Olá queridos e pacientes leitores,

Até que esse não demorou muito não é?

Bem, espero que gostem, digamos que ele é o começo do fim.

Beijos a todos, perdoem os erros pelos texto e boa leitura a todos.

Sion

Vai ficar tudo bem

Capítulo 19

Quando Ikki deixou o quarto de Shaka, encontrou Milo no corredor sentando num banco. O loiro o esperava e percebeu de imediato que o amigo não estava nada feliz.

— Camus teve que sair para resolver algumas coisas, mas eu disse que ficaria até que conseguisse falar com você... — explicou.

O moreno se sentou pesadamente ao lado do amigo e escondeu o rosto nos braços, suspirando pesadamente, lutando para que sua dor não se tornasse lágrimas. O loiro não sabia como agir, porque nunca tinha visto Ikki tão terrivelmente abatido; ele sempre lhe pareceu alguém forte, centrado e, apesar do gênio inflamável, era o tipo de homem que analisava tudo e quase nunca se desesperava.

— Ikki... Eu... Cara, me diz como posso ajudá-lo? — perguntou pousando a mão nas costas do amigo.

— Eu não posso mais, Milo, não posso mais... — murmurou o moreno — antes era apenas eu, agora há Shun, eu preciso está bem para cuidar do meu irmão, da minha vida! Eu não posso ficar com ele...

Milo entendeu muito bem que era aquele ele. Abraçou os ombros do amigo o confortando.

— Acho melhor você ir para casa, descansar um pouco, você está exausto — propôs o mais velho. — Descanse e tente pensar nisso amanhã, com mais calma.

Ikki assentiu com a cabeça e Milo pegou o celular discando para Camus.

— Oi, Camus, estou levando o Ikki pra casa, okay? Qualquer coisa me procura lá. Shaka... Bom, ele está com o doutor Mu que pelo que você me disse também é amigo dele... Camus... Camus, posso falar? — Milo pediu tentando não perder a paciência. Ikki percebia que eles estavam discutindo por algum motivo, mas não estava muito interessa em nada naquele momento — Ikki não está bem... Certo, então vem ficar com o seu amigo que eu vou levar o MEU pra casa, okay? Tchau... — Milo desligou e bufou — Saco!

— Ele vai ficar bem, Milo. Ele está com o Mu, o Mu parece ser um bom amigo... — o moreno tentava se convencer daquilo, tentava acreditar que precisava se afastar de Shaka, precisava desesperadamente acreditar que aquela era a única saída. Precisava cuidar de Shun, seu irmão era sua prioridade e não poderia cuidar dele como deveria se tivesse que ficar sempre à disposição do artista, à disposição das suas excentricidades.

Shaka era um homem feito, Shun era apenas uma criança que estava abandonada e frágil. O irmão precisava muito mais dele que o loiro.

Respirou fundo. Antes de sair definitivamente da vida do homem que amava, precisava se assegurar de que houvesse alguém para cuidar dele. Por isso, esperou que o endocrinologista deixasse o quarto do indiano, precisava falar com ele. Mu lançou um olhar confuso ao rapaz sentado no corredor, mas não disse nada, foi para o seu consultório. Ikki ficou onde estava por um longo tempo pensando no que diria, então tomou coragem e foi falar com ele.

O médico estava examinando alguns exames e sorriu quando o viu, mesmo que percebesse o estado transtornado do rapaz. O moreno parecia exausto e amargurado, e o mais velho engoliu em seco, pensando que aquilo parecia ser um efeito que Shaka causava nas pessoas; uma paixão tão desenfreada que levava a morte...

— Oi, Ikki, sente-se por favor... — falou tentando se afastar dos próprios pensamentos sombrios.

— O que tenho a dizer é muito rápido, doutor — falou o moreno nervoso o que fez o endocrinologista franzir a testa. — Quero que cuide dele, só isso. Procure a mãe dele e converse, o Shaka precisa de cuidados... De cuidados psiquiátricos e...

— Você não suporta mais... — murmurou o médico interrompendo o mais jovem — Ikki, eu entendo...

— Não, você não entende! — falou o moreno com agressividade — Você não pode entender todo o inferno que foi minha vida e que agora eu só preciso de paz para cuidar do meu irmão e de mim mesmo apenas!

Ikki empalideceu um pouco e desviou o olhar, precisava controlar-se ou acabaria enlouquecendo.

Depois do desabafo do universitário seguiu-se um profundo silêncio. Mu tentava pensar em algo a dizer, mas não conseguia, pois compreendia muito bem o rapaz.

— Ikki, eu entendo de verdade — voltou a repetir. — Em seu lugar eu faria o mesmo, procuraria me salvar antes que morresse com ele, não é isso?

— Não...

— É sim. Você teme acabar como o tal rapaz que o esfaqueou. Teme acabar fazendo uma loucura.

— Você conhece o Aiolia?

— Não, conheço a história.

— Por isso fala assim. — riu com amargura — Você não o conhece, mas eu o conheci e sabe o que descobri? Descobri que ele era um cara normal, um cara legal como eu, alguém que seria incapaz de cometer um crime e olha em que o Shaka o transformou?

— Você tem medo de acabar como ele...

— Sim, eu tenho! Porque tenho alguém que depende unicamente de mim agora! E... e se eu enlouquecer...

Mu saiu de onde estava e tocou o ombro do rapaz. Olhou-o nos olhos, vendo toda a angústia que o dominava.

— Ikki, vá para casa. durma e volte amanhã se quiser — disse suavemente. — Eu cuidarei do Shaka, não se preocupe.

Ikki assentiu com a cabeça. Estava mesmo exaurido e precisava dormir, descansar. Havia sido mesmo muitas emoções para um único dia.

Sem protestar, deixou o consultório do endocrinologista e encontrou Milo que o esperava no corredor. O loiro sorriu para lhe passar confiança e os dois saíram da clínica.

A noite passou e o novo dia trouxe muitas decisões a serem tomadas. Era muito cedo quando Camus chegou às indústrias Cignus, poucos funcionários transitavam pelo local. Seguiu para sua sala como o objetivo de pegar suas coisas pessoais. A fissão entre as empresas só seria concretizada em dezembro, mas ele não queria mais dividir o mesmo espaço físico com Dimitri.

Pegou uma pequena caixa e começou a recolher suas coisas quando percebeu que estava sendo observado. Ergueu a cabeça e se deparou com Shiryu parado à porta.

— Bom dia, Shiryu.

— Bom dia, Camus, e boa sorte!

O ruivo sorriu.

— A você também, soube que pediu sua demissão.

— Sim. Eu pretendo investir em um negócio próprio, uma loja de produtos naturais.

— Ótimo, sempre é tempo de seguir nossos sonhos.

— Com certeza. Notícias do Hyoga?

— Hyoga está hospedado em minha casa e creio que ficará um bom tempo por lá. Devo passar na sala de vocês para pegar as coisas dele também. Ele não deseja encontrar o Dimitri então não virá aqui.

— Entendo, mas... você não recebeu o convite?

— Convite?

— Uma festa na mansão Cignus para comemorar o bom desempenho no primeiro semestre...

Camus nesse momento percebeu o envelope sobre a mesa.

— Bem, de qualquer forma eu não vou, divirtam-se por mim.

— Camus, sem querer me envolver nisso... — Shiryu falou com cuidado — seria bom que você fosse, isso mostraria profissionalismo, porque até segunda ordem, você ainda é um dos diretores da Cignus e acho que o Dimitri pode estar disposto a desmoralizá-lo.

Camus riu com sarcasmo e balançou a cabeça.

— Então nesse caso seria algo do tipo: mantenha seus amigos pertos e os inimigos mais perto ainda?

— Xeque-mate! — piscou Shiryu e se afastou — Por favor, dê lembranças a Hyoga, diga aquele ingrato que continuo sendo seu amigo.

— Certo. — Camus deixou Shiryu se afastar e finalmente pegou o envelope sobre a mesa.

***Uma chance** Para amar***

Seiya estava chegando à faculdade quando percebeu o carro de Saori parado, e a moça recostada nele sorrindo.

Aproximou-se dela sorrindo também, afinal, havia prometido que seriam amigos, mesmo a relação tendo acabado.

— Oi, Saori, aconteceu alguma coisa? — indagou preocupado.

— Sim, aconteceu — falou a jovem ainda sorrindo — estou precisando dos seus serviços. Temos que organizar uma festa importante na próxima semana e preciso da minha equipe de garçons o que me diz?

Seiya coçou a cabeça.

— Na próxima semana, quando?

— No sábado exatamente, mas a diária será o dobro, porque fechamos novamente com a Cignus.

— Festa da Cignus? — Seiya ponderou — Certo, tudo bem, acho que posso ir, mas quando ao Ikki, eu não sei, acho que ele está ganhando um ótimo dinheiro com outra coisa...

— De qualquer forma, fala com ele e vê se tem mais alguém que possamos chamar. Parece que esse evento será bem maior que o outro.

— Tudo bem...

— Ah, Seiya...

— Hum... — os olhos castanhos se voltaram para ela.

— Eu... bem, eu gostaria que você fosse a essa festa comigo, mas não como garçom, como meu amigo, alguém que possa me ajudar a organizar as coisas e não para servir mesas, entende?

— Entendo sim. Tudo bem, portanto que o dinheiro seja bom! — riu divertido e Saori riu também.

— Pode deixar. Falarei com minha mãe para que você receba um extra, mas precisa ir vestido em um terno elegante.

— Ah, ta bom, acho que o Milo me ajuda nisso! Bem, agora preciso ir pra aula — deu um beijo na bochecha da garota —, tchau, Saori.

Saiu correndo, subindo as escadas em direção a faculdade. Saori acenou satisfeita. Não entregaria seu namorado de mãos beijadas para outra pessoa, amava Seiya e lutaria por ele. Aproveitaria o carinho e a amizade que ele lhe dedicava e tentaria sim reconquistá-lo. Tentaria uma última vez.

Ikki acordou com dor de cabeça. A noite anterior foi a pior da sua vida, pior do que a noite da morte do seu pai, da morte da sua mãe. Ali, ainda havia o consolo; a dor de ambos havia parado, mas agora...

Ele não era homem de chorar, mas não foi um dia fácil o que tivera, e ele chorou. Chorou. Coisa que há muito tempo não fazia. Saber do que aconteceu a Shun e romper com Shaka foi demais até mesmo para ele.

Olhou o relógio; deuses! Já passava das nove e ele ainda estava na cama. Foi para o banheiro e tomou um banho frio da cabeça aos pés. Isso com certeza o ajudaria a melhorar, além de melhorar sua aparência que estava péssima. Voltou para o quarto e se vestiu em um jeans e uma camiseta. Em alguns minutos estava pronto para sair.

Encontrou Milo à mesa do café lendo tranquilamente o jornal.

— Bom dia — cumprimentou se sentando e enchendo uma caneca com café pra si.

— Bom dia, Ikki.

— Por que não me acordou?

— Você estava péssimo, precisava dormir.

— Preciso ver o Shun.

— O Shun está bem, é você quem me preocupa.

— Estou bem, fiz o que é certo — falou antes de sorver o café amargo.

— Tem certeza?

— Não enche, Milo, isso não vai me ajudar.

— Desculpe — volveu o escorpiano. — Bem, preciso sair, tenho uma reunião com Dracon Seferis...

— Então aceitou administrar os negócios da família?

— Não aceitei e nem vou, mas ele insiste que precisa da minha assinatura em alguns papéis. Parece que a empresa entrará em um negócio grande e que o patrimônio pessoal do meu pai será a garantia; então, teoricamente, todos os herdeiros precisam concordar.

— E teoricamente você é herdeiro? — ironizou Ikki.

— Sim, só teoricamente — sorriu deixando a caneca sobre a mesa. — Bem, agora eu preciso ir, nos encontramos mais tarde.

Milo saiu e Ikki, assim que finalizou seu café, pegou sua moto e seguiu para encontrar o irmão.

Chegou ao quarto de Shun e encontrou Hyoga conversando com ele enquanto o mais novo tomava o café da manhã. Eles riam e pareciam bem à vontade, coisa que o incomodou um pouco, era como se fosse um intruso ali.

— Bom dia — sua voz grave pareceu ainda mais gutural sob as paredes do quarto. Shun sorriu abertamente e estendeu a mão o chamando.

— Ikki, esse é o Hyoga, aquele que você achava que fosse meu amiguinho imaginário! — riu Shun e conseguiu arrancar um meio sorriso do irmão.

— Já nos conhecemos, Shun. Como vai Hyoga?

— Estou bem, Ikki. E então? Notícias do Shaka? — o loiro perguntou sem pretensão, mas sentiu que falou demais quando o moreno franziu as sobrancelhas antes de responder.

— Ele está bem — falou seco e se sentou ao lado de Shun na cama, tocando o ombro do irmão e não querendo prolongar a conversa com o russo. — Quando você sai daqui, Shun?

— Hoje. O médico já assinou minha alta, mas... aconteceu alguma coisa, Ikki? — indagou preocupado, percebendo que o irmão não estava nada bem.

— Não aconteceu nada, está tudo bem — adiantou-se a responder e sorrir, querendo passar confiança ao menor.

Shun olhou para ele e depois para Hyoga, sentia que eles compartilhavam de algo que estava lhe sendo negado. Encarou o loiro que negou com a cabeça e ele entendeu que era algo que Ikki deveria lhe contar depois.

— Vamos arrumar suas coisas? — continuou o moreno desconfortável com o silêncio.

— Eu não tenho muitas coisas, o Hyoga já arrumou tudo — explicou afagando o rosto do irmão. Ikki parecia tão triste que isso o preocupava.

— Ótimo então. Assim que o médico chegar, eu vou levá-lo para casa.

Hyoga chegou a abrir os lábios para contestar aquilo. Queria que Shun fosse para o apartamento de Camus, mas não achou que tivesse aquele direito. Ikki era o irmão e tutor legal, Shun tinha apenas 17 anos e deveria ficar com sua família.

Shun percebeu a decepção do loiro e segurou sua mão ao mesmo tempo em que segurava a mão do irmão.

— Vocês são as pessoas mais importantes da minha vida — disse sorrindo — e espero que compreendam o lugar que cada um tem nela...

O Amamiya mais velho franziu a testa. Não gostou daquilo, não gostou mesmo. Lançou um olhar atravessado a Hyoga, mas nada disse, deixaria aquela discussão para depois, para quando Shun estivesse melhor. Naquele momento queria apenas que ele estivesse bem, então forçou-se a acenar com a cabeça e afagar os cabelos do irmão. Depois conversariam seriamente, só depois que tudo estivesse em seu devido lugar.

***Uma chance**para amar***

Shaka ajeitou o rabo-de-cavalo e notou que havia um hematoma em seu rosto, nada muito gritante, mas estava um pouco roxo. Ajeitou a jaqueta que usava e pensou em apagar a luz, mas o gesto lhe trouxe lembranças que estava determinado a deixar para trás.

— Pronto?

A voz de Mu chamou sua atenção e ele sorriu de leve.

— Sempre estou pronto, meu caro — disse e estendeu a mão ao médico —, mais uma vez, obrigado por tudo.

Mu segurou-lhe a mão, deixando-a mais tempo dentro da sua do que Shaka gostaria. O médico encarou seus olhos e depois tocou sua face com carinho, causando um pequeno recuo no corpo do indiano que não esperava por tal gesto.

— Sempre na defensiva, não é? — falou com carinho — Por quê?

— Não tenho culpa por ser assim — retorquiu incomodado se afastando da mão do amigo.

— Engana-se, a culpa é toda sua, Shaka.

— Acha mesmo? — riu com escárnio.

— Sim. Culpa desse medo profundo que você tem de amar e de ser amado.

O loiro não respondeu, deixou que ele continuasse.

— Sabe, sempre que você tinha uma nova crise, sempre que você deixava de tomar insulina propositalmente, eu sabia que sua intenção não era morrer...

— E qual seria?

— Provar aos outros que você não era um homem confiável, que você não merecia o amor deles.

— Isso é ridículo...

— Não é — Mu o interrompeu o mirando de forma séria, não deixando que ele escapasse. — Até mesmo essa postura de se sentir superior, melhor que todos, é apenas uma máscara para que eles nem mesmo se solidarizem por você. Você não quer nem o amor deles e nem muito menos a piedade... Na verdade, você acha que deve morrer sozinho. Não sei o que causa toda essa culpa e frustração em você, Shaka, mas temo que no final acabe conseguindo o que quer.

Shaka passou alguns segundos calado antes de encarar o amigo nos olhos com firmeza.

— Terminou?

— Sim — Mu falou vencido.

— Então até mais, Mu — disse e passou pelo médico em direção a porta.

— Só mais uma coisa — estancou os passos ao ouvir a voz do amigo, mas não se virou. — Procure outro médico para cuidar de você. Não assistirei sua morte como figurante impotente, Shaka; se deseja realmente morrer, faça isso sozinho. Sozinho como sempre preferiu ser... Meu amigo...

O médico não se virou para olhá-lo. Uma lágrima molhou seu rosto ao dizer aquelas palavras duras. Não recebeu nenhuma réplica, somente ouviu os passos do indiano se afastando. Sabia que a partir dali, estava fora da vida de Shaka Drevaj Phalke.

O artista andou a passos decididos pelo corredor de saída da clínica, mas não conseguiu avançar muito, encontrou seus pais que procuravam por seu quarto aflitos.

— Filho, por que não nos chamou? Eu só soube agora... — Surya começou a falar angustiada — quando vai tomar jeito, Shaka? Quando começará a nos ver como seus pais e não seus inimigos?

O loiro não soube o que falar, nunca sabia o que falar nessas horas, nas horas em que a emoção tentava dominá-lo. Permitiu que os pais o abraçassem, fazendo dele recheio de um sanduíche. Então, apoiou a testa no ombro de John e murmurou algo que nunca pensara poder dizer: desculpa.

John e Surya apertaram o filho com mais força, enquanto acarinhavam suas costas e cabelos.

— Vai ficar tudo bem, filho, eu prometo — disse o homem mais velho fazendo uma promessa a si de que nunca mais permitiria que Shaka o mantivesse longe.

Eles o levaram para casa. Shaka foi calado, com os pensamentos ainda nas palavras de Mu, não conseguia apagá-las da sua mente. Será que estava mesmo destinado a morrer sozinho? Será que era isso que queria?

— Mãe, eu estava brincando...

Surya não entendeu as palavras do filho. John também não, e eles trocaram um olhar confuso. Estavam os três no banco de trás do carro e até mesmo o velho motorista olhou-os confuso pelo retrovisor.

— Eu nunca me perdi — continuou Shaka de forma baixa e distante, como se fizesse uma dolorosa volta ao passado ao dizer aquilo —, eu... eu não queria que se machucasse...mãe... me perdoe...

— Tudo bem, meu anjo, tudo bem — Surya beijou os cabelos do filho. Estava confusa, angustiada. Não entendia muito bem o que Shaka dizia, mas haveria tempo de se esclarecer tudo, haveria tempo de recuperar o tempo perdido.

***Uma chance**para amar***

"Okay, obrigado, eu... eu fico feliz em saber que ele está bem..."

— Com quem você está falando, Ikki? — Shun perguntou curioso e o irmão tratou de se despedir da pessoa e colocar o celular no bolso.

— Um amigo, está pronto? — sorriu para o irmão e afagou seus cabelos. Shun assentiu com a cabeça.

O mais velho pegou a sacola com as coisas do irmão e enlaçou seus ombros. Eles deixaram o quarto e encontraram Hyoga que chegava afoito pelo corredor e parou ofegante quando os viu. Seus cabelos estavam molhados ainda pelo banho recém-tomado. Ele mirou Shun um tanto decepcionado.

— Iria embora sem falar comigo? — perguntou tentando manter a voz o mais calma possível, embora o ciúme o corroesse. Sabia que Shun estivera aflito para encontrar o irmão e compreendia que ele não quisesse se separar dele tão cedo, mas ser preterido assim era doloroso.

— Não, Hyoga! — Shun se adiantou e tocou-lhe o rosto — Iríamos esperá-lo, o Ikki ainda precisa assinar alguns papéis na recepção e eu ficaria lá esperando por você.

Hyoga respirou fundo aliviado e sorriu, segurando a mão de Shun e a beijando.

— Desculpe por ter pensando isso...

— Podemos deixar isso pra depois? — Ikki interrompeu enfezado — O Shun precisa descansar...

O Amamiya mais novo coçou os cabelos pensando que não seria fácil fazer aqueles dois se entenderem. Hyoga franziu o cenho e lançou um olhar de desafio ao moreno.

— Eu, mais que ninguém, sei que ele precisa descansar — enlaçou o ombro do menor. — Vamos, Shun, eu levo você pra casa...

— Espere aí...

— É a lógica, você veio de moto não foi? — o russo o interrompeu antes que ele prosseguisse — Eu estou de carro, o Shun vem comigo.

E saiu puxando o menor que olhava o irmão com olhos assustados. Ikki ficou um tempo parado no corredor sem reação, quando pensou em dizer algo, Camus apareceu falando com alguém ao telefone.

— Oi, Ikki — disse o ruivo sério —, podemos conversar?

— Sinto muito, Camus, mas agora...

— São apenas cinco minutos, podemos usar o quarto que estava ocupado pelo Shun mesmo — continuou o mais velho firme e de uma forma que não admitia contestação.

Ikki empertigou-se e aceitou, entrando com Camus no quarto.

— Olha, eu faço questão de devolver todo o dinheiro que você usou para cuidar do Shun, aqui, certo? Não sei quando poderei fazer isso, mas eu farei — falou de uma vez, porque seu orgulho não admitiria mesmo ficar devendo algo a Camus. Inconscientemente ele não simpatizava com o ruivo por ele ter sido amante de Shaka.

— Não é sobre isso que quero falar, rapaz — volveu o ruivo de forma cortante o encarando nos olhos.

— Fale de uma vez então — devolveu da mesma forma.

— Por que abandonou o Shaka justo quando ele mais precisa de você?

O moreno riu e mirou o teto. Ele deveria ser mesmo muito abençoado para estar recebendo aquele tipo de cobrança.

— Não é de mim que o Shaka precisa, ele precisa de um psiquiatra!

— Não ouse falar assim dele — interrompeu Camus com frieza, mas sua voz fazia uma advertência perigosa —, o que há com você? O Shaka está um farrapo desde que começaram a se envolver! É à sombra daquele homem orgulhoso e altivo que um dia foi, só posso supor que você seja o responsável por isso e agora o abandona?

Ikki exasperou-se e deu um passo na direção do francês o olhando nos olhos.

— Você o conhece? Tem certeza que o conhece? Se o conhecesse jamais diria uma coisa dessas! Aquele homem orgulhoso e altivo nunca existiu! O Shaka tem tantos problemas psico-afetivos que você seria incapaz de contar! Não ouse me julgar, você não sabe do que está falando!

Camus não recuou perante a postura agressiva do moreno, ao contrário, contra-atacou.

— O que eu sei é que há alguns meses ele parecia muito bem! Deuses! — Camus suspirou angustiado — Quando o revi naquela festa, naquela mesma festa em que vocês se conheceram, eu o achei mais lindo do que antes, ele parecia um deus desfilando entre mortais — mirou Ikki com desprezo — Aí veio você e, sinto muito, o que vejo nele agora é dor e desespero. Não o estou acusando de ser o causador, mas como ousa abandona-lo justo agora? Justo quando ele precisa tanto de você...

Ikki sentiu aquela afirmação como uma punhalada, mas não deixaria Camus intimidá-lo ou transformado em vilão daquela história, ele não era!

— Pense o que você quiser — falou e ameaçou sair, mas a porta se abriu e Milo apareceu.

O loiro mirou os rostos dos dois homens na sala.

— Ikki, Camus, o que...?

— Eu preciso ir, Milo, o Shun está me esperando e eu tenho que levá-lo pra casa — falou o moreno passando pelo amigo e saindo. Milo mirou o amante com uma grande interrogação brilhando nos olhos.

Camus ajeitou os cabelos que pareciam um tanto desalinhados.

— Eu precisava falar alguma coisa, Milo, ou explodiria — confessou.

— Que alguma coisa?

— Algumas coisas ao Ikki. Geralmente não me envolvo na vida das pessoas, mas Shaka é meu amigo e eu não suporto vê-lo do jeito que estar desde que começou a se envolver com... seu amigo! Já soube que eles terminaram? Aliás, o Ikki o deixou.

— Como soube disso?

— Liguei para ele hoje cedo, estava preocupado, como disse, ele é meu amigo — volveu cansado — ele está tão frágil, frágil como nunca vi antes.

Milo entreabriu os lábios.

— O que você disse ao Ikki? — interrogou preocupado.

— Tudo que eu pensava. Que ele é um cretino, covarde que está abandonando o Shaka no momento que ele mais precisa!

— Ah, Camus, como você pode fazer isso! — revoltou-se o mais novo e o ruivo o encarou surpreso.

— Como pude fazer isso? É exatamente o que penso. Sinto muito se ele é seu amigo, mas...

— Você não sabe de nada! — irritou-se o grego — Não sabe de nada do que ele passou esse tempo inteiro ao lado daquele loiro, filho da puta!

— Não fala assim do Shaka!

— É exatamente isso que ele é! E se quer saber o Ikki está muito certo, ou ele saía dessa barca furada que é seu amigo ou iria acabar indo para o buraco junto com ele!

Camus respirou fundo para acalmar seus sentimentos e encarou o amante um tanto decepcionado.

— Vejo que temos noções divergentes de amor e lealdade.

Milo revirou os olhos e bufou:

— Camus, não fale de algo que você não conhece. Eu sei tudo que o Ikki passou para ficar ao lado do Shaka. O Ikki o ama e se ele decidiu se separar dele agora é porque não suporta mais. Já parou para imaginar tudo que ele passou? Puxa, Camus, ele tem 22 anos, um irmão de 17 pra cuidar, um irmão que passou meses perdidos em Atenas e que ele encontrou com uma perfuração de faca no abdômen, internado em uma clínica. Imagina todo esse peso sobre você? Agora se imagina com 22 anos!

Camus engoliu em seco. Compreendia o que Milo dizia, mas ainda assim a única coisa que ocupava sua mente era que Shaka parecia bem antes de Ikki e que estava mal depois de Ikki, isso era uma evidência, os motivos não importavam.

— Mesmo sendo jovem, ele já é homem o suficiente para saber o que faz. O Shaka está apaixonado por ele e eu nunca o vi tão dependente de alguém — sorriu com ironia —, você deve entender muito bem de dependência afetiva, Milo, então deve compreendê-lo...

— Não usa meu passado para argumentar a seu favor — advertiu irritado —, não use a confiança que te dei contra mim, Camus Verseau, ou vou me sentir no direito de fazer o mesmo!

Os dois se encararam em desafio. Camus recuou percebendo que havia ultrapassado a linha de segurança do relacionamento.

— Não foi minha intenção — voltou atrás. — De qualquer forma, não ficarei aqui discutindo isso. Eu tenho meu ponto de vista dessa história...

— Um ponto de vista cego — ironizou Milo, e Camus o encarou duramente.

— Eu tenho meu ponto de vista dessa história — continuou sem se abalar — e não é você quem vai mudá-lo.

Milo inspirou e expirou o ar profundamente e apoiou as mãos no quadril.

— Okay, Camus. Agora podemos ir? Estou cansado de discutir dentro de um quarto de hospital.

—Sim, vamos. — Camus passou por ele e Milo se obrigou a segui-lo. Tinha certeza que a noite não iria terminar como esperava.

***Uma chance**para amar***

Ikki encontrou com Shun e Hyoga os esperando na entrada do hospital. Claro! O loiro metidinho não sabia onde ficava sua casa e teria que seguir sua moto se quisesse levar Shun. Claro que ele não pretendia levar o irmão para casa na moto, tomaria um táxi, mas aquele metido...

Respirou fundo para não descontar a irritação, frustração, mágoa e tantos outros sentimentos que Camus havia lhe despertado, no que parecia ser o namoradinho do seu irmão. Também não era hora para perguntas e cobranças, faria isso depois, quando Shun estivesse completamente recuperado.

— Vamos — disse passando pelos dois —, siga-me, garoto.

Montou na moto e esperou que Hyoga e Shun estivessem no carro para guiar até sua casa. Não era longe, chegaram em alguns minutos. Ikki levou as poucas coisas do irmão para o quarto que dividiriam e Shun observou o ambientes simples, mas aconchegante e sorriu. Hyoga também observava o local em silêncio.

— Queria que você ficasse comigo — falou depois que Ikki saiu da sala por alguns instantes. Shun baixou o olhar e segurou-lhe as mãos.

— Muito cedo para casar, não acha? — indagou rindo e o loiro riu também.

— Eu sei, mas eu queria cuidar de você. Pode ser apenas impressão minha, mas acredito que seu irmão não pretende deixar que nossa vida seja muito fácil.

— O Ikki é um pouco protetor, mas não é um bicho papão, não se preocupe com ele.

Hyoga beijou as mãos de Shun e se afastou um pouco para olhá-lo nos olhos.

— Eu preciso ir agora...

— Fica mais um pouco...

— Shun, acho que você e seu irmão precisam de tempo para se entender e definir algumas coisas — afagou o rosto claro do adolescente. — Eu volto amanhã, certo?

— Tudo bem — concordou o mais novo e deixou que o loiro caminhasse para a porta. — Hyoga... — Ele se virou e seus olhos se encontraram — eu te amo...

— Eu também te amo — saiu em seguida.

Shun ficou mirando a porta que se fechou sentindo um calor estranho no peito, o calor de uma felicidade nunca vivida que pisava agora a terra estrangeira que do seu coração.

— Shun? — a voz de Ikki o despertou dos seus pensamentos e ele se voltou para o irmão ainda sorrindo.

— Minhas coisas estão na casa da Ilana, podemos pegar mais tarde se você tiver algo importante a fazer — falou chegando perto do irmão —, mas se não tiver, eu gostaria agora de saber quem é Shaka...

Ikki engoliu em seco, mas afagou os cabelos macios do irmão.

— Tudo bem, precisamos mesmo conversar.

— Sim, precisamos. Conversar e resolver definitivamente todos os nossos problemas, Ikki. A partir de agora, eu não vou me permitir infelicidade.

— O que quer dizer?

— Que você não deveria fazer isso consigo também. Não importa qual seja os motivos.

Os olhos verdes de Shun buscaram os azuis escuros do irmão, mas eles estavam voltados para o chão.

— Por que está me dizendo isso? — a voz do moreno foi cansada.

— Não sei, mas eu percebo que você está tão profundamente infeliz, meu irmão, que chega ser angustiante.

— Shun...

— É o Shaka? Quem é esse rapaz que o deixou tão magoado, Ikki?

O mais velho não quis responder; não se sentia a vontade para falar sobre Shaka com Shun ainda. Sabia que chegaria o momento de conversar sobre tudo, inclusive sobre o tal namoradinho do irmão, mas estava cansado e completamente sem forças para isso.

— Podemos conversar sobre isso depois? — pediu exaurido. Esperava que o irmão compreendesse.

O Amamiya mais novo mordeu o lábio inferior e com um suspiro assentiu com a cabeça, também queria tomar um banho e descansar. Foi o que fizeram e depois ambos foram para o quarto. Havia apenas uma cama de casal e eles se deitaram lado a lado. Shun suspirou e se deixou cair no travesseiro sentindo o cheiro do irmão e sorrindo ao lembrar-se da infância quando aquele cheiro era seu emblema de proteção.

"Só não quero estar sonhando..." murmurou enquanto fechava os olhos com um sorrindo.

— Hum? — Ikki ouviu e levou a mão aos cabelos do irmão.

— Nada, Ikki, foi só um pedido... — resmungou e caiu no sono.

Ikki ficou mirando o irmão por um tempo enquanto afagava seus cabelos, sorriu.

— Bons sonhos, Shun — sussurrou e se ergueu. Tinha algumas coisas para fazer e ainda era muito cedo. Precisava resolver alguns problemas na Cignus referentes ao estágio (Afrodite com certeza queria matá-lo) e Seiya havia ligado avisando sobre um novo bico que garantiria um dinheiro legal. Agora todo dinheiro seria bem vindo; queria iniciar uma nova etapa em sua vida, algo que fosse seu e de Shun e não permitiria que seus sentimentos o impedisse de fazer o certo.

Seu telefone tocou quando ele estava na cozinha, verificando se tinha coisas saudáveis que Shun pudesse comer e percebendo que teria que ir ao supermercado. Ele não conhecia o número.

— Alô?

— Ikki?

— Sou eu.

— Sou Surya, mãe do Shaka...

Seu coração falhou uma batida e ele perdeu a voz por alguns instantes.

— Ikki?

— Ah... sim, pois não... — respondeu sentindo um nó incômodo na garganta.

— Preciso muito falar com você...

— Olha...

— Por favor, é muito importante, prometo que será a última vez que o incomodarei.

O moreno não resistiu. Fez uma anotação mental do local dito por ela, deixou um bilhete rápido para Shun pendurado na geladeira, pegou o capacete e saiu.

Em sua casa, protegido pelos cuidados do seu pai, Shaka pensava sobre todos os acontecimentos passados. Não poderia culpar Ikki, não culpava. Pelo contrário, lhe dava total razão, era mesmo o momento dos dois se separarem, de cada um seguir sua vida. Ele precisava começar enfrentar sozinho seus problemas e talvez aquilo o destruísse completamente, então... Era melhor que fosse destruído sozinho. Precisava salvar o homem que amava da forma mais profunda que seu coração já amou alguém.

— Pai... — chamou o progenitor que estava lendo uma revista, sentado ao lado da sua cama.

— Sim, filho?

— O senhor ainda tem aquela propriedade na Suíça?

John engoliu em seco e afastou a revista olhando nos olhos do filho.

— Sim, ainda temos, por quê?

— Preciso voltar lá.

— Depois de tanto tempo, Shaka? Por que, filho? Acha que isso lhe fará bem? — indagava o inglês preocupado.

— Eu preciso — sorriu complacente tentando apagar aquele semblante preocupado do pai — Acho que está na hora de tirar os velhos esqueletos do armário. Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Continua...

QUERIDOS, MUITO OBRIGADA PELOS REVIEWS! AINDA NÃO PUDE RESPONDER TODOS, PORQUE NÃO GOSTO DE RESPONDER SÓ POR RESPONDER E O TEMPO ANDA IMPLICANDO COMIGO, MAS SAIBAM QUE LI E ADOREI TODOS!

OBRIGADA A AGHATACHAN, MYSTICSHAKA, IZABEL, MAYA AMAMIYA, VIRGO NYAH, SABAKUNOISIS, POLLYMAYFAIR, SAYURI HATAKE, THAINARA_ALINE, AIMIHIKARI, ALEXIA-BLACK, DDD, BIA ELRIC, SHUNNY, MILA ANGÉLICA,MALUQUINHA X, KERONEKOI, PATYSINHA.

BEIJOS!

SION NEBLINA

POSTADO EM 28/10/2011