O suor escorreu por sua têmpora deixando-a cada vez mais ensopada, de sua boca eram emitidos gemidos baixos. Enquanto seu coração pulsava forte dentro do peito, o corpo tremia levemente, o rosto contorcia-se. Uma dolorosa agonia se instalava no seu corpo trazendo lembranças e sensações que adoraria esquecer, mas no seu atual estado dificilmente deixaria de lembrar.
Sua mente finalmente a libertava de seus terríveis pesadelos. Estava tensa, os gritos da garota sacrificada há 4 anos atrás ecoava em sua mente constantemente, sempre lembrando que aqueles sons poderiam sair de sua própria boca, os pelos de seus braço se eriçavam toda vez que pensava nisso.
Seu treinamento com Miroku estava caminhando muito bem, os dois estavam praticamente no mesmo nível e eles estavam aprendendo bastante coisa juntos. Já o treinamento com Sango não estava rendendo frutos tão bonitos, estava totalmente estagnada e por mais que se esforçasse não conseguia ir além. Kagome não tinha confiança em si mesma, como que uma garota cega poderia lutar? A certeza de que nunca conseguiria não a deixava se desenvolver. Sango estava pegando mais pesado a cada dia o que acabou deixando algumas marcas em seu corpo e fez com que uma pulga se instalasse bem atrás da orelha de sua mãe, logo tiveram que reduzir o ritmo dos treinamentos e diminuir os dias em que se encontravam e isso deixava sua amiga mais irritada, apesar de não demonstrar explicitamente.
Seu amigos estavam demorando demais, provavelmente tinham encontrado algum adulto pelo caminho. Odiava ter que ficar esperando e mesmo estando exausta não voltaria a cochilar, os pesadelos que tinham durante a noite eram suficientes, não precisava deles durante o dia. Decidiu sair do barracão onde quase sempre treinavam e resolveu fazer uma atividade que ainda não tinha êxito, precisava praticar. Era melhor do que perder seu tempo dormindo.
Conhecia bem todo aquele lugar, afinal esteve ali incontáveis vezes. Resolveu chegar mais perto da mata, a natureza se fazia necessária nesse novo exercício. Contou os passos para não acabar chegando perto demais, sentou na grama e relaxou o corpo.
Essa era uma habilidade bastante complexa de se alcançar, não era a sua energia que deveria ser usada e sim a energia de outros seres. Todas as coisas no mundo emitiam uma energia própria, os seres vivos eram capaz de emitir algo mais radiante do que objetos inanimados e ela teria que ser capaz de senti-los e dessa forma identificar todas as coisas. Em resumo essa nova habilidade era um poder de observação que era alcançada através de muita concentração, pois a pessoa que usava deveria mentalizar a energia que vem de outros seres ao invés de usar a própria força.
Kagome sentia cada coisa ao seu redor com os 4 sentidos que possuía, era fácil e até mesmo instintivo. O Som dos pássaros e das folhas que se agitavam ao vento, a brisa gelada que refrescava sua pele e brigava com os raios de sol que teimavam em aquecê-la, o cheiro da grama, da terra seca que não via chuva há muitos dias, em sua boca ainda podia sentir a refrescância da água que tinha bebido minutos atrás. Tudo isso era extremamente fácil pra ela, sentir o mundo era o que ela fazia de melhor. A garota se concentrou e se deixou levar suavemente pelos sentidos e foi então que começou a experimentar novas sensações e era como se o mundo que conhecia tivesse se modificado mesmo que nenhuma mudança fosse feita. Tudo explodiu em energia e seus lábios se curvaram em um sorriso enquanto observava cada coisa como se fosse a primeira vez em sua vida.
Kagome estava feliz, mas sua felicidade logo se tornou preocupação ao notar que não estava sozinha e que entre as árvores havia alguém a lhe fazer companhia. O sorriso leve em seu rosto se transformou completamente e uma linha dura e séria pairava sobre seus lábios.
- Quem está ai? – Assim que perguntou a sensação que tinha desapareceu. Será que estava alucinando? Ou havia perdido sua concentração? Não podia ser, ela ainda conseguia sentir todas as coisas.
- Olá, garota. – Sua voz lenta e profunda a assustou, estava confusa. – Enfim conseguiu me encontrar.
- Quem é você? – Kagome sabia quem era, ele era a mesma pessoa com quem havia se encontrado anos antes. Ele era o mesmo ser misterioso do qual muito pouco sabia, mas que vivia constantemente em seus sonhos. Mesmo assim não conseguiu deixar de fazer tal pergunta.
- Nos encontramos por aqui há algum tempo. - A voz dele era tão calma e penetrante, totalmente diferente do que ela mesma sentia. - Acho que você deve se lembrar.
- Como você consegue? - Sua mente estava girando, mal conseguia completar uma frase direito, mas ele sabia bem do que ela estava falando.
- ocultar minha energia? - Perguntou retoricamente. - Bem, digamos que minha sobrevivência depende disso. Os outros não podem saber onde estou e o que eu acabei de fazer foi bastante imprudente, mas eu queria ver a sua reação. - Apesar da seriedade com que ele falava, era inevitável que Kagome sentisse como se estivesse tirando sarro da sua cara.
- Você vai precisar aprender também, isso é se você ainda tem alguma esperança de sobreviver do lado de cá. - Um breve silêncio pairou no ambiente e Kagome se perguntou como ele sabia sobre ela e questionava se ele seria muito poderoso, já que possuía habilidades da qual não tinha conhecimento.
- Você pode me ensinar? - Apesar do coração batendo a mil por hora a garota estava conseguindo por as idéias no lugar, mas qualquer um que soubesse desse pedido a chamaria no mínimo de louca.
Ela ouviu uma risada em resposta e concluiu que ele também estava achando que ela era louca.
- Você é mesmo corajosa, mas a verdadeira questão é: o que eu ganharia com isso? - Perguntou casualmente.
- Farei qualquer coisa que quiser. - Respondeu rapidamente, não tinha nada a perder já que estava destinada a morte.
- Tem certeza disso? Você entende com quem está falando?
- Não é como se eu tivesse melhores opções diante de mim. - Apesar de assustada com toda aquela situação Kagome ainda conseguia parecer impetuosa. - É tudo ou nada pra mim. - Mal acabou de falar e pode ouvir o barulho das folhas sendo pisoteadas lentamente e seguiam para perto de si, levantou de súbito e percebeu que seu corpo tremia levemente.
Parecia que ela não era a única ao qual o juízo estava faltando, um youkai ultrapassando os limites do bosque, isso era uma loucura tão grande quanto ela pedindo ajuda para ele.
- Parece que temos um trato. - A voz tão próxima fez os pelos do corpo dela se arrepiar e suas pernas teimavam em não querer mantê-la de pé. - Eu vou te ensinar e você vai usar seus poderes para me ajudar em alguns objetivos.
- Trato feito. – A mão estendida foi enlaçada pelo demônio. Achava que não teria boas sensações ao tocá-lo, mas foi exatamente ao contrário, algo de muito bom emanava dele.
- É melhor a gente continuar isso um outro dia, seus amigos estão chegando. – Tão rápido ele disse e logo já não estava mais lá, como se tudo aquilo nunca tivesse existido.
A jovem garota sentia-se cada vem mais enrolada em um destino estranho. Tendo certeza de que seu futuro era a morte, se agarraria ao pacto demoníaco que acabava de selar e lutaria com unhas e dentes para manter a chama de sua vida acessa.
