A pequena garota estava cada vez mais calada, enclausurada em seus próprios pensamentos. Por mais que ela não quisesse pensar em tudo que havia descoberto há dias atrás, infelizmente, as informações voltavam a se repetir infinitas vezes em sua mente. Kagome nunca havia se sentido tão angustiada em toda a sua vida e era claro para todos a sua volta que algo muito sério estava lhe perturbando.
– Kagome? – Era a terceira vez que Sango estava lhe chamando.
– Oi? – Foi tudo que Kagome pode responder.
– Kagome, o que está acontecendo com você? Já faz dias que você está assim e cada dia parece pior.
– Sango... Eu vou te contar. Mas quero que me prometa que jamais irá contar a alguém. – A súplica era facilmente sentida através das palavras da pequena.
– Claro, você pode contar comigo. Afinal de contas nós somos amigas. – Sango segurou– lhe a mão de uma forma protetorado, pode sentir a outra tremendo levemente enquanto tentava, de alguma forma, tirar coragem de algum lugar para poder contar qual era o problema.
– Sango, você chegou a se perguntar o por que eu não estou participando de nenhum treinamento?
– Todos estão comentando que a sua participação foi vetada pelo ancião.
– Exatamente, Sango. E por que? – Sango engoliu em seco antes de responder.
– Por que você é cega.
– E sabe onde isso me leva, Sango?
– Aonde, Kagome? – Sango começou a tremer junto com a amiga, o aperto de sua mão se fez mais forte. Era quase insuportável levar aquele pensamento adiante.
– Eu serei indicada, Sango. O próprio Miyouga me disse isso, ele disse que sou incapaz. – Kagome soluçou, ela não queria chorar novamente por esse mesmo motivo, já havia chorado demais. – Eu não posso treinar porque sou cega e serei sacrificada porque sou cega. Eu nasci com uma maldição Sango, não tenho forças para lutar contra isso. – Era claro a fragilidade da menina ao falar de tal assunto, provavelmente ela havia passado dias a fio remoendo toda aquela história sozinha e sem conseguir encontrar alguma solução agora ela estava desistindo, Sango podia sentir que sua amiga estivera definhando como uma flor retirada da natureza e colocada em um belo arranjo em cima de uma mesa harmoniosamente planejada. O ancião havia preparado a mesa e Kagome jazia indefesa sobre ela.
– Kagome, Miroku e eu vamos te ajudar. Eu sou uma das melhores guerreiras da escola e o Miroku sabe muitas coisas sobre os poderes espirituais. – Sango não pode evitar de abraçar a garota que tremia a sua frente. – Nós vamos te ajudar Kagome, não desista. Não desista, por favor. – Kagome sentiu as lágrimas da outra pingando lentamente em sua pele e se sentiu segura no abraço da amiga, ela não conseguiu mais segurar as próprias lágrimas e apenas deixou que rolassem e levassem toda a angústia que sentia junto com elas.
Ao final da aula Sora havia ido buscar Kagome como de costume e a filha tinha dito que iria até a casa de Sango para que pudessem brincar um pouco. A mais velha não viu nenhum problema contanto que Kagome fosse levada para casa antes do anoitecer, o assunto deixou a mãe até um pouco aliviada, pois tudo o que aconteceu nos últimos dias tinha afetado muito a sua menina e ela notou todas as diferenças que estavam ocorrendo pouco a pouco com ela.
Kagome, por sua vez, gostaria de contar toda a verdade sobre sua ida a cada de Sango, mas temia que ela lhe proibisse. Talvez ela tivesse outros planos em mente para livrá-la daquela situação e muito provavelmente não seria fazendo Kagome treinar sendo que havia sido proibida. Kagome e Sango decidiram que seria melhor guardar segredo, ao menos por enquanto.
A pequena menina de olhos acinzentados sentia– se esperançosa como a algum tempo não se sentia. Era maravilhoso pensar que seu destino pudesse ser alterado.
Ao chegar na casa de Sango a mãe da amiga lhe ofereceu um lanche e Sango ensinou como a mãe deveria distribuir os alimentos na mesa para que Kagome conseguisse comer sozinha sem ter que ficar pedindo a ajuda a todo momento. Após o lanche as duas meninas foram para um lugar um pouco afastado do vilarejo para que ninguém as visse e muito menos incomodasse.
Sango ajudou a amiga a fazer um breve alongamento não iam se esforçar tanto no primeiro dia, mas era melhor não correr o risco de se machucar de forma nenhuma, afinal ninguém poderia saber o que estavam fazendo.
– Kagome, segure isto. – A pequena sentiu o bastão sendo pousado sobre suas mãos. – Temos vários destes para treinamento em casa. – A amiga fez uma expressão de preocupação e Sango já sabia qual era o motivo. – Não se preocupe, ninguém vai sentir falta deles. Agora, segure desta forma. – Os braços de Kagome foram posicionados ao longo do bastão, um ficando acima do outro, o braço direito mais acima e esticado e o esquerdo abaixo e um pouco mais flexionado do que o anterior. – Suas pernas devem ficar um pouco mais abertas para manter melhor o equilíbrio.
" O que eu pensei para o começo do seu treinamento é tentar aguçar ainda mais seus sentidos, afinal de contas se você não pode ver, deve sentir de onde virá o golpe e assim poderá se defender. Vou começar tocando você levemente em alguma parte do seu corpo com o meu bastão e você vai tentar identificar e se defender com o seu. – Sango colocou a mão no ombro de Kagome. – Quero que você esteja ciente de que não vai ser um exercício fácil e vai ser necessário muita concentração, poderá levar dias até que comece a funcionar.
– Certo. Estou preparada.
Sango começou o exercício tocando levemente a ponta do bastão no rosto da amiga e como esperava a reação veio após o contato. Tocou no braço direito, no ombro direito, na perna esquerda, no rosto novamente e assim foram quase duas horas sem nenhum avanço.
A esperança que havia florescido no peito da jovem, agora parecia estar murchando e ela se viu novamente em um dilema em que acreditava que o ancião teria razão em não deixa-la treinar.
Sango deixou Kagome em casa conforme havia combinado com Sora.
– Não desanime, Kagome. Você vai melhorar aos poucos.
Sango voltou para sua casa deixando uma Kagome bastante transtornada para trás, sem saber se o raio de esperança que brilhava em seu coração era realmente algo real ou se apenas uma ilusão que criara para si mesma. E quanto mais ela pensava mais ela achava que seu destino estava selado.
