No dia do treino, logo antes do almoço, Sadie quis se certificar de que era o dia certo. Estava esperando por isso com uma ansiedade que não era de seu feitio – a histeria sim, sempre, mas estar assim empolgada por um jogo de quadribol era algo inédito para ela.

Desde a primeira conversa que ela e Malfoy tiveram, nunca deixavam de trocar algumas palavras antes de cada um ir para seu canto. Sadie sempre saía desses diálogos rápidos sentindo-se muito alegre; algo naquele garoto bonito e sarcástico a acalmava de uma forma que ela nunca experimentara. Porém, eram conversas breves demais.

Draco parecia ter medo de ser visto com a garota, algo que ele já lhe explicara: ela era da Corvinal, não estava nem perto de ser puro-sangue, e andava com os alunos da Grifinória que Draco e seus amigos tanto desprezavam. Ela não se importava, já que seus amigos também não pensavam exatamente bem do menino, mas sabia que para Draco havia algo a mais em jogo.

Ela não sabia exatamente o quê. Mas havia.

De tão empolgada (um pouco pateticamente, sim, ela mesma reconhecia), Sadie desceu as escadas para o almoço com bastante pressa. Por isso que seu cabelo estava um tanto desarrumado quando, escada após escada, chegou em tempo recorde ao salão.

— Oi, Fred! Oi, George! Oi, Ray! — Cumprimentou, ainda meio ofegante, ao chegar à mesa da Sonserina. Os amigos só a encararam com um olhar de curiosidade. Realmente, para a menina que era sempre a última a sair da classe (Sadie não tinha pressa para muita coisa... Era um típico bicho-preguiça na maioria das manhãs), vê-la chegar cedo e correndo não era algo exatamente normal.

Ante a falta de resposta do trio, Sadie foi direto ao ponto e se virou para Rayvenne:

— Ray! O time da Sonserina vai treinar hoje, né? — A pequena concordou com a cabeça, o que fez Sadie sorrir. — Ótimo! Posso assistir?

Essa última pergunta era mais retórica do que qualquer coisa. Com ou sem a aprovação da amiga, ela assistiria ao treino, exatamente como prometera a Draco. Rayvenne só arqueou uma sobrancelha e disse, com as mãos erguidas:

— Não me responsabilizo por nenhum dano físico nem moral à sua pessoa...

A loira mais alta riu.

— Sem problemas! Te encontro nos portões do campo de Quadribol!

Com isso, ela acenou um tchau para os gêmeos – que ainda a encaravam como se tivessem visto um fantasma – e saiu muito animada em direção à mesa da Corvinal. Acabara de perceber que estava com bastante fome.


O resto do dia passou devagar para Sadie. Não só por causa da ansiedade – que ela mesma não entendia direito – mas porque a combinação de aulas do período da tarde não podia ser pior: História da Magia, Feitiços e Astronomia. Ela não prestou muita atenção em nenhuma delas; na primeira, inclusive, se esforçou ao máximo para não dormir.

Quando chegou a hora do treino, porém, ela estava bem mais acordada. Apareceu no portão quando os jogadores já estavam em suas posições; a sala de Astronomia (a aula da tarde era teórica, na sala de aula) ficava longe do campo de Quadribol. Constatou, satisfeita, que Rayvenne estava esperando por ela no portão.

— Cheguei tarde? — Perguntou, assim que alcançou a amiga. Rayvenne deu de ombros e replicou:

— Nem tanto... As cobras já estão todas no campo, mas eu nunca chego na hora do treino mesmo...

Sadie sorriu e subiu para a arquibancada, fazendo questão de sentar-se bem longe de um grupo sonserino nos assentos. Gostava muito de cobras, mas só chegava perto das que conhecia, e eram quatro: Brownie, Muffin, Rayvenne e Draco. Afinal, por mais graça e elegância que mostrassem, algumas cobras – reais ou metafóricas – eram muito propensas a dar o bote.

Não as suas quatro serpentes; essas tinham bom coração e eram muito dóceis se você soubesse lidar com elas com o respeito que mereciam. Mas o resto não havia como saber, até chegar perto demais e correr o risco de levar uma mordida dolorosa.

Ela percebeu que Draco, no campo, a encarava. Acenou distraidamente, esperando que ele não avistasse a Witch Weekly que ela trouxera consigo. Não conseguia gostar de esportes e pronto; aproveitaria para ler a revista enquanto o time estivesse treinando.

O coração de Sadie acelerou de um modo muito estranho quando viu o olhar do menino pousado sobre ela. Preferiu não dar atenção a essa resposta patética de seu sistema; as coisas já estavam estranhas demais sem isso.

Passou bem rápido o treino; claro que essa rapidez tinha tudo a ver com as matérias da revista e nada com os borrões verdes idênticos que passavam por Sadie fazendo woosh o tempo todo. O que ela estava mesmo esperando era o que viria depois do treino.

— Olá! — Foi o cumprimento alegre da menina quando viu Draco saindo pelos portões, já com o uniforme verde em mãos. Ele sorriu de leve.

— A revista estava boa?

Sadie riu um pouco, sentindo as bochechas esquentarem, e olhou para o chão. Draco, então, segurou o queixo da menina com uma das mãos e levantou-o até seus olhares se encontrarem; ela olhou para dentro dos olhos dele com uma expressão abobada.

Ao ver o olhar confuso de Sadie, ele caiu em si e soltou o queixo da menina como se de repente estivesse pegando fogo. Ela sorriu, sem graça.

— Foi mal... Eu não consigo me interessar por esportes.

Ele pigarreou; seu rosto estava levemente rosado, provavelmente por causa do exercício recente. Ou não.

— Ah, tudo bem. Um dia eu ainda te faço gostar.

— Pode ir tentando, amiguinho. — Os dois já haviam se recomposto; a conversa voltara ao tom sarcástico de todos os dias. A aura de Draco já estava surtindo seu efeito calmante na menina e ela se sentia muito grata por isso.

Os dois passaram um bom tempo nos portões do campo, conversando muito animadamente – na maior parte do tempo, falando mal dos professores. Sadie ria muito, como sempre; Draco se limitava a um sorrisinho de lado como única variação de uma expressão serena. Ambos usavam muito um sarcasmo ácido, embora a versão de Sadie fosse um pouco atenuada; procurava usar um tom doce para neutralizar as palavras. Draco não fazia isso, mas seu olhar, que a menina já estava aprendendo a decifrar, já transmitia direitinho quando ele estava brincando e quando não.

Com Sadie, era sempre brincadeira, algo que ela ficava muito feliz em constatar. Diferente do olhar arrogante que usava com Rayvenne e os outros amigos que as loiras tinham em comum; diferente também do jeitinho falso e lisonjeiro que reservava para alguns professores; com ela, o menino parecia outro.


No dia seguinte, Sadie tomou café bem rapidamente. Era sábado, dia de ir para Hogsmeade; ela havia passado um tempão na noite anterior escolhendo o que vestiria. Ficou com medo de exagerar; só uma blusa amarela e uma calça jeans, e pronto. Mas ficou bastante tempo fazendo um Feitiço Alisador no cabelo, algo que demorava muito, já que tinha que ser feito mecha por mecha.

— Nossa, Sadie. Por que tanta empolgação? Você é sempre histérica, mas assim já é demais... — Brincou uma menina de olhos puxados e cabelos negros muito bonitos, à mesa do café da manhã. Era Kia Rosepawn, amiga de Sadie; uma das únicas pessoas na Corvinal que não era excessivamente nerd.

Sadie ficou meio vermelha ao responder, rindo:

— Nem te conto...

— É algum menino. — Sentenciou outro garoto ao lado de Kia, de cabelos encaracolados e olhos cor-de-mel. Esse, completando o trio, era Charlie Dugford.

— Bom, isso era óbvio. — Kia rebateu. Sadie aproveitou a deixa para olhar de esguelha para a mesa da Sonserina; não conseguiu avistar Draco. Também, só teve alguns segundos para olhar sossegada, até ser interrompida pela risada escandalosa da amiga.

Ela e Charlie não puderam evitar uma risada. O menino a encarou com um olhar meio incriminador, meio divertido.

— Então, Sadie. — Ele prosseguiu. — Quem é o moço que você torceu o pescocinho pra ver?

— Ninguém.

A menina tinha adquirido uma cor de tomate.

— Ah, sim, você quase fica com torcicolo agora pra olhar pra ninguém.

— Cala a boca, Kia! — Ambas riram. — É que a gente anda conversando faz tempo, e parece que... Sei lá, parece que tem alguma coisa. Aí ontem eu menciono que vou pra Hogsmeade com a Ray, a Hannah e os gêmeos, e ele... "Não vai não". E eu pergunto por quê. E ele, "porque você vai comigo, sua besta".

Naquele momento, a reação de Kia foi escandalosa; esticou as mãos por cima da mesa e apertou fortemente as bochechas de Sadie. Charlie só riu, o que fez a menina – cujas bochechas estavam quase sendo arrancadas – ter bem mais simpatia por ele do que por ela naquela hora.

— OK, Kia, já deu. — Ela resmungou. A morena soltou seu rosto e sentou, ainda dando uma risadinha.

— E a gente não pode saber quem é o garoto por quê?

— Ah, porque não.

— Você sabe que uma hora ou outra eu vou arrancar essa informação de você, Cottonwealth.

— Então eu vou tomar muito cuidado com o que falo dormindo, Rosepawn.

E com isso, a menina se levantou, acenou um tchau para os amigos e saiu porta afora em direção a Hogsmeade, onde ela e Draco se encontrariam. Passou reto por Rayvenne, Hannah, Fred e George, que iam pelo mesmo caminho; não queria atrair perguntas.

Ao chegar a Hogsmeade, a loira constatou alegremente que Draco já estava esperando por ela. Ele sorriu de leve quando a viu; ela abriu um largo sorriso.

Ia ser uma tarde ótima.


A/N: Oiê! Obrigada pelas reviews, povo lindo; eu me sinto muito mais motivada aqui do que no Press – onde o povo regula as reviews e só manda quando eu peço, e olhe lá – mas isso já é assunto pra outra hora. Bom, eu tô meio sem rumo com essa fic, mas vamos ver onde dá? Vamos, vamos sim! Reviews, por favor...