A casa de Sango não era muito grande, podia–se dizer que era bem simples. A maioria dos guerreiros morava naquela mesma região pois era lá onde ficava o acesso aos campos de treinamento e também era o lugar que ficava mais próximo ao bosque e caso surgisse alguma emergência, como um ataque, por exemplo, eles já estariam lá para dar conta do recado.

Os três amigos sempre preferiam aquele lugar para tentar treinar Kagome, primeiro porque lá já tinha todas as ferramentas em caso de necessidade e o segundo motivo era que eles poderiam usar os barracões do complexo e ninguém iria descobrir o que estavam fazendo.

– Sango, vocês estão tentando isso a dias. A Kagome não conseguiu prever nenhum movimento, nem mesmo por sorte. – Miroku estava entediado de olhar aquela mesma cena por horas a fio.

– Se você tiver alguma ideia é só dizer e então a gente vai para uma outra abordagem. – A garota fuzilava–o com os olhos. – Falando desse jeito você vai fazer Kagome perder o ânimo.

– Gente, está tudo bem. Vocês não precisam brigar por isso, eu sei que as coisas não vão ser fáceis pra mim. – Kagome tentava acalmar os amigos, porém ela também se sentia mentalmente e fisicamente cansada depois de todas aquelas tentativas

– Eu tenho uma ideia, meninas. Vamos dar um pouco de descanso a vocês. – O garoto disse confiante. – Talvez Kagome tenha mais jeito com as habilidades espirituais ao invés das habilidades físicas. – Suas mãos gesticulavam chamando as duas para perto de si.

Sango guiou Kagome para onde Miroku estava e sentaram–se junto a ele na esteira de bambu disposta no chão.

– Tudo bem, qual é a grande ideia? – perguntava impaciente.

– A ideia é tentar fazer com que Kagome faça um exercício bem simples, algo que ela vai conseguir fazer em casa caso queira praticar. – O jovem pegou uma moringa cheia de água e o copo que antes ele mesmo usava, posicionou o copo no chão e preencheu até quase transbordar.

– Então o que eu tenho que fazer? – Perguntou ansiosa.

– É bem simples. Quero que você segure em minha mãos e tente sentir o fluxo de energia. Vou acumular a energia nas mãos e isso vai fazer a água do copo transbordar, quanto mais energia mais água vai derramar.

Miroku posicionou as mãos junto às mãos dela e trouxe para perto do copo, uma de cada lado. Sango observava atentamente.

Enquanto o garoto se concentrava uma luz fraca apareceu entre suas mãos, Kagome pode sentir o calor terno surgir e logo em seguida a água começou a escorrer lentamente pelas beiradas do copo.

– Você tem que manter a energia constante, caso contrário você pode não conseguir fazer o exercício ou pode fazer o copo explodir e ai vai ter que arrumar outro copo. – O fluxo da água ficava mais forte gradativamente. – Quanto mais energia você conseguir manter mais a água transbordará. E se o fluxo de energia ficar muito forte de repente... - O líquido quente espirrou para todos os lados, assustando as duas garotas que estavam concentradas nas instruções.

A risada de Miroku ecoou pelo barracão.

- Você é louco, garoto? - Irada, Sango não se conteve e deu um safanão na cabeça do amigo, que se seguiu por um gemido de dor e protesto do mesmo. Enquanto isso a terceira caiu na risada e logo os outros dois estavam gargalhando juntos.

- Kagome, agora é sua vez. Se quiser posso demonstrar de novo. - A brincadeira havia tirado o clima pesado em que se encontravam, ainda assim o garoto conseguia trocar os ares de brincadeira para seriedade com muita facilidade.

- Tudo bem, eu entendi. - As mão de Kagome foram posicionadas próximas ao copo com agua, os amigos fizeram silêncio para não atrapalhar a concentração dela.

A jovem guerreira não pode deixar de perceber o quanto Miroku estava apreensivo e concentrado junto com Kagome. Sango admirava-o pelo jeito descontraído e sua incrível capacidade de manter a calma mesmo em momentos de aflição. Ele sempre conseguia trazer calmaria para seu coração agitado.

Alguns minutos se passaram e as três pessoas no barracão estavam ansiosas para chegar em algum resultado. Dois pares de olhos estavam fixados em qualquer movimento que houvesse no líquido dentro do copo. Kagome conseguia sentir a sua própria energia fluir, mas tinha dificuldade em fazê-la se acumular nas mãos. Em certo momento achou que tinha conseguido juntar uma pequena quantidade de energia, mas era muito difícil. Os acompanhantes viram um leve movimento e logo depois um filete de água escorreu, os punhos cerrados, pensamentos positivos, torciam silenciosamente para que conseguisse algum avanço e aquela pequena gota d'agua se transformou em enorme alegria retumbando nos dois corações.

Outra gota escorreu, seguida de uma terceira, Kagome arfou, as costas foram arquejadas e as mãos colocadas ao chão, estava totalmente esgotada, aquilo era mais cansativo do que treinar com a Sango por horas.

- Muito bem, Kagome. - O amigo parabenizou. - Você é ótima!

- Acho que você está sendo bastante generoso, Miroku. - Falava derrotada e por Deus ela duvidava que teria energia suficiente para levantar daquele lugar, quem dirá chegar em casa.

- Estou falando sério. Você é praticamente um prodígio. - A felicidade estava sendo exalada em sua voz. - Eu demorei um pouco mais para conseguir o mesmo resultado. - Apesar de ser alguns anos mais novo quando começou seu treinamento, tinha demorado quase uma semana para conseguir o mesmo feito de Kagome. - O cansaço que está sentindo é natural, fazemos um esforço muito grande no começo, pois não conseguimos controlar e moldar nossa própria energia, mas com o tempo essa sensação diminui. Entretanto se usar muito mais do que o de costume também poderá se sentir muito fraca.

Fazia tempo que Kagome não se sentia tão leve, parecia que tinha retirado uma imensa pedra de suas costas. Apesar de tudo ainda parecer perdido e seu futuro ser uma completa escuridão, estava feliz por conseguir mais um feito em sua vida. Não pode deixar de pensar em sua mãe e em como ela ficaria orgulhosa, queria correr pra abraçá-la e lhe mostrar sua nova habilidade, entretanto era um risco a mais que correria se ela soubesse. Por enquanto esse segredo teria que ser mantido entre os três amigos.