Extremos 2 – Erros, acertos, enganos...
Capítulo 15
Hyoga continuava parado, mirando do loiro para Camus sem entender nada. Será que tinha ouvido direito? O que o primo quis dizer com filho?
Sua mente tentando achar uma solução lógica pra aquilo, mas nada vinha além daquela palavra. Se Camus dizia para aquele rapaz que ele era seu filho, aquilo não poderia ser apenas forma de expressão.
- Camus... – murmurou, vendo o rosto lívido do ruivo e o constrangido do loiro desconhecido.
- Hyoga, volte pra casa, conversamos depois, por favor. – o olhar do amigo era suplicante, e o russo nunca o vira suplicar antes.
O loiro mais novo titubeou, mas confuso como estava achou melhor obedecer, mesmo porque estava apenas com uma calça jeans no meio do estacionamento do prédio.
Deu as costas e começou a voltar para o apartamento do primo.
Quando Hyoga saiu, Camus tentou se aproximar de Milo, mas o loiro fez um gesto de mão o afastando.
- Desculpe-me, Camus. – pediu baixando o olhar envergonhado – Acho que eu consegui ferrar sua vida de vez...
- Milo...
- Não! – interrompeu o mais jovem – É melhor pararmos por aqui, eu não suporto mais isso, não suporto mais tantos erros e enganos. Estou sempre complicando sua vida e por isso entendo que queira me manter longe.
- Milo, não é nada disso, eu nunca quis mantê-lo longe, na verdade...
- Camus, não importa nada que diga agora. – o loiro respirou fundo antes de erguer os olhos verdes para encarar os azuis do francês – Acabou e é melhor assim. Não estávamos sendo bom um para o outro.
- Fale isso por você mesmo. – cortou o ruivo seco – Eu até compreendo que tenha motivos pra entender tudo errado, mas motivos para me tirar da sua vida você não tem!
- Não fui eu que o tirei de sua vida, Camus, você escolheu viver sem mim no momento que me excluiu de tudo que era importante pra você. – os olhos do loiro marejaram e ele lutou ferozmente para que as lágrimas não se derramassem.
- Isso não é verdade! – tentou argumentar o francês, mas o grego estava resoluto.
- Camus, vai conversar com seu filho, eu novamente falei demais e posso ter estragado tudo entre vocês, não me deixe com mais esse peso na consciência. – o loiro pediu num suspiro cansado e voltou a encarar os olhos do ruivo – Eu amo você, mas não quero ficar com você. Não assim, não dessa forma.
- Milo, não faz isso, podemos...
- Não, Camus! – interrompeu mais uma vez – Não podemos.
Saiu andando, deixando o francês totalmente perdido. O ruivo ficou parado mirando a moto deixar o estacionamento do prédio. Sua vontade era correr atrás daquele grego teimoso, mas sabia que agora precisava pensar em alguém ainda mais importante. Precisava falar com Hyoga.
-Uma chance para amar-
Shaka saiu do banho e se vestiu num roupão macio. Estava se sentindo exausto. Já conseguia enxergar razoavelmente, formas, nuances, mas sua visão permanecia meio embaçada. Queria trabalhar, sentia uma falta dolorosa de suas telas, há dias não entrava no ateliê e começava a se desesperar.
Percebeu que Ikki tentara por várias vezes fazer uma ligação no celular, mas não conseguia e se perguntou quem era a pessoa que ele tanto queria falar? Pensamentos ciumentos ocuparam sua mente lógica, e ele fez questão de afastá-los. Mente lógica, que piada! Nos últimos dias poderia classificar sua mente de qualquer coisa, menos de lógica.
- Algum problema? – indagou de forma indiferente,querendo deixar claro que não se importava tanto assim.
- Não consigo falar com meus tios. Estou preocupado. – respondeu o moreno guardando o celular no bolso e se aproximando do loiro. – Talvez eu precise que viajar...
- Hum... – Shaka mordeu o lábio inferior – Pode tirar alguns dias...
- Só irei quando você puder ver, loiro. – cortou, tomando a toalha das mãos do artista e começando a enxugar-lhe os cabelos.
- Eu já... quase, posso ver...
- Nem insiste. – negou Ikki, mas o indiano percebeu que ele estava profundamente preocupado.
- Acho melhor ir o quanto antes, família é importante. – tentou convencê-lo embora sua vontade fosse dizer: Não vá! Você não pode me deixar sozinho!
- Por isso proíbe a entrada do seu pai na sua casa? – Ikki indagou e sentiu o loiro estremecer e cerrar os punhos.
- Não estamos falando sobre meu pai. – devolveu seco – Estávamos falando sobre sua família.
O moreno se sentou na cama, ao lado do artista e deixou escapar um suspiro pesado antes de tocar-lhe o rosto bonito e o olhar nos olhos.
- Consegue me ver, loiro?
- Sim. – respondeu o encarando.
- Eu quero falar sobre seu pai. – o moreno falou calmo enquanto o polegar afagava a tez aveludada do indiano – Precisamos conversar sobre isso agora.
O artista esboçou um sorriso irônico e desdenhoso.
- Você é tão patético em sua prepotência, menino! – disse sarcástico – Quem o elegeu meu analista?
- Não adianta usar suas máscaras, Shaka, elas não funcionam comigo! – o estudante continuava sério, sem se abalar pelo desaforo do mais velho.
Shaka inspirou fundo, soltando o ar devagar.
- Ikki, eu gostaria de entender por que você insiste. Por que não vai embora e me deixa em paz? Não percebe que eu... – fechou os olhos – Eu não sou a pessoa que espera que eu seja, nunca serei. Você está fantasiando a meu respeito, achando que pode me ajudar, mas não pode e eu não preciso de ajuda. Preciso de paz e isolamento. Só isso.
Ikki continuou o encarando sério. Shaka também não desviou o olhar quando voltou a abrir os olhos.
- Bem, loiro, eu vou te dar dois motivos para isso, o primeiro é que eu me apaixonei por você enquanto o olhava dormir aqui mesmo nesse quarto, o segundo é porque sei que você também se apaixonou por mim em algum momento, embora eu não saiba em qual momento tenha sido e quero que você entenda que nada que disser me convencerá do contrário.
O loiro emudeceu os lábios e ergueu a mão tocando o rosto do moreno.
- Você é um idiota. – disse e puxou o rosto do mais jovem para perto do seu, o beijando.
-Uma chance-
Camus entrou no apartamento e mirou o loiro sentado no sofá com as mãos apoiando a cabeça. Fechou a porta sem tirar os olhos dele. Hyoga ergueu a cabeça com o barulho que a porta fez, o encarando com os olhos azuis brilhando de aflição.
- Resolveu as coisas com ele? – perguntou tentando fingir naturalidade.
- Não. – respondeu Camus sério, sem tirar os olhos do filho – Precisamos conversar.
A mente do russo estava tão confusa que ele não entendeu se Camus falava com ele ou de Milo.
- Ah, claro... – respondeu o que se encaixaria nas duas possibilidades.
O ruivo atravessou a grande sala, se aproximando do jovem loiro, mas não se sentou. Percebeu que o loiro tremia levemente.
- É verdade, Hyoga. – declarou.
O russo deixou um sorriso incrédulo escapar dos seus lábios.
- Do que está falando, Camus?
- Eu não queria que soubesse agora, queria esperar até seu amigo sair do hospital, até que as coisas estivessem mais tranqüilas. – explicou ignorando a pergunta – Desculpe-me...
Hyoga não sabia o que dizer, tremia e seus olhos marejavam, enquanto ele passava a mão nos cabelos os desalinhando.
- Eu... eu não estou entendendo, Camus! – foi quase um grito de desespero – Eu... eu estou confuso... O que você quer dizer com isso?
Camus mordeu o lábio inferior e fechou os olhos com força.
- Desculpe-me... Eu deveria ter contado há muito tempo, mas... eu tinha medo, medo que se contasse o Dimitri me afastasse de você, minha única possibilidade de vê-lo crescer, de lhe dar carinho e amor era me manter calado! – tentou explicar em desespero.
- Você sempre foi muito bom pra mim, Camus, e eu agradeço, eu... – encarou os olhos do ruivo – Mas... Eu não entendo como você pode mentir pra mim assim? Isso é uma piada não é? Deus! Não pode ser verdade!
Os olhos azuis de Camus se vidraram nos dele, e o francês repetiu o gesto de desalinhar os cabelos fartos. Nesse momento, no momento que Hyoga se deu conta de que aquele gesto pertencia aos dois, Camus não precisou confirmar mais nada.
O russo ergueu-se do sofá sob o olhar desesperado do pai.
- Hyoga...
- Eu preciso sair, preciso respirar... – disse áspero começando a caminhar para o quarto. Camus permaneceu estático no meio da sala. Viu quando o filho voltou vestido numa camiseta e numa jaqueta pesada.
- Eu sempre o amei, Hyoga... – disse incapaz de encarar o rapaz, sentindo as lágrimas quentes se apossarem dos seus olhos.
- Você mentiu pra mim. – devolveu o loiro com mágoa – Por 20 anos você mentiu pra mim!
- Desculpe-me... – balbuciou derrotado.
Hyoga acenou nervoso com a mão e saiu batendo a porta. Camus se deixou cair no sofá, respirando pesadamente, tentando não cair em lágrimas, mas não conseguiu. Ele também não era de ferro, primeiro a briga com Milo e agora a rejeição de Hyoga. Massageou as têmporas tentando achar uma saída, mas não via nenhuma. Depois pensou que não deveria ter deixado Hyoga sair, precisava ir atrás dele, entretanto, naquele momento, ele só conseguia pensar em Milo, pensar que precisava dele, dos seu abraço protetor para não desabar.
Ergueu-se disposto a tomar um banho e tentar dormir, se conseguisse.
"Calma, Camus, amanhã será um novo dia..." Pensou indo para o banheiro.
-Para amar-
A moto parou de frente ao portão da casa. Ainda era cedo, Seiya com certeza não tinha chegado. Milo desceu tirando o capacete e enxugando o rosto molhado de lágrimas, deu um murro na pequena cerca de madeira e tirou a chave, começando a caminhar pra dentro da casa, foi quando um carro negro parou próximo a sua moto e um homem alto, vestido muito elegantemente e terrivelmente belo desceu.
Milo arregalou os olhos e a brisa noturna brincou com os cabelos claros do outro Seferis.
- Olá, Milo. – o homem pareceu ler seus pensamentos, enquanto continuava a avançar.
O mais novo deu um passo pra trás, a sua expressão era de estarrecimento.
- Como me encontrou? – indagou olhando para os lados e se recriminando por ainda se sentir como um garotinho quando estava perto d e Dracon Seferis.
- Isso não importa, já o procuro há muito tempo. – respondeu o mais velho – Precisamos conversar.
- Não temos nada a conversar, me esquece! – gritou – Eu não sou mais o garotinho idiota que você conheceu!
O mais velho riu.
- Vai se fazer de vítima agora? Isso não se parece com você, meu anjo, entra nesse carro! – pediu com carinho.
Os olhos de Milo piscaram aturdidos.
- Você está louco! Eu não vou entrar! – gritou indignado com a audácia do ex-amante – Você sabe que não quero contato algum com você, Dracon!
- Precisamos conversar sobre seu pai, é importante. – insistiu o loiro mais velho.
Milo encarou o empresário nos olhos.
- Eu não quero saber. – declarou – Eu o deixei, deixei tudo que era relacionado aos Seferis e não vou voltar.
Dracon cruzou os braços e lançou um olhar irônico para a casa.
- Até quando você acha que conseguirá viver nessa espelunca, hein? – indagou – Andar nessa porcaria, vestir uniforme, Milo?
- Minha vida é muito mais digna e saudável agora do que quando eu era o filhinho do papai e a boneca do titio, Dracon. – retornou a ironia, mas se lembrar do passado era triste e, já fragilizado por tudo que envolvera Camus, o loiro mais jovem sentia-se fraco.
O loiro mais velho franziu as sobrancelhas. Até aquele momento não havia procurado o sobrinho e ex-amante por um único motivo: Aristóteles pedira que não o fizesse, o pai do garoto achara que cedo ou tarde, Milo não suportaria a vida miserável que levava e voltaria pra casa, mas 7 anos se passara e o escorpiano insistia em sua rebeldia, então, agora, levado por um incentivo peculiar e provocador, resolvera levar Milo de volta ao pai.
- Ridículo! – riu Dracon – Já acabou, Milo, todos já esqueceram. Só falta você perdoar.
- Vai pr'o inferno! – o loiro mais novo deu as costas ao tio, começando a entrar na casa, mas se surpreendeu ao ter o braço puxado com força, virou-se aturdido.
- Não chega perto de mim! – empurrou Dracon que deu um passo pra trás.
- Milo, eu só peço um minuto, um mísero minuto.
- É isso que quer pra me deixar em paz? – suspirou cansado.
- Sim, eu prometo.
O grego mais novo engoliu em seco e o tio sorriu.
- E então? Podemos conversar?
- Uma chance-
Ikki provava dos lábios do loiro enquanto o deitava delicadamente na cama, a língua entrando na cavidade úmida de forma delicada. Shaka cravou as unhas curtas na camisa azul que ele vestia, o forçando a permanecer perto de si, não queria que ele se afastasse, naquele momento não.
- Ikki... – murmurou fugindo dos lábios do moreno, finalmente caindo na realidade de que não deveria se entregar aos sentimentos agonizantes que experimentava.
O artista estranhava-se, afinal sexo sempre fora algo fácil pra ele, era seletivo, mas não inseguro, sempre tivera consciência de que era capaz de levar um homem ou uma mulher a beira da insanidade na cama e já tivera ambos, então por que com aquele garoto era diferente? Por que simplesmente não conseguia pensar em fazer sexo com ele, se ambos queriam?
- Do que você tem medo, Shaka?
Seus olhos azuis era como se fossem um livro aberto para o moreno, ele podia ver toda a dor e medo pulsando em cada veia do loiro.
O indiano se afastou um pouco, o empurrando de leve, mas Ikki segurou-lhe o pulso.
- Não deixarei que fuja dessa vez...
- Eu não fujo de nada, já disse... – revidou afastando a mão do moreno – Eu só não quero você na minha cama, só isso.
- Tem certeza? Juro que essa é a última vez que tento. – Ikki o encarou sério – Se disser agora que não me quer, nunca mais terá a chance de estar comigo, nem na cama, nem em outro lugar.
O loiro emudeceu e sua respiração acelerou.
- Estou acostumado com a solidão, Ikki. – volveu depois de um tempo – Não é fácil pra mim, vê-lo invadindo minha vida...
- Você me convidou para sua vida, lembra?
- Sim... eu sei e... não quero que saia...
Ikki sentiu o coração bater forte no peito, finalmente uma palavra positiva daquele arrogante.
- Eu não quero sair. – Ikki voltou a segurar a mão do artista – Quero só saber o que tanto o fere, que tal começar com aquela história do seu desaparecimento na infância? Algo me diz que alguma coisa grave aconteceu ali e essa é a origem de todo esse medo que sinto em você...
- Não é medo... – a voz de Shaka foi um fio - Por que quer saber essa história?
- Talvez porque você nunca tenha falado disso pra ninguém, quero ser o primeiro em alguma coisa. – respondeu descontraído.
O indiano não riu, o olhou mais profundamente. Não entendia o motivo, mas se sentia forte perto daquele garoto, forte o suficiente para consegui falar algo que estava enterrado há mais de 20 anos.
- Eu estava brincando.
A declaração foi seca, sem nenhuma emoção, e Ikki franziu as sobrancelhas sem entender.
- Isso mesmo, senhor Amamiya, eu estava brincando. – sua voz continuava fria e pausada – Ikki, eu... – suspiro pesado – Foi tudo uma brincadeira estúpida de um garoto de sete anos. Eu queria que me procurassem, fiquei escondido, não fui muito longe. Divertia-me ao ver a loucura dos empregados...Ai depois de algum tempo vieram os helicópteros e a polícia e eu... eu me apavorei, achei que seria punido, não sei o que pensei, só sei que fiquei com muito medo e corri pra dentro do bosque.
Ikki o olhava sério, percebia o esforço que o loiro fazia para revelar aquele passado, embora sua voz continuasse firme, seu corpo tremia levemente e ele cravava as unhas nos lençóis numa tentativa de se segurar em alguma coisa. O moreno continuou o encarando sério, num pedido mudo para que ele continuasse.
- Eu corri pra mata e minha mãe foi atrás de mim, ouvi sua voz e voltei correndo querendo encontrá-la, mas... ela caiu!
Nesse momento Shaka levou as mãos às têmporas, massageando-as com se sentisse uma forte dor de cabeça.
- Ela gritava e eu não fui capaz de ajudá-la, não conseguia achá-la, eu não sabia o que fazer então eu corri, corri e... desmaiei de exaustão. Só acordei dias depois numa cama de hospital e soube que minha mãe estava na UTI com várias fraturas. Por minha causa, ela quase morreu, por causa de uma brincadeira...
Os lábios do indiano tremeram e ele engoliu um soluço de angústia. Seus olhos adquiriram uma expressão perdida e dolorida, mas ele se recusou a chorar.
- Você era só uma criança, por que continua se martirizando desse jeito? – Ikki afagou-lhe a mão e Shaka direcionou o olhar pra ele.
- Porque fui o culpado! Minha mãe passou dois anos numa cadeira de rodas e até hoje... – Shaka se interrompeu. Sentia uma espécie de falta de ar e uma náusea sufocante. Puxou o ar com dificuldade para os pulmões, tentando conter a comoção, não queria chorar, evitara chorar durante tantos anos, por que Ikki o forçava a falar do que não queria?
- Loiro, você está bem? – o moreno perguntou preocupado.
- Não, não estou. – respirou fundo cerrando os olhos e sentindo o estômago revirar – Satisfeito?
- Se sentirá melhor agora...
- Pára com esses clichês, por Buda! – pediu fraco – Nada seria capaz de fazer com que me sinta melhor nessa história...
- Shaka...
- Eu... eu preciso... – ergueu-se da cama e foi para o banheiro batendo a porta com força. Apoiou-se na pia respirando fundo, tentando se concentrar para dominar os sentimentos gritantes dentro de si. Lavou o rosto, molhando a franja farta que caía sobre seus olhos, a afastando com mãos trêmulas. Mirou sua imagem embaçada no espelho por um longo tempo, quem era aquele homem fraco e patético que o encarava? Saiu minutos depois, encontrando Ikki no mesmo lugar. Encarou-o sem nada dizer. Caminhou para a cama e se sentou, soltando um suspiro pesado.
- Não é agradável falar sobre isso. – tentou manter a sua calma característica.
- Sente-se melhor?
- Não tente me manipular, garoto, você não tem idéia de quem sou quando aborrecido. – sua voz continuava calma, mas seu olhar faiscava.
Ikki sorriu de canto e, rápido, segurou os pulsos do loiro o jogando de costas na cama. Shaka entreabriu os lábios surpresos, mirando as safiras escuras que eram os olhos do mais jovem.
- Não quero manipular você, quero amar você.
A boca tomou posse dos lábios pequenos e levemente carnudos do artista. O loiro sentiu o corpo arder instantaneamente enquanto a língua quente do moreno vasculhava sua boca de forma abrasadora. O peso de Ikki o mantinha cativo e, vencido, ele entreabriu as pernas a procura de posição mais cômoda. O moreno encaixou-se entre as pernas grossas do indiano, ainda segurando seus pulsos ao lado do rosto, movendo-se sensualmente sobre ele, provocando a pele com a fricção lasciva. Shaka gemeu abafado pela boca possessiva do mais jovem, Ikki aprofundou ainda mais o beijo, sugando a língua mentolada do artista, sentindo as contrações dos seus músculos contra seu corpo que o esmagava, roubando o ar em aliança erótica com sua boca. Diminuiu a força em seus braços ao senti-lo relaxar, afastou os lábios, vendo Shaka lamber os seus frustrado.
- Deixe-me amá-lo, Shaka... – pediu olhando dentro do abismo azul.
O artista mordeu o lábios inferior, sentindo o desejo se derramar por cada poro, feroz, implacável, e sua ereção começar a despontar contra a coxa rija do mais novo.
Hesitou. Queria, queria muito, mas aceitá-lo seria levá-lo para sua vida, e o moreno não merecia aquilo, ele era um bom garoto, mas como resistir?
- Não posso...
- Você quer? – insistiu o mais novo.
- Quero, mas...
- Esqueça o mas!
Voltou a beijá-lo ainda mais intensamente. Shaka acolheu aquela boca gulosa de forma não menos faminta, sugando a língua do moreno, as mãos, agora libertas, se crispando em seus braços musculosos, o puxando pra si, possessivo, agressivo. Ikki envolveu sua cintura o obrigando a se sentar na cama, os corpos ainda colados, as bocas se separando minimamente enquanto o olhar queimava de desejo. Soltou o loiro, tratando de livra-lo da camisa, a arrancando por cima da sua cabeça, vendo os fios trigueiros bailarem sobre a pele de alabastro e espalhar aquele cheiro másculo de mate verde. Ficou um tempo o admirando e então subiu os dedos pelos ombros largos, passando pelo pescoço delgado, até alcançar-lhe a nuca onde se afundaram.
- Faz idéia do quanto é lindo? – indagou o moreno, a voz enrouquecida de desejo.
- Já me chamaram da tela perfeita, Ikki... – sussurrou o indiano também cheio de desejo – Mas e você menino? Sabe o quanto é bonito?
- Já não sou mais um menino... – murmurou começando a beijar a pele branca dos ombros do mais velho, lambendo de leve, sentido-a se arrepiar, tragando aquele sabor mais alucinógeno que o absinto. Deitou-o na cama, voltando a tragar da sua língua e lábios como se fosse uma fruta suculenta. Shaka abandonou-se, rendeu-se, entregou-se a Ikki, deixando que ele o livrasse de todo e qualquer tecido, e o mais jovem fazia isso como se estivesse num ritual de adoração, beijava e chupava cada parte daquela pele firme e macia ao mesmo tempo, sentindo corpo e coração doerem de amor e desejo, um desejo louco, sufocado por tanto tempo, calado, guardado, agredido. Agora estava ali, com aquele ser que fazia seu coração explodir de amor e que ele se obrigara, lutando ferozmente com seu orgulho, para não abandonar.
- Tira logo essa roupa... – exigiu Shaka afastando o leonino para poder desabotoar sua camisa, exibindo o peito forte ao encontro de suas mãos. O moreno aproveitou para se livrar de todas as peças, ficando também completamente nu sob o olhar extasiado do mais velho. Abraçaram-se com força, roçando-se um no outro, as cabeças girando, procurando o encaixe perfeito dos lábios. Ikki afastou os fios de ouro que cobriam o rosto do amado, para olha-lo, beija-lo, prova-lo mais e mais vezes, enquanto Shaka tateava seus músculos, descia pela curva se sua coluna o juntando mais a si, segurando-lhe as nádegas com força, fazendo Ikki gemer e libertar sua boca.
O leve arquear das costas do moreno lhe deu liberdade para lamber-lhe o pescoço, provar-lhe do sabor cítrico e salgado que era seu suor. Ikki afundou as mãos nos cabelos trigueiros, deixando que os lábios macios e quentes explorasse seu corpo, Shaka agora atacava seus mamilos endurecidos com língua e dentes, fazendo-o gemer mais alto e sentir o sexo pulsar e molhar-se de tesão. Tremeu inteiro quando o loiro deixou uma trilha de saliva em seu abdômen até lamber a ponta da glande, provando despudoradamente seu gosto, enfiando a língua no pequeno orifício, provocativamente.
- Deus, Shaka! – Ikki gritou apoiando as mãos pra trás, enquanto o loiro continuava com a exploração. Estava tão excitado que temeu terminar com tudo naquele momento. Usando toda sua força, puxou o indiano pelo queixo para que se afastasse do seu pênis. Shaka passou a língua nos lábios e permitiu-se ser beijado por Ikki, compartilhando com ele o próprio gosto. O loiro empurrou o moreno para a cama com o próprio corpo, ficando entre suas pernas e o olhando nos olhos. Ikki sorriu mordiscando os lábios dele e se movendo sensualmente, fazendo as ereções se tocarem e ambos gemerem.
- Sou eu quem vai amá-lo hoje, loiro...
- Sim, só dessa vez... – murmurou e deixou que o moreno invertesse as posições, o jogando sobre a cama. Ikki desceu os lábios pelo corpo dele, ouvindo seus gemidos a cada passada de sua língua, Shaka contorcia-se de leve sob os lençóis brancos e os apertava entre os dedos das mãos.
- Ah, Ikki, ahhhh! – gritou alto tirando as costas da cama quando o amante começou a suga-lo com força, sorvendo do pré-gozo que já saía abundante. Os dedos dos pés do loiro se contorceram de prazer enquanto o moreno continuava a felação derramando a saliva quente, aliada a língua e os lábios que estimulava-o até o beiral da insanidade. Fazia muito tempo que não estava com ninguém, mas não se lembrava de seu corpo reagir com tamanha loucura a nenhum amante, ele todo era uma massa convulsa e efervescente, seus olhos reviravam-se, seus dedos se contorciam de prazer e quando Ikki, sem parar de sugá-lo, introduziu um dedo dentro de si até o fundo tocando sua próstata, ele não suportou e explodiu em gozo, inundando a boca do mais jovem, que se afastou um pouco para não engasgar, mas engoliu tudo, lambendo os lábios. Shaka desabou na cama, a respiração acelerada ao máximo, tentava se acalmar, mas não conseguiu, porque Ikki continuou a explorá-lo, descendo os lábios por seus testículos , descendo a língua até chegar à área entre suas nádegas, lambendo, sugando e lambuzando tudo de saliva e sêmen. O loiro já começava a ficar excitado novamente. Ikki, porém, afastando-se um pouco e subiu para beija-lo com ardor, não dando a Shaka tempo de recuperar o fôlego. O artista sentiu o gosto do próprio gozo nos lábios do moreno e o abraçou com força. Shaka enlaçou o pescoço de Ikki com os braços, inclinando um pouco o pescoço para aprofundar o beijo. Ikki invadiu sua boca com a língua, acariciando a sua enquanto afagava seus cabelos. O gosto de sêmen se confundia no beijo e este se tornou cada vez mais urgente. O moreno perdeu o controle quando Shaka começou a se esfregar nele e gemer contra seus lábios, completamente excitado de novo, ele então se encaixou melhor entre suas pernas e segurando o próprio pênis foi procurando a entrada do outro, roçando-o entre as nádegas de Shaka. O indiano ondulou os quadris levemente para facilitar a penetração e o mais jovem foi se enfiando devagar, sentindo a
resistência involuntária do corpo do indiano começar a ser rompida quando atravessou o anel de couro. Shaka deixou escapar um gemido de dor e mordeu o lábio inferior para abafá-lo, rebolando um pouco, levando Ikki a um prazer imensurável com isso. Entrou inteiro nele, perdendo o controle momentaneamente e ouvindo um gemido alto de dor escapar dos lábios do artista.
- Te machuquei? – Ikki indagou beijando o rosto alvo do amado. Shaka negou com a cabeça e ondulou novamente o quadril e agora era Ikki que gemia... de prazer...
- Vem, Ikki... – sussurrou o loiro prendendo-lhe a cintura com as pernas, o forçando a entrar mais, fazendo-o ver estrelas. O moreno começou a entrar e sair dele, gradativamente aumentando a velocidade, ouvindo os gemidos entrecortados de Shaka que ondulava o quadril sensualmente, enquanto as pernas firmes o mantinha preso a si. O moreno gemia e se atirava dentro do corpo dele, tocando-o fundo, sentindo seu corpo se contorcer em resposta, abriu os olhos para encarar a expressão de êxtase no rosto do loiro; Shaka, sentindo seu olhar, abriu os olhos também. Dois pares de safiras se encontraram e não mais se separaram. Ikki o enlaçou pela cintura e se sentou na cama, levando o loiro para que cavalgasse em seu colo, ele o fez, subindo e descendo, rebolando, beijando o moreno de forma faminta, as bocas só se desgrudando pra gemer em meio ao calor e ao delírio. As mãos de Ikki se grudavam na cintura de Shaka, marcando-o, assim como as unhas do loiro faziam sulcos em suas costas e braços. O moreno cravou o dente no pescoço claro como um vampiro faminto, ouvindo o amante escapar dos seus lábios e gemer alto numa mistura de dor e prazer. Sabia que o estava marcando, mas não se importava, era loucura, era um tesão que nunca sentira antes e... era amor...
Shaka rebolava cada vez mais rápido e gemia de forma cada vez mais alucinada. Ikki o prendeu mais forte pelos quadris e se arremeteu com força dentro dele. O loiro arqueou o corpo pra trás e gozou pela segunda vez com um grito rouco, contraindo-se inteiro e fazendo o moreno gozar também dentro dele. Um orgasmo poderoso que deixou ambos sem capacidade de raciocínio e os transportaram as estrelas.
Ficaram um tempo sentados, abraçados, o rosto moreno repousando no peito alvo, os braços o apertando pelo meio possessivamente, como se isso o fizesse seu, sempre seu.
- Eu te amo...
O moreno abriu os olhos e sua respiração ofegante se suspendeu por alguns segundos ao escutar o mínimo sussurro que escapou dos lábios do loiro. Seu peito foi preenchido por um contentamento inédito e emocionante.
- Eu também te amo, meu anjo...Muito, muito...
-Para amar-
Milo estava sentado de frente a Dracon Seferis, seu tio, seu primeiro amante e o motivo pelo qual ele rompera com a família milionária. A mágoa ainda era grande e o mais jovem sabia que errara muito com Dracon também em sua imaturidade, mas agora era o momento de esquecer o passado e pensar apenas no que o tio tinha a lhe dizer. Quem sabe assim, ele sumisse novamente e deixasse que vivesse sua vida em paz.
- O que você quer afinal, Dracon? – indagou bebericando o uísque do seu copo – 7 anos e ninguém nunca sentiu saudades do filho pródigo que sou eu, por que agora?
- Milo, Saga e Kanon estão no Canadá e não pretendem voltar, Aristóteles está doente e alguém tem que tomar conta das empresas da família, seu pai não dura muito, Milo.
Aquela informação fez o estômago do mais jovem revirar. Apesar de tudo, amava aquele velho teimoso que era seu pai e a separação deles fora muito dolorosa, ainda era.
- O que quer que eu faça? Que volte e diga pra ele que esqueci tudo e que tudo está bem? – indagou o loiro mais jovem. – Por Zeus, Dracon, você não se lembra com quem está falando?
- Milo, quem errou com você fui eu e não ele. Entendo que esteja magoado, mas seu pai só quis preservar o nome da família e você fez questão de nos expor.
O mais jovem ruborizou com as palavras do tio.
- Você sabe por que fiz aquilo, eu queria sua ajuda, eu estava sozinho, nem meus irmãos me apoiaram. Eu bebi demais e falei demais, eu tinha apenas 19 anos o que esperavam de mim, um exemplo de sabedoria? – encarou o ex-amante com mágoa – Mas você poderia ter intervindo e não me acusado de mentiroso!
- O que queria que eu fizesse? – Dracon suspirou com amargura – Eu era um homem casado, recém-casado, por Zeus, Milo!
- Eu era um garoto! – irritou-se terminando o uísque e pedindo outro. Dracon percebeu que a mão do mais jovem tremia. Conhecia Milo muito bem, ele era forte, orgulhoso, e durante aqueles longos sete anos de distância, não achara que o encontraria tão diferente, tão... fragilizado? Será que aquilo se devia ao encontro com ele? Será que o coração de Milo ainda batia forte por si, como o seu batia por ele?
- Eu sei, eu fui um idiota, me perdoe.
Milo mirou os olhos do tio, percebeu que não tinha mais a mesma mágoa que cultivara durante 7 anos, mas também não tinha vontade alguma de voltar a conviver com nenhum dos Seferis.
- O que você quer de fato, Dracon?
- Que você aceite administrar a Seferis ao meu lado, esse é o desejo de Aristóteles. Sabemos que você se forma esse ano em economia, é o ideal para se tornar um executivo de sucesso.
- Eu vou pensar... – sussurrou terminando o uísque.
- Pense, mas pense sem mágoas, por favor. É uma chance para esquecermos todo o passado.
- Tentarei. – declarou o mais jovem se erguendo.
- Eu o levo pra casa. – disse o mais velho, e Milo assentiu com a cabeça. Já estava tarde e seria difícil achar um táxi.
Deixaram o restaurante e seguiram para a casa do Seferis mais jovem. A cabeça do estudante dava voltas com tantas informações e emoções vividas naquela noite. Dracon,vez por outra, olhava o sobrinho enquanto dirigia. Não negava o efeito que aquele menino bonito ainda tinha sobre si, na verdade, nunca conseguira esquecê-lo, mesmo tendo vários outros amantes, algo que era apenas um refúgio do seu casamento de fachada.
Não estavam muito longe, chegaram rápido. Milo desceu do carro e ele também.
- Quando posso esperar sua ligação? – perguntou o mais velho.
- Não sei, ainda tenho que pensar muito e hoje estou sem condições de pensar em nada, Dracon.
O loiro mais velho encarou os olhos esverdeados do sobrinho. Milo engoliu em seco, sempre estremecia ao receber aquele olhar. Dracon Seferis era o irmão mais novo do seu pai, deveria está entre os 38 e 40 anos, era pouco mais alto que Milo, pouco mais magro também, mas seu rosto lembrava em muitas coisas o rosto do sobrinho, contudo, era ainda mais másculo, um queixo forte, quadrado, os lábios finos e bem desenhados, nariz aristocrático como o de Milo, mas menos arrebitado e arrogante, os olhos amendoados eram de um verde musgo, profundo e belo. O escorpiano percebeu que ele não mudara muito nos últimos sete anos, ainda era um homem bonito e sensual.
Baixou o olhar, envergonhado pelos pensamentos idiotas e os sentimentos que ainda nutria por aquele homem. Dracon percebendo seu desconforto, passou as mãos cuidadas nos cabelos curtos e ondulados.
- Esperarei então. – disse, mas ao invés de se afastar, segurou o queixo do sobrinho e o beijou. Milo sentiu as pernas bambearem, mas teve forças suficiente para espalmar uma das mãos no peito do mais velho e o afastar.
- Por favor, Dracon... – pediu num sussurro.
- Eu sei que ainda me quer... – falou a voz terrivelmente sensual do Seferis mais velho.
- Não, eu estou... – engoliu em seco. Seria muito infantilidade dizer que estava apaixonado por outra pessoa – Eu não quero.
Dracon suspirou profundamente, soltando o ar pela boca.
- Tudo bem, eu espero.
O loiro mais jovem não soube se a resposta do tio tinha ou não duplo sentido. Mas preferiu não pensar, aquela não era uma boa noite para isso.
Dracon entrou no carro e foi embora. O loiro mais novo respirou fundo e abriu o portão da casa, andando enquanto olhava para os próprios pés. Subiu a pequena escada ainda envoltos em seus pensamentos...
- Não pensei que acharia "um ombro amigo" tão rápido e um ombro amigo bem caro pelo que parece.
A voz grave e fria o fez estremecer. Olhou para o lado com olhos arregalados, nunca imaginara que aquilo fosse possível.
- Camus... o que faz aqui? – indagou sentindo o estômago revirar.
- Você achou que eu aceitaria o que me disse passivamente? – indagou o ruivo. Na escuridão seus olhos índigos brilhavam ameaçadoramente.
- Eu só... eu só achei...
- Cale-se, Milo. Eu não quero saber o que você achou, já deu pra ver o quanto ficou triste com nosso rompimento. – disse o mais velho com desprezo.
- Não é nada disso...
– Cale-se. – ordenou áspero se aproximando até ter seus lábios roçando os do loiro - Não preciso de suas explicações, preciso do seu corpo... só dele, agora...
E sem aviso, o francês segurou-lhe o pulso e o puxou, beijando-o com fúria.
Continua...
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Obrigada de coração pelo carinho de vocês. Fanfiction na reta final. Aproveito para propor aos meus queridos leitores do FF que visitem o Nyah fanfiction que já tenho muita coisa nova postada lá, infelizmente, os meus dias de FF estão chegando ao fim, mas adorei a companhia de cada um de vocês nessa minha jornada.
Beijos afetuosos!
Sion Neblina
