hyoga engoliu em seco. Sabia que o rapaz tinha razão. Talvez fosse mesmo um riquinho fútil e mimado. Não podia negar, cada momento que passava com Shun lhe dava a certeza do quanto estava sendo frívolo em todo seu sofrimento vazio; mesmo porque, algo naquele rapaz lhe dizia que ele possuía dores profundas, embora sempre mantivesse um sorriso nos lábios.

- Desculpe, Shun, você tem razão. Acho que sou mesmo um idiota. – proferiu corando e baixando a cabeça. Ergueu o olhar ao sentir a mão do rapaz acariciar seus cabelos. Corou, mas não se afastou.

Shun percebendo o gesto instintivo recolheu a mão, sem jeito, corando ainda mais que o russo.

- Não é um idiota. Só que ainda não aprendeu a viver, mas eu posso ajudá-lo se quiser. – disse.

Hyoga encarou os olhos esmeraldinos a sua frente.

- Ajudar-me a viver? – sorriu – O que quer dizer com isso?

- Hyoga, não vamos esquecer que ontem você quis tirar sua própria vida. Ainda sente essa vontade? – os olhos verdes se fixaram nos azuis cinzentos do russo ao fazer a indagação.

- Pra falar a verdade, não sei. Não sinto vontade de continuar com a minha vida do jeito que está. Mas também não sei se quero morrer de verdade. Pensei muito durante essa noite, dormi pouco, mas ainda não achei resposta.

- Então eu o desafio a descobrir essas respostas. – sorriu o mais jovem – Você quer minha ajuda? Eu não sei muita coisa da vida, mas aprendi a ver a beleza dela, então, mesmo não sendo nada e nem ninguém, eu acho que tenho algo que posso ensinar a você.

- Por que diz que não é nada e nem ninguém? – inquiriu o loiro com um sorriso carinhoso – Todos nós somos alguém, Shun.

- Eu sei. – falou o mais jovem embaraçado – Não foi nesse sentido que falei. Eu... eu quis dizer apenas que não sou sábio nem nada, mesmo porque, o que se pode saber aos dezoito anos?

- Entendo.

- Então aceita minha ajuda?

Hyoga hesitou, mas ao olhar para os olhos puros, quase celestiais de Shun, percebeu que não tinha nada a temer.

- Aceito. Ajude-me, senhor Shun...

- Amamiya...

- Prazer, Hyoga Cignus, mas você já deve saber disso!

Shun riu sem jeito.

- Sim, eu sei. Estou com fome, vamos comer um cachorro quente?

- Podemos ir num restaurante se você quiser...

- Não, eu quero um cachorro quente! – insistiu Shun sorrindo – Prefiro cachorro quente a caviar, embora nunca tenha comido caviar!

Shun riu e Hyoga também.

- Tudo bem! Eu também prefiro! – Hyoga disse divertido e acompanhou o rapaz até a carrocinha de cachorro quente. Pediram as iguarias que Shun fez questão de pagar. Depois voltaram para o banco, onde iniciaram uma extensa conversa sobre vários assuntos; a noite, a lua que brilhava esplendorosa sobre a cidade de Atenas e que o russo nunca percebera até então. Falaram sobre a infância, família, dores, viagens. Falaram sobre tudo e nada ao mesmo tempo.

- Eu me recordo de uma viagem que fiz na infância. – disse Shun depois de um tempo – Acho que foi a única viagem da qual me recordo, já que meus pais não tinham recursos para fazer isso com freqüência...

- Eu viajei muito, entretanto, não me lembro de nada marcante nas minhas viagens da infância... – falou Hyoga.

- Nada? – a voz de Shun deixou transparecer certa tristeza.

- Infelizmente não. – suspirou o loiro – Vivíamos de país em país, eu, meu pai e o Camus. Camus é o primo do qual te falei...

- Sei, e seu melhor amigo.

- Isso. – Hyoga se recostou no banco – Mas me fale dessa viagem tão especial que você fez na infância?

- Fomos para uma ilha, um lugar muito bonito, e meus pais trabalhariam como caseiros no verão para uma família rica. Foram só alguns meses...

- Quantos anos você tinha?

- Uns quatro...

- Que memória, Shun! – riu Hyoga – Eu mal me lembro do que fiz no último mês.

O mais jovem baixou o olhar com um sorriso tímido.

- É que foi muito importante pra mim.

- Imagino. – suspirou Hyoga – Vamos andar um pouco, senhor Amamiya? Que tal caminharmos na praia? A maré está baixa, a lua cheia. Um cenário perfeito!

- Claro que sim, eu adoro o mar! – Shun se ergueu do banco, animado, Hyoga fez o mesmo, e eles seguiram por uma rua estreita, onde uma pequena escada dava acesso a praia. Shun tirou os tênis que calçava e enrolou a calça jeans até embaixo dos joelhos, vendo Hyoga fazer o mesmo, retirando os sapatos que usava e os deixando num canto. O mais novo reparava em sua elegância; o porte imponente, os gestos sempre sutis e controlados, as mãos bem cuidadas, as roupas e o relógio caro que ele usava. Definitivamente, pertenciam a mundos diferentes.

Esses pensamentos fizeram o mais jovem dos Amamiyas mirar as próprias mãos, um pouco calejadas e de unhas ruídas, que era um vício que sua timidez lhe concedia de vez em quando. Suas mãos não eram feias, mas não possuíam a sofisticação das mãos de Hyoga.

- Shun?

- Hum? – voltou-se para o russo, corando, como se seus pensamentos fossem palavras ditas até então.

- Em que estava pensando, tão concentrado? – indagou o loiro, divertido.

- Em suas mãos... – respondeu antes que pudesse evitar, corando mais ainda depois – Q-quero dizer... é que... são...é que...

- Eu sei. São mãos de um playboy, como dizem, não é? – perguntou Hyoga segurando as mãos do mais jovem e passando os dedos delicadamente por cada calosidade – Não são as mãos de um trabalhador. Não é isso que diria?

- Não... – negou Shun, tirando as mãos das do amigo – Eu só prestei atenção, só isso!

- Vamos... – sorriu o russo, o empurrando levemente. Os dois começaram a caminhar a beira mar, sentindo a espuma gelada de o Egeu banhar seus pés.

- Fico surpreendido com sua timidez. – disse o loiro, mirando o mais jovem de soslaio – Nunca encontrei alguém que corasse tão fácil como você...

Shun riu.

- Sou filho e herdeiro de uma timidez criminosamente vulgar. – disse, olhando para o estudante com um sorriso divertido – The Smiths.

- Quê? – Hyoga riu sem entender.

- Essa frase pertence a uma música do The Smiths, uma banda inglesa dos anos 80, você não conhece?

- Não.

- Compreensivo, não é da nossa época! – sorriu Shun, baixando o olhar.

- Não é isso, é que geralmente ouço apenas música erudita, um legado do Camus em minha vida.

- Sei. Eu gosto de Beethoven e Chopin, embora não conheça muito bem, há uma música chamada "sonata ao luar" que me fascina...

- Eu também amo essa música. – disse Hyoga colocando as mãos nos bolsos da calça e olhando a espuma que se formava sob seus pés. Uma sensação de paz dominando seu íntimo, paz e intimidade, era isso que sentia naquele momento, como se Shun fosse alguém que ele sempre conhecera. Instintivamente, retirou uma das mãos do bolso e enlaçou o ombro do rapaz; o mais jovem estremeceu levemente e baixou o olhar, ruborizando. Nada disse, permaneceu quieto sob o braço do russo.

- Um dia desses podemos ir num concerto juntos... – sorriu o loiro – Agora somos amigos. E você poderia me levar em sua casa para ouvir essa tal The Smiths.

- Verdade. – sorriu o mais jovem e parou, encarando os olhos de Hyoga – Mas... agora preciso ir. Quando nos veremos de novo?

Seus olhos se prenderam por um tempo, antes do russo responder.

- Amanhã. Você prometeu que me ajudaria a recuperar o gosto pela vida e eu acreditei em você.

Shun sorriu mais.

- Tudo bem, amanhã no mesmo horário e no mesmo local, certo?

- Sim. – o russo acenou com a cabeça, e Shun voltou correndo para onde deixara seus tênis. Hyoga o observava, até que o rapaz desapareceu subindo a pequena escada que levava as ruas de pedras da grande cidade.

Uma comoção estranha dominou o peito do loiro, como se aquele afastamento temporário fosse o prelúdio de uma distância que nunca seria superada.

Continua...

N/A: The Smiths é uma banda inglesa de pop rock dos anos 80, seu líder o poeta Morrissey , vale a pena conferir.

A "Sonata ao luar" de Beethoven é uma das músicas mais lindas de todos os tempos vale muito à pena conferir também.

Agradecimentos especiais a todos que leram, em especial aos reviews deixados por:

SabakuNoGaara, Danieru, Vagabond Amiga, agradecimentos especiais pela indicação, que bom que você gostou!), kenosuke, Shunzinhaah2, Luanna Tsuki, milaangelica, Arcueid, Meyzinha, Jukie, Camie01, Keronekoi, Moi, Amamaiya f, , Virgo Nyah, Cardosinha, nannao, Kiara Sallkys.

Abraços afetuosos!

Sion Neblina