A vila estava de cabeça para baixo, algumas pessoas queriam que fosse realizado logo o próximo sacrifício e outros achavam injusto e queriam combater essa ideia, se o trato era um sacrifício a cada cinco anos ele tinha sido cumprido e se os youkais não conseguiram conter uma humana o problema era deles. O medo e a revolta estavam plantados por todos os lugares, guerreiros, guerreiras, monges e sacerdotisas estavam a postos e preparados para um ataque e, da forma que as coisas caminhavam, não demoraria muito para acontecer.
Quando o horário da cerimônia se aproximou os habitantes do local perceberam uma movimentação estranha, diante deles era como se vissem cara a cara um fantasma, mas o choque presente no rosto das pessoas não era somente pela garota da capa vermelha, o espanto também era proveniente do youkai ao seu lado.
Inu-Yasha, Kagome e seus amigos seguiam juntos para o local da cerimônia, sabiam que o meio youkai chamaria muito a atenção, mas não tinham tempo sobrando para tentar bolar um plano onde o hanyou ficasse de fora. Não demorou muito até que uma quantidade enorme de gente soubesse o que estava acontecendo ali e quando os quatro chegaram ao local onde o rito aconteceria todas as pessoas a sua volta pareciam agora se unir com um único objetivo: destruir o maldito youkai que ousou transpassar os limites da floresta. Se antes as coisas não estavam nada bem, com a presença de Inu-Yasha entre eles tudo estava piorando.
Sora estava ao lado do velho ancião e conseguiu ver ao longe Kagome chegando e seu único reflexo foi sair do local de imediato para poder abraçar sua querida filha novamente, contudo não pode seguir seu caminho, seus movimentos foram impedidos por Myouga que segurou fortemente seu braço, o idoso parecia ter a força de um homem jovem. Não poderia deixar de encará-lo e identificou no semblante do mais velho um olhar maligno.
— Kagome! – gritou desesperada, sua intuição lhe dizia que algo muito ruim estava prestes a acontecer.
— Mamãe. – Ouviu a voz da filha em retorno e não conteve a emoção de tê-la tão próxima a si novamente, por um momento desejou que o seu reencontro não fosse nessas condições.
— Não vamos permitir que a mãe de Kagome seja sacrificada, Myouga. – disse Sango decidida.
Myouga começou a rir, ninguém estava esperando tal reação.
— Vocês querem essa mulher patética? – perguntou enquanto a balançava pelo braço. — Pois tomem! – Myouga arremessou Sora na direção dos jovem. — Eu já tenho o que eu quero bem aqui. – A gargalhada dele foi alta o suficiente para chamar atenção de todos a sua volta e por um momento o pensamento de vários ali era de que o ancião estava enlouquecendo.
Sora correu na direção de sua filha, a saudade era tamanha que, cada dia longe dela, pareceu uma eternidade. O reencontro familiar foi interrompido pela risada profunda de Myouga e, naquele momento, todos voltaram sua atenção para ele. E em alguns segundos até esqueceram da presença de um youkai entre eles, as loucuras do velho pareciam cadê vez piores.
— É uma pena ter que acabar com toda a emoção que esse encontro está nos proporcionando. – Era visível a ironia contida na fala do velho.
— É o Naraku. – Inu-Yasha não precisava observar mais para ter a certeza de que quem estava presente ali não era o ancião.
— Temos aqui presente dois fugitivos. – Os dedos se posicionaram em riste na direção de Inu-Yasha e Kagome. – A bruxa cega e um meio youkai asqueroso. – disse com repulsa. — Vocês tem duas opções: A primeira é se entregar e sofrer as consequências de seus atos ou a segunda que é não se entregar e deixar que toda vila sofra com a consequência de seus atos.
Kagome buscou a mão do meio youkai, ele a fitou longamente e notou que ela estava decidida a continuar com o plano, não pode evitar de manter a mão unida a dela e deixar que a confiança que ela transpassava inspirasse sua própria coragem.
— Eu dúvido que Naraku não ataque a vila mesmo que a gente se entregue. – continuou o hanyou.
— Não vamos nos entregar! – Kagome gritou. – Você só nos levará daqui mortos. – As pessoas não tiveram tempo de assimilar toda aquela informação, aquela conversa ficava mais estranha a cada momento.
— Se é dessa forma que vocês querem…
Não houve tempo para pensar em mais nada, todos que estavam ali presentes testemunharam uma grotesca transformação, os tentáculos de Naraku irromperam pouco a pouco pelo corpo, até então possuído, do ancião. Naquele instantes as pessoas tomaram conhecimento de que estavam ao lado de um demônio e nem imaginam por quanto tempo estavam sendo enganados.
Os pedaços da carne morta do Myouga foram caindo ao chão e muitos ficaram enjoados com a podridão que dele exalava, logo Naraku se fez presente em sua forma demoníaca e outros youkais saíram da floresta para se juntar a ele.
As pessoas e os youkais começaram a travar uma guerra sangrenta, enquanto que os quatro amigos se concentraram em Naraku.
— Kagome, nós temos que sair daqui. – O desespero de Sora era perceptível, suas mãos seguravam sua filha e tentava levá-la para longe.
— Mãe, eu não posso ir. – Os tentáculos do youkai os cercaram por todas as direções. — Tenho que ficar e lutar junto com os outros. – A jovem se mostrava decidida.
Sora tentou compreender a atitude da filha, entretanto seu instinto materno lhe gritava para que fugisse daquele lugar junto com sua cria. Kagome não era mais nenhum bebê e ela não poderia pegá-la no colo e correr o mais rápido que pudesse e enquanto tentava ignorar todos os seus temores, a mãe decidiu que ficaria ao lado de sua filha e apoiaria as decisões que ela tomasse.
Sango foi o primeiro alvo dos ataques de Naraku, ela se esquivou e desferiu um golpe certeiro com a espada fazendo parte do tentáculo cair ao chão e continuar se debatendo. Logo todos os outros estavam recebendo investidas dos tentáculos também, Miroku não demorou a erguer uma barreira com sua energia para mantê-los a salvo.
— O que fazemos agora? – perguntou Sango.
Miroku olhou para Inu-Yasha e ficou esperando uma resposta para a pergunta da garota.
— Vamos precisar chegar perto dele, não dá pra fazer nada de longe. – Sango o encarava incrédula. — Kagome você pode fazer a mesma técnica que usou no seu sacrifício, só que ao invés de simplesmente liberar a energia para todos os lados terá que direcionar para o corpo de Naraku.
— Tudo bem, acho que posso fazer isso. – Respondeu convicta.
Miroku sentiu o cansaço de manter uma barreira tão grande por tanto tempo e Inu-Yasha logo percebeu isso.
— Melhor que Sango e eu fiquemos fora da barreira tentando parar os ataques dele, vocês dois vão precisar da maior quantidade de energia possível até que tudo esteja pronto.
Sango concordou mesmo a contra gosto, não era difícil ver que Miroku não ia aguentar muito mais tempo com todos ali dentro.
Antes que todos se dessem conta o meio youkai estava lá fora.
— Vamos! – gritou o hanyou.
Eles tinham que seguir rápido e Sango não demorou a se juntar a Inu-Yasha do lado de fora da barreira.
Com duas pessoas do lado de fora Miroku pôde diminuir o uso de sua energia, sem contar que com Sango e Inu-Yasha parando parte dos ataques de Naraku ficava ainda mais fácil manter a barreira de pé.
Kagome acumulava todo seu poder em suas mãos, assim seria possível mandar a maior parte direto para o inimigo.
Inu-Yasha era muito rápido e cortava com as longas unhas os tentáculos que vinham em sua direção, enquanto que Sango, mesmo sendo uma das melhores guerreiras da vila, estava lidando com os golpes com certa dificuldade. Quanto mais eles se livravam dos tentáculos mais tentáculos apareciam, cada pedaço cortado se refazia segundos depois para lançar um novo golpe em cima deles.
Tudo estava indo como planejado e eles se encontravam cara a cara com o terrível youkai, Kagome acumulou boa parte de sua energia e esperava a melhor oportunidade para desferir o golpe em Naraku.
Sango estava exausta e por vezes quase foi ferida percebeu o perigo que estava correndo e entrou novamente na barreira no intuito de recuperar o fôlego. O meio demônio continuou lutando como se tivesse acabado de entrar naquela batalha e Sango teve que admitir que ele era realmente forte.
Inu-Yasha tinha certeza que Naraku não deixaria que Kagome chegasse perto dele tranquilamente e tentou pensar em alguma forma para fazê-lo abrir sua guarda. Com agilidade o hanyou cortou grande parte dos tentáculos próximo ao tronco do monstro e com isso o tempo para refazê–los seria maior.
— Kagome, agora! – Seu grito soou desesperado, eles não teriam uma segunda chance.
A garota saiu do local seguro e encostou as mãos no corpo gelatinoso de Naraku e liberou toda a energia que estava acumulando até o momento. Inu-Yasha rasgou o corpo de Naraku com suas garras e sua mão entrou no corpo do inimigo e ele acompanhou Kagome com o mesmo tipo de técnica, acumulando a energia rapidamente e lançando no oponente.
Naraku agonizou com os golpes recebidos e Sango aproveitou a guarda baixa para voltar a luta e continuar cortando o monstro com sua katana.
Miroku chegou ao seu limite e desfez a barreira que ainda protegia ele e a mãe de Kagome, logo após caiu de joelhos no chão. Ele gostaria de ajudar seus amigos, mas não tinha energias para conseguir sair daquele lugar.
Ninguém percebeu que, mesmo em agonia, Naraku estava preparando um novo ataque e que ele não conseguiria matar todos os seus adversários, mas ao menos um ele levaria consigo. O golpe foi bastante rápido e direcionado ao membro mais exausto do grupo e apesar de Miroku não ser dos piores em luta corpo a corpo quando percebeu não teve como se defender, naquele momento estava totalmente vulnerável. Seus olhos se fecharam para receber um golpe que nunca chegou a acontecer, quando voltou a abri-los presenciou Sora entre ele e o tentáculo de Naraku. Ele não conseguia acreditar no que estava ocorrendo diante de si, ele não deveria ter se descuidado tanto, seu erro foi fatal, a mãe de Kagome havia recebido o golpe mortal e o seu sangue escorria pouco a pouco, se espalhando pelo chão.
— Não… – A voz do garoto saiu fraca, se antes seu corpo dava fortes sinais de exaustão, agora ele nem sabia como ainda conseguia se sustentar em cima de seus membros.
Naraku estava derrotado, mas eles tiveram que pagar seu preço, um preço muito alto.
Sango se virou ainda em tempo de observar o corpo inerte de Sora desabando no chão.
— Kagome. – chamou a amiga que ainda não tinha percebido o que estava acontecendo. — A sua mãe… – A garota travou, tudo aquilo era pesado demais para se transformar em palavras.
Kagome sentiu um nó em sua garganta ao ouvir o chamado desesperado de Sango, não era preciso mais do que aquilo, ela sabia que o pior tinha acontecido.
— Mamãe! – O grito de agonia foi lançado ao ar, mas ele jamais seria respondido pela mulher que estava sendo chamada.
Sango segurou firme a mão de Kagome e guiou ela para perto do corpo sem vida de sua mãe, próximo a ela Miroku chorava silenciosamente.
— Me desculpe, Kagome. – A culpa corroeu o rapaz, ele se sentia totalmente responsável por aquela tragédia.
A jovem não respondeu aos apelos do amigo, nada traria sua mãe de volta e só o que lhe restava era permanecer ao lado dela enquanto sentia sua pele cada vez mais fria e sem vida e deixar que suas próprias lágrimas acalentassem seu coração.
Inu-Yasha permaneceu ao lado dos três amigos que compartilhavam seu pranto e percebeu que os outros youkais paravam sua batalha contra os humanos, ficaram paralisados e logo sumiram como se nunca tivessem estado ali. Um choque percorreu todo seu corpo e ele se viu estático como os outros youkais, entretanto ao invés de sumir uma dor lancinante o atingiu, seu corpo despencou no chão e ele não pode suportar toda aquela dor.
Kagome se assustou perante o grito que meio youkai soltou, mesmo tendo acabado de perder a pessoa que mais amava minutos antes, ela não pode deixar de se preocupar com Inu-Yasha.
— Inu-Yasha, o que está acontecendo? – Perguntou aflita.
O hanyou não conseguiu responder, apenas sentiu os espasmos se espalhando por todo seu corpo sem poder fazer muita coisa, além de se debater indefeso e gritar.
— Parece que ele está se transformando. – Disse Miroku. — Está perdendo as características de youkai.
Kagome estranhou, o que poderia acontecer para que ele começasse a se transformar? A lua nova já havia passado e agora, muito provavelmente, a lua deveria brilhar cheia no Céu.
Os gemidos do meio demônio foram diminuindo e não demorou muito até que ele estivesse totalmente inerte no chão.
Kagome foi devastada e seu coração parecia se partir em mil pedaços, aquela batalha havia lhe custado muito mais do que jamais imaginou.
