Esse tipo de amor

Capítulo 14

Ikki chegou a casa e sentiu um delicioso cheiro de comida caseira. Já passava do meio dia. Estranhou porque raramente, Seiya ou Milo estavam em casa naquele horário. Invadiu a cozinha e encontrou o loiro mexendo algo no fogão.

Milo vestia um short folgado e estava sem camisa, tendo os longos cabelos presos por um elástico e desalinhados.

- Quem é vivo... – começou o escorpiano ao vê-lo.

O moreno se inclinou pra ver o que ele fazia e preferiu nem saber depois.

- O que está fazendo em casa essa hora? – indagou.

- Estou de folga e levei um fora. – devolveu Milo desligando o fogão – Eu tentei fazer uma surpresa ao Camus e me ferrei, só isso.

- O que houve?

- Não quero falar, Ikki. Você quer comer alguma coisa?

- Deus me livre, isso tá com um cheiro bom e uma cara horrível. O que é?

- Não sei. Peguei várias coisas e joguei dentro da panela. – riu o loiro.

Os dois riam agora. Milo abandonou seja lá o que estivesse fazendo e se sentou numa cadeira de frente ao moreno.

- O Afrodite disse que se você não voltar na próxima semana, vai suspender seu estágio. – explicou o loiro – O que está acontecendo, Ikki?

- Ele está cego.

Milo arregalou os olhos com a revelação.

- C-como assim, cego?

- Ah, é uma longa história, Seferis, mas isso explica porque não posso deixá-lo sozinho.

- Ikki, esse estágio é importante pra você. Esse cara não tem pai, irmão, mãe não?

- A coisa é meio complicada. Mas não vim aqui falar disso. Depois irei à Cignus falar com o Afrodite. Eu queria mesmo era saber como estão você e o Seiya.

- O Seiya está fudido, dividido entre a Saori e um cara que ele conheceu, sim pasme, um cara! – riu Milo – Eu fodido, apaixonado e babaca por alguém que não sente o mesmo por mim. Mas nenhum de nós dois estamos mais fodidos que você que está de quatro... Ai! Imaginei a cena certinha você de quarto Ikki, que delícia...

- Vai à merda, escorpião! – riu o leonino da provocação do amigo que riu também.

- Mas, continuando, você está de quarto por um pintor maluco e agora cego!

- Não brinca, Milo, a coisa é séria. – reclamou, mesmo que na verdade se divertisse com as observações do grego – Mas... você não estava bem lá com o ruivo, depois que tudo aconteceu? O que houve?

- O que houve, bem... – o loiro suspirou – É que eu sou filhodaputamente idiota e romântico...

- E?

- Ele não me ama.

As palavras foram ditas de forma tão melancólica que Ikki sentiu um nó na garganta.

- Então é um babaca! – revoltou-se o leonino.

- Não temos obrigação de gostar de alguém, Ikki, só porque esse alguém gosta da gente... – Milo se ergueu e foi olhar a panela – Merda! Eu ainda vou acabar queimando essa porcaria!

O mais jovem se ergueu também.

- Eu tenho que buscar o Shaka no hospital.

- Hospital?

- Sim, mas não é com ele, é com um amigo de um amigo, eu não entendi muito bem. Ah, foi o tal Camus quem ligou pra ele...

- Hum... então ele está com o Camus? – indagou Milo pensativo – Você sabe que eles foram amantes?

- E daí, escorpião? – resmungou Ikki que não gostava de se lembrar daquilo – Não são mais. Eu passo 24 horas com o Shaka naquela casa se isso o deixa mais tranqüilo.

- Não é isso que me preocupa, Ikki. Sei que agora, eles são só amigos, na verdade eles nunca foram mais que amigos que transavam de vez em quando, isso eu sei. – suspirou pesadamente.

- Então o que te incomoda? – o moreno tentava entender.

- O Camus ter preferido a companhia dele a minha. – confessou. – Isso mostra o tanto que sou insignificante na vida dele.

- Você deveria falar como se sente pra esse cara, Milo! Não é justo o que ele está fazendo com você!

- Bem... – o loiro suspirou e sorriu – Não gosto de cobranças, mas agora vai lá ver seu loiro cegueta que eu tenho que me aprontar pra faculdade. Depois conversamos melhor.

- Fica bem... – Ikki se despediu, batendo no ombro do amigo, e Milo suspirou se sentindo ainda mais vazio e infeliz com a informação de que Camus chamara Shaka para estar ao seu lado e não a ele.

Precisava sair de uma vez por todas daquela situação que só o machucava.

-Uma chance para amar-

Hyoga, Ilana e Shaka continuavam na recepção aguardando até que o médico liberasse Shun para receber visitas. Camus ligara informando que não demoraria a chegar, e o indiano prometera ficar com o filho do amigo até que isso acontecesse, mas já se sentia estranho sem a presença de Ikki. Estava com medo, a sensação de pânico há muito esquecida começava a se apossar dele e o artista lutava bravamente contra ela. Gotículas de suor já escorregavam por sua têmpora e ele cravava as unhas na pele do antebraço criando sulcos doloridos na cútis branca.

Precisava de Ikki, precisava daquele garoto insolente que tanta confiança lhe passava. Sempre fora um homem totalmente independente e ver-se assim, tão humilhantemente dependente de alguém era desesperador.

- O que aconteceu com o garoto? – perguntou tentando se distrair daquela sensação incômoda.

- Ele foi vítima de um louco que o esfaqueou.

Foi Ilana quem respondeu. Hyoga observava o indiano calado, pensando em lhe perguntar o que de fato havia acontecido aos seus olhos, mas sem coragem para isso. Viu quando Shaka empalideceu ainda mais e cravou as unhas na pele a ponto de ensangüentá-la, mesmo tendo unhas curtas.

- Eu... eu preciso tomar um pouco de ar... – disse o artista se erguendo abruptamente.

- Shaka, espere... você...

- Não sou um inútil, Hyoga. – disse ríspido abrindo os olhos – Posso me mover sozinho, fique aqui e espere seu amigo melhorar, eu já volto...

O indiano saiu andando com cuidado, só conseguia enxergar vultos, mas precisava de ar, precisava. Estava apavorado. Lembrava-se da última vez que sentira aquela mesma sensação...Precisava ir pra casa...

"Ikki..." Murmurou, quase caindo ao descer a pequena escada que o levaria à rua movimentada. Podia ver os faróis dos carros indo e vindo com seus olhos nublados.

"Você sabe que eu te amo, eu preciso de você! Ninguém nunca o amará como eu, Shaka!"

"Não, você não precisa de mim, não precisa! Vá embora, Aiolia! Encontre alguém que o ame de verdade, meu amor só fere!"

"Não me expulse da sua vida, não aceito isso!"

As lembranças do passado desaguaram como uma cachoeira sobre sua cabeça.

"Shaka, não faz isso comigo, eu te amo..."

"Mas eu não te amo, nunca poderia amá-lo..."

Apoiou a cabeça em uma árvore. Estava no estacionamento. Mais uma vez sentia vontade de morrer. Virou-se encostando as costas no tronco e mirando as luzes dos carros que iam e vinham...

Sua mente vagou e ele pensou que talvez devesse caminhar em direção a luz, quem sabe não fosse aquele o momento? O momento que não chegara com a facada de Aiolia?

-Uma chance para amar-

Quando deixou Milo, Ikki ligou para o número que aparecia no cartão que segurava.

A voz grave e rouca do agente atendeu ao telefone.

- Aiolia Anghelák, quem fala?

- Ikki Amamiya. Nos conhecemos hoje cedo na casa do Shaka.

- Ah, claro! – o outro ponderou – Eu estou na galeria agora, Ikki, estou organizando uma mostra do Shaka, você quer vir até aqui para conversarmos?

- Preciso buscar o Shaka no hospital, poderia ser...

- Hospital? – o homem o interrompeu visivelmente preocupado – Ele está bem?

- Fique tranqüilo, seu ganha pão está garantido, ele não corre nenhum perigo.

- Você é engraçado, Ikki. – disse Aiolia do outro lado da linha – Mas saiba que o Shaka não é meu ganha pão, e que me preocupo com ele porque o amo. Talvez você só não entenda esse tipo de amor...

- Então que tal me explicar sobre esse tipo de amor, amanhã, senhor Anghelák?

- Estarei esperando as 10h00min, na galeria Phalke em Kolonáki. Há um bistrô agradável em frente, onde podemos tomar um café, senhor Amamiya.

- Estarei lá. – desligou o telefone.

Não era longe de sua casa até o hospital, por isso nem precisou do carro do indiano, se bem que era sempre bom dirigir uma lótus, mas ele preferiu ir a pé. Voltava envoltos em pensamentos quando uma buzina de carro chamou sua atenção e fez com que se virasse. Seu coração falhou uma batida ao ver que o carro buzinava pra Shaka que parecia querer atravessar a rua totalmente perdido.

"Que merda!" Praguejou o moreno correndo até ele e o puxando pelo braço de forma rude, antes que um dos veículos o acertasse.

- O que você pensa que está fazendo? – gritou o sacudindo pelos ombros – Você quer morrer, seu idiota, é isso?

Ikki berrava de forma descontrolada enquanto sacudia o corpo magro do rapaz loiro. Shaka não reagiu e nem disse nada, deixou que o moreno o xingasse e sacudisse sem nenhuma reação. Quando Ikki se acalmou, percebeu a força que o segurava e relaxou as mãos, apoiando sua cabeça na dele, respirando forte.

- O que você veio fazer aqui, seu loiro maluco? – murmurou de forma dolorida.

- Ikki... – Shaka sussurrou – Me abraça, eu fiquei tão perdido sem você...

O mais jovem sentiu o coração disparar com a confissão e mais ainda com o jeito condoído que o loiro disse aquilo. Ele parecia tão frágil, justo ele sempre tão arrogante.

- E por isso saiu andando pelo meio dos carros sem enxergar? – tornou tentando manter a voz firme e não se derreter demais com aquela declaração – Você podia ter sido atropelado!

- Eu só precisava sair de lá... o garoto... o garoto foi esfaqueado...

Ikki entendeu tudo naquele momento. Aquela informação fizera Shaka se recordar do seu passado com Aiolia, só isso o faria abrir a guarda daquela forma.

- Já passou, loiro. – disse o abraçando, sentindo um horrível mal estar com aquela informação. – Vai ficar tudo bem...

- Me leva pra casa.

- Precisamos falar com seus amigos, eles devem estar preocupados...

- Sim, por favor, liga pro o Camus pra mim, fala com ele, eu... eu não quero falar com ninguém...

- Certo.

Ikki pegou o celular das mãos do loiro e discou o número do francês. Camus atendeu logo explicando que já estava chegando ao hospital.

- Oi, Camus, é o Ikki... – cortou resignado.

- Oui, Ikki, como vai?

- Bem, obrigado. Eu liguei pra dizer que o Shaka... bem, o Shaka precisou ir embora porque não estava muito bem.

- Algo que eu possa ajudar?

Ikki bufou e não segurou a língua.

- Se quer saber, há sim, Camus Verseau. Que tal parar de correr atrás do Shaka e dar um pouco de atenção a uma pessoa que te ama e que você faz questão de manter afastado da sua vida?

- Não entendi... – disse Camus atônito do outro lado da linha.

- Eu lhe disse uma vez que se fizesse o Milo sofrer eu quebraria sua cara e isso não mudou! Trate bem meu amigo, ruivo, ou não respondo por mim. Não quero ver o Milo nunca mais da forma que vi hoje, ou eu mato você. Passar bem!

Ikki desligou o telefone, mirando o rosto atônito de Shaka.

- Ikki, o que você fez?

- Não reclama, loiro, ele estava precisando ouvir. Agora vamos.

O moreno abriu a porta do carona e acomodou Shaka no banco, abrindo a sua em seguida, entrando e dando a partida.

Há alguns metros do hospital, Camus descia da sua BMW ainda segurando o celular meio atônito.

"Ikki... Será ele? Como não pensei nisso? Mas... seria coincidência demais!"

De qualquer forma, não custava nada tentar.

Discou novamente o número do indiano. Ikki olhou o visor e viu a foto de Camus sorrindo. Bufou irritado! Por que aquele ruivo filho da puta vivia sorrindo pra Shaka?

Manobrou o carro aumentando a velocidade.

- Quem é, Ikki? Não vai atender? – indagou o loiro sentindo a irritação do moreno.

- É o Camus, atendo assim que estacionar. – respondeu de mau humor.

- Quando você estacionar, ele não estará mais na linha. – explicou o indiano paciente – Atende e deixe que falo com ele.

Ikki bufou, mas fez o que o loiro sugeriu. Shaka levou o telefone ao ouvido se ajeitando no banco.

- Oui, Camus...

- Shaka... Como você está?

- Bem, e me desculpe pelo Ikki.

- Shaka, é sobre ele mesmo que quero falar...

O indiano franziu as sobrancelhas.

- Camus, ele não fez por mal acredite...

Ikki soltou uma risada nervosa.

- Não precisa me defender, Shaka, se ele quiser falar comigo...

- Fica quieto! – grunhiu Shaka, envergonhado pelas atitudes do moreno. Justo com quem Ikki tinha que agir daquela forma! Logo com Camus que era tão refinado.

- Não é por isso, Shaka e não posso explicar agora. – tornou Camus – Preciso saber se o nome dele é Ikki Amamiya?

- Sim, por quê?

- Nada. Depois explico. Você precisa descansar.

- Camus, me diz o que está acontecendo?

- Fique tranquilo, amigo, não é nenhum problema, pelo contrário, é a solução de muitos.

O ruivo se despediu do loiro e desligou o telefone com um raro sorriso nos lábios. Pelo menos um dos problemas estava resolvido.

-Uma chance para amar-

Já passava das cinco da tarde quando Seiya abriu os olhos. Passara o dia inteiro no apartamento de Shiryu. Nenhum dos dois foi trabalhar e não estavam muito preocupados com isso. Ambos queriam ficar ali, se amando, experimentando as sensações únicas dos braços um do outro...

Espreguiçou-se na cama e segurou uma mecha do cabelo cumprido do amado antes de deslizar a mão por seu rosto para acordá-lo.

Shiryu abriu os olhos e sorriu ao encontrar os castanhos de Seiya.

- Que horas são? – indagou ainda com a voz enrouquecida pelo sono.

- Algo em torno das cinco...

- Eu deveria estar trabalhando...

- Eu também. – disse Seiya contornando os lábios finos do amado e o mirando com adoração. Shiryu não teve dúvidas de que ele o amava e embora isso não justificasse e nem apagasse suas atitudes erradas, o fato é que ele fora atrás dele para se desculpar, implorar por perdão e aquilo deveria significar algo.

- Seiya...

- Não fala nada, Shi... – pediu o mais jovem se abraçando a ele – Eu sei que tenho que resolver as coisas, eu sei. Me dá um tempo...

Shiryu engoliu em seco. O que deveria fazer? Nunca estivera envolvido num triângulo amoroso antes e não sabia se deveria dar o tempo que Seiya pedia, pois sabia, entretanto, que era sempre assim que agiam as pessoas que queriam manter situações como aquela.

- Eu não posso, Seiya. – disse o executivo – Se você quiser ficar comigo terá que resolver isso rápido.

- Shi, eu... eu namoro há seis meses com a Saori, não posso terminar assim...

Shiryu se sentou na cama, afastando Seiya e mirando sério os seus olhos.

- Você tem que dizer que se apaixonou por outra pessoa, é simples e creia: as mulheres são muito mais sensíveis e inteligentes que os homens, ela já deve saber.

O mais jovem emudeceu. Não tinha resposta para Shiryu. Sabia que queria ficar com ele, que o amava, era louco por ele! Mas... havia tanto... O que seus amigos pensariam? Seus pais? Deus! Aquilo era muito complicado. Ele tinha compromissos, as pessoas esperavam certas atitudes dele...

- Shi, meus... meus pais... eles não sabem que eu... bem... que eu...

- Gosta de homens?

Seiya suspirou.

- Na verdade eu sempre consegui reprimir isso muito bem dentro de mim até conhecê-lo, mesmo porque, eu sou louco por garotas, gosto mesmo... Ah desculpe... – corou o mais jovem – Você não precisa saber disso...

Shiryu ajeitou os cabelos e se movendo na cama, segurou as mãos de Seiya. Ambos estavam nus, cobertos pelos lençóis brancos de forma displicente. Ficaram frente a frente, os olhos castanhos e os verdes se encarando.

- Seiya, saber disso ou não, não mudará o fato de que você tem que se decidir. Não abrirei mão de uma decisão sua, eu preciso.

- Eu sei... – murmurou Seiya e segurou o rosto do mais velho entre as mãos, o mirando profundamente – Mas saiba que independente de qualquer coisa, eu amo você...

Shiryu sorriu com melancolia.

- Isso já me parece uma resposta...

- Não, Shi, não é. – negou o mais jovem – Mas entenda que isso não será tão fácil quanto está fazendo parecer.

- Eu sei. Nunca é.

Seiya o abraçou com força, escondendo o rosto na curva do pescoço do executivo.

- Me deixa ficar mais um pouco... – pediu manhoso.

- O tempo que você quiser, Seiya... – o apertou forte, cerrando os olhos – O tempo que você achar que deve...

-Uma chance para amar-

Ikki manobrou o carro, abrindo o portão da garagem de Shaka com o controle remoto, para logo depois estacionar o carro de forma abrupta. Saiu do veículo e viu Shaka fazer o mesmo, tateando com cuidado ao seu redor. Estava escuro e nem mesmo ele, Ikki, conseguia enxergar muita coisa.

- Vem... – puxou o loiro pelo braço quase o arrastando, sem nenhuma delicadeza.

- Por que está zangado comigo?

A voz lenta e rouca de Shaka o despertou dos seus inquietos pensamentos e o universitário respirou fundo, acendendo a luz da sala.

- Não estou zangado com você. Mas essa situação ficou insustentável.

- Que situação, Ikki? – perguntou cruzando os braços.

O moreno se aproximou dele o encarando, mesmo sabendo que o loiro não podia vê-lo ainda.

- Você tem que decidir o que quer de mim, loiro. Ou sou seu empregado, ou seu amigo, ou seu amante, mas só posso ser uma dessas coisas.

Shaka mordeu o lábio inferior e baixou a cabeça fazendo sua espessa franja cobrir-lhe os olhos. Ficou em silêncio, sentindo uma grande angústia.

- Você não entende Ikki... – murmurou depois de um tempo – Se... Caso seja pra mim mais que um empregado... Eu não quero ferir você, entenda...

- E por que raios você acha que vai me ferir? – gritou o moreno inconformado – Será que não ver que essa sua indecisão e indiferença estão me machucando mais do que suporto?

- Eu não sou indiferente a você e sabe disso! – confessou Shaka – Eu só não quero magoá-lo. Ikki, coloque uma coisa na sua cabeça, eu não sou pra você, mas não por ser melhor que você e sim porque eu não sou pra ninguém...

- Então eu vou embora. – declarou o moreno firme – Assim que você recuperar a visão...

- Não precisa esperar. – cortou Shaka sentindo lágrimas nos olhos – Se quer partir, parta logo. Eu não... – diria: eu não preciso de você, mas não foi capaz, porque sabia que precisava dele como nunca precisou de outra pessoa.

- Eu não sou insensível a ponto de deixá-lo dessa forma sozinho. – cortou o moreno – Venha, vou levá-lo para tomar um banho e descansar...

- Eu quero que vá embora, Ikki. – sussurrou o loiro e se surpreendeu quando teve os cotovelos seguros pelo moreno. Arregalou os olhos, sentindo a pele arder.

- Você quer mesmo, Shaka? É isso que quer? – irritou-se Ikki – Por que é tão difícil admitir os próprios sentimentos hein?

- Porque meus sentimentos são pesados e cortantes como uma foice e só me machucam e aos que me amam... Minha mãe...O Aiolia...

As lágrimas do loiro pingaram no chão. Ikki sentiu uma amargura estranha, era a primeira vez que ele ouvia o nome do agente pelos lábios do artista, Shaka finalmente estava deixando a concha... Estava se abrindo e aquilo era uma possibilidade de expurgar aquela dor tão evidente que preenchia a alma do artista.

Ikki soltou seus braços e enxugou-lhe o rosto com os nós dos dedos, o abraçando apertado em seguida.

- Eu te amo, Shaka... – se permitiu dizer. Também estava cansado de fugir daquela palavra – Deixe-me amar você...

O loiro ergueu os olhos, encarando o rosto do moreno; só conseguia enxergá-lo de forma distorcida, mas via os olhos, a linha dos lábios. Tocou-o com carinho.

- Faz amor comigo, Ikki...

-Uma chance para amar-

Camus entrou no hospital e foi recebido por Hyoga que exibia um radiante sorriso.

- O Shun já deixou a UTI, mas ainda não pude vê-lo, está dormindo. – foi logo dizendo o mais novo.

- Ah, filho que bom. – Camus o abraçou, se afastando em seguida – Você não acha que agora pode ir pra casa descansar um pouco?

- Não, Camus, só quero sair daqui quando ver o Shun.

- Eu entendo. – sorriu o mais velho e suspirou – Tenho uma boa notícia, acho que localizei o irmão dele.

Hyoga arregalou os olhos e sentiu o coração se aquecer.

- Tão rápido, como?

Camus o convidou a se sentar e o garoto o fez afoito.

- Bem, acho que não há muitos Ikki Amamiya em Atenas...

- Não faz suspense, Camus, por favor! – implorou Hyoga exultante.

- Ele estava embaixo dos nossos olhos o tempo todo. É um dos nossos estagiários e pelo que acho, apenas acho, é o novo namorado do Shaka.

Hyoga parou boquiaberto.

- Namorado do...? Então aquele moreno enfezado que esteve aqui hoje...?

Camus balançou a cabeça positivamente.

- Ele mesmo, a discrição é bem essa.

- Deus! Ele esteve tão perto! Precisamos encontrá-lo, Camus, ele tem que saber onde está o irmão...

- Calma, Hyoga. – volveu Camus – Ele me ligou a pouco e me disse que o Shaka não estava bem...

- Sim. O Shaka é louco, Camus! Ele saiu sozinho mesmo sem enxergar, você sabe como ele é, não tive como impedir.

- Sim, eu conheço bem o Shaka. Acontece que aquele teimoso está cego e sozinho e também não devemos assustar o Ikki dessa forma. Vamos primeiro ver como o seu amigo está e depois falamos que encontramos seu irmão.

- Você tem razão. – disse Hyoga feliz por finalmente ter encontrado o irmão de Shun, agora sabia que tudo estaria bem.

-Uma chance para amar-

Ikki tocou os lábios macios de Shaka com o polegar de maneira delicada.

- Não... – sussurrou fazendo o artista estremecer – Ainda não...

Shaka piscou e ruborizou, baixando a cabeça.

- Era isso que queria? Que eu pedisse pra que tivesse a chance de me rejeitar? – perguntou e estremeceu novamente quando sentiu os braços fortes envolverem sua cintura, antes da boca carnuda tomar a sua num beijo intenso. Sentiu as pernas bambearem e se apoiou nos ombros fortes. Seu corpo aqueceu como se pisasse em larva e sentiu uma leve tontura com todo aquele calor que saía de Ikki. O puxou pela nuca aprofundando o beijo, invadindo a boca do leonino com sua língua, queria mais que um simples ósculo. Ele queria Ikki inteiro pra si.

O mais jovem, porém, o afastou depois de algum tempo, segurando-lhe suavemente pelos ombros. Encarou o rosto ruborizado do loiro e sorriu.

- Você precisa descansar e só quero ir pra cama com você quando puder me ver, olhar dentro dos meus olhos e dizer que me deseja tanto quanto te desejo.

- Eu já confessei, não era isso que queria? – suspirou Shaka – Mas não ficarei aqui fazendo papel do garotinho desesperado pra ser amado, Ikki, se não me quer...

- Por que tudo pra você tem que ser tão dramático? – o moreno suprimiu a vontade de rir, e Shaka bufou irritado e se afastou dele o máximo que pode antes de ser alcançado pelos dedos fortes que se fecharam em seu braço.

- Ouvir que te amo não é o suficiente? Precisa ser tudo da sua maneira?

- Não tudo, mas uma boa parte. – respondeu o loiro arrancando uma gargalhada gostosa e sem mágoa dos lábios de Ikki.

- Gostaria de saber como consegui me apaixonar por você? Você é a pessoa mais convencida e irritante que já conheci!

- E você o mais pretencioso e teimoso que já conheci! – rebateu Shaka enquanto era guiado por Ikki para o quarto.

- E foi por esses meus defeitos que se apaixonou, loiro?

- Quem disse que me apaixonei por você? Dizem que o amor é cego, mas não é por causa disso que eu resolvi lhe fazer companhia, mesmo sendo parte do time agora! – respondeu mal humorado.

Ikki riu mais alto.

- O amor é cego, surdo, mudo, tetraplégico e respira por aparelhos, Shaka. Mas o pior de tudo isso, é que, sádico, ele nos deixa no mesmo estado.

O moreno o enlaçou pelos ombros e o levou para o quarto. Sabia que o momento certo de amar aquele loiro e acabar com seu mau humor chegaria, mas não era agora.

-Uma chance para amar-

Um gosto amargo nos lábios foi o que Shun sentiu ao abrir os olhos, além de um leve desconforto abdominal. Sentou-se com dificuldade na cama, percebendo vários fios presos ao seu corpo e o barulho irritante do aparelho que media sua freqüência cardíaca. Cobriu os lábios com a mão sentindo uma náusea terrível e a repelindo.

Olhou ao redor sem entender onde estava, as imagens demoravam a chegar a sua mente. Marcel, a faca... Tudo voltando muito lentamente.

As crianças... Ilana... Será que estavam bem?

- Hyoga... – murmurou e sentiu um toque cálido nas mãos, virou-se para o lado só então se dando conta de que não estava sozinho na enfermaria daquele hospital.

- Meu amor... – Hyoga murmurou, os olhos marejando ao encontrar os de Shun – Eu tive tanto medo de perdê-lo agora que o encontrei...

Shun sorriu e ergueu a mão tocando o rosto do russo onde caíam já algumas lágrimas.

- Eu te amo... – disse o puxando com delicadeza para um beijo – Me desculpe por preocupá-lo...

- Shnnn... – Hyoga pediu silêncio e o olhou dentro dos olhos – Não tem do que se desculpar, você foi um herói...

- Eu tive tanto medo, Hyoga, tanto medo... – Shun começou a chorar também – Medo de nunca mais vê-lo, de não ver meu irmão...

- Calma, Shun, não pode se agitar. – pediu o abraçando com delicadeza – Agora que está melhor, posso levá-lo pra casa. Venha comigo para o apartamento do Camus, por favor...

- O apartamento do Camus?

- Aconteceram muitas coisas que você ainda não sabe. Mas não é hora de conversar. Precisa descansar pra sair daqui amanhã.

- 'Tá bom... – sorriu Shun – Estou com sede...

Hyoga se ergueu e encheu um copo descartável com a água que havia numa garrafa sobre uma mesa de remédios. Shun aceitou e bebeu afoito.

- Onde está a Ilana?

- Estava exausta, eu implorei para que fosse pra casa. – respondeu Hyoga voltando a se sentar ao seu lado.

- Sim, ela precisa cuidar das crianças. – disse Shun e encarou o loiro – E o... Marcel?

- Preso.

- Não... – mais lágrimas desceram pelo rosto de Shun – Não é justo... Ele está doente, precisa de tratamento e não da prisão...

- Shun, ele esfaqueou você! – irritou-se Hyoga – É um criminoso!

- Ele me deu um lar, me alimentou quando mais precisei! – seu pranto se fez mais forte, e uma enfermeira que passava por perto se aproximou.

- Ele não deve se agitar, senhor. – advertiu e mirou o garoto o empurrando de leve para que se deitasse novamente – Shun, precisa descansar. Eu sou Tamaris, cuidarei de você até a alta. – Virou-se novamente para Hyoga – Agora tem que sair, por favor, volte amanhã...

- Shun, eu tenho que ir, mas ficarei aqui na recepção esperando... – informou Hyoga, enxugando o rosto do mais novo com carinho.

Shun mirou o rosto abatido do amado e fez sinal negativo com a cabeça.

- Você precisa descansar, Hyoga, está exausto, dá pra notar. – disse e sorriu – Eu já estou bem. Por favor, vá pra casa, tome um banho e descanse um pouco, amanhã você volta.

- Não, Shun...

- Hyoga, eu não conseguirei descansar sabendo que está jogado em um desses bancos de hospital. Por favor...

- Ele tem razão... – intrometeu-se a enfermeira – Amanhã o horário de visitas começa as 10h00min da manhã. Eu já não deveria tê-lo deixado entrar, por favor, faça o que seu amigo diz, será melhor pro o senhor.

Hyoga se viu obrigado a obedecer, beijou Shun na testa com carinho e apertou-lhe a mão.

- Volto amanhã.

O mais jovem assentiu com a cabeça, e o loiro saiu.

Hyoga chegou à recepção e encontrou Camus. Mirou o rosto abatido do amigo e se sentou ao seu lado.

- Cansado? – indagou com carinho..

Camus sorriu minimamente.

- Já não tenho vinte anos...

Hyoga riu com gosto.

- Está sendo exagerado.

- Sei. E então? Falou com ele?

- Não tive coragem de contar sobre o irmão. Ele ficou muito agitado durante minha visita e não quis que ficasse mais. Falarei amanhã, agora só quero levar o senhor pra casa, mestre Camus...

- Eu estou bem, Hyoga...

- Não está não e só poderei ver o Shun amanhã mesmo. Venha, vamos dormir em casa.

Camus se deixou levar pelo filho, em direção ao estacionamento. Pensava que já havia passado da hora de contar a verdade a Hyoga por mais que aquilo o atormentasse. Mas não naquele momento. Naquele momento Hyoga precisava de tranqüilidade apenas, depois que o garoto tivesse fora do hospital e nos braços do irmão contaria a verdade.

Chegaram ao apartamento rápido. O transito caótico de Atenas não estava tão caótico assim. Já entraram, se livrando das roupas pesadas e caindo cada qual embaixo do chuveiro.

Camus sentia o calor da água morna e o vapor que o envolvia, enquanto pensava em Milo. Estava com tantas saudades do grego, mas não queria envolvê-lo em seus problemas. Milo era muito jovem e cheio de compromissos e responsabilidades, não queria ser mais um peso para ele. Queria oferecer a Milo só coisas boas e até agora só conseguia lhe oferecer problemas e confusão.

Sinceramente, eu não estou sendo bom pra ele...

Pensou com tristeza, saindo do banheiro enrolado numa toalha. Secou-se ainda pensando no grego, vestiu uma boxer branca e um roupão e seguiu para a cozinha. Estava faminto. Surpreendeu-se ao encontrar Hyoga vestido apenas numa boxer branca, sentado à mesa, devorando uma fatia de pizza.

Sorriu da entrada da cozinha, cruzando os braços e ficando o observando. Seu filho era um homem muito bonito. Tinha uma aparência viril, corpo forte, mas certa delicadeza nos traços, herança de Natássia, assim como os cabelos loiros um pouco rebeldes e os olhos de um azul profundo e acinzentado.

O ruivo sentia que ele merecia saber, que era um direito dele, mas tinha medo que ele nunca mais voltasse a sorrir pra ele, como sorria agora, sendo-o flagrado num momento tão pouco elegante.

- Está aí há muito tempo? – indagou o mais jovem sem jeito, limpando os dedos sujos de gordura num guardanapo – Desculpe, estava faminto.

- Eu sei, eu também estou. – volveu Camus finalmente entrando na cozinha e abrindo a geladeira, pegando uma caixa de achocolatado.

- Você parece muito cansado. – observou Hyoga – Eu só sirvo pra te dar trabalho.

Camus riu de leve.

- Não seja dramático.

- Sério, Camus, você está exausto e precisa descansar. Eu sei que é meu amigo e me ajudou muito até aqui, sou muito grato por isso, mas já chega. Gostaria que descansasse um pouco. Por que não faz uma viagem?

O francês deixou escapar um suspiro pesado enquanto enchia um copo com o achocolatado.

- Hyoga, digamos que precisarei me dedicar ainda mais ao trabalho e não sei quando terei tempo livre para uma viagem...

- Por que diz isso? – indagou o mais jovem curioso.

Os olhos índigos do ruivo miraram os azul claro do loiro.

- O contrato entre a Cignus e as indústrias Verseau termina no final do ano e não quero renová-lo. Vou desassociar as empresas.

O russo entreabriu os lábios surpreso. A associação entre as indústrias Cignus e Verseau possuía mais de 30 anos, fora feita antes mesmo de Camus nascer e agora... Aquilo seria a notícia mais bombástica do mercado financeiro dos últimos 20 anos! A repercussão seria enorme!

- Camus, você tem certeza?

- Não tenho mais condições de trabalhar com o Dimitri. Condições nenhuma, Hyoga...

- Mas isso é algo muito radical! Será muito desgastante pra você!

- Eu sei. – respondeu com indiferença bebendo o chocolate rapidamente – Pedirei comida chinesa, você quer?

- Camus!

- Minha decisão já foi tomada, Hyoga, não adianta falar nada. – depositou o copo na pia e seguiu para a sala, se jogando no sofá.

- Camus, mais do que nunca você precisa de férias, esse processo será lento e doloroso, Dimitri fará de tudo pra... pra te ferrar!

- Estou ciente dos problemas que enfrentarei, filho, não quero que se preocupe. – Camus encarou Hyoga de forma carinhosa – Você tem toda uma vida pela frente, está cheio de sonhos e planos como nunca vi antes. O momento agora é seu, Hyoga, eu tenho que pagar pelos erros do meu passado.

Os olhos do russo se estreitaram enquanto ele examinava o primo.

- O que você me esconde, Camus? Eu sempre tive a sensação de que você esconde algum segredo e o esconde de mim.

Camus baixou o olhar e brincou com a fita do roupão. Hyoga se sentou na mesinha em frente a ele.

- Camus, você sabe que pode confiar em mim...

- Sei, claro que sei, Hyoga. – respondeu a voz grave e ergueu o olhar levemente. O russo percebeu que seu rosto estava corado – Mas agora não é hora de termos essa conversa, ainda mais com você vestido apenas numa cueca, não acha? – tentou fazer graça.

Hyoga cruzou os braços e enfezou a cara.

- Pára de fugir, nunca se incomodou com isso, por que agora?

- Porque estou com fome e exausto. Quero comer e dormir, só isso, por favor... – Camus lhe falou com um olhar de súplica, e Hyoga soube que ele estava verdadeiramente esgotado. O ruivo não era homem de suplicar, de recuar ou fugir de nada.

Algumas imagens voltaram à cabeça do loiro. Camus sempre esteve incondicionalmente ao seu lado. sempre fora mais que um primo, amigo ou irmão. Nunca o abandonara e nem o deixara sozinho nas situações mais difíceis, enfrentava o mundo por ele. Será que...?

Arregalou os olhos e ruborizou com os próprios pensamentos. Será que o primo o amava e durante todo aquele tempo ele fora insensível demais para perceber?

Mirou Camus que o encarava com curiosidade, vendo as mudanças em sua expressão. Deus! Aquilo não podia ser verdade. Camus era mais que um amigo pra si, era um pai, a pessoa que mais amava na vida. Caso o tivesse colocado numa situação como aquela? Caso o tivesse magoado àquele ponto, exibindo seus romances a ele sem nenhum pudor...? Zeus!

- Camus... – balbuciou. Precisava perguntar, não conseguiria conviver com essa dúvida.

- Acho melhor descansarmos, Hyoga, o dia foi...

- Você me ama?

Os olhos atônitos do ruivo o encararam.

- Como?

- Você me ama...de outra forma? – continuou Hyoga – É por isso que quer largar tudo e desaparecer? Porque estou com o Shun?

- Hyoga que abs...

- Não tenta me enganar, Camus! Você está sofrendo por minha causa! – continuou o russo nervoso se erguendo – Como pude ser tão fui idiota e insensível pra não notar isso? Estava tão claro! Você sempre me amou e me protegeu e eu só o fiz sofrer...

As lágrimas se apossaram dos olhos de Hyoga e ele baixou a cabeça desolado. Camus continuava o mirando atônito.

- Por que não me disse? – balbuciou o russo de forma dolorida – Eu não posso suportar fazê-lo sofrer, Camus...

- Hyoga cala essa boca! – irritou-se o francês se erguendo e aproximando-se do filho. Hyoga continuou com a cabeça baixa, incapaz de olhá-lo. Pensava que se tivesse que abrir mão de qualquer coisa pela felicidade de Camus, estava disposto a fazer, por mais doloroso que fosse.

- Eu o amo, Camus, eu nunca o faria sofrer.

O ruivo levantou-lhe o queixo e o encarou. O loiro viu um quê de divertimento em seus olhos e ficou confuso.

- Que rapazinho pretensioso eu criei. – sorriu o francês arrancando um olhar perdido do rapaz – Eu te amo sim, Hyoga, mas não da forma absurda que está pensando, isso chega a ser uma heresia!

O alívio que o loiro sentiu foi tão intenso que ele começou a rir instantaneamente com as palavras do amigo, mesmo que as lágrimas ainda rolassem. Camus riu também.

- Ah, que bom que caiu em si! – disse – Por Zeus! Não pense mais em bobagens do tipo! Eu... eu não sou como o Dimitri, o que sinto por você é um amor totalmente paternal e...

Essa é a hora, Camus! Algo dizia em sua mente, mas seus lábios não conseguiam pronunciar a verdade.

- Camus me desculpe por pensar em algo tão absurdo, mas você estava tão triste...

- Hyoga, nunca duvide do meu amor por você, mas saiba que o amo... como a um filho, unicamente um filho. – um sorriso amargurado dominou seus lábios – Um dia você entenderá isso...

O russo ainda estava muito confuso, mas somente saber que se enganara sobre os sentimentos de Camus já o deixava melhor e mais animado. Não conseguiria viver sabendo que fazia aquele que lhe era tão caro sofrer daquele jeito.

- Pretensioso! – resmungou Camus se afastando de volta ao sofá.

Hyoga riu e se sentou ao lado dele.

- Então, esclarecido os fatos, que tal me dar um abraço? – sugeriu.

Camus assentiu com a cabeça e o envolveu os braços numa abraço carinhoso, beijando-lhe o rosto.

Fora nesse momento que Milo entrou no apartamento, aproveitando a porta aberta. Não tinha avisado a Camus que viria e deu um jeito de entrar sem que ninguém o visse, se aproveitando da distração de um dos porteiros. Precisava falar com Camus e achou que o efeito surpresa era o melhor jeito.

Incrível como sempre tinha péssimas idéias! Agora estava ali, vendo Camus abraçados a outro homem seminu no meio da sala. Uma situação que não deixava dúvidas sobre a intimidade que existia entre os dois.

Sairia sem nada dizer. Seu coração já fora esmigalhado demais, mas nesse momento, como se sentisse sua presença, Camus ergueu os olhos e o viu. O rosto do francês tornou-se pálido como a morte, e ele afastou o loiro em seus braços com delicadeza.

Hyoga estranhando a súbita tensão do amigo se virou encontrando o olhar incrédulo do grego.

- Milo...

- Não precisa dizer nada, Camus... Eu estou indo! - virou-se e saiu a passos rápido, sentindo as malditas lágrimas que tanto o envergonhavam invadirem seus olhos. Não, daquela vez não faria uma cena, não diria nada e que Deus permitisse que Camus não o seguisse!

Entrou no elevador e apertou freneticamente o botão, antes da porta se fechar, pode ver o ruivo saindo correndo de dentro do apartamento. Mas Camus não teve tempo de alcançá-lo, então entrou no outro elevador, nem se importando em estar vestido apenas num roupão.

Milo chegou à garagem e caminhou rápido em direção a sua moto, todavia, o segundo elevador do prédio, chegou logo depois, e Camus saiu o alcançando e o puxando pelo braço.

- Espera!

- Me solta! – Milo se desvencilhou num tranco – Sai de perto de mim ou irei quebrar sua cara novamente!

- Milo, me deixa explicar...

- Não chega perto de mim! – disse o grego entre dentes, querendo se controlar e evitar um escândalo – Eu sei que sou um idiota por acreditar nas pessoas; você ter preferido chamar o Shaka pra estar ao seu lado quando precisou foi um sinal muito claro da importância que tenho em sua vida!

- Não é nada disso, Milo... – disse Camus aflito – Eu só não queria preocupá-lo e incomodá-lo com meus problemas. Você fez tanto por mim que não queria abusar de sua generosidade...

- Mentira! Você não quer na verdade me envolver em sua vida e agora entendo por quê! – controlou-se e forçou-se a sorrir com escárnio – Sua queda por loiros é evidente, Camus...

Voltou a caminhar, mas foi novamente detido pela mão forte do ruivo. Dessa vez não se virou. Respirou fundo e cerrou os olhos.

- Camus, por favor, deixe-me ir antes que eu perca a cabeça!

- Milo, me escute... Não o chamei pra ficar comigo no hospital pra poupá-lo, não estou mentindo e me desculpe! Não tinha idéia que isso o magoaria...

O loiro se voltou o encarando com raiva e puxando o braço com violência.

- Ah, claro! – riu indignado – E transar com esse cara também fazia parte do pacote "poupe o Milo idiota"? – gritou – Você é patético Camus!

- Eu não estou mentindo, droga! – gritou Camus perdendo a calma – Aquele que você viu lá em cima é meu filho! Meu filho entendeu?

Milo piscou atônito, sentindo vontade de se enterrar no primeiro buraco com aquela informação e ainda duvidando dela. Seus olhos surpresos passaram de Camus e depois se concentraram, abrindo-se em surpresa, em alguém que já estava há muito tempo acompanhando a discussão. O ruivo se virou, seguindo-lhe o olhar e sentiu o sangue gelar ao mirar o rosto pasmado de Hyoga.

O ruivo sentiu o coração parar por alguns segundos. Era evidente que o russo compreendia tudo.

Continua...

Notas finais: Esse demorou eu sei, peço desculpas. Mas saiu enorme também pra compensar XD!

MayaDeli, Nitsu, Izabel, Danieru, Neko-sama, Pandora Hiei, Maya Amamiya, Shunzinhaah2, Saorikido, anapanter, yuy, Keronekoi, Marry-chan, milaangelica, Arcueid, Hannah Elric, SabakuNoGaara, Graziele Kiyamada, Kate-Chan, Cardosinha e Virgo Nyah.

A vocês meu muito obrigada de coração, prometo não atrasar tanto a próxima postagem.

Abraços afetuosos!

Sion Neblina

Postado em 12/02/2011