" Se essa rua

Se essa rua fosse minha

Eu mandava

Eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas

Com pedrinhas de brilhante

Para o meu

Para o meu amor passar.

Nessa rua

Nessa rua tem um bosque

Que se chama

Que se chama solidão

Dentro dele

Dentro dele mora um anjo

Que roubou

Que roubou meu coração.

Se eu roubei

Se eu roubei teu coração

É porque

É porque te quero bem

Se eu roubei

Se eu roubei teu coração

É por que tu roubaste o meu também."

Cantiga popular

Mesmo depois de um bom tempo seu corpo não parecia o mesmo, provavelmente nunca voltaria a senti-lo da mesma forma novamente.

A garota de longos cabelos castanhos tentava golpeá-lo, mas ele não conseguia contra-atacar. Desviar dos socos que estavam sendo desferidos em sua direção era o máximo que suportava, ser um simples humano era muito mais difícil do que poderia imaginar.

Logo a frente ele conseguia observar Kagome e Miroku treinando sua energia espiritual, mesmo que todos os youkais tivessem desaparecido depois que Naraku foi morto eles continuam praticando sempre. Para Kagome era importante manter suas habilidades, pois ela lhe ajudava imensamente com a sua deficiência, dando a ela a autonomia que antes ela não tinha. Para Inu-Yasha o treinando se fazia ainda mais necessário, pois sua energia youkai desapareceu junto com todos os outros e seu corpo, agora totalmente humano, quase não suportou toda a transformação pela qual tinham passado. Fora tudo isso, se não fosse por Kagome e seus amigos ele realmente teria sido morto pelos outros aldeões, pois ele acabava por ser o último "monstro" que permanecia vivo, apesar de estar totalmente vulnerável naquele momento.

Sua falta de concentração lhe rendeu um belo golpe em seu rosto, ele caiu na grama e pode sentir o leve gosto metálico do sangue em sua boca.

— É melhor parar de ficar no mundo da lua, Inu-Yasha. – dizia Sango com a mão estendida em sua direção para ajudá-lo a ficar de pé.

— Às vezes minha cabeça vai longe sem eu querer. – Ele agarrou a mão dela e se levantou.

Depois da batalha Sango percebeu que Inu-Yasha nunca tinha sido uma ameaça para Kagome, nem para ela, muito menos para qualquer outro e se encarregou de convencer todo mundo de que o meio youkai nunca teve a intenção de machucar ninguém e, como todos ali podiam perceber, ele tinha lutado contra Naraku e ficou praticamente morto por isso. Kagome não pode fazer muito nesse momento, pois estava totalmente inerte diante da morte de sua mãe e do estado delicado que Inu-Yasha se encontrava, assim ela levou para si a tarefa de mantê-lo seguro.

— Sua falta de concentração tem nome e sobrenome. – O sorriso de Sango era zombeteiro, seus olhos foram do rapaz a sua frente até a sua amiga, mas ainda assim ele não parecia entender a mensagem.

— Vamos fazer uma pausa? – Miroku apareceu tocando levemente o ombro de sua namorada.

Miroku e Sango haviam assumido o seu relacionamento, agora que as coisas estavam em paz e ninguém mais corria perigo os dois podiam aproveitar os dias como um casal de verdade sem nenhum peso na consciência.

— Claro. – Respondeu a morena. — Parece que seu amigo precisa mesmo de um tempo. – A garota não deu a oportunidade para o híbrido responder, apenas pegou na mão de Miroku e saiu rapidamente dali.

— Tudo bem com você? – Kagome se pronunciou. — Eu ouvi quando você caiu.

— Está tudo bem sim. Só um pouco cansado. – A garota parecia sempre preocupada com a situação dele.

Kagome foi a única pessoa capaz de dar abrigo a Inu-Yasha, mas depois de todo o esforço da batalha e do destino triste de Sora, ela também não se encontrava nas melhores condições. Sango e Miroku tentaram ajudar o máximo que podiam, principalmente nos primeiros dias em que Kagome mal se aguenta em pé e o hanyou se encontrava ainda pior que ela. Kagome se recuperou muito rápido, a vitalidade dela era invejável e Inu-Yasha olhava tudo que ela fazia com admiração. Assim que ficou melhor a garota passou a cuidar dele a maior parte do tempo e, algumas vezes, revezava com Miroku ou Sango para que pudesse descansar e cuidar de si mesma.

— É melhor falar pra Sango pegar um pouco mais leve. – dizia com o tom de preocupação familiar em sua voz. — seu corpo ainda não está totalmente curado.

Cuidar de Inu-Yasha depois da luta contra Naraku, para Kagome, tinha lhe dado uma razão para viver, pois a morte de sua mãe tinha abalado suas estruturas. Com ele ao seu lado sempre estava com os pensamentos ocupados demais, o que acabou fazendo com que deixasse um pouco de lado toda a dor que sentia.

— A Sango já está pegando leve demais. – respondeu. — Muita vezes eu que não consigo manter a concentração. – Kagome estendeu a mão e ele entrelaçou seus dedos com os dela, aqueles pequenos gestos faziam parte da rotina dos dois.

— Alguma coisa está te preocupando?

— Na verdade não. – Sua boca estava seca, as mãos suavam e seu coração acelerado lhe faziam pensar que o esforço do treino talvez estivesse demais, mas ele sabia que aquele pensamento era só para tentar enganar a si mesmo.

A garota achava que Inu-Yasha estava com algum problema, mas sempre que tentava tocar no assunto de alguma maneira ele sempre dizia não ser nada. Os dois haviam construído um bom relacionamento por todo aquele tempo e Kagome sentia um carinho imenso pelo rapaz, ele tinha salvo sua vida por diversas vezes e ela tentava retribuir o que ele tinha feito por ela. Mas, no final das contas, não era só isso, a jovem gostava de estar ao lado dele, a sua companhia trazia calma e segurança à sua alma, entretanto algo ainda perturbava a mente dele e ela temia não saber nunca o que se passava.

— Inu-Yasha, você sabe que não precisa esconder nada de mim, certo? – Kagome não queria que ele se sentisse pressionado, mas uma angústia tomava conta de si também.

— Eu sei. – Inu-Yasha estremeceu.

Ele não conseguia lidar com aqueles sentimentos sendo um meio youkai, agora, em sua forma humana, tudo parecia ser ainda mais difícil.

— Kagome. – Sua voz falhou ao chamar o nome dela e ele receou não conseguir prosseguir. — A verdade é que você me tira o foco. – Agora que havia começado não teria mais como voltar atrás pensou. — Quando te vejo é difícil pensar em alguma outra coisa, meu coração anda sempre acelerado e não consigo me acalmar. – Ele parou um segundo tentando colocar as ideias no lugar. — Eu me sinto feliz e agitado só de estar pegando na sua mão. É muito complicado lidar com todos os sentimentos que me tomam quando estou perto de você.

Inu-Yasha esperou por uma resposta, mas Kagome nada disse, apenas o puxou pela mão para que se aproximasse dela e o abraçou encostando sua cabeça no peito dele. Ela escutou as batidas rápidas do coração dele e percebeu o quanto se assemelhava aos batimentos do seu próprio coração.

— Eu também me sinto assim. – Com a resposta dela Inu-Yasha conseguiu relaxar e enlaçou o corpo dela com seus braços, aproveitando toda a euforia que aquele gesto lhe trazia.

Kagome afastou o rosto de seu peito e o hanyou se entregou a vontade de tocar seu rosto, suavemente puxou o queixo da garota e selou seus lábios carinhosamente aos dela.

A vida não tinha sido perfeita para nenhum dos dois, mas cada um deles daria seu melhor para que o outro fosse o mais feliz possível.