Encontros, reencontros, desencontros

Capítulo 5

Shiryu deixava a faculdade, já passava das dez da noite, ele se sentia exausto e caminhava a passos arrastado para o estacionamento. Sua vida estava num ritmo acelerado, e o estresse do trabalho aliado às provas finais tirava totalmente sua disposição. Despediu-se de alguns colegas antes de tatear os bolsos procurando a chave do carro. Estava abrindo a porta do mesmo quando sentiu algo ser pressionado em suas costas.

- Abra a porta devagar, isso é um assalto...

Gelou. Seu coração disparou; mas tentou manter a calma. Fazendo o que era mais sensato, obedecer ao marginal, sem nem mesmo se voltar para ele.

- O que você tem no carro? Quero tudo! – continuou a voz do bandido.

O jovem oriental tateou no porta-luvas, pegando tudo que pudesse ter algum valor e entregando ao ladrão.

- Isso é tudo. Leve o carro se quiser! – disse, suando frio, mas tentando se mostrar tranqüilo.

- Só isso! – gritou o bandido – Entre no carro, você vai comigo! – ele disse e empurrou o jovem para que entrasse no veículo.

- Não vou a lugar nenhum com você! – Shiryu gritou, lutando com o bandido.

Seiya saía de uma loja de conveniência quando percebeu a movimentação estranha no estacionamento da faculdade. Atento, se aproximou devagar, vendo que duas pessoas lutavam e que uma delas tinha uma arma nas mãos.

"Isso é problema!" Pensou e olhou para os lados. Abandonou o saco de compras que levava no chão, e se armou com um pedaço de tijolo que estava caído num canteiro. Aproximou-se, correndo, dos dois homens que lutavam; era visível que era uma tentativa de assalto. Bateu com o tijolo na cabeça do homem que segurava a arma.

O ladrão tonteou e deixou o revólver cair, saiu correndo, cambaleando, do estacionamento, ainda desnorteado pela pancada na cabeça.

- Polícia! – disse o sagitariano pegando a arma e apontando para o ladrão que desapareceu entre os carros. Começou a rir, só depois se dando conta do rapaz sentando no banco do carro, ofegante e trêmulo.

- Oi, olha, está tudo bem agora... – tentou consertar, coçando a cabeça – Ele não vai voltar. Muito prazer, meu nome é Seiya!

Estendeu a mão, mas acabou estendendo a mão que estava com o revólver, apontando para o rapaz. Corou, sem jeito, e estendeu a outra mão.

- Ah, desculpe! – sorriu amarelo – Eh... você está bem?

- Você me salvou. – disse Shiryu – Obrigado.

- O que é isso! – o mais jovem ficou sem jeito – Eu... bem, só fiz o que achei que deveria.

Shiryu sorriu com o canto dos lábios.

- Na verdade, você foi impulsivo e imprudente, mas, talvez tenha salvado minha vida... – disse, tentando recuperar a serenidade, coisa que não era muito difícil para ele, mesmo numa situação como aquela.

- Meus amigos sempre dizem isso! – riu Seiya – Mas, e aí? Você está legal mesmo? Está machucado?

- Não, graças a você, não.

- Ok, então estou indo! Vê se toma mais cuidado. Tchau!

- Espere! – pediu Shiryu, e Seiya se voltou – Você quer uma carona?

- Não, obrigado, eu moro logo aqui perto!

- Qual o seu nome mesmo?

- Seiya, e o seu?

- Shiryu, você... quer tomar um drinque comigo? – sugeriu o executivo – Para agradecer pela ajuda. – explicou ao receber o olhar confuso do rapaz.

Seiya coçou a cabeça, intrigado.

- Um drinque não, mas gostaria sim de uma cerveja, você topa?

Shiryu sorriu.

- O que você quiser, entra. – o libriano lançou um olhar charmoso para o outro jovem que corou, mas resolveu acompanhá-lo. Terminaram a noite conversando bobagens numa chopperia. Shiryu percebia que o mais jovem era extrovertido e sem papas na língua, se divertiu muito me sua companhia. Seiya lhe contou que morava há três anos em Atenas com mais dois amigos e que freqüentavam a mesma faculdade. Shiryu descobriu que era a mesma cursada por ele e Hyoga.

- Qual o seu curso? – perguntou curioso.

- Administração sexto semestre, manhã.

- Nossa, que coincidência! – riu o chinês – Administração sétimo semestre, noturno.

- Estamos perto de nos libertar desse martírio! – riu Seiya – Não agüento mais estudar!

- Eu gosto de estudar, o problema é que estudar tira nosso tempo para outras coisas interessantes! – falou o chinês.

- Como?

- Como olhar para esse céu lindo e ver a lua cheia. – os olhos verdes do executivo se ergueram para o céu.

- Sim, o luar é muito bonito. Mas geralmente não perco tempo olhando pra cima, minha vida é muito corrida! – disse o mais jovem.

- Imagino que seja. Eu também não disponho de muito tempo. – falou o jovem executivo consultando o relógio – Na verdade, já está na hora de ir pra casa. Amanhã acordo cedo para o trabalho.

- E eu tenho faculdade. – explicou Seiya, seus olhos castanhos encarando os verdes do rapaz de cabelos longos.

Shiryu sabia que precisava ir dormir, mas não tinha vontade de deixá-lo. Era estranho. Sentia-se muito bem na companhia do outro jovem. Eles pareciam ser muito diferentes, mas havia algo em comum entre os dois; ambos possuíam a vontade de mudar suas vidas.

Shiryu tirou um cartão da carteira e entregou a Seiya que o olhou surpreso.

- Você trabalha na Cignus? – perguntou.

- Sim, aí tem meu telefone, me procure. – disse o executivo – Foi um prazer conhecê-lo.

- Igualmente... – sussurrou Seiya ainda com os olhos presos no cartão, ate que percebeu que o mais velho esperava que ele se levantasse também. Ergue-se sem jeito e apertou a mão de Shiryu.

- Então, até mais...

- Até mais, Seiya...

Shiryu se afastou em direção ao estacionamento, pensando ainda no inusitado encontro. Deuses? Será que eles realmente não jogavam dados com o universo? Balançou a cabeça, também não levaria tudo tão a sério; talvez nunca mais voltasse a ver aquele rapaz, embora quisesse e muito isso.

-OOO-

Ikki chegou a casa e colocou o saco de compras sobre a mesa, sentindo o cheiro de comida caseira que vinha da cozinha. Caminhou encontrando o amigo pilotando o fogão.

- Oi, Milo, o que temos pra jantar?

- Sopa de legumes!

- De novo?

- Sim, e de novo, e de novo até os legumes acabarem, ou você acha que vou jogar fora todo aquele legume que comprei? – piscou o escorpiano.

- Ninguém mandou ser exagerado! – respondeu o mais jovem abrindo a geladeira e tirando uma cerveja, logo a virando na boca.

- Novidades? – perguntou Milo se sentando ao lado do amigo.

- Bem, tirando que você pode ficar com sua horrorosa sopa de legumes porque eu vou comer uma pizza portuguesa e beber um vinho maravilhoso que comprei, nenhuma! – provocou piscando, e Milo começou a remexer no pacote que Ikki levou pra casa.

- Sério? Mudou de profissão? Por que pelo que saiba ainda não recebemos salário e você estava mega duro, no bom sentido, claro! Porque mandou dinheiro para sua família. O que aconteceu?

- Arranjei uma atividade extracurricular, se posso chamar assim.

- Quem é a velha que você está comendo ou o velho? – provocou o loiro.

- Você só pensa em merda, não é escorpião? Ainda não vendi o meu corpinho, o que estou fazendo é honesto.

- Esse ainda foi bem sugestivo... – Milo se ergueu, sorrindo com malícia – Você viu o Seiya por aí?

- E eu lá sou babá daquele moleque?

- De uma forma ou de outra somos sim, ele mora com a gente, esqueceu?

- Não, e ele tem dezoito anos, esqueceu? – resmungou Ikki e nesse momento seu celular tocou. Tirou do bolso e mirou o visor, franzindo as sobrancelhas. Atendeu.

- Oi...

- Ikki, você está ocupado? Estou incomodando?

O leonino mirou o escorpiano que prestava atenção e muita em sua conversa, se afastou em direção a sala.

- Não, pode falar.

- Você poderia passar essa noite comigo? Eu... bem, você me diz quanto quer...

O estudante ficou meio atônito, e demorou a responder o que levou o artista a entender que fez uma péssima proposta.

- Ah, desculpe, desculpe de verdade. Até amanhã...

- Não, não é isso, espera... Shaka!

Ele desligou. Ikki praguejou, percebendo que Milo já o observava de braços cruzados apoiado na parede.

- Quem é ele?

- Não enche, Milo, tenho que sair.

- Ok, mas toma cuidado, esse tipo de gente acha que pode comprar tudo, inclusive pessoas!

- Você fala com grande conhecimento de causa, não é? – riu o mais jovem pegando a chave da moto.

- Sabe que sim. – tornou Milo preocupado.

Ikki não respondeu. Fez um gesto obsceno para o amigo e saiu. Pilotou sua moto na velocidade máxima, e em alguns minutos chegava à casa do artista.

A porta estava aberta e o ambiente a meia luz.

- Shaka? – chamou – Shaka, estou aqui!

O indiano apareceu em fim, vestia apenas uma calça jeans e seus cabelos estavam soltos, lhe caindo até a cintura.

- Olá, Ikki, pensei que não viria. – disse simplesmente.

- Resolvi vir, o que quer que eu faça?

- Nada, somente companhia, eu... eu tenho insônia e não me sinto muito bem hoje.

Ikki franziu a testa. Será que ele sofria de alguma síndrome estranha, como síndrome do pânico ou...?

- Estou com muita fome e pedi comida chinesa, você me acompanha? – o artista ofereceu, interrompendo os pensamentos do mais jovem.

- Ah, claro. Posso acender a luz?

- Estão apagadas?

- Você não percebeu? – Ikki comentou apertando o botão do interruptor, o que viu o deixou chocado. Como alguém poderia mudar num espaço tão curto de tempo? Pela manhã o indiano parecia bem, agora estava com uma aparência terrivelmente doentia, podia jurar que ele perdera pelo menos dois quilos.

- Shaka, você está bem?

- Não. – confessou – Digamos que andei me excedendo na... alimentação e agora estou precisando de cuidados, por isso o chamei aqui; caso sinta alguma coisa, você chama a ambulância, certo?

- E o que você tem?

- Não tenho nada, já disse que me excedi. – irritou-se o artista e nesse momento a campainha tocou – Ah, a comida!

Ele disse e foi abrir a porta. Ikki não compreendia nada,cada vez achava aquele homem mais estranho. Tudo bem que todo artista é meio excêntrico, mas Shaka já estava abusando.

O indiano voltou, minutos depois com várias embalagens de comida chinesa que colocou sobre a mesa de vidro no centro da sala.

- Voilá! – exclamou pegando os hashis – Você poderia pegar uma garrafa de vinho pra gente, Ikki, e uma garrafa de água mineral na geladeira, por favor?

- Ah, claro. – o mais jovem obedeceu, voltando minutos depois com os pedidos do loiro. Abriu com saca rolhas o vinho tinto e o despejou na taça que Shaka já havia distribuído sobre a mesa.

- Você não vai beber? – perguntou o artista.

- Não, não bebo em serviço. – respondeu o leonino se sentando em sua frente – Mas agradeço o jantar.

- Tudo bem. – Shaka deu de ombro, enrolando o macarrão nos hashis e começando a comer. Ikki em silêncio fez o mesmo, e mais uma vez, seus olhos pousaram nos hematomas nos braços do loiro.

- Desculpe perguntar, mas o que é isso em seu braço? Parece dolorido... – comentou sem conseguir conter a curiosidade.

- Alguns machucados, nada sério. – disse Shaka, se lembrando tardiamente que deveria cobrir aquilo – Não precisa se preocupar.

- Não estou.

Os olhos azuis passaram por ele com ironia, depois se concentraram na garrafa de água sobre a mesa. Shaka despejou a água na imensa taça e a sorveu quase toda de vez.

- Que sede, hein, loiro! – riu Ikki.

- Sinto muita sede... – o indiano passou a língua nos lábios de forma sensual, o que fez o moreno corar e desviar a atenção para seu prato.

- Ikki, agora vamos falar de negócios. – ele disse experimentando o vinho – O que acha de ser meu mordomo?

- Quê?

- Já percebi que você adora ouvir minha voz. Tudo bem, para seu deleite repetirei bem de-va-gar... – provocou o loiro, sensualmente – O que acha de ser meu mor-do-mo?

Ikki piscou, aturdido com a proposta.

- Você diz... morar aqui?

- Isso, mesmo, morar aqui, cuidar da minha casa, da minha comida, de mim... – sorriu charmoso – Juro que sou um bom menino, não dou trabalho. Certo, não sou um bom menino e dou muito trabalho, mas preciso de alguém que saiba fazer o meu café com creme e sem açúcar. O que acha?

O leonino espantado, não soube o que dizer.

- Tudo bem, eu dou um tempo pra você pensar, mas já me conformei que não posso morar sozinho, preciso sempre de alguém por perto. – continuou o loiro tranquilamente – Nossa relação será 100% profissional se está com receio de mim...

- Eu não tenho receio de nada e nem de ninguém. – protestou o moreno – Acontece que tenho uma rotina, estudo e estágio, não posso ficar à sua mercê.

O loiro experimentou o vinho de sua taça, encarando o moreno nos olhos com certo deboche.

- Não pedi que abandonasse seus estudos e seu estágio, será que não percebeu que preciso de alguém à noite? Alguém que vele meu sono? Só isso. Será que estou pedindo demais?

- Não, não está, é isso que me intriga. – Ikki o encarou sério – Por que uma oferta como essa? Você pode ter o empregado que quiser.

- Gostei de você. – sorriu o loiro, mas logo completou com indiferença – Contudo, não ficarei adulando alguém que será meu empregado, se não quiser, tudo bem.

- Você sabe mesmo ser desagradável.

- E você não parece o tipo sensível. – o loiro sorriu – Vamos, senhor Amamiya, é sim ou não...

- Preciso pensar. – Ikki sorriu, mirando dentro dos olhos do indiano, e Shaka o achou extremamente sexy naquele momento; tanto que, apagando sua falada segurança e deixando bem evidente em sua tez branca, o indiano corou.

Ikki se sentiu satisfeito em conseguir aquela pequena vitória sobre o artista. Shaka levou a taça de água aos lábios, bebendo rápido, e nesse momento o seu celular tocou.

O loiro se ergueu procurando, nervoso, o telefone.

- Alô? Oi, Camus... Ok... – lançou um olhar intrigado a Ikki que permanecia no mesmo lugar – Sim, eu o encontro em meia hora no lugar de sempre.

O indiano desligou o telefone.

- Um amigo precisa de mim, eu volto em uma hora, você me espera? – perguntou.

- Claro, é meu trabalho, não é? – indagou o moreno erguendo uma sobrancelha.

- Claro. – sorriu Shaka subindo as escadas.

Ikki permaneceu um tempo sentado na almofada. Depois bufou irritado, percebendo que se sentia frustrado com as atitudes frias que o artista lhe dispensava. Que coisa ridícula, será que...? Não, não podia acreditar.

O celular do indiano tocou novamente, Ikki esperou para ver se pararia, mas como a chamada era insistente, resolveu levá-lo até o loiro que estava no quarto. Subiu as escadas correndo.

- Shaka, seu celular! – bateu na porta. A mesma estava semi-aberta, e de onde estava, podia ver a imagem do loiro refletida em um espelho. Ele estava sentado num banco e tinha uma seringa na mão, enquanto com a ajuda dos dentes, passava uma borracha no braço direito, fazendo a veia soltar.

Ikki se afastou da porta, pálido. Como não pensara naquilo? Desceu as escadas de volta e colocou o celular no mesmo lugar. Sentando-se

No sofá com uma expressão pasmada.

O artista apareceu, minutos depois, vestido num terno claro e camisa preta, os cabelos presos num rabo-de-cavalo baixo.

Shaka mirou a expressão estranha do garoto, mas achou melhor não perguntar nada.

- Eu não demoro. – comunicou, pegando a chave do carro – Se quiser algo, fique a vontade...

- Obrigado. Seu celular estava tocando. – disse Ikki, sem olhá-lo.

O indiano pegou o aparelho e verificou o visor.

- Nada importante. – disse e caminhou para a porta. Saindo finalmente.

O moreno passou as mãos nos cabelos. Não se considerava uma pessoa careta, mas de uma forma estranha saber das práticas nada saudáveis do artista o deixou estarrecido, porque Shaka não parecia aquele tipo de pessoa.

"Tão esnobe, e um viciado!" Pensou revoltado. Ikki conhecia muito bem como as drogas podiam ser danosa na vida das pessoas; não se sentia capaz de conviver com aquilo, aquilo era descortinar todo um passado de sofrimento, e ele não se julgava capaz. Assim pensando, saiu, montou na moto e desaparecendo da casa do artista.

-OOO-

- O que houve? – Shaka mirou o amigo, enquanto se sentava à mesa do luxuoso piano bar.

- Eu preciso falar com alguém ou explodirei. – disse Camus, bebericando sua água tônica. Shaka seguiu seu movimento e franziu a testa.

- Onde está o uísque?

- Descansando do exagero de ontem. – respondeu o ruivo da maneira fria de sempre – O problema é que ele deixou seqüelas que não sei se sou capaz de superar.

- Seja claro. – volveu o artista, e pediu uma bebida pra si, também.

- Acabei falando demais, e... – suspirou – Contei para um total desconhecido toda aquela história...

Os olhos claros do indiano miraram os escuros do executivo.

- Então isso significa que essas emoções já o estão sufocando tanto que você explodiu. – analisou Shaka – Mas para toda ação há um estopim, o que aconteceu?

- O Hyoga tentou suicídio ontem... ele nega, mas eu o conheço, e sei o grau de sua depressão...

Shaka soprou o ar numa demonstração de surpresa e esperou que o garçom deixasse a bebida na mesa, antes de voltar a falar.

- Isso não me surpreende. – disse – E o que você fez?

- Comportei-me da pior forma possível. – confessou Camus – Fui pateticamente emocional; cheguei a bater nele.

- Agora estou surpreso. – declarou Shaka – Camus, isso me dá à certeza de que essa situação está insustentável para você. Quando vai parar de viver de acordo com os caprichos do Dimitri?

- Shaka, não é um capricho, é um acordo que fizemos há muito tempo, não posso simplesmente desfazê-lo agora...

- Você tinha quatorze anos, nenhum contrato é válido quando é assinando por crianças. – irritou-se o loiro – Eu acho que o Hyoga tem o direito de saber que é seu filho, além do mais... – o indiano riu – Você sempre foi melhor pai para ele que o Dimitri, ao menos, desde que nos conhecemos...

- Faz parte do acordo. – explicou o francês – Eu poderia ficar por perto, acompanhar o crescimento dele, mas nunca falar a verdade...

O ruivo deixou escapar um suspiro cansado, e Shaka, numa atitude de apoio, cobriu sua mão com a dele. Camus ruborizou, pois não era adepto de demonstração de sentimentos, nem mesmo amizade; entretanto, imaginava que deveria estar se mostrando terrivelmente frágil ao artista indiano.

- É uma carga muito pesada, Camus... – tornou o loiro – Sei que nunca ouve meus conselhos, mas isso acabará matando você, e eu não quero vê-lo assim, meu amigo...

- Não vejo saída e não tenho escolha, a única coisa que posso fazer é desabafar com você... – suspirou.

O loiro encarou o ruivo mais demoradamente. Shaka era extremamente inteligente e sensível e sabia ler cada expressão que se desenhasse nos rostos alheios.

- Há algo mais nessa história, não é? Quem é esse tal desconhecido pra quem se confessou? Mesmo para mim, precisou anos de amizade até que me contasse esse segredo...

- Estou terrivelmente atraído por ele. – suspirou Camus – É um... um moleque! Um Office-boy! – disse com amargura – Eu não sei como aconteceu, não me censure...

Shaka riu.

- Eu censurá-lo? Desde quando censurei alguém, por Buda?

- Desculpe-me. Estou muito confuso. – Camus terminou de beber sua água – Não sei o que fazer.

- Procure esse moleque, como você diz, acho que você gosta dele...

O ruivo riu com ironia.

- Eu? Por Zeus! Eu estava bêbado, sei que me sinto atraído por ele; ele é bonito, muito atraente, mas, gostar é um pouco demais, não é?

- Não, Camus, não é. Você anda a tanto tempo nesse seu esquife de gelo que se esqueceu o quanto seu coração é quente. Talvez esse rapaz só esteja lhe mostrando isso...

- Você fala como se o conhecesse...

- Não o conheço, mas conheço você. – Shaka se ergueu – Bem, tenho que ir. Tenho visita em casa...

Camus ergueu uma sobrancelha e um sorriso malicioso bailou em seus lábios provocando uma risada nos lábios do indiano.

- Não é o que está pensando. – explicou o loiro, vendo o ruivo se erguer também, deixando uma nota na mesa.

- Não estou pensando nada, vamos, também tenho que ir, preciso ligar para o Hyoga, ele ficou de passar em minha casa...

Shaka assentiu com a cabeça, e os dois seguiram para o estacionamento. A BMW de Camus estava estacionada num canto mais afastado que a Lótus prata do indiano.

- Caso precise, me ligue. – disse o loiro, estendendo a mão e tocando o rosto claro do executivo – Fico arrepiado só de imaginar o que você sente sendo protagonista dessa história macabra...

Camus segurou a mão que brincava com sua pele e puxou o indiano pra si, Shaka apoiou as mãos em seu peito e o acariciou levemente sobre a camisa branca.

- Eu gosto de vê-lo arrepiado de outras formas... que tal irmos para um lugar mais aconchegante? Já faz muito tempo que tivemos... algo mais...

O loiro sorriu.

- Você não tem que encontrar o Hyoga?

- Tenho, mas não resisto a esse seu perfume, senhor Phalke... – o executivo disse de maneira sedutora, tomando os lábios macios do loiro com ardor. Shaka deixou escapar um gemido baixo quando a língua hábil de Camus invadiu sua boca. Lutou para se livrar dele, porque era muito difícil resistir àquele francês sedutor. Todavia, não precisava de romances no momento, ainda se recuperava de sua última tentativa.

- Não, Camus, hoje não... – disse o empurrando levemente – Eu não estou bem e nem você, e odeio sexo por compensação.

Direto, seco, categórico. Essas eram características do artista que faziam Camus gostar tanto dele e vê-lo, talvez, como seu único amigo.

- Ok. Mas o que você tem? Percebi que estava pálido e com olheiras...

- Nada, só mais uma crise, daquele meu pequeno problema... – explicou corando; se tinha algo que Shaka não gostava era de falar dos seus problemas, mesmo para um grande amigo como era o francês.

- Shaka, isso ainda vai matá-lo! – reclamou o ruivo – Quando vai tomar juízo de se tratar de verdade?

- Eu até tomo, Camus, mas não faz efeito... – sorriu com charme.

- Engraçadinho! – bufou o francês – Quem está em sua casa? Não me diga que...

- Não, não é ele, embora...

Camus mirou o amigo sério. Shaka sempre se sentia como um menino quando recebia aquele olhar.

- Ele virá em algum momento, mas não quero me preocupar com isso. Estou cansado, depois conversamos. – o loiro começou a se afastar. Camus riu.

- Você é um menino muito mau, senhor Phalke. – disse divertido.

- Eu sei. – sorriu Shaka sem se voltar. Entrou em seu carro e partiu.

-OOO-

Quando Camus chegou ao seu lar, encontrou Hyoga dormindo no sofá. Sorriu. Aquilo sempre acontecia; aproximou-se do rapaz e afagou-lhe os cabelos fazendo o loiro abrir os olhos levemente e encará-lo.

Camus suspirou, ainda continuando o afago no mais novo.

- Você é a cara de sua mãe...

Hyoga se sentou no sofá, espreguiçando-se.

- Desculpe, estava exausto. – explicou.

- Sempre está exausto. – disse o ruivo – Já jantou?

- Sim, e você?

- Não, mas não estou com fome. – explicou – Precisamos conversar, Hyoga...

- Eu sei, mas estou sem vontade. – o russo confessou - Camus, a verdade é que pensei mesmo em morrer. Desculpe, mas minha vida não tinha o menor sentido até ontem...

O ruivo engoliu em seco, sentindo o coração falhar com aquela declaração.

- Por quê? – a pergunta foi quase um sussurro.

- Não sei. Sinto um vazio tão grande dentro de mim, como se vivesse preste a cair num abismo escuro. Eu não sei explicar mas... não vejo muito sentido em minha vida. Eu não sou quem eu quero ser, sou um fantoche dos desejos alheios...

- Isso não é verdade, Hyoga...

- É sim, Camus! – riu o mais jovem nervoso – Quando foi que fiz algo por minha própria vontade? Você e Dimitri sempre me obrigaram a fazer o que "era melhor pra mim", sempre e sempre! Eu não agüento mais... se continuar assim, vou mesmo conseguir me matar...

O coração do ruivo se partiu em mil pedaços com aquela declaração. Então era isso? Para Hyoga, ele de Dimitri eram iguais?

- Eu... – engoliu em seco – Eu não sei o que dizer, Hyoga... eu não queria...

O loiro segurou a mão do ruivo, fazendo Camus o encarar.

- Camus, eu não estou cobrando nada de você. Você não tem obrigação de ser compreensivo comigo, você não tem obrigação de me entender, mas o meu pai sim! Ele me deve isso. Você sempre foi meu amigo, embora não concorde com minha forma de ver a vida.

As palavras de Hyoga doíam como ferroadas, mas Camus continuava com uma expressão impassível.

- Desculpa, estou enchendo o saco! – riu o russo sem jeito – Isso não é um problema seu. Você é meu amigo e não meu...

- Não, Hyoga, eu preciso ouvi-lo. – respirou fundo para tentar se manter inabalável – Eu também sou responsável de qualquer forma por essa sua decisão em... em tirar sua própria vida, embora não entenda...

- Eu também não entendo do que sinto falta, Camus. É como se fosse algo que eu pudesse alcançar com minhas mãos, e de repente, isso desaparece como a névoa... Estou tentando entender também... – Hyoga deixou escapar um suspiro triste – Eu nunca entendi esse vazio...

- O que pretende fazer? – o ruivo perguntou amargurado.

- Viver do meu jeito. Chega de viver das vontades do Dimitri. – sorriu com amargura – Na verdade, é você que ele quer como filho e não eu...

- Não, Hyoga...

- Ah, Camus! Sejamos sinceros apenas dessa vez! – disse o russo irritado – Sua perfeição diplomática e fria é tudo que o meu pai queria de mim; acho que quando nasci, Dimitri esperava que fosse uma cópia do que você é, mas ele se decepcionou! Eu não sou como você, nunca serei, porque ele também não é como você. Dimitri pode tentar, mas ele não tem sua elegância e sua frieza, embora queira copiar seus gestos, suas palavras...

- Isso não é verdade... – o desespero se apossava com cada vez mais força do francês, e ele baixou o olhar para o chão.

- Você nunca reparou? – Hyoga riu novamente mais nervoso – Ele tem adoração por você; ele olha pra você e vê tudo que um dia quis ser e não foi; e espera que eu seja isso, mas eu não sou! Eu não sou e nunca serei você, Camus!

Um suor frio escapava dos poros do ruivo; Hyoga chegava muito perto da verdade, embora não estivesse ciente de nada. Deus, como aquilo era possível? Todas as palavras condiziam diretamente com os fatos.

- "Bem, esse pequeno príncipe será o meu filho. Deus queira que ele metade do que é seu pai biológico..."

-"Camus sempre foi brilhante, essa foi à única bobagem que fez na vida..."

-"Não chame de bobagem, isso me deu o filho que não posso ter. E esse filho tem meu sangue, pois é filho do seu filho, Igor..."

-"O filho que sempre quis que fosse seu, Dimitri..."

-"Sim, não nego, irmão, Camus para mim é seu maior feito, é algo seu que sempre quis pra mim..."

Depois que ouvira aquela conversa, o francês tivera a certeza que tanto para o tio quanto para o pai, ele não passava de um objeto, algo de valor a ser exibido. Sua inteligência, sua elegância, sua beleza. Mas como Hyoga podia sentir aquilo? Como se ele não sabia de nada daquela história?

- Sim, você nunca será igual a mim, Hyoga. – declarou Camus com convicção – E eu apoiarei qualquer decisão que venha a tomar.

O loiro encarou o amigo, estupefato, não esperava aquela declaração. Nem nos seus mais doces sonhos, achara que Camus o apoiaria contra Dimitri.

- Primo, você tem certeza? – indagou o jovem, atônito – Eu... bem, a coisa pode ficar feia entre Dimitri e eu, porque amanhã...

- O que fará? – Camus perguntou aturdido.

- Vou deixar o curso de administração e me escrever pra letras...

Camus baixou a cabeça e respirou fundo.

- Quando as indústrias Cignus e Verseau se fundiram, minha esperança era que você cuidasse de ambas futuramente...

- Você não precisa de mim, Camus, você é jovem, além do mais, um dia terá filhos, ou não? – riu o mais jovem.

- Não, Hyoga, eu não terei mais filhos...

O loiro franziu o cenho.

- Mais? Camus, você tem algum filho? Tem algo que queira me contar?

Camus encarou Hyoga nos olhos, e o mais novo viu uma grande amargura no olhar do amigo. Instintivamente, segurou-lhe os ombros em apoio.

- Você sabe que pode confiar em mim.

- Eu sei, Hyoga, eu... – o executivo buscou nos deuses o autocontrole que precisava – Está tudo bem, esqueça o que disse. Não foi o que quis dizer. O que quis dizer é que não pretendo ter filho, nem me casar, e nem nada disso!

O loiro sorriu com malícia e ruborizou um pouco.

- Eu sei, você gosta de homens, não é? Mas, achava que gostasse de mulheres também...

- Sim, eu gosto. – disse Camus sem se incomodar, falar da sua sexualidade com Hyoga nunca o incomodou, eram muito abertos para isso, e o ruivo era muito seguro do que gostava. Contudo, daquela vez, as coisas estavam saindo de controle – Mas não me considero um homem de família, você me entende...

- Pois acho que você seria um ótimo pai. – sorriu o loiro – Muitas vezes eu pedi para que fosse o meu, embora você não tenha idade para isso!

O loiro se levantou do sofá, sorrindo. Sentia-se mais leve por saber que tinha o apoio de Camus, embora algumas declarações do amigo o intrigassem. Hyoga não reparou nas lágrimas que se formaram nos olhos azuis do amigo, que continuavam voltados para o chão.

- Estou indo. – disse mirando a expressão meio letárgica do ruivo – Preciso dormir, amanhã será um dia decisivo em minha vida vazia.

- Certo, Hyoga, descanse... – murmurou Camus. O russo saiu batendo a porta.

Camus respirou fundo, sentindo como se seus pés afundassem em uma pegajosa e imunda lama. O que deveria fazer? Como se livrar de uma vida de mentiras quando a mentira continuava sendo a única solução?

Continua...

N/A: Seiya e Shiryu são um casal com o qual nunca trabalhei, então, peço que tenham paciência se o romance deles não tiver grande destaque na trama, pois ainda estou "engatinhando com os dois", tive a ideia de usá-los e já me arrependi várias vezes, mas como sou teimosa vou até o final com eles.

Como já havia dito, essa fic é um drama leve, terá alguns momentos angst, mas nada pesado.

Capítulo enooooorme! Sorry, me empolguei e ainda não escrevi tudo que queria, xd!

Abraços afetuosos a todos que estão acompanhando, em especial aquelas pessoas gentis que perdem um tempo deixando uma review.

Keronekoi, Danieru, kenosuke, milaangelica, Shun, saorikido, Meyzinha, Arcueid, Maya Amamiya, SabakuNoGaara, Graziele Kiyamada, Dark. ookami, Moi, Amamiya f, PATRICIA RODRIGUES, Annimo, Layzinha.

Sion Neblina