Interlúdio – 2 Parte

Pequenos príncipes

Capítulo 12

Shun arregalou os olhos quando viu a faca que Marcel segurava. Ergueu-se, escondendo as crianças atrás de si.

- Você está louco? – indagou lívido.

- Não! Você está louco de vir aqui na minha casa atrás dos meus filhos e eu vou te ensinar uma lição, moleque!

Ele se precipitou pra cima do adolescente enquanto as crianças gritavam e corriam. Shun segurou os braços do homem fugindo da lâmina afiada, lutando com ele com toda sua força.

- Corram crianças! – gritou, mas os pequenos só sabiam gritar e pedir para que o pai não matasse Shun.

A briga continuou ainda por um tempo, alguns socos e pontapés sendo trocados pelo garoto e o grandalhão, golpes da faca erravam o alvo o tempo todo.

- Papai, não mata o Shun, por favor! – gritou Terese, e o homem se afastou do menor, desolado, como se estivesse acordando de um pesadelo.

Encarou o adolescente com horror e depois os rostos assustados das crianças. Largou a faca e se sentou no chão chorando convulsivamente.

- Me perdoem... – soluçava Marcel.

Shun se ergueu sentindo o corpo todo dolorido e um suor frio empastando-lhe o corpo.

- E-Está tudo bem... – disse e caminhou tropegamente em direção a Alef e Terese – Vamos crianças, a mamãe está esperando...

Deixou o apartamento segurando os braços dos pequenos e ouvido os soluços convulsivos de Marcel, dizendo que não queria fazer aquilo.

- Shun, você está machucado? – indagou o garotinho.

O adolescente deixou escapar um sorriso aliviado.

- Só um pouquinho, mas vai passar. – disse e afagou os cabelos loiros do menino – Não se preocupem...

Caminhou pela avenida. Alguns quarteirões separavam a casa de Ilana a de Marcel naquele subúrbio de Atenas. Quando chegou em fim em frente à casa, encontrou a mulher e uma viatura. Ilana correu e abraçou os filhos. Shun se aproximou dela sorrindo.

- Eu disse que os traria de volta... – balbuciou sentindo uma vontade incrível de fechar os olhos e dormir.

Os policiais que faziam companhia a jovem mãe arregalaram os olhos.

- Garoto, o que aconteceu?

Shun mirou Ilana que gritou quando finalmente percebeu a mão pálida do adolescente segurando o abdômen completamente ensopada de sangue.

- Ele me machucou... – murmurou Shun antes de cair desacordado nos braços da loira.

-Uma chance para Amar-

O táxi parou em frente à casa do indiano. Ikki ajudou Shaka a descer, pagou o táxi e, tendo o ombro seguro pelo loiro, entraram na casa.

- Seu agente ainda não veio buscar as telas. – declarou o moreno ao passar pelo amontoado de quadros empilhados na varanda.

- Ele é inconstante. – falou Shaka de forma seca, libertando o ombro de Ikki e andando com cuidado pela sala. Sentia-se tão profundamente angustiado que era difícil até respirar. Perder a visão era um dos seus piores pesadelos.

- Por isso ele esfaqueou você? – indagou o moreno. O artista engoliu em seco.

- Eu não gostaria de falar disso. – disse – Por favor, já não basta à posição humilhante em que me encontro.

- Humilhante? É isso que acha? Então todos os deficientes visuais do mundo vivem em posição humilhante? – indagou Ikki irritado.

- Você entendeu o que quis dizer. – volveu Shaka blasé – e, por favor, sem discursos politicamente corretos, acho que já percebeu que não faço parte desse time.

- Time? Ser humano pra você é como fazer parte de um grupo de palhaços é isso, Shaka? – o moreno grunhiu de raiva.

- Ah, Zeus! Eu mereço! – resmungou o loiro afundando a mão nos cabelos do alto da cabeça e os puxando para trás para logo se certificar que eles voltavam para o mesmo lugar de antes – O que você quer, Ikki? Que eu abra uma instituição para ajudar os ceguinhos do mundo todo?

- Não, mas ao menos que tenha respeito pelas pessoas. – disse o moreno – Por que tanto desprezo pelo ser humano, Shaka? O que aconteceu a você?

- Nada. Não aconteceu nada. Eu só não gosto da raça humana, só isso. Há pessoas que não gostam de gato ou de cachorro, ou de papagaio. Eu não gosto de gente, não gosto de minha própria espécie. Sou anormal por isso?

- Sim é, porque de uma forma ou de outra você tem que conviver com sua espécie. – declarou o mais jovem.

- Eu pago. – riu o artista com sarcasmo – Assim a relação se torna totalmente distante e... – Shaka se interrompeu, por que estava dando satisfações a ele? Ele não precisava saber o que pensava, o que se passava no mais profundo da sua alma. Por que se sentia tão livre pra falar daquelas coisas pra aquele menino?

- Então é isso? – a voz forte do moreno o retirou dos seus questionamentos – Você tem medo.

- Eu não tenho medo de nada! – irritou-se Shaka.

- Tem sim, tem medo de amar, de se envolver, de gostar de alguém de verdade e...

- Você não entende nada de mim! – bradou o loiro – Todas as minhas relações com pessoas são caóticas! Já ouviu falar em sampaku? Ah, você como descendente de orientais deve saber! Pois bem, eu sou sampaku, atraio a tragédia!

- Isso acontece porque você acredita nisso! – falou Ikki – Quantas vezes você se deu a chance de mudar sua vida, Shaka? Quantas vezes você arriscou sair desse mundo imaginário que vive e ser gente de verdade?

- E o que é ser gente de verdade? – indagou o artista – É rir das desgraças da vida? é chorar com a fome das crianças africanas e depois jogar um sanduíche de peito de peru fora porque não gostou do sabor? Ikki, por Buda! O mundo jaz na hipocrisia e ao menos isso eu não quero pra mim, eu preciso ser diferente! Mesmo que me julguem insano, prefiro ser assim.

- Você precisa aprender a amar, Shaka. Isso você nunca soube...

O loiro engoliu em seco e sentiu lágrimas invadirem seus olhos; apertou as pálpebras com mais força fugindo daquela sensação. Nunca fora homem de chorar, por que aquela vontade insana agora?

- Nunca ninguém me ensinou, Ikki... – ouviu-se confessar embora não soubesse por quê.

- Talvez, porque você nunca tenha deixado. Sua mãe, o Mu, seu pai...

- Meu pai quer apenas me controlar! Não há amor em John Phalke, sou apenas... Sou uma vergonha pra ele!

- Que bobagem você está dizendo, loiro... – tornou Ikki se aproximando dele – Eu vi que ele o ama de verdade e estava preocupado com você. O que ele fez que o magoou desse jeito?

Shaka apertou mais as pálpebras com medo de que as lágrimas se derramassem.

- Eu não quero conversar, Ikki, o que quero mesmo é um banho... – o artista fugiu ao sentir o toque da mão quente do moreno em seu braço e em seu desespero para fugir dele, acabou tropeçando na mesa de centro. Tudo foi muito rápido, antes que Ikki pudesse evitar ele caiu, batendo o rosto na estrutura de madeira da mesa de vidro e o cortando.

- Shaka, você... – Ikki se agachou o tomando nos braços – Olha o que você fez seu maluco? Seu rosto está sangrando!

O indiano passou a mão no rosto com uma expressão de dor.

- Sou mesmo um inútil... – murmurou magoado – Não consigo nem andar sozinho...

Ikki o puxou pra si, condoído. Mais e mais se convencia de que aquele homem era apenas um menino muito magoado que precisava de cuidados e que o artista arrogante era apenas uma máscara que ele usava para se defender.

- Eu vou cuidar de você, prometo. – sussurrou o moreno – Logo você vai voltar a enxergar, loiro, não precisa ficar com medo...

- Eu não estou com medo... – uma negativa tão fraca quanto sua convicção.

- Tudo bem. – sorriu Ikki compreensivo, o ajudando a se erguer – venha, você precisa cuidar desse corte e desse machucado ou ficará roxo.

- Eu sempre fico roxo, é normal. – disse o indiano com desdém – Não precisa se preocupar com isso... Não... não é sua culpa...

- Eu sei Shaka, mas precisamos cuidar desse ferimento.

O artista não ofereceu resistência. Ikki guiou o loiro pela escada até seu quarto, e o deixou sentado na cama. Foi ao armário do banheiro e pegou uma maleta de primeiros socorros para depois limpar o pequeno corte que ficara na maçã esquerda do loiro e colocar um curativo adesivo pequeno.

- Pronto. – sorriu com o rubor das faces do artista, o que evidenciava que ele estava muito constrangido com a situação – Já enchi a banheira, não disse que queria um banho?

- Obrigado. – disse Shaka se erguendo da cama. Ikki segurou-lhe o braço e o levou para o banheiro.

A imensa banheira de hidromassagem borbulhava e a água morna era um convite ao relaxamento. O moreno suspirou: bem que gostaria de relaxar naquela água, mas tinha que se lembrar que aquele não era seu mundo.

Shaka começou a se despir de forma distraída. Seus pensamentos estavam tão longe que ele era capaz de se esquecer de tudo, que Ikki estava ali, que estava cego, que sua vida virara de cabeça pra baixo. Só voltou a realidade quando a mão forte do moreno segurou seu pulso.

- Venha, eu o ajudo a entrar, não quero arriscar a vê-lo com a cara quebrada novamente.

O loiro apenas assentiu com a cabeça e com a ajuda do mais jovem entrou na banheira. Sentou-se com um gemido baixo, sentindo a água tépida envolver-lhe os músculos tensos e relaxando o corpo, pendendo a cabeça pra trás.

- Ikki...

- Hum?

- Deve estar cansado, por que não entra aqui comigo? – Fez o convite, mas nem soube o motivo ou talvez preferisse ignorá-lo.

- Não quero incomodá-lo... – sorriu com o canto do lábio.

- Acha que seria capaz de propor qualquer coisa que me incomodasse? – indagou o loiro metido – Tira a roupa e entra...

O leonino se obrigou a fazer aquilo, embora achasse que não devesse. A verdade era que a água estava realmente convidativa e seu corpo quase implorou para que aceitasse.

Despiu-se e entrou na água, se sentando na banheira de frente pra Shaka. A banheira de hidromassagem era grande, mas os dois também, por isso, seus pés se tocavam. Shaka riu disso e mexeu o pé sobre o de Ikki lhe fazendo cócegas.

- Pára, loiro! – pediu rindo.

- Você colocou seus pés próximos aos meus, não reclama, é meio instintivo...

- Ah, então vou fazer o mesmo por instinto. – disse Ikki deslizando o dedão pela planta do pé do indiano fazendo-o rir.

- Certo, ok, eu me rendo! – disse Shaka ainda vermelhinho de rir – Você é mais sádico que eu...

Ikki riu também e ficou observando o loiro sem nada dizer. Shaka pareceu sentir seu olhar. Mordeu o lábio inferior de modo hesitante. Não queria se envolver mais com aquele garoto, aquilo era um erro. Sempre tivera um invejável autocontrole, por que ele conseguia descontrolá-lo tanto?

- Vem... – chamou Ikki com o indicador.

O moreno franziu as sobrancelhas.

- Quê?

- Chegue mais perto, Ikki, aqui perto de mim. – pediu da mesma forma imperiosa e mesmo assim, o moreno não conseguiu resistir. Escorregou pela banheira, até alcançar o meio das pernas dele.

- Estou aqui... – sussurrou próximo ao rosto dele. Shaka pode sentir o seu hálito quente e seu corpo se arrepiou.

- S-senta aqui ao meu lado... – pediu hesitante.

- Está bem. – Ikki suspirou e saiu de onde estava se sentando ao lado do artista, ombro com ombro.

Muito lentamente, Shaka foi deitando a cabeça em seu ombro. O moreno apenas sorriu com o canto dos lábios, antes de começar a afagar-lhe os cabelos.

-Uma chance para Amar-

A BMW de Camus entrou a toda velocidade pelos portões da mansão dos Cignus. Sem nem ao menos cumprimentar os empregados, coisa que não era típico dele, o ruivo adentrou escritório a procura de Dimitri. O loiro que estava sentado com uma garrafa de uísque pelo meio o mirou com olhos ébrios.

- O que houve, Camus? – perguntou de forma fria, não aparentando o estado de embriaguez que ele estava, embora Camus o conhecesse bem o suficiente para saber que seu estado de humor já fora alterado pelo álcool.

- O que você fez com o Hyoga? – perguntou o ruivo irritado – Como pode jogá-lo na rua daquela forma?

- Acalme-se. Eu não joguei ninguém na rua. – disse Dimitri calmo – Eu lhe dei uma opção e ele escolheu sair. Pare de tratá-lo como uma criancinha, ele já tem 20 anos!

- Dimitri. Quando entramos em acordo há vinte anos, você prometeu cuidar dele. Prometeu que não deixaria que nada de ruim acontecesse ao Hyoga!

- Não me culpe pelas escolhas do seu filho!

- Agora ele é meu filho? Agora ele é descartável pra você? – enfureceu-se Camus, magoado com as palavras indiferentes do tio.

Dimitri com muita tranqüilidade caminhou até o bar e encheu um novo copo de uísque. Depois voltou a se aproximar do sobrinho, se encostando à mesa do escritório.

- Vamos falar claramente, Camus. – disse num tom jocoso que o álcool lhe dava – Tenho analisado as coisas desde a tentativa de suicídio do garoto. Tive que admitir que a promessa se tornou uma decepção. Ele não é igual a você, ele nunca será igual a você. É um garotinho emocional e bobo, em fim, fiz uma péssima aquisição...

Camus mirou o tio chocado.

- Você... você fala como se ele fosse um objeto! Como pode ser tão frio com uma pessoa que criou como filho?

- O Hyoga foi adotado apenas para levar o nome Cignus adiante. – disse Dimitri bebericando mais uísque – Camus, o que sempre admirei em você é sua falta de sentimentalismo, não deixe pra ser sentimental agora.

- Ele é meu filho... – murmurou o francês incrédulo com a crueldade do tio.

Dimitri encarou o ruivo e sorriu.

- Mas não é você e sempre foi você que eu quis...

- Eu nunca seria seu filho! Nunca! – cuspiu enojado.

O russo riu.

- Não acho que o Igor tenha sido pai melhor do que eu seria. – falou com deboche – Mas... eu sempre o adorei, Camus! Sim, sempre invejei também. Sempre invejei sua beleza, sua elegância e inteligência, sua desenvoltura social. Você é tudo que um dia eu quis ser. O Hyoga não, ele não é você e eu errei quando resolvi adotá-lo, eu deveria ter feito um acordo melhor com o Igor, ficava com você e ele com o bebê bastardo...

Um soco atirou o loiro contra a mesa de madeira. Camus continuou parado com o punho crispado o mirando com tanto ódio que seus dentes rangiam.

- Você é um louco desalmado, Dimitri!

O loiro se ergueu cambaleante pelo golpe e pela bebida, limpando o sangue dos lábios e se precipitando para cima do sobrinho, o segurando pela camisa e o jogando contra a parede.

- Sou Camus! Sou sim, mas foi esse homem que você admirou a vida toda! Ou acha que não sei que nossa admiração é recíproca?

- Eu nunca admirei você! Você sempre foi louco e sádico, eu só não tinha saída. – respondeu Camus tentando se soltar das mãos que o prendiam.

- Você tinha saída sim, mas você sempre gostou do jogo, sempre gostou do poder tanto quanto eu!

- Solte-me... – Camus disse entre dentes, tentando recuperar o autocontrole. Não ganharia nada quebrando a cara do tio, aquilo não ajudaria Hyoga.

Dimitri o encarou, examinando com cuidado o rosto másculo e ao mesmo tempo suave do sobrinho. Camus era verdadeiramente formidável e naquele momento com os olhos brilhando de fúria ele ficava ainda mais lindo. Os olhos escuros, a tez clara emoldurada pelos lisos fios rubros que agora estavam desalinhados, os lábios finos e rosados...

Naquele momento, o empresário russo sentiu algo que desde sempre negou: desejo. Seu corpo quase gritava de vontade de se entregar aquele impulso e tomá-lo nem que fosse a força. Ah, aquilo não seria difícil para ele, já era acostumado a jogos sádicos e em provocar medo, mas com Camus... Bem, sempre tivera receio dele e não entendia o porquê.

- Solte-me, Dimitri... – Camus exigiu mais uma vez, sua voz voltando a ficar calma.

Ao contrario de obedecê-lo, porém, o tio o prendeu mais forte contra a parede, pressionando o corpo do francês contra o seu.

- O que...?

- Snnn... Calminha, Camus... – sussurrou Dimitri vencido pelo desejo – Eu não vou te machucar, fique quietinho...

Camus entreabriu os lábios, chocado e arregalou os olhos.

- Dimitri...

- Hum... – o loiro gemeu enquanto se roçava no corpo do mais jovem, fazendo-o corar sem ação – Não finja que isso é novo pra você, eu sei que anda dando esse rabinho por aí há muito tempo...

Camus estava em estado de choque e não conseguia reagir. Aquele homem era seu tio! Alguém que convivera a vida toda, alguém que, apesar de tudo, respeitava.

- Está bêbado! – disse o ruivo tentando se libertar.

- Não, não estou, sabe que dois ou três copos de uísques não são suficientes para me embebedar, quantas vezes já bebemos juntos, hein? – sussurrou Dimitri se aproximando mais dos lábios do sobrinho – Não seja tímido, eu sei que você gosta, achou que não soubesse que dorme com homens? Sem como deve gemer ao receber um pau bem duro entre as pernas...

- Solte... – antes que pudesse reclamar seus lábios foram tomados de forma rude. Dimitri empregava muita força para mantê-lo cativo e isso acabava machucando os lábios de Camus que se debatia desesperado. Contudo, Camus era mais jovem e não seria vítima daquele abuso passivamente.

- Não! – Camus o empurrou e passou as costas da mão nos lábios enojado, mirando Dimitri com toda sua indignação.

- Um macho hoje outro amanhã, qual a diferença, Camus? – riu o mais velho – Seria apenas um mimo ao seu velho tio!

Camus perdeu a paciência mais uma vez e deu outro soco em Dimitri o jogando sobre a mesa.

- Você não é um homem, Dimitri, é um porco! – disse desolado, o coração acelerado e a mente confusa – Agora vou pegar as coisas de Hyoga e não tente me impedir e nem se atreva a chegar perto de mim novamente. Eu nunca mais quero ver sua cara!

- Não, Camus, por favor, sobrinho me perdoe... – tentava dizer o homem, tentando se levantar, mas voltava a cair tonto. Camus não hesitou mais, saiu do escritório angustiado e enojado com tudo aquilo. Subiu rápido as escadas, chegando ao quarto de Hyoga, pegando uma mala dentro de um dos armários e começando a enchê-la com as coisas do garoto.

Enxergou o celular sobre a cama e o pegou também, colocando dentro da mala. Depois que recolheu uma parte dos pertences pessoais do filho, desceu as escadas. Dimitri já estava na sala com uma bolsa de gelo sobre o rosto. Chorava muito desolado, sendo apoiado pela governanta.

- Camus, me perdoe, eu não sei o que deu em mim!

O francês nem mesmo o olhou, saiu rápido da casa, entrando no carro e fechando a porta com força. Respirava pesadamente, incapaz de pegar no volante, todas as cenas se repetindo em sua mente, o enjoando. Abriu a porta do carro e se inclinou, vomitando, nauseado pelo assédio do tio. Como ele pode?

Puxou o celular com mãos trêmulas e discou o número. Não tinha nenhuma condição de dirigir.

- Milo...

- Oi, Camie, como estão às coisas?

- Eu preciso de você, agora... – murmurou sentindo-se quebrado.

[...]

Milo estava sentado calado ao lado dele. Encontrara Camus ainda na mansão Cignus e o levara para sua casa. O ruivo não tinha condições de dirigir, estava muito perturbado. Agora eles estavam sentados no sofá da sala, Camus com um copo d'água nas mãos e os olhos perdidos, e Milo sem saber o que dizer, já que em todo o percurso o ruivo não lhe dissera nada do que aconteceu.

- Eu preciso... eu preciso voltar, Milo... – sussurrou depois de um tempo, colocando o copo sobre a mesa. – Desculpe-me por fazê-lo...

- Ei... – Milo o segurou pelo pulso – Pode sentar aí, você não vai sair sem me dizer o que está acontecendo, Camus. Você está perturbado, melhor, desesperado e eu nunca o vi assim, o que aconteceu?

Camus afundou uma das mãos nos cabelos, segurando a testa. Estava muito abalado e não queria que Hyoga o visse daquela forma, por isso chamara o grego.

- Foi horrível, Milo... – começou quase num sussurro – Aquele homem... aquele homem era como um pai pra mim, sim, de uma forma meio esquisita, ele foi um pai pra mim!

- O que aconteceu?

- Eu...Deus! – Camus escondeu o rosto entre as mãos. Era muito difícil para ele encontrar uma explicação para as atitudes de Dimitri. Sim, ele estava bêbado, mas isso não justificava se comportar de forma tão ignóbil e lhe dizer aquelas atrocidades.

- O que aconteceu, Camie? Por favor, eu quero ajudá-lo. – insistiu Milo preocupado, segurando o ombro do ruivo com carinho. Camus ergueu a cabeça para mirar seus olhos esverdeados.

- Milo... – engoliu em seco – Desculpa por hoje...

O loiro sorriu incrédulo.

- Não tem importância, Camus! Estou preocupado com você, por que não confia em mim e diz o que o seu tio fez?

- Vamos esquecer.

- Não! – Milo o encarou sério – Eu preciso saber. Você não ficaria desse jeito se algo muito sério não tivesse acontecido. Eu o amo e quero ajudá-lo.

Os olhos turquesa de Camus encararam os de Milo mais uma vez.

- Ele...ele me beijou... – confessou ruborizando meio envergonhado – Disse coisas vulgares a meu respeito... Ele é meu tio, como pode?

- Ah, meu amor... – o loiro o abraçou com força – Entendo como está se sentindo. Você foi assediado por alguém que confiava, isso é horrível...

- Eu... eu me sinto sujo... – murmurou Camus escondendo o rosto nos fios trigueiros de Milo e aspirando seu perfume – Ele foi tão... nojento e vulgar... Ainda não estou acreditando...

- Que ódio desse cara! – irritou-se Milo – Como ele pode fazer isso com alguém tão educado e elegante como você?

- Ele estava bêbado...Mas penso por quanto tempo ele não guardou isso dentro dele? Quantas vezes ele não me tocou tendo... tendo esses pensamentos... – Camus falava e sentia a náusea voltar – Milo, aquele homem me pegava no colo e me colocava pra dormir, afagava meus cabelos, beijava meu rosto... Deus! Isso é um pesadelo!

- Calma, meu amor, calma... – pediu Milo o abraçando mais forte – Eu te amo e estou aqui.

Camus se afastou para encarar o amante nos olhos.

- Obrigado, Milo, você... você está sendo um amigo e tanto pra mim...

O loiro não soube o que dizer, mas seu coração doeu. Para Camus era isso que ele era? Um amigo? Um amigo com quem ele dormia e nada mais? Não conseguiu esconder a decepção no olhar, e o ruivo percebeu.

Camus engoliu em seco. Era o que faltava! Depois de tudo, ainda conseguir magoar o loiro.

- Milo, não foi isso que eu quis dizer, me desculpe, não estou sendo muito bom com as palavras hoje... – tentou corrigir se auto penitenciando por ser tão insensível.

- Não tem problema, tudo bem eu entendo. – disse o loiro desviando o olhar. Não entendia nada, mas aquele não era o momento para uma discussão. – Você não tem que me amar só porque eu te amo...

- E-eu não disse que não te amo... – tornou Camus confuso – Só não entendo muito bem o que sinto e usei as palavras erradas...

Milo respirou fundo e sorriu, depois beijou de leve os lábios de Camus.

- Não estou magoado, tudo bem... – disse se levantando – Você quer um café ou...

Foi interrompido por um puxão em seu braço que o desequilibrou e ele caiu nos braços do ruivo.

- Eu quero você... – sussurrou o francês – Quero estar perto de você. Você tem sido tão especial pra mim que é assustador, Milo Seferis.

O executivo tomou a boca do mais jovem num beijo tão intenso que Milo gemeu excitado se agarrando aos cabelos de Camus e procurando sua língua de forma faminta. O que eram palavras em relação a tudo que sentia em seus braços? Todo aquele desejo, todo aquele bem estar deveriam significar mais do que um "eu te amo", então por que seu coração antiquado queria tanto aquela pequena frase?

Afastaram-se depois de um tempo ofegantes, os olhos brilhando de desejo.

Camus soltou um suspiro profundo.

- Desculpe, estou sempre em falta com você. – disse envergonhado.

Milo sorriu e o puxou pra si, o aconchegando em seu peito.

- Eu estou aqui, não estou? Vai ficar tudo bem...

Camus fechou os olhos e descansou no peito forte de Milo, se sentindo em paz. Constatou que era o único lugar que de fato se sentia em paz nos últimos tempos.

-Uma chance para Amar-

Shiryu ligou pela terceira vez para o celular de Seiya. Não conseguia encontrar o amigo e já estava ficando preocupado.

Estava em sua sala assinando alguns papéis quando Shura entrou com cara de poucos amigos.

- Boa noite pra você também, Shura. – ironizou.

- Boa noite, Shiryu. – disse o espanhol se sentando e olhando alguns processos – Tenho alguns papéis para que analise. É um novo produto que o Dimitri quer lançar no mercado.

- Certo. – volveu o chinês e encarou o executivo – Depois de dois anos ficaremos assim?

Os olhos negros do mais velho o encararam.

- De que outra forma você quer que fiquemos?

- Shura, antes de qualquer coisa, éramos amigos, não éramos? – insistiu Shiryu.

- Amigos? – o espanhol riu – Não dá pra ser amigo de uma pessoa que você ama e que te chuta como um saco de lixo!

- Eu não fiz isso, Aguille, e você sabe muito bem. – tornou o chinês – Acho que precisamos de um tempo um do outro. Não há como continuarmos com essa situação...

- Se quiser peça demissão, porque eu não vou. – volveu o mais velho jogando a pasta sobre a mesa – Não era isso que faria mesmo? Ou o projeto da tal loja já não existe?

- Existe e você tem razão. Em breve deixarei a Cignus, mas não queria que as coisas entre nós dois terminassem assim.

- Infelizmente nem tudo é como queremos!

Shura declarou antes de sair do escritório. Shiryu suspirou balançando a cabeça e nesse momento o seu celular tocou. Sorriu: "Seiya" murmurou atendendo.

- Oi, estava esperando você me ligar... – disse feliz – E então? Eu já comprei os ingressos...

- Ah, Shi, que chato... É que hoje não vai dá, sabe? Desculpe...

Shiryu entreabriu os lábios, era como se recebesse um balde de água fria. Há dias os dois havia combinado de ver aquele filme, e agora Seiya dizia que não poderia ir?

- O que aconteceu? – embora não quisesse, sua voz soou fria.

- Tenho uma coisa importante para resolver, é muito importante mesmo, mas... poderíamos nos ver amanhã, o que acha?

- Tudo bem. Tchau. – Shiryu desligou. Estava magoado e não fez questão de esconder isso.

"Muito bem, Shiryu agora você tem dois ingressos para o cinema e não tem com quem ir" Resmungou. Poderia chamar Hyoga, ou mesmo Shaka. Bem, faria isso, não perderia uma noite de sexta-feira por mais que nenhuma companhia fosse substituir Seiya.

[...]

Seiya desligou o telefone com um aperto no peito. Sabia que estava sendo um cretino, mas ainda não tinha ideia de como fugir daquela situação. Estava dividido, profundamente dividido e gostava de ambos. Sabia que era uma desculpa canalha e que tinha que se decidi logo, mesmo porque, manter aquele segredo estava se tornando cada vez mais impossível.

- Oi, amor, demorei muito?

A moça lhe deu um beijo no rosto e se sentou a sua frente na praça de alimentação do shopping.

- Não, Saori, eu... eu estava te esperando...

Os olhos escuros da jovem se franziram em curiosidade.

- Algum problema, Seiya?

- Sim... quero dizer, não. Mas... precisamos conversar...

- Sim, mas agora vamos comer alguma coisa, estou faminta e ainda temos que ir naquele lugar que te falei.

O rapaz assentiu com a cabeça e mirou o celular mais uma vez angustiado.

-Uma chance para Amar-

Depois de um tempo na hidromassagem, Ikki e Shaka acharam que deveriam sair ou os dois dormiriam ali mesmo. O moreno saiu primeiro, se enrolando numa toalha pela cintura e pegando outra para o indiano. Não foi fácil para ele ter que enrolar a peça no quadril de Shaka, mesmo porque, o loiro estava estranhamente condescendente e pacifico. Condescendente e pacífico era o máximo que poderia falar de Shaka Phalke.

Levou o artista para o quarto e saiu para se vestir, entregando um pijama para ele. Voltou minutos depois pelo corredor a meia luz, e se assustou ao encontrar Shaka tateando as paredes. O indiano soltou uma exclamação de susto e estremeceu quando Ikki segurou seu pulso.

- Shaka, o que você está fazendo aqui? Poderia ter caído novamente. – disse irritado – Por que você tem que ser tão teimoso, hein?

- Eu não sou de porcelana, Ikki! Além disso, tenho que me acostumar, e se... – respirou fundo para prosseguir – E se minha visão nunca mais voltar?

- Não fale bobagens. – disse o moreno o puxando pra si com carinho – Vamos, eu o coloco na cama...

- É muito cedo para dormir, Ikki, eu não quero dormir agora...

- Então o que quer fazer?

- Ouvi música enquanto ainda tenho ouvidos. – Shaka riu, e Ikki balançou a cabeça com o humor negro dele – E tomar um cálice de vinho. Você me acompanha?

- Você não pode beber, loiro, está tomando vários medicamentos.

- Ah, esqueci que ganhei uma mãe no lugar do empregado.

Ikki bufou. Não podia negar que a palavra empregado o incomodava demais, mas não discutiria naquele as escadas com o loiro em direção a sala e o colocou sentado no sofá como uma criança.

- O que quer ouvir? – perguntou se aproximando do aparelho de som.

- Você escolhe. – proferiu o indiano displicente – Exijo meu vinho...

- Nem pensar, mocinho. – volveu Ikki, e Shaka riu da expressão usada por ele.

- Mocinho? Sou bem mais velho que você, moleque!

- Não exagere. – replicou o moreno – E era dessa forma que eu falava com meu irmão mais jovem, então não estranhe se falar assim contigo...

- Você tem um irmão mais jovem?

- Sim. Há muito não falo com ele, nunca o encontro em casa quando ligo, mas... Bem, sinto muitas saudades e quero vê-lo no final do ano.

- Deve ser bom ter irmãos. - Shaka deixou escapar, mas se arrependeu. Corou e mordeu os lábios – Quero dizer... pra maioria das pessoas.

Ikki riu e se aproximou dele, se sentando ao seu lado enquanto a melodia suave invadia o ambiente.

- Pra maioria das pessoas e pra você também. – disse e segurou a mão pálida do artista – Talvez se tivesse irmãos, não seria criado num pedestal e não teria tantos problemas por esse motivo.

Shaka estremeceu e recolheu a mão quase se encolhendo no sofá.

- O que o levou a essa conclusão? – indagou incomodado.

- Você tem algum segredo em seu passado que não quer que ninguém saiba. – declarou o mais jovem – Só preciso saber por quê?

- Todas as pessoas interessantes têm algum segredo... – murmurou o artistas.

- Sim, mas esse segredo o magoou muito e você tem medo dele.

Shaka engoliu em seco, sentindo-se perturbado com aquela conversa.

- Sinceramente, Ikki, todos nós temos algum esqueleto no armário e, portanto que eles não façam barulho podem até dançar se quiserem que não me incomodo.

- Acha que esconder o problema embaixo do tapete para sempre é a solução? – Ikki pegou a mão fugitiva novamente. Estava disposto a insistir, mesmo que Shaka começasse a dar seus chiliques de artista excêntrico, mesmo porque, aquela era a primeira que ele abria a guarda.

- É como vivo... – murmurou o loiro – Meus esqueletos são muito comportados, só de vez em quando eles fazem barulhos...

- Sim, mas esse de vez em quando o deixou cego... – sussurrou o moreno.

Shaka baixou a cabeça e puxou a mão mais uma vez.

- Já pedi pra não chegar tão perto...

- Sim, e ao mesmo tempo me convida para a hidromassagem. Paradoxal suas atitudes não?

O loiro emudeceu. Como explicaria a Ikki que era sua obrigação mantê-lo longe, mesmo querendo-o terrivelmente perto?

- Você pode ler pra mim? – desviou o assunto – Eu sempre leio antes de dormir e... Eu sei que não é sua função e que...

- O que quer que eu leia?

- Há um livro no meu quarto. Você aproveita e me bota na cama, acho que devo dormir agora... – disse o mais velho de forma zombeteira, tentando disfarçar sua tempestade interna.

Ikki resignou-se, tomou a mão do artista e eles subiram as escadas.

- Mas eu queria o vinho! – reclamou Shaka.

- Mas não vai beber. – o moreno disse com voz afetada o que fez o loiro rir.

Chegaram ao quarto, e o indiano se sentou na cama, apoiando-se no travesseiro enquanto Ikki procurava o tal livro.

-"O pequeno príncipe"? – riu – Claro! Você...

Shaka suspirou profundamente.

- Sente-se aqui e comece a ler de onde estar marcado, por favor.

O moreno obedeceu. Shaka, assim como na banheira se aconchegou nele e apoiou a cabeça em seu ombro.

"O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que batiam no joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De uma montanha tão alta como esta", pensava ele, "verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu pedras pontudas, como agulhas.

"- Bom dia! - disse ele ao léu."

"- Bom dia... bom dia... bom dia... - respondeu o eco."

"- Quem és tu? - perguntou o principezinho."

"- Quem és tu... quem és tu... quem és tu... - respondeu o eco."

"- Sejam meus amigos, eu estou só... - disse ele."

"- Estou só... estou só... estou só... - respondeu o eco."

"Que planeta engraçado!", pensou então. "É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz... No meu planeta eu tinha uma flor; e era sempre ela que falava primeiro."

- Por que ler esse livro todas as noites? – indagou o moreno fechando o volume na página marcada.

- Identifico-me com o príncipe que não compreende o mundo em que está. – respondeu – Geralmente prefiro coisas mais frívolas, nada que atrapalhe minha cultuada ignorância, mas Saint Exupéry é um caso a parte...

- Ignorante você? – riu Ikki.

- É a única forma de felicidade. Sabedoria só atrai desgraças, meu caro...

- Envolveu-se com as pessoas erradas... – murmurou Ikki.

Shaka balançou a cabeça e deixou escapar um sorriso amargo.

- As pessoas se envolveram com o homem errado. – disse – Ler, por favor...

Ikki recomeçou a leitura, segurando o livro com uma das mãos enquanto a outra puxava o loiro pra si e o deitava em seu colo. Shaka suspirou, sentindo o carinho da mão do moreno em seus cabelos.

"...Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens."

"- Bom dia! - disse ele."

"Era um jardim cheio de rosas."

"- Bom dia! - disseram as rosas."

"Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor."

"- Quem sois? - perguntou ele espantado."

"- Somos as rosas - responderam elas."

"(...) E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaiszinhas, num só jardim!"

"(...) Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. "Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."

"E, deitado na relva, ele chorou. E foi então que apareceu a raposa:"

"- Bom dia - disse a raposa."

"- Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, olhando a sua volta, nada viu."

"- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira..."

"- Quem és tu? - Perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita..."

"- Sou uma raposa - disse a raposa."

"- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste..."

"-Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda."

"- Ah! Desculpa - disse o principezinho."

"Mas, após refletir, acrescentou:"

"- Que quer dizer "cativar"?

"- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?"

"- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?

"- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?"

"- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

"- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços..."

"- Criar laços?"

"- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."

O mais jovem parou a leitura e mirou o belo rosto abaixo de si.

- Entendi porque gosta tanto desse livro...

- O que entendeu?

- Se eu acertar você confirmaria?

- Todo homem nasce sincero e morre mentiroso, Ikki, não posso responder isso. – volveu Shaka se remexendo no colo do moreno, incomodado. – Posso dizer que um dia eu fui um pequeno príncipe como o de Exupéry...

Shaka sentiu a mão de o moreno descer sobre seu rosto numa carícia singela.

- Você ainda é, loiro. Um pequeno príncipe preso numa torre imaginária...

O indiano sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas e apertou mais forte as pálpebras.

- Ikki... – murmurou sem conseguir evitar que uma lágrima molhasse sua face e os dedos do moreno – Por que se importa tanto com... com alguém irascível como eu?

- Eu não sei. Não sei mesmo! E fique tranqüilo, eu não direi a ninguém que o vi chorar...

- Duas vezes! – riu o artista entre as lágrimas – Acho que estou me tornando velho e sentimental!

- Sentimental pode até ser, mas velho...? – Ikki deslizou os dedos pela cútis macia do indiano – Você é a coisa mais linda que já tive a chance de tocar, loiro...

Shaka cerrou os olhos mais fortes, para não chorar mais.

- Já sou vaidoso o suficiente sem que fique me dizendo essas coisas, garoto...

O leonino sorriu com carinho. Sua vontade era abraçar aquele teimoso e lhe dizer que estava perdidamente, apaixonadamente cativado por ele.

- Você sabe que é lindo... – sussurrou se inclinando para se aproximar do seu rosto. Shaka estremeceu ao sentir o hálito morno e mentolado tão perto dos seus lábios – E sabe o quanto eu te quero, não é?

O loiro esboçou um sorriso encabulado.

- Cada pessoa tem a pessoa que merece, não é? – disse tentando ser espirituoso – Se você me quer, obviamente não deve valer muita coisa...

O moreno riu mais alto e amplamente.

- Sim, você tem razão. Sou um homem muito mau, por isso, preciso ser punido, gostando de um homem bem pior que eu!

Shaka riu divertido e ergueu um pouco o tronco, enlaçando os ombros do moreno e abrindo os olhos. Contudo, a única coisa que conseguiu ver foram alguns borrões. Suspirou decepcionado.

- Eu queria poder vê-lo agora...

- Pode me sentir... – Ikki murmurou tomando a mão do artista e colocando em seu rosto.

Shaka voltou a fechar os olhos enquanto tocava delicadamente o rosto macio do moreno.

- Eu quero beijá-lo, Ikki...

O moreno não disse nada, inclinou-se e o beijou de forma delicada, inicialmente só os lábios se tocando, inserindo a língua na cavidade quente e doce que eram os lábios de Shaka. O artista ofegou como se estivesse soluçando, seu corpo estremeceu e relaxou. Ikki o puxou mais pra si, e ele afundou os dedos em seus cabelos repicados e sedosos, correspondendo à carícia da língua macia do moreno.

- Ikki... – murmurou – É melhor pararmos antes que...

- Eu sei... – balbuciou o moreno se afastando com delicadeza – Eu vim colocá-lo apenas para dormir, meu príncipe...

Shaka sentiu-se derreter com aquelas palavras carinhosas. Não merecia aquilo! Uma voz gritava em sua mente. No final, sabia que magoaria aquele menino, como magoava todos.

Ikki o afastou e o deitou na cama com delicadeza, o cobrindo com o edredom.

- Boa noite, loiro, descansa...

- Boa noite, Ikki. – respondeu fraco.

O moreno se ergueu, apagou a luz do abajur e caminhou para a porta.

- Ikki!

Virou-se ao escutar o chamado do indiano.

- V-você ainda está aí?

- Sim, loiro...

- Ah... é... obrigado...

O moreno apenas sorriu e deixou o quarto. Shaka escutou seus passos se afastando, então se virou e tentou dormir, mesmo que seu coração angustiado parecesse não querer tal coisa.

-Uma chance para Amar-

Camus chegou ao apartamento já passava das 09h00min. Encontrou Hyoga sentado no sofá encolhido e bebendo uma caneca de café. Os olhos azuis do filho se voltaram para ele, mas o loiro nada disse, e o ruivo calculou que ele estava perturbado demais para pensar qualquer coisa.

- Eu trouxe suas coisas, Hyoga. – disse engolindo em seco – Desculpe a demora, tive alguns problemas...

- Tudo bem, Camus... – falou o russo do seu jeito calmo e meio sussurrado – Você já fez muito, de verdade...

- Não fiz nada que... – interrompeu-se – Nada que não devesse, Hyoga...

O loiro deixou escapar um mínimo sorriso e se empertigou no sofá.

- Eu... eu vou arranjar um emprego e prometo que logo deixo sua casa...

- Hyoga, eu alguma vez reclamei por você vir aqui?

- Sei que não, mas vir aqui de vez em quando é bem diferente de morar e sei o quando você preza sua privacidade... – explicou – Não se preocupe, eu entendo de verdade...

- Filho... – Camus se interrompeu mais uma vez corando e baixando o olhar – Hyoga, você pode ficar o tempo que quiser, estou sendo sincero.

- Obrigado. – sorriu o mais jovem – Você achou meu celular?

- Ah, sim! – Camus abriu a mala e tirou o aparelho o entregando ao loiro. O russo pegou a máquina meio nervoso e tentou ligar pra Shun. O mais jovem tinha lhe dado seu número um dia antes.

- Caixa postal... – murmurou decepcionado – Bem, Camus, vou tomar um banho e ir à casa dele, certo?

- Tudo bem. Eu tentarei dormir um pouco.

Hyoga encarou o amigo e franziu as sobrancelhas.

- Aconteceu alguma coisa? Você e o meu pai...

- Não aconteceu nada, Hyoga. – cortou seco – Eu apenas discutir com ele. Vai encontrar seu amigo, amanhã conversamos direito.

- Você... – o loiro corou e desviou o olhar.

Camus ergueu uma sobrancelha.

- Dinheiro para o táxi, meu carro também ficou na casa do Dimitri... – disse envergonhado – Eu prometo que vou pagar tudo, Camus...

- Deixe de bobagens. – disse o ruivo tirando algumas notas generosas da carteira – Leve um pouco mais, e leve meu cartão de crédito também, nunca se sabe...

- Camus... você... você é incrível! – disse Hyoga pegando o dinheiro e se pendurando no pescoço do pai, beijando-lhe o rosto. Foi a vez de Camus corar, mas sorriu.

- Bobo! – disse sem jeito – Vai logo, já é tarde e não quero que fique andando por aí.

- Certo, mestre Camus! – brincou Hyoga e correu para o quarto.

O francês sorriu mais amplamente. Balançou a cabeça e se dirigiu ao seu próprio quarto.

-Uma chance para Amar-

O táxi parou em frente a casa de Shun e Hyoga estranhou o carro de polícia parado com as sirenes ligadas. Aproximou-se devagar, pensando que talvez tivesse se enganado e que não fora ali que deixara o rapaz mais cedo.

- Hyoga?

Alguém chamou seu nome e ele encarou a mulher loira e baixinha que estava com os olhos molhados e o rosto machucado.

- Ilana? – indagou adivinhando de quem se tratava. Seu coração se apertou.

- Sim, sou eu... – murmurou ela soluçando – Aconteceu algo horrível...

- O que aconteceu ao Shun?

Ilana soluçou mais forte, e Hyoga sentiu as pernas bambearem e a garganta ressecar. Estremeceu e arregalou os olhos.

- Responde, Ilana, por favor! – pediu desesperado.

- O Shun está no hospital... O... O estado dele é muito grave...

Continua...

Notas finais: O subtítulo não se referiu apenas ao Shaka e sua leitura, se referiu as ações de vários personagens, do Shun principalmente em defender os inocentes e pagar um alto preço por isso.

Só pra constar: O Dimitri é nojento.

Sampaku: é uma palavra em japonês que significa "três brancos" e define os olhos onde a área branca do globo fica visível também na região inferior ou superior, entre a íris e a pálpebra. A lenda diz que pessoas com olhos sampaku sanpakus são amaldiçoados, morrem cedo e de maneira trágica. Exemplos famosos de olhos sampakus: John Lennon, Merylin Monroe, princesa Diana, Heath Ledger. Todos com morte trágica.

Sei que ficou enorme, mas com todos os personagens aparecendo e mesmo a trama não deu pra fazer menor.

Abraços afetuosos a todos. Estou meio melancólica com esse capítulo e sem muitas palavras. Só tenho a agradecer a todos que estão acompanhando.

Marry-chan, Maya Amamiya, saorikido, Maah_Rossi, milaangelica, Hannah Elric, yuy, Arcueid, Nitsu, Keronekoi, Pandora Hiei, Danieru, MillaSnape, Layzinha, Virgo Nyah, Cardosinha, Graziele Kiyamada.

Beijos e obrigada!

Sion Neblina