Havia acabado.
Uma das mais épicas batalhas já ocorridas em Kirkwall havia acabado.
Meredith e seus templários estavam acabados para sempre. Os magos eram vitoriosos. Por enquanto...
Porém a poeira demoraria muito para abaixar. Hawke e seu amado apostate Anders fugiram da cidade, enquanto os outros companheiros tomaram seu rumo logo depois, desaparecendo pela estrada, cada um deles.
Exceto Varric e Isabela.
Apenas um mês havia se passado desde a loucura de Meredith. Este ainda era o assunto mais comentando de Kirkwall. A pirata já estava começando a se entediar de novo. Após muitas conversas com homens no porto ela havia conseguido um navio para chefiar, após "convencer' alguns marinheiros de que ela seria uma ótima capitã – e que aceitar tudo o que ela dizia seria a melhor coisa para que todos mantivessem a saúde.
Aquela era a sua última noite na Hanged Man e ela queria despedir-se daquele lugar em grande estilo.
– Varric? – ela bateu na porta do quarto do anão. – Posso entrar?
– Claro que pode, Rivaini.
A mulher adentrou devagar, fechando a porta logo em seguida. O príncipe mercador estava sentado de costas para ela, mexendo em alguns mecanismos de Bianca. Sua preciosa balestra havia sofrido alguns danos durante a luta final e o dedicado "marido" estava ajeitando seus pequenos e frágeis parafusos. A arma já estava quase nova em folha, faltando apenas mais alguns retoques.
– Bom que você apareceu. – disse o anão, sem se virar, ainda concentrado no minucioso trabalho. – Pode pegar aquela caixa que está em cima da mesa grande? Estou quase terminando de...
Ele teve que parar de falar quando as mãos da pirata envolveram a sua cabeça. Ele soltou suas ferramentas para tentar se livrar, mas no susto acabou caindo da cadeira. Isabela aproveitou para montar em cima dele.
– Rivaini? – ele exclamou, quase em pânico. – O que você...?
– Hoje você não me escapa, senhor Tethras! – ela riu, levando as mãos até sua camisa de pirata e desabotoando-a num segundo. – Desta vez eu vou levantar o seu "Paragon"! Descobrir o que você tem escondido nas suas "Deep Roads"! Sentir o seu "suco de nug" dentro de mim!
– Pare! – gritou, segurando a pirata pelos pulsos. – Pela bunda peluda de Andraste! Eu preferiria ser estuprado por um qunari do que ouvir mais um dos seus malditos trocadilhos!
– Tem razão! – ela desvencilhou-se das mãos dele e começou a puxar o seu pesado casaco. – Não é hora de falar nada. É hora apenas de...
– NÃO!
Torcendo o corpo para o lado, o anão saiu debaixo da pirata. Isabela não poderia ter ficado mais chocada.
– Não acredito! – ela rosnou, abotoando novamente a blusa. – Você fugiu de mim de novo? Então é isto, Varric? Você realmente não gosta de mulheres? Só pode ser esta a explicação!
O anão poderia ter ficado ofendido, mas não ficou.
– Você não seria a primeira a pensar isto. – disse, com calma. – Mas... não é isto.
– E qual seria a explicação verdadeira? – a pirata ficou de pé. – Quer dizer... é incompreensível! Eu sei que você me deseja, Varric. Eu senti naquela noite! Homens têm muito mais dificuldade em disfarçar este tipo de coisa!
– Talvez. – foi a consideração cuidadosa. – Eu não estou negando que às vezes eu olho para você, e...
– Ah! Então você está admitindo que me quer! – a mulher pareceu ganhar o dia. – Então por que não quer ir em frente? Você é um covarde? É virgem?
– Não, Rivaini. O motivo pelo qual eu não a quero... – ele suspirou profundamente, como se o que estivesse prestes a dizer fosse doloroso. – ... são os motivos pelo qual VOCÊ me quer.
– Heim? Eu não entendi.
– Imaginei que não. – ele baixou a cabeça. – E você não precisa entender. Também não precisa ficar mais perdendo tempo comigo. Uma mulher bonita como você certamente vai encontrar pretendentes muito mais fáceis e talvez até mais satisfatórios do que eu. Você sempre os arranja.
– Varric! – agora a voz dela era um apelo. – Você precisa me explicar! Por que não me quer? Porque eu sim, quero muito você! – ela fez uma pausa dramática. – Eu amo você!
Palavras mágicas como estas sempre faziam todos os seus pretendentes suspirarem. Nunca houve ninguém que ouvisse um "eu te amo" de Isabela e não se sentisse o homem – ou a mulher – mais feliz do mundo.
Sempre há uma primeira vez.
A pirata ficou confusa quando viu que a expressão de ligeira irritação em Varric ao ouvi-la declara-se para ele.
– Não seja tola, Rivaini. Você não me ama.
– O quê? – foi a vez da mulher se irritar. – Como pode afirmar isso justamente depois de eu ter dito...? O que foi isto? Blood Magic? Está aprendendo a ler mentes agora?
– Não é preciso ser um mago para saber o que se passa na cabeça das pessoas, basta conhecer pessoas. – o anão a encarava. – Rivaini, ninguém que realmente ame alguém... ame alguém do fundo do coração... desperdiça palavras tão sagradas como estas. Dizer "eu te amo" para um homem bonito ou uma garota sensual que você está a fim é fácil porque NÃO há sentimento genuíno nisso. Palavras são só palavras nestas horas. – ele baixou a cabeça. – Agora dizer "eu te amo" para alguém que você ama de verdade é a coisa mais difícil do mundo. Algo que, no mínimo, você faz com uma expressão diferente no rosto que não seja simples lasciva. Simples sentimento de posse de um corpo.
– Mas...!
Varric não a interrompeu, mas ela mesmo deteve suas palavras. Parou para pensar um pouco. "Eu realmente o amo? Eu realmente... ?" ela balançou a cabeça, afastando o pensamento. Não queria pensar nisso.
– Está bem, eu... não te amo. – ela apertou os olhos enquanto dizia estas palavras. – Mas quero dormir com você. Quero sentir o seu corpo, Varric. As suas mãos. Eu quero...
– ...matar a curiosidade? – o príncipe mercador cortou a frase dela com um golpe seco e doloroso. – Quer saber como é ficar com alguém como eu? Eu seria o seu primeiro anão, Rivaini? Duvido muito! Pois os rumores que eu ouço é que quando estava em Ferelden você dormiu com a lady Aeducan, a Comandante Gray Warden em pessoa. Não creio que eu possa lhe proporcionar grandes novidades. – ele cruzou os braços. – Oh, mas talvez seja apenas uma questão de "cem por cento de completude", não é? Você ficou com Hawke, com Fenris, com Anders... até com Merrill! E acho que até da Aveline tirou uma casquinha. É isso o que eu sou para você, não é? Um objetivo! Você simplesmente não quer deixar nada passar! Não ficar comigo seria o mesmo que deixar alguma coisa penden...
Desta vez foi a vez da pirata cortar a frase. E foi com um tapa ardido.
Todos na Hanged Man escutaram o som, de tão alto que foi. Até pararam a conversa.
Isabela estava brava. Furiosa, poderia-se dizer. E ela mesma não sabia o porquê de tanta irritação. Afinal já tinha ouvido coisas muito piores de homens que tinham valido muito menos a pena. Por que as palavras do anão pareciam machucar tanto?
– Varric...! – por um momento ela sentiu vontade de sacar suas adagas. Controlou-se. – Adeus! – gritou ela, girando nos calcanhares e saindo do quarto, esmurrando a porta na saída.
Varric ficou em silêncio durante longos minutos, acariciando o rosto vermelho quase como se aquele tapa tivesse sido um presente. Por fim pediu à um atendente da taverna para trazer um barril de cerveja e deixá-lo em paz pelos próximos dias. Não saiu mais daquele quarto por um longo período.
...
Durante o tempo em que foi interrogado, Varric pensava que não sairia vivo do Chantry. Mas ele saiu. Cassandra deixou que ele fosse embora em paz.
Apenas para ser morto na saída.
Pensar na ironia foi divertido durante alguns segundos, até que a dor profunda no peito, e a cabeça prestes a apagar por causa da perda de sangue, o trouxeram de volta à dura realidade. Mal o anão havia colocado os pés para fora da sala de interrogatório, todos os criminosos de Kirkwall caíram sobre ele.
E agora estavam, literalmente, sobre ele.
– Já chega! – gritou o bandido da Coterie. – Vamos parar de discutir! Se quer tirar a vida dele tanto quanto eu, vamos fazer isso juntos!
– Concordo! – exclamou o assassino da Carta. – Vamos dar o golpe final ao mesmo tempo.
Teria sido um diálogo tragicômico excelente para colocar em sua autobiografia... se Varric sobrevivesse para isso. Infelizmente não havia ninguém para poder registrar a grande cena de sua morte.
Os dois bandidos ergueram suas armas, e...
... foram ambos golpeados na nuca por afiadas facas.
– O quê? – gritaram os bandidos que restaram. – Você? Ela voltou!
– Ela? Ela quem? – gritou outro.
– A cadela pirata!
"Isabela..." pensou Varric, antes de sua visão se escurecer.
...
