Olá, queridos leitores,

A maioria dos que acompanham essa fic, acompanham todas minhas outras fics e já sabem do comunicado que tenho feito a respeito de sérios problemas pessoais que podem me impedir de continuá-las, pelo menos por enquanto, então não vou me alongar nessa conversa. Enquanto ainda dá, continuo escrevendo e eis um novo capítulo de Uma chance para amar. Espero que gostem, perdoem-me os erros e tenham paciência comigo.

Beijos a todos e boa leitura.

Sion

Catarse

Capítulo 20

A reunião com os acionistas da empresa de Aristóteles Séferis era a coisa mais monótona da qual Milo já havia participado nos últimos 7 anos. Sua vontade era parar tudo e perguntar onde ele poderia assinar e depois ir embora; mas o não fez. Cumpriu seu papel até que a bendita reunião acabou.

Seu pai não estava presente, adoentado, ele seguia internado. Soubera que seus irmãos estavam de volta à Atenas preocupados com a saúde do progenitor, e Milo queria e não queria ir visitar o velho Aristóteles. Queria, porque, apesar de tudo, ele era seu pai, não queria, porque não tinha nada a dizer a ele.

— E então, o que achou? — a voz de Dracon o tirou dos seus pensamentos e ele sorriu de maneira fraca. Já não era o garotinho apaixonado, mas estar perto de Dracon lhe causava um profundo incômodo e ele não sabia muito bem o motivo.

— Cansativa e monótona. Sendo sincero, Dracon, espero assinar logo esses papéis e não ser mais incomodado pelos Séferis.

— Os Séferis ainda são sua família...

— Não são. No momento que precisei deles, todos me deram as costas — inspirou fundo, não queria se colocar naquela situação de vítima, mesmo porque, não era. Errara muito também e tinha consciência disso, não ficaria ali tentando achar culpados; era uma atitude de gente fraca e isso ele não era.

— Milo, não há chance de uma reconciliação? — Dracon perguntou visivelmente esperançoso, mas o sobrinho balançou a cabeça negando com um sorriso.

— Não — declarou. — Agora tenho que ir, espero que só me chame novamente para assinar os tais papéis.

— Você tem certeza que é o que quer?

— Tenho.

Milo não deixou que o tio argumentasse; saiu da sala. Queria do fundo do coração apagar as marcas do seu passado e começar uma vida completamente nova.

***Uma chance**para amar***

Ikki encontrou Afrodite atrás da sua mesa fazendo algumas anotações. Quando o loiro o viu, sorriu com ironia e estalou os dedos.

— Quem é vivo sempre aparece! — disse o sueco — pensei que não se lembrasse mais de que trabalha aqui.

— Desculpe, Afrodite, andei ocupado — falou sério e se sentou na frente do mais velho — Eu quero que você calcule minhas horas para que eu leve a faculdade. Não pretendo terminar meu estágio aqui.

Os olhos azuis de Afrodite se arregalaram.

— Como? Ikki, já está perto do final do ano, isso é burrice — concluiu o loiro. — Além do mais, por mais que você seja um estagiário "turista", continua sendo um bom estagiário e eu preciso de você.

— Afrodite, minha vida está uma bagunça, eu não estou com muito tempo para pensar em trabalho e...

— Mas deve estar precisando de dinheiro não? — interrompeu o loiro e suspirou. — Okay, Ikki, eu abono suas faltas e vejo o que posso fazer para aumentar sua bolsa, mas se você sair agora, nesse momento crítico para a Cignus, você vai ferrar com meu setor.

Ikki sorriu de canto. Afrodite era um cara legal e ele não queria decepcioná-lo e nem deixá-lo na mão. Além do mais, precisava trabalhar e mesmo que o dinheiro da Cignus não fosse lá grande coisa, ainda era dinheiro.

— Tudo bem, Afrodite, mas eu preciso de mais três dias para organizar algumas coisas, certo? Depois volto ao meu horário efetivo, pode ser assim?

— Um dia a mais ou a menos não faz diferença, Ikki — falou o loiro com um sorriso complacente —, mas advirto que tem muito trabalho acumulado...

— Tudo bem e obrigado, Afrodite — ele se ergueu e saiu.

Afrodite voltou a examinar alguns papéis e só então enxergou o colega que estava parado à porta da sua sala.

— Vai ficar aí se fingindo de estátua até quando, Shura?

O espanhol pareceu se libertar dos seus pensamentos e se aproximou da mesa do loiro e sentou-se à sua frente.

— Desculpe-me, vim falar algo, mas acabei esquecendo.

Afrodite sorriu compreensivo.

— Está sendo muito duro para você, não é?

— Sim, está, mas estou disposto a esquecer.

— Sei que é doloroso...

— O mais doloroso é pensar que nada significou para ele, Afrodite, nada... Ele já está com outro...

— Não pense assim — Afrodite estendeu a mão e tocou o braço de Shura —, acho que está mantendo muito o foco no Shiryu. Você deve tentar, pelo menos tentar, esquecê-lo, Shura. Esse amor não está sendo bom pra você, está transformando-o em algo que não é; um homem amargo, depressivo, agressivo, maldoso... Quantos anos nos conhecemos? Cara, você não é isso que se tornou...

Shura assentiu com a cabeça e se ergueu. Sorriu de lado começando a caminhar para fora da sala.

— Eu voltarei a ser quem sou — falou e saiu, deixando um sorriso nos lábios do amigo.

***Uma chance**para amar***

Era um sofisticado, mas acolhedor restaurante indiano. Ikki entrou e logo viu a mãe de Shaka sentada o esperando. Aproximou-se e a cumprimentou educadamente, mas de forma fria, se surpreendeu quando a mulher se ergueu e o beijou no rosto.

— Em minha cultura, quando um filho se une a uma mulher, ela passa a ser nossa filha também. Bem, eu sei que não é esse o caso e que você não é uma mulher, mas entendo que é a pessoa que meu filho escolheu, então eu quero tê-lo como um filho também.

Ikki calou-se. Resolveu não argumentar que ele e Shaka não eram mais... na verdade nunca foram muita coisa. Sentou-se de frente a ela e esperou que falasse sem manifestar a mínima vontade de iniciar a conversa. Surya pediu chá e ele apenas água, ela começou a falar quando o garçom se afastou.

— Ikki, eu sei que não nos conhecemos muito bem, mas... o meu filho precisa de você...

O moreno sorriu com amargura e pendeu a cabeça para o lado. Não esperava por aquilo, não esperava mesmo e não sabia muito bem o que dizer. Todavia, aquela declaração direta despertou nele, mais angústia e raiva.

— Incrível como todos estão preocupados com o que o Shaka precisa. Há mesmo motivos para que ele seja tão egocêntrico — falou, mas sem agressividade, demonstrando apenas um cansaço absurdo — Desculpe-me, senhora, mas... bem, eu cheguei ao meu limite, não consigo mais, não posso mais, entende? Não é que eu não queria, é que... — não conseguia achar palavras que explicassem seus motivos — Desculpe...

Surya sorriu e cruzou as mãos sobre a mesa o observando atentamente.

— Não pense que sou insensível aos seus problemas, meu jovem, não sou — disse Surya. — Mas quero que saiba que ninguém nunca fez tão bem ao meu filho quanto você e, como mãe, é minha obrigação tentar. Além do mais, percebo grandes mudanças no Shaka, mudanças que você não compreende porque não o conhece tanto, a fundo, mas meu filho está tentando, ele está tentando sobreviver...

— Eu também... — confessou dolorido, massageando as têmporas.

— Eu sei. O meu filho é mesmo uma pessoa difícil de lidar, mas não é um mau rapaz. Culpo-me ao imaginar o que uma noite perdido em uma floresta escura fez com o psicológico do Shaka...

— Não foi só isso — interrompeu Ikki — Ele se culpa pelo que aconteceu a senhora, ele se culpa por ter ficado doente e... por ter dado trabalho a senhora e seu esposo, por isso não aceita ajuda de ninguém, por isso prefere... morrer sozinho...

A angústia se estampou na face bonita da mulher.

— E você, sabendo de tudo isso não pode perdoá-lo, Ikki? — a bela mulher o encarou visivelmente desesperada — Por favor, peço apenas uma chance.

— Por quê? — indagou confuso — Eu... eu não sou a pessoa que a senhora deveria querer para seu filho, não tenho nada a oferecer a ele, não sou ninguém!

— Deuses, Ikki, você é a pessoa que evitou que meu filho caísse de vez! Eu não sei o que seria do Shaka se você não aparecesse na vida dele, entende? Você é o único que pode ajudá-lo a sobreviver.

O desespero com que a mulher falava tocou algo no íntimo do moreno e ele engoliu em seco.

— Eu falei com seu esposo ontem... — confessou baixando o olhar — Só queria saber como ele estava...

— Eu sei, John me falou. Por isso, achei que valia a pena tentar mais uma vez...

— Eu... eu preciso pensar...

— Eu sei, meu jovem — a mulher sorriu compreensiva —, sei que não é fácil, mas eu só peço mais uma chance, só mais uma chance...

— O Shaka deveria pedir isso e não a senhora — falou magoado. — Ele nem mesmo tentou evitar que eu partisse...

— Sim, porque o ama e achou que isso era o melhor para você. Não se engane, Ikki, a chance que peço não é só para o Shaka, é para você também. Sinto que sufoca profundamente uma dor, assim como meu filho. Pode enganar a todos com essa pose de durão, mas não a mim que tenho muito mais vivência que você.

Ikki respirou fundo e não respondeu nada. Seu estômago se contorceu. Lembranças há muito sufocadas tentaram aflorar e por isso ele resolveu interromper aquela conversa.

— Olha, me desculpe, mas... eu preciso ir — falou se erguendo e deixando uma nota na mesa. — Eu vou pensar...

— Faça isso, Ikki. Obrigada por ter vindo — sorriu Surya — Obrigada mesmo por tudo que fez ou tentou fazer pelo meu filho.

O moreno apenas assentiu com a cabeça e partiu. Uma angústia profunda no peito. Ele queria, queria estar com Shaka, amá-lo, protegê-lo, mas não podia, não podia porque aquele amor iria acabar o destruindo, assim como o amor havia destruído seu pai. Shun não sabia, ninguém sabia, mas pouco antes de morrer, seu pai lhe confessara o motivo de sua mudança, a infidelidade de sua mãe. Aquela era uma dor que levava só para si. Só para si e mais ninguém.

Tinha muito medo de perder a cabeça algum dia, perder a sanidade, acabar como Aiolia ou pior... como seu pai...

Mas... Amava tanto Shaka, tanto! Que era quase impossível se imaginar sem ele. Sem seu cheiro, seu riso irritante... seu corpo... sua voz...

Seus pensamentos giravam como uma ciranda de vozes que tentavam dizer-lhe o que fazer. Ele sabia o que fazer, só não sabia se podia. Precisava ficar sozinho e pensar... pensar... pensar...

Pegou o celular e ligou para casa. Não demorou muito Shun atendeu.

— Shun, você está bem?

— Estou sim, Ikki, o Hyoga está aqui comigo, aconteceu alguma coisa?

O moreno suprimiu uma exclamação de desgosto.

— Olha, eu vou demorar um pouco, não fica preocupado, certo?

— Está tudo bem, irmão?

— Está sim, devo voltar em algumas horas, se cuida.

— Certo, se cuida também, Ikki.

Desligou o telefone e montou na moto. Precisava pensar.

***Uma chance**para amar***

Shaka terminou a ligação e voltou-se para o pai com um olhar sério. John parecia extremamente triste.

— Pai...

— Você só pode estar enlouquecendo! — ralhou o progenitor.

— Pai, eu já falei...

— Shaka, você... — respirou fundo — você vai se machucar novamente...

O loiro mais novo balançou a cabeça. John Phalke podia ser profundamente irritante e teimoso.

— Não. Não vou, eu prometo — sorriu jovial e divertido, embora estivesse angustiado — Esse é o meu principal esqueleto...

— Odeio essa história de esqueletos. Filho, esqueletos curamos com terapia e não com tratamento de choque!

Shaka suspirou, não queria brigar com o pai, era sempre assim, eles sempre divergiam de opinião e acabavam brigando porque, como sua mãe dizia, ambos eram intransigentes.

— Vou para o atelier, preciso pintar...

— Por quantos dias agora, Shaka? — indagou John cansado.

— Por quantos for necessário, estou em processo de catarse — sorriu irônico se afastando em direção ao atelier.

Colocou os óculos, a máscara e começou a misturar as tintas, procurava um tom de azul e por isso testava várias combinações. Precisaria produzir um tom especial de azul e aquilo levaria tempo, muito tempo, mas... Tempo era tudo que tinha.

***Uma chance**para amar***

Shun desligou o celular com uma expressão reflexiva que fez Hyoga franzir as sobrancelhas. Havia saído da aula e ido direto ver o amado. Estava preocupado com ele. Sabia que era bobo, mas uma noite sem Shun era como se já estivessem há séculos separados.

— O que foi, Shun?

— O Ikki, ele está muito triste, eu gostaria de ajudá-lo — encarou o namorado — Hyoga, o que você sabe desse Shaka?

O russo deu de ombro, não se sentia à vontade para falar das pessoas. O que poderia dizer sobre Shaka que não parecesse tendencioso ou maledicente?

— Eu não o conheço muito bem, mas ele é um grande amigo do Camus.

— Só isso?

— O que quer saber, Shun? Pra mim, ele parece ser um cara legal, um tanto irônico e petulante, mas um cara legal.

— Eu preciso conhecê-lo, Hyoga... gostaria de falar com ele.

O loiro coçou os cabelos espessos um tanto incomodado.

— Eu acho que seu irmão não vai gostar disso...

— Ele não precisa saber por enquanto — sorriu com doçura e se aproximou do namorado, sentando ao lado dele e segurando-lhe a mão —, preciso ajudar meu irmão...

— Eu não consigo negar nada a você, acho que estou ferrado com isso! — riu e recebeu um beijo carinhoso do menor. Hyoga o puxou pela cintura aprofundando o beijo molhado que recebia. Embriagava-se nos lábios doce de Shun, sugando enquanto deslizava a língua por todos os cantos, ouvindo o adolescente gemer dentro de sua boca e tentar se afastar, mas ele o manteve preso nos braços. Shun afastou os lábios levemente para encarar os olhos do namorado.

— Hyoga...

— Shun... — chamou e suspirou afastando-se um pouco, um tanto constrangido pelo desejo explícito que estava sentindo — Desculpe-me...

— Por quê? — Shun mordeu o lábio inferior sem entender.

Os olhos azuis do russo se voltaram para ele confusos.

— Por que... — não sabia muito bem o que dizer. A verdade era que desejava Shun, amava-o, queria-o, mas não sabia muito bem como dizer isso; dizer que queria mais que apenas beijos...

— Somos namorados agora, não somos? — falou o menor o olhando um tanto sem jeito — Eu acho... que as coisas acontecerão naturalmente... Desculpe-me por afastá-lo, eu só não acho legal que o Milo ou o Seiya nos encontre aos beijos na sala...

Baixou o olhar e teve o queixo erguido por Hyoga que voltou a beijá-lo com o mesmo desejo demonstrado antes. Shun enlaçou-lhe o pescoço e se deixou beijar, puxando o loiro pra si. Queria, queria muito, mas para sua frustração, o loiro se afastou dele e sorriu ofegante.

— Melhor pararmos, você ainda não está 100%, não é?

O mais novo demonstrou um olhar decepcionado. Há tanto tempo sonhava com aquilo, mas foram tantos os problemas no decorrer do relacionamento dos dois que acabaram não tendo nenhuma oportunidade. Não entendia porque agora, justamente no momento em que estava tudo bem, Hyoga simplesmente queria esperar. Mas não tinha coragem de reclamar então apenas assentiu com a cabeça.

— Você me leva pra ver o Shaka?

— Shun, você acha mesmo uma boa idéia?

— Eu preciso saber quem é ele, Hyoga, quem é esse homem que está deixando meu irmão tão perdido...

— Tudo bem, se você acha que deve...

— Me leva agora?

— Agora não, vai cair uma tempestade, mas amanhã, eu prometo.

Beijou o namorado com carinho. E aproveitaram à tarde de chuva para ficarem juntos conversando sobre o futuro.

Ikki chegou algumas horas depois, um tanto taciturno. Shun percebeu. O irmão atravessou a sala sem cumprimentar ninguém e foi para o quarto. Hyoga pensou em dizer que ele era um baita mal educado, mas achou melhor se calar naquele momento e sair. Shun concordou e assim que o namorado partiu, ele seguiu atrás do irmão.

— Ikki?

— Sim, Shun? — indagou baixo enquanto se livrava da camisa.

— O que está acontecendo com você, irmão?

— Nada.

— É o Shaka não é?

Ikki parou o que fazia e se virou para encarar o menor, tentando descobrir o que Shun sabia sobre Shaka.

— O que quer dizer, Shun?

— Eu não quero dizer nada, só sinto que está sofrendo muito por esse rapaz e... gostaria de entender o motivo. Ele não te ama?

Ikki engoliu em seco, não gostaria de ter aquela conversa com o irmão, mas pelo visto não tinha escolha.

— Eu não sei, Shun. O Shaka é um pouco imprevisível, na verdade, é isso que fode tudo entre a gente, se quer saber, eu... eu não confio nele, ele está sempre aprontando, se destruindo e...

— Você tem muito medo, porque o ama — concluiu o mais novo surpreendendo o irmão que ainda o via como um garotinho.

Ikki entreabriu os lábios e disse apenas: É.

O Amamiya mais novo se sentou na cama e ajeitou os cabelos com uma expressão pensativa.

— Irmão, você não acha que sofrerá mais ainda se não puder protegê-lo?

— O que está dizendo? Minha obrigação é proteger você e não ele... — crispou os punhos desviando o olhar do irmão.

— Acha mesmo isso? — indagou Shun — Ikki, eu sei do quanto você se importa com as pessoas que ama e sei que seu instinto protetor não suportará ficar longe desse rapaz sendo que ele precisa tanto de você...

— Ele não precisa de mim. — falou veemente — Você não conhece o Shaka, ele vai acabar me enlouquecendo, me matando!

Shun suspirou.

— Sim, eu não conheço o Shaka, mas conheço você. Sei que nunca abandonaria uma pessoa que precisa e, se está fazendo isso por mim... Irmão, eu não preciso desse sacrifício...

O mais velho se voltou e encarou os olhos úmidos do mais novo.

— O que quer dizer? — interrogou magoado — Quer dizer que não precisa mais de mim? Que agora já tem o Hyoga para cuidar de você, é isso?

— Não, não é nada disso, Ikki! — Shun negou assustado com as conclusões do mais velho — Não é por causa do Hyoga, o Hyoga nunca seria um substituto para você. Você é meu irmão e eu te amo! A questão é que... Eu passei vários meses sozinho aqui em Atenas e isso serviu para que amadurecesse muito. Eu sobrevivi sozinho, irmão, sozinho. O que quero dizer é que não preciso de cuidados, não preciso que sacrifique o amor que sente por esse rapaz por minha causa, por achar que eu preciso de você, mais do que preciso...

— Então não precisa mais de mim? — a pergunta foi feita de forma dolorida e baixa, sem mirar o irmão, se afastando como alguém rejeitado.

— Claro que preciso, irmão, preciso muito do seu amor, mas não da sua proteção. Eu cresci, Ikki, não sou mais o garotinho dependente de você e... eu te amo, e quero vê-lo feliz... E se o Shaka, a pessoa que você tanto ama, precisa de você, é com ele que tem que ficar, porque se algo acontecer a ele, mesmo que não seja por sua culpa, mas... caso esteja longe... irá se culpar pelo resto da vida.

O moreno sentiu lágrimas nos olhos e os cerrou para detê-las. Será que estava sendo tão egoísta por pensar em si e no irmão? Amava Shaka, só Deus sabia o quanto o amava, mas... Será que estava usando Shun como desculpa para seu medo? Medo daquele amor imenso que sentia pelo indiano?

Um trovão explodiu no céu no momento que esses questionamentos chegaram a sua mente, e o Amamiya mais velho arregalou os olhos dando-se conta que estava apenas fugindo, fugindo do medo de perdê-lo, de perder Shaka...E com isso, estava abandonando-o quando ele mais precisava, quando ele finalmente pareceu disposto a mudar, quando...

Lágrimas inundaram seus olhos ao constatar aquilo. Ele o abandonara no momento em que ele se abriu, em que se mostrou vulnerável, no momento em que o arrogante artista finalmente abriu a guarda e deixou que ele o enxergasse como era de verdade. Por medo! Por um estúpido medo!

— Shun... — tentou dizer, mas a emoção não permitia que achasse palavras, então apenas se aproximou do irmão e beijou-lhe a testa — Eu tenho que sair...

O mais novo o fitou com um olhar cheio de esperança.

— Vai ver o Shaka?

O mais velho apenas balançou a cabeça e saiu.

***Uma chance**para amar***

Milo mirou o céu nevoento e franziu a testa, não gostava muito de chuva, isso era certo. Correu para dentro do prédio imponente, sede das Indústrias Cignus. Quase tombou com o rapaz de cabelos longos que saía. Entrou sendo cumprimentado pelas recepcionistas que ficaram surpresas por vê-lo de terno, tão elegante.

O belo loiro conversou com elas cordialmente como sempre, sorrindo bastante e fazendo a tarde das moças mais feliz. Quando Camus saiu de um dos elevadores, o encontrou debruçado sobre a bancada de mármore num visível flerte com a mocinha loira da recepção. O ruivo se aproximou deles com seus passos firmes e imponentes e logo a mulher parou de sorrir começando a mexer em alguns papéis nervosa.

Milo saiu da posição que estava sem parar de sorrir e encarou o amante nos olhos.

— Olá, Verseau — falou de forma maliciosa — saudades de mim?

Camus franziu as sobrancelhas e fez um gesto para que ele o seguisse de volta ao elevador.

— O que faz aqui? — indagou já dentro do veículo — Claro, além de flertar com as recepcionistas?

Milo riu descontraído.

— Desculpe, é de a minha natureza ser charmoso sabe? Quanto ao resto, reclame com os deuses que me deu essa aparência esplêndida...

— Engraçadinho — resmungou Camus — Vou terminar de pegar minhas coisas, você me ajuda?

Milo mordeu o lábio inferior sem jeito.

— Camus, na verdade, não vim por você...— disse muito sério — tenho uma reunião com o Dracon aqui... parece que a Séferis e a Cignus farão negócios e...

— Tudo bem, eu já sabia. Só não sabia que você estaria envolvido nisso. Como ele o convenceu?

A voz fria de Camus não enganava Milo. O ruivo estava morrendo de ciúmes do seu contato constante com Dracon e não podia culpá-lo, afinal, fora ele mesmo a confessar que o tio ainda mexia muito consigo.

Milo Séferis e sua sinceridade idiota! Pensou um tanto revoltado.

— É só até um dos meus irmãos voltar, já disse que não quero contato com os Séferis...

— Bem, para quem não quer contato, você anda bastante solícito com seu tio. Almoçaram juntos hoje novamente?

— Camus, não precisa ter ciúmes...

O ruivo lhe lançou um olhar irritado que fez Milo engolir em seco.

— Ciúmes? Não sou homem de ciúmes, Milo, apenas observo os fatos, e é um fato; Dracon Séferis ainda mexe com você e numa situação assim, ninguém em meu lugar ficaria... satisfeito.

O loiro não soube o que argumentar, então calou-se. O elevador chegou a cobertura e para seu azar, Dracon e Dimitri estavam juntos, parados. O russo sorriu satisfeito ao vê-lo junto ao sobrinho.

— Olá, seja bem vindo, eu não sabia que você era um Séferis — disse para Milo e Dracon lançou um olhar curioso ao sobrinho.

— Eu trabalhei aqui durante um tempo — explicou o loiro mais novo sem jeito.

Camus resmungou um "com licença" e seguiu para sua antiga sala sem falar com o tio ou com o Séferis mais velho.

— Vamos a nossa reunião? — sugeriu Dimitri muito solicito e amigável para o gosto de Milo, mas ele se forçou a segui-lo.

***Uma chance**para amar***

Gemidos mais altos eram ouvidos a medida que o ritmo aumentava. Seiya estava de bruços agarrado aos lençóis da cama de Shiryu e recebia o corpo do mais velho com um sorriso safado. Adorava sentir seu peso, seu cheiro, a forma que ele o tocava.

— Shi... eu te amo... — gemeu mais alto gozando, sendo acompanhado pelo chinês que logo caiu sobre seu corpo.

O garoto riu gostosamente e se remexeu, fazendo o mais velho rir também.

— Também te amo, Seiya — falou beijando-lhe o pescoço e rolando para o lado.

O mais novo se sentou na cama.

— Só que eu tenho que ir agora...

Shiryu franziu a sobrancelha sem entender. Seiya era ligeiro como o vento e um tanto imprevisível, mas sair correndo depois de fazer amor não era muito do seu feitio preguiçoso. Ele geralmente gostava de dormir agarrado ao seu corpo até a noite.

— Já?

— É, eu marquei com a Saori... — falou e se arrependeu, mordendo o lábio — Shi, vamos fazer um trabalho juntos, não é nada de mais, é apenas um trabalho...

Shiryu se sentou na cama também, realinhando os cabelos.

— Por que eu acho que essa garota está usando isso para se reaproximar de você?

— Porque é um grande ciumento! — riu Seiya se inclinando na cama e beijando o amante — Não precisa se preocupar, sério, é só trabalho...

Shiryu suspirou.

— Certo. E quando vai contar aos seus pais que vocês terminaram? E que... Bem... nós dois...

— Breve! — falou rápido para cortar a conversa e correu para o banheiro onde tomou um banho rápido.

Quando voltou ao quarto, Shiryu continuava sentando na cama com uma expressão pensativa. Sabia em seu íntimo que as coisas ainda não estavam resolvidas.

— Shi, eu volto mais tarde, certo? — falava Seiya enquanto se vestia — Não se preocupa, eu e a Saori, já era!

Mas Shiryu continuava em silêncio e isso estava deixando o mais novo angustiado. Não queria sair dali brigado com ele. Descobria a cada dia que amava aquele homem e que... Embora estivesse muito longe de ser o cara ideal, tentaria de tudo para fazer Shiryu feliz.

Aproximou-se dele na cama e se ajoelhou entre suas pernas segurando o rosto delicado entre as mãos.

— Confia em mim?

— Confio sim, Seiya — conformou-se Shiryu e sorriu — Nos vemos mais tarde então?

O mais novo balançou a cabeça e o beijou antes de sair. Shiryu suspirou. Na verdade, incerteza, medo e dúvida eram tudo que habitava seu coração.

***Uma chance**para amar***

Quando a reunião terminou, Dimitri alegou algo urgente para fazer em sua sala e deixou Milo e Dracon sozinhos recolhendo as pautas. O mais jovem dos Séferis não estava satisfeito; Dracon queria marcar uma nova reunião e ele não estava disposto a participar. Já tinha feito o que se propôs a fazer, não tinha obrigação de participar de mais nada e, além disso, aquilo parecia uma grande manobra para que assumisse os negócios que seus irmãos não estavam interessados.

— Está chateado — concluiu Dracon com sorriso de lado — Milo, você é tão brilhante, nasceu para isso.

— Não tente me manipular, Dracon Séferis. Há muito tempo não sou o garotinho que... — calou-se. Não estava ali para derramar suas mágoas.

Seu corpo tremeu levemente quando a mão macia e bem cuidada de Dracon segurou-lhe o braço. Milo ergueu os olhos esverdeados para o tio.

— O que significa isso, Dracon? — indagou franzindo as sobrancelhas.

— Significa que me preocupo com você, que quero seu bem... — falou o loiro mais velho com uma voz extremamente sensual — Eu nunca o esqueci, Milo...

— Claro que não! — riu com deboche se afastando do mais velho — E continuou casado com a Suzane ano após anos, desde tudo!

— Esse é o motivo da sua mágoa? O que acharia se eu dissesse que nosso casamento é apenas uma fachada?

— Você me dizia isso quando eu tinha 16 anos, Dracon! Não queira me fazer de idiota agora! — falou se apressando a recolher os documentos que deveria analisar — Tenho que ir...

— Espera! — Dracon se colocou entre ele e a porta — me dá uma chance...

— Não! É melhor você me esquecer...

O mais velho se aproximou do sobrinho novamente. Milo engoliu em seco. Imagens do passado povoaram sua mente. Os lábios experientes e quentes, as mãos de Dracon que o marcava como brasa.

— Eu mudei, Milo... — o hálito mentolado alcançou suas narinas,tão próximo que ele estava e o mais jovem fechou os olhos — Hoje eu não me importo com o que vão dizer, eu apenas quero você de volta...

Seus lábios quase se roçavam. Milo sentiu-se estremecer. Deuses! Desejara tanto aquele homem, amara-o de maneira tão enlouquecida... Destruíra sua vida por ele... E agora. Ali estava ele, lhe pedindo uma segunda chance...

Os lábios de Dracon roçaram os seus e Milo se deixou beijar por ele, fechando os olhos, tencionando sentir o sabor daqueles lábios mais uma vez. Todavia, não eram os mesmos, não havia mais o sabor da paixão que o roía na adolescência. Não havia mais nada.

A imagem de Camus se fez em sua mente. O sorriso, os lábios, a língua, a pele quente contra sua, seu olhar... A forma terna que o ruivo o tratava, o amor incondicional que sentiam...

Abriu os olhos mirando dentro do olhar esverdeado do tio e balançando a cabeça levemente.

— Eu não te amo mais, Dracon — falou firme. — Agora tenho a certeza que nada resta do passado.

Ouviu um pigarro e se voltou para as duas figuras que entravam na sala.

— Ah, Camus, como eu falei, para encontrar um Séferis, só basta seguir outro Séferis.

A voz detestável de Dimitri se espalhou pelo ambiente. Milo quase deu um pulo do lado do tio e mirou o rosto pálido de Camus. Enxugou os lábios instintivamente.

— Camus... — tentou se explicar, mas não achou palavras. Dracon passou as mãos nos cabelos curtos e ondulados e lançou um olhar irritado a Dimitri.

Camus continuava mudo. Deveria ter desconfiado quando Dimitri se mostrou tão solícito em ajudá-lo a encontrar Milo, mesmo sendo tratado com hostilidade.

— Milo e Dracon serão ótimos parceiros... de trabalho, não, Camus? — continuou a provocar o russo.

O loiro mais novo continuava com os olhos vidrados no ruivo, sem saber o que dizer. Camus não acreditaria nele de toda forma, ele o perderia.

— Vamos, Milo — a voz seca do francês se fez ouvir, surpreendendo a todos — Acho que já terminou sua reunião, não?

O mais novo apenas assentiu com a cabeça e pegou a pasta, passando pelo francês em direção à saída. Antes de sair, Camus lançou um olhar de advertência aos dois homens na sala, então fechou a porta.

Seguiram em silêncio até chegar a recepção. Só nesse momento, o ruivo segurou o braço do loiro e o arrastou para dentro da sua ex-sala, trancando a porta.

— Camus, me desculpa! — pediu Milo — Sei que parece ridículo, mas não foi o que pareceu...

— Não? — ironizou — Então me diz o que foi aquilo que vi?

— Eu queria provar a mim mesmo que não sentia mais nada por ele e não sinto, Camus. Por isso deixei que ele me beijasse — suspirou — Você tem o direito de acreditar ou não. Sinto muito, mas estou cansado de me justificar. Já fiz muita bobagem em relação a nós dois, mas dessa vez não. Fui calculista, só não imaginava que o Dimitri o traria até nós.

Camus caminhou a passos firmes até o loiro e o segurou pelos braços com força.

— Escuta, escuta bem, Milo — falou ao contrário do que mandava a sua irritação, de forma baixa — Eu entendo essa sua necessidade de catarse em relação ao seu passado, mas eu juro, Milo Séferis, juro por Deus que se você encostar em outro homem de novo, eu...

— Eu não quero me encostar em nenhum homem que não seja você, meu amor — sorriu, desarmando o francês, e tomou-lhe os lábios em um beijo.

Camus aceitou beijá-lo. Embora o ciúme o corroesse, sabia que aquilo era necessário. Milo estava testando a si mesmo, testando seus limites entrando em catarse. Limpando-se finalmente das dores do passado. Além disso, ele ouviu quando o mais jovem declarou que não amava mais o tio. Isso era suficiente para que acreditasse no amor de Milo.

Afastou os lábios dos dele e afagou o rosto moreno o fitando sério.

— Vamos embora da Cignus definitivamente.

Milo assentiu com a cabeça e os dois deixaram o escritório e depois o prédio.

***Uma chance**para amar***

Shaka pincelava a tela ao som de Chopin. Sempre colocava música clássica enquanto pintava. Havia conseguido o tom de azul único que queria. Sorriu, imaginado o que sairia nos cadernos culturais depois da sua exposição; "azul Phalke", era como chamariam aquele novo tom. Traçou o desenho a carvão de olhos fechados e isso fez com que retornasse a sensação de cegueira vivida há não muito tempo. Isso aflorou sua sensibilidade e ele sentia como se pintasse a tela da sua vida.

E o que ele pintava era o caos, seu próprio caos interno. Como dito por Nietzsche, é necessário o caos para nascer as estrela e ele vivia isso, um caos tão profundo dentro de si, contido por uma aparência de calma e superioridade absolutas, mas o caos estava ali, contido, preso em seu mundo da forma mais abstrata, preso nas cores que ele projetava sobre a tela.

Ouviu a porta se abrir e virou-se...

— Eu disse que não queria... ser incomodado... — as palavras foram morrendo gradativamente enquanto ele mirava o homem que entrava.

Seus longos cílios piscaram e, numa atitude de defesa, o artista pousou o pincel no cavalete.

— Eu não achei realmente que veria essa cena de novo — disse Aiolia. — Você pintando, tão livremente... Eu sempre fui fascinado pela forma com que você se entrega a arte e... não se entrega às pessoas...

O agente começou a se aproximar. Shaka engoliu em seco. Ele estava sem camisa e algumas gotas de tinta manchavam sua pele clara. Aiolia estendeu a mão para tocá-lo, mas o loiro recuou.

— Não me toca... — pediu. — Mantenha a distância, por favor?

Aiolia desceu o olhar até a cicatriz que ele tinha logo abaixo do umbigo.

— Você tem medo de mim?

— Tenho. Tenho horror à violência, sempre tive...

— Não sou um homem violento, Shaka, nunca fui, você sabe. Aquilo... Deuses, aquilo foi mais culpa sua que minha!

— Eu sei — respondeu o indiano com melancolia — Por isso eu o chamei aqui, eu precisava explicar algumas coisas. Senta.

Aiolia puxou uma cadeira e o obedeceu. Shaka vestiu a camisa que tinha deixado num canto e se sentou de frente ao ex-amante.

Não era fácil. Ter aquela conversa significava voltar ao passado e o passado era doloroso, mas ele precisava. Seu pai estava revoltado com suas atitudes, John simplesmente odiava Aiolia e não aceitava sua presença ali, mas era necessário para Shaka. Precisava encerrar aquela história definitivamente.

— Antes de tudo, Aiolia, eu queria dizer que... ao contrário do que disse naquela nossa última noite... — angústia — Eu te amava... Amava muito...

— Então por quê? Por que me traiu, por que me levou ao limiar do desespero? — a pergunta foi feita com uma revolta que o agente achou não sentir, mas que na verdade estava apenas guardada. No fundo, sua frustração permanecia ali, trancada dentro de si, mas forte e presente.

— Porque eu precisava afastá-lo de mim — confessou — Só que eu não sabia que doeria tanto. Eu quis mesmo morrer, Aiolia...

— Eu não entendo...

Shaka mexeu nos cabelos e acabou os manchando de tinta. Aiolia se perdeu enquanto olhava isso. Ele sempre acabava com algum vestígio de tinta nos cabelos... Sempre... Shaka não mudava.

— Eu sou um homem doente, Aiolia... muito doente — confessou de forma dolorosa e amarga. Confessar aquilo era mergulhar no âmago de tudo que sempre temeu; dor e dependência. — Alguém que precisa de cuidados constantes... Como poderei fazer alguém feliz? Eu só cansei de ser um fardo para todo mundo... Cansei de sempre causar a preocupação de todos... — angústia profunda — Desde sempre, desde sempre, isso é tudo que causo, preocupação. As pessoas que me amam se convencionam a viver para me proteger de mim mesmo e... Eu não queria isso pra você, eu não quero isso pra mais ninguém...

— Por isso você faz com que as pessoas tomem ódio de você? — indagou chocado. — Por isso você... Shaka! Eu me tornei um... um monstro!

— Não, Aiolia, você... você foi apenas uma vítima das minhas fraquezas. É isso que quero que saiba, quero que saiba que eu não o culpo de nada... Não tenho raiva de você e... Eu amei você...

— Isso eu já sabia. Eu só queria entender por que essa necessidade de... de afastar as pessoas que gostam de você? — o grego respirou fundo, porque ouvir o verbo amar no passado ainda era doloroso. Nunca conseguiu esquecer, Shaka, estava marcado por ele para sempre.

— Eu não sei exatamente o que é isso, Aiolia, só estou tentando me achar, tentando me salvar dessa vez... — suspirou — Eu só achei que te devia uma explicação... Não foi por mal e eu sei que isso soa ridículo, mas é a verdade. Eu nunca quis feri-lo, humilhá-lo ou coisa parecida, mas sei que fiz isso... Também seria cretino dizer que me arrependo, não é bem arrependimento que sinto, é... vazio.

Ergueu-se da cadeira e esfregou as mãos uma na outra num gesto nervoso.

— Obrigado por ter me escutado...

Calou-se ao sentir a mão do agente em seu pulso. Um forte trovão explodiu anunciando a chuva iminente. Seus olhos se encontraram e um estranho magnetismo os uniu de forma inexorável.

— Eu nunca deixei de amar você... — murmurou Aiolia e com aquelas palavras o grego dizia que estava disposto a viver tudo de novo, a ir do céu ao inferno mais uma vez se fosse preciso.

Shaka estava estático, assombrado com o toque daquela mão que ele desconhecia e que ao mesmo tempo era tão íntimo. Um novo clarão se fez presente junto com o barulho das gotas de chuva que caíam. O rosto de Aiolia se aproximou do seu e seus lábios foram cobertos pela boca vigorosa do grego, antes que ele pudesse reagir.

Viu um clarão no céu e depois uma explosão de cores, uma profusão de sons do passado, do presente, da ambulância, dos aparelhos no hospital... uma, duas... três... Viu vultos, estrelas... Caos...

Quando acordou do torpor insano que durou alguns segundos e que quase o fez desfalecer, pressionou a mão espalmada no peito forte do grego o afastando.

— Não, Aiolia, não podemos... — sussurrou — Eu não posso...

— Por que não, Shaka? Você me perdôo e eu ainda amo você, muito...

Os olhos azuis angustiados miraram os verdes não menos angustiados. Shaka sentiu vontade de chorar pelo que fez àquele homem; aquele homem alegre e otimista que ele amou no passado não existia mais. Ele transformara Aiolia em um ser amargo, sarcástico e angustiado. Não poderia amá-lo mais, porque ele não era mais seu Aiolia. Se o grego o marcou na carne, à faca, ele marcou a alma de Aiolia com uma macha negra de amargura.

Uma lágrima desceu por seu rosto ao pensar nisso sem que pudesse conter.

— Desculpe... — foi a única coisa que conseguiu murmurar. Ele, conhecido como aquele que não pedia desculpas. Ele que tinha a fama de estóico, rude, arrogante. Como se permitia pedir perdão? O que estava acontecendo consigo?

Catarse... A palavra explodiu em sua mente como o trovão que iluminou o atelier.

Nesse momento, seus olhos se voltaram para a porta, chamando a atenção de Aiolia e os dois perceberam que não estavam sozinhos. Parado à porta, molhado de chuva, Ikki observava-os com um olhar indecifrável.

Continua...

Catarse (do grego Κάθαρσις "kátharsis") é uma palavra utilizada em diversos contextos, como a tragédia, a medicina ou a psicanálise, que significa "purificação", "evacuação" ou "purgação". Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. (fonte: Wikipédia).

ThaiAline, Agathachan, virgo nyah, Litha_chan, Bia Elric, Matsumoto-chan, Kao, Pandora Hiei, Keronekoi, Maya Amamiya, Medeia, álefe, MaluquinhaX.

Obrigada a todas vocês pelo carinho!

Beijos da Sion!

Postado em 20/12/2011