A cada dia o clima que pairava sobre shikon ficava cada vez mais pesado e isso não acontecia ao acaso, tendo em vista que, esse ano era o ano de tributo, mais sangue inocente seria derramado em prol do bem estar de todos e da paz com os youkais que viviam pelas redondezas.
Apesar da maioria dos habitantes viverem sem maiores preocupações, sempre que chegava próximo a essa época, as pessoas pareciam andar mais caladas, como se estivessem se preparando para o luto que viria a seguir. Pelas ruas ouviam-se cochichos sobre quem seriam os indicados, sobre quem achavam que seria mandado ao bosque da próxima vez. Os aldeões não saiam falando do assunto como maldade, vingança ou qualquer outra coisa do gênero, mas sim pela necessidade humana de falar sobre o que acontece no dia à dia, sobre o cotidiano, sobre a mudança, sobre seus medos.
Aquele ano parecia que todos estavam falando da mesma pessoa, a certeza da maioria era tanta que os outros indicados ficaram aliviados, apesar de parecer um tanto cruel se sentir melhor tendo a certeza da morte de outra pessoa, ainda assim eles não conseguiram deixar de ter aquela sensação.
Rin era o nome dela, uma garota simples que adorava colher flores e enfeitar todos os cantos por onde passava. Seus pais eram humildes, dedicados e amorosos, assim como Rin também era. Mas a filha tinha uma grande peculiaridade, ninguém além de seus pais havia ouvido sua voz. Os progenitores diziam que tudo não passava de timidez e que logo ela sairia da bolha em que se encontrava e todos descobririam a pessoa maravilhosa que Rin era. Entretanto os anos foram passando e o que antes era chamado de timidez, agora, era visto pelos outros como anormal.
Não demorou muito para que a indicação chegasse à sua família, arrasados eles tentavam de tudo para que ela conversasse com outras pessoas, mas os únicos diálogos que Rin conseguia manter era com os pais. Perto de outras pessoas ela sempre se parecia como um bichinho acuado, olhos arregalados, respiração acelerada, as mãos tremiam constantemente. Depois de inúmeras tentativas o máximo que conseguiram foi que Rin sussurasse no ouvido de seus pais tudo o que ela gostaria de falar para as outras pessoas e quando não estava acompanhada tratava de sair correndo para longe de qualquer um que tentasse se aproximar demais.
Rin tornou-se uma garota de 16 anos, mas os hábitos incomuns continuavam com ela todos os dias de sua curta vida. Seus pais estavam devastados e a cada dia pareciam mais abatidos, não sabiam mais o que fazer para resolver aquela situação, já haviam rezado, feito promessas, feitiços, implorado, conversado, gritado, chorado, mas nada parecia ter efeito e eles não conseguiam se conformar que iriam perder sua única filha. O amor de suas vidas seria levado e a sensação de impotência os esmagavam todas as horas de suas vidas.
Rin estava fazendo uma das coisas que mais gostava, a garota caminhava por um lindo campo de flores coloridas e escolhia as melhores para enfeitar seu próprio cabelo. Ali era o lugar onde ela se sentia mais feliz e tranquila, sem a pressão de ficar sendo obrigada a ter que interagir com outras pessoas.
- Rin? - perguntou uma menina de longos cabelos castanhos. A mesma menina já tinha lhe chamado outras vezes e em todas elas Rin fugiu para longe dela.
Dessa vez, Rin olhou assustada para a outra menina que lhe chamava, e apesar de ter a aparência de ser mais jovem que ela alguns anos, ainda assim lhe deixava agitada.
- Rin, eu preciso conversar com você. - disse a mais nova chegando cada vez mais perto, enquanto isso Rin começava a tremer. - Rin? - Continuava a chamá-la.
Rin não conseguiu mais evitar, estava perto demais, deu alguns passos para trás, deu as costas para a outra garota e saiu correndo deixando para trás um pequeno buquê de flores brancas e a frustração de alguém que só queria ajudar.
- Miroku, eu já tentei de todas as formas falar com ela, mas é impossível. - Sango dizia muito chateada. - Não sei mais o que fazer.
Sango correu atrás de Rin durante muito tempo e era com pesar que reconhecia estar derrotada.
- Sango, eu entendo que você gostaria de ajudar, mas para uma pessoa ser ajudada ela precisa querer. Não tem nada que a gente possa fazer numa situação como essa. - Miroku tentava acalmar a amiga em vão, sabia o quanto ela era teimosa e determinada. Há meses Sango tentava trocar ao menos uma palavra com a outra garota, mas tudo o que tinha conseguido era um grande silêncio seguido de uma fuga implacável.
Com o tempo Sango diminuiu o ritmo em que procurava a outra garota, a frustação por vezes a deixava abatida e por muito tempo sua mente não conseguia se afastar dos pensamentos que a levavam a Rin, chegou a cogitar a hipótese de falar com o ancião, mas acabou desistindo da ideia, pois a fama dele de ser intolerante era grande demais e não gostaria de colocar Rin em qualquer outro apuro que fosse.
A esperança de Sango era muita, entretanto foi perdida quase que completamente quando a mãe de Rin a abordou em um dia depois da escola.
- Olá. Você é a Sango, correto? – A senhora pálida e de olhos entristecidos disse gentilmente.
- Sim, sou eu.
- Rin pediu para que eu conversasse com você, eu sou a mãe dela. – Sango podia sentir que a conversa com a dona a sua frente não seria muito agradável. – Ela me contou que nos últimos tempos você a tem seguido e tentado falar com ela, é verdade?
- Sim, senhora. Mas juro que não quero fazer mal à ela, eu queria apenas tentar ajudá-la. – A menina estava nervosa e sua voz saiu um pouco mais rápida e aguda do que o normal.
- Eu entendo, Sango. – A mais velha conseguiu esboçar um leve sorriso triste. – Seu coração é muito bom e sua preocupação é muito nobre, apesar de ainda ser tão pequena. Rin gostaria que lhe dissesse que não é mais necessário tentar falar com ela, ela já aceitou seu árduo destino. Nós já tentamos de tudo, acredite. Não iriamos deixar que nossa filha fosse levada sem nos esforçar ao máximo para tentar reverter esse quadro, mas, apesar de inconformados, estamos tentando ter uma vida digna e dar a Rin os melhores dias de sua vida.
- Mas, senhora...
- Não é preciso se preocupar, Sango. Você é apenas uma criança e não deveria jamais carregar um fardo pesado como esse, assim como Rin também não deveria carregar tal fardo, mas as regras ditadas pelos adultos não são de fácil compreensão. – A senhora acariciou suavemente os longos cabelos castanhos de Sango. – Agora eu tenho que ir.
Alguns segundos depois que a mãe de Rin se despediu, Sango continuava parada no mesmo lugar, petrificada, absorvendo tudo o que tinha sido dito e sem conseguir acreditar que aquilo tudo era verdade.
Miroku avistou a amiga de longe e percebeu que ela parecia transtornada.
- Sango! - Gritou seu nome ao longe, mas a menina nem ao menos chegou a piscar os olhos. Quando conseguiu chegar perto o suficiente colocou as mãos nos ombros dela. - Sango, tá tudo bem? - Sango voltou seus olhos para Miroku e a única coisa que conseguiu fazer foi abraçá-lo fortemente, enquanto aquele sentimento ruim permanecia dentro dela.
