O cheiro era de cerveja choca, gordura, amoníaco e vômito. Estes odores fizeram Varric se localizar: ele estava de volta à Hanged Man.
– ... e muito obrigada mais uma vez. – disse uma voz de mulher.
Sua visão estava borrada, mas foi recuperando o foco aos poucos. Ele estava de volta ao seu quarto, sentindo tanta dor que cada suspiro era doloroso. Mas desta vez não se sentia morto, mas vivo. Levou a mão ao peito, tirando a manta de cima do corpo, e percebeu que estava enfaixado com grossas ataduras.
– Existe uma coisa chamada "processo de cicatrização" que pode ser dificultada pelo frio. – a mulher puxou a coberta para cobrir o anão de novo. – Foi você quem me ensinou isto.
– I... Isabe... la? – ele murmurou, com dificuldade.
Ela estava diferente. Nos últimos três anos ela havia mudado um pouco. Agora seus cabelos estavam soltos e selvagens, suas roupas pareciam um pouco mais comportadas. Seu rosto já ostentava suaves marcas de expressão, mas que não tiravam nada da sua beleza original. Quase dez anos já haviam se passado e ela estava mudada, mas parecia para a melhor.
– Você ainda se lembra de mim! – ela sorriu, acariciando o rosto do príncipe mercador. – E pelo visto também não consegue mais se virar sem mim.
– Mas... como? – ele se ergueu pelos cotovelos, ignorando a dor. – Quando você...?
– Voltei ontem, para tratar de negócios. Quando cheguei na taverna recebi a informação que uma puta qualquer do Chantry havia sequestrado você então tentei ajudá-lo. Mas quando cheguei você já havia sido liberado e estava lutando sozinho contra aquela horda de bandidos. Eles... – ela tocou no peito dele. – Eles quase mataram você. Eu tinha que fazer alguma coisa.
– Pena. – ele deu uma risada dolorida. – Achei que com isso meus problemas com a Guilda de Mercadores, com a minha família e com os malditos rufiões da Hanged Man estavam encerrados. E agora que você voltou. – ele pegou na mão dela. – Parece que os problemas só vão aumentar. De novo.
– Eu sou um problema para você?
O anão ficou um instante sem resposta. Quando pensou em algo para consertar o mal entendido a pirata o cortou:
– Bom saber disso! – ela sorriu, e apertou a mão dele de volta. – Agora fique aí na cama, quietinho. Pode deixar que eu cuido das coisas enquanto você descansa.
– Eu vou à falência! – ele riu, contente. – O que uma pirata sabe sobre finanças?
– Sei que quando vejo ouro, eu não deixo mais ninguém botar a mão. Não é assim que funciona? – ela se levantou da cama e se dirigiu à porta.
– Oh. Você também... – ele hesitou. – Não precisa dormir?
– Vou dormir lá embaixo. Sabe como é, Bianca pode ficar enciumada.
...
Foram cinco dias de repouso. Desde que Anders e Hawke haviam desaparecido, três anos atrás, não havia mais um único curandeiro que prestasse em Kirkwall. Varric teve que ser paciente e esperar seu próprio corpo recuperar as forças quase sem auxílio de magia, salvo algumas poções compradas em Lowtown. Quando finalmente sentiu-se forte o suficiente para descer as escadas, encontrou Isabela apoiada no balcão, da mesma maneira que ela sempre ficou há quase dez anos atrás, quando eles se conheceram pela primeira vez.
– ... a mais bela flor de água salgada de Thedas...! – recitava um poeta bêbado.
– Corta essa, amigo! – interrompeu a pirata. – Sei muito bem da fama que criei aqui nesta cidade, mas com o passar do tempo ficamos mais seletivos!
Aquela frase incomodou um pouco Varric. As coisas, apesar de tudo, mudaram.
– Messere Tethras! – sorriu o balconista. – Enfim está de volta!
– Nunca saí daqui. – sorriu o anão. – Espero que as coisas estejam tranquilas.
– Claro, tudo como era antes! Até nossa querida pirata está de volta!
Isabela só sorriu e aproximou-se do anão.
– Fico feliz em saber que é preciso mais do que uma centena de criminosos para te matar!
– De fato cem deles caem fácil ao poderio de Bianca. O único problema é que eles eram cento e um... e este "um" foi quem me fez baixar a guarda.
– Então que bom que eu apareci.
– Oh, claro! Já havia me esquecido: obrigado!
– Você pode me agradecer me acompanhando numa rodada de cerveja e jogando um pouco de cartas. Você ainda se lembra, não é? – ela piscou.
– Sim! – ele piscou de volta, indicando que ainda se lembrava dos códigos que os dois criaram anos atrás para trapacearem. – Quem joga conosco? – ele virou-se para os outros clientes. – Pingo mínimo de um soberano!
...
Dez pessoas saíram da Hanged Man mais pobres naquele dia. Varric e Isabela estavam no quarto, rindo e brincando com as moedas douradas que haviam ganho.
– Aha! Eu não disse que sei muito bem de finanças? – ela gargalhou.
– Disse! – ele riu, fazendo um piparote com uma peça de ouro. – Piratas e mercadores quando se juntam conquistam o mundo!
– Bem, e espero que o senhor mercador saiba recompensar uma pessoa a quem ele deve!
– Claro! – ele sorriu, separando a maior parte das moedas e empurrando-as na direção de Isabela. – Um Tethras sempre paga suas dívidas.
– Não é disso que estou falando. – a pirata empurrou as moedas de volta e se levantou da cadeira.
Por um momento o quarto ficou silencioso. O anão pareceu assustado com aquela súbita mudança de clima.
– E então, Varric? – ela disse, de repente. – O que você tem feito nestes últimos três anos?
– Oh, escrevendo muito. Bebendo muito. Gastando muito. O de sempre.
– Beijando muito?
– Isso eu fiz pouco, admito. – ele lhe lançou um sorriso triste. – Fiz algumas pequenas incursões na Blooming Rose, além de alguns encontros com filhas de outros mercadores anões, mas tudo negócios. Sabe como são estas coisas. – ele queria desviar o foco de si. – E você, minha querida? Como sempre aposto que "beijar muito" foi o que você mais fez!
– Não. – ela disse, com firmeza. – Desde que saí desta cidade eu não tive mais nenhum homem.
O anão arregalou os olhos, depois falou:
– Então agora você só prefere mulheres?
– Nem homens, nem mulheres. – ela cruzou os braços. – Minha cama permaneceu vazia todo este tempo.
Varric achava muito difícil acreditar nisso. "Isabela? Em abstinência sexual por... três anos? Não, eu posso entender três dias, três semanas, até três meses, mas...!"
– Por quê? – Foi a pergunta que ele não queria fazer, mas escapou de seus lábios sem sua permissão.
– Creio que já fornifiquei o suficiente para uma vida toda, não preciso mais fazer isto, como se estivesse tentando bater um recorde ou coisa parecida. – ela suspirou. – A não ser que seja por amor.
– Por... amor? Rivaini, você está mesmo muito mudada! Quer dizer... você mesma dizia que não se importava com amor.
– As pessoas mudam, Varric. – ela baixou a cabeça. – Ou talvez elas não mudem tanto assim, só se revelem. A verdade é que aquilo que mais negamos, às vezes, é somente o nosso maior desejo. – ela saiu do quanto do quarto e se aproximou dele. – Eu não sei se você se lembra, mas em certa ocasião eu e Merrill estávamos conversando. Ela dizia o quanto achava a minha vida emocionante, sensacional... disse que gostaria muito de viver a minha vida.
– Acho que me lembro. Tive pena de Daisy nesta hora.
– Bem, não que mexer com Blood Magic não seja emoção o suficiente. Seja como for eu disse que ela não tinha que viver a minha vida, que ela não merecia a minha vida, que era muito menos glamurosa do que ela podia imaginar. Porque ela era uma boa pessoa. Merecia coisa muito melhor. E eu...
– Você não é má pessoa. – cortou Varric, pegando em sua mão. – Nunca foi.
Ela apertou a mão dele, segurando a emoção.
– Mesmo depois de eu ter roubado um artefato dos qunari e ter colocado esta cidade toda em risco?
– Bem... – ele fez uma pausa e sorriu. – Todos nós cometemos nossas loucuras.
– E você se importaria se eu fizesse apenas mais uma esta noite?
Antes que o anão pudesse responder, ela o beijou.
Fazia tanto tempo. Muito tempo desde que os seus lábios haviam se encontrado da última vez. Apesar de tantas mudanças o ardor não tinha se modificado em nada. Era o mesmo beijo caloroso e faminto daquela noite, há quase quatro anos atrás. Quando finalmente terminaram estavam ambos excitados.
– Isabela... eu...
– Já sei. – ela se afastou dele. – Você vai dizer "Pronto. Já ganhou o seu beijo, Rivaini."
– Eu...!
– Não se preocupe, não irei mais forçar a barra como fiz antes. Nem pretendo mais incomodá-lo. – ela ficou triste. – mas antes de ir embora... de ir embora de Kirkwall para sempre... eu queria que você me pagasse esta dívida.
– Que dívida?
– Explique-me, Varric. Por favor... – o pedido era quase choroso. – Por que você nunca me quis?
O quarto ficou silencioso de novo.
Descendo com cuidado da cadeira, o anão se aproximou da pirata.
– Não posso responder esta pergunta... porque você a formulou muito mal.
– Heim? E qual seria a pergunta certa?
– A pergunta certa a me fazer seria: "Por que você tem se comportado como o Paragon dos Idiotas todos estes anos e nunca admitiu que gostava de mim?"
Isabela parece ter sido pega de surpresa, mas mais surpresa ela ficou quando Varric ficou na ponta dos pés e a beijou. Ela sorriu quando seus lábios se encontraram e curvou um pouco o corpo para abraça-lo. Desta vez o beijo foi bem mais longo, mas menos selvagem. Como se eles tivessem todo o tempo do mundo para apreciar um ao outro.
A pirata afastou-se dele um pouco, pegando em sua mão, e trazendo-o em direção à cama. Sentada, agora ela estava no mesmo nível dele e o beijo estava mais confortável para ambos. Ela o acariciava com cuidado, para não desmanchar a bandagem que o anão ainda tinha envolvida no corpo, mas ele mesmo pareceu não se importar com seu próprio ferimento.
Varric passou suas mãos para a parte de trás dos joelhos da pirata e a fez deitar-se na cama, com ele por cima. As virilhas de ambos se encontraram e logo perceberam que não podiam mais adiar aquilo.
Nem mais um minuto.
...
Foi um dos dias mais bonitos que jamais amanheceu em Kirkwall.
Isabela estava abraçada ao seu amante, com o rosto dele enterrado entre seus seios. Uma de suas mãos estava agarradas às madeixas douradas e a outra repousava sobre aquele generoso e firme lombo anão. Varric estava com as duas mãos entrelaçadas na cintura dela, como se não quisesse mais deixá-la escapar.
Os dois acordaram quando um dos atendentes da taverna bateu na porta do quarto.
– Café da manhã? – perguntou uma voz.
– Vá para o inferno! – gritou o anão.
Isabela riu. Espreguiçou-se e depois beijou Varric, ainda com a cara amassada do sono de ter ficado com a cabeça deitada no melhor par de travesseiros do mundo. Os dois tiveram uma das noites mais exaustivas de suas vidas. Três anos sem um homem e tantos anos segurando seu desejo de ter a pirata em seus braços fez com que ambos se entregassem de maneira feroz um ao outro.
– Por quê? – murmurou a pirata.
– Huh?
– Você ainda não respondeu minha pergunta. – ela sorriu, passando a mão no rosto dele. – Por quê?
Varric ficou em silêncio, como se tivesse vergonha da resposta.
– Por causa de... muitas coisas.
– E quais seriam elas?
– Por causa de Hawke. Por causa de Fenris. Por causa de metade desta cidade. Porque eu saberia que no momento em que eu me deitasse com você... eu ia me apaixonar por você mais do que nunca. – ele fechou os olhos. – Mas eu não queria ser apenas mais um na sua longa lista de admiradores lascivos. Sem falar que eu sempre tive medo de me revelar um maldito verme ciumento. Que iria ralhar com você por aquilo que você tinha de melhor: sua liberdade afetiva, sua força e sua individualidade. Pelo menos como amigo-que-nunca-se-deitou-com-você eu ainda tinha certa exclusividade... e segurança.
A pirata ficou muda durante alguns instantes. Quando finalmente pensou em algo para falar não sabia se usava sua língua para pronunciar as palavras ou para faze-la dançar loucamente dentro da boca do anão. Adotou um meio termo.
– Varric... – e o beijou. – Você nunca... – o beijou de novo. – Será apenas... – outro beijo. – Mais um. – e desta vez demorou-se mais entrelançando sua língua na nele, só soltando quando ambos começavam a arquear o peito em busca de ar. – Nunca, nunca, nunca será apenas mais um. O Criador sabe como eu sempre tentei escapar de toda relação com o qual eu pudesse me envolver emocionalmente, mas... com você... – mais um beijo. – Com você eu sinto que posso me apaixonar sem medo.
– Oh. – ele sorriu, embora seu sorriso viesse carregado de um pouco de dúvida. – Foi isso que você disse para os últimos quarenta?
– Estou falando sério! – ela protestou. – Juro que estou, eu...!
Foi nesta hora que Isabela percebeu. Sim, ela estava falando sério, para sua própria surpresa.
– Está mesmo falando sério? – foi a pergunta cheia de ansiedade que o anão lhe lançou.
– Varric. Toda a minha busca por afeto, pulando de cama em cama, sempre foi para que eu encontrasse o par ideal. Noites de prazer efêmeros, que duravam alguns minutos e depois eu tinha o resto do dia seguinte para me arrepender. Eu negando a me apaixonar por outros, porque o único homem que eu queria amar era você. E ninguém mais. – ela passou os dedos sobre o peito dele onde, agora, encontrava-se uma grande e visível cicatriz. – Você pode ser ciumento à vontade agora, meu querido. Porque o único homem que eu quero na minha cama, para sempre, é você!
Os olhos dourados do príncipe mercador não poderiam estar esbanjando maior alegria.
– Isabela. – ele a beijou entre os seios, subindo pelo seu pescoço até a boca. Depois a beijou de leve na orelha e murmurou. – Eu amo você.
– Mesmo? – ela o abraçou com força. – Foi muito difícil dizer isto?
– Agora foi mais fácil do que nunca!
E os dois permaneceram na cama durante metade do dia, levantando-se apenas para comer e beber algo e depois voltar para a cama mais uma vez. Aquele seria um dia de folga, onde ambos dedicariam todas as horas apenas um ao outro.
E foi apenas o primeiro de muitos... incontáveis dias para o casal.
FIM
...
Finito gente!
E agora vou contar um segredinho: meu par preferido em Dragon Age II é, na verdade, Varric e Lady Hawke! Mas como já existem tantas fics sobre eles por aí (muitíssimo bem escritas, por sinal) decidi escrever esta com Varric/Isabela!
Espero que tenham gostado! E até a próxima.
