O amor não escolhe hora

Capítulo 6

Quando Ikki chegou a casa, encontrou Milo sentado na varanda, bebendo uma cerveja e olhando o céu. O mais jovem se sentou ao seu lado e suspirou.

- Noite bonita. – disse.

- Sim, mas achei que não voltaria hoje. – falou o grego – E por sua cara, parece que algo ruim aconteceu.

- Sim. – disse o moreno – Eu não te falei...

- Sim, você nunca fala. – cortou Milo, rindo.

- Cala a boca, e escuta, escorpião! – reclamou Ikki – Estou trabalhando para um artista riquinho, metido a merda e filho-da-puta...

- E você gosta dele...

- Quê?

- Nunca vi tanta agressividade de sua parte com alguém, então devo crer que você gosta dele...

- Eu o conheço há alguns dias!

- E daí? – o grego debochou – Desde quando se precisa de tempo pra se apaixonar?

Ikki engoliu em seco.

- Mas você disse que está trabalhando para ele? Pelo que saiba você trabalha na Cignus...

- Ele me paga duzentos euros por semana para ir a casa dele e preparar seu café somente...

Milo ergueu uma sobrancelha.

- Só isso?

- É?

- Nem uma chupetinha?

- Ah, Milo, que merda! Eu estou falando sério! – irritou-se Ikki – Esqueço que é impossível fazer isso com você!

O moreno se ergueria, mas o loiro, rindo muito, o segurou pelo pulso.

- Senta aí, esquentadinho, estou brincando. – Ikki o obedeceu, contrafeito – Entendi. Você vai toda manhã preparar o café dele, ele lhe paga, você não dar nem uma chupadinha nele, e o cara lhe paga um bom dinheiro. Qual o sentido disso?

- Eu não sei! – disse Ikki angustiado – Ele é estranho, e agora... Ele quer que eu vá morar com ele... Não! – Ikki foi explicando ao receber o olhar malicioso do grego – Não é o que está pensando, ele quer que seja uma espécie de mordomo, quer que eu durma lá, cuide da casa e dele, só isso...

- Que cara mais esquisito! – riu Milo – Então ele quer você todinho pra ele, mas sem nenhum contato físico, e é isso que está te incomodando?

- Não, não é isso! – Ikki suspirou cansado e tirou a garrafa de cerveja das mãos de Milo, virando-a na boca – Eu descobri hoje que ele é um viciado de merda!

Somente naquele momento, Milo ficou sério. Mesmo porque, sabia o que aquilo significava para Ikki. O passado conturbado do rapaz com os problemas de alcoolismo do pai que levara a mãe a uma severa depressão e a morte.

- Sai dessa então, isso não é um problema seu! – disse o escorpiano.

- Preciso do dinheiro, você sabe. – retorquiu o moreno – Mas não suportei, não consegui ficar na casa dele. Que merda! Ele nem me ligou!

Milo encarou o mais jovem por um tempo.

- Ikki, acho que o seu problema é decepção. Você está gostando desse cara e ficou decepcionado ao descobrir que ele não é o que parece...

O rapaz corou.

- Para de falar merda, escorpião... – mesmo tentando brigar sua voz foi um sussurro.

Milo suspirou e enlaçou os ombros do amigo de forma carinhosa.

- E se eu disser que... assim, meio que estou sentindo a mesma coisa por alguém que nunca, nunca mesmo será pra mim?

- Eu diria que você é um idiota como eu, por que, sei também que aquele loiro metido a deus nunca será pra mim, e mesmo assim...

Milo encarou o amigo e suspirou.

- Você vai aceitar.

- Não sei, não sei se estou disposto a entrar numa briga como essa. – respondeu voltando a beber – Eu não tenho mais saco pra lidar com viciados e problemáticos de merda! Minha vida já é muito difícil sem uma coisa dessas. Acho que vou amanhã a casa dele só pra dizer que não posso.

- É mesmo o que quer?

- Não sei, escorpião! – irritou-se o moreno – Porra, estou dizendo que estou confuso e você fica me enchendo de perguntas, que saco!

- Que merda digo eu! – volveu Milo – Tudo que você nunca foi em sua vida é inseguro, Fênix! Cuidado com o que está sentido, você pode ser arrastado para o fundo do poço com esse cara, é isso que não quero!

Ikki inspirou fundo, sabia que o loiro falava para seu bem, e não podia descontar suas frustrações nele.

- Eu sei. Desculpe...

- Ah, sem essa! – disse Milo, e os dois ficaram calados, mirando a esplendorosa lua que se erguia no céu.

- Hum... que noite romântica, e nós dois aqui sozinhos! – resmungou Milo.

- Não estamos sozinhos, seu idiota! – riu Ikki – Se bem que você não faz meu tipo mesmo!

- Nem você o meu, seu metido! – reclamou o loiro esmurrando o braço do moreno – Mesmo assim é bom não estar sozinho...

- Verdade. Quando vejo a lua, sempre me lembro do Shun. – suspirou com tristeza – Espero que você esteja bem, Shun...

- Sim, ele está, tenha certeza. – Milo segurou a mão do mais jovem, e os dois continuaram a olhar o céu.

-OOO-

No dia seguinte, Hyoga saiu cedo, antes que Dimitri pudesse fazer seus interrogatórios. Mas seu telefone estava ligado e ele atendeu quando Eiri ligou.

- Hyoga, quanto tempo? – ironizou a moça.

- Sim, muito tempo, passamos exatamente um dia sem nos falar, incrível! – ironias trocadas.

- Estou indo a sua casa agora, o Dimitri me chamou.

- Ótimo, aproveita e toma café com ele, eu já saí. – explicou manobrando o carro no estacionamento da faculdade.

- Como assim já saiu? Ainda é cedo, e você não tem aula antes das oito hoje que eu sei!

- Sim, você sabe muito. – respondeu o russo com amargura – Eiri, agora eu preciso desligar. À noite vou a sua casa e conversamos, certo?

- Hyoga, o que está acontecendo com você? Eu não o reconheço!

- Que bom! – sorriu o rapaz e desligou, entrando no prédio da reitoria da faculdade.

-OOO-

O indiano viu pela janela quando o moreno estacionou sua moto na entrada do jardim. Afastou-se, voltando para o quarto e vestindo uma camisa tipo bata, leve de mangas longas, antes de descer as escadas para a sala.

Ikki parou onde estava com uma expressão séria, vendo o loiro descer as escadas e cruzar os braços.

- Achei que me esperaria. – disse Shaka, sério.

- Tive um problema. – informou o mais jovem da mesma forma – Não dá!

- Não dá o quê? – o indiano interrogou, tentando conter a irritação.

- Sua proposta. Não posso aceitá-la.

- Tudo bem. – disse Shaka – Obrigado mesmo assim.

Eles permaneceram calados por um tempo. Então, Ikki foi para a cozinha, fazer o café, e Shaka se dirigiu ao seu ateliê, pegando seu material.

Alguns minutos se passaram, e o moreno foi encontrá-lo lhe entregando a caneca, que foi aceita com um "obrigado" frio.

O mais novo sorriu, e o loiro ergueu uma sobrancelha não entendendo.

- Fiz alguma piada? – perguntou irritadiço.

- A sua cara está muito engraçada. – riu Ikki – Você não deve receber muitos nãos.

- Tem razão. – sorriu com ironia o artista – Somente um idiota me diria não.

Ikki deu de ombros com indiferença.

- Ok, sou um idiota. – falou se afastando.

O indiano bufou, largando o café e indo atrás dele.

- Você deveria ao menos manter sua palavra. – Sua voz demonstrou irritação – Disse que me esperaria.

- Infelizmente, não é só você que tem problemas, senhor artista! – ironizou Ikki – Não precisa me pagar o dinheiro da noite, se é isso que o preocupa.

- Eu não falei em dinheiro, rapaz, mas se você quiser, pode sair; arranjo outro, até mesmo para fazer meu café! – Shaka disse zangado, e caminhou de volta ao ateliê, dando a conversa por encerrada. Contudo, o moreno o puxou pelo braço e o jogou contra a parede com tanta violência que derrubou um quadro.

O artista arregalou os olhos, aturdido.

- Você vai me matar? – perguntou o loiro, sério.

Ikki o encarou, pasmado, de onde aquele louco tirava aquelas ideias?

- Você é louco? – o moreno segurava o ombro do artista com uma das mãos e a outra prendia seu pulso. Seus olhos se desviaram para o filete de sangue que descia pelo seu braço esquerdo por baixo da camiseta branca que ele vestia.

Não conseguiu conter a comoção que aquilo lhe causou.

- Você vai acabar se matando, loiro! – exclamou sem pensar. Shaka seguiu-lhe o olhar. Irritado, empurrou o mais jovem, tentando se livrar dele, mas Ikki o prensou novamente contra a parede.

- Isso não é da sua conta! Não esqueça qual é o seu papel aqui! –disse o indiano furioso - Papel esse que você nem se quer aceitou!

Antes que pudesse evitar, seus lábios foram tomados com violência. Esmagados contra a boca carnuda e a língua ousada do moreno. Um beijo forte, punitivo, que ateou fogo em seu corpo. O loiro lutou inicialmente, tentando escapar da boca rude de Ikki, mas o desejo que brotou em seu ser foi igualmente avassalador, e ele se viu correspondendo à língua audaz que tentava dominar a sua, puxando-o com violência pela nuca aprofundando o beijo de forma totalmente instintiva. As línguas se buscavam em desespero, sugando-se, provando-se e espalhando fogo pelos corpos, mas em fim, o ar faltou e eles foram obrigados a se separar, mesmo que o corpo pedisse por mais, brigando ferozmente com a razão que diziam a ambos que aquilo era a pior das ciladas que o destino lhes preparara.

Shaka, muito ofegante e desolado, empurrou o moreno, espalmando a mão em seu peito.

- O que está fazendo...? – ofegou o loiro, se afastando – Isso foi um sim?

Ikki o encarou sem entender nada.

- Quê?

- Eu não sei o que estou dizendo! – Shaka fez um gesto de mão – Então o garotinho sabe beijar? – provocou, tentando recuperar a presença de espírito.

Ikki riu incrédulo com aquele homem. Shaka realmente existia ou era uma alucinação sua?

- Shaka...

- Escuta, Ikki. – o loiro o encarou muito sério – Eu agradeço por seus serviços. Mas, você tem razão, preciso de uma pessoa por mais tempo, como disse, alguém que possa dormir aqui comigo. Eu... eu vou fazer um cheque e dispensá-lo...

- Eu fico. – o mais jovem ouviu-se dizer. O artista o encarou sem entender.

- Escute, rapaz, isso que aconteceu agora não vai mais se repetir, então se está pensando...

- Você é tão pretensioso que chega ser ridículo! – volveu o moreno – Não estou aceitando por você, loiro arrogante, estou aceitando porque preciso do dinheiro, só isso!

Shaka cruzou os braços.

- Tudo bem, quando pode começar? – tentou ser indiferente.

- Amanhã.

- Certo. Pedirei para meu advogado redigir um contrato de trabalho. Nos vemos amanhã, Ikki.

O artista voltou rápido para o ateliê, sem dar tempo de o moreno dizer nada. Acariciou o braço machucado que ainda sangrava um pouco.

- Merda! – praguejou – Malditas agulhas!

Ikki ficou o observando um pouco pela porta de vidro, antes de decidir sair da casa do loiro.

-OOO-

- Camus, onde está o Hyoga? – Dimitri invadiu a sala do sobrinho. Camus o encarou sem entender a pergunta.

- Ele mora com você, Dimitri, esqueceu? – respondeu de mau humor.

- Ele saiu cedo sem dizer para onde iria. Estou preocupado. – Dimitri coçou os cabelos loiros bem aparados num corte sério – Você falou alguma coisa com ele?

- Sim, ele esteve em meu apartamento ontem. Falou sobre alguns projetos dele, nada de muito importante. Na verdade, fiquei muito feliz por vê-lo animado. – confessou Camus – Estou cheio de trabalho, e não tenho tempo de conversar agora, Dimitri, se você puder...

- Eu preciso que você o convença a fazer a coisa certa, Camus! – esbravejou Dimitri interrompendo o sobrinho – Eu não sei o que esse rapaz tem na cabeça!

O ruivo bufou, largando a caneta que segurava.

- Eu não tentarei convencer o Hyoga a fazer nada que ele não queira, Dimitri. Pra mim chega! – tornou sério – Ele tem vinte anos, pode fazer o que quiser da vida dele.

Dimitri riu debochado.

- O que alguém de vinte anos pode saber da vida, Camus?

O ruivo o encarou dentro dos olhos, severamente.

- Há vinte anos, você foi um dos que acharam que um menino de quatorze poderia fazer uma escolha, não foi?

Dimitri empalideceu e se calou.

- Então, Dimitri? Será que o Hyoga não tem direito de tomar suas próprias decisões? – insistiu deixando bailar um sorriso vitorioso nos lábios ao ver a cara do tio.

- Estamos falando de coisas diferentes, Camus. – disse o russo friamente, tentando recobrar o controle da situação – Você foi vítima de suas escolhas erradas.

- Então deixe o Hyoga ser vítima das dele também. Você não pode querer manipular o mundo, tio...

Dimitri engoliu em seco. Uma veia em sua têmpora pulsou de irritação.

- Manipular? Não estou tentando manipular ninguém!

- É tudo que sabe fazer, Dimitri, manipular as pessoas, fez isso com meu pai, fez comigo, mas no que depender de mim, não mais fará com o Hyoga!

O mais velho inclinou-se sobre a mesa do sobrinho e o fitou seriamente.

- Não pense que pode rivalizar comigo, Camus Verseau. – disse – Perto de mim, você não passa de um garotinho assustado...

- Você não me assusta, Dimitri. – declarou Camus sem desviar o olhar – Nunca me assustou, se quer saber.

- Mesmo? Então por que você não corre e conta a verdade ao Hyoga? – provocou o mais velho – Você acha que depois de vinte anos, ele vai correr para seus braços e chamá-lo de papai?

Camus engoliu em seco, baixou o olhar e não respondeu. O loiro gostou da vitória e se afastou.

- Ele o odiará, Camus, ouça o que estou dizendo. Se quiser ter alguma relação com o Hyoga ainda, é melhor manter tudo como está.

- Melhor pra quem, Dimitri? – indagou mirando o tio no fundo dos olhos.

- Para todos nós. – o empresário russo suspirou – Ouça, você sabe o quanto gosto de você. É como um filho pra mim; entenda que o que fizemos foi por você...

Camus balançou a cabeça com um sorriso irônico.

- Poupe-me da encenação, Dimitri. Ninguém pensou em mim. Agora por favor saia, preciso trabalhar.

O loiro achou melhor não brigar mais com Camus, mesmo porque, respeitava o temperamento do sobrinho, e de forma alguma o queria como inimigo. Precisava dele como aliado, um poderoso aliado.

Quando se achou sozinho, Camus resolveu que já era hora de almoçar, embora não sentisse fome, mas precisava respirar um pouco, sair da Cignus, pensar. Ergueu-se, abandonando o trabalho inacabado sobre a mesa, pegou sua pasta, deixando a sala.

- Senhorita Nicklos, eu... – interrompeu-se quando seus olhos turquesa se encontraram com os azuis esverdeados de Milo. um calor estranho e que há muito não sentia subiu por seu peito e coloriu a sua face, fazendo-o se sentir tolo como um garoto de 14 anos.

- Oi... – disse o loiro, muito sério. Todo o deboche e jovialidade que ele demonstrara antes havia sumido. Mesmo assim, Camus pensou que ele não poderia ficar mais belo que vestido naquela pólo azul escuro e tendo os cabelos presos no rabo-de-cavalo baixo.

- Oi... – Milo repetiu, e o francês piscou tentando se livrar do torpor que o dominou com a visão do grego.

- Olá, Seferis... – disse sério também – Como vai?

- Bem, e... o senhor?

O grego parecia hesitante em como tratá-lo.

- Ah, estou bem. – respondeu Camus incomodado – Eu... eu estou indo almoçar, quer me acompanhar?

Milo umedeceu os lábios em dúvida. Percebendo que Camus seguia os movimentos de sua língua, seu corpo esquentou, e ele ficou indeciso sobre aonde aquele almoço poderia levá-los, já que a atração era palpável.

- Claro. Vamos. – aceitou mesmo achando que não deveria.

Quando o executivo e o Office-boy saíram, as secretárias se entreolharam.

- Gente o que foi aquilo? – perguntou uma delas.

- Eu não sei, queridinha! Mas há coelho naquele mato! – riu a senhorita Nicklos, depois suspirou – Acho que não tenho mais nenhuma chance com o loiro! – choramingou, logo depois se recompondo - Agora vamos deixar de fofoca e voltar ao trabalho!

-OOO-

Quando Shiryu chegou a sua sala, encontrou Hyoga recolhendo suas coisas pessoais. O chinês franziu a testa sem entender as atitudes do amigo.

- O que está fazendo, Hyoga? – indagou.

- Abandonando o estágio. – respondeu o loiro, casualmente – Ah, dê parabéns ao mais novo aluno do curso de letras da universidade de Atenas!

Shiryu encarou o amigo, boquiaberto.

- Isso é sério?

Hyoga assentiu com a cabeça.

- Dimitri já sabe disso?

- Não. E gostaria que fosse um segredo por enquanto. Organizarei tudo e somente depois falarei com ele.

O jovem chinês terminou de entrar na sala, colocando uma pasta sobre a mesa e se recostando na mesma, mirando o amigo.

- Então foi verdade? – perguntou meio sem jeito – Digo, a tentativa...

- Eu não quero falar sobre isso, Shiryu. Mas... aquilo foi importante pra mim, me fez enxergar a vida com outros olhos...

Shiryu sorriu.

- Fico feliz por você. verdadeiramente. – suspirou – Bem, agora vou trabalhar...

- E eu vou sair. – piscou Hyoga terminando de embalar algumas coisas – Tenho que me encontrar com a pessoa que salvou minha vida às cinco horas!

O rapaz de longos cabelos negros sorriu, há muito tempo não via tanta animação no russo.

- E quem é essa pessoa, posso saber?

- Com certeza você não a conhece. – riu Hyoga – Não é alguém do nosso circulo de amizades, se posso dizer assim...

- Hum... quanto mistério!

Hyoga riu.

- Não é mistério algum. É um amigo, mas por enquanto é melhor não apresentá-los, ao menos, não enquanto não esclarecer as coisas com o Dimitri ou ele pode achar que "estou sendo influenciado", entendeu? – piscou Hyoga.

- Ah, entendo bem.

- Shiryu, e aquele seu projeto paralelo a Cignus? Desistiu?

- Não, estou em busca de capital ainda, mas vou conseguir em breve.

- Bom. – volveu Hyoga – Bem, tenho que ir.

- Sorte, meu amigo.

- Igualmente. – Hyoga disse e saiu da sala, carregando sua caixa.

-OOO-

Camus e Milo estavam almoçando em um restaurante simples, mas de bom gosto e aconchegante, escolhido pelo loiro. O francês se surpreendia com o refinamento do Office-boy; não podia negar que pela função do grego, esperava encontrar alguém despreparado socialmente e até mesmo com educação escassa, mas Milo Seferis era uma deliciosa surpresa. Sabia se comportar como um gentleman à mesa, todos os seus gestos eram vigorosos, mas refinados, suas atitudes discretas, destoando com a vivacidade intempestiva de sua personalidade. Camus estava fascinado, não podia negar. O loiro além de belíssimo era inteligente, culto, sagaz, e pelo pouco que conversaram, lhe dava a impressão de ser altruísta ao extremo, generoso como ele nunca achou ser capaz.

- Então você mora com dois amigos? – indagou apôs sorver seu cabernet.

- Sim. – confirmou Milo – Minha casa é como uma república de estudantes, muita bagunça! Você não gostaria dela! – riu.

- Imagino. E quantos anos você tem, senhor Seferis?

- Vinte e seis, e o senhor? – ironizou o loiro, olhando-o fixamente.

- Trinta e quatro.

- Perdi de oito a zero! – riu Milo descontraído, o que levou Camus a sorrir de canto.

- Uma diferença de idade significativa. – concluiu o ruivo – Não posso me envolver com você.

Milo, que levaria a taça aos lábios, parou meio aturdido com a observação. Depois sorriu com charme, declarando:

- Então essa possibilidade passou por sua cabeça?

- Claro que sim, ao contrário por que o convidaria para almoçar?

O loiro baixou o olhar, sem jeito.

- Seria mesmo um problema, eu prometi não me envolver nunca mais com pessoas da High Society, se é que você me entende... – provocou.

- Parece que transitar pela alta sociedade não é problema pra você, e agora, reparando em seu comportamento à mesa, vejo que minhas suspeitas se confirmam?

- Suspeitas? – Milo ergueu uma sobrancelha.

- Sim.

- Ah, já sei, você esperava um grosseirão que mal soubesse diferenciar os talheres, é isso?

Camus não respondeu, seus olhos turquesa frios ficaram encarando o loiro e isso deixou Milo um pouco incomodado.

- Seu nome. Lembrei-me de ter conhecido alguém com seu mesmo sobrenome.

- Não existe somente minha família de Seferis na Grécia! – volveu Milo nervoso, provando seu vinho e desviando o olhar.

- Acho que era Aristóteles Seferis, um milionário que fez negócios com a Cignus logo que cheguei à Grécia. Por acaso, você o conhece?

- Não. Não conheço. – sorriu Milo contrafeito – Agora ao invés de ficar questionando a minha árvore genealógica que tal me falar um pouco de você? Já se animou em resolver aquele problema?

Camus sorriu mais abertamente, percebendo que atingiu o loiro no ponto em que queria. Mas aquele não era o momento de investigar o passado de Milo, deixaria que as coisas acontecessem naturalmente.

- Sim, e tenho que agradecer a você em parte. Embora ainda não saiba como resolver isso.

- Fico feliz. – o loiro estendeu a mão sobre a mesa e tocou a do ruivo, que corou um pouco. Milo dando-se conta do próprio gesto, recolheu a mão, sem jeito – Desculpe-me...

- Por que está se desculpando? – Camus riu com certa ironia – Lembro-me que você fez coisa pior da última vez...

Milo riu também.

- Você tem razão. Nunca fui uma pessoa tímida, mas é impressionante como você consegue despertar esse lado oculto da minha personalidade...

Camus terminou o seu vinho e percebeu que a taça do loiro ainda estava pelo meio.

- Que tal terminarmos esse almoço e irmos para um lugar mais... aconchegante?

A sugestão foi feita com os olhos profundos e azuis grudados nos verde mar do escorpiano que acabou se engasgando com o vinho branco que bebia.

- Verseau... Coff...coff... – Milo tentava falar, mais vermelho que um pimentão – Eu... não...

- Você entendeu muito bem. – cortou Camus sem desviar o olhar do loiro – Não somos mais crianças, e eu não gosto de jogos, Milo. Eu quero e você quer, isso é simples.

O grego tentava se recuperar ainda, arfou, puxando o ar, e voltou a encarar o francês.

- Sim. Eu quis isso assim que o vi...

Camus deixou escapar um sorriso charmoso.

- Então vamos pedir a conta...

-OOO-

Shiryu desceu pelo elevador para a repartição de Afrodite. Geralmente não fazia aquele percurso, era sempre o sueco a subir a diretoria para pegar ou solicitar algum documento. Porém, estava com pressa, e como não queria atrasar aqueles contratos e receber as broncas irritadas de Shura, resolveu ele mesmo entregar os contratos, para que o gerente providenciasse a entrega ao banco.

Chegou ao setor operacional. Parou aturdido ao encontrar Seiya arrumando algumas pastas numa prateleira.

- Olá. – cumprimentou, surpreso.

O mais jovem ao ouvir aquela voz, se atrapalhou, deixado várias pastas caírem ao chão.

- Ah, oi... eh... merda! – tentava falar enquanto pegava as pastas coloridas de volta. Shiryu riu ajudando o rapaz a pegar as pastas teimosas e recolocá-las na prateleira.

- Nunca imaginei que trabalhasse aqui, também. Que coincidência. – falou Shiryu amigavelmente.

- Verdade, eu... – Seiya interrompeu-se ao mirar o rapaz; o terno impecável, os cabelos longos bem alinhados num rabo-de-cavalo baixo. Shiryu estava bem diferente do rapaz que ele conhecera na noite anterior.

- Você trabalha no céu? – indagou o jovem de cabelos castanhos.

- Onde? – Shiryu franziu as sobrancelhas sem entender, e Seiya riu.

- É como chamamos a cobertura. – explicou o mais jovem sem jeito.

- Ah, sim, é lá mesmo... – sorriu Shiryu e nesse momento Afrodite apareceu, desviando a atenção dos jovens.

- Oi, Shiryu! – cumprimentou o sueco – Algum problema?

- Não, Afrodite, eu só vim trazer os contratos que precisam ir hoje para o banco. – explicou o chinês sem jeito.

- Ah, nem me fale, estou louco a procura de certo Office-boy! – o loiro lançou um olhar expressivo para Seiya que deu de ombro num gesto de eu não sei onde ele se meteu.

Shiryu sorriu sem jeito, vendo o gerente tentar novamente o número do celular do Office-boy e sair resmungando. Mirou Seiya, seus olhos verdes se prendendo nos castanhos expressivos do rapaz.

- Bom ver você... – disse discreto.

- Também. – respondeu o estagiário, e o executivo se afastou voltando para o elevador.

Seiya ficou meio apático observando ele se afastar com passos firmes e elegantes.

- Seiya! Você quer parar de babar no Shiryu e me dizer onde está o Milo? – reclamou o sueco.

- Ah, Dite, não sei! – respondeu o mais jovem, dando de ombros, corando com a observação do gerente.

Afrodite bufou voltando a olhar o visor.

- Ah, Milo Seferis, eu vou castrá-lo quando encontrá-lo!

-OOO-

Era um sofisticado e caro motel num bairro discreto e afastado do centro. A suíte escolhida era a melhor e mais luxuosa, no estilo de uma gruta com duas cachoeiras que desabavam numa imensa piscina de águas claras com decoração imitando o fundo de um rio. A imensa cama ficava de frente ao jardim luxuoso, decorada com lençóis brancos e separadas da piscina por uma porta de vidro.

Camus pediu champanhe, e perguntou se Milo não queria algo; o grego respondeu que sim; queria ele, e devorou os lábios do francês com uma fome insaciável que Camus adorou. Caíram na cama já trocando carícias intensas. Era o que queriam fazer desde a primeira troca de olhar.

O ruivo afundou as mãos nos cabelos espessos e cacheados do loiro, os afastando do seu rosto, livrando-os do elástico que os prendiam, e puxando seu corpo para mais perto. Milo com mãos hábeis livrou Camus da gravata e agora já desabotoava a camisa branca de linho do executivo. O francês gemeu ao sentir os dedos do grego em seus mamilos que enrijeceram; sua língua procurava a de Milo com a mesma intensidade, até que ele resolveu parar um pouco, afastou o mais jovem, se sentando na cama.

Milo o encarou sem entender, um pouco tenso, mas Camus sorriu de forma sensual e ele mesmo fez questão de retirar a própria camisa.

- Vamos mais devagar... – pediu. Milo corou sentindo-se como um garotinho diante daquele homem sedutor.

- Como você quiser... – respondeu não querendo deixar por menos. Tirou a pólo azul por cima da cabeça, deixando seus cabelos levemente cacheados dançarem pelos ombros largos. Camus umedeceu os lábios enquanto os olhos exploravam todo o corpo bronzeado e vigoroso do loiro. Milo se inclinou, beijando os lábios de Camus bem devagar, lambendo e mordiscando de forma lenta e sensual. Um pequeno gemido escapou da boca do francês, e ele semicerrou os olhos; suas mãos subiram para o rosto do loiro, o puxando mais pra si, querendo intensificar o beijo, mergulhando a língua na cavidade cálida e adocicada pelo champanhe, sentindo o contato com a língua áspera que se enroscava sem pudores na sua.

Milo o puxou mais contra seu corpo, sentindo cada músculo do corpo definido do executivo contra o seu, começou a acariciar-lhe as costas, enquanto Camus descia as mãos por seu pescoço delicadamente, correndo por seus braços, para depois voltar a se afundar em seus cabelos. Milo suspirou quando sentiu a leve pressão da mão do ruivo o empurrando na cama. Jogou-se de vez e sorriu, vendo Camus se inclinar sobre ele e a franja lhe cobrir parcialmente os olhos, ergueu a mão para afastá-la, enquanto o ruivo tomava-lhe a boca novamente, dessa vez, de forma mais possessiva e intensa, fazendo-o gemer, e pressionar-lhe as costas em busca de mais contato.

Camus se afastou para olhar o loiro mais uma vez nos olhos.

- E então? O que será? – perguntou.

- Você escolhe... – respondeu o grego.

Camus afastou-se um pouco apenas para pegar um preservativo dos vários que estavam sob uma banca ao lado da cama. Mostrou-o a Milo.

- Chocolate! – disse, e o grego riu ao vê-lo se referir ao sabor do objeto.

Camus voltou a beijá-lo intensamente. O sexo entre eles foi intenso, mas terno e durou por toda à tarde. Milo se deliciava com o toque delicado e sensual do francês. Camus apaixonava-se pelo jeito ardoroso do loiro. Intensidade, paixão, loucura; e ao final, paz, satisfação, felicidade...

Milo descansava com a cabeça no travesseiro, enquanto brincava com o pé claro e macio de Camus.

- Esse é o pé de alguém que nunca fez travessuras e nem correu descalço pelo jardim! – riu o grego segurando o pé do outro jovem e analisando-o como uma cartomante.

Camus riu, se deliciando com a cócega suave que a mão do loiro lhe provocava. Segurou o pé de Milo e o analisou:

- Quantas cicatrizes? De onde vem não há sapatos?

- Eu sempre fui meio selvagem! – piscou o loiro, e beijou o pé claro de Camus, para depois chupar-lhe o dedão sensualmente, enquanto olhava o ruivo do jeito mais safado possível. Camus sorriu e se ajeitou sob o lençol que o cobria até a cintura. Sentou-se na cama, puxando o pé levemente.

- Vem cá – chamou Milo com a mão -, deixa meu pé, que tal dar uma atenção especial a minha boca?

O loiro se ergueu, engatinhando na cama como um felino travesso, e chegando até o ruivo, ficando de quatro em cima dele. Beijou-o sensualmente.

Camus gemeu levemente, e segurou o rosto do loiro.

- Milo, eu... eu gostei muito dessa tarde que passamos juntos... – disse meio incerto.

- Mas? – sussurrou o escorpiano começando a descer os lábios pelo pescoço branco do francês.

- Ah, Milo... você... me escute... – pediu gemendo.

- Camus, o que vivemos hoje foi... mágico... – dizia entre os beijos que espalhava pelo corpo alvo do amante – Não estrague tudo com palavras...

- Você tem razão... – concordou o ruivo o puxando para cima e o beijando ardentemente, começando mais uma torrente de paixão que duraria até a noite...

-OOO-

Hyoga consultou o relógio enquanto corria pela praça. Estava atrasado. Será que Shun ainda o esperava?

Chegou em fim ao local, aquele mesmo banco. Estava vazio.

O russo sentiu uma profunda decepção e melancolia. Sentou-se desanimado no banco, suspirando e baixando a cabeça.

"Por que ele não me esperou?" resmungou pra si mesmo. "Eu o esperei tanto daquela vez. Por que ele não podia fazer o mesmo?"

Sem entender a comoção do seu íntimo. Sentiu lágrimas invadirem seus olhos. Considerou-se fraco e emocional com isso.

"Shun, onde você está?" murmurou.

- Hyoga?

A voz suave fez seu coração falhar e acelerar respectivamente de felicidade. Ergueu a cabeça e seus olhos se encontraram com as cintilantes esmeraldas que o fascinaram desde a primeira vez que viu.

O russo podia ouvir o bater do seu próprio coração quando o sorriso tímido que tanto ansiava ver, se desenhou nos lábios do rapaz.

- Desculpe. Eu saí pra comer alguma coisa. Você demorou. Achou que eu não viria?

O loiro continuava a encará-lo calado. Sentando no banco, o que deixava o mais jovem meio encabulado.

- Desculpe... – insistiu Shun, sentindo-se mal com o olhar angustiado que recebia.

O russo continuava calado, como se, caso pronunciasse palavras, toda sua perturbação emocional fosse se derramar sobre o garoto a sua frente. Seus olhos só conseguiam analisar que o rosto de Shun era tudo que ele precisava enxergar naquele momento, e tê-lo perto era tudo de que precisava em sua vida.

Ergueu-se do banco, sentindo as pernas trêmulas e corando um pouco, achando-se ridículo.

Shun continuava com os olhos fixos nele, sem entender muito bem o que acontecia ao amigo.

- Está bravo? – perguntou hesitante, apertando as mãos nervosamente.

Hyoga mais uma vez não respondeu. Deu um passo em sua direção, segurou-lhe o queixo e o beijou.

Continua...

Notas finais: Demorou mais saiu e saiu enoooooooorme. Desculpem-me, mas é que quis escrever com todos os casais nesse capítulo.

Sei que tem muita gente curiosa para saber os sutis mistérios dessa história, mas vocês me conhecem, sou enrolada até mandar parar e ainda não acho que seja o momento.

Espero que o capítulo tenha saído ok.

Pandora Hiei, Danieru, Maya Amamiya, Keronekoi, milaangelica, Arcueid, Meyzinha, SabakuNoGaara, Layzinha, MarcelaMalfoy, Julyana Apony, Graziele Kiyamada, Amamiya f

Obrigada a vocês por todo apoio em forma de review, isso muito me motiva.

Obrigada também aos leitores anônimos, mas saibam que reviews são muito importante para a autora e se quiserem fazer a gentileza de deixar, Sion agradece, XD!

Abraços afetuosos a todos!

Sion Neblina