Os dias pareciam cada vez mais sombrios, seu treinamento não ia muito bem e a cada dia que passava algo ruim estava se enraizando em seu coração. Os pensamentos de Kagome se tornavam cada vez mais distantes de um final feliz e ela não podia mais suportar toda aquela angústia.
Nunca sentira que era diferente dos demais antes, mas agora parecia ter um abismo entre ela e todas as outras pessoas. Ela possuía uma maldição que iria acabar precocemente com a sua vida e as outras pessoas iriam aceitar isso, afinal antes a morte de uma pobre cega do que a incerteza de saber quem será o próximo escolhido e a insegurança de que talvez você pudesse ser escolhido ou quem sabe alguém que se ama. As pessoas não costumam trocar o certo pelo duvidoso ainda mais quando pode acabar se colocando em perigo por causa disso.
A pequena garota, pouco a pouco, aceitava seu terrível destino e aceitava que ele não poderia ser mudado, não por alguém tão fraca como ela, talvez se fosse alguém mais forte como a sua mãe as coisas fossem diferente. Desistir de tudo era a única coisa que conseguia pensar naquele momento, ela não tinha mais forças pra lutar.
Seus passos eram calmos, entretanto, seu coração batia fortemente dentro do peito. Ele podia ver, que, apesar de sua aparência calma ela estava travando uma batalha sangrenta por dentro. A cada passo as folhas secas gemiam embaixo de seus pés, a energia que emanava da pequena garota era tentadora. Se chegasse a fazer o que sua mente pensava que faria seria uma grande festa e não no bom sentido da palavra.
As lentas passadas que ela dava, enfim, pararam, a respiração ficou pesada, os olhos se fecharam, mesmo que isso não fizesse diferença, o rosto se contorceu em uma careta de agonia, um gemido e lágrimas rolaram por sua face. A escuridão estava a sua frente, outro passo foi ouvido, a respiração estava mais lenta e sua decisão tinha sido tomada, entretanto a garota não deveria fazer aquilo. Ela sabia, ele sabia, mas o sofrimento escondido de todos estava visível para que ele percebesse, ele até podia sentir a dor ao olhar fundo nos olhos sem vida. Mais um passo, ela estava perto demais de um destino horrível...
- Se eu fosse você, eu não faria isso. – Ela se assustou, andou para trás desajeitadamente tropeçando nos próprios pés.
- Quem está ai? – Perguntou sem reconhecer a voz de quem lhe falava.
- Não importa quem sou eu. O que importa aqui é o que você pretende fazer. – A voz dele era calma e fria e ela estava desesperada.
- Eu não o conheço. – e num lampejo ela percebeu que a voz dele vinha do mesmo lugar para o qual ela estava indo. – Você é um deles! Você está falando da... – As palavras travaram em sua boca, seu coração estava ainda mais acelerado.
- É isso mesmo que você está pensando, eu sou um monstro, mas não sou como eles.
" O cheiro de poder e medo que você está exalando é tão forte e no momento em que você colocar o pé para dentro deste bosque eles vão te devorar tão rápido e você nem vai sentir a morte chegando, porém isso não vai ser o suficiente para eles, a sede de sangue será tão grande que todos sairão para atacar a vila e cada pessoa será devorada tão rapidamente quanto você foi. Até para mim, que não sou igual é difícil não pensar em provar um pedaço seu, é tão tentador..."
A garota congelou diante da ameaça verbalizada, por um momento seu coração parou e imaginou a vila sendo destruída e com isso veio também o pensamento do corpo frio de sua mãe sob suas mãos, o cheiro forte de sangue foi tão real que suas narinas foram invadidas pelo cheio metálico. A decisão que tinha tomado ainda pouco foi abalada e tornava-se a cada segundo um sonho mais e mais distante. Sua vontade era de contestar aquelas palavras, chamá-lo de mentiroso, mas o sentimento intenso que passou pelo seu corpo que não deixou forças para tomar qualquer ação.
Enquanto o estranho jazia em silencio era difícil identificar se ele ainda estava ali se deleitando com o momento de angustia daquela criança ou se já havia ido embora e se perdido no meio dos confins da escuridão. Naquela vasta paisagem sobrou apenas uma garota paralisada de medo e o som do vento chacoalhando lentamente as folhas das arvores.
- Kagome, o que faz aqui? – Sango perguntou com alivio ao conseguir encontrar a amiga. – Estava te procurando já faz algum tempo. – Ao segurar o braço de Kagome, Sango pode sentir o tremor em seu corpo. – Kagome? Kagome? – O nível de preocupação com a outra começava a se elevar novamente.
- Sango, tem mais alguém aqui? - Isso era tudo o que conseguia proferir naquele momento.
A mais velha achou estranho a pergunta, mas olhou para todos os lados antes de dar a resposta.
- Não. Apenas nós duas estamos aqui. – Sango olhou novamente para checar se tinha visto tudo direito. – É melhor a gente ir logo, daqui a pouco escurece e eu preciso te levar para casa.
Sango ficou preocupada com a amiga, mas tinha que levá-la para casa antes de escurecer se não Sora acabaria se chateando e quem sabe até proibindo que Kagome passasse algumas tardes em sua casa e com isso todo o plano do trio iria por água abaixo. Kagome se deixou levar e enquanto isso Sango refletia sobre a próxima conversa que teriam juntas e sobre o próximo dia de treinamento.
