Sango sabia há muito tempo que ele era mesmo um grande preguiçoso, mas que, sem sombra de dúvidas, ele tinha um talento enorme pra aprender qualquer coisa. E pensar que um dia ela imaginou que ele se esforçava muito e que o admirava por isso. Chegava a ser uma grande piada, só de se lembrar dava risada sozinha.
Ela se decepcionou quando descobriu sua verdadeira natureza e sentiu muita raiva e revolta por ele ter um talento tão grande, mas não explorá–lo por completo e enquanto isso outras pessoas ansiavam por ser melhores, trabalhavam dia e noite com medo de ser o próximo indicado. Tudo aquilo era muito injusto com os outros. Apesar dos sentimentos ruins que acabaram tomando conta de seu coração, Sango não conseguia parar de pensar em Miroku e não conseguia se afastar dele. Com o tempo ela percebeu que ele não era uma má pessoa e que, mesmo sendo um preguiçoso nato, ele sempre estava disposto a ajudar quem precisava. Pouco a pouco a admiração que um dia sentiu por ele foi voltando a tomar forma dentro de si e percebeu que, a revolta que sentia, não era culpa de Miroku, ele não era responsável por todo aquele circo de horrores que acontecia por ali, na verdade, ela percebeu, que ele era só mais um dos peões tendo que jogar aquele jogo sádico.
— Vamos, Miroku. – Sango estava correndo bem a frente. – Corre, corre.
— Sango, você quer me matar hoje? – Ela com certeza tinha muita energia pra gastar e, sempre que podia, fazia com que o amigo se esforçasse além do que estava acostumado.
— Você é muito mole. – Sango gargalhava. – Corre.
Os cabelos longos e castanhos de Sango esvoaçavam e o sorriso largo no seu rosto aquecia o coração do adolescente que corria com dificuldade atrás dela. Ele correria até a morte se tivesse a certeza de que aquela expressão nunca sairia de seu rosto.
A garota diminuiu o ritmo das passadas até que parou completamente quando ele a alcançou.
— Acho que estou tendo uma parada cardíaca. – Ao falar isso Miroku se jogou na grama com as duas mãos segurando o lado esquerdo do peito.
— Eu vou te salvar, Miroku. Deixa que eu te faço uma massagem com o meu pé. – Sango levantou alto sua perna e com muita velocidade levou o pé em direção ao peito dele. O garoto arregalou os olhos e rapidamente saiu rolando para se livrar do ataque dela. – Ora, ora, eu não sabia que pessoas tendo um ataque conseguiriam desviar desse tipo de golpe. – Sango ria divertida. – Você é mesmo especial. – Sango sentou ao lado dele e continuou gargalhando.
— Parece que o bichinho da felicidade mordeu alguém por aqui hoje. – Disse enquanto se levantava para ficar sentando ao lado dela. Em seu rosto também tinha um largo sorriso.
— Depois de ver sua cara de surpresa enquanto eu tentava te golpear, com certeza ele deve ter me mordido. Foi engraçado demais. – Ela não conseguia parar de rir.
— Se eu soubesse que meu sofrimento ia te trazer tanta alegria eu teria começado a sofrer antes deliberadamente. – Sango parou e olhou em seus olhos. – Eu adoro te ver desse jeito.
— Miroku, eu…
Sango não pode terminar a frase, os lábios de Miroku estavam colados ao seu, mas rapidamente ele se afastou. E ela não conseguia mais dizer nenhuma palavra.
— Eu sei o que deve estar passando na sua cabeça. – Ele desviou os olhos e começou a encarar o chão. – Tudo está um caos, nossa melhor amiga, com certeza, será jogada aos tubarões, então como é que eu ainda tenho coragem de fazer algo desse tipo? Aliás como é que eu posso ter tempo pra pensar em coisas desse tipo? – Ele não estava errado, mas ela achava que também não estava totalmente certo. – Você sempre está tentando ajudar aos outros, desde que nos conhecemos você vive focada nos outros, sempre preocupada com os sentimentos alheios e isso é algo que eu admiro muito em você. Essa sua persistência em querer sempre ser melhor por si mesma é algo que, definitivamente, eu não tenho. – Miroku deu uma breve pausa e ela preferiu não interromper. – Mas quando estou com você eu tenho vontade de ser o melhor, de deixar de lado essa minha natureza de desinteresse e mostrar pra você que eu posso ser muito mais. Eu quero que você olhe pra mim e me veja e muitas vezes eu gostaria que você enxergasse somente a mim e que deixasse seus sentimentos fluírem livres sem se preocupar com toda essa carga que você coloca sobre os ombros. – Miroku deu um sonoro suspiro, ele parecia derrotado com os olhos baixos e os ombros curvados. – Então me pergunto como em meio à esse furacão eu posso pensar nisso tudo? Eu realmente não sei, mas não consigo parar de pensar em você. – Miroku sentiu as mãos de Sango em seu rosto e voltou a olhar pra ela.
— Eu sempre me sinto um pouco culpada quando se trata dos meus próprios sentimentos, você sabe que tem muita gente sofrendo e tem a Kagome, céus, eu não consigo imaginar nem dez por cento de tudo que ela deve estar passando. – Miroku tentou desviar o olhar novamente, mas Sango segurou seu rosto. – Mas acho que isso é inevitável, acho que a gente não tem mais como deixar de lado esse sentimento. – Ele se sentiu um pouco confuso, não sabia o que ela queria dizer exatamente com tudo aquilo. – Mesmo em meio a tormenta eu não consigo parar de pensar em você, Miroku. – Sango uniu novamente seus lábios e toda a tensão que pairava entre eles se dissipou, ela se sentia bem em estar nos braços dele e ele se sentia bem em tê–la em seus braços. A situação do lugar onde estavam não era das melhores, mas querer ser feliz sem fazer mal a ninguém ainda não era nenhum pecado.
