Descobertas
Capítulo 10
Notas iniciais: Mais uma fic com termos médicos, mas sem nenhum respaldo médicos. Tudo que foi escrito foi a partir do meu conhecimento leigo, então não levem a sério, é só ficção. Sim, pesquisei alguns pontos, mas não sou especialista, então qualquer semelhança é mesmo mera coincidência.
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Shaka estava sentado em uma maca enquanto o médico examinava seus olhos com um aparelho sofisticado que emitia luz. Ikki permanecia nervoso ao seu lado.
Depois de ele muito insistir, o loiro aceitou ir à clínica onde geralmente era tratado. Seu médico pessoal o enviou ao consultório de oftalmologia, pois não entendia o que aquela cegueira significava, e ele também fazia companhia aos dois durante o exame. A dado momento, o oftalmologista afastou o aparelho dos olhos azuis do indiano.
- E então, Walter? – o médico de Shaka, que Ikki soube se chamar Mu Rendha e que, apesar de muito jovem, já tratava do loiro há certo tempo perguntou.
O homem de meia idade mirou o colega e depois o moreno.
- Ele tem um pequeno deslocamento na retina que causou uma hemorragia. O coágulo impede que a luz passe e causa a cegueira. É necessário intervenção cirúrgica para removê-lo, e ele voltará a enxergar se tudo der certo.
- Mas o que pode ter ocasionado isso? – indagou Mu, mirando o paciente que continuava sentado, cabisbaixo – Nos dois olhos?
- É raro acontecer deslocamento da retina nos dois olhos, por isso, desconfio que o que ocasionou isso foi a retinopatia. – respondeu o oftalmologista – Bem, vou preparar a sala de cirurgia e comunicar a minha equipe. – virou-se para o paciente – Shaka, é extremamente importante que saiba que sua visão não voltará instantaneamente após o procedimento, certo?
- Sim, compreendo. – respondeu o loiro tentando parecer o mais tranqüilo possível, embora quisesse gritar de desespero.
- Eu irei acompanhar o procedimento. – Mu se aproximou e segurou a mão do genioso paciente – Fique tranqüilo, tudo dará certo.
O loiro não respondeu. Estava trêmulo e tentando não demonstrar o quanto estava apavorado.
- Ah, mesmo que não queira, eu vou avisar a sua mãe. – declarou Mu.
- Não é preciso. – proferiu Shaka cansado – Mu, não faça isso...
- Você precisará de sua família agora, e estou falando como seu amigo e não seu médico. – disse Mu com um sorriso – Fique tranqüilo, eu já volto.
Ikki se ergueu da cadeira. Estava curioso e queria indagar algumas coisas ao médico, mas Shaka percebeu seu movimento ao lado da maca e tateando segurou seu braço, quase indo ao chão para impedi-lo de sair.
- Ikki? – indagou tateando o corpo do moreno com mãos trêmulas – É você, não é?
- Sou eu, Shaka, estive aqui todo o tempo. – declarou o mais jovem, mirando o rosto do indiano ainda vermelho pelo choro de horas atrás. Segurou-lhe a mão que Shaka apertou com força.
- Não me deixe aqui sozinho... – pediu o loiro sentindo-se totalmente perdido e indefeso.
- Eu só iria...
- Por favor, eu pago mais! – desesperou-se o artista, se agarrando ao braço do moreno – Mas não me deixe aqui sozinho...
Ikki afastou suas mãos e segurou-o pelos ombros, irritado.
- Que mania irritante de achar que pode comprar tudo! – disse – Por que acha que estou aqui com você?
- Por piedade e não quero ninguém ao meu lado por piedade... – tornou o indiano com voz baixa e derrotada – Eu prefiro que seja por dinheiro...
Shaka fechou os olhos, pois manter as pálpebras abertas sem enxergar nada era mais angustiante que ficar com elas fechadas. Mantê-las fechadas lhe dava uma noção mínima de normalidade e ele preferia assim.
- Nunca pensou que poderia ser... – Ikki se interrompeu – Não entendo você. Você tem amigos, dinheiro, é bonito, o que há de errado com você? Por que entrou nessa merda de se drogar, Shaka?
- Eu nunca usei drogas ilícitas. – sussurrou o indiano – Tá, fumei maconha quando tinha 16 anos, isso conta?
Ikki o mirou surpreso e confuso. Nesse momento, Mu voltou ao quarto com o resultado dos exames que o artista havia feito há uma hora atrás.
O médico jogou o envelope na pequena mesa e mirou o paciente de forma irritada, mesmo sabendo que ele não podia vê-lo.
- Tudo está explicado agora. – disse – Há quantos dias você não toma insulina, Shaka?
- Quatro. – confessou se sentindo cada vez mais perdido e vulnerável. Não sabia o motivo, mas não queria que Ikki soubesse que era doente, aquilo o magoava mais que a perda da visão. Sentiu lágrimas nos olhos e os apertou com mais força para não chorar. Sentia-se fraco, patético e tinha vontade de morrer.
- Insulina? – o moreno indagou chocado olhando do médico para o paciente – Diabético?
Mu demonstrou certa confusão. O jovem médico conhecia Shaka desde a adolescência, sabia do gênio difícil do amigo, mas não esperava que ele escondesse a doença de alguém que, ao que parecia, era-lhe íntimo.
- Sim, ele tem diabetes tipo 1 desde a infância. Ele deveria tomar insulina quarto vezes ao dia, mas isso nunca acontece, não é, Shaka? – falava Mu irritado – Você nunca segue o tratamento, está sempre brincando com sua vida!
- Eu tomei insulina na veia há mais ou menos...
- Na veia? – interrompeu o médico irritado – Eu já disse pra não fazer isso! Por Deus, Shaka! Isso é um procedimento médico num caso extremo! Você não tem conhecimento médico para se auto-aplicar insulina na veia!
- Assim faz efeito mais rápido e se não fizesse isso, iria desmaiar, Mu. – explicou o loiro de forma calma – Eu não tive saída, já havia dias que não tomava insulina...
O médico balançou a cabeça.
- Assim conseguirá o que quer. Morrer.
- O mundo perderia um artista brilhante, uma pena! – Shaka sorriu com o canto dos lábios. As palavras do médico não parecia lhe despertar nenhum arrependimento ou medo.
Ikki continuava pasmado escutando a discussão dos dois; então o loiro era diabético e não viciado em drogas? Entretanto aquilo não fazia o menor sentido. Por que ele mentira? Por que deixara que pensasse aquilo dele?
- Por que não me disse? – indagou irritado. Mu percebeu que estava sobrando, que aquela discussão deveria ser a dois.
- Pedirei para uma enfermeira vir fazer um curativo nesse seu braço e providenciarei uma "bomba de insulina" pra você. – disse e saiu.
- Responde, Shaka, que merda! – rosnou o moreno.
- Eu não queria que soubesse que... que sou doente... – a voz do indiano foi um queixume. Ikki percebeu que por trás de toda aquela arrogância havia um homem emocionalmente frágil e que precisava esconder isso a todo custo.
- Seu idiota! – grunhiu Ikki – É uma doença comum, que só precisa ser tratada de forma responsável! Mas pelo que vejo você não dá a mínima para sua saúde!
- Eu não me importo nem com minha saúde e nem com nada, Ikki! – volveu o indiano de forma amarga – Por isso me irritei por você achar que me importo com dinheiro. Você acha que quem não se importa com a própria vida vai ligar pra dinheiro? Por Buda, eu estou muito acima de tudo isso.
O mais jovem não soube o que dizer. Tudo ainda era surreal pra ele. Shaka diabético e tão emocionalmente doente que... Não! Aquele não era o homem arrogante que conhecera? Onde estava a língua ferina, as piadinhas irônicas e a auto-suficiência daquele loiro?
- Vai embora, Ikki, eu não preciso da sua piedade. – a voz do artista soou fria e cansada.
- Há pouco me pediu pra ficar. – não entendeu o moreno.
- Eu não suporto que sintam pena de mim. – confessou Shaka – Eu prefiro que me odeiem...
Ikki responderia algo, mas a porta se abriu e uma mulher entrou. Ela usava um longo vestido bege, elegante, seus cabelos negros estavam presos num coque. Seu rosto bonito aparentava ter algo em torno de 45 anos; era uma típica indiana, e só por isso, o moreno achou que deveria ser a mãe do artista.
A mulher entrou no quarto apoiada numa muleta, o moreno percebeu que havia algum problema em uma de suas pernas.
- Olá, foi você quem trouxe meu filho? – ela cumprimentou Ikki com um sorriso e um aperto de mão.
- Sim, meu nome é Ikki Amamiya, estou... trabalhando para o Shaka.
- Trabalhando? – a mulher indagou com uma ruga de preocupação na testa, depois se sentou ao lado do filho na cama, mirando seu rosto – O Mu já me deixou a par de tudo. Como se sente?
- Cego. – respondeu o loiro com ironia – Não precisava vir.
- Não seja arrogante comigo, sabe que não funciona. – sorriu a mulher e afagou os cabelos claros do filho – Ah, Shaka, até quando ficará nesse ciclo autodestrutivo?
- Para com isso, Suriya. – pediu o loiro envergonhado – O Ikki não precisa ouvir nossas discussões.
- Ah, ele precisa sim, quem sabe assim não aprende a cuidar melhor de você! – a mulher mirou o moreno – Como pode permitir que ele fique sem tomar insulina?
- Mãe, por favor...
Suriya suspirou pesadamente tentando readquirir o controle. Ikki não dizia nada.
- Shaka, eu espero que um dia encontre alguém que realmente se importe com você. Pensei que depois de tudo que aquele canalha fez você aprenderia que...
- Já disse que eu fui o culpado daquilo... – murmurou o loiro, o desespero crescendo em si a medida que a mãe abria a boca e expunha sua vida conturbada ao rapaz.
- Ele o esfaqueou! – irritou-se a mulher – Como pode haver justificativa para isso?
A porta do quarto se abriu mais uma vez, dessa vez, entrou uma equipe de enfermeiros liderada por uma mulher baixinha de curtos cabelos loiros.
- Olá, Shaka, viemos levá-lo. Tem que se preparar para o procedimento.
O loiro assentiu com a cabeça e tateou para descer da cama. Ikki adiantou-se aos enfermeiros e o ajudou.
Shaka não podia ver, mas sabia que estava sendo apoiado pelo moreno.
- Obrigado, Ikki...
O estudante sorriu,mesmo sem saber por que ser reconhecido pelo artista encheu seu coração de alegria.
- Como sabe que sou eu? – indagou baixo.
Shaka corou, não sabia muito bem o que responder.
- Eu apenas sei. – disse.
A enfermeira se aproximou, sorriu compreensiva:
- Precisamos levá-lo.
- Ele poderia ir comigo? – perguntou o loiro nervoso – Só até eu entrar na sala de cirurgia...
A mulher trocou um olhar indeciso com os colegas. Suriya se ergueu da cama e resolveu o impasse:
- Permita, por favor, acho que assim meu filho se sentirá mais seguro e será melhor.
- Tudo bem. – a enfermeira concordou.
Ikki e Shaka seguiram com a equipe para a sala do pré-operatório na ala oftalmológica. Mu acompanharia a cirurgia, pois a mesma requeria cuidados.
Todo o procedimento foi feito. Shaka passou por novos exames, e Mu prendeu uma "bomba de insulina" ao abdômen do artista para tentar baixar mais rápido os níveis de glicose do seu sangue antes da pequena cirurgia.
- Ikki, é melhor você ir agora... – Shaka disse quando se encaminhava para a sala de cirurgia. – Obrigado, você já fez muito por mim, de verdade...
O moreno pode ver o rubor que coloriu a face do indiano ao dizer aquelas palavras.
- Não foi nenhum sacrifício... – respondeu.
- Eu sei que se sente culpado por ter mandado meus remédios embora, mas... – o loiro suspirou – Eu poderia ter dito a verdade se quisesse, mas realmente eu não queria que soubesse de nada disso...
Mu se aproximou dos dois, interrompendo a conversa e impedindo Ikki de responder.
- Vamos, Shaka, o tempo é nosso inimigo, mas não se preocupe, o procedimento é delicado, mas rápido.
- Não estou preocupado.
Ikki tocou o rosto de Shaka de maneira instintiva, vendo-o estremecer um pouco.
- Eu estarei aqui quando você sair. – disse.
- Obrigado. – assentiu o artista e junto ao médico entrou na sala de cirurgia.
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Camus chegou a casa na garupa da moto de Milo. Desceu rápido, meio desajeitado, não era acostumado a andar de moto.
- Sabe, Seferis, eu devo ser mesmo louco por aceitar andar nesse foguete contigo! – reclamou.
- Ah, você gostou que eu sei. – riu Milo tirando o capacete – Tem certeza que precisa dormir? Podíamos esticar a noite...
O ruivo riu de canto de boca, como era de costume, era raro Camus sorrir de verdade.
- Já passa das 11h00min horas, Milo, amanhã tenho que trabalhar e você tem que ir ao seu novo emprego.
- Eu sei, mas... – o grego desceu da moto se aproximando de Camus, o puxando pra si – Eu não consigo pensar em ficar longe de você, principalmente depois do que fiz...
- Esquece isso...
O loiro sorriu safado.
- Eu quero fazer de tudo para compensá-lo...
O ruivo olhou para os lados. O estacionamento estava deserto.
- E o que faria? – indagou tendo maus pensamentos.
- Hum... – Milo desceu o dedo pelo peito de Camus por cima da camisa – Eu vou deixar um boa noite muito especial...
Camus riu incrédulo.
- Nem pensar, Milo Seferis, não sou homem de praticar tais atos em um estacionamento...
Milo se afastou e segurou a mão do ruivo, o puxando enquanto caminhava para o elevador.
- Quem disse que será no estacionamento? – indagou com malícia.
- Milo... – quando tentou protestar, seus lábios foram cobertos pela boca possessiva do mais jovem que com uma das mãos apertou o botão do veículo que começou a subir.
- Milo, isso... – Camus tentou novamente,mas a boca do loiro mais uma vez dominou a sua e a um dado momento ele nem queria mais reclamar. O gosto de Milo, seu cheiro o alucinava e deixava-o totalmente fora de controle.
- Milo, espera... – pediu quando o grego começou a desafivelar sua calça – Há câmeras nos elevadores...
- Eu não ligo...
- Mas eu ligo, seu doido! – disse Camus, sendo vencido cada vez mais pela excitação. Milo em fim conseguiu desafivelar a calça do ruivo e abrir o zíper, puxando seu pênis pra fora. Camus gemeu com a massagem que o loiro começou a fazer na parte mais sensível do seu corpo. O grego passou a língua pela ponta do sexo do ruivo fazendo-o morder os lábios para não gemer alto, e apertar o vermelho parando o elevador. Olhou para seu rosto e sorriu com luxúria, mas o sorriso não foi retribuído os olhos escurecidos de desejo do francês o encarou, porém, seu rosto continuava sério.
Milo soltou um risinho e voltou a lamber o sexo do ruivo, sentindo-o se avolumar a cada passada licenciosa de sua língua hábil. Camus jogou a cabeça para trás enquanto as mãos seguravam os cabelos de Milo com força. Ele gemia baixinho, suspirando enquanto a língua do amante brincava consigo.
O grego sentiu o ruivo se mexer, entregue as sensações que ele lhe proporcionava. Aquilo o excitou e ele abocanhou seu sexo por completo, quase o fazendo gritar; mas o loiro queria provocá-lo, tirou o membro intumescido da boca novamente, começando a lamber, deslizar a língua como se fosse um sorvete. Camus só gemia agoniado, o loiro beijava sua a ereção por inteira, até fazê-la deslizar dentro da sua boca, até a garganta, subindo e descendo, chupando forte cada vez que sentia a glande entre seus lábios, apertando com as mãos as nádegas do amante, o puxando com mais força pra si. Camus segurou a cabeça de Milo entre as mãos, gemendo baixo, enrolando o cabelo dele entre os dedos, acompanhando os movimentos que ele fazia, o fazendo aumentar a força e a velocidade, gemendo mais alto, mordendo os lábios enquanto os olhos estavam fechados e as pálpebras apertadas, a cabeça pendendo para trás. Milo sorriu quando o francês começou a se mover contra sua boca, não agüentando mais o estímulo em seu sexo e se enterrando com mais força naquela caverna quente e gostosa. O aquariano tremeu não suportando mais a tortura deliciosa daquele pervertido e gozando com um grito enrouquecido, segurando forte os cabelos volumosos do amante.
Milo engoliu o sêmen do ruivo, rindo e lambendo os lábios, afastando-se e se levantando colado ao corpo forte dele, roçando-se provocativo. Beijou-lhe os lábios com volúpia, sentindo Camus arfar ainda desnorteado pelo orgasmo. O francês procurava onde se apoiar, pois suas pernas estavam bambas.
- Bem... – o grego desceu as mãos para o pênis do ruivo, o colocando de volta dentro da roupa e fechando o zíper – Agora eu acho que posso ir...
Camus só então abriu os olhos e piscou confuso.
- Ir? Ir para aonde? – indagou.
Milo sorriu e apertou o botão do elevador novamente, colocando o veículo em movimento.
- Amanhã tenho que acordar cedo, como você disse, não posso ficar aqui. – explicou dissimulado, voltando a beijar os lábios do francês – Mas agora acho que já me redimi por seu olho, não?
Camus balançou a cabeça ainda ofegante, segurou Milo pela nuca, afundando as mãos em seus cabelos macios.
- Você é louco, sabia?
O grego balançou a cabeça positivamente, sorrindo e mordendo o lábio inferior de forma maliciosa. O elevador parou na cobertura. Camus ajeitou a roupa, voltando a mesma aparência séria tão característica. Saiu do elevador e se voltou para Milo que parou na entrada do mesmo.
- Boa noite... – disse o grego – Amanhã volto para ver como você está.
- Estarei esperando. – sorriu discretamente Camus e beijou deliciosamente os lábios do loiro, percebendo o quanto ele estava excitado e querendo provocá-lo mais.
- Nhummm... não, Camus, pára... – gemeu Milo o afastando e correndo para dentro do elevador apertando o botão.
Camus riu da fuga dele.
- Você me paga, Seferis!
Milo passou a língua nos lábios de forma safada, antes da porta do veículo se fechar. Camus seguiu para o seu apartamento, abriu a porta e percebeu que as luzes estavam estranhamente acesas.
"Hyoga..." pensou e sorriu, mas ergueu uma sobrancelha ao perceber duas canecas sobre a mesa ao lado do sofá. Primeiro porque não era para elas estarem ali, segundo porque em mais de dois anos de namoro, o russo nunca havia levado Eiri em sua casa.
Tirou os sapatos e caminhou até o quarto do filho. A porta estava aberta e por isso ele não precisou bater, uma luminária também dava a Camus noção do que acontecia.
"Shun..." pensou e se retirou do quarto. Os dois jovens dormiam tão tranquilamente que não achou justo despertá-los naquele momento, haveria tempo para explicações.
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- Shaka sempre foi um garotinho adorável. – Suriya conversava com Ikki na sala de espera da luxuosa clínica. Ela bebia chá e o rapaz café.
- Desculpe-me, o conheço há pouco tempo, mas seu filho parece ser tudo menos adorável. – foi sincero. Estava cansado e já não pensava muito no que diria.
A mulher sorriu com ironia o encarando. Ikki engoliu em seco, embora não se parecessem fisicamente, aquele sorriso era sem dúvida o sorriso de Shaka.
- E mesmo tendo consciência disso, você está completamente apaixonado por ele.
A declaração de Suriya fez Ikki corar e desviar o olhar.
- Mas não o recrimino, quem não se apaixonaria por Shaka? – indagou a mãe – Como dizia, meu filho foi uma criança adorável até os sete anos, depois disso... Bem, na verdade depois da noite que ele passou perdido...
- Perdido? – o olhar do moreno se voltou para a mulher mais uma vez.
- Sim, foi durante umas férias que passamos na Suíça. Shaka se perdeu em um bosque e só o encontramos no dia seguinte. Fiquei tão desesperada que sair sozinha para procurá-lo e sofri um acidente, caí de uma ribanceira. Por isso hoje uso essa muleta, mas passei vários anos numa cadeira de roda. O Shaka mudou depois disso, ficou ainda mais introspectivo, arredio e calado. Foi nessa época que recebemos o diagnostico do diabetes. Acho que na verdade até hoje meu filho se culpa por minha condição.
Ikki engoliu em seco. Nesse momento Mu apareceu na sala, ainda com a roupa da cirurgia, mas sem a toca e as luvas.
- E então? – indagou a mãe aflita.
- Os coágulos foram drenados, mas precisamos que ele acorde e abra os olhos para saber se conseguirá enxergar. Também precisamos de exames posteriores para saber o grau de lesão no nervo óptico, mas o procedimento transcorreu muito bem.
- Eu irei vê-lo. – disse a senhora Phalke – Ele já está no quarto não é, Mu?
- Sim, mas está sedado, deve acordar em algumas horas. – informou o médico.
A mãe do artista mirou o moreno que continuava sentado com a cabeça baixa.
- Você não vem?
Ikki a mirou confuso.
- Pensei que quisesse ficar sozinha... – disse sem jeito.
- Terei muito tempo para conversar com meu filho quando ele sair daqui. Venha, ele ficará feliz em vê-lo.
Ikki quase deixou escapar um sorriso irônico, mas ao receber o olhar sério da mulher, achou melhor se calar e acompanhá-la como ela pediu.
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Já era manhã quando Shun abriu os olhos e percebeu que não estava em seu quarto. Sobressaltou-se de tal forma que acordou Hyoga que dormia ao seu lado.
O mais jovem, muito confuso, mirou o loiro que esfregava os olhos.
- Hyoga! Nós dormimos! – exclamou ajeitando o roupão que usava sobre o corpo.
- Percebo... – ironizou o russo num bocejo.
- Meu Deus! Eu tinha que voltar pra casa, Hyoga, a Ilana está preocupada! – volveu Shun nervoso, procurando as próprias roupas com os olhos.
O russo cruzou os braços sobre o peito.
- Calma, Shun, sua roupa está na secadora, esqueceu? Sim, a Ilana ficará preocupada, mas é só você ligar e explicar que acabou dormindo aqui comigo...
O mais jovem enrubesceu com a conotação maliciosa que o loiro deu as palavras.
- Não tem graça. – disse zangado.
Hyoga riu se erguendo da cama e abraçando Shun, enfiando o rosto por seus pescoço e aspirando o cheiro dos seus cabelos. O adolescente ruborizou mais, mas não fugiu, deixou que o outro o beijasse e afagasse, sentindo algo começar a brotar em si, algo que nunca sentira antes, desejo.
- Hyoga... – sussurrou erguendo o rosto para mirar os olhos nublados do loiro, percebendo que ele sentia o mesmo.
- Diga, meu anjo... – murmurou o russo descendo os lábios pela orelha do mais novo a mordiscando.
Shun mordeu o lábio inferior controlando um gemido e sentindo um arrepio tomar seu corpo.
- Hyoga... seu amigo... – lembrou-se, se afastando dos lábios e das mãos do russo – Ele... ele já...
- Oui, estou aqui. – a voz fria fez o adolescente dar um pulo pra trás, e Hyoga rir.
Camus estava parado na entrada do quarto com os braços cruzados, vestido num dos seus sérios ternos e tendo os cabelos presos num rabo-de-cavalo, mirava os jovens de forma indecifrável.
- Bonjour... – disse – O café já está servido, venham. – falou e deixou o quarto.
Shun, mais vermelho que um tomate, mirou o rosto de Hyoga que não parecia muito incomodado.
- Hyoga, eu... eu não quero café, eu quero ir embora agora. – falou nervoso – Por favor, traga minhas roupas...
- Sim, mas você não sairá com fome. – disse o russo – O Camus não morde.
Shun seguiu o loiro a contra gosto, depois que ambos se vestiram. Chegaram a sala de refeições e Camus já os aguardavam.
- Você deve ser o Shun. – disse o ruivo.
- Muito prazer... – o adolescente estendeu a mão timidamente e recebeu o aperto de mão frio do francês. Hyoga o convidou a sentar, e eles começaram a refeição. O russo conversava muito, porém os outros dois respondiam com monossílabas. Para Shun aquilo pareceu uma eternidade, estava muito constrangido e louco para fugir dali. Não que Camus fosse grosseiro, mas a situação em si era constrangedora. Quando a refeição terminou, e o ruivo se ergueu dizendo que já estava um pouco atrasado e pedindo para que eles ficassem a vontade. Shun emendou que precisava ir também.
- Eu o levo... – disse Hyoga.
- Não, Hyoga, não precisa mesmo, eu posso...
- Shun, sem discussão, ok?
O mais jovem assentiu com a cabeça, vencido.
- Vou esperá-lo no corredor. – disse já saindo, fugindo de ter que se despedir de Camus.
Hyoga balançou a cabeça e foi até o quarto do amigo, onde ele pegava a pasta para deixar o apartamento.
- Não sei qual dos dois é mais anti-social! – reclamou – Não custava ser um pouco simpático com ele, mestre Camus!
- Simpático? Eu não fui? – indagou Camus visivelmente surpreso.
Hyoga acabou rindo, realmente, se tinha algo que Camus não sabia era forçar simpatia. Era educado, gentil, mas frio como o gelo.
- Não, não foi, mas tudo bem. Sei que não foi intencional.
- Hyoga, eu só acho que, já que está realmente gostando desse garoto, chegou o momento de conversar com o Dimitri e a Eiri.
Hyoga respirou pesadamente, até o momento, evitara pensar naquilo, mas Camus tinha razão, era inevitável e quanto mais demorasse a situação só pioraria.
- Você tem razão. – disse – Farei isso hoje. Agora vou levar Shun em casa, a noite volto aqui para conversarmos, certo?
Camus assentiu com a cabeça e o mais jovem saiu.
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O loiro se moveu na cama de forma preguiçosa, fazendo o homem que cochilava ao seu lado se sobressaltar. Ikki esfregou os olhos e se ergueu, abrindo as cortinas, percebendo que já era manhã.
Shaka levou a mão aos olhos coberto pelos curativos, e Ikki segurou-as para que ele não fizesse o que pretendia.
- Ainda não deve tirar isso, loiro... – disse deitando as mãos dele ao lado do corpo – O médico já vem.
- Ikki, o que você está fazendo aqui? – a voz do indiano soou fria e cortante – Eu agradeço tudo que fez, mas pode ir embora, não...
- Sua mãe teve que voltar para casa e pediu para que ficasse aqui com você até que voltasse... – volveu o moreno cansado. Estava cansado das discussões com o artista e se sentia responsável de alguma forma pelo que acontecia a ele.
- Mas eu estou dizendo que não precisa! – volveu o loiro se sentando na cama – Quando é que vai começar a entender minhas palavras, garoto?
Ikki bufou e respirou fundo. Não começaria uma discussão com Shaka no hospital.
- Escuta, loiro, sua mãe deve estar voltando, ela apenas foi tomar um banho. Assim que ela chegar aqui eu desapareço, ok?
Shaka engoliu em seco.
- Eu agradeço de verdade o que fez, Ikki. – disse num suspiro – Mas não precisa mais perder seu tempo comigo...
- Você é tão egocêntrico, Shaka! – irritou-se o leonino – Eu não estou perdendo meu tempo, estou preocupado com você, seu loiro burro e metido a besta!
Fez-se um pesado silêncio entre eles, quebrado pela entrada dos dois médicos e uma equipe de enfermeiros no quarto com alguns equipamentos e o café do paciente e seu acompanhante.
- Bom dia, Shaka, Ikki.
- Bom dia, Mu. – ambos responderam quase simultaneamente.
- Como se sente? – a pergunta foi direcionada ao amigo e paciente.
- Ainda cego. – respondeu o indiano com ironia.
- Você não perde a presença de espírito. – riu o médico – Bem, trouxemos a refeição e depois o Dr. Walter irá retirar os curativos. Também tem que tomar a dose de insulina.
- Dose? Eu dormi com essa coisa presa em mim! Estou livre de insulina pelos próximos 50 anos! – reclamou o artista.
- Sabe que não é bem assim.
- Ok, agora, pode, por favor, tirar o esquadrão daqui se quiserem que eu coma? – pediu com ironia – Não preciso enxergar para saber que tem pelo menos cinco pessoas nesse lugar!
Os presentes se entreolharam. Como ele poderia saber? Mas um movimento de mão de Mu fez todos saírem, ficando apenas ele, Shaka e Ikki.
- Pronto, Shaka. O que mais o rei deseja? – ironizou o médico.
- Que você e o Ikki saiam também... – pediu.
- Alguém terá que ajudá-lo a comer, loiro idiota! – irritou-se o leonino, já se sentando ao lado dele e da bandeja que estava apoiada num suporte.
- Ah, nem pensar, eu não sou um bebê! – reclamou Shaka cruzando os braços – Prefiro ficar com...
Não terminou a frase porque Ikki o segurou pelo queixo e enfiou a colher cheia de salada de fruta em sua boca, forçando-o a mastigar. Mu não conseguiu conter o riso e o abafou com a mão para que o genioso paciente não escutasse.
- E se reclamar eu quebro seus dentes, mas você come, entendeu? – rosnou Ikki.
Shaka ficou tão vermelho que Mu achou que ele fosse explodir enquanto mastigava a salada de frutas. Mas ao contrário do que pensou, o loiro nada disse, respirou fundo e começou a aceitar que o moreno o alimentasse.
- Bem, eu volto depois. – disse o médico. Ikki assentiu com a cabeça, e Shaka não respondeu.
- Chega, eu não quero mais... – disse o artista depois da terceira colherada.
- Não, loiro, aqui ainda tem, uma salada, um creme branco que não faço ideia do que seja, suco de laranja e pão integral.
- Se eu comer tudo isso, sairei obeso daqui! – riu o loiro descontraindo finalmente.
- Bem, já vi você detonar sem medo toda aquela comida chinesa. – disse Ikki – E agora eu sei que não deveria comer aquilo.
Shaka calou-se, o riso morreu nos lábios.
- Há muita coisa que não deveria fazer, Ikki. – disse calmamente, mas com certa melancolia – Aceitar sua ajuda é uma dessas coisas.
- Por quê?
- Porque é doloroso saber que alguém se importa comigo, e eu sei que você se importa, mesmo que não me diga isso abertamente. – confessou.
- Metido! – Ikki riu sem jeito, baixando o olhar.
- Sim, eu sou metido mesmo, sou arrogante, mas também tenho meus motivos para isso, poucos seres humanos conseguem chegar ao meu patamar; eu sou bonito, rico, talentoso, inteligente, então não havia mesmo jeito de eu não ser arrogante...
O loiro se calou ao sentir os lábios carnudos e macios do moreno contra os seus. Entreabriu a boca condescendente e recebeu a língua cálida de Ikki, sentindo-se estremecer sob o toque delicado do leonino.
- Ikki... – murmurou se afastando um pouco – Você não merece isso...
- Ah, eu sei! Eu não mereço alguém perfeito como você, mas...
- Não, porcaria, não é isso! – irritou-se Shaka – É o contrário!
O loiro o afastou, empurrando-o levemente com a mão.
- Você não merece que eu o faça sofrer, Ikki. Você é um bom garoto...
- Pára de me chamar de garoto!
- Deixe-me terminar de falar, certo? – replicou o loiro aflito, e Ikki se calou – Eu não quero fazê-lo sofrer, Ikki, e saiba que com certeza, você sofrerá se insistir comigo. Sou um caso perdido...
- Por que você não me diz o que esconde, Shaka? – indagou o moreno.
- O que eu escondo... é que...
A porta do quarto se abriu e Suriya entrou acompanhada por um homem de meia idade alto de cabelos claros e incríveis olhos azuis.
- Ah, John, esse é um amigo do Shaka. – disse Suriya – Ikki, esse é o John o pai do seu querido amigo.
- O que você está fazendo aqui? – a voz geralmente plácida do indiano soou alta e irritada.
O homem parou aturdido.
- Vim vê-lo meu filho, mas parece que ainda está ressentindo comigo. – declarou de forma tranqüila.
Shaka calou-se, não agrediria o pai, não na frente de Ikki, mas também não queria proximidade com ele, ainda estava irritado pelas tentativas de John Phalke de "controlar" sua vida.
- Como se sente? – insistiu o pai se aproximando – Olá... – disse e estendeu a mão a Ikki que a apertou – Suriya me disse que você tem cuidado do Shaka.
- Ele é apenas meu empregado. – volveu o loiro irritado – Então, por favor, o poupe dos seus interrogatórios.
Ikki ficou sem jeito e achou que realmente estava sobrando ali.
- Eu os deixarei sozinhos. – disse e caminhou para a porta. Shaka não ofereceu resistência a isso. Não queria mesmo que o moreno presenciasse uma discussão entre ele e o pai.
Ikki deixou o quarto e sua expressão estava tão perdida que chamou a atenção de Mu que passava com um prontuário médico nas mãos.
- Ikki, não é mesmo? – indagou com um sorriso amigável.
- Sim... – resmungou o moreno e passou as mãos nos cabelos.
- Ikki, venha comigo a minha sala, acho que precisamos conversar.
- Conversar?
- Sim, pelo que me disse, está trabalhando para o Shaka, então acredito, como médico dele, que deve saber o que realmente acontece.
Ikki sentiu um aperto no estômago, mas a curiosidade o impeliu a seguir o médico. Eles entraram na sala e Mu fechou a porta.
-OOO-
Hyoga deixou Shun em frente a casa, e o adolescente entrou rápido, estava preocupado com Ilana e as crianças.
- Ilana? – chamou percebendo o cômodo escurecido. Tratou de abrir as janelas e se assustou ao encontrar tudo bagunçado.
- Ilana? – chamou novamente – Alef, Terese? – as crianças também não responderam.
- Shun, estou aqui! – disse a mulher. Shun caminhou, a voz vinha do banheiro.
- Posso entrar?
Ela não respondeu, mas quando a porta se abriu, o rapaz soltou uma exclamação de surpresa, o rosto da jovem senhora estava todo machucado e demonstrava que ela havia chorado muito.
- Ilana, o que aconteceu? – indagou Shun a abraçando, pois a loira recomeçou a chorar.
- O Marcel, ele... ele veio bêbado, me agrediu e levou o Alef e a Terese...
Shun sentiu um aperto no estômago e seus olhos marejaram.
- Eu deveria estar aqui... – murmurou.
- Não, Shun, não é sua culpa. – volveu Ilana – A culpa foi minha por tê-lo deixado entrar, você sempre me advertiu que um dia ele aprontaria uma dessas!
- Eu preciso fazer alguma coisa, preciso encontrá-los! – falou Shun nervoso.
- Não, Shun, por Deus! Fiquei longe daquele louco, eu vou chamar a polícia! Só estava limpando meu rosto. Chamarei a polícia e o acusarei de agressão e seqüestro, nunca mais ele entrará nessa casa!
- Não posso deixar o Alef e a Terese com ele por tanto tempo, Ilana, eu vou atrás dele, você vai chamar a polícia. – disse o jovem e saiu, sem que a mulher pudesse detê-lo.
Continua...
Notas finais: Como já disse, eu escrevo demais e sou muito detalhista então os capítulos saem enormes, esse eu resolvi parar antes que ficasse impossível de acompanhar e olha que faltou gente aparecer, aff! Nunca mais faço fics cheias de casais, dão muito trabalho.
Tentarei postar em breve, mas, por favor, compreendam a Sion, a vida real está difícil e a cabeça a mil.
Retinopatia - É uma doença da parte de trás dos olhos (as retinas), que pode afetar até 80% dos adultos que tenham diabetes tipo 1 há mais de 15 anos.
Agradeço o interesse de quem tem lindo, e a gentileza daqueles que além de ler deixam um comentários de incentivo.
Saorikido, Keronekoi, Maya Amamiya, milaangelica, anapanter, Arcueid, Ikki Amamiya, Danieru, Hannah Elric, ShakaAmamiya, Virgo Nyah, Anônimo, MaahFeltonAmamiya, Graziele Kiyamada, Cardosinha, nannao.
A todos vocês meus amores: OBRIGADA
Sion Neblina
18/11/2010
