Passado, presente...

Capítulo 18

Os irmãos ficaram por um longo tempo abraçados. Shun chorava e soluçava aliviado por finalmente encontrar Ikki depois de tanto procurá-lo.

— Acho que eles precisam ficar sozinhos — Milo falou. Hyoga e Camus concordaram em deixar o quarto. O mais velho dos Amamiya se afastou levemente do irmão para enxugar suas lágrimas e olhar em seus olhos.

— Como você está, Shun? — indagou sondando. Tinha vontade de bombardear o irmão de perguntas, mas sabia que teria que se controlar até que ele estivesse fora daquela clínica — Quem fez isso com você?

O mais novo o ajudou a enxugar seu próprio rosto e se ajeitou nos travesseiros da cama. Tentou sorrir para não deixar o irmão ainda mais aflito. Percebia o quanto Ikki estava abalado.

— Eu já estou bem, Ikki, isso não tem importância.

— Quem, Shun? — repetiu o mais velho veemente.

— Ele já está na cadeia, Ikki. É uma longa história de ciúmes e alcoolismo, ele não merece seu ódio.

O Amamiya mais velho não conseguiu esconder a angústia e a sensação de impotência. Saíra da sua cidade para Atenas pensando apenas em conseguir uma vida melhor para si e o irmão, e olha no que isso resultou? Não havia como não se sentir culpado.

— Shun, por favor, me conte tudo, o que o trouxe aqui? Por que veio atrás de mim? Por que não me ligou? O que aconteceu depois que eu deixei Tripolis? — não conseguiu vencer a necessidade de saber de tudo, seu coração estava angustiado e ele precisava de respostas.

Shun mordeu o lábio inferior e suspirou.

— Tudo mudou depois que você foi embora — falou baixo e dolorido —, o Péricles passou a beber e... Ikki, ele parecia o papai...

Os olhos do mais velho marejaram. Antes de o pai morrer, eles levaram uma vida miserável devido ao alcoolismo e vício em cocaína do mesmo. Ikki perdeu as contas das surras sem sentido que levou por tentar proteger a mãe e o irmão. Ele era só uma criança e nem sempre conseguia enfrentar o pai, mas sempre tentava detê-lo. Foi uma vida de dor e miséria, até que o corpo do homem não suportou o abuso de drogas e ele morreu aos 35 anos de uma parada cardíaca fulminante. A mãe dos Amamiyas morreu um ano depois por conseqüência de uma insuficiência respiratória severa, deixando os dois filhos aos cuidados dos tios Péricles e Leda. Leda os tratava bem e só por isso Ikki confiou deixar Shun com a tia; Péricles também não era homem de criar problemas, por isso, era tão chocante tomar conhecimento do seu vício.

— Por isso você fugiu? — murmurou dolorido, exibindo um olhar completamente perdido.

— Eles não me deixavam falar com você, diziam que eu iria preocupá-lo em vão, que eu estava procurando encrenca, sendo rebelde — as lágrimas de Shun não paravam de cair. — Mas ele me batia todo dia! Todo dia, Ikki, e a tia Leda não fazia nada para impedir.

O menino cobriu o rosto com as mãos e soluçou mais forte, sendo acolhido pelo irmão que o abraçou e beijou-lhe os cabelos, vertendo as lágrimas que não conseguia mais conter.

— A culpa é toda minha...

— Não, irmão, eles fingiram bem, acho que na verdade eles queriam a pensão da mamãe e o dinheiro que você enviava, mas não queriam tomar conta de um adolescente... Aí eu fugi, peguei um dinheiro que estava guardado no quarto da Leda, roubei... — ruborizou — Enchi uma mochila com algumas coisas e peguei um ônibus e depois outro, até chegar aqui.

— Aqueles desgraçados vão me pagar! — Ikki cerrou os punhos — Vou colocá-los atrás das grades!

— Não vale a pena, irmão, vamos esquecer, já nos encontramos, não é? — Shun sorriu e o abraçou novamente. — Era a única coisa que eu queria, reencontrá-lo, agora tudo está bem... de verdade.

— A culpa foi minha, eu deveria ter ligado mais vezes, ter voltado lá quando não conseguia falar com você, mas, por Deus, Shun, eu nunca imaginaria algo assim.

— Eu sei que não. No começo eles me tratavam bem, os maus tratos só começaram alguns meses antes da minha fuga. Eu vim procurar por você, mas esqueci de pegar o endereço e o nome da empresa em que você trabalhava, até mesmo o seu telefone! Eu estava tão desesperado que saí sem nada. Achei que seria fácil encontrá-lo em Atenas, mas não foi.

— Imagino o que você teve que passar aqui... — o mais velho balançou a cabeça desolado — Isso é um pesadelo!

Shun sorriu e afagou o rosto do irmão.

— Eu estou bem, agora estou muito bem, não poderia estar melhor — disse satisfeito. — Reencontrei você e reencontrei o Hyoga.

Ikki ergueu uma sobrancelha.

— Hyoga?

Shun assentiu com a cabeça e sorriu.

— Ele estava aqui faz alguns minutos, mas você estava tão perturbado que não percebeu.

— Claro que não, por muito tempo eu achei que ele fosse seu amiguinho imaginário! — riu de leve o mais velho.

— Eu disse que não era...

Ikki passou as mãos nos cabelos confuso. Na infância, Shun falava sem parar em um menino chamado Hyoga, mas ele nunca deu atenção, achava que era fantasia, porque não se lembrava da criança que, segundo o irmão, eles conheceram em Capri. Mas ao que parecia estava enganado.

— Como o reencontrou?

— Ah, é uma longa historia, Ikki...

— Que bom, porque tenho todo o tempo do mundo — falou o mais velho cruzando os braços. — Quero saber tudo, Shun, e nem tente ocultar nada, certo?

Ikki afagou os cabelos do irmão e eles trocaram um sorriso. Shun estava preparado para contar sua saga em Atenas para o irmão.

***Uma chance** Para amar***

Shiryu andava a passos arrastados pelo corredor do prédio. A chave do apartamento já estava em suas mãos. Achava-se cansado depois de um exaustivo dia num emprego que não o satisfazia e uma noite de aulas monótonas. Estancou o passo surpreso e sorriu ao encontrar Seiya sentado com as costas apoiadas na porta.

— Como conseguiu chegar aqui? — indagou sem deixar de sorrir para o rapaz. Seiya pareceu se assustar com sua voz e se ergueu rápido, rindo enlaçando seu pescoço.

— Sou bom de lábia e o porteiro deixou que entrasse por uma gorjetinha — piscou sapeca. — Estou com frio, vamos entrar?

O mais velho abriu a porta e deu passagem para que o mais novo entrasse. Seiya se atirou no sofá e cruzou os braços atrás da cabeça.

— Está feito — falou pueril. — Eu terminei com a Saori.

Shiryu se sentou ao lado do namorado.

— E?

— Putz, foi muito chato, chato mesmo, fiquei triste — falou se aconchegando no ombro do chinês —, mas não dava mais mesmo, você sabe... eu amo você...

Shiryu ergueu-lhe o queixo e o beijou suavemente.

— Está preparado para isso, Seiya?

— Isso o que?

— Seiya — disse encarando os belos olhos castanhos do namorado —, você sabe que será julgado por isso, sua família ficará triste e... bem, eu não gosto de viver me escondendo, vivi assim por dois anos com o Shura, não quero continuar dessa forma. Acho que não tenho nada para esconder e nem do que me envergonhar.

Seiya piscou e mordeu o lábio inferior.

— Eu sei, Shi, mas poderíamos ir com calma? — pediu — Sabe, minha família é muito antiquada, meu pai... Puxa, o velho vai pirar!

Shiryu se afastou um pouco para mirar o rosto de Seiya e depois tocá-lo com carinho.

— Não quero pressioná-lo, só quero que entenda que eu vivi uma situação assim por muitos anos. O Shura também tinha problemas com a família dele, acho que por isso ele era tão depressivo, ter que viver se escondendo não faz bem a ninguém. Eu só não quero viver dessa forma novamente, Seiya.

— Eu sei, Shi, eu não farei isso com você, só me dá um tempo, cara.

— Tudo bem — Shiryu suspirou —, saiba que estarei do seu lado se precisar de mim quando for abrir o jogo com sua família.

— Obrigado...

— E eu também te amo.

Seiya abriu um sorriso radiante e puxou o chinês para si o beijando com ardor. Estava assustado, teria grandes conflitos pela frente, mas tinha a certeza, desde que beijou Shiryu, que nunca mais iria querer beijar outra pessoa.

***Uma chance** Para amar***

Já estava tarde quando Ikki deixou o quarto de Shun. O irmão dormia tranquilamente; os médicos informaram que era provável que ele tivesse alta no dia seguinte. Suspirou ao sair do quarto olhando o quanto aquela clínica era sofisticada, nem com o salário do mês inteiro conseguiria pagar todo aquele luxo. Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se encontrando Milo.

— Oi, escorpião, ainda aqui?

— Sim, estava esperando você, quer comer alguma coisa? Camus e Hyoga estão na lanchonete, o Hyoga passará a noite com o Shun, você parece bem cansado — o loiro sorriu, vendo a expressão pesada e cansada do amigo.

— Minha vida está desabando, Milo... — confessou Ikki se sentando em um banco no corredor — Eu... eu não sei mais o que fazer...

— Está falando do Shun ou do Shaka? — o loiro se sentou ao seu lado.

— Dos dois. — Respondeu depois de um suspiro — Eu não sei mais o que fazer com o Shaka ou pelo Shaka. Acho que me afastar dele é a única opção.

— Você o ama, Ikki, lute por ele...

— O problema é que eu não sei se ele me ama! Eu não consigo confiar nele.

Milo segurou o ombro do amigo com carinho.

— Ikki, eu fiz tanta merda que não sei como não destrui a minha relação com o Camus, mas agora, finalmente parece que nos entendemos, não foi fácil, mas descobri que quando há amor, podemos superar todas as diferenças.

— Minhas diferenças com o Shaka não são iguais as suas com o Camus, não há mal entendido e nem atitudes precipitadas, há o Shaka sendo o Shaka, entendeu?

Milo diria que não, mas se calou. Pedir uma explicação detalhada não ajudaria o amigo então ficou quieto, só afagando de leve o ombro dele.

O moreno suspirou sentindo os ombros tensos e uma imensa vontade de ir para casa e dormir, estava realmente estafado. Sentiu o celular vibrar e pegou olhando o visor, era Shaka. Pensou por alguns segundo se deveria atendê-lo, não se sentia pronto para falar com ele, não ainda, mas resolveu atender mesmo assim.

— Oi, Shaka...

— Ikki...

O moreno franziu as sobrancelhas, a voz do loiro estava ofegante, ergueu-se por instinto do banco.

— O que você tem, loiro? — perguntou aflito e seu coração acelerou com o silêncio que se estabeleceu do outro lado da linha, conseguia apenas ouvir apenas a respiração ofegante dele.

— Ikki... — ele repetiu — eu estou bem, eu só... — engoliu a dificuldade de se manter acordado — eu não consigo sair do carro, poderia vir me salvar mais uma vez?

O moreno sentiu o coração falhar e apertou o aparelho com força.

— Onde você está, loiro?

— Na primeira esquina antes da galeria Phalke, o local onde você encontrou o Aiolia...

— Estou indo pra aí, não desliga, me diz o que aconteceu? — pediu enquanto andava para a saída da clínica, seguido por Milo.

— Eu bati num muro...

— Ikki, o que aconteceu? — Milo perguntava aflito.

— O Shaka sofreu um acidente de carro, estou indo encontrá-lo — falou nervoso.

Encontraram Camus e Hyoga que vinham em sentido contrário.

— Algum problema? — indagou o ruivo olhando o rosto pálido do rapaz.

— O Shaka sofreu um acidente — informou Milo para espanto dos dois. — O Ikki está indo até ele, eu também vou...

— Eu também — disse Camus preocupado. — Hyoga, você faz companhia ao Shun.

— Tudo bem — concordou o russo. — Dei-me notícias.

Todos concordaram e saíram rápido em direção ao carro do francês, quando chegaram ao local indicado que não ficava tão longe, uma ambulância e várias viaturas já cercavam o Lothus prata que estava amassado contra um muro de pedra.

Ikki sentiu as pernas tremerem e seu coração falhar, empalideceu tanto que Milo achou por bem segurar-lhe o braço; mas antes que ele o fizesse, a presença de espírito do rapaz voltou e ele furou o cordão de isolamento, correndo até o carro.

Camus argumentou com os policiais que eram amigos, e eles deixaram o rapaz seguir. O moreno chegou até o carro e se ajoelhou próximo à janela do motorista. Uma enfermeira do resgate conversava baixinho com o artista plástico que estava terrivelmente pálido; os olhos azuis do indiano se voltaram para ele. Shaka sorriu de leve e os olhos de Ikki marejaram.

Deuses, por que é tão difícil? Pensou o moreno angustiado, encarando o amado.

— Shaka...

— Oi, desculpe por isso... — falou o loiro de forma envergonhada — eu estou bem, já falei para essa gente que meu problema é falta de insulina só isso... Não estou nem um pouquinho machucado, tirei o pé do acelerador e deixei o carro ir, já que não tinha condições de guiá-lo...

— Por quê? Merda, por quê? — irritou-se Ikki.

Shaka baixou o olhar um tanto constrangido.

— Pensei que não precisaria tão rápido. Eu... eu queria falar com o Aiolia, saber o que ele falou a você... Sei que não sou uma boa pessoa, mas eu preferia que soubesse daquilo tudo por mim.

— Você é tão idiota às vezes! — irritou-se o mais novo — Quando comecará a aceitar que essa merda é o que salva sua vida? — estava bravo, muito bravo com Shaka e não seria gentil.

O loiro baixou o olhar.

— Eu... — o loiro não soube o que dizer, engoliu em seco —, me desculpe

— É melhor não falar muito, senhor, estamos esperando seu médico. O doutor Gyatso disse que não deveríamos deixá-lo sair antes que ele pudesse examiná-lo — explicou a mulher.

Ikki passou a mão pela janela e segurou a de Shaka que estava livre.

— Me desculpe... — pediu deixando que as lágrimas caíssem — a culpa é minha...

— Não, Ikki, eu é que sou um péssimo doente... — as lágrimas ameaçaram escorrer pelo rosto do indiano e ele baixou o olhar com um meio sorriso constrangido — eu nunca quis admitir meus limites, você não tem culpa, ninguém tem...

Ikki apertou forte a mão fria dele, percebendo que o oxímetro preso a um dos dedos acelerava e desacelerava a contagem, não entendia o que aquilo significava, mas o incomodava; queria logo que tirassem Shaka dali.

— Sente dor?

— Não... — murmurou o loiro — Estou bem, já disse...

— Você precisa de insulina...

— Já estamos providenciando, senhor — falou a paramédica novamente. — Ele está bem, não se preocupe, o médico deve estar chegando.

Ikki não soube quanto tempo ficou ali de mãos dadas a Shaka enquanto esperavam pelo médico do indiano. Mas foi um alívio quando viu o homem de branco de longos cabelos passar pelo cordão de isolamento e se aproximar do carro. Mu abriu a porta e se ajoelhou ao lado do paciente, puxando sua mão sem delicadeza e espetando seu dedo para verificar os níveis de açúcar em seu sangue.

— E então, vou morrer, Mu? — indagou o loiro fazendo pouco caso.

O médico o encarou sério e zangado.

— Não é de insulina que você precisa, você precisa comer! — irritou-se o endocrinologista — Você está com hipoglicemia! Pelos deuses, Shaka! Por que não pode se comportar como alguém normal? O que quer agora, além de diabético ficar anoréxico também?

Shaka se calou. Não entendia porque todos estavam tão nervosos com ele. Aquilo não foi sua culpa, não era como se somente tivesse decidido jogar o carro no muro.

— Eu me alimento bem, Mu... — arriscou dizer — só que hoje aconteceram muitas coisas...

Seus olhos passaram por Ikki e se voltaram para o médico. O moreno respirou fundo angustiado.

— Venha, vamos sair daqui — volveu Mu tirando uma pastilha de dentro de um case — Masque isso até que cheguemos à clínica. Vamos na ambulância.

— Eu também vou — disse Ikki e se adiantou para ajudar o artista plástico a sair do carro. Mu seguiu ao lado deles. Ikki falou com Milo e Camus que iria na ambulância com eles, e o francês falou que seguiria de carro logo atrás.

— Ikki... — Shaka falou baixinho quando a porta do veículo se fechou e o carro se pôs em movimento.

— Descanse, loiro...

— Estou bem, isso é mera formalidade... — falou tentando se sentar, mas Mu o impediu segurando seu ombro.

— Não antes de examinarmos essa coluna, mocinho, apesar de parecer bem, foi uma pancada forte — disse ele e Shaka se conformou, voltou a encarar o moreno.

— Eu fui falar com meu pai...

— O que? — Ikki não entendeu o que ele queria dizer com aquilo.

— Eu saí pra falar com o meu pai, eu não fui atrás de ninguém... — explicou fechando os olhos, sentia-se um pouco dolorido e com sono.

— Não se canse, Shaka, já estamos chegando — tornou o mais jovem se recostando e cruzando os braços.

O loiro respirou fundo.

— Você pensou que eu... que eu fui... que eu faria o mesmo que fiz ao Aiolia?

— Não importa o que eu pensei, por Zeus, quer calar essa maldita boca? — o moreno não conseguiu vencer a irritação. Cerrou os olhos por alguns segundos e depois esmurrou a própria perna — Eu estou tentando, Shaka...

— Ficar comigo? — o indiano indagou com um sorriso amargo — Não precisa se não quer...

Ikki franziu o cenho angustiado, os olhos azuis de Shaka continuavam cravados nele esperando uma resposta.

— Não o deixarei sozinho...

— Por quê?

— Não precisa ter medo...

— Não estou com medo. Você sabe que eu não tenho medo de nada nessa vida. Só quero saber...

O moreno bufou irritado.

— Se deixasse de ser tão teimoso e tomasse seus remédios não precisaria de mim! — disse bravo — Sabe o que você faz com atitudes como essa? Você mata as pessoas que te amam, Shaka, você as fere tanto que elas preferem fugir de você! Não é só você quem foge!

— Eu sei... — murmurou o indiano dolorido. — eu sou um veneno que mata bem devagar...

— Fica quieto — pediu Ikki que não queria cair em prantos e nem gritar.

Mu ouvia toda a discussão, mas não se envolveria nela. Parecia que os dois não se davam conta de que não estavam sozinhos e não seria ele a alertá-los disso, mesmo porque, aquela conversa lhe interessava e muito.

Chegaram ao hospital minutos depois, e Shaka foi levado para fazer uma bateria de exames que demonstraram que ele não havia sofrido nada além de arranhões, o airbag o salvara. Agora, o indiano só esperava que os médicos o liberasse.

Ikki estava com ele no quarto, mas não diziam nada, Shaka por vergonha e o moreno por irritação. Camus e Milo entraram minutos depois, e Shaka sorriu para o ruivo que lhe segurou a mão.

— Olá, amigo.

— Sempre aprontando das suas não é, senhor Phalke? Já lhe disse que você é um perigo? — sorriu o ruivo.

— Já, muitas vezes... — volveu Shaka também.

— Como se sente? — continuou Camus afagando levemente a mão pálida do amigo.

— Atropelado por um trator — riu com charme —, mas só assim para você se dignar a me procurar, não é?

Camus riu de leve.

— Digamos que andei ocupado demais.

Shaka lançou um olhar rápido e malicioso do ruivo para o loiro.

— Imagino o quanto.

— Bem, acho melhor irmos agora, os dois devem ter muito que conversar — falou Milo sério, incomodado com aquele flerte descarado entre seu namorado e o "loiro de Ikki". Aproximou-se do amigo e lhe segurou o ombro, olhando-o nos olhos — estaremos aí fora, okay?

— Obrigado, Milo — falou o mais novo cansado.

— Qualquer coisa que precisarem... — disse Camus antes de beijar a mão de Shaka e acompanhar o namorado para fora do quarto.

Um silêncio tenso se estabeleceu depois que o casal saiu. Shaka finalmente encarou Ikki, engoliu em seco; era incrível como os olhos do moreno diziam tanto, mesmo que ele permanecesse em profundo silêncio.

— Eu sei o que está pensando... — começou o loiro — e você tem razão, é melhor acabamos com isso de uma vez, Ikki...

— É o que quer? — riu incrédulo.

— Eu não sei, pela primeira vez estou em dúvida — confessou o loiro. — Hoje fui falar com o meu pai e depois de tanto tempo, ele permanece o mesmo, ainda acha que tudo que faço, que todas minhas escolhas são erradas...

— E não são? — tornou Ikki com amargura.

— Talvez sim, mas ainda assim são minhas escolhas — os olhos azuis do indiano se prenderam no branco da parede. — Meu pai me pareceu tão velho e cansado... não me lembrava que ele fosse tão velho, isso me leva a crer que eu também já não devo ser tão jovem ou... tão bonito... — encarou o moreno — Sou uma sombra do que fui não sou, Ikki? Você se decepcionou demais não é verdade? Eu não sou o homem que você conheceu, tão lindo e elegante naquela festa...

Ikki respirou fundo e se aproximou dele, segurou-lhe a mão devolvendo-lhe um olhar de angústia.

— Não, Shaka, você realmente não é aquele homem — falou —, você é melhor que ele, bem melhor, só basta aceitar isso.

O indiano baixou o olhar e uma lágrima escorreu por seu rosto.

— Ainda assim, você vai me deixar...

— Eu não posso mais... — Ikki murmurou, mordendo os lábios para não chorar — eu queria poder, Shaka, mas... não dá mais, cara...

Shaka apenas acenou com a cabeça concordando.

— Eu entendo, eu... eu sou demais para você... — tentava ser racional, pois sabia que o melhor era deixá-lo ir —, você não merece mesmo isso, Ikki...

O moreno se inclinou e beijou-lhe a testa, fechando os olhos com força.

— Fica bem. Prometa-me que ficará bem.

— Eu prometo — sussurrou Shaka virando o rosto para que Ikki não lhe visse as lágrimas.

O estudante beijou-lhe a mão com carinho e caminhou para a porta, sentindo o peito arfar em comoção.

— Ikki...

Shaka chamou e ele parou, mas não se voltou; crispou os punhos e continuou olhando para a porta.

— Desculpa por tudo...

O mais jovem apenas balançou a cabeça e saiu para não desabar ali mesmo. O artista escondeu o rosto no travesseiro e soluçou, se entregando finalmente a um pranto que há muito não saía.

***Uma chance** Para amar***

Quando Hyoga chegou ao quarto de Shun, o adolescente parecia dormir, e ele ficou com dó de acordá-lo, então se sentou no confortável sofá que havia ao lado da cama e começou a folhear uma revista. Já era noite e não demoraria ao irmão do menor e Camus voltarem para saber notícias.

Passava as páginas da revista, mas na verdade seus pensamentos estavam muito longes dali. Precisava esclarecer com Shun aquele passado em comum, um passado do qual não conseguia se lembrar e que parecia que o garoto na cama se lembrava tão bem.

A enfermeira entrou e acordou o adolescente para que ele tomasse seu remédio. Os olhos verdes de Shun encararam Hyoga e ele sorriu lindamente. O russo correspondeu ao sorriso dele com carinho.

— Oi, Shun...

— Que bom que está aqui... — murmurou o mais novo — estava sonhando com você...

Hyoga largou a revista e se aproximou do menor, se sentando ao lado dele na cama e afagando-lhe os cabelos.

— O que sonhava?

— Capri, o mar azul como seus olhos, os castelos de areia que fiz naquele verão... — suspirou — Tudo é tão vivo em minha memória...

— Por quê? Por que isso ficou tão vivo para você se eu mal me recordo, Shun?

Os olhos verdes se prenderam aos azuis.

— Porque foi especial para mim, foram meus dias mais belos e mais terríveis, naquele verão, eu o conheci, mas também foi nele que minha família acabou, Hyoga. Eu perdi tudo naquele verão...

O mais jovem se calou e o loiro esperou que enfermeira saísse do quarto antes de falar qualquer coisa.

— O que quer dizer com isso, Shun? Por favor, me explique — estava aflito e não conseguia disfarçar.

— É uma longa história...

— Shun... — Hyoga começou hesitante, tentando ser cuidadoso, não queria constranger o mais novo e nem intimidá-lo, mas precisava saber de tudo — eu vi o mural... dentro do seu guarda-roupa...

O menor empalideceu e depois ruborizou terrivelmente, baixando o olhar.

— Você viu?

— Vi.

— Deve achar que sou um psicopata — riu de leve.

— Não propriamente, mas fiquei assustado sim — confessou.

Shun esfregou uma mão na outra nervoso.

— Eu... eu comecei a guardar suas fotos, porque... eu queria que o Ikki acreditasse que você existia. Eu queria mostrar as fotos para ele quando o encontrasse, acabou que se tornou um robby... Não pense que sou uma pessoa obcecada, Hyoga, nosso encontro foi mesmo uma coincidência, eu tinha acabado de chegar à Atenas e não sabia muito bem o que fazer e nem para onde ir, por isso, sempre ia naquele mirante, olhar o mar e também tinha a esperança de encontrar meu irmão. Nunca pensei que poderia encontrá-lo, justo você que... Bem, eu nem sabia que você morava em Atenas até chegar aqui e vê-lo nos jornais...

Hyoga desceu o polegar pelo rosto claro do adolescente com carinho.

— Estava escrito em nossos destinos...

— Talvez...

— Estava sim, como você pode lembrar do meu rosto depois de tanto tempo?

— Eu nunca o esqueci — Shun sorriu. — Você enxugou minhas lágrimas...

— Por que eu enxuguei suas lágrimas, Shun? — voltou a perguntar — O que aconteceu naquele verão? Por que diz que ele acabou com sua vida? — as perguntas se sucediam nervosas.

— Seu pai...

Hyoga estreitou os olhos.

— O Dimitri?

— Sim. Ele fez algo muito ruim... Algo que destruiu minha família... Eu vou contar...

O menino de quatro anos andava pelo corredor escuro a procura de sua mãe. Sabia que não deveria estar ali, mas não conseguia achá-la nem a seu irmão. Seu pai estava trabalhando na piscina e não podia lhe fazer companhia. Ouviu vozes vindo de um quarto e se aproximou, parando próximo a porta onde uma luz saía fraca. As vozes ficaram mais fortes.

"Fica quietinha..."

"Não, senhor, por favor, pare..."

"Cale essa boca, aqui você é minha propriedade! Eu mando em você, se não ficar quieta eu a demito e a seu marido, aí eu quero ver como você vai sustentar duas crianças pequenas! Esqueceu a forma como implorou por esse trabalho por que você acha que eu aceitei contratá-los?"

A jovem mulher chorava e dizia não, mas também não se afastava do homem. A criança não entendia, por que sua mãe estava ali com aquele homem? Porque ela chorava daquela forma.

"Mamãe..." murmurou chamando a atenção do casal.

"Shun, sai daqui!" disse sua mãe nervosa.

"Isso, menina, sai daqui!" falou o homem de forma mais agressiva sem se afastar da mulher.

Shun ficou um tempo parado sem entender, então o homem gritou mais forte e ele saiu correndo pelo corredor escuro, se sentou num canto e chorou. Ele não compreendia, mas sabia que havia algo de muito errado ali. Compreendia que sua mãe estava sofrendo, mas não sabia como ajudar.

— Isso aconteceu naquele dia que você me encontrou — falou Shun emocionado com as lembranças. — Por muito tempo eu não entendi o que aconteceu, embora pensar naquilo me angustiasse. Eu só fui entender depois... depois de adulto, Hyoga. Mas minha vida se tornou um inferno depois daquilo. Eu não sei como meu pai descobriu o que aconteceu, mas... ele não acreditou que minha mãe foi coagida aquilo, ele achou que ela o traiu, que queria um homem rico, eu era muito pequeno pra entender as discussões que acontecia entre eles... mas as lembranças daquele dia martelavam em minha mente e me faziam chorar... Os olhos desesperados de minha mãe me perseguem até hoje... Eu não fui capaz de ajudá-la, eu não fui capaz de dizer ao meu pai que ela não teve culpa.

Shun começou a chorar mais forte e Hyoga, mesmo chocado demais com aquela revelação, segurou-lhe a mão.

— Calma, amor, eu estou aqui — beijou-lhe os cabelos com carinho. — Estou aqui para enxugar suas lágrimas novamente e sempre... sempre... — murmurou angustiado enquanto beijava os cabelos cheirosos do menor.

Shun afastou-se levemente para encarar o amado.

— Hyoga, o Ikki não sabe disso. Só eu sei, acho que nem meus tios sabiam dessa historia. Eu a guardei na parte mais escura da minha alma e nunca contei a ninguém, nunca. Você não tem noção como isso tudo me marcou. Éramos tão pobres, Hyoga, e meus pais estavam tão felizes por ter conseguido aquele emprego. Eu entendo a minha mãe, entendo porque ela cedeu, embora... saiba que muitos a julgariam mal, mas... Ela tinha dois filhos que estavam passando por grandes necessidades antes de conseguir aquele trabalho. Entendo que por isso ela se sujeitou e... dói pensar que, mesmo sem querer, também fui responsável pela morte dos meus pais... Meu pai amava minha mãe, amava muito... Ele era tão orgulhoso e... aceitar isso... Ele não resistiu... foi apenas fraco...

O loiro apertou mais forte a mão de Shun, não sabia o que dizer. Estava confuso, perdido, angustiado. Aquela história era terrível. Conhecia o quão ruim Dimitri poderia ser, mas... Deus! Aquele homem era um monstro!

— Por que se acha responsável? Você era só uma criança...

— Eu sei, mas... Depois do que aconteceu, meus pais pediram demissão. Lembro-me que eles discutiam e gritavam, penso que minha mãe deve ter contado isso a ele e... ele deve ter se sentido humilhado, traído, frustrado. Meu pai, que antes era um homem bom e carinhoso, começou a beber e a bater em minha mãe. Nos dias finais da nossa família, ele usava todo tipo de drogas, parecia precisar se manter entorpecido. Ikki o odiava, era notório o desprezo que meu irmão tinha por ele. Ikki sempre teve um caráter forte e decidido, bem mais que eu... Minha mãe adoeceu logo depois, uma doença estranha, costumo dizer que foi culpa e tristeza...

Shun limpou as lágrimas com a mão livre e ficou um tempo calado, os olhos mirando o nada como se estivesse em fuga da realidade.

— Desculpe. Não queria contar essa história horrorosa a ninguém, mas assim você entende o porquê do nosso encontro ter ficado tão marcado na minha mente. Eu só falei de você ao Ikki, mas ele não acreditou. Quando cheguei a Atenas, aí vi fotos suas nos jornais, eu nunca esqueceria seu rosto e... e fiz aquele mural, eu não sou louco...

— Sei que não é — falou Hyoga e beijou a delicada mão de Shun novamente. — Shun, eu me lembro que você estava machucado quando nos virmos pela primeira vez...

— Ah, aquilo foi uma briga de rua — sorriu sem jeito. — Uns caras implicaram comigo no mercado onde eu comecei a trabalhar, na verdade, era uma feira e eu fazia pequenos serviços: carregava o lixo, entregava as compras dos clientes, quando nos reencontramos na praça era isso que iria fazer, levar as compras de um cliente. Aquele homem com quem sair era o dono do mercado, ele é muito bondoso comigo até hoje.

— Feira... — murmurou Hyoga meio perdido.

— Ninguém dar emprego a um menor de idade, Hyoga, eu me virava como podia. Não me envergonho, era um trabalho digno embora cansativo.

— Eu sei que é um trabalho digno, Shun, eu só acho você tão frágil para ficar carregando peso em uma feira — riu nervoso. — Quando penso nesse trabalho, penso em homens de dois metros e cem quilos!

Shun riu divertido.

— Eu sei. O senhor Anatólio me deu o emprego por pena, eu sei, mas não recusei, eu precisava, precisava ajudar Marcel e Ilana, eles não tinham condições de me manter, seria uma despesa a mais.

Hyoga abraçou o mais jovem e beijou seus cabelos.

— Você é um anjo.

— Não sou...

— É sim, há tanta generosidade em você, Shun, generosidade suficiente para amar o filho do homem que destruiu sua vida.

Shun se afastou para encarar os olhos do loiro. Hyoga se surpreendia por nunca ter visto amargura nos olhos do rapaz, nem mesmo sinal daquele sentimento. Nunca poderia imaginar que Shun tivesse uma vida tão sofrida.

— Lembre-se, você não é filho dele, é filho do Camus. Você não poderia ter nascido de alguém ruim como ele, mas, mesmo que tivesse, ainda o amaria, porque foi você quem enxugou minhas lágrimas naquele corredor escuro e segurou minha mão...

O loiro tomou-lhe os lábios em um beijo carinhoso do qual Shun não fugiu, pelo contrário, enlaçou-lhe o pescoço e permitiu que a língua quente de Hyoga afagasse a sua com carinho e sensualidade. Sentia-se no céu, nada poderia dar errado agora, estava ao lado do homem que amava e que o amava também, coisa que nunca achou ser possível, e seu irmão estava ao seu lado.

Hyoga por sua vez, pensava que tudo em sua vida estava finalmente entrando nos eixos. Descobrira que o homem que mais respeitava e admirava na vida era seu pai, estava cursando finalmente a faculdade que queria, Dimitri estava definitivamente fora da sua vida e ganhara o melhor de todos os presentes: um amor verdadeiro. Estava mais que feliz.

Afastou-se do amado mirando seus rosto ruborizado e seus olhos brilhantes.

— Eu te amo, Shun.

— Eu também te amo.

O loiro afagou o rosto delicado do mais jovem.

— Vamos dormir, amanhã será outro dia e tudo isso ficará definitivamente para trás.

Shun concordou com um sorriso e se ajeitou na cama. Hyoga foi fechar a janela, antes, mirou as estrelas no céu, pedindo intimamente que aquelas palavras realmente se mostrassem verdadeiras.

Continua...

Caros leitores,

Eu disse que esse seria o penúltimo capítulo, mas infelizmente sou péssima em síntese e não deu para colocar nesse capítulo tudo que ele precisava, então é provável que a fic cresça mais alguns capítulos, mas não se preocupem, acho que no máximo mais três capítulo e um epílogo.

Obrigada a todos pela compreensão. Desculpa a demora na atualização, mas realmente as coisas estão difíceis.

Abraços afetuosos. Obrigada de coração a todos que me motivaram até aqui com críticas e elogios.

Boa leitura a todos

Sion Neblina

Cristal_black, aimihikari, pollymayfair,Yuy, Izabel, Kao-san, Sabakunoisis, milaangelica, _-_Patysinha_-_, Maya Amamiya, Maah_Rossi, MysticShaka, Alexia-Black, Pandora Hiei, Keronekoi, Hannah Elric.

A todos vocês, meu muito obrigada pelo carinho deixado.

Abraços afetuosos!

Sion Neblina

Postado em 14/09/2011