Quando Kagome chegou na escola tudo parecia normal, era como se a situação estranha que aconteceu outrora fosse apenas um sonho louco de sua cabeça. Sango não iria tocar naquele assunto no meio de tanta gente, esperaria até que estivessem em sua casa onde não teria tantos ouvidos bisbilhoteiros prestes a descobrir o que quer que tenha acontecido com a sua amiga.
O Sinal agudo do final das aulas tocava insistentemente, enquanto todos iam saindo da sala de aula Sango viu que Hakudoushi abordava Kagome novamente. Ela sabia bem a espécie de pessoa que Hakudoushi era, o chamaria no mínimo de asqueroso e daí pra baixo.
- Não deveria ficar feliz por encontrar amiguinhos, eles só vão sofrer com a sua morte. É melhor se afastar. – Sango conseguiu ouvir parte da conversa horrenda que ele estava lançando para cima de Kagome.
- Hakudoushi, faz o favor de sair bem rápido de perto dela. Caso contrário eu vou usar da força para arrancar essa sua bunda murcha daqui e sentar ela lá fora da escola. - Sango com toda certeza conseguia ser muito intimidadora quando queria.
O pequeno garoto que não era nenhum exemplo de lutador, arregalou os olhos acuado e saiu de perto das duas indo em direção a porta, rapidamente sumiu em meio as outras crianças.
– Kagome, não ligue para o que ele fala, é apenas uma cobra peçonhenta e sádica preste a morder a própria língua.
- Mas ele não está dizendo nenhuma mentira, Sango. – Kagome suspirou. – Eu deveria me afastar o máximo possível. Eu nem deveria estar na escola, o que eu estou fazendo aqui? Isso tudo é uma ilusão, não é? Por que, Sango? Por que você insiste em me ajudar? É melhor apenas me ignorar como fazem os outros. Eu não quero te fazer sofrer, eu não quero te ouvir chorar. – Sango abraçou forte a outra garota, o mundo de Kagome estava desmoronando e ainda assim ela encontrava espaço para pensar no sofrimento das outras pessoas e não apenas no dela.
- Nós precisamos conversar, Kagome. – Sango segurou em seu braço ajudando a outra a erguer-se. – Mas não aqui, é melhor a gente ir pra minha casa.
Mais uma vez Kagome se deixou levar enquanto Sango a guiava no meio de uma multidão à caminho da lucidez que tanto precisava naquele momento.
- Kagome, antes de tudo eu preciso saber o que aconteceu ontem. – Sango disse sem mais rodeios, o caminho da escola até ali foi o suficiente para que ambas as garotas conseguissem acalmar os ânimos, agora só existiam as duas em meio a um grande campo esverdeado, campo esse que estiveram a pouco tempo atrás.
- Sango. – Sua voz era trêmula. – Ontem, depois de mais um dia de fracassos nesse treinamento idiota, eu estava decidida a acabar com tudo isso. – A boca seca como um deserto parecia querer impedí-la de prosseguir. – Eu ia sumir em meio ao bosque e, provavelmente, logo seria morta. Eu não quero estender toda essa dor, eu só queria poder acordar e descobrir que todo não passa de um terrível pesadelo. – Kagome pausou, a respiração de ambas era rápida e pesada, como se o peso de suas angústias quisessem ir para fora de alguma forma. – Eu tomei coragem e parti em direção a escuridão, foi então que ele apareceu, não sei quem era, mas ele estava lá, Sango. Ele não era um de nós. – Sango colo colocou as mãos em seus ombros interrompendo sua fala.
- Era um youkai? – perguntou temendo a resposta que viria a seguir.
- Eu não sei. Ele disse que não era igual aos outros, eu não consigo entender o que isso quer dizer, disse que o cheiro de medo e poder faria os youkais atacarem toda a vila e foi isso que acabou me fazendo parar. – Kagome foi abraçada, o abraço da amiga era reconfortante, ao sentir os braços de Sango em volta de seu corpo era como se nada pudesse lhe atingir naquele momento.
- Kagome, me promete que nunca mais vai tentar fazer uma loucura como essa? Por favor. – A voz de Sango estava carregada de medo e Kagome imaginou que ela também estava fragilizada com toda essa história. Não havia como evitar o sofrimento daqueles que gostava, pois esse sentimento já existia e não estava em suas mãos fazer com que deixasse de existir, na verdade, muito pouco ela tinha a fazer para amenizá-lo.
- Tudo bem, Sango. Eu já entendi que não há muito o que se possa ser feito. É melhor deixar que o destino de encarregue do que virá logo mais.
- O que eu tenho a dizer agora, talvez possa não ser muito reconfortante, mas eu preciso falar e preciso que me escute. – A jovem iniciou um novo clima pesado no ambiente e a outra apenas assentiu para que continuasse. – Eu tive um irmão mais velho, Kagome. Meu irmão nasceu num lindo dia de primavera seu nome era Kohaku. – o timbre de Sango evidenciava a ternura que sentia ao falar sobre o irmão. – Ele foi o primeiro filho, muito esperado pelos meus pais. Todos tinham grande expectativa sobre ele, nascido na melhor linhagem de guerreiros, com certeza, seria um exímio lutador. Kohaku estava em foco em tudo que se referia a força e destreza, mas qual não foi a surpresa ao descobrirem que ele não era um bom lutador, foi um choque. Na verdade meu irmão era um garoto doce e gentil, seu olhos transbordavam pureza, ele não gostava de machucar os outros, não tinha nenhum interesse em aprender tal habilidade.
"Meus pais estavam felizes, embora preocupados que seu primeiro filho estivesse estagnado nos treinamentos. Eles achavam que era apenas uma fase e que ele cresceria e o interesse surgiria naturalmente."
"Dez anos depois do nascimento de Kohaku eu nasci e no começo foi uma tremenda felicidade, mas logo em seguida veio a indicação de sacrifício. Meu irmão foi indicado e todos sabiam que a falta de interesse dele pelo ofício da família traria uma grande tragédia." – Sango suspirou, seu tom mostrava uma grande indignação.
"Eu conheci meu irmão por pouco tempo e nesse tempo consegui perceber o quanto a gentileza dele era necessária. A presença dele trazia calmaria. Era nítido que ele nasceu pra ser alguém pacífico, mesmo sabendo de seu destino terrível ele cuidou de mim com toda ternura que poderia oferecer, ele parecia inabalável."
"Ao contrário de Kohaku, eu nasci com o espírito de uma guerreira dentro de mim, desde muito nova já demonstrava possuir habilidades acima da média. Quanto mais eu crescia e aprendia, mais se aproximava o triste final do meu irmão. – Sango falava de forma oscilante, lutava contra as lágrimas acumuladas em seus olhos. O amor por seu irmão era gigante e a dor de tê-lo perdido era infinitamente maior. – Eu era o prodígio que todos esperavam que Kohaku fosse e ele sempre me incentivava nas minhas conquistas."
"Muitas coisas eu não sabia naquela época, acho que ainda não consigo entender muitas coisas, mas eu sei que meu irmão foi escolhido apenas por não se encaixar nos padrões da nossa família. Ele era diferente, mas era cheio de qualidades, só que nenhuma delas foi levada em consideração. Para a maioria ele era um ser defeituoso, afinal de contas a irmãzinha dele conseguia muito mais feitos que ele e quanto mais a irmãzinha conseguia alcançar novos objetivos, mais ele era considerado estranho."
"A cada conquista minha eu cavei cada vez mais o túmulo do meu irmão" – aquelas palavras eram pesadas demais, ela estava carregando sozinha um mundo de culpa nas costas. Sua força não era mais suficiente para conter as lágrimas que insistiam em transbordar, o cheiro salobre no ar ficava mais forte a medida que pequenas gotas rolavam por sua face, logo o mesmo acontecia com a outra garota.
- Meu irmão foi a última pessoa a ser sacrificada, isso foi há cinco anos. Uma grande parte das pessoas não deve nem se lembrar quem era o jovem que naquele dia entrou confiante mata adentro, ele estava radiante, estava sorrindo. Eu mal sabia o que estava acontecendo, Kagome. Eu não pude ajudá-lo em nada, nem mesmo sendo um apoio, um ombro amigo.
- Sango... – Kagome não conseguia proferir mais nenhuma palavra, estava grata por ela ter lhe contato a história de seu irmão e, ao mesmo tempo, angustiada pois sabia que dentro daquele coração havia uma ferida terrível e essa mesma ferida seria magoada novamente.
- Kagome, eu só quero que saiba que estou aqui para te ajudar. Meu irmão seria muito melhor nisso, mas eu sei que um pouco dele ainda vive em mim, eu sei que tenho um pouco de toda aquela bondade que ele transbordava. Por favor, me deixa ficar ao seu lado?
- Claro. - Foi a única coisa que conseguiu proferir.
Um abraço forte entre as lágrimas que ambas derramavam selavam aquele pacto, as duas tinham certeza de que estariam juntas até o fim.
