A pequena criança tinha o olhar sempre franzido, ao seu lado sempre se encontravam outros youkais dispostos a lhe agredir mesmo que fizesse exatamente tudo o que mandavam. A única vontade que tinha era de poder matá-los lentamente, entretanto sabia que era pequeno e fraco demais para enfrentá-los de igual para igual.
Não era natural que crianças vivessem entre a floresta obscura, ali só existia o mal e tudo que nele habitava havia sido criado a partir de um pedaço de Naraku, ele se multiplicava e espalhava os seres medonhos por todos os lugares.
Anos antes do nascimento do pequeno menino Naraku teve mais uma de suas ideias malignas, porque não trazer uma das sacerdotisas a floresta e usar de seu corpo para criar um ser mestiço que teria o poder do sangue youkai e o de uma bruxa humana correndo em suas veias. Ele imaginou com deleite que aquilo traria uma nova era para os youkais.
Naraku olhava para o pequeno verme, como o chamava, e não podia evitar de sentir decepção ao ver que criara um ser inútil. Meses e meses desperdiçados mantendo uma humana viva a espera do nascimento de uma criatura que não serviria para nada, exceto descarregar a raiva e frustração de tê-lo criado em cima dele mesmo.
O ser vil aproximou-se da criança e a sua aversão só aumenta enquanto ela a encarava incessantemente com seus olhos cor de âmbar, abaixou na frente dele para fitar a expressão infantil. Alguns segundos depois sua mão voou duramente direto para a face inocente, o menino foi ao chão tamanha a agressão sofrida, houve um gemido de dor e nada mais que isso. Quando Naraku se levantou o menino permanecia no chão, encolhido como um feto, tentando se proteger de possíveis ferimentos que o outro lhe causaria.
— Não me olhe assim, cãozinho demoníaco. – Em suas palavras só o ódio podia ser sentido e ninguém naquele pedaço do inferno poderia esperar algum sentimento digno vindo dele, a única pessoa ao qual ele agradaria era ele mesmo.
O youkai covarde deu as costas e se afastou lentamente do garoto no chão, e percebendo que o mais velho se distanciava observou atentamente ao redor e percebeu que ali não se encontrava mais ninguém e tremeu ansioso com a possibilidade de uma fuga. Não poderia perder tamanha oportunidade, naquele momento decidiu que era melhor morrer fugindo do que passar o resto da vida sendo torturado.
Quando o demônio virou novamente para continuar com a violência verbal percebeu que estava sozinho.
— Inu-Yasha! – gritou a plenos pulmões, sua forma humana deu lugar ao ser demoníaco e os longos tentáculos se espalharam por todos os lados em busca da criança fugitiva.
Outros youkais chegaram afoitos ao ouvir os gritos de Naraku e surpreenderam-se ao descobrir que o hanyou tinha escapado.
— Encontrem aquele asqueroso. – continuava a gritar raivosamente. — Encontrem aquele cãozinho demoníaco agora. – A fúria do demônio era tamanha que todos os outros saíram o mais rápido possível, quem ficasse parado certamente pagaria com sua própria vida.
Naraku permaneceu sozinho amaldiçoando o dia em que teve a ideia de criar aquele ser, o maldito sempre o olhava de forma desafiadora como se de alguma forma se achasse superior. Não permitiria que aquela criatura medíocre se tornasse superior jamais e assim que o encontra-se novamente não o deixaria viver por muito mais tempo e enfim encontraria o prazer ao matá-lo de forma lenta e cruel.
O pequeno hanyou escondeu sua energia instintivamente o que atrapalhou os outros youkais que estavam a sua procura e, apesar dos machucados espalhados pelo seu corpo devido as agressões diárias que sofria, continuou correndo. Ele mesmo não sabia de onde tinha arrumado coragem para escapar das garras de Naraku, mas tinha dado o primeiro passo e lutaria até o fim para não voltar para a maldita vida que viveu até agora.
Depois de muito correr seu corpo não suportava mais continuar, estava totalmente exausto. Ainda foi capaz de observar com certa admiração a árvore imensa a sua frente antes de cair ao chão esgotado.
— Inu-Yasha? – conseguiu ouvir alguém chamar seu nome ao longe, no entanto não conseguia identificar aquela voz e as imagens que estava vendo o deixavam aterrorizado. — Inu-Yasha? – Um segundo chamado foi feito, agora estava mais perto e sentiu o toque suave em seu braço. O hanyou levantou sobressaltado e ofegante se afastando do contato estranho, reagindo automaticamente em sua própria defesa agarrou a pessoa a sua frente pelo pescoço e a levou ao chão.
Segundos depois da ação precipitada percebeu que tinha o pescoço de uma garota em suas mãos e soltou-a rapidamente. Kagome se levantou assustada com as mãos ainda no próprio pescoço massageando o local que ficou dolorido.
— Me desculpe, Kagome. – pediu o hanyou assim que percebeu o que tinha acabado de fazer.
— Você estava tendo outro pesadelo, só estava tentando ajudar. – A garota parecia magoada e ainda conseguia ver o medo estampado em suas feições.
— Não tive a intenção de machucá-la, como você sabe não estou acostumado a ter companhia e acabei me exaltando.
Ela sabia que Inu-Yasha não tinha feito aquilo por querer, mas não podia evitar se sentir assustada e temer o meio youkai a sua frente. Era perturbador ouvi-lo ter pesadelos todos os dias, delirando em agonia sem poder ajudá-lo. Mal podia imaginar as crueldades que ele deveria ter passado, mas tinha certeza de que não foram poucas e tudo isso entristecia seu coração. Ela gostaria muito de ter a capacidade de apagar todas as marcas de sofrimento pelo qual o meio demônio vivenciou, infelizmente ela mal tinha o poder de curar suas próprias feridas.
Inu-Yasha sentia-se um monstro, talvez porque ele realmente fosse um.
— É melhor não se aproximar enquanto eu estiver dormindo, pela sua própria segurança.
– Tudo bem. – A garota respondeu prontamente.
O hanyou não sabia até onde seu descontrole poderia lhe levar, ele mesmo não sabia prever as ações de seu próprio corpo. Resolveu que era melhor mantê-la distante, mas segura de suas atitudes impensadas. Jamais poderia se perdoar caso ferisse gravemente a única pessoa que algum dia esteve ao seu lado.
