Quando Sadie e Draco saíram caminhando pelas ruas nevadas de Hogsmeade, ela notou que o garoto parecia muito apressado. E distraído. Ela tinha até que fazer um certo esforço para acompanhar seus passos.
— Ei, por que a pressa? — Indagou a menina.
— Nada, nada.
Isso sem olhar para ela; Draco parecia meio desnorteado.
— Aonde a gente vai?
— Aonde for mais perto, Cottonwealth.
Sadie achou muito estranho o comportamento do amigo. Sem nem olhar direito onde estava indo, ele acabou guiando-a até um café com a aparência mais brega que um café bruxo podia ter, um tal de Madam Puddifoot's. A menina torceu o nariz, mas nem reclamou. Estava mais preocupada com o jeito que Draco estava agindo do que com o lugar onde ficariam.
Quando se sentaram de frente um para o outro na única mesa que não era ocupada por um casalzinho com olhar de peixe morto, o loiro ainda parecia aflito. Sadie ficou meio irritada consigo mesma ao notar que, mesmo com aquela expressão, ele ainda tinha um rosto lindo.
No fundo, ela bem que gostaria que eles próprios tivessem a expressão enjoativa dos outros... Mas virou o rosto quando uns dois casais começaram a se beijar exatamente ao mesmo tempo, com precisão cronométrica.
Sadie e Draco estavam tão fora desse clima naquele momento que a cena fez a loira sentir-se nauseada.
— Tá tudo bem, Draco? — Ela perguntou delicadamente, pousando uma mão na do menino. Seu olhar estava fixo em Draco com um misto de preocupação e impaciência, mas ele não olhou de volta; a xícara quente que a garçonete acabara de trazer (café para ele, chocolate quente para Sadie) parecia muito mais interessante.
— Tudo ótimo... — O garoto soltou um longo suspiro.
— Não parece. Você sai correndo por aí, nem olhando pra onde vai, me traz até o cafezinho mais não-Draco-Malfoy de Hogsmeade, e fica aí com essa cara de... Sei lá.
A mão de Sadie ainda estava sobre a de Draco; ele virou a sua e segurou de leve os dedos da garota, que sorriu, encarando a própria mão.
— Eu estou bem, não se preocupe.
Apesar de a tensão entre os dois ter diminuído consideravelmente, a conversa não fluiu. Ficaram os dois lá, de mãos parcialmente dadas, ela tentando puxar assunto e ele não colaborando nem um pouco; nenhuma vez seus olhares se encontraram.
Sadie estava começando a ficar irritada. Por que ele a havia chamado para irem juntos a Hogsmeade, então? Poderia muito bem estar com Rayvenne, Hannah e os gêmeos naquele momento, morrendo de rir. Ou com Kia e Charlie, tagarelando sem parar e se empolgando por qualquer coisa. Ou até na sua sala comunal, encorujada em um canto com um livro no colo.
Mas não, em vez disso, estava sentada de frente para um Draco semi-ausente num cafezinho brega, em completo silêncio.
Silêncio esse que se arrastou até o momento em que uma gargalhada escandalosa, vinda do lado de fora do café, surpreendeu o casal. Draco, então, virou-se para a janela como se tivesse tomado um choque, levantou de um pulo e saiu correndo porta afora sem nem uma palavra para Sadie.
Por alguns instantes, a loira só ficou lá, encarando a porta sem reação. Até que a garçonete colocou uma mão no ombro dela e perguntou:
— Está tudo bem, querida?
Ela olhou para a moça e fez que sim com a cabeça, forçando um meio-sorriso. Enquanto a garçonete se afastava, Sadie ainda ficou um bom tempo olhando para a porta, sentindo um aperto estranho na garganta. Estranho, mas familiar; já se sentira frustrada muitas vezes na vida e essa era definitivamente uma das mais intensas.
Só o que a menina sabia era que tinha que sair de lá, e logo. Pagou rapidamente pelo chocolate quente que deixara pela metade e pelo café intocado que esfriava na mesa, deu um sorrisinho falso para a garçonete – que ainda a observava – e também marchou um tanto apressada porta afora, tentando ignorar as risadinhas abafadas dos casais que assistiam a sua saída.
Aquela mistura de nó na garganta, coração ridiculamente acelerado e formigamento no peito era muito conhecida. Sadie teve que parar um pouco até se recompor e não fazer um papelão no meio de Hogsmeade, o suficiente para ver Draco correndo atrás de uma garota de cabelos muito lisos que ria escandalosamente.
Agora era ela quem estava desnorteada.
Perto dali, no Três Vassouras, um casal de amigos estava sentado num sofazinho próximo à janela.
— Ei, Kia... Dá uma olhada. — A voz simpática de Charlie chamou a atenção da menina mestiça que sentava de frente para ele. Kia se virou, olhou na direção em que o amigo apontava e se surpreendeu ao ver uma Sadie com um olhar perdido, saindo rapidamente de perto do Madam Puddifoot's. Sabendo que algo estava errado, a garota saiu do bar e encontrou Sadie bem na hora em que ela ia passando reto.
— Sadie!
A loira se virou e abriu um sorrisinho. Sem falar nada, adentrou o bar com a amiga em seu encalço, logo avistando um Charlie confuso que encarava as duas. Sadie ainda não tinha dito nada quando sentou ao lado do menino e apoiou a cabeça em seu ombro, com um suspiro.
— Cottonwealth quieta? Isso não se vê todo dia. — Brincou ele, mas num tom gentil; não estranhou nada quando a menina enroscou um braço no seu. Ela ficava mesmo mais grudada nas pessoas quando estava triste. — Que foi?
— E o encontro, Sadie? — Kia complementou. — Ele te deu um bolo, é?
Sadie fez que sim, ainda encorujada em Charlie. Isso desconcertou Kia, que realmente estivera só brincando. Ao ver o olhar da amiga, a loira riu um pouco.
— Ai, relaxa, Kia. Eu tô meio mal, mas daqui a pouco passa.
Não era exatamente verdade, mas Sadie não precisava que se preocupassem com ela. Além disso, sabia que bastavam alguns minutos da conversa empolgada – e constante – dos dois para que seu humor melhorasse quase cem por cento, pelo menos enquanto não estivesse sozinha.
Também planejava mudar de assunto logo, sem explicar muito. Só havia uma amiga com a qual ela se sentia confortável o bastante para se abrir (e despejar toda sua frustração em cima da coitada), e essa amiga estava longe dali com Fred, George e Hannah. Kia era a melhor companhia do mundo para distração e conversas nada-a-ver, e a simples presença de Charlie a reconfortava muito facilmente, talvez porque ele próprio estava sempre alegre, mas havia um lado dramático demais da personalidade de Sadie que ela reservava só para algumas pessoas – mesmo que tais pessoas já estivessem cansadas de serem orelhas constantes.
O trio mudou de assunto rapidamente. Para o imenso alívio de Sadie, em pouco tempo, ela própria era dos três a que mais ria.
Naquela noite, Sadie saiu do castelo na calada da noite, quando todos já estavam dormindo. Sabia direitinho aonde ir... E isso até a surpreendia, porque era uma completa perdida na maior parte do tempo.
Acho que o caminho para ver quem a gente ama é meio fácil de decorar, filosofou a menina enquanto andava. Não demorou muito para que chegasse à porta de uma grande cabana no meio do mato e batesse à porta, já animada com a perspectiva de um reencontro.
— Oi, Hagrid! — Ela disse, abrindo um largo sorriso e se assustando um pouco com o "tapinha" que a enorme mão do guarda-caças deu em seu ombro. Entraram em seguida.
— Hora de um passeio noturno, Sadie? — O gigante brincou enquanto a menina sentava no sofá, sentindo-se um tanto inquieta.
— Ah, sim... O dia hoje não foi dos melhores, sabe, parecia uma boa hora pra visitar os bebês. Ninguém descobriu ainda, né?
— Claro que não! Acham que são minhas. E eu tenho cuidado muito bem delas, não se preocupe. — O gigante lançou-lhe um sorriso simpático por baixo da barba grossa.
— Eu nunca duvido disso, Hagrid. E cadê elas?
Hagrid entrou em algum canto da casa e logo voltou com algo preto e brilhante na mão. Sadie estendeu a mão para o animalzinho e exclamou, mais alegre do que estivera o dia todo:
— Oi, linda! Que saudades!
A longa naja preta enrolou-se rapidamente no braço da menina, ocupando toda a extensão dele. Com a outra mão, Sadie acariciou a cobra e falou num tom muito maternal, como se fosse um bebê humano e não uma serpente.
— Nossa, Brownie, como você tá bonita!
Brownie era a favorita de Sadie, embora ela gostasse muito da outra cobrinha também. Desde que encontrara a naja – ainda pequenininha, recém-saída do ovo – numa excursão da escola trouxa que freqüentava até entrar em Hogwarts, não largara mais do animal; inclusive passara muito tempo pesquisando um feitiço para que Brownie não a mordesse nem à sra. Cottonwealth por acidente. Mordidas de naja podem ser fatais e ela sabia muito bem desse fato. Acabou encontrando um encantamento satisfatório, e desde então brincava com a serpente sem o menor receio. Era um animal dócil e lindo.
Ainda com Brownie enrolada em seu braço, a menina se voltou para Hagrid.
— Falta uma criaturinha comprida aqui... Cadê a Muffin?
— Comeu agora há pouco, estava dormindo, mas acho que já acordou.
E logo, logo, o gigante voltou com a serpente albina, que se enredou no outro braço de Sadie sem demora. A garota voltou ao tom maternal de antes, olhando de modo carinhoso para os olhinhos muito vermelhos da cobra.
— Senti sua falta, bebê... Tio Rubeus cuidou bem de você? Não esqueceu dos seus ratinhos?
Muffin também fora descoberta ao acaso, na casa de uma amiga muito próxima de Sadie. A amiga estava desesperada ao encontrar o pequeno réptil se arrastando por seu jardim; Sadie não pensou duas vezes e enrolou-o em sua mão. Levou a cobrinha para sua casa e desde então não se separou dela. Como cornsnakes não são peçonhentas, a menina nem cogitou lançar em Muffin um feitiço como o da cobra negra, e nem precisava; a serpente albina era tão doce quanto Brownie. Sem trocadilhos infames.
Não teria nem como deixar as duas em casa; a mãe de Sadie provavelmente esqueceria a comida delas – ou teria nojo de dar o ratinho congelado à serpente, vai saber! E como não eram permitidas cobras de estimação em Hogwarts (ainda mais Brownie, que só comia outras cobras), deixá-las com Hagrid era uma solução ótima. O guarda-caça gostava dos animaizinhos quase tanto quanto ela própria e sabia cuidar deles muito bem; talvez até melhor do que Sadie cuidava em casa.
Muffin soltou-se do braço da dona e foi se alojar em seu lugar preferido: em volta do pescoço, nem perto de machucar, só pendurada lá como se fosse uma echarpe escamosa com lindos olhinhos vermelhos.
Com a cornsnake albina em seu pescoço e a naja negra no braço, Sadie se sentia em casa.
A/N: Uh, capítulo semi-emo, quem curte? Acho que eu meio que fui influenciada pela autora de Soaring Black Bird, que também anda escrevendo umas coisinhas emos ultimamente. E eu própria sempre quis ter cobrinhas em casa, então é com a Sadie que eu vou realizar esse sonho! Haha :) Reviews, por favor!
