O sol nasceu como em qualquer outro dia, os raios calorosos entraram pela janela e aqueceram suavemente a sua pele. A claridade incomodou os seus olhos e a jovem se espreguiçou deliciosamente.
Ao levantar de sua cama se deparava com um quarto simples, um pequeno armário na parede em frente à cama e embaixo da janela uma mesa e algumas das flores que colheu nos dias anteriores, algumas exalavam um delicioso perfume. Os poucos móveis que possuía era considerado luxo e os tinha somente porque seu pai trabalhava como marceneiro.
O cheiro de ovos mexidos invadiram suas narinas, era o seu prato preferido para o desjejum, sua mãe certamente sabia como lhe agradar. Não demorou até sair de seu quarto e correr até onde estava sua mãe.
A mesa estava enfeitada e havia mais comida sobre ela do que de costume, as frutas picadas delicadamente mostravam todo o capricho que esse dia prometia.
Sua mãe lhe avistou e foi ao seu encontro enlaçando-lhe em um forte abraço.
- Bom dia, minha querida. - O tom melancólico em sua voz não era condizente com o banquete disposto na mesa. Enquanto a mesa revelava o que parecia uma comemoração, sua voz dizia exatamente ao contrário, ainda assim forçou seu melhor sorriso.
- Está tudo bem, mãe. Nós já conversamos sobre isso. - A filha tentou acalmar os nervos da progenitora. - Aonde está o papai?
- Seu pai tem um trabalho de última hora para fazer, ele nos encontrará depois.
As duas mulheres sentaram-se a mesa e apreciaram calmamente a refeição.
O longo rangido da porta informava que seu pai voltara para lhes acompanhar no final do café da manhã.
- Bom dia, papai. - A jovem transpirava a tranquilidade que seus pais gostariam de ter.
- Bom dia, minha filha. - Seu tom era apressado. - Me desculpe pelo atraso, tinha algo muito importante para terminar. - Chegando próximo da mesa o senhor depositou na mesa uma pequena caixa de madeira entalhada com uma rosa em sua tampa.
Os olhos dela brilhavam de alegria ao perceber que estava ganhando um presente feito pelas mãos de seu pai. A caixa foi aberta e revelou uma linda pulseira com pérolas de madeiras pintadas delicadamente. O sorriso da menina contagiou os outros dois presentes que observaram ela colocar o adereço em seu braço.
- Muito obrigada, papai. - Agradeceu radiante.
- Eu gostaria de ter tido mais tempo e conseguir fazer algo mais trabalhado
- É perfeito, nada poderia ser mais perfeito que isso.
Seus pais não conseguiam acreditar em como ela conseguia lidar com toda aquela situação sem chorar, praguejar ou se desesperar de alguma forma. Para eles estava sendo tão difícil e se não fosse toda a força da criança que haviam posto ao mundo para lhes ajudar a se manter em pé, temiam quebrar em mil pedaços.
O desjejum foi apreciado pela família unida , aquele era um último de sua vida juntos.
Rin aproveitou ao máximo aquele dia, colheu algumas flores e fez uma linda tiara de margaridas, elas seriam as últimas flores a enfeitar seu corpo aquela noite. Tomou um banho demorado e se deliciou com a sensação da água fria refrescando seu corpo, escolheu para vestir o único vestido que tinha para ocasiões especiais, era um tecido leve e em tom azul pastel, sua mãe teria adorado que tivesse se vestido com aquela peça mais vezes, mas recusou colocar em seu corpo pois achava que acabaria chamando muito a atenção para si. Aquele dia ela não teria que fugir de ser o foco dos olhares de todas as pessoas daquele lugar.
Estava pronta. Olhou pela janela e viu que o sol logo deixaria de iluminar o céu, seu coração passava para um ritmo mais rápido a cada segundo que seguia. Respirou fundo. Suas mãos tremiam levemente, apesar de tentar mostrar uma tranquilidade para os pais, por dentro era puro desespero. Quem em sã consciência aceitaria a morte tão facilmente? Ela estava bem sã, mas queria proporcionar aos pais uma vida com um pouco menos de estresse, um pouco menos de preocupação se é que isso era possível.
- Rin, está na hora. – A voz melancólica da mãe lembrou que tinha que manter a postura.
- Estou indo. – Rin se apressou e abriu a porta, sua mãe sorriu ao vê-la. Esse seria o último sorriso maternal que veria e seu coração ficava cada vez menor dentro do peito.
- Você está linda. – A progenitora não conseguiu evitar de dizer e logo voltou seus pensamentos para angustia que sentia ao lembrar qual era o futuro de sua filha.
As duas se encontraram com o único homem da casa esperando do lado de fora, as mãos de Rin foram enlaçadas por cada um de seus pais e assim seguiram para um caminho sem volta.
O céu era um lindo manto negro estrelado, próximo ao local da cerimônia estava um amontoado de gente iluminados por várias tochas distribuídas no ambiente. A jovem se encolhia como se quisesse entrar dentro de si mesma, seus pais não podiam servir como escudo nesse momento. Rin estava em cima de um estrado junto com mais dois jovens que possuíam uma aparência muito mais tranquila do que ela teria imaginado, era tão grande a certeza deles de que voltariam para suas casas a salvo de qualquer mal? Ela parecia a única realmente preocupada ali, talvez porque por todos os lados onde ia ouvia seu nome ser mencionado em sussurros.
Myouga subiu no estrado junto com os três, o velho roliço chamou atenção da multidão. A hora estava próxima.
- Boa noite a todos. – Rin se perguntava como era possível alguém ter uma noite agradável depois de ter nas mãos o sangue de alguém inocente. - Hoje é um dia de tristezas, mas saibam que nosso sacrifício nunca é em vão e esse dia sombrio nos guia para os próximos anos com fartura e paz. - Rin sentia o vento gelado passando por seu corpo e a única vontade que tinha era de calar a boca do ancião, descer daquele maldito lugar, voltar para casa, deitar na cama e se enrolar em suas cobertas aquecidas.
- Sem mais delongas, vamos a votação. - Miyouga se moveu para trás dos jovem. - Quem acredita que a jovem Yuka tem que servir de oferenda este ano levantem a mão. - o velho parou e observou a multidão, poucos braços podiam ser contados. - Quem acredita que que o jovem Houjo tem que servir de oferenda levantem as mãos. - Novamente observou poucas pessoas se movendo para votar. - Por fim, quem acredita que a jovem Rin deve servir de sacrifício levantem a mão. - Uma avalanche de mãos foram levantadas de uma vez e não foi preciso contagem para saber quem seria a vítima da vez, para o ancião era só a confirmação de uma certeza.
Rin olhava para seus pais desconsolados, as suas lágrimas não podiam mais ser evitadas. Algumas pessoas estavam ao redor deles para que não atrapalhasse a cerimonia. A mãe gritava incansável por seu nome enquanto os outros dois eram encaminhados novamente para suas famílias. A adrenalina corria pelo seu corpo e tremia cada vez mais, suas pernas pareciam não ter forças suficientes para lhe manter de pé.
- Está na hora, pequena Rin. – A jovem percebeu certa satisfação na voz de Miyouga, seria apenas sua imaginação? Ou por estar acostumado com tantas mortes em sua vida aquele homem não conseguia mais sentir o quanto tudo aquilo era horrível e asqueroso? - Você precisa de ajuda? Ou consegue sozinha?
Rin desviou a atenção de seus pais e ao olhar o ancião nos olhos, eles pareciam reluzir em antecipação ao que ocorreria. A mão do velho foi em direção ao seu ombro e ela se esquivou dando um passo para trás e cerrou seus olhos. O homem havia entendido a mensagem.
Enquanto seus pais suplicavam por sua vida, ela caminharia sozinha para seu fim. Não pode evitar de lançar um último olhar para aqueles que amava, não era certo prolongar toda aquela angustia, girando em seu próprio eixo seguiu pelo caminho sombrio rumo ao bosque amaldiçoado, seu rosto gelado e molhado de lágrimas se contorcia em uma careta agora que outras pessoas não poderiam mais avistar o sofrimento que guardava dentro de si. A cada passo dado a jovem lentamente se transformava em um vulto aos olhos de quem ficava a salvo daquele lado e mais visível se tornava para os youkais que aguardavam sua presa ansiosamente. Foi quando sumiu completamente das vistas humanas que todos ouviram com horror a voz da inocente gritar em desespero, enquanto os monstros que tanto temiam devoravam sua carne lentamente.
Aquela era a primeira e última vez que Shinko no Tama ouviria a voz da jovem Rin.
