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Capítulo 7

Shun não correspondeu rápido ao beijo, aturdido, ficou com os olhos arregalados, e o corpo rígido como um pedaço de pau. Hyoga, que só encostou seus lábios aos dele, vendo a reação, ameaçou se afastar; só nesse momento o Amamiya mais novo acordou do seu torpor e ergueu a mão, pressionando a nuca do loiro, o puxando mais pra perto. Hyoga desistiu de se afastar, aprofundou o beijo, enfiando a língua na boca do mais jovem e provando-lhe o gosto. Shun fechou os olhos, sentindo as pernas bambearem. Apoiou-se nos ombros do russo com medo de cair.

As mãos do russo se afundaram em seus cabelos numa carícia singela, enquanto seus lábios e língua faziam uma exploração lenta e completa da boca pequena e carnuda do mais jovem. Quando o loiro finalmente se afastou, mirou o rosto enrubescido do garoto de cabelos castanhos.

Shun abriu os olhos, fazendo suas esmeraldas se encontrarem com as safiras de Hyoga.

- Eu... eu... – ele tentou, mas Hyoga sorriu e voltou a beijá-lo delicadamente nos lábios; fazendo-o estremecer.

- Vamos caminhar um pouco? – sugeriu o russo, se afastando para mirar Shun – Está uma noite linda, não está?

O mais novo concordou com a cabeça. Hyoga passou o braço por cima dos seus ombros, e eles começaram a caminhar em direção aquela mesma praia. Depois de andarem alguns metros em silêncio, o russo resolveu que já era hora de quebrá-lo, mesmo porque, Shun parecia totalmente constrangido.

- Desculpe-me pelo que fiz, Shun. – pediu – Eu não tinha esse...

- Arrependeu-se? – indagou o mais jovem o encarando. Seus olhos tremiam levemente.

Hyoga hesitou. Arrependimento não seria a palavra correta; mas ele sentia algo estranho no peito, um medo injustificável de se entregar aquele sentimento novo e proibido.

- Não. – por incrível que fosse, sua voz foi firme – Porém, por seu silêncio, me perguntava se você havia se arrependido...

- Não brinque com meu coração, Hyoga... – pediu Shun, muito sério.

- Não estou brincando, Shun, tenha certeza. – respondeu irritado – Por que acha isso?

- Eu não acho. Estou pedindo. – os olhos esmeraldinos continuavam fixos nos dele, com uma firmeza intimidadora – E estou pedindo isso, por que...

Interrompeu-se, baixando o olhar, era melhor não dizer mais nada.

- Por que, Shun? Você poderia parar de mistério e me dizer quem é? Parece que conhece demais sobre mim, e não diga que é apenas das colunas sociais. Você nem tem jeito de quem lê coluna social.

Shun manteve silêncio por um tempo, olhando para a areia da praia. Quando ergueu a cabeça, seus olhos demonstrava muita angústia, mas ele nada falou.

- Vamos caminhar, Hyoga, só caminhar...

O loiro resolveu não insistir. Tinha a certeza que, com o tempo, o garoto de cabelos castanhos confiaria nele. Ainda não compreendia o que sentia, mas compreendia o quão bem fazia a sua alma a presença daquele menino tímido que tinha nos braços.

Somente caminharam durante um tempo, em silêncio; mas dessa vez, um silêncio confortável que fazia ainda mais aconchegante aquele semi-abraço.

As ondas quebravam na praia levando o perfume adocicado do Egeu até suas narinas. Shun pousou a cabeça no ombro de Hyoga, quando eles se sentaram de fronte ao mar, para admirar a noite ateniense.

- É como estar no paraíso. – sussurrou o russo – Acho que nunca sentir essa paz...

- Só podemos estar em paz com o mundo, se estivermos em paz com a natureza e com nós mesmos... – sorriu Shun.

Hyoga o apertou mais contra o corpo, e beijou seus cabelos cheirosos.

- Onde você aprende essa coisas?

- Nos livros de auto-ajuda... – riu Shun – Deveria ler alguns. Sei que muita gente pensa que são apenas futilidades de gente frustrada metida a sábia, mas eles sempre me ajudaram.

- Você é minha auto-ajuda, meu pequeno... – o loiro se virou para mirar o mais jovem nos olhos.

Shun baixou o olhar, corando.

"Deus, não deixe que ele me machuque..." rezou em pensamentos, sentindo uma angústia mesclada à felicidade.

- Fico feliz... – respondeu estremecendo com o olhar do loiro. Hyoga percebendo isso, achou melhor mudar de assunto e parar de encará-lo. - Fale-me mais de você, Shun. Você disse que está em Atenas há três meses. O que veio fazer aqui?

- Procurar meu irmão... – respondeu com um suspiro, voltando a pousar a cabeça no ombro do russo, escondendo o rosto em seus cabelos – Mas não tive sorte até agora...

- Você não tem o endereço dele?

- Não. Vim procurar sem saber de nada, não sabia que Atenas era tão grande...

- Onde você mora? Ao que parece, não conhece ninguém aqui. – preocupou-se o loiro. Shun corou.

- Sim, não conhecia, mas... estou morando com uma família muito gentil que me acolheu. – falou desconfortável – E você? como foi seu dia hoje? – desconversou.

Hyoga sorriu, o mais novo conseguiu desviar-lhe a atenção.

- Foi ótimo! Até me esqueci de dizer. Diga olá para o mais novo estudante de letras da universidade de Atenas!

Shun sorriu mais amplamente.

- Que bom, Hyoga! Você está mudando a sua vida.

- Graças a você. – voltou a encarar os olhos do amigo – Shun, eu não entendo muito bem o que estou começando a sentir por você, mas...

Shun pressionou um dedo contra seus lábios.

- Sentimentos não precisam ser compreendidos, e sim vividos. – disse.

Hyoga, encorajado pela frase, o puxou pra si, voltando a beijá-lo.

-OOO-

- Camus... – Milo sussurrou mordiscando a orelha do francês – Camus, acorda dorminhoco! Já são mais de 10 da noite!

O ruivo bocejou e piscou os olhos.

- Ah, Milo, por que não podemos dormir aqui? Que compromisso você tem a essa hora? – reclamou Camus.

- Nenhum, eu já perdi minha aula e o emprego mesmo. – bufou o loiro – E a culpa é sua!

- Minha? – indignou-se o executivo – Pelo que saiba foi você quem me esgotou, até a última gota, Milo Seferis...

O grego sorriu malicioso, e começou a dar leves beijos no rosto do francês.

- Isso significa que fiz você gozar de inúmeras formas e posições... – sussurrou provocativo.

Camus sentiu o corpo esquentar novamente; mas estava exaurido, afinal, eles passaram toda a tarde transando.

- Verdade, mas não se anima, não sobrou mais nada. Não sei como você ainda consegue pensar em sexo; pelo que eu saiba, não ficou por menos...

- Ah, é da minha natureza... uff... – bufou se jogando na cama – Mesmo que meu corpo não aguente mais... – riu.

Camus puxou o edredom mais sobre si, e Milo sorriu, se aconchegando ao corpo dele e lhe beijando as costas claras.

- Você é um falso ruivo, não vejo nenhuma sarda... – brincou enquanto traçava beijos pelos ombros do rapaz.

- Saí com os cabelos do meu pai e a pele de minha mãe, qual o problema nisso? – riu Camus das observações bobas do loiro. Depois se virou para encarar-lhe os olhos, enquanto o polegar brincava com seu rosto – Você é incrível, Milo. Eu aqui só pensando em dormir e você com todo esse fogo...

- Não posso negar o quanto você me excita. – sussurrou o loiro de forma sedutora, bem próximo ao ouvido do ruivo, fazendo-o se arrepiar.

- Você é um perigo, mas... – Camus sentou-se na cama – Como você mesmo lembrou, temos que sair do país das maravilhas e voltar à realidade.

- Eu sei. – Milo se sentou também e segurou a mão de Camus – Vem, vamos tomar um banho...

O ruivo assentiu com a cabeça, e ambos caminharam para o banheiro.

-OOO-

Já era madrugada. A noite esfriou repentinamente, e Shun se encolheu mais sob os braços fortes de Hyoga. Eles continuavam sentados de frente ao mar, só que agora, o mais jovem repousava entre as pernas do loiro, com a cabeça apoiada em seu peito. As ondas estavam mais revoltas e o ar, brumoso, ao redor deles.

- Não tem que ir pra casa? – perguntou o loiro, afagando os cabelos do mais jovem com o queixo – Esqueci-me completamente que você é menor de idade...

- Não tem problema, posso ficar. – disse Shun fechando mais os braços do amado em torno de si – Hyoga... eu... eu posso fazer uma pergunta?

- Claro que sim.

- É que... você disse que... da primeira vez que nos encontramos, você disse... – Shun corou – Disse que tinha namorada... O russo suspirou, abraçando-o mais forte.

- Sim, tenho namorada, na verdade quase noiva. – confessou se inclinando para olhar dentro dos olhos de Shun que demonstravam muita apreensão – Mas não foi você quem disse que me ajudaria a mudar minha vida? Esse será o segundo passo.

Shun sentiu o coração descompassar de emoção e contentamento. Seus olhos marejaram e ele os desviou das safiras de Hyoga para que o russo não percebesse.

- Hyoga, você... você tem certeza? – perguntou, sentindo um aperto no peito. Temia a resposta, mas era uma pergunta necessária. Não queria se iludir. Talvez, o russo estivesse apenas empolgado com toda a novidade em sua vida; afinal, pelo que sabia, ele nem mesmo era gay ou bissexual, ou qualquer coisa desse tipo.

Hyoga se ergueu e puxou Shun pelas mãos, para que ele fizesse o mesmo. Encarou os olhos do mais jovem.

- Shun, se eu disser que tenho certeza, estarei mentindo. – confessou – Mas posso dizer com toda minha sinceridade, que nunca na vida alguém me fez tão bem quanto você. Posso dizer também que a sua presença me acalma e que nunca senti essa intimidade antes... Deus! Eu não tenho mais certezas além dessas; mas...

- Mas? – indagou Shun sem conseguir desprender os olhos dos dele.

- Eu preciso estar ao seu lado...

Shun não respondeu nada. Muito carinhosamente, puxou o loiro para um abraço. Hyoga o apertou forte, aspirando o cheiro de sua pele, dos seus cabelos, antes de procurar a boca rósea do outro para um beijo apaixonado. O mais jovem correspondeu na mesma intensidade, enroscando a língua na habilidosa do russo e sentindo o corpo aquecer com aquilo. Afastou-se a contragosto.

- Eu... agora preciso ir, Hyoga... – disse ofegante – Nos vemos amanhã no mesmo horário.

Shun se distanciou dele; Hyoga ficou parado meio aturdido, enquanto o mais novo corria de volta a rua cimentada.

- Shun, espera!

- Nos vemos amanhã! – gritou ele de volta, desaparecendo pela escada.

O loiro suspirou frustrado. Queria entender quais mistérios envolviam Shun; mas talvez aquele não fosse o momento. Muita coisa nova estava acontecendo em sua vida, inclusive aquela estranha atração por outro homem. Não era o momento de aprofundar ainda mais aquele sentimento. O mundo rodava, decisões deveriam ser tomadas, e o amor, ah, esse sempre ficava pra depois.

Com esses pensamentos, levemente amargos, o russo se obrigou a voltar pra casa, ou melhor, não iria para casa, iria para os braços daquele que sempre o acolhia e confortava, mesmo discordando do seu temperamento emocional e irresponsável. Camus.

-OOO-

O BMW parou em frente à casa humilde, mas harmoniosa. Camus se inclinou sobre Milo, lhe dando um suave beijo nos lábios.

- Então é aqui que você mora?

- Não, essa é a casa do vizinho; estou mentindo, porque não quero que saiba meu endereço. – ironizou o loiro.

Camus balançou a cabeça, fingindo aborrecimento.

- Engraçadinho. Quando nos vemos de novo? – indagou.

- Amanhã, se eu não for demitido. – volveu o grego abrindo a porta do carro.

- Não farei nada para impedir isso. O estatuto interno da Cignus diz que não posso me relacionar com um subordinado. – declarou.

- Não brinca, eu preciso do emprego, sabia? – sorriu com charme.

Camus não respondeu, seus olhos se desviaram para dois rapazes que apareceram na varanda da casa e miravam o loiro, com os braços cruzados.

Milo riu sem jeito, seguindo o olhar de Camus e depois encarando o ruivo.

- Família. Eu preciso ir.

- Boa noite. – o grego deu-lhe um suave beijo nos lábios, então, Camus deu partida no carro, indo embora.

O loiro ficou parado um tempo mirando o BMW se afastar, antes de abrir o portão e entrar com um sorriso malicioso e satisfeito nos lábios.

- Ai! Acho melhor a gente dormir, Ikki, esse aí está muito bem! – comentou Seiya mirando o sorriso do grego.

- Você é um irresponsável, Milo, ligamos mais de 10 vezes para o seu celular, se você ia sair com esse tal, poderia ao menos avisar, merda! – grunhiu Ikki irritado.

- Eu também te amo, Ikki! Amo! – brincou Milo puxando o amigo pra si, cantarolando e forçando-o a dançar consigo.

Seiya começou a rir enquanto Ikki tentava se livrar dos braços do escorpiano.

- Ah, para com isso, seu escorpião maluco! – resmungou o moreno, mas não conseguiu esconder o divertimento – Pelo visto a farra foi boa!

- Boa? Não! – riu Milo beijando o rosto dos amigos respectivamente – Foi maravilhosa! Maravilhosa mesmo!

Ikki cruzou os braços novamente, mirando sério o rosto feliz do loiro grego. Seiya se jogou no sofá, cruzando as mãos atrás da cabeça.

- Que bom que está de bom humor, porque o Ikki tem uma coisinha para lhe contar. – disse o mais jovem na sala de forma provocativa.

O leonino lançou um olhar enfezado para Seiya e depois para Milo que franziu as sobrancelhas. O grego caiu no sofá, também cruzando os braços atrás da cabeça.

- Então você aceitou? – adivinhou do que se tratava.

Ikki assentiu com a cabeça.

- É só por um tempo. – disse sem jeito.

- Sem essa! – irritou-se Seiya – Você está apaixonado por aquele loiro filho da puta, como você mesmo gosta de dizer!

- Cala essa boca, Seiya, já disse que não é nada disso! Por que vocês não acreditam em mim? – irritou-se Ikki.

- Ikki, olha... – Milo suspirou, estava feliz demais para se irritar com o amigo – Só não quero que você saia machucado dessa história. Você mesmo disse que o cara é um arrogante, viciado e esnobe, e olha que só peguei algumas das "qualidades" que você mesmo me informou. Não sei até que ponto será saudável para você conviver com ele.

- Preciso do dinheiro. – suspirou Ikki – Como disse, é por pouco tempo.

- Boa sorte! – exclamou Seiya – Vou dormir, amanhã acordo cedo! Espero não ter que dizer mais tarde a frase clássica: "bem que eu avisei!"

O mais jovem saiu da sala, deixando os outros dois. Ikki se sentou ao lado do grego com uma expressão cansada.

- Milo, eu...

- Eu entendo, Ikki. Não há como evitar, não é? – interrompeu o escorpiano – É irracional, é burro, instintivo, é paixão.

O moreno não respondeu; ficou com os olhos fixos no vazio, tentando encontrar respostas dentro de si mesmo para o que estava vivendo.

- Já aconteceu de você olhar para alguém e saber que aquela é a pessoa, Milo? – confessou para o escorpiano, o que não tinha coragem de confessar a si mesmo – É burro, é irracional. Ele é um idiota egocêntrico, mas...sinto uma necessidade doentia de ficar perto dele...

O loiro sorriu.

- Estranho! Estamos vivemos o mesmo momento, só que de formas intensamente diferentes. Eu sinto essa mesma necessidade pelo Camus, mas ele é o oposto do seu artista, o que me intimida é que... Ele é o rei da segurança, é frio, arrogante, mas... sei que no fundo, ele só precisa ser amado de verdade...

Ikki suspirou.

- Só não deixe esse... esse tal Verseau brincar com você... – pediu.

- Não deixe o tal artista fazer o mesmo a você, meu amigo! – o grego bateu no ombro do moreno – Agora preciso dormir. Quando o verei novamente?

- Nos veremos todos os dias, seu idiota! Trabalhamos e estudamos no mesmo lugar! – rosnou Ikki.

- Só estava sendo dramático! – riu Milo caminhando para o quarto.

O moreno ficou sozinho na sala. Havia tanto para resolver, tanto para pensar, e sua mente não conseguia processar nada que não fosse os olhos azuis do artista indiano.

-OOO-

Camus chegou ao seu apartamento, já passava da meia noite. Olhou o céu noturno e ergueu as mãos. Há muito não se sentia tão bem. Sorriu sozinho enquanto entrava no elevador. Há quanto tempo não ria sozinho? Lembrou-se que sempre reagia assim quando Hyoga fazia alguma traquinagem na infância. Era algo que sempre animava seus dias tristes.

O elevador parou na cobertura, e ele abriu a porta do apartamento.

Surpreendeu-se ao encontrar Hyoga sentado no sofá, bebericando um drinque.

- Hyoga?

- Oi, Camus, desculpe por mais uma vez invadir sua casa. – pediu o loiro com um sorriso radiante, que sempre deixava o pai meio bobo quando se manifestava. Era o sorriso de Natássia.

- Você sabe que pode vir quando quiser, essa casa é sua. – disse se aproximando e largando a pasta.

- Posso dormir aqui hoje? – pediu o mais jovem – Estou tão bem que não quero que o Dimitri estrague minha noite com seus interrogatórios.

- Claro que pode, mas... acho que deveria avisá-lo... – declarou Camus, meio sem jeito com o constante sorriso do filho. Ele nunca o viu daquela forma.

- Você poderia fazer isso pra mim? – pediu o russo – Você sempre consegue convencê-lo do que quer; ele te ama.

- Já pedi para parar com isso! – volveu Camus aborrecido, pegando o celular e ligando para o tio.

Trocaram algumas sílabas em francês, e o ruivo desligou o telefone, voltando a mirar o loiro sentado no sofá.

- Você sabe onde fica seu quarto. – declarou Camus e sorriu. Hyoga percebeu que era raro ver o amigo sorrir, e das poucas vezes que o viu sorrir, foi para ele – Mas acredito que esteja aqui porque quer me dizer algo, estou certo?

De repente a mente do jovem russo começou a processar algumas imagens, e ele se sentiu estranhamente incomodado. Corou e baixou o olhar.

- Não é nada... é só que estou muito feliz. – disse sem jeito – Eu... eu conheci alguém especial.

Os olhos escuros de Camus miraram os claros de Hyoga.

- Sério?

- Sim. – sorriu o russo encabulado – Eu queria que fosse o primeiro a saber.

O olhar do ruivo deixou transparecer a emoção que ele sentia. A conexão que ele tinha com Hyoga era muito forte, embora o loiro não fizesse ideia do motivo de senti-lo tão próximo.

Hyoga por seu lado, não entendeu bem a emoção estampada no rosto do primo, e ficou sem jeito.

- Eu... é...

- Pode falar, Hyoga, você sabe que nunca o julgaria. – disse Camus – Eu só quero vê-lo feliz.

- Lembra do garoto que salvou minha vida? – indagou o russo.

- Um garoto? E a Eiri? – perguntou Camus, confuso.

Hyoga se ergueu do sofá e caminhou até o bar novamente, enchendo o seu copo de novo.

- Camus, não me interrogue e nem me julgue. Eu estou tão confuso nessa história quanto você. A única coisa que sei, é que os meus sentimentos pelo Shun são fortes...

- Shun?

- Você não o conhece, na verdade nem eu o conheço! A vida dele é um mistério pra mim, mas... o que sinto é intenso demais.

Foi a vez de Camus se erguer e encher um copo com uísque, colocando algumas pedrinhas de gelo.

- Hyoga, meu único receio é que você se machuque nessa história. Você mal conhece esse garoto, além do mais, até ontem pelo que eu saiba, você... você nunca gostou de homens...

O russo riu alto, descontraidamente.

- Na verdade, eu nunca tive nenhum envolvimento com homens, isso não significa que eu nunca tenha desejado ou me sentido atraído por outro homem... – explicou corando.

Camus corou mais ainda e bebericou o uísque. Não acreditava que estava tendo aquela conversa com Hyoga, por mais íntimos que eles fossem aquilo o incomodava.

- Ah, Camus, não faz essa cara! – riu o russo – O Shaka mesmo é um dos homens que eu sempre julguei extremamente atraente, isso nunca foi problema pra você, eu já havia lhe dito isso...

- Sim, mas agora é diferente. – volveu Camus – Você não está dizendo que esse garoto é atraente, você está dizendo que está apaixonado por ele. Não estou chocado, estou só preocupado.

- Não fique. Se você conhecesse o Shun, veria o quão adorável ele é.

Camus sorriu mais uma vez. Hyoga percebeu que o amigo estava com uma aparência muito mais descontraída que o costume.

- Mas, parece que alguma coisa aconteceu com o senhor também, mestre Camus, o que foi?

- Não sei do que está falando. – o francês terminou de tomar o uísque, colocando o copo sobre o bar – Hora de dormir, Hyoga, amanhã acordamos cedo.

Camus tentou passar pelo russo, que lhe segurou o braço.

- Nem em sonho você sai dessa sala sem me explicar o que está acontecendo, Camus! – brincou puxando o ruivo e o empurrando no sofá.

Camus respirou fundo e lançou seu olhar mais sério ao filho que cruzou os braços sem se intimidar.

- Tudo bem. – resignou-se Camus – Eu saí com uma pessoa hoje...

- Não foi o Shaka.

- Sim, sim, não foi o Shaka. O que quer saber mais?

- Nada. Tudo bem, não precisa me dizer nada se não quiser. Eu vou dormir. – riu Hyoga, que estava feliz demais para brigar com o primo.

Camus assentiu com a cabeça, indo também para seu quarto. Jogou-se na cama, pensando em como seus últimos dias estavam sendo movimentados.

-OOO-

Shun andava rápido, em direção a sua casa. Estava cansado depois de mais um dia de trabalho. Suspirou, abrindo o portão. O local estava completamente escurecido e com certeza, Ilana reclamaria por ele chegar tão tarde. A boa mulher se preocupava com ele de verdade, e fora a única pessoa que o acolhera, em sua humilde casa, quando ele chegou a Atenas.

Entrou nas pontas dos pés, na pequena casa, em direção ao quarto nos fundos que ocupava.

- Por onde andou moleque?

Estremeceu ao escutar a odiosa voz daquele homem. Não esperava encontrá-lo; gostava mesmo de chegar bem tarde a casa, quando geralmente, ele já havia partido.

- Eu não lhe devo satisfações. – murmurou seguindo rápido para o quarto, mas o homem o pegou pelo braço.

- Deve sim, enquanto estiver aqui, deve!

- Me solte! Você não deveria estar aqui! – gritou Shun.

As luzes se acenderam, e Ilana apareceu.

- O que está acontecendo aqui? Solte o Shun agora, Marcel!

O homem libertou o braço do garoto.

- Já disse que não gosto desse moleque, não o quero perto dos meus filhos! – berrou o brutamonte.

A mulher se aproximou dele.

- Escuta aqui! Essa casa é minha, e eu só permito que entre aqui para ver os meninos! – disse zangada – O que há com você? Pensei que já tivesse ido embora, o que fazia como um ladrão no escuro?

O homem não soube o que dizer. Baixou a cabeça e caminhou para a porta.

- Eu vou embora! Um dia perco a paciência e mato vocês dois! – grunhiu saindo.

- Como se você tivesse coragem para isso! – berrou Ilana e mirou o braço de Shun – Você está bem, meu querido?

O adolescente balançou a cabeça, enquanto massageava o braço. Nesse momento, um garotinho e uma garotinha loiros chegaram à sala, atraídos pela discussão.

- O que foi, Shun? – perguntou a menininha. Shun sorriu e se agachou a acolhendo nos braços.

- Não foi nada. Venha, vou levá-los para a cama.

- Faça isso, Shun, eu vou preparar um chá pra nós dois. – declarou a jovem mãe, indo para a cozinha.

Shun levou as crianças pelas mãos para o quarto, depois voltou para a sala onde Ilana já o esperava com uma caneca de chá nas mãos. Sentou-se ao seu lado do sofá, aceitando a bebida quente.

- Desculpe, Shun, eu achei que aquele idiota já havia partido.

- Não precisa se desculpar. Ele... ele deve sentir ciúmes de você...

A loira riu com ironia.

- Quem dera fosse isso. Mas vamos esquecê-lo, se ele começar a implicar com você, eu o proíbo até mesmo de ver as crianças. Você é meu hóspede, e meu amigo querido. Além do mais, você tem me ajudado tanto.

Shun corou e baixou o olhar para a xícara.

- Vocês agora são minha família também. – disse – Eu... eu só fiquei assustado, só isso...

Os olhos castanhos de Ilana miraram o mais jovem, condoídos, naqueles três meses eles se tornaram muito amigos, mesmo ela sendo uma mulher de trinta e cinco anos, e ele um garoto de dezessete.

- O susto que o Marcel lhe deu, lhe lembrou o ocorrido... – sondou a mulher – Deve ter sido horrível.

- Eu não gosto de pensar nisso. – disse o Shun – Agora só quero encontrar meu irmão, só isso.

- E não conseguiu nenhuma pista ainda? – preocupou-se Ilana.

Shun fez uma careta e negou com a cabeça.

- Não consigo encontrá-lo, já pensei em colocar no jornal, mas o Ikki não lê jornal, ele gosta mais de livros, no máximo o caderno de esportes e revistas de economia.

- Shun, estou preocupada com você, você tem trabalhado demais, está magro, abatido.

- Estou bem. – corou o rapaz – Eu...

- Hum? – Ilana o olhou mais profundamente com certo divertimento. Achava o jeito encabulado de Shun adorável.

- Sabe, sabe aquela pessoa especial da qual falei?

Os olhos castanhos da mulher se abriram mais.

- O loiro bonito? O que tem ele?

Shun corou e torceu as mãos, nervoso.

- Eu o encontrei...

- Sério? Como é que você não me diz isso, Shun! Quando? – perguntou a mulher eufórica.

- Foi muito por acaso, eu juro! Eu não fui atrás dele, disse que nunca faria isso, mas... acabamos nos encontrando, e hoje...

- O que aconteceu hoje? Conta garoto ou eu enfarto! – desesperou-se Ilana segurando os ombros de Shun que riu.

- Ele me beijou... – confessou corando igual um pimentão.

Ilana piscou por alguns segundos até entender as palavras do garoto.

- Vocês se conheceram e ele o beijou? – indagou confusa. Shun então, narrou-lhe toda a história, desde o primeiro encontro, até ali.

- Ele está apaixonado por você, Shun! – comemorou a loira, apertando as mãos do rapaz – Que bom, fico tão feliz por você.

Shun balançou a cabeça.

- Não fique, Ilana; ele... Isso nunca vai dar certo... – os olhos de Shun marejaram – Esqueceu a que família ele pertence? Esqueceu de quem ele é filho? Só será mais motivos para dor e decepção de minha parte, eu sei... Mesmo assim, eu insisto nisso...

Shun escondeu o rosto nas mãos. Ilana o beijou no ombro.

- Você é um sonhador, Shun. Mas tenho medo que isso o machuque.

- Tomei uma decisão. Não vou mais vê-lo depois de hoje. – declarou Shun, e uma lágrima desceu por seu rosto – Essa história já está indo longe demais. Minha única preocupação tem que ser encontrar o Ikki...

Ilana abraçou o adolescente. Sentia muito por Shun. Ele era um ótimo garoto e queria vê-lo feliz. Contudo, nem sempre realizar os próprios sonhos era esperança de felicidade, no caso do jovem, aquilo poderia ser prenúncio de tristezas sem fim.

Shun, por sua vez, pensava que se permitiu viver um sonho naquela noite, mas que não passaria disso. Aquele foi o primeiro e último momento amoroso que se permitiria com Hyoga Cignus. Não mais o encontraria naquela praça, era melhor terminar antes que se machucasse mais do que suportaria.

Continua...

Notas finais: Sei que tem gente querendo me matar, mas eu disse que esclareceria tudo aos poucos. Tenham paciência.

Eu dividi o capítulo, porque se não ficaria enorme esse (já ficou grande mesmo eu dividindo), por isso, nem todos os personagens apareceram, mas juro postar o próximo breve, falta pouca coisa pra ele ficar pronto.

Pessoal, estou fazendo malabarismo para postar no Nyah, então, se alguma coisa ficar confusa, eu juro, a culpa é do site. Perdoem também os pequenos erros que encontrarem pelo texto, não deu pra revisar, andei meio adoentada e com o tempo curto. Sorry.

ShakaAmamiya, Shunzinhaah2, Izabel, Danieru, Pandora Hiei, Maya Amamiya, Jukie , SabakuNoGaara, anapanter, milaangelica, saorikido, Arcueid, Julyana Apony, Draquete Ackles Felton, Layzinha, nannao, Vitoria, Cardosinha, Virgo Nyah, Graziele Kiyamada.

Queridos, são vocês que me motivam a continuar.

Muito obrigada de coração.

Beijos e até o próximo capítulo!

Sion Neblina