Interlúdio – 1 Parte
Um bater de asas
Capítulo 11
-Umachanceparaamar-
Hyoga chegou à mansão dos Cignus em volta das 11h00min da manhã, sabia que não encontraria Dimitri, naquele horário o pai estava na Cignus, mas provavelmente voltaria para almoçar, pois dizia que em Atenas não havia bons restaurantes. O jovem foi para o quarto, tomou um banho e resolveu checar sua caixa de e-mails e o site da faculdade. Olhou o celular várias vezes, mas não teve coragem de ligar para Eiri, precisava ir à casa dela e falar tudo pessoalmente. Sabia que a moça deveria estar muito magoada com aqueles dias de ausência sem nem mesmo um telefonema.
Suspirou enfadado e abriu o MSN vendo várias mensagens da namorada. Resolveu não esperar mais, saiu do quarto, iria à casa de Eiri e terminaria aquilo de uma vez por todas.
-Umachanceparaamar-
- Eu conheço o Shaka desde o colegial. – começou Mu muito sério – O chamei para que tivéssemos essa conversa porque percebi que você realmente gosta daquele teimoso.
Ikki ruborizou levemente.
- O que quer dizer com isso? Você me disse que ele tinha um problema, que problema é esse? – resolveu desviar do assunto, gostar de Shaka não era um assunto fácil para ele.
O médico suspirou.
- Bem, eu não sou psicólogo ou psicanalista, sou endocrinologista. – sorriu o tibetano – Mas acompanho o caso do meu amigo há muito tempo. Sei que Shaka sofre de transtorno de personalidade obsessivo compulsivo, talvez você não conheça o termo, mas irá saber do que estou falando quando lhe explicar...
- Adoraria que o fizesse. – volveu Ikki muito sério.
- As vítimas desse transtorno são pessoas teimosas e inflexíveis, excessivamente organizadas, temendo descuidos, desorganizações, sujeira ou qualquer outra forma de "bagunça". Elas primorizam o correto e organizado, podendo gastar muito tempo trabalhando, estudando ou limpando, deixando de lado relacionamentos, diversão e lazer. Além disso, elas tendem a fazer seus deveres a sós porque temem que outras pessoas não os faça corretamente. Nos seus relacionamentos, eles podem ser um pouco distantes ou isolados e aparentar frieza emocional. Com frequência têm dificuldade em desfazer-se de velharias e coleções, podendo acumular muitos utensílios, móveis e objetos antigos. Por causa dessa compulsão, ele acaba se sobrecarregando e negligenciando todo o resto e desenvolveu uma compulsão desenfreada para o trabalho.
Ikki riu.
- Realmente esse é o Shaka, mas isso ainda não explica esse medo que ele tem das pessoas...
Mu sorriu.
- Você o compreende muito bem. É isso mesmo que ele sente, muito medo, medo de se tornar dependente, medo de confiar nas pessoas, medo de amar demais e ser abandonado...
- Isso pode ter a ver com o problema que ele teve na infância. – concluiu Ikki.
- Você é muito inteligente, Ikki. – disse Mu – Eu também acho, mas o nosso querido artista nunca aceitou fazer qualquer terapia. Os amigos tentaram, os pais tentaram, mas, eu comprendo que para o Shaka é muito difícil. Ele sempre foi uma pessoa muito mimada, como filho único, seus pais cometeram o erro de criá-lo num pedestal, isso somado ao fato de ser bonito e brilhante criaram nele uma especie de super-ego, contudo, pessoas que desenvolvem o super-ego são extremamente vuneráveis a qualquer tipo de falha...
- Sei, por isso ele esconde a doença, por isso ele não aceita terapia, seria admitir pra si mesmo que possui um problema. Isso seria o fim para ele, além da doença física que ele não pode controlar, ele teria que admitir um problema psicológico. – concluiu o moreno pensativo.
- Isso mesmo. – suspirou Mu – Ele esconde a doença e tenta escondê-la até de si mesmo. Para o Shaka, essa é sua única fraqueza, por isso ele negligencia o tratamento. Para ele fazer as aplicações diárias de insulina é deparar-se todo dia com seu maior medo...
- Medo...
- Medo da dependência, medo de não ser o dono de si. Por isso também ele se esforça a afastar todos que lhe demonstram qualquer tipo de carinho, ele pisa e magoa, mas não é por mal, acredite.
Ikki baixou o olhar angustiado, já havia percebido que o artista possuia sérios problemas psicológicos, só que ouvir aquilo daquela forma o deixava ainda mais perturbado.
- Ele tem medo de amar. – continuou Mu – Medo de depender de alguém, medo de alguém depender dele e ele não ser bom o suficiente para essa pessoa, não por ele achar que não está a altura, mas por achar que nunca conseguirá corresponder as expectativas das pessoas. Como disse, não sou psicólogo, isso foi só minhas observações nesses mais de 10 anos de amizade.
- Ele nunca falou de você. – falou Ikki distraído.
- Só nos vemos quando ele está muito mal. Ele nunca gostou do meu jeito, como ele gostava de dizer, "caloroso demais", isso o incomodava, como disse, ele tem problemas em se sentir amado e rejeita qualquer tipo de carinho, não sei se isso é uma síndrome, um transtorno, mas sei que isso é o Shaka.
- Ele sempre me pareceu alguém bem relacionado, nos conhecemos numa festa, sabia? – riu Ikki com amargura.
- Imagino. Sim, mas ele nunca se aprofunda nas relações tenha certeza, ele ama demais e tem muito medo disso.
Ouviram batidas na porta e logo depois uma moça com um uniforme azul claro apareceu.
- Doutor Mu, o doutor Walter pediu para que fosse ao quarto do seu paciente, ele vai remover os curativos.
- Ah, ótimo! – Mu se ergueu, e Ikki fez o mesmo – Vamos ver se aquele teimoso já está enxergando!
-Umachanceparaamar-
A bela mansão em estilo italiano tinha um imenso jardim com um lago onde cisnes nadavam. Hyoga esfregou uma mão na outra e esperou que Eiri se sentasse ao seu lado. A moça levava uma expressão magoada no rosto. Vestia um fino vestido amarelo e seus cabelos estavam soltos ao vento daquela tarde de verão.
O russo engoliu em seco. Nunca seria fácil terminar um relacionamento de anos.
- Eiri, eu sei que andei errado com você. – começou – Há vários dias não a procuro e nem atendo seus telefonemas, me desculpe por isso.
- O que está acontecendo com você, Hyoga? – perguntou a moça – Eu nunca o vi sendo tão irresponsável, seu pai me disse que há vários dias não vai a Cignus. O que andou fazendo?
O russo respirou fundo e um sorriso bailou em seus lábios, a imagem de Shun se formando em sua mente.
- Andei vivendo, Eiri. Vivendo como nunca. – respondeu – Olha, eu sei que cometi muitos erros, mas não quero cometê-los mais. Você é uma garota muito bonita, muito legal, Eiri, e merece alguém que a ame...
- E esse alguém não é você? – os olhos azuis da moça marejaram – Você está terminando nosso namoro, Hyoga, é isso?
- Eiri, entenda, não adianta prosseguirmos com isso. Você quer se casar, eu não! Eu tenho 20 anos, por Zeus! Há tanta coisa a fazer antes de constituir uma família...
- Podemos adiar o noivado, o casamento, o que você quiser, Hyoga! – as lágrimas da moça se derramaram – Por Deus! Estamos juntos há dois anos, não pode chegar aqui e dizer que vai me deixar desse jeito!
- Eiri, não faça isso, por favor. Nada que disser me fará voltar atrás na minha decisão. Desculpe, mas acabou.
- Eu não aceito isso, não aceito! Como pode ter deixado de me amar em tão pouco tempo? – a moça chorava mais forte e gesticulava inconformada.
- Eu não sei, Eiri. – disse Hyoga sentindo-se muito mal com tudo aquilo – Me perdoe, eu realmente não quis magoá-la.
O jovem se ergueu e começou a caminhar para fora da mansão. Eiri continuou sentanda no mesmo lugar, soluçando. Também não iria correr atrás dele, não se humilharia daquela forma. Correu para seu quarto e chorou tudo que tinha que chorar.
-Umachanceparaamar-
O oftalmologista retirou as ataduras dos olhos do paciente. Shaka permaneceu de olhos fechados, tinha medo de abri-los e descobrir que ainda estava cego.
- Pode abrir os olhos, Shaka, por favor. – pediu dr. Walter.
O indiano apertou as palpebras antes de obedecer. Abriu os dois olhos de vez e voltou a fechá-los angustiado.
- E então, viu alguma coisa? – indagou o oftalmologista.
- Sim, borrões, mas as luzes me incomodaram muito. – disse nervoso – Eu... eu não consegui ver nada.
- Isso é natural, a reação a luz é um sinal de que seus olhos podem captá-las, e a sensibilidade será natural nos próximos dias, não deve se preocupar.
- Então eu continuo cego? – indagou Shaka impaciente – Pra que serviu esse carnaval então?
- Shaka, se acalme... – pediu Suriya, mas sabia que a presença do pai já havia mexido com a paciência do filho.
- Mãe, eu não posso ficar cego! O que farei cego? Eu não tenho ninguém que possa... – calou-se e respirou fundo, começando a pensar que estava agindo como um louco e que Ikki com certeza estava ali vendo-o dar aquele chilique, ao mesmo tempo em que se indagava o porquê da opinião dele ser importante pra si.
- Shaka, esse situação é temporária, e sinto muito, mas terá que ser paciente. – falou Mu muito sério – Se está nessa situação somente você é o culpado.
- Posso ir embora? – indagou o paciente – Não quero ficar mais nem um segundo nesse lugar.
- Nós o levamos. – disse John Phalke.
- Quero que fique a pelo menos um quilômetro de distância da minha casa ou eu chamo a polícia! – Shaka falou com uma agressividade tão distante do seu tom de voz normal que todos no quarto ficaram estarrecidos. O pai do artista baixou o olhar e suspirou.
- Um dia você me entenderá, Shaka.
- Não, John, eu nunca o entenderei. – disse o mais novo e desceu da cama, tateando numa tentativa de não trombar com nada – Ikki?
- Estou aqui, loiro. – o moreno colocou a mão em seu ombro.
- Me leva pra casa? – não foi um pedido, foi uma ordem.
- Bem, vou providenciar a liberação. – disse o oftalmologista saindo do quarto – Mas terá que voltar para as revisões, senhor Phalke.
O loiro fez um gesto de desdém com a mão. Suriya se despediu do filho e saiu com o marido. Mu saiu minutos depois deixando "patrão e emprego" sozinhos.
- Preciso de um banho... – disse o loiro sem jeito – Pode me levar até o banheiro?
O moreno suspirou enfadado e segurou o braço do artista o levando para o confortável banheiro do seu apartamento na luxuosa clínica. Abriu o boxe e ajudou-o a entrar. Shaka livrou-se da camisola do hospital, não parecendo se importar muito em ficar nu na frente do moreno. Aquilo deixou Ikki curioso e sua curiosidade era um jeito de escapar da tentação de examinar demais aquele corpo perfeito a sua frente.
- Você sempre tira a roupa tão fácil assim na frente de qualquer um? – perguntou com ironia.
Shaka tateou a mão e ligou o chuveiro, caindo gostosamente embaixo da água morna, mantendo os olhos fechados.
- Acha que tenho algum motivo para me esconder? – indagou enquanto passava as mãos sobre o rosto.
- Você entendeu o que quis dizer, a maioria das pessoas não acham a nudez tão natural.
- A maioria das pessoas são mediúcres e eu sou um artista, Ikki. – volveu o loiro – Mas se isso o incomoda, você pode sair se quiser.
- E deixá-lo cair nesse boxe e quebrar cara? Desculpe-me, mas ao contrário de você ainda tenho um pouco de humanidade. – provocou.
- Humanidade? – Shaka riu com desdém – Se você prefere chamar assim.
- O que quer dizer? – irritou-se o moreno, não gostava de insinuações.
- Que você agora mesmo está me devorando com esses seus olhos gulosos, mas prefere fingir que não lhe desperto o menor desejo... – Shaka provocou com sua voz calma e indiferente.
- Escuta! – Ikki explodiu – Ao contrário de você não fico me escondendo! Se não sentisse nenhuma atração por essa pessoa insuportável que é voce, por que eu o beijaria hoje hein? Mas não faça todo esse charme de indiferente, lembre-se que nessa história, foi você quem beijou primeiro!
Shaka emudeceu, a cena se formou por completa em sua mente, o dia em que bêbado, puxara Ikki pelo colarinho e o beijou no chão da sua sala, sentindo o quanto os lábios do moreno eram macios e gostosos. Estremeceu levemente com a lembrança, umedecendo instintivamente os lábios.
- Pode pegar a toalha, por favor? – pediu tentando não demonstrar sua perturbação.
Ikki bufou, mas fez o que ele pediu, afinal, muito mais perturbador era vê-lo daquele jeito, nu e molhado. Pegou uma das toalhas branca do pequeno armário e entregou ao loiro, segurando uma de suas mão e colocando o tecido, mas quando iria se afastar, Shaka segurou sua mão mais forte.
Ikki o mirou surpreendido, esperou que ele dissesse alguma coisa, mas ele não o fez, depois de um tempo apertando sua mão, deixou que se afastasse e começou a se secar. Ikki ficou mirando pela janela, mas seu corpo ainda reagia a imagem do loiro totalmente nu, e sabê-lo ali tão perto o enlouquecia.
- Minhas roupas? – Shaka tateou tentando alcançar a saída do banheiro. Abriu os olhos, mas as luzes o pertubou e ele voltou a fecha-los, se sentindo um completo inútil.
- Terei que ajudá-lo a se vestir. – declarou Ikki sério.
- Não precisa, apenas dei-me as roupas e eu mesmo faço isso. – disse Shaka incomodado.
O moreno saiu de onde estava, respirou fundo encarando o loiro.
- Shaka, sua mãe me pediu para cuidar de você, e mesmo que não goste disso, é o que farei, então pode parar com os chiliques de artista excêntrico, porque isso não me fará ir embora...
- Por que Ikki? – Shaka murmurou colocando as mãos nos quadris – O que há em mim que o faz querer ficar por perto? Não percebe que sou inalcançável? Ninguém nunca chegará perto o suficiente de mim...
- Eu não tenho inteção nenhuma de alcançá-lo, loiro – respondeu firme – Só quero cuidar de você pelo salário que você me paga. Não se superestime.
Shaka sentiu o rosto arder com aquela declaração, mas tentou não demostrar isso.
- Ótimo, teremos uma relação como ela tem que ser, profissional. – disse – Então...
Interrompeu-se ao sentir a mão do leonino em sua cintura, massageando levemente sua pele molhada, fazendo um arrepio correr por seu corpo.
- Sim, será só profissional. – volveu Ikki friamente – Venha, vou ajudá-lo a chegar ao quarto e depois a se vestir. Não tem nada a temer, garanto que a atração que sinto por você não é incontrolável.
O loiro engoliu em seco.
- Ótimo. Vamos. – disse e aceitou a ajuda do moreno.
-Umachanceparaamar-
Hyoga chegou a casa arrastando-se pesadamente. Sentia muita angústia e tristeza, não queria que as coisas entre ele e Eiri terminassem tão mal, mas também não podia arrastar aquela história. Até aquele momento em sua vida, sempre se comportou como um covarde, era hora de mudar isso e ser o homem que Camus sempre quis que fosse. Respirou fundo, pensar em Camus lhe dava forças para continuar. Tirou o celular do bolso e pensou em ligar para o primo, mas desistiu.
"Hyoga, você tem que ser firme, tem que aprender a levantar sozinho!"
Ainda se recordava das palavras do amigo durante uma competição de judô que disputara na infância. Sim, Camus era amoroso, mas também sabia ser duro quando necessário, fora assim a vida toda.
"Camus, o que faria se você não existisse?" Pensou enquanto atravessava o portão da mansão Cignus com seu conversível. Deixou o carro na garagem e viu o carro do pai estacionado também. Engoliu em seco com sujeição, já que não havia o que fazer, enfrentaria Dimitri naquele momento.
Entrou na casa e encontrou uma movimentação estranha dos empregados. Indagou a um deles o que estava acontecendo e ouviu que o senhor Dimitri iria viajar e solicitara algumas coisas.
Assim que a empregada fechou a boca, o dono da casa chegou à sala. Seu rosto ao contrário do normal estava afogueado e seus cabelos levemente despenteado como se estivesse nervoso.
- Então aqui está você. – disse com certa ironia que não escondia a raiva – Que diabos pensa que está fazendo, Alexei?
- Do que está falando? – perguntou Hyoga encarando o pai. Não podia negar que estava com medo. Sempre tivera medo de Dimitri e talvez por isso nunca o tenha enfrentado de fato. Todavia, sabia que aquele era um momento crucial em sua vida e não iria recuar.
- Não seja cínico! Recebi agora um telefonema da faculdade que me informou que você mudou de curso. Quando iria me contar isso? – esbravejou o mais velho.
- Eu... – Hyoga ficou sem saber o que dizer. Respirou fundo e encarou seu suporto progenitor:
- Eu disse que não queria cursar administração e você insistiu! – falou nervoso – Eu nunca gostei daquele curso, não havia sentindo em continuar com ele.
- Não havia sentido? – Dimitri riu – Como pode dizer isso? Você já pensou que infelizmente não possui irmãos? Quem vai cuidar da nossa fortuna quando eu não estiver mais aqui?
- O Camus... – respondeu com voz baixa – Você sempre gostou mais dele que de mim...
Dimitri soltou uma risada nervosa.
- Ciúmes agora, Hyoga?
- Não são ciúmes. Foi apenas o que constatei nesses anos todos. Você queria que eu fosse ele e se decepcionou quando viu que eu não sou.
O mais velho engoliu em seco. Como Hyoga podia sentir aquilo? Era verdade, ele sempre quis que o garoto fosse como Camus, mas ele se mostrou uma grande decepção.
- Você tem razão. Você não é o Camus. – disse Dimitri sério – E era o que achei que seria, acho que fiz tudo errado, eu deveria ter tomado o Camus do Igor e criado como meu filho, mas...
Hyoga entreabriu os lábios, e Dimitri se interrompeu percebendo que falara demais. Não era sua intenção magoar Hyoga, mas a verdade saiu sem que pudesse evitar, e a verdade era que achava o filho de Camus fraco, emotivo, passional, tudo que o sobrinho não era. Hyoga tinha poucas das qualidades que ele admirava no ruivo, isso era um fato. Quando adotara o bebê pensara que teria um pequeno clone do sobrinho, mas foi tolo, isso nunca aconteceria.
- Então eu sempre fui somente um peso pra você... – os olhos do loiro mais novo marejaram.
Dimitri o encarou, mas nada disse, começou a caminhar em direção a escada.
- Quando eu voltar de viagem conversaremos.
- Não! Eu quero conversar agora! – bradou Hyoga fazendo o pai interromper os passos – Por que não me diz logo que o melhor para você seria que eu desaparecesse?
Dimitri voltou a se virar.
- Não seja dramático! – disse com desprezo – Você é que faz tudo errado! É fraco e passional, não queira me culpar por seus defeitos!
- Eu terminei com a Eiri. – declarou baixando o olhar – Nunca haverá casamento como você queria. Sinto muito per ser diferente de você, Dimitri. Sinto muito por não ser o Camus.
- Você deveria sentir muito por ser patético! – irritou-se Dimitri – A Eiri é uma mulher maravilhosa e você nunca terá condições de arranjar outra melhor! Agora você me diz que a deixou? O que há em sua cabeça moleque?
- Não tenho que lhe dar satisfações, se ela é tão boa, por que não se casa você com ela? – gritou Hyoga irritado.
Dimitri se aproximou dele e lhe deu uma bofetada.
- Não fale comigo como se eu fosse qualquer um! – disse o empresário – Eu sempre lhe dei tudo que quis, você sempre teve todos os seus caprichos atendidos, por que não pode fazer minha vontade uma única vez?
Hyoga limpou o sangue dos lábios e suspirou tentando não explodir de raiva.
- Minha vida não pode ser um capricho seu, pai... – murmurou e encarou os olhos azuis do homem a sua frente. Não conseguiu evitar as lágrimas – Me perdoe, me perdoe por não ser o que você esperava...
O rosto do mais velho tremeu e ele deu as costas ao filho.
- Não vou discutir com você, Hyoga, mas se realmente quer viver da forma que quer, advirto que não achará mais um centavo meu para nada! – disse – Se você é dono de sua vida e de suas escolhas, deve ser homem para enfrentá-las sozinho.
O loiro mais novo limpou as lágrimas que desciam por seu rosto.
- Essas coisas nunca me importaram, pai. Se estiver falando de dinheiro, não quero nada que seja seu! E pode ficar com tudo que foi da minha mãe também. Pra mim chega!
Hyoga caminhou para as escadas. Sentia-se arrasado, vazio e inútil, mas estava fazendo a coisa certa.
- Aonde pensa que vai?
A voz de Dimitri interrompeu seu percurso.
- Pegar minhas coisas.
- Você não tem nada aqui. – volveu o mais velho – Nada que há nessa casa sairá com você. Fez sua escolha, então que saia sem nada!
Hyoga parou no meio da escada e se voltou para Dimitri. Seus olhos demonstraram uma mágoa tão grande que o mais velho sentiu um nó na garganta, contudo, não era homem de voltar atrás em nada na vida.
- Isso nunca me importou, Dimitri. – falou Hyoga com tristeza tirando o rollex que usava e jogando no sofá – Pra mim sempre foram só coisas! – jogou o celular também e começou a desabotoar a camisa – Pode ficar com tudo! Eu não sou isso, não sou uma coisa como você sempre quis que fosse!
Jogou a camisa no sofá e depois tirou a chave do carro do bolso e jogou junto.
- Posso levar a calça? É versace, pode lhe fazer falta! – ironizou, mas as lágrimas continuavam a cair por seu rosto.
- Carteira e cartões. – falou Dimitri implacável – Ou pode escolher ficar com tudo, ficar em minha casa e viver por minhas leis.
O mais jovem chegou mais próximo do suposto progenitor.
- Quem você pensa que é, um rei? – perguntou com desprezo – Você vai envelhecer sozinho, senhor Dimitri, com suas leis, seu dinheiro e poder, mas sozinho.
Hyoga tirou a carteira e jogou no chão.
- Adeus! – disse saindo da casa.
Dimitri fechou os olhos com força. Teve vontade de impedi-lo, mas não o faria. Se era o que Hyoga queria, deixaria que fizesse. Ele era jovem teria muito tempo ainda para se arrepender.
Hyoga deixou a mansão. Sentiu o frio da noite no dorso nu. Sabia que quando passasse daquele portão não haveria mais volta. Voltou-se para a casa enorme e luxuosa e se lembrou que não tinha um centavo no bolso, o que faria?
Sorriu entre as lágrimas. Por que não se sentia desesperado? Deveria, mas o que sentia era um vazio e um alívio tão grande que parecia que tudo que acontecera fora algo bom. Embora não tivesse idéia do que fazer e de que rumo tomar. Pensou em ligar para Camus, mas não tinha mais celular e não sabia o número do amigo.
Ah, essa modernidade que acaba com nossa memória! Até mesmo para um mísero número de telefone! Pensou angustiado enquanto caminhava pelas ruas de pedra.
Esperava chegar a algum lugar, mesmo que não soubesse aonde.
-Umachanceparaamar-
Shun chegou ao prédio velho onde Marcel morava e subiu as escada rapidamente. Seu coração estava aos pulos, mesmo porque, a última vez que estivera ali não foi muito bom. Não tinha boas lembranças das poucas semanas que passara ali com Ilana e as crianças, até a jovem mãe finalmente se convencer que viver com aquele crápula mulherengo e bêbado não era vida e decidir sair de casa.
O adolescente ainda se lembrava que fora acusado de ser amante de Ilana e de a estar convencendo a deixá-lo.
Shun resignou-se ao pensar nisso, ao pensar que o mesmo homem que havia sido generoso o suficiente para lhe oferecer moradia quando o encontrou sozinho vagando pelas ruas de Atenas, era pérfido o suficiente para bater na esposa e roubar os filhos.
Bateu na porta e logo ouviu o choro de Terese. Bateu mais forte, sentindo-se aflito.
- Marcel, sou eu, Shun! Abre, por favor! – pediu engolindo a angústia e vendo o choro de Aleph se unir ao da irmã – Marcel, se você não abrir a Ilana vai chamar a polícia é isso que você quer?
Demorou alguns minutos e a porta se abriu. Shun engoliu em seco mirando o rosto afogueado pela bebida e o cheiro forte de álcool que saía do homem.
- O que você está fazendo aqui seu moleque sem vergonha? – indagou Marcel.
Shun respirou fundo.
- Marcel, eu vim buscar as crianças, a Ilana vai dar queixa de você se não as deixar vir comigo. – explicou.
- Eles são meus filhos! – grunhiu o homem – Se você e a vadia de sua amante quiserem que chamem a polícia, chamem o exército, a marinha! Daqui eles não saem!
- Marcel... Olha, por mais que você tenha aprontado comigo e com a Ilana, eu não quero vê-lo na cadeia, então...
- Aprontado com vocês? – o homem segurou o braço de Shun com tanta força que o mais jovem gemeu – Eu o coloquei dentro da minha casa, moleque, te dei um teto e você me traiu, roubou minha mulher!
- Não, Marcel, eu não fiz isso! – gritou Shun tentando se desvencilhar da mãos do homem – A Ilana o deixou porque não suportava mais ser maltratada por você, nós nunca tivemos nada um com o outro, ela é como uma mãe pra mim!
- Deixa de mentira! Eu imagino o quanto vocês não devem rir da minha cara as escondidas! – Marcel puxou Shun para dentro do apartamento e bateu a porta. O garoto caiu no sofá, mas logo se ergueu e correu até o canto da sala onde estavam Terese e Aleph, os abraçando com carinho.
- Vocês estão bem? – perguntou afagando as crianças – Vai ficar tudo bem, vou levá-los para casa.
- Você não vai levar meus filhos para lugar nenhum! – grunhiu Marcel.
Shun arregalou os olhos verdes, o homem tinha uma faca de cozinha nas mãos.
- O que vai fazer? – perguntou colocando as crianças atrás de si – Não seja louco...
- Você vai me pagar, Shun, me pagar por ter me traído e por ter roubado meus filhos!
-Umachanceparaamar-
O celular de Camus tocou e ele olhou o número no visor antes de atender.
- Oui, Shiryu...
- Olá, Camus, como vai?
- Bem, e você?
- Bem também. Estou te ligando porque o Hyoga me ligou de um telefone público, parece que ele brigou com o Dimitri e não tem seu número.
- Onde ele está? – perguntou Camus, manobrando o carro e estacionando.
- Disse que está na praça que fica a alguns metro da casa do Dimitri, pediu que fosse falar com ele.
- Merci, Shiryu, estou indo pra lá... – Camus fez a volta no carro e seguiu para o local onde estava Hyoga. Estava indo encontrar Milo num restaurante, mas se esqueceu completamente disso. Sempre era assim quando o assunto era Hyoga, única coisa capaz de fazê-lo perder a cabeça e esquecer-se de tudo, ou melhor, única coisa até conhecer Milo.
Chegou ao local informado em menos de 30 minutos e encontrou o loiro sentado num banco apoiando a cabeça nas mãos, com a expressão mais perdida que ele já vira. Camus sentiu um aperto no peito. Queria se aproximar e abraçar Hyoga, sufocá-lo num abraço que não deixasse dúvida de que estava ali para protegê-lo, para ajudá-lo em tudo que ele precisasse; dizer que era seu pai e que o amava. Mas não era o momento, naquele momento estava ali para ser apenas seu amigo, seu primo, a pessoa que ele confiava; esse era o papel que precisava representar mais uma vez.
Parou o carro e desceu. Estava frio e Hyoga estava sem camisa, tratou de tirar o terno, ficando apenas com a camisa branca e gravata.
- Hyoga... – chamou com sua voz fria quase indiferente – O que aconteceu com você?
O mais jovem ergueu os olhos para o ruivo e sorriu.
- Saí da vida do Dimitri, falei tudo com ele, como você me aconselhou...
- E...
- Ele me expulsou com a roupa do corpo como pode ver.
Camus se sentou ao lado do filho e envolveu seus ombros com o terno preto.
- Vamos pra casa, Hyoga. – disse.
O mais novo se ergueu protegido sob o braço do mais velho. Camus abriu a porta do carro para que o filho se sentasse ao seu lado, entrando em seguida.
- Põe o cinto. – ordenou e Hyoga obedeceu calado. Sentia-se pequeno e vazio.
- Camus, me desculpe... – pediu verdadeiramente envergonhado.
- Por quê? – indagou o ruivo sem tirar os olhos da estrada.
- Por ser tão tolo e patético...
Camus deixou escapar um resmungo.
- Você é tão jovem, Hyoga...
- Não me recordo de você algum dia ter sido como eu. – disse o russo limpando novamente as lágrimas que não conseguia controlar – Você sempre foi assim, tranqüilo, forte...
Camus teve vontade de fechar os olhos, mas obrigou-se a continuar concentrado enquanto dirigia, mas seus orbes azuis tremeram.
- Talvez eu não seja metade do que você ache. – falou amargo.
- Você é tudo que eu queria ser, Camus... – murmurou Hyoga e desviou o olhar para a rua tranqüila da tarde fria de Atenas.
- E você é tudo que um dia eu quis ser, Hyoga... – Camus engoliu a amargura e acelerou o carro, queria chegar o mais rápido possível a sua casa, quem sabe assim aquela angústia diminuísse, quem sabe assim aquela expressão melancólica sumisse do rosto do seu filho e ele conseguisse paz.
Estacionou o carro em frente ao prédio luxuoso. Hyoga desceu fechando o terno em torno com corpo. Camus enlaçou-lhe os ombros e os dois entraram no prédio.
O ruivo sentiu o celular vibrar em seu bolso e se lembrou do encontro com o grego.
- Merde! – praguejou pegando o aparelho e olhando o visor – Milo...
- Camus, o que aconteceu? – perguntou o escorpiano do outro lado da linha, mas sua voz parecia mais preocupada que irritada.
- Um problema, mas nos falamos depois, me perdoe, eu acabei esquecendo totalmente do nosso encontro.
- Um problema com seu filho?
- Oui... – respondeu lançando um olhar rápido para Hyoga – Depois conversamos.
- Certo, me liga, qualquer coisa.
- Oui.
Camus desligou o telefone enquanto entravam no elevador.
- Eu não quero atrapalhá-lo, Camus...
- Sabe que não me atrapalha. – respondeu pondo a mão no ombro do rapaz – Além do mais, para onde iria assim? Sem dinheiro, sem documentos. Hyoga, você enlouqueceu?
- O que poderia fazer, Camus? Ele me mandou sair sem nada! Eu... eu não poderia recuar... seria humilhante.
Camus inspirou e expirou profundamente, subjugando-se àquela afirmação. Hyoga tinha razão, não podia recuar num momento daqueles.
- Hyoga, eu quero que você descanse. – disse firme – Vou buscar suas coisas na casa do Dimitri...
Os olhos azuis do rapaz miraram os do homem a sua frente. A expressão de Camus era séria e cansada.
- Não precisa, Camus... olha, eu sei que... sei que não tenho dinheiro e não quero ser um fardo pra você...
- Você nunca seria um fardo pra mim, Hyoga. – declarou Camus firme – Faça o que mandei, tome um banho e descanse.
O loiro resignou-se assentiu com a cabeça e caminhou para o quarto. Camus saiu do apartamento e entrou rápido no elevador. Sabia que aquela noite não seria tranqüila, enfrentar Dimitri nunca seria tranqüilo. Olhou para o celular, pensou em ligar para Milo, mas desistiu, precisava resolver aquilo sozinho. Precisava resolver aquele problema de 20 anos. Era uma história sua e do tio, eles sim deveriam resolvê-la.
Continua...
Notas finais: O capítulo até que foi dinâmico não é?
Beijos especiais aos meus leitores fofos que deixam um comentário:
Layzinha, Virgo Nyah, Cardosinha, Julyana Apony, Graziele Kiyamada, Danieru, Shunzinhaah2, yuy, anapanter, Maya Amamiya, Keronekoi, milaangelica, saorikido, Nitsu, Hannah Elric, Arcueid, ShakaAmamiya, SabakuNoGaara.
Abraços também aos leitores silenciosos, mas gostaria muito de saber a opinião de cada um de vocês.
Sion Neblina
Postado em: 01/12/2010
