Drive

10 de janeiro de 2008 – apartamento de Draco e Blaise

Depois do que aconteceu, eu tentei ligar para ela por um dia inteiro, mas a ligação nunca era atendida. Depois de tentar o celular diversas vezes, na manhã do segundo dia de tentativas arrisquei o telefone do escritório.

"Editora Fawkes, Helen Garner." respondeu uma voz do outro lado da linha.

"Eu gostaria de falar com Virgínia Weasley, por favor."

"A senhorita Weasley tirou alguns dias de férias. Só volta para o escritório no dia 21. Posso ajudar em alg..."

Desliguei o telefone assim que ouvi a resposta, discando imediatamente o telefone da casa dela. Secretária eletrônica.

Eu sabia que não era mera coincidência. Ela estava me evitando. Os acontecimentos na casa dela tinham sido fortes demais até para mim... imagine então para ela.

Já havia dado mais de vinte telefonemas – e o celular permanecia na caixa postal – quando decidi que ligações não adiantariam. Eu precisava de uma abordagem mais eficiente. Peguei as chaves do meu carro e dirigi até o apartamento dela.

O porteiro do prédio me conhecia e respondeu que Freckles não estava. Segundo ele, ela havia saído logo pela manhã, sem avisar aonde ia. Ok, ela realmente estava me evitando... mas isso não me impediria de conversar com ela.

"Você pode fugir, mas não pode se esconder." eu sussurrei para mim mesmo, entrando no carro e procurando um número na lista de contatos do meu celular. Se alguém soubesse onde ela estava, esse alguém seria ela... e mesmo que fosse apelar demais, eu não me importava.


10 de janeiro de 2008 – casa da famíla Weasley

"Você estava mesmo precisando de férias, filha!" mamãe disse, apanhando meu rosto em suas mãos "Olha como está magra! Eu sabia que essa história de morar sozinha não iria dar certo! Você está se alimentando direito?"

"Mamãe, pare com isso!" eu respondi, repreendendo-a "Nos falamos todos os dias e a senhora manda um arsenal de comida todas as semanas para a minha casa! Você sabia que eu nunca precisei fazer compras desde que me mudei?"

"Você está trabalhando demais e precisa comer mais também!" ela retrucou, retirando uma fornada de biscoitos do forno "Imagine se você cai desmaiada no meio da rua!"

"Mamãe, sua imaginação é fantástica!" eu respondi rindo, apanhando um biscoito na assadeira e me desligando do mundo. Adorava os biscoitos de chocolate da mamãe... quentes então! Quando eu os comia, não pensava em mais nada.

"Ginny, não custava atender o telefone, não?" mamãe respondeu, limpando as mãos no avental e apanhando o aparelho em cima da mesa. Eu mal havia escutado de tanta concentração em saborear o meu biscoito "Alô... Olá, meu querido, como vai?... Sim, ela está aqui. Tirou alguns dias de férias... Estava tão cansada, Draco! Sempre digo que ela trabalha demais..."

Aquela palavra me fez esquecer os biscoitos e disparou o meu coração. Draco? Merda, como ele foi capaz de ir tão longe? De me encontrar ali? Me levantei da mesa e corri em direção ao banheiro, lavando o rosto e tentando me acalmar. Não podia demonstrar nada para mamãe. "Fica calma, Gin. Apenas fique calma!" eu disse para meu reflexo no espelho após alguns minutos ali, com a respiração acelerada. Respirei profundamente uma última vez e sai do banheiro, tentando parecer o mais casual possível... quando voltei para a cozinha, mamãe já havia desligado o telefone.

"Ginny, você se esqueceu que havia marcado de jantar com o Draco hoje à noite?" ela me perguntou e, se pensamentos matassem, Draco cairia morto onde quer que estivesse "Pobrezinho, estava preocupado, já havia te procurado em todos os lugares."

"Mamãe, eu não marquei nada com ele!" eu respondi, tentando não me exaltar. Minha raiva era tão grande que eu poderia quebrar a mesa da cozinha com um soco "Ele deve ter se enganado."

"Eu duvido muito, filha! Na certa você se esqueceu, com tantas coisas na cabeça! Eu disse: você tem trabalhado demais! Está se sobrecarregando!" ela respondeu, passando as mãos pelos meus cabelos e apanhando um pote com pó de café. "Mas não se preocupe, convidei Draco para comer alguns biscoitos. Ele está vindo para cá... depois vocês podem sair para jantar."

"Ora mamãe, eu não posso sair para jantar assim, posso?" respondi, um pouco mais ríspida do que pretendia. Ele estava indo para lá? Não! Eu não queria... não podia vê-lo ainda. Meu cérebro trabalhava furiosamente, pensando em diversas maneiras de sair dali sem levantar nenhuma suspeita "Preciso ir para casa me arrumar!"

"Mas filha, o Draco está vindo para cá!" ela respondeu, me seguindo pela casa. Eu já estava com a minha bolsa nas mãos, caminhando em direção a porta

"Se não sair agora, vamos nos atrasar! Eu ligo para ele do caminho." eu respondi simplesmente, fechando a porta e ainda escutando um 'Virgínia' escapar dos lábios de mamãe.

Sabia que ela ficaria irritada com a minha saída repentina, mas eu cuidaria disso depois. Naquele momento, a única coisa que eu queria era chegar em casa antes que fosse tarde demais... lá eu poderia ignorar qualquer tipo de contato dele.


Who's gonna tell you when,

it's too late?


"Bingo!" eu disse para mim mesmo, desligando o celular e ligando o carro, me dirigindo a casa dos pais dela. Não ficava muito longe dali, cerca de dez minutos. Desta vez ela não conseguiria escapar de mim.

Dirigi por um tempo e quando estava dobrando uma esquina, já próxima ao bairro dos pais dela, vi cabelos vermelhos andando apressados, olhando ao redor. Desacelerei, tentando me aproximar o máximo possível sem que ela notasse a presença do meu carro... quando estava praticamente ao seu lado, abri o vidro do passageiro.

"Fugindo?" perguntei simplesmente. Ela se assustou quando me viu tão perto dela.

"Você joga muito baixo mesmo, não?" ela respondeu, irritada, sem parar de caminhar. Eu fui seguindo, com o carro, o caminho que ela fazia.

"Eu não precisaria ter feito isso se você tivesse atendido as minhas ligações." eu disse, simplesmente "Entra no carro, Freckles. Temos que conversar."

"Nós não temos nada para conversar. Nada!" ela respondeu, andando um pouco mais rápido.

"Você não pode ignorar para sempre o que aconteceu. Entra no carro, Freckles."

"Posso sim! Posso e vou!"

"VIRGÍNIA, ENTRA NO CARRO!" eu gritei, irritado. Sabia que não era o melhor jeito de lidar com ela, mas ouvi-la falar que iria ignorar o que havia acontecido me deixou louco.

"OU O QUE?" ela finalmente parou, me encarando. Eu desliguei o carro e olhei para ela. Suas bochechas estavam vermelhas, sinal claro da irritação que ela sentia.

"Pare de ser infantil! A menos que a gente esclareça o que aconteceu, vamos ficar nessa merda! Entra no carro!"

Eu quase podia escutar os neurônios dela trabalhando... ponderando sobre o que fazer. Ela respirou fundo e finalmente entrou no carro, cruzando os braços sem me encarar.

"Onde você quer jantar?" eu perguntei, ligando o carro novamente.

"Eu não vou sair para lugar algum vestida assim!" ela respondeu secamente. Ela estava com um jeans e um moletom da faculdade "Você quer conversar, ótimo! Vamos conversar aqui nesse carro... dirige para onde você quiser... dirige para a puta que o pariu e vamos resolver logo aquela merda que aconteceu."

"Escuta... o que aconteceu não foi culpa minha!" eu me defendi, dirigindo sem rumo "Se você não quisesse nada, aquilo não ter..."

"AH, VOCÊ NÃO VAI ME CULPAR PELO QUE ACONTECEU!" ela respondeu, me encarando com o dedo em riste "No mínimo você planejou tudo aquilo! Você é metódico, Draco! Sempre foi! Aposto que tinha tudo arquitetado."

"Eu planejei apenas te dizer o que eu estava sentindo, mas a... "eu parei, buscando uma palavra que resumisse o que havia acontecido entre a gente "... interação que tivemos foi espontânea. Aquilo simplesmente aconteceu sem eu planejar nada!"

"Merda Draco, será que você não entende que aquilo não era para ter acontecido!" ela respondeu, a irritação dando lugar a um leve desespero "Eu estou com o Harry! Amo ele! Não era para eu ter te seguido naquela loucura!"

"Mas seguiu!" eu respondi, um pouco irritado. Eu queria resolver aquilo de uma forma boa para nós dois, mas ouvi-la falando do Harry não era uma forma nada boa para mim "E agora a gente tem que descobrir a melhor forma de lidar com isso."

"A melhor forma é esquecer, Draco!" ela respondeu, passando a mão pelos cabelos "Não teve nada a ver!"

"Esquecer não dá, Freckles!" eu rebati. Aquilo era forte demais para ser esquecido. Ignorado, talvez... escondido, provavelmente... mas esquecido, não... nem para mim, nem para ela "Foi intenso demais para esquecer. Confessa, nem você vai conseguir esquecer aquilo."

"Eu preciso esquecer, Draco! Eu tenho o Harry!" ela disse, ainda mais desesperada.

"FODA-SE ELE! Se a relação de vocês estivesse tão boa assim, você não teria feito o que fez!" eu respondi, irritado. Será que ela não entendia que falar do Potter não ajudava em nada. Eu queria que ela pensasse por ela, não por ele.

"FODA-SE VOCÊ!" ela gritou de volta, irritada com o meu comentário "SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBE O QUANTO TUDO O QUE ACONTECEU É SÉRIO? Porra Draco, eu me sinto um lixo! É como se eu tivesse traído o Harry. Pode não ter acontecido nada real, mas na minha cabeça acont..." ela parou a frase no meio ao ouvir o meu celular tocar.

"Alô." eu respondi irritado, sem ao menos olhar quem ligava. Ouvi a voz da pessoa com quem eu menos queria falar naquele momento.

"Malfoy, a Virgínia está com você?" Harry perguntou, secamente. Estranhei o tratamento... por mais que não fôssemos próximos, ele nunca havia me tratado pelo sobrenome... e nunca havia tratado Freckles por Virgínia.

"Vou passar para ela, Potter." eu respondi da mesma forma, entregando o celular para Freckles. Não entendi porque ele ligou para o meu celular, mas naquele momento não importava... peguei uma saída para uma via rápida e acelerei. Eu precisava correr para aliviar o meu nervosismo.

Eles discutiam e eu podia escutar o tom agressivo de Potter do outro lado da linha, mesmo que o volume fosse baixo demais para que eu decifrasse o que ele estava dizendo. Freckles estava nervosa e tentava explicar várias coisas na defensiva, desde o seu celular desligado até a amizade comigo. Nunca tinha visto uma discussão deles, mas aquela parecia ser uma das mais sérias e, claramente, eu era o principal motivo.

Percebi que ela parava suas frases no meio diversas vezes, sendo interrompida por ele, e escutava o que ele tinha a dizer pacientemente antes de voltar a argumentar. Porém, após uma sequência de réplicas, ela não respondeu... ficou muda enquanto a voz de Potter ecoava do outro lado da linha. Ele falou por vários minutos, sem que ela respondesse nenhuma vez, antes que os chiados do telefone cessassem, indicando que ele havia desligado. Era o momento! Não perderia a chance de mostrar para ela o quanto o relacionamento deles estava desgastado.

"E depois você diz que o relacionamento de vocês é perfeito!" eu ironizei, estranhando não receber qualquer resposta para aquele comentário. Eu estava em alta velocidade e não podia olhá-la, mas aquele silêncio me mostrou, instantaneamente, que alguma coisa estava muito errada.

"Terminamos." ela disse, depois de alguns segundos, e eu sequer lembrei de onde estava quando tirei os olhos da estrada para encará-la. Ela estava estática no banco do passageiro, olhando para o celular em suas mãos trêmulas. Fiquei olhando para ela, sem saber o que fazer, até que a buzina de outro carro nos arrancou daquele torpor e me obrigou a retomar a atenção na estrada... meu carro já estava duas pistas para a direita.


Who's gonna tell you things,

aren't so great?


"Me leva daqui!" eu pedi, assustada com a buzina do carro e com o tranco que Draco deu no volante em seguida. O susto apenas me fez tremer mais, fazendo com que o celular deslizasse das minhas mãos para o chão do carro.

"Para onde, Freckles?" ele perguntou, desorientado depois do que havia acontecido e se esforçando para manter o controle "Merda, eu preciso me concentrar! Você quer que eu te leve para a sua casa?"

"NÃO! Muitas lembranças!" eu respondi rápido, segurando as lágrimas que queriam escorrer pelo meu rosto, em uma mistura de raiva e tristeza "Me leva para algum lugar... qualquer lugar... onde eu possa ficar sozinha. Draco, eu não consigo fingir essa força por mais tempo!" eu disse, apontando para o meu próprio rosto.

"Eu não vou te deixar sozinha agora!" ele respondeu, acelerando o carro ainda mais e mostrando que estava tão abalado quanto eu. Eu tentei rebater, mas ele me interrompeu, com os olhos focados na estrada "Eu não vou, entendeu?"

"Draco, eu nunca desabei na frente de ninguém e não vou começar agora!" eu falei, quase gritando, deixando umas poucas lágrimas escaparem dos meus olhos. Eu as limpei com força, antes que elas pudessem chegar à metade das minhas bochechas.

"Se você precisar ser fraca hoje, seja... mas vai ser na minha frente. Sozinha você não fica, Virgínia." ele disse, com a voz firme, e eu apenas fechei os olhos. Vi que ele não mudaria de idéia e me desliguei do mundo, concentrada apenas no vento que batia em meus cabelos e no resto de força que eu ainda conseguia tirar de mim.

Ele dirigia rápido, mas o caminho pareceu demorar mais do que o comum, mergulhado em um silencio devastador e carregado de nervosismo. Milhares de coisas passavam pela minha cabeça... anos de convivência com Harry misturados às coisas horríveis que ele havia me falado e ao que havia acontecido entre Draco e eu dois dias antes.

Apenas percebi que havíamos chegado quando ele me tirou do carro e me levou em direção aos elevadores, subindo rapidamente para o seu apartamento... aquele era um bom lugar para se ficar naquele momento. Longe de tudo que pudesse me lembrar Harry.

"Merda! Como ele pode desistir assim tão fácil?" ele se perguntou, quebrando o silêncio com raiva e tentando encaixar a chave na fechadura da porta "Desistir de você... você?" ele completou, finalmente abrindo a porta do apartamento e me puxando com ele. No momento em que a porta se fechou, senti os braços dele em volta de mim, me fazendo perder qualquer força ou linha de raciocínio que eu ainda tivesse. Era impossível aguentar por mais tempo... pela primeira vez na minha vida, eu caí na frente de alguém.


Who's gonna pick you up,

when you fall?


Eu nunca a havia visto daquela maneira. Ela chorava e me abraçava com força, as lágrimas molhando minha jaqueta. Eu não conseguia sentir nada além de raiva: raiva dele por deixá-la daquele jeito... raiva dele por apenas deixá-la... raiva de mim por não poder fazer nada para acabar com a tristeza dela.

"Eu preciso ficar calmo agora." eu sussurrei, tentando me livrar da raiva que eu sentia "Você precisa que eu fique calmo." eu completei, me afastando levemente dela e tentando limpar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

"Quatro anos... quatro anos jogados no lixo." ela começou, com a voz embargada "Eu o odeio! ODEIO!" ela gritou, voltando a chorar compulsivamente. Eu fiz a única coisa que parecia certa: a abracei de novo, tentando fazer com que ela se acalmasse "As coisas que ele falou... desequilibrado... a minha vontade é de acabar com ele."

"O que aquele imbecil fez com você?" eu pensei alto, vendo os olhos dela faiscarem em raiva e desilusão. Ela era sempre tão calma... tão alegre... Merda! Eu poderia matá-lo por ter feito aquilo com ela. "O que você quer que eu faça?" eu perguntei, completamente perdido.

"Desliga os telefones! O meu, os seus... desligue todos!" ela pediu, procurando o seu celular dentro da bolsa, mas não encontrando. Ela se ajoelhou no chão e despejou todo o conteúdo da bolsa, revirando os papéis e maquiagens até achar o celular "Eu não quero falar com ninguém agora, Ice Man" ela disse, quando eu me ajoelhei em frente a ela e a abracei de novo. As atitudes dela mostravam que ela estava desesperada e meu cérebro trabalhava tentando encontrar uma forma de acalmá-la.

Eu precisava descobrir o que fazer... apenas precisava me concentrar e pensar com calma. Ela era a minha melhor amiga e os três anos da nossa amizade me mostrariam exatamente o que fazer por ela naquela noite.


Who's gonna hang it up,

when they call?


"Vem comigo." eu falei, puxando-a pela mão em direção ao meu quarto. Ela estava distante quando tirei os tênis dela e a deitei na cama, cobrindo-a com meu edredom. Por pouco não me deitei com ela, apenas para continuar abraçando-a, mas lembrei que essa atitude poderia tornar tudo mais confuso para ela... principalmente depois de toda a nossa interação "Não... ela não precisa disso agora." eu pensei, puxando uma cadeira e me sentando em frente a ela.

"Céus... eu não queria fazer isso na sua frente." ela disse, em meio a soluços "Isso é um problema só meu... eu não precisava ter te colocado nessa situação. Me descul..."

"Eu sou seu melhor amigo, Freckles" eu falei, interrompendo o pedido de desculpas desnecessário e estendendo minha mão a ela "Você pode desabar na minha frente sempre que precisar..." eu continuei, sentindo a mão dela se entrelaçar à minha.

"Sabe, eu tinha tantos planos. Tantas coisas planejadas para o meu futuro com o Harry." ela desabafou, ainda chorando "É horrível ver tudo ruir na minha frente. Eu sou uma idiota!"

"Não, você não é! Você é brilhante! Se o Potter não enxerga isso, quem sai perdendo é ele!" eu falei, aproximando a minha cadeira da cama e afastando uma mecha dos cabelos dela "Tenha planos por você! Pensa na sua carreira, nos seus amigos... no seu futuro! Faça novos planos, mas apenas para você... sem pensar em mais ninguém."

"É difícil depois que seus planos já estão formados." ela respondeu, e eu nunca havia visto os olhos dela tão tristes. Não havia brilho nenhum ali "Eu sei que não existia nada concreto, mas eu sinto como se tivesse perdido os meus sonhos, entende? Eu estou totalmente sem rumo."

"Pois então vamos te colocar de volta nos trilhos: seu novo plano número 1 será lutar pela sua efetivação ainda este ano!" eu comecei, vendo o primeiro sorriso dela desde a ligação do Potter "Sua vez. Qual é o plano número 2?"

"Eu preciso de um novo apelido para você, Ice Man." ela disse, entre soluços, sentando-se na cama e ficando de frente para mim.

"Por quê?" eu perguntei, retribuindo o pequeno sorriso "Eu gosto desse apelido!"

"Você não é nem um pouco de gelo comigo." ela respondeu, me abraçando "Você não vem?" ela perguntou, erguendo os cobertores e me chamando para deitar com ela.

"Não sabia se você gostaria disso, depois do que aconteceu entre a gente." eu me expliquei, retirando os meus tênis e me deitando ao lado dela, cobrindo nós dois com o edredom.

"Estamos discutindo os meus novos sonhos." ela respondeu, o rosto a centímetros do meu "Eu considero isso uma conversa bastante séria para o seu edredom." ela concluiu, cobrindo as nossas cabeças. Imediatamente uma lembrança invadiu a minha memória.


Who's gonna pay attention,

to your dreams?


"É tão macabro você ter um edredom preto!" ela disse, sentando-se na minha cama, de pernas cruzadas.

"Macabro nada! Ele é super útil quando o sol começa a entrar no quarto de manhã! Bloqueia toda a luz!" eu expliquei, sentando ao lado dela "Sem falar que a Pansy adora... ela é branquinha... o edredom é preto... o contraste com o corpo dela é incrível!"

"Poupe-me dos detalhes sórdidos, Ice Man, pelo amor de Deus!" ela falou, rindo, puxando o edredom e entrando embaixo dele. Ela sentada na cama, coberta com o edredom, parecia uma micro montanha "Credo, eu não vejo nada aqui embaixo! É pior do que uma caverna! " ouvi a voz dela, abafada. Ela colocou a cabeça para fora, descabelada. "Mas ele é uma delícia de macio!" ela completou, deitando-se na cama e se enrolando.

"Eu disse... ele bloqueia toda a luz! Mas, pensando bem, vamos fazer o teste definitivo!" eu falei, entrando embaixo do edredom também "Se cobre!" eu pedi e ela obedeceu, curiosa "É, ele passou no teste, Freckles! Eu não consigo ver o seu cabelo!" eu conclui, gargalhando.

"Idiota! Se eu conseguisse te ver, eu socaria o seu nariz!" ela respondeu, me dando alguns chutes "Esse edredom é bizarro! Será que ele faz eco?" ela se perguntou, dando um grito em seguida e me pegando de surpresa. Apenas tive tempo de tampar os ouvidos com os dedos para não ficar completamente surdo.

"Considerando o volume desse grito, ou o edredom inacreditavelmente bloqueia sons, ou você tem uma capacidade vocal fora do normal!" eu disse, rindo, quando nós dois ouvimos o clique da porta e colocamos as nossas cabeças para fora do edredom.

"Está tudo bem? Eu ouvi um grito!" disse Blaise, se recuperando do susto ao nos ver deitados na cama, embaixo do edredom "Bem, eu diria que se a Pansy ou o Harry entrassem aqui agora, vocês estariam completamente encrencados!" ele completou, saindo rindo do quarto enquanto eu jogava um dos meus travesseiros nele.

"Cala a boca, Blaise!" eu gritei, olhando para Freckles, que ria descontrolada "Bom, descobrimos que o edredom não é à prova de sons!"

"Mas ele continua sendo bizarro!" ela concluiu, deitando-se na cama novamente e cobrindo a sua cabeça "Eu poderia contar os meus segredos mais sórdidos embaixo disso aqui! Me sinto absurdamente segura!"

"Então pode começar a falar!" eu brinquei, segurando as pontas do edredom, sem deixar que ela saísse debaixo dele. "Mais uma utilidade para o edredom!" eu ri, quando ela conseguiu uma brecha, saindo debaixo dele.

"Ele seria extremamente útil para me esconder nas nossas conversas sérias!" ela disse, se explicando após a minha expressão confusa "Oras, aquelas onde eu preciso te contar alguma coisa que me mataria de vergonha! Ou então aquelas, onde você me olha com aquele olhar penetrante que me faz sentir uma perfeita boçal!"

"O que você quer dizer?" eu perguntei, rindo ao imaginar ela se sentindo uma boçal.

"Que embaixo dele eu posso tudo!" ela brincou, voltando para baixo do edredom "Me sinto corajosa e protegida o suficiente nessa escuridão toda!"

"Pois eu acho que podemos nomear esse lugar como o ponto oficial para os nossos papos cabeça" eu conclui, rindo "O que você acha?"

"Acho a idéia ótima!" ela concordou, se espreguiçando na cama. Era uma das primeiras vezes que eu ficava arrepiado só em olhá-la.


Who's gonna plug the ears,

when you scream?


Ficamos discutindo novos planos por muito tempo, embaixo do edredom, onde eu não podia ver se ela sorria, chorava ou expressava qualquer outro sentimento. Após algum tempo falando sobre viagens que ela poderia fazer, não recebi resposta e, ao descobrir as nossas cabeças, percebi que ela tinha adormecido.

Ela se mexia bastante na cama, em um sono agitado, e, mesmo que ela estivesse dormindo, eu insistia em dizer que estava ali para ela, tentando abraçá-la para que ela notasse a minha presença.

Enquanto ela dormia, pensei em milhares de coisas. Pensei em como tudo havia mudado em tão pouco tempo... pensei sobre o que poderia acontecer entre nós agora que Harry não era mais um empecilho... mas, acima de tudo, pensei em como ela era importante e me perguntei como eu havia permitido que alguém entrasse tão fundo na minha vida.

Enquanto olhava ela dormir, não tive dúvidas que ela era a pessoa que mais tinha conseguido transpassar as barreiras de frieza que eu havia construído. Senti ela se mexer novamente e os ombros dela tremerem antes que ela levasse as mãos aos olhos, tentando afastar o sono.

"Você estava tremendo." eu disse, quando ela levantou a cabeça e se viu abraçada por mim.

"Eu sempre fico com frio quando estou triste. Nunca te contei isso?" ela perguntou, virando-se na cama e ficando de frente para mim. Os olhos dela estavam inchados, mas ela não estava mais chorando, o que me deixava um pouco menos preocupado "Eu dormi por quanto tempo?"

"Um pouco menos de duas horas." eu respondi, após consultar o meu relógio. Ela apanhou o meu braço, para ver o horário "Você estava agitada, ficou se debatend... O que você está fazendo?" eu perguntei, ao ver que ela cobria a própria cabeça novamente.

"Sabe, Ice Man, se eu soubesse que ia dar nisso, eu com certeza teria agarrado você na terça-feira." ela disse, a voz abafada pelo edredom. Meu coração disparou quando eu me uni a ela embaixo dos cobertores, cobrindo a minha própria cabeça.

Não podíamos nos ver, mas talvez fosse melhor assim... aquele assunto seria delicado demais e qualquer passo em falso poderia descontrolá-la novamente ou colocar tudo a perder. Pelo menos, na escuridão do edredom, eu precisaria me preocupar apenas com o que diria, e não com reações, olhares ou gestos.

"Freckles, talvez não seja o momento para isso..." eu comecei, medindo as palavras, mas falando o que eu precisava. Ela havia sido corajosa em confessar o que faria, e eu seria corajoso também "... mas, se você topar, eu quero sair com você no sábado."

"Só nos dois?" ela perguntou, e eu respondi que sim "Como em um encontro?" ela completou.

"Pode apostar." eu disse, nervoso pelos rumos que aquela conversa estava tomando. Ela ficou em silencio por alguns segundos antes de responder que aceitava, levantando-se da cama em seguida, sem me encarar... talvez com medo do que pudesse acontecer se continuássemos naquela posição, falando sobre aquilo.

"Eu preciso ir para casa... está tarde." ela respondeu, olhando-se no espelho e prendendo os cabelos.

"Eu te levo." eu disse, me levantando também e abraçando a cintura dela por trás, olhando-a pelo reflexo do espelho. Talvez fosse precipitado, mas eu não me importava... precisava de algum contato com ela, depois de saber que ela me daria uma chance "Te pego às oito no sábado, ok?" eu avisei, olhando os olhos dela pelo reflexo do espelho.

"Estarei pronta." ela respondeu, me lançando um pequeno sorriso e apertando a minha mão repousada na barriga dela. "Obrigada por ficar comigo hoje." ela agradeceu, e eu pude sentir que ela ainda tremia um pouco, mas não sabia se era pelo término do namoro ou pela nossa conversa de minutos antes.

"Eu sempre vou estar aqui." eu respondi, apertando um pouco o abraço e beijando o topo da cabeça dela.

Ficamos naquela posição, olhando os nossos reflexos em frente ao espelho, por um tempo que eu não consigo precisar. Eram toques completamente inocentes, mas os mais íntimos da minha vida. Até hoje não sei como conseguimos quebrar aquele momento, com os nossos dedos entrelaçados e a cabeça dela apoiada no meu peito, para que eu pudesse pegar as chaves do carro.


"Who's gonna hold you down,
when you shake?

Who's gonna come around,
when you break?

Oh, you know you can't go on, thinking nothing is wrong.
Who's gonna drive you home, tonight?"

N.A.: Oi gente!

Esse capítulo empacou mais do que não sei o quê, mas, de repente, em menos de dois dias, ele saiu inteiro... em uma escrita completamente impulsiva e visceral que, depois, foi lapidada um pouquinho.

E eu estou orgulhosa de mim mesma! Eu dificilmente gosto das coisas que escrevo, mas esse capítulo é, com certeza, uma das melhores coisas que já sairam de mim... o que me deixa imensamente feliz!

Espero que vocês gostem tanto quanto eu!

Ah, não sei se vocês notaram, mas os capítulos têm nomes de músicas e, no final, eu sempre encerro com um trechinho... mas a música que eu escolhi para esse capítulo foi tão perfeita, e se encaixou tão bem com todo o contexto, que eu não resisti em colocá-la inteira! Para os interessados, a música se chama Drive, da banda The Cars, e completa perfeitamente o capítulo em todos os sentidos: letra, ritmo e melodia! Se puderem, escutem! É linda e eu juro que vale a pena!

Beijos e até o próximo capítulo desta história que precisa ser contada!

Dani