Tempestades

Capítulo 8

"- Eu preciso falar com o Milo. – declarou Camus, sério. – E nem pense em me impedir...

O moreno ficou sem ação por um tempo, não pela presença de Camus, mas por se dar conta de quem estava ao seu lado. Nesse momento Seiya saiu do quarto de Milo lembrando-se de que prometera a Shiryu encontrá-lo, e deparando-se também com Camus e Shaka parados à porta.

- Que inferno! – resmungou o mais jovem, cruzando os braços e se postando ao lado do leonino, numa posição no mínimo ofensiva."

- Ele não tem nada pra falar com você. Já não basta tudo o que fez? – indagou Ikki de forma irritada. – Então, senhor Verseau, acho melhor entrar naquele lindo carro importado estacionado ali e dar o fora!

- Ikki...

- Shaka, nem se mete nisso! – cortou o moreno. – Eu até tinha me esquecido que você conhece esse babaca!

- Não fale assim, você não conhece o Camus! – irritou-se o loiro. – É sempre tão rápido em julgar as pessoas que não consegue nem ouvi-las. Ele não veio aqui brigar com seu amigo, veio dizer que sente muito e que não era o que queria!

Ikki riu com ironia.

- E o que ele sente? Carinho o suficiente para demiti-lo sem dar explicação?

Camus olhou de um para o outro perdendo a paciência.

- Vocês podem discutir o quanto quiserem, mas preciso ver o Milo, pode dizer a ele que estou aqui e que preciso falar com ele?

- Eu estou aqui.

A voz do loiro grego fez com que todos se calassem. Camus examinou-lhe o semblante sério e nervoso, os olhos avermelhados e inchados. Seu peito doeu: ele tinha feito o rapaz sofrer. Isso lhe causou uma dor que nem mesmo ele esperava.

- Diga a que veio Camus, o que quer comigo? – indagou Milo de forma baixa e séria.

- Teria algum lugar em que pudéssemos conversar a sós, por favor? – pediu o ruivo aflito.

Ikki e Seiya trocaram um olhar irritado com o amigo.

- Você quer ouvi-lo, Milo? Tem certeza? – indagou Seiya indignado.

O loiro sorriu num misto de ironia e amargura.

- Se ele veio até aqui, sem a polícia, deve ter algo a me dizer. – declarou. – Venha ao meu quarto, Camus, lhe darei 10 minutos, nada mais que isso.

O ruivo se adiantou, entrando na casa e seguindo Milo pelo corredor. Os outros jovens permaneceram na sala, Shaka ainda do lado de fora, Ikki com um olhar irritado, e Seiya pensando se deveria sair para encontrar Shiryu ou permanecer ali para ver o que aconteceria.

- Ikki, me lembrei que preciso dar uma saída, será que... – começou o mais novo.

- Pode ir Seiya, eu cuido de tudo aqui. – volveu o moreno.

- Ok. – o mais jovem passou por Shaka, dando um olhar ao loiro que dizia: "Faça meu amigo sofrer e eu te quebro na porrada.", mas é claro que o indiano nem cogitava o que tentava dizer aquele olhar hostil.

Depois que Seiya desapareceu montado em sua moto, Ikki sorriu para o indiano com certa ironia.

- Você e Verseau tinham mesmo que ser amigos. – provocou.

Shaka sorriu com malícia, sem se incomodar com a provocação.

- Amigos, amantes, sim, você tem razão, somos muito parecidos. – riu Shaka – Inteligentes, charmosos...

- Faltou o "modestos"? – riu também o mais jovem com ironia.

- Modéstia é hipocrisia, meu caro, só isso. – deu de ombros o artista.

Ikki cruzou os braços.

- Às vezes me pergunto como alguém como você entrou nessa roubada de drogas. Isso não se parece digno de um ser orgulhoso como você.

Shaka ruborizou e desviou o olhar.

- Todos têm seus vícios e suas obsessões. – falou e mirou o céu carregado, percebendo que algumas gotas de chuva já começavam a cair.

- Não quer entrar? – indagou Ikki. – Talvez a casa seja humilde demais pra você.

- Não seja idiota. – irritou-se o loiro.

- Por que Shaka? Você parece desprezar tanto tudo o que não está ao seu nível! – debochou o moreno.

- Eu não sou assim... – a voz do artista foi baixa e constrangida. – Você está me julgando antes de me conhecer.

- Claro que é! – Ikki não deu trégua. – Pergunto-me somente o que é o nível de um viciado? Imagino que você deve se misturar com todo tipo de degenerado para conseguir comprar essas merdas... Ah, não! Desculpe-me, a sua é delivery! O dinheiro pode tudo!

- Você não me conhece! – irritou-se o loiro. – Eu nunca me importei com dinheiro, eu não sou esse monstro que você está pintando!

- Então me diz quem você é Shaka. Até agora não consegui saber.

- Não preciso fazer isso! Não preciso dar explicações a um grosseirão ignorante como você! Você é incapaz de compreender a alma de um artista! Não passa de um idiota! – disse o loiro irritado, se afastando em direção ao carro.

- Espera loiro... – Ikki o seguiu puxando-o pelo braço.

- Deixe-me em paz! – vociferou Shaka, os olhos tiritando de raiva e indignação. – Você se acha o dono da verdade? Acha que pode cuspir suas grosserias na minha cara quando quer? Sabe de uma? A nossa relação acabou! Eu não quero mais nem olhar na sua cara, seu garoto infantil e obtuso!

Ikki riu divertido, continuando a segurar o loiro.

- Quem está sendo infantil aqui, hein, senhor Phalke? – disse segurando o rosto do indiano entre as mãos de forma pouco delicada. – Será que não enxerga o tamanho de sua infantilidade dando esses chiliques de artista temperamental?

Shaka se calou, os olhos presos aos escuros do moreno como imãs.

- Solte-me... – sussurrou, sentindo os primeiros pingos de chuva em seus cabelos.

Ikki o obedeceu. Lentamente afastou as mãos do rosto do loiro, que se afastou devagar, desviando o olhar.

- Posso entrar e esperar meu amigo? – perguntou sem jeito, seu coração estava descompassado e ele não entendia a angústia que sentia perto daquele rapaz.

- Claro que pode. – Ikki disse sério. – Vem.

Shaka então voltou ao lado dele para dentro da casa, mas seu peito estava pesado de angústia por razões que Ikki não conhecia e seria incapaz de compreender.

-OOO-

Seiya chegou a tempo de ver Shiryu caminhando apressado e com uma expressão aborrecida para o carro parado no estacionamento. Acelerou a moto, parando bruscamente na frente do rapaz, assustando-o. Desligou afoito o veículo e tirou o capacete encarando um pasmado Shiryu.

- Shi, me desculpe! Eu sei que me atrasei! – explicou. – Um amigo teve problemas e...

- Calma Seiya. – pediu o chinês. – Fale devagar...

- É que... Eu não queria ter deixado você esperando, foi um problema sério mesmo! – dizia o mais jovem nervoso.

Shiryu sorriu, estava muito aliviado pelo o mais jovem ter aparecido, mesmo daquela forma intempestiva. Entretanto descobria aos poucos que aquele era o jeito Seiya de ser.

- Está tudo bem. – sorriu Shiryu. – Você chegou.

Seiya parou de falar, sorriu e corou.

- Hã... Você quer ir a algum lugar? – indagou para fugir do embaraço que os olhos e o sorriso charmoso de Shiryu sempre lhe causavam.

- Que tal um cinema? – sugeriu o mais velho. – Deixa a moto aí, vem comigo?

- Certo, tudo bem. – Seiya acompanhou o jovem executivo, entraram no carro e partiram para o cinema.

-OOO-

Camus entrou no quarto na frente de Milo que trancou a porta, se encostou à mesma e cruzou os braços. O aquariano sentou em uma cadeira tranquilamente, não parecia nem um pouco nervoso ou constrangido.

O loiro o encarou nos olhos, mas o executivo sustentou seu olhar. O ruivo percebeu que seus olhos estavam vazios, como o de alguém que já sofrera tudo que podia e agora tentava se manter firme.

O francês olhou ao redor com interesse suficiente para perceber que era um quarto simples, mas com todo o conforto necessário e com uma bagunça indisfarçável, embora fosse limpo.

- Camus, eu estou dopado... – a voz do loiro interrompeu sua análise. – E só por causa disso você está inteiro. Mas não queria que o Ikki quebrasse sua cara, não por você, mas por ele, então diga logo o que quer e vá embora.

- Milo, por favor... – começou Camus. – Mereço que me ouça.

- Ouvir o que, Camus? – perguntou com amargura. – Eu sei que só tivemos uma transa, mas...

- Não tivemos só uma transa! – irritou-se o francês. – Foi importante pra mim!

Os olhos verde mar do loiro o miraram confusos.

- Então por que...?

- Eu pedi para que o Afrodite não lhe dissesse nada até que eu pudesse explicar! – disse o ruivo de forma irritada. – Milo, eu sou vice-presidente da Cignus, meu nome não pode estar vinculado a certos comentários. Eu assinei um contrato, assim como todos os funcionários. Sim, não é porque sou um dos donos que não estou sujeito as mesmas penalidades dos outros...

- Mas...

- Deixe-me terminar. – pediu Camus friamente. – Eu decidi que seria melhor para nós dois que você saísse da empresa, sair da Cignus não significaria sair da minha vida.

Milo passou as mãos nos cabelos de forma aflita, engolindo o nó em sua garganta, o coração se apertando. Estava confuso e magoado demais para entender de uma única vez o que o outro dizia.

- Eu disse que não poderia perder esse emprego! Eu sei que pra você isso não é nada, mas pra mim faz grande diferença! – vociferou irritado. – O que achava? Que eu seria seu gigolô? Que aceitaria usar seu dinheiro? Eu não estou à venda, Camus Verseau!

Camus se ergueu da cadeira em que estava sentado e tirou um envelope do bolso. Depois pegou a mão de Milo e o depositou.

- Eu nunca quis comprar ninguém, mas também não queria prejudicá-lo. – disse magoado. – Agora, deixe-me sair.

Os olhos do loiro tremeram.

- O que é isso?

- Abra e leia. Agora me deixe sair, por favor, Milo. – sua voz soou gélida.

O loiro o ignorou, abrindo rápido o envelope. Percebeu que era uma carta de recomendação para que ele trabalhasse em outra empresa do mesmo nível da Cignus.

- Eu tomei essa liberdade, me desculpe. – disse Camus corando. – Como disse, eu não queria prejudicá-lo e nem me afastar de você, mas se continuasse na Cignus acabaria tendo que fazer uma coisa ou outra.

- Camus...

- Eu já fiz o que queria fazer aqui, Milo, agora me deixe ir embora. – proferiu o ruivo friamente.

O loiro o mirou, aflito.

- Eu... Eu não tinha como saber, me desculpa! – pediu desesperado.

- Você nem me deu o direito a defesa. – falou Camus. – Você duvidou não apenas dos meus sentimentos, mas do meu caráter, Milo Seferis.

O grego baixou o olhar, sentindo-se minúsculo.

- Pensei que você era... Era como todos... – balbuciou. – Eu errei.

- Todos? De que "todos" você fala, Milo?

Os olhos esverdeados se ergueram para mirar o rosto do ruivo.

- Minhas experiências com os milionários não foram boas, se é que posso falar assim. Acabei achando que estava sendo usado mais uma vez, eu... Eu fui estúpido e impulsivo, eu sei... Mas...

- Mas?

- Estou apaixonado por você. Eu sei que é burro e idiota! Só saímos uma vez e você nem deve sentir o mesmo...

O francês se aproximou mais e segurou-lhe o rosto entre as mãos.

- Se eu não estivesse me apaixonando por você Milo, pouco me importaria o que pudesse acontecer a você na Cignus, mas foi por gostar de você que resolvi que essa era a melhor forma de preservá-lo. Você não sabe quem é o Dimitri quando o assunto é sua família.

- O que quer dizer com isso? – perguntou o grego, surpreso.

- Ele acabaria com você sem pestanejar. – disse Camus muito sério. – Daria um jeito de prejudicá-lo, eu sei disso. Escândalos não fazem parte da família Cignus e embora eu tenha adotado o sobrenome da minha mãe ainda faço parte dos planos do Dimitri.

O loiro sorriu com ironia.

- Acabar comigo? Ora, Camus...

- Não seja ingênuo, você sabe muito bem do que estou falando. – cortou o francês.

Milo só balançou a cabeça, baixando o olhar e sentando na cama.

- Você me perdoa? – indagou envergonhado. – Eu... Eu o machuquei...

O ruivo suspirou pesadamente e baixou o olhar também.

- Preciso de um tempo pra processar o que está acontecendo entre nós dois, Milo, a questão não é só perdoar, a questão é: será que vale a pena?

O loiro sentiu um aperto no estômago.

- Eu o machuquei, você tem razão... Eu... Como pude fazer isso? – indagou envergonhado. – Você deveria me odiar.

- Calma, eu estou bem, eu só...

Camus suspirou novamente, não sabia muito bem o que dizer e nem o que estava sentindo. Na verdade achava que deveria estar magoado, mas não conseguia ficar zangado com Milo.

- Eu sou um idiota! Não penso! – Milo se afastou de suas mãos. – Como pode ainda vir aqui? Você deveria me odiar e querer distância de mim!

Os olhos do mais jovem se umedeceram e ele baixou a cabeça, deixando a franja cobrir-lhe o rosto bonito.

- Eu só faço merda mesmo! – disse magoado, se sentando na cama e abraçando o próprio corpo. – Sempre que aparece algo bom em minha vida faço questão de me livrar dele!

Camus hesitou. Sua idéia inicial era ir à casa do loiro, jogar a verdade em sua cara e partir sem nunca mais olhá-lo. Contudo, aquilo no momento era o que menos importava. Ver Milo tão vulnerável, ele que era o rei da segurança, quebrava seu coração e fazia com que só quisesse protegê-lo e ficar ao seu lado. Na verdade, suas convicções já tinham ido por terra assim que viu os belos olhos do grego marcados e inchados de tanto chorar.

- Milo, olha pra mim...

- Não posso! – resmungou o mais jovem. – Estou envergonhado!

O ruivo se aproximou e se ajoelhou entre suas pernas. Milo, que estava com as mãos no rosto, as afastou para mirar-lhe a face.

- Milo, eu que fui um idiota. Eu não deveria ter feito nada sem antes falar com você. Sou eu quem pede perdão por fazê-lo chorar.

Milo segurou o rosto claro do ruivo.

- Ah Camus, me perdoa por machucar você... – pediu – Eu lhe peço, mesmo sabendo que isso foi imperdoável!

- Eu perdôo. – sorriu o ruivo e se ergueu do chão. Sentou-se no colo do loiro e beijou-lhe os lábios carnudos. Milo correspondeu ao beijo, acolhendo a língua ávida e experiente do mais velho, pensando que nunca mais queria beijar outra pessoa em sua vida que não fosse ele. Camus, por sua vez, achava que enfim estava livre dos seus fantasmas. Nos braços de Milo sentia que estava pronto para se dar uma nova chance: uma chance para voltar a amar alguém e que ali era seu lugar.

O loiro correu as mãos pelos músculos definidos dos braços do francês de forma carinhosa. Camus deixou-lhe os lábios para beijar-lhe a testa ternamente e os cabelos cheirosos.

- Como está seu olho? – indagou o grego, envergonhado.

- Um ferimento superficial, vai ficar bem, amanhã já me livro desse curativo. – disse o ruivo sem dar muita atenção ao assunto.

- Desculpe, eu juro que nunca mais faço isso. Eu...

Camus mirou o grego, que corou.

- Ah, dane-se! – resmungou Milo. – Eu amo você, Camus Verseau, sei que é cedo, sei que você provavelmente não acreditará em minhas palavras...

- Eu acredito. – disse o ruivo. – Nada é por acaso, senhor Seferis, tenha certeza.

Milo sorriu e eles voltaram a se beijar.

Muitas incertezas povoavam o peito de ambos. Sentiam-se como aquela tempestade que inundava Atenas, mas estavam felizes por perceberem que finalmente encontraram um no outro um cais para ancorar suas dores.

-OOO-

Ikki e Shaka estavam sentados na sala. O moreno estranhava a expressão distante e amarga do sempre tão irônico indiano.

- Quer café? – ofereceu.

- Não.

- O que há com você, loiro? – tentou novamente.

- Nada, me deixa em paz. – vociferou entre dentes.

Ikki sorriu.

- Não me diga que feri seus sentimentos? Eu nem sabia que você tinha isso! – provocou.

Shaka se ergueu do sofá, caminhando em direção a porta.

- Olha, diz ao Camus que eu já fui, ele pega um táxi! – disse abrindo a porta e saindo na chuva forte que caía.

- Espera, Shaka! Você não parece o tipo sensível! – provocou mais uma vez alcançando o indiano e segurando-lhe o braço.

- Me deixa em paz! – gritou Shaka e o encarou com toda sua mágoa. – Você se acha o dono do mundo! O dono da verdade! Acha-se tanto que não consegue olhar ao... – o loiro se interrompeu, suas pernas bambearam e ele teve que se apoiar em Ikki para não cair.

O moreno, aturdido, o segurou pelos ombros.

- Ei Shaka, o que você tem? – perguntou assustado, vendo-o ficar ainda mais pálido.

Shaka lutou para se manter em pé, sentindo-se cada vez mais humilhado e miserável.

- Nada, me solta! – pediu envergonhado por aquela demonstração de fragilidade.

- Não, loiro, eu não vou deixá-lo dirigir assim! – retrucou Ikki, preocupado.

- Para de fingir que se preocupa comigo! Ninguém se preocupa comigo e prefiro assim! – gritou o artista e se libertou dos seus braços. Saiu o mais rápido que pode em direção ao carro. Ikki ficou aturdido, parado na chuva.

Shaka entrou no carro e deu a partida, acelerando a lótus o máximo que pode. A chuva continuava forte, mas o loiro indiano não tinha medo da morte. Ele não tinha medo de nada. Desde muito cedo aprendeu que não deveria confiar e nem amar ninguém.

Ikki ficou parado enquanto ele se afastava. Não entendia as atitudes daquele homem. Nunca o vira daquela forma, ele parecia muito magoado com suas palavras. Por que, se tão constantemente se mostrava indiferente?

Mirou os trovões no céu, seu coração estava tão revolto quanto aquela tormenta. Resolveu voltar para dentro de casa, ver como estava Milo e o francês e, depois, seguir para a casa do artista. Talvez, quem sabe, conseguisse entendê-lo?

-OOO-

Hyoga ergueu-se do banco. Já chovia há algumas horas na capital da Grécia e como passava das nove da noite achou que era hora de ir embora. Saiu andando pela praça, chutando as poças d'água, sentindo um vazio absoluto na alma.

Do outro lado da praça, Shun chegava correndo, completamente ensopado, tal qual o russo.

Chovia muito forte e as ruas estavam desertas: ele acabou ficando preso no trabalho devido ao trânsito e teve que ir a pé até ali.

- Hyoga!

A voz do rapaz pareceu uma ilusão causada pelo barulho incessante da chuva em seus ouvidos, e o loiro continuou caminhando.

Shun estava terrivelmente cansado pela corrida que fez até ali, mas se obrigou a continuar correndo.

- Hyoga! – gritou novamente, indo em direção ao amigo.

Finalmente o loiro se virou. Seu coração acelerou e ele sorriu, todo seu mundo pareceu se completar com a imagem daquele menino magro e molhado, correndo em sua direção.

Abriu os braços e Shun correu pra ele. Hyoga o ergueu no ar, beijando-o. As bocas se encontraram famintas, como se estivessem separadas há séculos. Shun afagou o rosto e os cabelos do russo enquanto ele, para se equilibrar, andava de costas, até se apoiar no carro, sem parar o beijo possessivo; a saliva se misturando com as gotas d'água que entravam pela brecha mínima que uma boca deixava entre a outra.

- Pensei que não viria mais... – disse Hyoga afastando-se com dificuldade, depois de um tempo e colocando o mais jovem no chão, mas ainda o mantendo nos braços.

- Eu pensei em não vir, mas... Eu não consegui! Não consegui pensar em deixá-lo aqui sozinho!

- Por que pensou em me deixar? – indagou o estudante.

Shun mirou seus olhos angustiados, não tinha coragem de lhe contar a verdade, não naquele momento.

- Por que... Porque o que estamos vivendo é um sonho, Hyoga! E sonhos não são reais! – gritou se afastando. – Ao final... Tudo termina em mágoa...

O loiro o puxou de volta pra si, segurando firmemente seu braço.

- Não venha me dizer isso agora, Shun! – bradou irritado. – Não agora que me deu um motivo para viver!

O mais jovem afastou-se novamente.

- Seus motivos para viver não devem ser outra pessoa, Hyoga! Você deve procurá-los dentro de você e não nos outros! – disse nervoso, gesticulando.

Hyoga o puxou pra si novamente, segurando-lhe o rosto com força.

- Shun, não me diga que vai me deixar sozinho agora, eu preciso de você... Não pode fazer isso comigo, não depois que me apaixonei por você!

Shun sentiu um aperto no peito, não respondeu, tomou os lábios do loiro num beijo quente que durou minutos sob aquela tempestade de verão.

Quando se afastaram ofegantes o mais jovem sorriu, o que desanuviou o semblante do loiro.

- Eu não vou deixá-lo... – declarou Shun – Eu prometo.

- Não vai mesmo, não vou deixar. – o russo o abraçou com força.

- Hoje não vamos poder passear na praia Hyoga, é melhor...

- Venha comigo... – interrompeu o estudante. – Não vou deixá-lo partir dessa forma, vamos à casa de um amigo meu, você precisa se secar ou ficará doente.

- Não, Hyoga...

- Shun, sem reclamações. – interrompeu o loiro – Depois eu o levo pra casa, certo?

O rapaz de cabelos castanhos ficou sem argumentos. Hyoga sorriu. Eles entraram no carro e partiram.

-OOO-

Seiya e Shiryu estavam no cinema enquanto a tempestade caía sobre Atenas. Assistiram um filme de ação qualquer, o mais jovem muito empolgado e o mais velho nem tanto, mas se divertindo com os comentários dele.

Já passava das dez da noite quando deixaram o cinema e foram jantar ainda conversando animadamente sobre o filme. O jovem executivo se divertia com o bom humor do sagitariano.

Passaram uma noite muito agradável, conversando sobre vários assuntos, desde política a religião, e o mais velho sempre se divertia muito com as opiniões de Seiya.

Chegaram ao estacionamento da faculdade já tarde. A chuva havia dado trégua à bela cidade, mas os relâmpagos e trovões continuavam a clarear o céu.

Seiya saiu afoito do carro.

- Shi, eu tenho que ir pra casa, o Ikki vai trabalhar e não posso deixar o meu amigo Milo sozinho, você entende, não é?

Shiryu saiu do carro também, sem demonstrar nenhum nervosismo ou aborrecimento. Seiya sempre ficava meio bobo com aquele jeito de sábio oriental do chinês. Ele parecia uma pessoa incapaz de perder a calma.

- Claro que entendo, Seiya. E admiro essa preocupação que você nutre por seus amigos. – respondeu Shiryu com um sorriso.

- Somos amigos de verdade. – disse o mais novo. – Imagino que você deve ter amigos.

- Não muitos, mas entendo o que você fala. – assentiu o executivo. – Boa noite então.

Seiya pegou o capacete.

- Boa noite, Shi. – já estava se afastando quando estancou o passo, voltou-se, aproximando-se do chinês.

Seiya não disse nada, afundou as mãos nos cabelos negros de Shiryu puxando seu rosto para si, já que era pouco mais baixo que ele, e o beijando nos lábios. O chinês acolheu a boca macia e carnuda do rapaz de cabelos castanhos, adentrando-o com a língua e explorando-a sensualmente, na mesma intensidade com que ele vasculhava a sua. Afastaram-se minutos depois, excitados e ofegantes. Seiya sorriu maroto, ruborizado, baixando o olhar.

- Essa é uma despedida melhor que um mísero boa noite! – disse moleque.

Shiryu sorriu também.

- Com certeza. Agora sim, terei uma boa noite.

O mais novo riu e montou na moto, colocando o capacete. Shiryu entrou em seu carro, dando a partida. Suspirou feliz, sentido o sabor dos lábios de Seiya e achando delicioso.

-OOO-

Shun e Hyoga chegaram ao apartamento de Camus. O loiro rapidamente levou o mais jovem para o quarto de hóspedes que sempre ocupava no imenso local, tentando evitar o máximo molhar o chão e provocar uma sincope nervosa no sempre tão organizado primo.

- Tem certeza que ele não ficará bravo, Hyoga? – indagou Shun sem jeito, vendo o russo começar a se livrar da camisa.

- Claro que não, o Camus é meu amigo, ele vai entender. – disse o loiro. – Vamos, Shun, começa a tirar essa roupa ou ficará doente...

- Aqui? – perguntou o mais novo ruborizando. Hyoga, por sua vez, já arrancava a calça, mostrando-se só de boxer.

- Aonde você quer que seja? – perguntou distraído.

Shun, muito sem jeito, tirou a camisa por cima da cabeça, mas continuou com a calça jeans, sem saber muito bem o que fazer. Hyoga foi para o banheiro, tomou um rápido banho, voltando em minutos, vestido num roupão azul. Só então percebeu o constrangimento do mais jovem. Riu, também sem jeito, e se aproximou dele.

- Desculpe. – pediu – Que tal tomar um banho quente? Enquanto isso eu coloco suas roupas na secadora.

- Tudo bem. – Shun respondeu tímido, baixando o olhar e entrou no banheiro. Tomou um banho demorado e relaxante, a água morna fazendo seus músculos tensos relaxarem tanto que voltou ao quarto caindo de sono, vestido em um largo roupão azul.

Hyoga o esperava sentado na cama, mas o rosto do loiro estava sério. Shun engoliu em seco, sem jeito, passando as mãos nos cabelos úmidos.

- Shun, precisamos conversar. – o russo disse e ergueu-se da cama. – Venha, eu preparei um cappuccino pra nós dois, está na sala. Suas roupas ainda não secaram.

Shun seguiu o loiro com um aperto no estômago. Chegando à sala, eles se sentaram no chão, apoiados no sofá confortável e pegaram cada qual sua caneca de cappuccino.

- Você está bravo comigo. – o mais novo concluiu pelo silêncio do loiro.

- Não, mas preciso entender porque quer fugir de mim. Não quero me arriscar a ficar te esperando a noite inteira outra vez, Shun.

Shun baixou o olhar para a caneca que segurava.

- Desculpe-me, Hyoga, mas... - o mais jovem abandonou a caneca na mesinha de vidro e afundou as mãos nos cabelos numa atitude de nervosismo. – Eu não posso insistir nisso! Eu não posso amar você mais do que já amei minha vida toda...

O loiro não entendeu, engoliu em seco. Levantou-se de onde estava e se sentou ao lado de Shun. Segurou-lhe a mão.

- O que você quer dizer com isso? Como assim me amou a vida toda? – agora era Hyoga quem estava confuso.

Os olhos verdes lacrimosos de Shun se voltaram para ele e o mais jovem ruborizou.

- Você não tem idéia do quanto tudo isso que estou vivendo é um sonho. Sei que será doloroso quando eu acordar...

- Shun... – o russo segurou o queixo delicado do rapaz. – Você não tem que acordar! Estou aqui, apaixonado por você, só basta que confie em mim e me diga a verdade...

- A verdade é que... – Shun engoliu em seco mais uma vez, o desespero e o medo crescendo dentro de si. – Você não se lembra de mim, mas... Já nos conhecemos...

Os olhos azuis de Hyoga demonstraram confusão.

- Eu não o esqueceria. – disse o loiro.

- Mas você esqueceu. – disse – Éramos muito pequenos, eu tinha uns quatro anos, e... Bem, você pensou que eu fosse uma menina...

- Não me recordo... – murmurou Hyoga forçando as lembranças.

Shun engoliu em seco tentando não pensar nos acontecimentos tenebrosos daquele verão onde conhecera o loiro. Precisava apenas dizer a ele como se conheceram e porque o amava, mas... Como fazer tal coisa, sem explicar os motivos para aquele encontro ser tão marcante para ele?

- Eu... Eu estava na casa dos seus pais em Capri... – explicou, tentando não entrar em detalhes. – Eu estava chorando no corredor e você me levou para o seu quarto e afagou meus cabelos até que adormeci. No dia seguinte eu fui embora com meus pais e a gente nunca mais se viu...

Hyoga forçou a memória. Sim, conseguia se lembrar da menina que encontrou chorando sozinha no corredor escuro naquele verão.

- Ah, desculpe! Mas, você não me disse que não era uma menina, bem, na verdade, você não disse nada, só chorava...

Lágrimas voltaram aos olhos de Shun. De repente era como se ele estivesse naquela mansão escura de novo, naquele corredor... Não queria se lembrar daquilo, não queria voltar àquele lugar.

- Shun, o que aconteceu de tão ruim a você naquele dia? – Hyoga percebia toda a comoção do rapaz. Entretanto, Shun não queria falar, nem mesmo Ikki conhecia aquela história, ele não queria se lembrar.

- Eu não quero falar nada, Hyoga... – disse abraçando o russo. – Por favor, não me force a falar nada...

- Tudo bem, tudo bem, fica calmo... – pediu o loiro nervoso, afagando os cabelos molhados dele. – Eu entendo se não quiser me dizer tudo agora...

Shun assentiu com a cabeça, escondendo o rosto no ombro largo do amado, sentindo a textura macia do roupão contra o rosto. Aos poucos sua respiração foi se acalmando e as lágrimas pararam de cair.

- Desculpe-me Hyoga, eu... Eu apenas não sou capaz...

- Tudo bem... – o russo o puxou mais para si, abraçando-o forte. – Só basta que saiba que seja lá o que tenha acontecido, eu não vou machucá-lo nunca...

Shun assentiu com a cabeça e repousou no peito de Hyoga como um bichinho assustado. A verdade era que aquela história ainda o assombrava mais do que poderia suportar.

Ficaram um bom tempo abraçados em silêncio. Hyoga, pensativo, mirava o clarão dos raios pela janela. Queria entender o que aconteceu a Shun, o que o perturbava tanto? Não se recordava muito bem, mas se lembrava daquele fato, naquelas férias em Capri. Bem, eles eram muito pequenos. Mesmo ele se lhe colocassem um vestido seria tido como menina, criança é meio andrógina mesmo.

- Shun, eu não me lembro muito bem, você não usava vestido, usava? – provocou rindo, mas quando procurou os olhos do mais jovem, ele já dormia em seu peito. Sorriu bobo.

- Shun... – chamou carinhosamente. – Vem pra cama...

- Estou cansado... – murmurou o rapaz de cabelos castanhos.

Hyoga, com esforço, o tomou nos braços, levando-o para o quarto. Deitou Shun na cama. Ele abriu os olhos e sorriu. Hyoga sorriu também e afagou-lhe os cabelos. Shun afagou-lhe o rosto levemente.

- Eu me apaixonei por você assim... Enquanto afagava meus cabelos. Só nunca tive esperanças de encontrá-lo novamente...

- Mas o destino nos uniu e você não pode lutar contra ele. – disse o russo – Eu não vou deixá-lo sair da minha vida, nem adianta tentar...

- Preciso ir para casa... – sussurrou Shun. – A Ilana ficará preocupada...

- Shiii... – Hyoga pôs o dedo contra seus lábios. – Descanse um pouco, assim que acordar eu o levo.

Shun assentiu com a cabeça e fechou os olhos. Hyoga deu a volta na cama, se deitando ao lado dele, o enlaçando pela cintura. O adolescente sorriu, se entregando aquele sonho e ao sono.

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Shiryu chegou em casa, ainda sorrindo, se recordando da noite simples e maravilhosa que tivera. Há tanto não se divertia. Sentia-se leve, feliz de verdade.

Seu sorriso estancou quando reconheceu o posche preto de Shura ocupando uma das vagas do estacionamento. Suspirou resignado, entrando no elevador, já imaginando o que o esperava. Abriu a porta de casa e caminhou até uma luminária, acendendo-a. Shura não estava na sala.

Livrou-se da gravata e soltou os cabelos, caminhando a passos arrastados e desanimados para o quarto, onde encontrou o espanhol sentado na cama, vestindo apenas um short e com um copo de uísque na mão.

- Você demorou.

- Não sabia que viria. – respondeu resignado. – Aliás, pensei que não viria mais desde nossa última conversa.

- É isso o que quer realmente? – indagou o mais velho. – O que há com você, Shiryu?

- Shura, eu fui claro quando disse...

O espanhol se ergueu, largou o copo no criado mudo e se aproximou de Shiryu que engoliu em seco.

- Você não me quer mais, é isso? – indagou de forma agressiva. – Vai me jogar fora depois de tudo que fiz por você, moleque?

- Shura, eu não o estou jogando fora, quem seria louco de fazer tal coisa? Quero que entenda que nossa relação há muito se tornou apenas amizade...

- Só se for da sua parte! – rosnou o mais velho. – Você tem outra pessoa, não tem? Fala a verdade!

O chinês engoliu em seco novamente.

- Não, não tenho, mas...

Os olhos negros do executivo espanhol se fixaram no rosto constrangido de Shiryu de forma ameaçadora.

- Mas? Mas o quê? Quem é ele, quem?

A mão forte de Shura segurou o mais jovem pela nuca o puxando mais para perto. Shiryu pode sentir o cheiro de bebida em seus lábios. Geralmente, o espanhol não se excedia na bebida, sempre sério e controlado, aquilo assustou o mais jovem.

- Você não sente mais nenhum desejo por mim, Shiryu? – sussurrou de forma sensual, grudando seu corpo forte ao do chinês, roçando-se nele de forma lasciva.

- Não é isso, Shura... – o mais novo tentava fugir da mão que o segurava. – Você antes de tudo é meu amigo, mas... É possessivo, obcecado...

- Obcecado por você... – disse antes de tomar os lábios do rapaz oriental com um beijo urgente.

Shiryu gemeu contra a língua e os lábios experientes do espanhol, lutando para se afastar. Sabia que se fosse um pouco além não teria mais força para resistir a ele. Shura era hábil, ardiloso e terrivelmente sensual.

- Não, chega! – regougou empurrando-o levemente, afastando-se e enxugando os lábios com as costas da mão. – Eu estou gostando de outra pessoa, era isso que eu diria, Shura...

Derramou de vez a informação, antes que pensasse melhor.

- Quem é ele? – indagou Shura avançando em sua direção e o segurando pela gola da camisa.

- Você não o conhece, para com isso! – Shiryu tentou se libertar, mas o espanhol o segurava com força, impedindo que ele fugisse.

- Então esse era o tempo que você queria? Um tempo para pular pra outra cama, seu vadio?

- Quê? – Shiryu o encarou surpreso, ficou ainda mais surpreso quando o mais velho deu-lhe uma bofetada na cara, o lançando ao chão. Shiryu caiu, limpando o sangue dos lábios. Shura o puxou de volta aos seus braços pelos cotovelos.

- Shura, para com isso! – Shiryu o empurrou, afastando-se dele, mirando o espanhol irritado. – O que pensa que está fazendo? Vai me agredir? Pensa que é meu dono por acaso?

- Eu não sabia que você era um vadio! – rosnou Shura. – Um puto que sai da cama de um e corre para a cama de outro tão rapidamente!

- Se quer saber ainda não fomos para cama, ainda! – irritou-se Shiryu, ainda limpando os lábios.

- Não me faça perder a cabeça Shiryu, você me conhece, sabe o quanto isso pode ser perigoso!

- Estou vendo o quanto pode ser perigoso! O que pretende? Me espancar até que eu volte a gostar de você?

O mais velho respirou fundo e baixou o olhar, sentindo-se envergonhado e vazio.

- Me desculpe... – pediu, pegando suas roupas sobre uma cadeira e começando a se vestir. – Mando alguém buscar minhas coisas...

- Shura...

- Eu estou tentando entender o que se passa na sua cabeça! – interrompeu o espanhol cansado. – Queria saber se você não sente mais nada por mim mesmo ou isso é charme para tentar me convencer a fazer tudo o que você quer!

Shiryu colocou as mãos no quadril e o encarou perplexo.

- Eu nunca usei nossa relação pessoal nessa história, Shura! Agora você foi longe demais!

- Eu não entendo essa sua obsessão em deixar a Cignus! – revidou o espanhol. – Essa história de outro alguém é mentira, não é? Isso é tudo para me pressionar! Não consigo entendê-lo, Shiryu!

- Nem quero que entenda mais. Sinceramente, você não faz mais parte dos meus projetos. – disse o chinês. – Agora devolve a chave do meu apartamento e vai embora!

- Shiryu, só estou pensando no seu bem, você está cometendo um erro!

O chinês suspirou, tentando recobrar a calma perdida.

- Sabe Shura, acho que erro foram esses dois anos que estivemos juntos. Eu não o conheço. – declarou com desgosto. – Por favor, vá e deixe minhas chaves.

O espanhol engoliu em seco.

- Desculpe-me por amá-lo! – disse jogando a chave sobre a cama e saindo do quarto.

Shiryu inspirou e expirou o ar tentando equilibrar as emoções. Não iria permitir que Shura estragasse a noite que tivera com Seiya, não mesmo. Contudo, sabia que aquela guerra com o empresário espanhol não terminara ali; ainda demoraria muito até que Shura Aguille aceitasse que um romance entre eles não era mais possível.

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Ikki tirou a jaqueta de couro que o protegeu parcialmente da chuva enquanto ele pilotava até a casa do indiano. Deixou a peça no hall e percebeu que o tal agente não aparecera.

A porta estava aberta e a casa, como sempre, no escuro, somente os trovões e uma luminária iluminavam parcamente o ambiente.

Subiu às escadas a procura do loiro.

- Shaka?

Procurou no quarto: a cama estava impecável, nem sinal dele. Desceu as escadas novamente, alguma coisa lhe dizia que havia algo errado.

- Shaka? – chamou mais uma vez.

- Estou aqui.

A voz baixa e tranqüila chamou sua atenção. Ele estava sentado no chão ao lado de uma das janelas, completamente molhado, abraçando os próprios joelhos.

- O que você está fazendo aí, seu doido? – rosnou o leonino caminhando até ele. – Quer pegar um resfriado?

Ele o ergueria pelos braços, mas Shaka o afastou empunhando as mãos para frente.

- Por favor, Ikki... Me deixa em paz... – disse de forma fraca. – Eu só preciso ficar sozinho, vai embora!

O moreno franziu o cenho.

- Vou sim, vou embora, assim que você levantar daí e ir trocar essa roupa. – reclamou.

O indiano não o olhou, continuou com a cabeça baixa, mas Ikki pode ouvir um gemido de angústia baixíssimo escapar dos seus lábios.

- Então me ajuda a chegar ao quarto... – murmurou.

- Por quê? Que merda, Shaka, por que não me diz logo o que há com você? – indagou nervoso.

- Eu não consigo enxergar! – gritou o loiro – Estou cego!

O indiano passou as mãos nos cabelos molhados de forma nervosa. Ikki não pensou muito, puxou-o do chão para seus braços e o abraçou com força. Shaka escondeu o rosto na curva do seu pescoço e finalmente, sem conseguir mais segurar a dor e o medo que sentia, chorou.

Continua...

Notas fiscais: O tamanho dos capítulos é por causa do excesso de personagens, paciência.

Obrigada a Srta Potter pela betagem relâmpago desse capítulo.

Beijos a todos que leram em especial aos que deixaram reviews!

Izabel, Shunzinhaah2, Danieru, Maya Amamiya, Keronekoi, anapanter, SabakuNoGaara, Arcueid, milaangelica, ShakaAmamiya, Nitsu, saorikido, Layzinha, Virgo Nyah, Julyana Apony, Cardosinha, Graziele Kiyamada, Draquete Ackles Felton, Vittoria, MarcelaMalfoy.

Sion Neblina