Cativar, criar laços

Capítulo 16

Cale-se. – Ordenou áspero se aproximando até ter seus lábios roçando os do loiro - Não preciso de suas explicações, preciso do seu corpo... só dele, agora...

E sem aviso, o francês segurou-lhe o pulso e o puxou, beijando-o com fúria.

Milo sentiu a boca exigente e rude tomar posse da sua, forçando a língua para invadi-la. Usou toda sua força e empurrou Camus, quase o desequilibrando; o encarou, os olhos do ruivo brilhavam de fúria e mágoa.

- Por isso estava tão disposto a me tirar de sua vida? – Indagou tentando demonstrar frieza, mas o loiro percebeu que sua voz tremia levemente.

- É isso que pensa? – Replicou Milo exasperado e passou as mãos nos cabelos fartos – Por Zeus, Camus, eu não tenho nenhuma condição de brigar com você agora e nem de servir de consolo físico para suas dores. Sei que lhe fiz muito mal, mas pra tudo tem limites, vá embora!

O ruivo suspirou pesadamente e encolheu os ombros. O que estava fazendo? Por que estava ali se humilhando por alguém que não o queria?

- Desculpe-me, Milo. – Pediu – Eu não tinha esse direito. Perdoe-me pelo que falei. Você sabe que é muito mais que... que apenas um corpo pra mim...

- Como posso saber, Camus? Você nunca me disse. – Murmurou o loiro tristemente – Minha vida inteira foi assim; sempre me pareceu que sou um peso e que só faço mal às pessoas... Minha família me tratava assim, eu era o diferente, o estranho! – Riu amargo – Meus irmãos eram os perfeitos, eu era o errado porque o mundo dos ricos e poderosos nunca me atraiu! Eu preferia as ruas, o sol, à boemia, à noite. Eu nunca fiz acepção de pessoas e isso no mundo de onde vim é errado. Sempre tentei dar amor às pessoas, meus pais não gostavam disso, achavam que eu era amável demais com os empregados, com o atendente da padaria, em fim, com " a gentalha" como eles gostavam de chamar... — Milo disse tudo isso num fôlego e depois suspirou pesadamente como se se recuperasse do desabafo – Eu não suportei isso e... eu não vou suportar agora, Camus, nunca mais viverei uma vida humilhante, colhendo migalhas, me prometi isso...

Camus sentiu um nó na garganta percebendo a dor que aquele jovem carregava.

- Milo...

- O que sou pra você, Camus? – Interrompeu olhando o ruivo de forma contundente – Me diz, por favor, eu preciso saber...

- Eu não sou bom em falar...

- Porra! Fala, Camus!Mesmo que seja pra dizer que não sente nada além de carinho e amizade, mesmo que seja pra dizer que me acha um vadio, mas me diz o que você pensa! – Exasperou-se o grego.

Camus baixou o olhar.

- Eu... eu sinto muito.

As lágrimas que já ocupavam os olhos verdes de Milo se derramaram.

- Vai embora. – Pediu num murmúrio dolorido e tentou colocar a chave na fechadura, mas sua mão tremia muito.

- Milo, eu... – Angústia profunda – Eu só precisava dizer que... que sinto sua falta, que preciso de você...

O loiro apoiou a cabeça na madeira da porta, estava de costas para o ruivo e não conseguia ver suas lágrimas.

- Só que eu preciso de mais, Camus! Muito mais que ser um simples consolo para sua carência!

- Não é isso que você é pra mim! Desculpe-me, mas não consigo! – Volveu o francês desesperado – Eu te amo, mas não consigo dizer! A única pessoa que amei antes foi a Natássia e acho que sua morte me deixou com essa marca, essa impossibilidade de expor meus sentimentos por mais profundos que eles sejam! Eu sei que faço as pessoas sofrerem com isso, mas é mais forte do que eu...

Milo se virou o encarando aturdido.

- Camus... – Murmurou, mas logo foi interrompido pelo francês.

- Por favor, Milo, não me deixe, eu...

- Camus! – Milo gritou, finalmente conseguindo interromper o discurso frenético do ruivo que o mirou de forma desesperada.

O loiro se recostou na porta ainda fechada e encarou o executivo com um sorriso emocionado. Camus, que tinha a respiração um pouco ofegante, ergueu uma sobrancelha sem entender aquela estranha mudança de comportamento.

- Você falou. – Explicou o grego sorrindo.

- Falei o quê? – perguntou confuso.

- Que me ama. – Tornou o loiro ainda sorrindo, sentindo uma lágrima quente escorrer por seu rosto ao ver o estarrecimento no rosto do mais velho – Tudo bem, eu também te amo.

Camus continuava confuso, parado a uma pequena distância de Milo. O grego estendeu o braço o convidando; o francês caminhou até ele. Abraçaram-se com força, fechando os olhos e aspirando o perfume um do outro.

- Vamos entrar... – Sussurrou Milo próximo ao seu ouvido, causando-lhe arrepios.

O ruivo ergueu a cabeça pra encará-lo, vendo o brilho do amor e do desejo encrustar-se naquele par de esmeraldas. Roçou seus lábios nos dele, sentindo-o sorrir e deslizar a língua pelos seus, numa ternura erótica que atiçou todos seus poros a querê-lo...

Com uma mão na cintura de Camus, Milo empurrou a porta a abrindo, o puxando de costas para dentro da casa escurecida. Acendeu uma luminária e caiu sobre o sofá negro, levando Camus consigo. Tomou-lhe a boca sensualmente, fazendo o ruivo ofegar por antecipação. Precisava tanto de Milo, precisava dele como nunca precisou de ninguém, mas não só o seu corpo, como falara no momento da raiva, mas da sua voz, do seu cheiro, do seu olhar doce e malicioso, das suas palavras contundentes e divertidas. O amava! Zeus! Como conseguira ser tão cego pra não ver isso antes?

Deslizou a língua, acariciando a do loiro que se ajeitou melhor sob o peso do corpo do francês e começou a desabotoar pacientemente a camisa negra que Camus vestia, logo deslizando a mão por dentro dela e apertando um dos seus mamilos, fazendo o corpo do ruivo se arrepiar inteiro. Afastou a peça, desnudando o ombro branco e se ergueu um pouco para mordê-lo, subindo os lábios pelo pescoço sensível, vendo o mais velho jogá-lo para o lado, pedindo mais carícias que o loiro prontamente atendeu, deslizando a língua por toda a pele, até chegar novamente aos lábios molhados que tomou com ânsia.

Camus se ajeitou melhor sobre ele, abrindo mais as pernas e sentando em seu colo. O grego o abraçou com força pela cintura, deixando seus corpos colados, enquanto mordia sensualmente o queixo do executivo e o lambia, o devorava com uma fome infernal. O calor dos corpos chegava ao limite do insuportável, era como se eles entrassem em ebulição, efervescendo a cada passada de mãos, a cada carícia de dedos, a cada dançar de línguas. Camus não suportava mais a barreira das roupas e se afoitou a libertar Milo das vestes, arrebentando alguns botões da sua camisa, livrando o peito definido para seus toques sensuais e precisos. O loiro jogou a cabeça pra trás, entregando-se aos lábios do ruivo que mordiscou-lhe os mamilos, curvando-se sobre ele de forma que seus cabelos compridos roçassem no peito definido e moreno enquanto língua e dentes provavam-no sem trégua.

O mais jovem começou a livrar o ruivo também da camisa, rápido, afoito, os lábios devorando-se, intenso, louco; as línguas numa batalha erótica sem precedentes. Camus começou a lamber-lhe a orelha, fazendo o grego tremer inteiro. Afastou-se se levantando e puxando Milo pela mão, para que ele também se levantasse. Ficaram de pé, frente a frente; os dorsos nus, os olhos se mirando com luxúria. O ruivo escorregou os dedos pelo abdômen do loiro até chegar aos botões da calça a qual abriu, baixando-a junto com a cueca, desnudando o membro rijo. Milo quase gozou só com a forma sensual que Camus se ajoelhou e começou a lambê-lo, fazendo seu corpo inteiro vibrar e suas pernas virarem gelatina.

- Ah... Camus, assim... – Gemeu – Eu não agüento... Ah... ficar em pé...

O loiro falou enquanto o ruivo continuava lambendo o mordiscando seu membro, fazendo-o estremecer inteiro e soltar gemidos entrecortados. Camus não lhe deu atenção, continuou a lamber, sugar de leve, provocá-lo até a loucura. O ruivo mordiscava bem levemente e passava a língua de forma lenta, fazendo-o tremer inteiro. Não demorou muito para que ele estivesse chupando com sofreguidão e Milo gemendo sem parar, se atirando contra ele, o pescoço arqueado pra trás, os olhos cerrados. Sem que o ruivo esperasse, o loiro se afastou; Camus olhou pra ele, ainda de joelhos, e o que viu naquele olhar predatório quase o fez gozar. Milo o puxou delicadamente pelos cabelos, para que ele se erguesse, e tomou-lhe a boca, chupando sua língua com força e sensualidade. O francês sentiu o corpo lânguido e o abraçou. Milo o ergueu nos braços, segurando-o pelas coxas, sentando Camus numa bancada de canto. O francês o puxou pra si enlaçando as pernas em seu quadril, roçando-se no corpo forte do grego, lhe sussurrando palavras doces e obscenas. O mais jovem sorriu e o carregou novamente, agora fazendo o percurso até o quarto. Jogou Camus na cama, admirando por alguns instantes a visão do seu corpo largado e seus cabelos rubros em contraste com os lençóis brancos.

- Tira essa calça, cher... – murmurou o loiro, fazendo um sorriso de pura lasciva dançar nos lábios finos do executivo.

Camus obedeceu, abrindo a calça bem devagar e movendo um pouco o quadril para descê-la até o meio das coxas musculosas e impecáveis. Milo lambeu os lábios e foi se aproximando bem devagar, como um felino; ajoelhou-se entre as pernas do francês e ensaiou uma lambida na parte interna de sua coxa, fazendo-o estremecer e cerrar os olhos. Subiu um pouco e mordiscou de leve o sexo ainda preso na cueca boxer branca que o ruivo usava. Camus sentiu-se como uma marionete sem cordas ao dispor da sensualidade daquele grego maravilhoso que passava agora a língua, sentindo o gosto do líquido que saía e ensopava a cueca antes impecável. Num movimento rápido, Milo o virou de bruços, livrando-o de toda a roupa, enquanto com a outra mão terminava de abrir a própria calça...

O loiro soltou um resmungo e rapidamente se inclinou sobre Camus, alcançando a banca ao lado da cama, pegando algo. Camus sentiu todos seus pelos se ouriçarem quando ele molhou o dedo no lubrificante e, erguendo um pouco, seu quadril o penetrou.

- Ah... Milo...! – Camus gritou de tesão, sentindo um leve incomodo, mas indo as estrelas com a carícia daquele dedo ousado em parte tão íntima. Milo se inclinou sobre ele e mordeu-lhe a orelha, sussurrando, fazendo se arrepiar inteiro:

- Já faz um tempinho... Não quero machucá-lo, meu demônio ruivo...

O executivo apertava o lábio inferior com os dentes, tentando conter os gemidos que imploravam para se libertar. Milo não tinha pressa, girava o dedo devagar, massageando, alargando, forçando o ruivo a rebolar inconscientemente. Colocou o segundo dedo e sorriu ao ver as costas de Camus arquearem na cama e seus dedos se crisparem como garras.

- Milo... Ah, por favor... – pediu o francês suado, descabelado, louco de tesão até a exaustão, até a dor... Contudo, o grego sádico continuou a enfiar os dedos dentro dele, tocando-o fundo, enquanto uma das mãos afagava levemente sua cintura. Camus já perdera toda a noção de pudor, era um animal instintivo em busca de prazer. Nunca se entregara daquela forma a ninguém, nem mesmo a Milo; em todas as outras vezes que fizeram sexo, ele sempre mantivera o controle, mas agora pouco se importava, ele o queria todo, o queria inteiro em si, corpo e alma. Sentiu o grego retirar os dedos de si e o virar de volta, olhando para o seu rosto com adoração; nunca se sentiu tão bonito como ao receber aquele olhar.

- Hoje quero amar você... – Sussurrou de forma doce e ergueu suas pernas, colocando-as no pescoço. O penetrou em seguida por inteiro, fazendo-o gemer alto com o misto de dor e prazer. O loiro começou a arremeter-se dentro dele com estocadas rápidas e intensas, enquanto o estimulava na mesma intensidade. Passaram um tempo se encarando; as pupilas dilatadas brilhando intensamente, escurecidas de desejo, até que o prazer foi tão forte que foram transportados para um mundo à parte. Fecharam os olhos, se entregando. O ritmo aumentou, mais sons escapavam dos seus lábios e também dos corpos que se chocavam. Logo o mundo ao redor perdeu a consistência, Camus mirou os olhos de Milo, floresta de esmeralda, e tudo se desvaneceu. Milo gritou e arqueou-se pra trás; o mundo parou naquele instante em que experimentavam ao mesmo tempo o prazer supremo que os estilhaçavam.

- Uma chance para amar-

Hyoga apagou o cigarro com o pé. Já era o quinto que fumava enquanto aguardava para ver Shun. Tivera que jogar charme pra uma enfermeira até conseguir isso, afinal, já passava da meia noite. Agora aguardava que ela o levasse até o garoto.

Não demorou muito, a garota sorridente fez um sinal para que a seguisse. Hyoga estranhou ir à outra sala, propriamente, uma que ficava em frente à enfermaria.

- Seu amigo logo virá, é melhor não entrar na enfermaria, logo a outra enfermeira chega e não vai gostar de vê-lo.

- Certo.

O russo entrou no local que percebeu ser um consultório médico. Minutos depois, Shun entrou com cara de sono, segurando uma espécie de roupão sobre o corpo.

- Hyoga, aconteceu alguma coisa?

- Você já pode ficar de pé, Shun? – indagou preocupado, pegando o braço do garoto e o levando para um pequeno sofá no canto da sala.

- Posso sim, Hyoga, receberei alta logo. Estou mesmo é preocupado com você. – Shun tocou o rosto do loiro e mirou seus olhos angustiados – O que aconteceu?

Hyoga passou as mãos nos cabelos e então relatou tudo que havia descobrindo ao mais novo que se mostrou realmente surpreso.

- Então o Camus é seu pai?

- Parece que sim... – Murmurou o russo – Ele mentiu pra mim a vida inteira, Shun, a única pessoa que confiei na vida, me enganou a vida toda!

Shun mordeu o lábio inferior e mirou o amado, confuso.

- Hyoga, você nunca se deu bem com o... com o seu outro pai, não é?

- A única coisa boa nessa história, Shun, é saber que o sangue do Dimitri não corre em minhas veias. – Confessou cansado.

- Você sempre me disse que amava o Camus como a um pai...

- Sim, amava! Por isso... – Suspirou pesadamente. Já havia chorado e se revoltado de todas as formas. Não queria levar mais problemas à Shun e, por isso tentava se mostrar calmo, mas estava sendo difícil. Seus olhos lacrimejavam como se tivessem vida própria, e ele lutava para não cair em prantos – Ele não poderia ter me enganado assim...

- Você já parou pra pensar que talvez ele não tivesse escolha?

Os olhos azuis se voltaram para os verdes.

- Sempre temos uma escolha, Shun, e se ele não foi capaz de fazer a dele é porque é um fraco!

- Não seja arrogante. – Volveu Shun decepcionado – Você mesmo, quanto tempo passou seguindo as ordens do Dimitri com medo de enfrentar à vida sozinho? Não é só você quem sente medo, Hyoga, não é só você quem sofre. Pense um pouco em seu amigo, seu pai, o quanto ele deve ter sofrido por todos esses anos...

- Isso não justifica...

- Não justifica? – Shun indagou incrédulo – Hyoga, você está perdendo a oportunidade de abraçar, de amar um pai que o ama, só por que ele não fez o que você julga certo? Desde quando a vida tem que ser perfeita? Desde quando as pessoas têm que ser exatamente como nós queremos? A grande beleza da vida, amor, é aceitar as diferenças das pessoas e amá-las por isso, pois são essas diferenças que faz cada um de nós especial.

- Shun, eu não o estou julgando pelas suas atitudes, eu só acho que ele deveria ter me dito a verdade! Quantas vezes ele me viu sofrendo, acuado pelas exigências do Dimitri e ele nunca fez nada!

- Claro que ele fez! Você me disse que por várias vezes ele o defendeu, ele ficou ao seu lado. Será que na verdade você não queria apenas que ele o defendesse da forma que você julgava certa?

O loiro sentiu um aperto no peito com as palavras do amado. Estaria sendo injusto? Sentiu-se tão pequeno, tão miserável que não conseguia pensar direito.

- Nós não podemos viver eternamente como vítimas do mundo, Hyoga. – Continuou Shun – Está na hora de você assumir que a responsabilidade pelas coisas boas ou ruins que acontecem em sua vida é sua. Seremos sempre responsáveis por aquilo que cativamos...

- O pequeno príncipe! – Sorriu o loiro deixando uma lágrima rolar por seu rosto. Shun sorriu e a enxugou com sua mão pálida.

- É. – Murmurou e um sorriso sapeca se desenhou em seu rosto – Hyoga, vamos fazer uma loucura?

- O que, Shun?

- Me tira daqui...

O loiro o encarou aturdido e negou com a cabeça.

- Não, eu estaria pondo sua vida em risco, eu não sou louco...

- Eu já não corro nenhum perigo...

- Claro que corre, o médico disse que você perdeu muito sangue e está fraco, que precisará de uma dieta especial e...

Os dedos de Shun cobriram os lábios de Hyoga.

- Se precisar eu volto, mas não agüento mais esse hospital, por favor...

Hyoga mirou aqueles olhos brilhantes e suplicantes.

- Eu acabarei preso. – Murmurou ainda em dúvida.

- Estão todos dormindo. – Insistiu Shun – Vamos, eu preciso ver o mar.

Hyoga cedeu. O hospital estava silencioso àquela hora da madrugada. O vigia dormia na recepção.

O loiro envolveu o paciente com sua jaqueta, e eles saíram pela porta da frente sem serem incomodados. Mas logo o russo percebeu que ventava frio, e Shun estava descalço com os pálidos pés indefesos.

- Não tem problema, logo chegaremos à praia e a areia é macia. – sorriu o mais novo adivinhando os pensamentos do mais velho. O russo ficou perdido em seu sorriso enquanto o vento noturno sacudia os cabelos castanhos.

- Posso pegá-lo nos braços. – Sorriu de volta.

- Não precisa. – Riu Shun – Só me abrace.

O loiro obedeceu, passou o braço pelos ombros do menor, e caminharam calmamente em direção a praia.

-Uma chance-

A lua entrava pela janela, banhando os corpos nus envoltos nos lençóis de seda brancos. Ikki estava sentado, recostado nos travesseiros e brincava de desenhar figuras imaginárias nas costas de Shaka que tinha a cabeça em seu colo, os fios trigueiros espalhados de forma mística sobre eles. Ambos estavam em silêncio, um gostoso silêncio, mas tão profundo que o moreno temeu que o loiro tivesse adormecido.

- Acordado ainda, loiro? – Indagou num sussurro.

- Estou.

- Está tão quieto...

- Estou aspirando a paz... sentindo você... – Sussurrou Shaka de volta.

O moreno sorriu de leve, afundando a mão nos espessos fios de ouro, numa carícia singela, assim como o vento que entrava no quarto escuro, afagava sua pele.

- Quem bom... – Murmurou – Então significa que não vai me deixar?

- Não, Ikki, não vou...

- Quero lhe trazer muita paz, loiro... – Inclinou-se e beijou-lhe os cabelos.

- Obrigado...

- Eu te amo.

- Também te amo...

- Para amar-

Camus repousava no peito de Milo que sentia os cabelos lisos fazendo cócegas em seu pescoço.

- Quem é ele, Milo? – Perguntou não escondendo o ciúme.

- Meu tio, Dracon Seferis... – Murmurou o grego – Sim, eu menti quando me perguntou sobre Aristóteles Seferis, ele é meu pai. Pertenço a poderosa família Seferis.

- Por que mentiu?

- Porque fugi deles e resolvi apagá-los da minha vida. – explicou Milo num suspiro – Fui amante de Dracon desde meus 16 anos...

- Por que fugiu?

Milo engoliu amargo.

- Porque quase fui responsável por uma tragédia...

Camus se virou na cama para olhá-lo melhor e viu muita dor nos olhos do loiro. Afagou-lhe o rosto para lhe dar confiança.

- Quer falar?

- Você deve ter visto nos jornais da época, o acidente sofrido por Suzane, a esposa de Dracon. Fui eu quem o causou...

Camus arregalou os olhos.

- Não, eu não tentei matá-la, Camus. – Explicou – Eu só... eu só queria que ela nos visse juntos e o deixasse. Convidei Dracon pra passar o final de semana comigo na casa de campo e armei o flagrante... Fui tolo! Achei que dessa forma conseguiria ficar com ele, mas o que consegui foi ferir uma pessoa inocente. A Suzane ficou tão desesperada que acabou batendo o carro, mas não foi nada grave, o problema foi que... – O loiro respirou fundo – Ela tentou acabar com a vida do Dracon, ameaçou ir a imprensa contar tudo, foi um escândalo! Quando meu pai soube ficou desolado, praticamente me colocou contra a parede para saber a verdade; eu estava sozinho, apavorado, meus irmãos mais velhos chegaram a me agredir, eu não sabia o que fazer e então...

Uma lágrima desceu pelo rosto de Milo e ele ruborizou de vergonha.

- Eu menti. Eu disse que o Dracon me forçava, que aquilo já acontecia há muito tempo, mas que eu não tinha forças para lutar, tudo mentira! Eu queria apenas que me deixassem em paz. Não me orgulho do que fiz, Camus, mas o desespero foi maior, eu só queria fugir, fugir daquela dor e humilhação.

- E o que eles fizeram?

Milo respirou fundo.

- O Dracon negou, disse que nunca nem se quer me tocou e que eu estava inventando aquelas coisas. Convenceu a esposa de que eu preparei uma armadilha para que ela pensasse aquilo, mas que nunca houve nada entre nós. Todos acreditaram nele ou fingiram acreditar. Então tempos depois houve uma festa em minha casa. Eu bebi muito, muito mesmo, e gritei pra toda nata da sociedade grega a verdade... Isso acabou comigo, mas eu fiz, mesmo morrendo de vergonha depois.

Camus o puxou pra si e o abraçou forte beijando-lhe os cabelos com carinho.

- Você era tão jovem, mon ange, e, se quer saber a verdade, se fossemos levar o caso pela ótica legal, Dracon poderia ser preso. Mesmo com seu consentimento, você ainda teria apenas 16 anos, não acho que estivesse apto a decidir algo do tipo. Não entendo muito de lei, mas acho que algo do tipo poderia ser levado em consideração.

- Sim, eu não sei, mas não me culpo por nada disso. No máximo fui imaturo, nunca tive crise de consciência por causa do que fiz, me arrependi algumas vezes, na verdade me arrependi durante muito tempo, depois resolvi superar, esquecer, passar uma borracha mesmo em tudo que vivi. Mas confesso que tomei pavor a esse meio podre ao qual pertenço. Acredita que meu pai pensou até em me internar? Ele disse que seria apenas para dar uma satisfação a imprensa que justificasse meu comportamento, mas eu sabia que não era, então, arrumei minhas poucas coisas e fugi. – Sorriu com melancolia – Isso já faz 7 anos.

- Por que ele veio atrás de você agora?

- Ele disse que meu pai está morrendo e que precisa da minha ajuda nos negócios, mas eu não sei, estou confuso...

- Você ainda sente algo por ele, não é? – A voz calma e fria do ruivo permaneceu igual. Milo olhou em seus olhos.

- Camus, eu não posso mentir pra você, Dracon ainda mexe comigo de uma forma estranha. Mas eu sei que amo você de uma forma que nunca o amei.

- Não estou duvidando disso, Mi...

Camus afagou o rosto do grego com carinho, e Milo sorriu.

- Repete isso...

- O que?

- Como você me chamou, ninguém nunca me chamou assim...

- Mi?

- Sim! – Riu gostosamente abraçando o ruivo com força e rolando sobre ele. Camus acabou rindo também o que era raro.

- Eu acho um apelido bem óbvio. – Disse se afastando com delicadeza e se sentando na cama – Preciso ir.

- Dorme aqui comigo hoje.

- Tenho que estar em casa quando o Hyoga voltar. – Explicou e mirou os olhos desapontados do grego – Mas que tal vir comigo?

- Não, eu... eu tenho que trabalhar cedo amanhã...

- Eu o levo no trabalho. – Cortou Camus que entendia muito bem que Milo não queria ser invasivo – Por favor, eu preciso muito de você, Milo.

- Tudo bem, vou me vestir. – O loiro pulou da cama, terrivelmente feliz.

Minutos depois, eles deixavam a casa.

-Uma chance-

Shaka acordou cedo como sempre. Banhou-se e se vestiu em uma camiseta azul clara e uma calça jeans surrada onde se via várias manchas de tinta de várias cores. Antes de sair do quarto, observou Ikki dormindo, esparramado na enorme cama. Sorriu e desceu as escadas para seu ateliê. Analisava que fora totalmente vencido pela insistência do rapaz. Colocou a tela no cavalete. Sua visão ainda estava meio nublada, mas já enxergava quase 90%. Começou a misturar os materiais para criar a tinta, naquele dia queria um tom de azul que fosse único. Colocou a máscara, afinal, ele trabalharia com potentes produtos químicos. Estava despejando óleo de linhaça num recipiente, quando sentiu-se abraçado pela cintura por mãos fortes. Resmungou algo por baixo da máscara, mas sorriu. Ikki já estava banhado, cheiroso e vestido, ele se virou pra ele, tirando a máscara do rosto.

- Bom dia. – Disse o moreno ainda com voz rouca pelo sono.

- Bom dia, Ikki, dormiu bem? – Indagou ainda sorrindo.

O moreno ergueu uma sobrancelha.

- O que você acha? – Provocou.

- Bem, acho que você deve estar se sentindo como alguém que acordou ao lado de um deus, então deve estar lisonjeado, agradecendo por ser tão privilegiado e...

- Ora, seu metido... – Resmungou o puxando pra si e o beijando. Shaka sorveu o beijo e logo Ikki se afastou com delicadeza – Trouxe seu café – caminhou para perto de uma banqueta e pegou uma caneca e um pequeno injetor de insulina -, e seu remédio.

Shaka revirou os olhos.

- O café eu aceito. – Tomou a caneca da mão do moreno – O remédio fica pra depois...

- Nem pensar, loiro. – Falou o moreno e fez uma contagem mental – Já se passaram mais de quatro horas desde a última aplicação e agora, com essa canetinha aqui, você não precisa se preocupar. Acabaram-se as agulhas!

Shaka mirou a caneta injetora que Mu havia lhe enviado uma SQ-Pen que era um injetor de insulina sem agulha, fabricado na Holanda; um aparelho que liberava a insulina no tecido subcutâneo graças a uma poderosa mola que a injetava através de um bocal especialmente desenhado.

Mirou a tal caneta e depois o moreno.

- Você está insinuando que tenho medo de injeção é isso?

Ikki riu gostosamente e se aproximou do loiro.

- Não é nada disso, vem... – O puxou por um dos braços e depois ergueu a camiseta que ele vestia, pressionando o aparelho. Shaka fez uma leve careta de dor e logo ele se afastou. – Pronto. Agora precisarei sair, mas não demoro.

- Certo.

- Irei à faculdade e depois passarei na Cignus, provavelmente só estarei aqui no final da tarde, tudo bem?

- Tudo bem. Acho que sobrevivi 28 anos sem você. – Falou o loiro com ironia.

Ikki não replicou, o beijou novamente e saiu. Shaka recolocou a máscara e voltou para a confecção da sua tinta.

- Para amar-

A Cignus estava bastante movimentada naquela manhã. Shiryu chegara cedo, afinal tinha muito que fazer depois de ter faltado no dia anterior. Seiya deixara sua casa à noite e, embora houvesse apenas algumas horas, sentia uma saudade grande do rapaz e uma inquietação por não saber que atitude ele tomaria afinal. Tentou se concentrar no trabalho, mas o clima tenso não ajudava muito. Todos pareciam nervosos, embora ainda não soubesse o motivo.

Resolveu ir a sala de Shura para saber o motivo de toda aquela movimentação. Bateu na porta e quando ouviu que poderia entrar, encontrou Afrodite sentado na ponta de mesa do espanhol enquanto ambos olhavam sério alguns papéis. O sueco se ergueu quando o viu e o cumprimentou com um aperto de mão formal. O mais jovem sorriu gentil; sim Afrodite era um profissional brilhante e muito sério dentro da empresa. Shiryu o cumprimentou percebendo que o sueco ficava ainda mais bonito com aquele olhar sério, dentro de um terno escuro e bem cortado.

- Vocês poderiam me dizer o que está acontecendo aqui? - Quis saber.

- Se não negligenciasse suas obrigações na certa saberia. – Volveu Shura irritado.

- Aguille por favor. – Pediu o loiro olhando o mais velho por alguns instantes e depois se voltando para Shiryu – Parece que as Indústrias Verseau não renovarão o contrato de parceria com a Cignus que vence no final do ano.

Shiryu entreabriu os lábios, atônito. Aquilo era a maior bomba do mercado financeiro nos últimos 10 anos e com certeza poria a empresa abaixo.

- Céus, o Dimitri vai surtar... – Murmurou Shiryu.

- Já surtou. – Disse Afrodite – Está caçando o Camus como um louco, mas até agora o francês não apareceu aqui.

- Eu tenho certeza que isso tem um dedo do Hyoga. – Volveu Shura – Sabemos que ele brigou com o Dimitri e saiu de casa. Está morando com o Camus. Eu acho que os dois têm um caso...

Shiryu riu incrédulo.

- Por Deus, Shura, o Hyoga é como um filho para o Camus, que absurdo!

- Por que absurdo? Depois daquele escândalo com o office-boy, sabemos que o Camus é bissexual. Ele sempre teve uma adoração doentia por aquele garoto, e ele nem é tão mais velho assim. – O executivo dava de ombro enquanto observava alguns números no papel, como se fizesse pouco caso do que dizia.

- Infelizmente ele tem razão, Shiryu. O Hyoga só pode ser a única justificativa. – Falou Afrodite.

- Bem, eu não ficarei aqui alimentando fofoquinha de repartição, vou tentar falar com o Hyoga.

O chinês saiu e quando voltava pelo corredor em direção à sua sala, parou; Seiya vinha de encontro a ele empurrando um carrinho cheio de pastas. O moreno só percebeu sua presença quando quase trombou nele.

- Ah, Shi, que susto! – Reclamou passando as mãos nos cabelos.

- Olá.

- Oi. – Disse o mais jovem – Eu tenho que entregar essas pastas na diretoria – explicou - , você sabe como o povo lá é estressado.

- Tudo bem, Seiya, eu estarei esperando quando você tiver uma resposta pra mim.

- Não me pressione, eu... eu vou tentar falar com a Saori hoje a noite... – Explicou num sussurro.

- Tudo bem. – Shiryu passou por ele, voltando para sua sala, e Seiya foi fazer o que tinha que fazer.

- Uma chance para amar -

Quando Ikki chegou à galeria, encontrou Aiolia parado, fumando um cigarro. O estudante respirou fundo e foi de encontro ao belo homem que lhe sorria com uma espécie de satisfação e ironia.

- Amamiya! Bom vê-lo! – Estendeu a mão.

- Olá, Aiolia, como vai?

- Bem. Acompanhe-me em um café naquele simpático bistrô, afinal, não podemos ficar conversando no meio da rua, não é?

- Ótimo. – Concordou Ikki muito sério, seguindo o mais velho. Sentaram na varanda do estabelecimento, aproveitando aquela manhã ensolarada, protegidos por sombreiros coloridos.

- Por onde quer que eu comece? – Indagou o agente, soltando a fumaça do cigarro no ar.

- Do começo. – Volveu Ikki mal humorado, fazendo o grego rir.

- Então 'tá legal, começarei como começam todas as histórias: com um encontro... Bem, nos conhecemos na França durante uma exposição dele. Nessa época um amigo meu era seu agente e posso dizer que me apaixonei a primeira vista; o Shaka é um homem que impressiona, não é verdade? Eu sei que você deve ter ficado impressionado com aquela carinha de anjo, jeito de deus e língua de demônio que ele tem.

Ikki nada respondeu, apenas pediu uma água e continuou a escutar.

- A verdade é que eu o infernizei até que ele aceitou sair comigo. Não foi fácil; aquela língua afiada dele estava sempre pronta pra me destruir, mas eu insisti. Eu não sei por que Eros sente uma vontade sádica em nos colocar no chão, mas foi isso que ele fez comigo, eu fiquei... literalmente de quatro por ele e pra ele, literalmente mesmo! – O agente soltou uma gargalhada com a própria piada de duplo sentido, depois respirou fundo e um quê de amargura se insinuou em sua voz:

- Eu o amava tanto, tanto; na verdade ainda o amo muito, não vou mentir pra você. Dessa forma eu entrei na vida dele, invadir a vida dele, o trouxe pra minha, estava profundamente apaixonado.

- E o que aconteceu? – Replicou Ikki que não tinha muita paciência para escutar as declarações de amor de Aiolia.

O grego acendeu outro cigarro e seus olhos verdes não largavam os azuis do mais novo.

- O sexo entre a gente era mágico! – Não respondeu a pergunta – Acho que nunca tive um amante como ele. O Shaka sempre foi capaz de passar da condição passiva e condescendente para a mais ativa e feroz que alguém pode ser na cama e, acredite, eu já tive muitos e muitas em minha cama.

- Isso não me interessa e você sabe – Grunhiu Ikki impaciente –, pare de fazer rodeios, pode ser?

- Ah, Ikki, você quer saber da minha história, mas somente você quer se divertir? Eu preciso desabafar, algum problema nisso? – Indagou sarcástico.

- Ok, continue. – Conformou-se o mais jovem, não tinha escolha – Mas seja breve.

- Ok, ok! – Riu Aiolia – Depois de alguns meses de namoro, eu me mudei para a casa dele em Marselha. O loiro sempre teve um gosto filhadaputamente maravilhoso para casas! O local era um sonho e vivemos tórridos momentos de amor ali, nossa vida estava perfeita, tudo era perfeito entre nós, até que eu caí na armadilha das declarações e do ciúme...

- Como assim?

- Sabe aquela história de que os homens somem quando as mulheres dizem eu te amo? Pois é, para alguns homens não precisa ser uma mulher a dizer isso, outro homem já serve.

- Ele fugiu?

- Não, ele fez coisa pior – Aiolia suspirou amargo –, o comportamento dele mudou completamente quando percebeu que estávamos envolvidos mais que sexualmente. Ele passou a me evitar, se afastou de mim, passava dias trancados no ateliê, sem comer, beber e sem tomar as aplicações da bendita insulina, aliás, deve saber que ele odeia insulina.

- Eu já sei disso, mas por que você não arrombou a porta do ateliê? Era o que eu faria. – Volveu Ikki irritado em pensar no perigo que Shaka correu.

- Bem, meu jovem, eu também sou um homem difícil e orgulhoso. – Respondeu Aiolia – Não ficaria mendigando a atenção dele e, na época, eu não sabia do diabetes.

Ikki engoliu em seco. A história do agente se parecia tanto com a sua que era assustador.

- Até que um dia, depois de muito ligar e receber a informação, passada por minha pessoa, de que o Shaka estava trancado e não atenderia as ligações, o pai dele apareceu e arrombou a porta do ateliê. – Aiolia suspirou - Shaka teve que ser levado de UTI móvel para o hospital em um estado grave de falência dos rins causada por hiperglicemia. Entrei em desespero, mas eu não sabia de nada, não podia imaginar que ele estivesse em risco; achava que era uma birra idiota dele comigo. Você deve saber que daí surgiu minha primeira briga com John Phalke.

- Não sabia nada dessa história nem muito menos que você e o pai do Shaka não se davam bem.

- Se dar bem? Ele me odeia. – Falou Aiolia – E eu não tiro sua razão. Fosse meu filho eu também odiaria. Acontece que o Shaka passou quase um mês no hospital, mas milagrosamente seus rins voltaram a função normal depois de algum tempo. Ele voltou pra casa, e eu o estava esperando com muito remorso e cuidados. O loiro não me culpou por nada, pelo contrário, fez questão de dizer ao pai que eu não sabia da doença e que ele se trancou por opção própria. John pareceu entender, embora a antipatia por mim permanecesse. O Shaka se recuperou rápido. Eu lhe dava todo o apoio e atenção que podia, embora sempre fosse tratado de maneira fria e rude por ele. Aquilo estava acabando comigo, mesmo porque, eu não compreendia o que tinha feito de errado. Amar é errado, Ikki?

O estudante percebeu, pela primeira vez, dor nos olhos de Aiolia. Não soube o que responder. Guardou silêncio brincando com o guardanapo que estava sobre a mesa.

- Mas o pior ainda estava por vir – murmurou o grego mirando o horizonte de maneira distraída –, depois de um tempo, ele passou da indiferença à infidelidade...

Ikki engoliu em seco, e o mais velho continuou:

- Hoje eu sei que ele queria que me afastasse, mas não tinha forças para simplesmente me mandar embora. Então achou que o melhor seria me fazer deixar de amá-lo, porque também não queria me fazer sofrer. Só que ele não sabia que meu amor era grande demais e eu estava decidido a lutar por ele. Eu sentia tudo, raiva, revolta, mas nunca deixei de amá-lo nem por um segundo. Eu estava morrendo, ele estava me matando, mesmo assim, insistia em ficar ao seu lado, era mais que amor, era obsessão.

Um vento frio cortou a manhã ensolarada anunciando que mais tarde choveria. Aiolia fez uma pausa para acender um novo cigarro e enxugar uma lágrima fugitiva que insistiu em escorrer dos seus olhos.

- Lembro-me de como foi nossa última noite juntos...

Chovia bastante, uma intensa tempestade de verão que agitava o mar francês e faziam as lanchas ancoradas balançarem como peças de brinquedos. Aiolia saiu do carro tentando se proteger da pesada chuva. Tivera um ótimo dia de trabalho, conseguira fechar alguns contratos com galerias badaladas e, apesar de saber que eles não estavam bem, gostaria de compartilhar aquilo com Shaka.

A casa estava escurecida, somente uma tênue luz vinha do andar superior. Tirou o sobretudo pesado de água e jogou em um canto, livrando-se também dos sapatos e meias. Começou a subir os degraus de madeira e a cada passo seu coração recebia uma ferroada; começou a ouvir gritos, gemidos e sussurros entrecortados. Seu coração falhou; sabia que Shaka o estava traindo, mas não esperava que ele levasse um amante ali, para aquela casa que era tudo que os dois representavam.

Seu coração sangrou. Abriu a porta com mãos trêmulas e cerrou os olhos com força ao ver a cena que se desenhava à sua frente: o loiro estava com outro homem que de quatro na cama gemia e rebolava, enquanto Shaka puxava seus cabelos negros, o fodendo com fúria, sem nenhum carinho, um sexo puramente mecânico e rude.

Quando o indiano se deu conta da presença do grego, afastou-se do rapaz como se nada acontecesse; o olhou friamente e se cobriu com um roupão.

- Sai. – Ordenou. O intruso catou as próprias roupas, murmurou um pedido de desculpas a Aiolia e passou por ele, correndo.

Shaka cruzou os braços e sorriu com ironia.

- Surpreso? – Indagou.

O leonino ferveu.

- Puto, puto desgraçado! – Rosnou, caminhando até ele e segurando seu braço sem delicadeza, não se preocupando se o machucaria ou não. As lágrimas caíam dos seus olhos involuntariamente, por mais que as odiassem.

- Solte-me... – Ordenou Shaka entre dentes – Não ouse me machucar...

- É o que você merece! Por que, Shaka? Por quê?

- Minha vida, meu corpo, minhas atitudes! – Gritou o artista – Tudo meu, entendeu? Você não tem nenhum direito sobre mim!

- Eu o amava, desgraçado!

- Eu nunca pedi seu amor, Aiolia! Vê se entende isso de uma vez por todas e... vai embora... – As palavras finais saíram sussurradas e doloridas.

- Eu não vou, eu te amo! – Gritou o grego inconformado – Não entendo por que de uma hora pra outra você deixou de me amar!

- Eu nunca o amei! Você pra mim sempre foi um suculento pedaço de carne! – Falou o loiro com desprezo – Nada mais que isso e já enjoei do seu sabor, Aiolia.

Ele deu a volta em direção ao banheiro, mas antes que chegasse, foi novamente puxado pelos braços fortes de Aiolia que o jogou na cama, o prendendo depois entre suas coxas. Shaka arregalou os olhos enquanto via o leonino se livrar da camisa úmida que vestia.

- Não faz isso, Aiolia... – Pediu fechando os olhos com força – Você não é assim, você não é isso...

- O que acha que farei hein? – indagou o grego encarando-o nos olhos – Eu nunca o machucaria, Shaka, eu vou amá-lo com todo o amor que sempre amei, pela última vez...

E foi isso que ele fez. Fizeram amor de forma arrebatadora, intensa como nunca. Shaka pertencera a Aiolia inteiro, assim como Aiolia pertencera a ele. Depois de saciados, o loiro foi sozinho para o banheiro e trancou a porta, quando saiu já estava de banho tomado, os longos cabelos úmidos. Vestiu uma calça leve de algodão e se virou para o leonino que continuava deitado na cama com um olhar perdido e infeliz.

- Agora levante-se, seja homem e vá embora. – Continuou o indiano de maneira fria – Eu não preciso de um fracassado como você em minha vida...

O ódio dominou Aiolia e ele pulou da cama, deferindo uma violenta bofetada no artista que tombou pra trás, caindo apoiado em uma parede. Shaka passou a língua no canto da boca, sentindo o gosto de sangue. Respirou fundo, fechando os olhos.

- Você tem uma hora pra juntar suas coisas e desaparecer. – O indiano passou por ele e desceu as escadas.

O artista foi para a cozinha e se apoiou na mesa fechando os olhos com força pra evitar as lágrimas. Aiolia o seguiu mais uma vez, agora já vestido na calça social que chegara. Seus olhos possuíam uma mistura de ódio e desespero.

- Seu filho da puta! Você não tem coração? Estamos juntos há um ano!

- E só agora você percebeu isso, Aiolia? Burro, ridículo, patético! – Sorriu Shaka com sadismo extremo e perdendo totalmente a noção de perigo.

- Eu vou matar você, desgraçado! – Grunhiu Aiolia apertando o braço do loiro até sentir o osso ranger. Shaka abafou um gemido mordendo fortemente o lábio inferior.

- Você não entende que não pode me amar? Ninguém pode? Não deve, Aiolia! – O indiano perdeu temporariamente a postura indiferente e o grego encarou seus olhos lendo neles toda a angústia que o dominava.

- Eu te amo, Shaka...

- Mas eu não te amo, Aiolia, sai daqui! Até quando ficará aqui se humilhando, se denegrindo dessa forma?

O leonino fervia entre o ódio e o amor filho da puta que sentia por aquele desgraçado. Sua vontade era mesmo matá-lo e depois se matar.

- Eu... eu entreguei meu coração a você, e você... você não merece viver, Shaka!

O rosto do loiro tremeu e seus olhos claros se voltaram para um porta facas de madeira que havia sobre a bancada de mármore. Estendeu a mão e pegou uma faca de carne afiada oferecendo-a a Aiolia.

- Então faz um favor a nós dois – Disse encarando o leonino nos olhos -, me mata Aiolia... acaba com isso de uma vez...

Um relâmpago clareou a cozinha semi-escurecida. Os lábios de Aiolia tremeram enquanto ele segurava o cabo de madeira da faca.

- Louco... – Murmurou ele atônito – Eu não vou fazer isso...

- Nem pra isso é homem, Aiolia! – Gritou Shaka desesperado – Por isso eu tive tantos outros, por isso estava com aquele cara na cama! Na sua cama! Você é um fraco, um idiota, um medíocre...!

Foi interrompido pelo golpe cortante do metal, fazendo-o se curvar e encarar o rosto do grego. Não sabia dizer quantos minutos ficaram parados daquela maneira; Aiolia segurando a faca enterrada em seu abdômen e Shaka segurando suas mãos. Seus olhos não se desgrudavam um do outro e lágrimas desciam pelo rosto de ambos.

- Obrigado... – Murmurou o indiano e tombou pra frente. Aiolia o apoiou nos braços, soltando a faca, e gritou transido de dor.

- Deus o que eu fiz? – Chorou amargo abraçado a Shaka, sendo ensopado pelo sangue do loiro, desesperando-se.

O agente enxugou uma lágrima que desceu do seu rosto. Eram lembranças dolorosas.

- Hoje entendo que o Shaka considerava o suicídio uma grande fraqueza, por isso me usou como instrumento para livrá-lo da vida que ele não queria ter. Imagino como não era degradante para ele ficar pulando de cama em cama. Sei que ele odiava isso e não entendo porque, pra ele, era tão importante me decepcionar. Nunca entenderei. Eu mesmo chamei a ambulância e ele foi levado para o hospital. Perdeu muito sangue e entrou em coma. Eu fui preso, réu confesso e é agora que John Phalke entra com força total na história.

- Como assim?

- O que você faria se alguém ameaçasse a vida da pessoa que você mais ama no mundo?

- Eu o destruiria. – Declarou Ikki sério, e Aiolia sorriu.

- Foi exatamente o que ele fez, tentou se assegurar de que eu nunca mais chegaria perto do Shaka. Empenhou-se ao máximo para me manter atrás das grades, inclusive, com falsas acusações de maus tratos anteriores... Deus! Eu nunca havia batido no Shaka antes, aliás eu sempre tive um instinto de autopreservação absurda, então nem tentaria.

- E como se safou?

- O Shaka sobreviveu. Dois meses depois, quando ele saiu do hospital depôs a meu favor, disse que agi em legítima defesa, porque ele sim havia me agredido, mas as autoridades não se convenceram fácil, ainda mais que o poderoso John Phalke continuava empenhado em me destruir. Bem, no final, o Shaka venceu, e John desistiu de duelar com o próprio filho. Mas esse processo acabou com o relacionamento dos dois. John sentiu-se traído e decepcionado com o filho; Shaka passou a tratar o pai como um inimigo, alguém que queria mandar em sua vida e manipular suas decisões.

Aiolia suspirou cansado.

- Bem, o resto você já sabe, mas só pra terminar, quando saí da cadeia seis meses depois, com uma ficha criminal, um escândalo e sem eira e nem beira, o loiro me convidou para ser seu agente. Não me pergunte o que ele fez com o outro, só sei que sua única regra era nunca mais ter que olhar na minha cara; nenhum contato físico. Só nos encontraríamos nas exposições e quando fosse estritamente necessário. É isso.

- Acha que foi o John?

- Você é esperto. – Sorriu o mais velho – Foi isso mesmo. Shaka sabe que pra me proteger do pai, precisa me manter longe de si, mas não só isso, ele também acredita que é o melhor pra mim.

- Ele o protegeu porque o amava. – A afirmação foi amarga para o rapaz mais jovem, porém, Aiolia sorriu fazendo um gesto de descaso com a mão.

- Ele nunca me amou, estava começando a me amar e se desesperou com isso. Soube tempos depois que foi assim desde o primeiro namorado; quando ele sente que está se apegando demais, foge, prefere afastar a pessoa, não por fraqueza ou maldade, mas por desespero; medo de ferir profundamente a quem ama.

- Como aconteceu com sua mãe... – Murmurou o mais jovem.

- Algum problema com a Suriya? – Ikki mirou a confusão nos olhos de Aiolia, era claro que ele não sabia da história e achou que aquele não era o momento de lhe revelar. Ergueu-se da cadeira e tirou uma nota da carteira, colocando-a na mesa.

- Aiolia, eu preciso ir. Muito obrigado por me dizer tudo isso, eu precisava mesmo saber.

Aiolia se ergueu e apertou a mão do rapaz.

- Espero que você consiga, Ikki, de verdade. – Desejou com sinceridade e depois, ressabiado, encarou os olhos do loiro – Seria pedir muito se lhe pedisse pra dar um recado a ele?

- Qual?

- Diga-lhe que sinto muito...

- Ele sabe disso, Aiolia. – Volveu o moreno se afastando.

- Eu gostaria de poder falar com ele...

- Está pedindo demais!

- Não seja tolo, ele já está apaixonado por você, não quero uma reconciliação, quero apenas falar com ele. – Implorou o grego.

- Apaixonado por mim? – Ikki suspirou pesadamente – Eu invadi sua vida... Ele irá me abandonar assim como fez a você.

Aiolia apagou o cigarro, nervoso.

- Não permita. Não sei até quando ele sobreviverá a isso.

Ikki sentiu-se gelar; passou as mãos nos cabelos, nervoso.

- Preciso ir... – Murmurou.

- Irá deixá-lo não é? Depois de saber o tamanho da encrenca que se meteu irá abandoná-lo! – Acusou Aiolia com raiva.

- Eu nunca o abandonaria. – Volveu Ikki irritado – Agora preciso ir. Volto a entrar em contato.

- Não desista dele, Ikki.

As palavras doloridas do grego fizeram o estudante fechar os olhos por um tempo antes de responder:

- Eu não desistirei. – Foi tudo que Ikki disse antes de partir.

Continua...

Perdão. Sei que prometi o encontro de Ikki e Shun nesse capítulo, mas o flashback fugiu do meu controle e acabou não dando. Esse foi o capítulo mais longo da fic 8000 palavras, perdoem-me por isso também, mas não tive como que não tenha ficado tão maçante.

Beijos especiais para aqueles que deixaram carinho em forma de review aqui:

MysticShaka, pollymayfair, ggemmi, Izabel,vivisctn, yuy, Alexia-Black, Pandora Hiei, milaangelica, EnmaHilder, MaluquinhaX, Maya Amamiya, Hannah Elric,ddd, anjodastrevas, Shunzinhaah2, FreakyEiri, Keronekoi, virgo nyah, Estrela 08, Kate-chan, Graziele Kiyamada.

Obrigada pelo carinho imenso de vocês!

Beijos e até breve.

Sion Neblina